A PALAVRA É SUA
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Este
espaço livre é pra você soltar o verbo! "O
mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa
daqueles que fazemo mal; mas sim por causa daqueles que observam e
deixam o mal acontecer". |
| 19 de Julho de 2010 OS BASTIDORES POLÍTICOS NÃO CABEM NA TV A campanha eleitoral há muito tempo está no ar, nas páginas, nas telas, embora a burocracia diga que ela só vai começar para valer após a estréia do Horário Eleitoral Gratuito no rádio e na TV. No entanto, os guapos e guapas candidatos à hospedagem, durante um mínimo de quatro anos no Palácio do Planalto e no Alvorada, não têm dado muita sorte em termos de mídia espontânea no telejornalismo, a cereja do bolo dos presidenciáveis. Afinal, uma matéria positiva a seu favor, ou uma negativa contra os adversário no horário nobre, em espaços como o Jornal da Band, da Record, o Nacional ou o Fantástico, literalmente não tem preço.
Mas, desde o início do ano, o desfile de tragédias, os casos escabrosos de violência, terremotos no exterior, alagamentos aqui, desabamentos e soterramentos ali, é bom combinar, têm, sim, roubado preciosas fatias de tempo midiático e de atenção do telespectador. Tempo e espaço que, uma vez perdidos, são como a perda de faturamento do comércio durante greves do sistema de transporte: da ordem do irrecuperável, quantitativamente. E isso sem falar que a cada um desses episódios, dependendo de onde e como eles aconteçam, sempre cai um estilhaço da responsabilidade pelo estrago no colo de um ou outro entre os candidatos com alguma chance de vitória. Sim, pois uma meia dúzia deles, os chamados nanicos, além de caricatos ou caducos, pode ser classificada, na novelinha eleitoral brasileira, como aquele que, na teledramaturgia, é chamado de apoio, figuração ou de núcleo pobre. CANALHICE - Embora se diga, e os marqueteiros apostem todas as fichas nisso, de que a campanha eleitoral é decidida mesmo é na TV, durante o Horário Eleitoral, entre os veículos de comunicação é a televisão o mais incapaz de dar ao telespectador um volume de informações suficientes para que ele, como eleitor, faça escolhas mais sensatas, já que baseadas em dados concretos. Na TV, seja nos telejornais, nos programas de entrevistas ou de entretenimento, o discurso político é de um vazio absoluto em termos de conteúdo de informação nas falas. Na TV, todo e qualquer candidato não tem qualquer compromisso com verdade,projetos ou clareza. Todos têm uma ideia fixa: seduzir o eleitor com frases feitas, de efeito, visando destruir o máximo que puder a imagem e o discurso do adversário, mesmo sem xingá-lo de forma explicita, já que a hipocrisia dá o tom, travestindo as ofensas de metáforas, trocadilhos e perguntas que estão acima da canalhice retórica. Há tempos que os marqueteiros avisam: quem bate, perde votos. Acabou-se o tempo dos destemperados, a la Collor, que, com uma delicadeza assombrosa, falava até da tonalidade arroxeada de sua bolsa escrotal. Ciro Gomes, também dado a algumas doses a mais de destempero, “segue”, como gostam de conjugar os jornalistas para economizar caracteres nos textos, envelhecendo e vendo distanciar-se o sonho de candidatar-se, com chances, ao Planalto. Nas eleições locais, alguns candidatos um tanto dados a falas tão amplas quanto seu porte físico devem desacelerar o destempero verbal se não quiserem sair das urnas com um percentual de votos menor do que aquele que as pesquisas lhe atribuem antes do pleito. E o pior: os grosseiros acham-se engraçados e fazem trocadilhos tão infames contra os adversários que causam vergonha alheia aos alfabetizados. GAY - Mas, voltando à TV e seu calibre de difundir informação política ampla, comparada ao jornalismo impresso e, sobretudo, em tempos de portais, sites, blogs e da instantaneidade do twitter, pode-se dizer que esse calibre é limitado. Quem acompanha o noticiário político exclusivamente tendo a TV como fonte, pode corticalizar: não sabe de absolutamente nada do mundo político e muito menos de seus bastidores, que é onde as coisas de fato importantes acontecem. Ainda é no jornalismo impresso e agora nos blogs, sites de relacionamento e afins onde a banda, sobretudo a podre, toca para valer. Quando, por exemplo, um telespectador que consome fatos políticos apenas pela TV vai ficar sabendo que a candidata ao Senado na chapa governista, Lídice da Mata, ameaçou descer do barco porque seu nome não estava pintado num tal muro ao lado do nome do governador Jaques Wagner e do outro candidato ao Senado, Walter Pinheiro? E os desdobramentos da irritação da candidata? Em evento público, o governador recompôs os ânimos com a aliada e, numa brincadeira tipicamente masculina, ironizou-a, dizendo que ainda bem que era um caso de ciúmes de mulher, pois algo terrível é ciúmes de um homem. Para quê foi brincar com temas caros ao movimento gay? O antropólogo Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia, soltou o verbo argumentando que essa brincadeirinha do governador era tipicamente homofóbica. Por que o ciúme masculino, entre dois homens, tem que ser algo ruim? Isso é preconceito e do grande,disse Mott. E ser acusado de preconceituoso hoje, para um candidato, é mais grave que ter um diagnóstico de morte. Mas numa campanha, essas sutilezas não cabem na TV. Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 18 de julho de 2010 no jornal A Tarde, Salvador/BA Autor: Malu Fontes |
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