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ENTENDA O QUE ESTÁ POR TRÁS DAS NOVAS REGRAS DA POUPANÇA

Da BBC Brasil em São Paulo

Atualizado em  4 de maio, 2012 - 14:38 (Brasília) 17:38 GMT
A equipe econômica do governo decidiu mudar na última quinta-feira as regras de remuneração da caderneta de poupança, a aplicação financeira mais popular do país, com o objetivo de abrir espaço para que os juros continuem a cair.

Para especialistas, a medida também atende às intenções políticas do governo que definiu a queda dos juros como sua principal meta, aumentando, inclusive, a pressão sobre os bancos privados para a diminuição do custo do crédito.

A taxa básica de juros, a Selic, está atualmente fixada em 9% ao ano e o Banco Central já deu sinais de que deve reduzi-la nos próximos meses

Na última terça-feira, 1º de maio, a presidente Dilma Rousseff, em pronunciamento oficial pelo Dia do Trabalho, cobrou das instituições financeiras a redução do spread bancário (a diferença entre o custo de captação dos recursos e as taxas cobradas dos clientes).

O novo modelo de cálculo da poupança, definido por medida provisória, passa a valer para os novos depósitos a partir desta sexta-feira, 4 de maio.

Para entender a alteração no rendimento da caderneta, a BBC Brasil ouviu especialistas que esclareceram as principais dúvidas sobre o tema.

Por que o governo decidiu mexer nas regras da poupança?

A principal alegação do governo é de que a mudança no cálculo de remuneração da poupança abrirá espaço para a queda dos juros, definidos pelo Banco Central através da taxa Selic, hoje fixada em 9% ao ano.

Quanto menor for a Selic, menor tendem a ser os rendimentos dos fundos de investimentos e títulos públicos (a forma como o governo se financia), cuja remuneração está atrelada à variação do índice.

A poupança, por outro lado, possuía uma rentabilidade mínima fixa, determinada por lei. Assim, com os juros em trajetória descendente, temeu-se uma debandada dos investidores dos fundos de investimentos e títulos públicos para a poupança, mais atraente.

Com menos dinheiro para tomar emprestado, o governo teria problemas para financiar a dívida pública. Além disso, como 65% dos fundos da poupança são destinados para o crédito imobiliário, poderia ocorrer o que especialistas chamam de "dinheiro empoçado", ou seja não utilizado. Tudo isso comprometeria a estabilidade macroeconômica, impactando negativamente a Selic e impedindo o governo de continuar a reduzi-la.

Como fica a remuneração da poupança a partir de agora?

Desde 1861, quando foi criada pelo imperador Dom Pedro 2º, a poupança possui uma rentabilidade mínima mensal de 0,5% (ou algo em torno de 6,17% ao ano), fixada por lei.

Em 1991, durante o governo Collor, a caderneta também passou a remunerar os investidores pela Taxa Referencial (TR).

Pelas novas regras da poupança, sempre que a Selic for igual ou inferior a 8,5% ao ano, o poupador será remunerado pela TR acrescida de 70% da Selic (e não mais pela rentabilidade fixa mínima de 0,5% ao mês). Assim, se a Selic cair para 8% ao ano, por exemplo, o rendimento será igual a TR mais 5,6% ao ano. Caso a Selic permaneça acima de 8,5%, a rentabilidade será definida pelas regras antigas, ou seja, nada muda.

Como a decisão impacta os bancos?

O governo afirmou que a mudança nas regras da caderneta irá diminuir o custo financeiro para os bancos num cenário de juros reduzidos, uma vez que a remuneração fixa da poupança "cria" uma taxa mínima de juros para a captação das instituições financeiras.

A alteração na poupança aumentaria o espaço de manobra do governo para baixar os juros sem que houvesse uma migração maciça de recursos de fundos de investimento para a caderneta. Ao reduzir a Selic, o custo da tomada de recursos pelos bancos também diminui. Com isso, o governo espera que os bancos reduzam o spread (a diferença entre o custo de captação dos bancos e as taxas cobradas dos clientes).

Ou seja, que os clientes tomem empréstimos a juros menores. Analistas também acreditam que a alteração dos critérios de rentabilidade da poupança forçará os bancos a diminuir as taxas de administração de seus fundos de investimento (renda fixa e CDB's, por exemplo) para torná-los atraentes frente à poupança.

A mudança pode acelerar a queda dos juros?

Sim, em parte. Mas disso depende uma série de variantes econômicas. A Selic é um dos instrumentos de política monetária utilizados pelo Banco Central para regular a intensidade da atividade econômica. O BC reduz juros quando julga que a inflação está sobre controle e quer estimular a economia, tornando o dinheiro mais "barato".

Caso contrário, quando a economia está muito aquecida, sob o risco de escalada inflacionária, a taxa é elevada para incentivar a poupança, desestimular o consumo e manter a inflação sob controle. Ainda que a inflação esteja fora do centro da meta (4,5% ao ano), dados divulgados recentemente pelo IBGE sinalizaram um desaquecimento da economia brasileira (a produção industrial no primeiro trimestre deste ano caiu 3% em relação ao mesmo período de 2011) e a queda da inflação.

Havia outras alternativas para reduzir os juros?

Sim. "A decisão foi positiva porque o governo corrigiu um anacronismo histórico, que vem desde os tempos do Império, mas para reduzir juros o governo deve lançar mão de outras medidas, como gastar menos, por exemplo", diz Luiz Jurandir Simões, professor da FEA-USP.

Caso não diminua despesas, o governo acaba tendo de aumentar tributos para manter o equilíbrio das contas. O custo final da produção tende a aumentar, impactando os preços em um cenário de demanda crescente. "Ao fim e ao cabo, o governo precisará aumentar os juros para conter essa pressão inflacionária", diz Simões.

As novas medidas valem quando a Selic estiver abaixo de 8,5%. É possível que a taxa de juros fique abaixo desse patamar?

Atualmente, a Selic está fixada em 9% ao ano. O patamar mais baixo que a taxa atingiu foi de 8,75% ao ano de julho de 2009. O governo quer reduzir a Selic não só por razões econômicas, mas também políticas.

"Ao reduzir os juros, o governo diminui o custo da tomada de crédito, o que acaba por incentivar o consumo, uma medida sempre popular", diz André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. Entretanto, para alguns especialistas, a trajetória descendente da Selic não deve permanecer para os próximos meses, uma vez que a inflação, embora em queda, está fora do centro da meta, de 4,5% ao ano.

Essa é a primeira vez que o governo mexe na caderneta de poupança?

Não. Desde que foi criada, em 1861, o governo brasileiro alterou as regras de rendimento da poupança. É a primeira vez, contudo, que o governo mexe na rentabilidade mínima da caderneta, que data da época imperial.

Durante o regime militar, o governo instituiu que a poupança, além de garantir a remuneração mensal de 0,5%, passaria a ter correção monetária pela inflação. O sistema vigorou até o início do Plano Real. Pouco antes disso, durante a Presidência de Fernando Collor de Mello, o governo promoveu o confisco das cadernetas, o que prenunciou sua saída do poder.

Fonte: BBC Brasil em São Paulo
Autor: Luís Guilherme Barrucho
Enviado por: Laura Lellis


ALZHEIMER, UMA DOENÇA ESPIRITUAL

Américo Marques Canhoto, médico especialista, casado, pai de quatro filhos, nasceu em Castelo de Mação, Santarém, Portugal. Médico de família desde 1978. Atualmente, atende em São Bernardo do Campo e São José do Rio Preto - Estado de São Paulo - Brasil. Conheceu o Espiritismo em 1988.
Recebia pacientes que se diziam indicados por um médico: Dr. Eduardo Monteiro.
Procurando por este colega de profissão, descobriu que esse "médico" era um espírito, que lhe informou: "Alzheimer acima de tudo é uma moléstia que reflete o isolamento." Queremos dividir com os leitores um pouco de algumas das observações pessoais a respeito dessa moléstia, fundamentadas em casos de consultório e na vida familiar - dois casos na família. Além de trazer à discussão o problema da precocidade com que as coisas acontecem no momento atual. Será que as projeções estatísticas de alguns anos atrás valem para hoje?
Serão confiáveis como sempre foram? Se tudo está mais precoce, o que impede de doenças com possibilidade de surgirem lá pelos 65 anos de idade apareçam lá pela casa dos 50 ou até menos?

Alerta

É incalculável o número de pessoas de todas as idades (até crianças) que já apresentam alterações de memória recente e de déficit de atenção (primeira fase da doença de Alzheimer). Lógico que os motivos são o estilo de vida atual, estresse crônico, distúrbios do sono, medicamentos, estimulantes como a cafeína e outros etc. Mas, quem garante que nosso estilo de vida vai mudar? Então, quanto tempo o organismo suportará antes de começar a degenerar? É possível que em breve tenhamos jovens com Alzheimer?

Alguns traços de personalidade das pessoas portadoras de Alzheimer, que em nossa experiência temos observado, algumas características se repetem:
- Costumam ser muito focadas em si mesmas;
-
Vivem em função das suas necessidades e das pessoas com as quais criam um processo de co-dependência e até de simbiose. A partir do momento que a outra pessoa passa a não querer mais essa dependência ou simbiose, o portador da doença (que ainda pode não ter se manifestado), passa a não ter mais em quem se apoiar e, ao longo do tempo, desenvolve processos de dificuldade com orientação espacial e temporal;
- Seus objetivos de vida são limitados (em se tratando de evolução);
- São de poucos amigos; gostam de viver isoladas;
- Não ousam mudar; conservadoras até o limite;
- Sua dieta é sempre a mesma. (Os alimentos que fogem às suas preferências, fazem-lhes mal; portanto, os alimentos são muito restritos);
- Criam para si uma rotina de "ratinho de laboratório";
- São muito metódicas. (Sempre os mesmos horários e sempre as mesmas coisas, mesmos alimentos, mesmas roupas);
- Costumam apresentar pensamentos circulares e idéias repetitivas bem antes da doença se caracterizar;
- Cultivam manias e desenvolvem TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo);
- Teimosas, desconfiadas, não gostam de pensar;
- Leitura os enfastia;
- Não são chegadas em ajudar o próximo;
- Avessas á prática de atividades físicas;
- Facilmente entram em depressão;
- Agressividade contida;
- Lidam mal com as frustrações que sempre tentam camuflar;
- Não se engajam em nada, sempre dando desculpas para não participar;
- Apresentam distúrbios da sexualidade como impotência precoce e frigidez;
- Bloqueadas na afetividade e na sexualidade, algumas têm dificuldades em manifestar carinho. Para elas um abraço, um beijo, um afago requer um esforço sobre-humano.

Gatilhos que costumam desencadear o processo

Na atualidade a parcela da população que corre mais risco são os que se aposentam - especialmente os que se aposentam cedo e não criam objetivos de vida de troca interativa em sequência. Isolam-se. Adoram TV porque não os obriga a raciocinar, pois não gostam de pensar para não precisar fazer escolhas ou mudanças.

Avarentos de afeto e carentes de trocas afetivas, quando não podem vampirizar os familiares ou parentes, deprimem-se escancarando as portas para a degeneração fisiológica e principalmente para os processos obsessivos. Nessa situação degeneram com incrível rapidez, de uma hora para outra.

O que é possível aprender como cuidador?

Paciência, tolerância, aceitação, dedicação incondicional ao próximo, desprendimento, humildade, inteligência, capacidade de decidir por si e pelo outro.

A dieta influencia

Os portadores da doença costumam ter hábitos de alimentação sem muita variação, centrada em carboidratos e alimentos industrializados. Descuidam-se no uso de frutas, verduras e legumes frescos, além de alimentos ricos em ômega 3 e ômega 6; Devem consumir mais peixe e gorduras de origem vegetal (castanha do Pará, nozes, coco, azeite de oliva extra virgem, óleo de semente de gergelim). Estudos recentes mostram que até os processos depressivos podem ser atenuados ou evitados pela mudança de dieta.

Doença silenciosa?

Nem tanto, pois avisos é que não faltam, desde a infância. Analisando e estudando as características da criança, é possível diagnosticar boa parte dos problemas que se apresentarão para serem resolvidos durante a atual existência, até o problema da doença de Alzheimer. Dia após dia, fase após fase o quadro do que nos espera no futuro vai ficando claro.

O mal de Alzheimer é hereditário? Pode ser transmitido?

Sim pode, mas não de forma passiva, inscrito no DNA, e sim pelo aprendizado e pela cópia de modelos de comportamento.

Remédios resolvem?

Ajudar até que ajudam, mas resolver é impossível, ilógico e cruel, se possível fosse; pois, nem todos têm acesso a todos os recursos ao mesmo tempo.
Remédios usados sem a contrapartida da reforma no pensar, sentir e agir podem causar terríveis problemas de atraso evolutivo individual e coletivo, pois apenas abrandam os efeitos sem mexer nas causas.

Remédios previnem?

Claro que não; apenas adiam o inexorável. Quanto a isso, até os cientistas mais agnósticos concordam. Um dos mais eficazes remédios já inventados foram os grupos de apoio à terceira idade. A convivência saudável e as atividades que possam ser feitas em grupo geram um fluxo de energia curativa.

A doença de Alzheimer, acima de tudo, é uma moléstia que reflete o isolamento do espírito que se torna solitário por opção. O interesse pelos amigos é um bom remédio. O ato de nos vacinarmos contra a doença de Alzheimer é o de estudar as características de personalidade, caráter e comportamento dos que a vivenciam, para que não as repitamos. A melhor e mais eficiente delas é o estudo, o desenvolvimento da inteligência, da criatividade e a prática da caridade.

Quer evitar tornar-se um Alzheimer?

Torne sua vida produtiva, pratique sem cessar o perdão e a caridade com muito esforço e inteligência. Muito mais há para ser analisado e discutido sobre este problema evolutivo que promete nos visitar cada dia mais precocemente. Além das dúvidas que levantamos, esperamos que os interessados não se furtem ao saudável debate.

"O desapego é necessário para o crescimento espiritual."

E aqui fica a célebre frase de todo doente de Alzheimer: “Quero voltar para minha casa” Que casa seria esta?

Autor: Dr. Américo Marques Canhoto
Enviado por: Laura Lellis


SEM MEIAS PALAVRAS...

O que você fez pior na sua vida?

Tentei me suicidar. Tomei 20 comprimidos de Dormonid, remédio para dormir. Estava impotente e havia perdido o globo ocular do meu olho direito. No olho esquerdo já tinha apenas 18% de visão, tudo por causa da diabetes. Teria de colocar prótese. Não queria que ninguém me visse assim. Havia perdido também um programa na tevê e um processo na justiça. Estava sozinho, sozinho, sozinho... Preferi tomar as pílulas e morrer. Mas me encontraram a tempo e levaram para o hospital e me fizeram lavagem estomacal e me salvaram a vida. Hoje compreendo que fui fraco. Sobrevivi e Deus me deu a oportunidade de reconstruir a minha vida. Se eu aceitei me expor para você é para que o eu sirva de exemplo para quem está sofrendo como eu sofri. E pensa na morte como solução. É o maior erro, a maior derrota. É jogar o que temos de melhor: a vida. Foi o que eu fiz de pior para mim mesmo. O meu maior inimigo sempre foi Jorge Kajuru.

Mas você sempre foi uma pessoa muito cercada de amigos, mulheres...

Olha, nesta vida há muita falsidade. Amigos de verdade eu tenho pouquíssimos. Datena, Juca Kfoury são meus irmãos. Mas o maior deles, o que daria tudo que tem por mim, acabou de morrer: o Sócrates. Aliás, eu tenho convicção de que ele se matou...Vou mostrar como eu fui amado. Tive 14 mulheres com quem morei junto. Casei com oito. Quatro no papel. Hoje eu sei que duas amaram o Jorge. As outras 12 amaram o Kajuru. O glamour dos meus relacionamentos com atores, cantores, jornalistas, pessoas famosas. Nunca tive essas mulheres de verdade. Elas queriam a minha companhia para ter acesso a uma vida de badalação, aparecer em tevê, revista, jornal. A pior coisa da vida é perceber que alguém está na sua cama por interesse em qualquer coisa, menos em você. E as pessoas sempre sabem que estão sendo usadas. Eu tentei mentir para mim mesmo e tentar salvar algumas relações. Foi impossível. E vou contar mais. Essas mulheres acabaram com o meu patrimônio. Todas as vezes que me separei deixei casa, carro. Sou um banana na hora de dizer adeus. E encontrei muita aproveitadora, mesquinha. Me acho tão esperto, mas a última mulher por quem me apaixonei eu levei para a minha casa no Rio de Janeiro.

Depois de um mês, a mulher rouba tudo o que tinha pela casa. Eu sou assim, quando eu amo, confio, dou a vida. As mulheres me fizeram de gato e sapato. Dilapidaram o meu patrimônio. Se não fosse por elas, estaria rico.

Explique essa história de que o Sócrates se matou. Ele não bebeu a vida toda?

Bebeu. Eu o conheço desde os 14 anos em Ribeirão Preto. Um gênio, inteligente, talentoso, grande amigo, alegre, o irmão que não tive nesta vida, já que sou filho único. Beber era a sua alegria. Sempre soube disso. Mesmo quando jogava futebol. Quando parou, continuou bebendo. Eu falava, mas nunca dei aquele esporro que ele merecia para parar porque achava que ele era médico. Sabia até onde poderia ir. E a situação estava mais ou menos controlada até que ele se separou de mãe do seu filho Fidel. Ele tinha adoração pelo menino. E a mãe, magoada com o Sócrates, o proibia de ver o garoto. Essas coisas terríveis de separação. Ele ficou desolado. Um dia me chamou para conversar e me disse: "Kajuru, perdi a alegria de viver. Eu quero morrer". Fiquei louco tentando animá-lo. Mas não teve jeito. O Sócrates começava a beber de manhã e só parava de madrugada. Ele ia me visitar no Rio e entrou neste processo. Por isso que eu digo que se suicidou de tristeza por causa do filho. Quando ele soube que estava com cirrose, não se importou. Foi internado quatro vezes e não três.

Uma já em Ribeirão Preto. Quando saiu da última vez, tinha de seguir um regime terrível para tentar se segurar e esperar um transplante de fígado. Mas ele optou por morrer. Continuou a beber. Dias antes da última internação, ele tomou garrafas de vinho. Queria e consegui morrer. Ah, Magrão...Você não sabe a falta que você me faz...Tem uma coisa que eu quero tornar pública sobre a internação dele.

O que é, Kajuru?

Quero revelar a indignação da famílida do Sócrates com o Andrés Sanchez. A insensibilidade deste homem não tem tamanho. Não quero nem falar sobre todas as homenagens que o Magrão deveria ter recebido do Corinthians e não recebeu. Esse presidente é pequeno e a história vai colocá-lo no seu devido lugar. O Sócrates nunca quis a menor proximidade dele porque sabia da ligação profunda com o Ricardo Teixera, com o Lula, com o Ronaldo. Gente que não merece o que tem. Na primeira internação, o Sócrates já estava muito mal por causa da cirrose.

Quando chega no hospital um pacote imenso. A família pensou que fosse um presente. Quando o pacote foi aberto, a surpresa. Dentro dele estavam milhares de folhas de sulfite com as contas do Corinthians. Andrés mandou entregar para o Sócrates quando ele estava recebendo a sentença de morte no hospital. Ele teve milhões de chance de entregar essas contas quando o Magrão estava forte, trabalhando no Cartão Verde. Esperou ele estar à beira da morte. Me dá nojo quando lembro dessa situação. E as homenagens que o Corinthians deveria fazer a ele nunca acontecerão enquanto Andrés e seus amigos estiverem mandando no Corinthians. Nunca. Por que o Sócrates nunca se dobrou à essa gente. Não vou falar o que realmente penso sobre o Andres por que não quero mais processos na minha vida. Só lamento o Corinthians estar entregue a essa pessoa. Mas quero falar do Andres e sim lembrar que o Sócrates por exemplo salvou a minha vida. Estava depressivo em um condomínio afastado de Ribeirão Preto. Continuava pensando em morrer, quando o Magrão foi meu herói. Arrombou a porta que eu deixava trancada para não receber ninguém. Arrombou e me levou para a sua casa. Cuidou de mim como um irmão mais novo. Ninguém faria isso, ninguém seria tão solidário. Eu não tenho palavras para agradecer o que esse homem fez por mim.

Vamos falar a sério sobre os processos. Quantos foram e você admite os exageros, até alguma irresponsabilidade nas suas acusações?

Eu fui processado 118 vezes. Nunca falei ou escrevi de ninguém sem que eu soubesse o que fazia era o certo. Mas admito que exagerei. Por tentar dar adjetivos agressivos, grosseiros, perdia a essência das minha acusações. Se eu digo que um político é um ladrão, eu tenho de provar. Aprendi na prática. Fazia o certo da forma errada. E comprei brigas bobas. Como a com a Luciana Gimenez. Falei que ela era tão burra quanto uma mesa. E apontei para a mesa. Ela me processou. E na Sônia Abraão, eu disse que havia pensado muito e tinha decidido pedir desculpas no ar. A Sônia me elogiou. E falou que eu estava tomando uma grande atitude. E eu pedi: pedi para a mesa por ter comparado a sua inteligência a de Luciana Gimenez. Outro processo! Mas essa fase passou. Estou enxergando que só eu me ferrei. Os poderosos estão roubando e vão continuar a vida inteira. Deus me deu a chance de aprender a controlar a minha boca, a minha indignação.

Se eu fosse dono de uma televisão ainda não colocaria ao vivo. Ainda... Porque estou no final do processo de dominar a minha raiva, a minha boca. Estou renascendo como jornalista, como apresentador. Continuo veemente, mas agora sei até onde posso ir. Estou sendo orientado por pessoas que realmente gostam de mim. E só não querem me ver queimar como aconteceu na TV Bandeirantes, por exemplo, quanto fui demitido ao vivo. E da maneira mais injusta possível.

Kajuru, esse foi um marco do jornalismo. O que aconteceu de verdade?

Foi o seguinte. Eu fui para Belo Horizonte cobrir o jogo Brasil e Argentina. O jogo aconteceu em 2004. Estava lá para mostrar o ambiente do jogo. Cheguei bem cedo no Mineirão. E várias e várias pessoas se aproximam de mim denunciando o que o Aécio Neves tinha feito. Havia uma entrada para deficientes com rampas e um grande espaço físico para que eles entrassem tranquilamente no estádio. Só que o Aécio mandou que aquele espaço fosse reservado para as pessoas vips que eram importantes para ele, que sonhava com a presidência. Eram políticos, cantores, atores, milionários. Era uma vergonha. Comecei a denunciar essa situação ainda na hora do almoço. E a sacanagem é que na Bandeirantes todos só me incentivavam. Falavam que eu estava arrebentando. A audiência não parava de subir com a minha denúncia. E eu lá falando. Da hora do almoço, depois fui participar do programa do Datena, às seis da tarde. E mais cacete no Aécio. Os diretores, as pessoas que comandam o programa me colocando pilha, falando que eu estava arrasando. E me deixei levar. Fiz a mesma coisa no Jornal da Band que era apresentado pelo Carlos Nascimento. No intervalo, ele me falou que estava espetacular a denúncia, que eu era o Kajuru que eles queriam. E estava chegando a hora do jogo. E passei a apresentar o programa que apresentava a partida, de lá. De Belo Horizonte.

Direto do lugar que o Aécio tinha reservado para seus convidados. Foi quando às 20h28 me tiraram do ar. Falaram que estavam com problemas técnicos. E na verdade, eu havia acabado de ser demitido pela direção da Band. Só soube no dia seguinte. A tevê não queria ficar contra o Aécio. Hoje eu entendo o envolvimento comercial até da situação, com propagandas. É uma situação nojenta, mas não sou mais ingênuo, consigo perceber como as coisas funcionam. E que há maneiras e maneiras de mostrar os absurdos deste país. A maior sacanagem foi que a Band se recusou a me pagar a multa de R$ 5 milhões que eu tinha no contrato. Qualquer advogado ganharia essa causa. Mas nunca processei ninguém. E muita gente me fez mal. Mas nunca como a Band. Me senti apunhado porque eu era incentivado para fazer as coisas que fiz por lá. Pensei que me orientavam, mas as pessoas só pensavam na audiência. Só na audiência. Me usaram o quanto puderam. E quando viram que exageram, me apunhalaram. Porque não existe alguém que fale tudo o que quer na tevê se não há quem deixe, incentive.

A Band me queria denunciando o Aécio. E a mesma Band me mandou embora sem o que eu tinha direito por denunciar o Aécio.

Você vivia o seu auge de popularidade. Você não havia se perdido com tanto sucesso?

Confesso que sim. Desde que a minha santa mãe morreu, eu perdi o rumo. Perdi a única pessoa que me colocava limites. Eu ganhava muito dinheiro. Eram R$ 150 mil por mês que a Band me pagava. Não sabia onde gastar. Fique dois anos lá e não tive a decência de comprar um apartamento para mim. Eu só queria saber de aproveitar. Pagava toda a semana para transar com uma mulher gostosa e famosa. Tinha de ser gostosa e famosa. Pagava mesmo. Uma por semana. Era a minha meta. E cumpri direitinho. Fora as farras que fazia pelas boates da vida, levava os amigos e pagava tudo. Sempre fui mão aberta. Muitas vezes não tinha a menor noção do que havia feito na noite anterior.

Não me droguei. O resto fiz de tudo. Queimei com farra, com mulherada. Pensei que fosse morrer de tanta farra. Me sentia o dono do mundo. Hoje vejo o quanto fui irresponsável e imbecil. Só me prejudiquei. Tinha certeza de que aquilo nunca iria acabar.

Em 2003 você recebeu um famoso convite para trabalhar na TV Globo, não foi?

Foi. E acredito ter sido o único jornalista esportivo do País a dizer não para a Globo. Eu cresci vendo o João Saldanha. Juca Kfoury me ajudou a enxergar o que é realmente a Globo. E como ela usa a sua proximidade do poder para fazer o que quer com o País. Ela mascara tudo. Principalmente o futebol. Fica fazendo lavagem cerebral mostrando dribles, gols, torcida. E esconde da maneira mais indecente possível o que acontece fora do campo. Eu tenho condições de falar porque recebi a proposta de trabalho e sei como é. Fui em quatro reuniões com o Galvão Bueno e a cúpula da Globo para conversar. O diretor de Esportes da Globo, Luiz Fernando Lima, me mostrou como as coisas funcionam por lá. "Você não pode reclamar do horário do jogo. E muito menos falar mal do Eduardo Farah (na época, presidente da Federação Paulista de Futebol). E muito menos de Ricardo Teixeira. Eles são nossos parceiros." Assim. na cara dura. Sem a menor vergonha.

Eu comandaria o Globo Esporte, comandaria uma mesa redonda no Esporte Espetacular. E ainda faria um quadro no Fantástico com a Ana Paula Padrão. Seria a Bela e a Fera. Fui nestas reuniões para saber de verdade como a TV Globo trabalha. Percebi como ela se tornou poderosa. Principalmente no esporte. Disse não à Globo ao vivo, na TV Bandeirantes. Ninguém acreditou. Galvão que é meu amigo, queria me matar. Mas fiz o que a minha consciência, meu coração mandou.

Por falar em TV Globo, que polêmica é essa com o Thiago Leifert?

É simples. Não vou ficar calado vendo um menino posar dizendo que revolucionou a apresentação de jornais esportivos no País. Espera um pouco. Será que o meu trabalho merece ser tão desprezado? Fui o primeiro a falar de uma maneira descontraída, sem roteiro até. Ninguém antes de mim se sentava no estúdio durante a apresentação. Até dobrar a perna como ele faz. O mais revoltante para mim é ele chamar o ponto de 'voz da consciência'. Exatamente como eu fazia na Band. Será que todos estão loucos? O menino que é filho de um diretor da Globo faz a mesma coisa que eu cansei de fazer e é visto como um gênio? E ainda tem a coragem de dizer que não me conhece. Eu não quero mais brigas na minha vida, mas não podia ser humilhado desta forma. A TV Globo pensa que ainda faz e desfaz no País. Só que não é mais assim.

Eu não sou mais irresponsável com o que falo. Mas esse menino tem de ser colocado no seu devido lugar. Se me copia, pelo menos disfarça, diz que é homenagem. Mas ele é o retrato da Globo, prepotente, arrogante e que pensa que está acima do bem e do mal. Só que este período da história já acabou. Graças a Deus!

Kajuru, fale da sua doença...

Quero aproveitar essa entrevista para fazer um alerta público contra a diabetes. É uma doença silenciosa, terrível. Ela mata, consome o ser humano de maneira cruel. E hoje é facilmente detectada. Basta fazer exames periódicos, todos os anos. O governo deveria incentivar, fazer esses exames em massa. Mas vou dar o meu exemplo pessoal que marca mais. Minha avó e minha mãe morreram de diabetes. E eu me achando acima do bem e do mal. Até que um dia caí de cama. Tive um absesso terrível. Pensei que fosse só uma inflamação intestinal. Só que ela não passava. Fiquei de cama. Os médicos me dando antibióticos. Até que o Sócrates foi me visitar. E ele era um médico espetacular.

Me disse que se eu não fosse operado, iria morrer. Me fez chamar um outro médico e fui levado às pressas para o hospital. Iria mesmo morrer. A minha taxa de açúcar no sangue era altíssima. Minha taxa de glicemia chegou a 430. Uma loucura. Sofri uma operação de seis horas para a retirada do absesso. E a retirada afetou a minha potência sexual. Com 40 anos. Isso para o homem é a morte. Depois, mesmo tentando controlar, a doença levou o meu olho direito. E deixou 18% de visão do esquerdo. Tudo isso poderia ter sido evitado se eu me cuidasse. Fiquei depressivo. Foi quando tentei me matar. Mas conheci o médico Aureo Ludovico. Ele fez uma operação no meu intestino.

Mexeu no intestino delgado, duodeno e reduziu parte do estômago. Foi a cura do meu diabetes. Há sim cura e ela não é divulgada por causa do poder econômico dos laboratórios. Não sou mais impotente. A taxa da glicemia está controlada. Deus me deu uma nova chance na vida.

Qual o seu maior erro profissional?

Dizer não à Record. Me dói lembrar o quanto eu fui burro. Sem noção da realidade. Tive uma reunião com a cúpula da tevê. Me chamaram e ofereceram R$ 200 mil por mês. E me disseram que eu iria apresentar o programa Cidade Alerta. A Record iria pagar a minha multa de R$ 650 mil da RedeTV! Mas a proposta era só para mim. E eu estava apresentando um programa com o Juca Kfoury na RedeTV! Ele me falou para eu ir. Só que eu não quis largar o Juca que é para mim um irmão mais velho. E ele insistindo que era bobagem. Disse não. Aí, o Milton Neves aceitou. Entrou no meu lugar. E ganhou um caminhão de dinheiro e seguiu a vida dele. Eu me arrependo profundamente de ter dito não. Minha vida teria mudado. Nunca me perdoei. E depois disso caí na besteira de ficar atacando a Record. Falei um monte de bobagem.

Xinguei sem pensar. Um ataque desnecessário, gratuito. Besta, sem fundamento. Eu realmente devo desculpas à TV Record, que nunca me fez nada de mal. A não ser me oferecer o melhor emprego da minha vida. E eu disse não.

O que você acha da Copa do Mundo no Brasil?

Torço como um desesperado para o Brasil fracassar, seja derrotado. Há um estudo feito pela USP e pouco divulgado mostrando que o Brasil teria um progresso de 20 anos se o dinheiro que será gasto na Copa e na Olimpíada fosse aplicado em obras sociais. Não temos saúde, segurança e educação. Mas colocamos bilhões de dólares em estádios que não precisam ser construídos. Só por causa de pessoas como Ricardo Teixeira e Lula, que só pensam nelas e colocam o interesse de milhões para trás. Eu quero falar que estou extremamente decepcionado com o Ronaldo. Ele se prestar a escudo de Ricardo Teixeira joga no lixo a sua imagem. Sua carreira maravilhosa já lhe deu milhões. Mas ele tem uma ganância inacreditável. Quer ganhar muito mais a qualquer custo. Ele não falou que o Ricardo Teixeira tinha dois caráteres? Quem é que tem dois caráteres agora: ele ou o Ronaldo? O Pelé também é outro. Se juntou ao Teixeira que até tinha processado.

Será que sou louco ou mesmo com apenas 18% da visão estou enxergando mais do que muitos? O Ricardo Teixeira é um câncer para o futebol brasileiro. Pensa que o futebol é dele e faz o que quer. Só que eu aviso agora para quem puder ler essa entrevista. Pior do que ele só o Andres Sanchéz. Ele é dissimulado. Tem ligações poderosas. O estádio de Itaquera, de um bilhão de dinheiro púbico, saiu graças a uma birra com o presidente do São Paulo. Ele vai fazer muito mal ao futebol brasileiro se chegar ao comando. Será pior do que o Teixeira. Eu estou falando publicamente só um pouco do muito que sei.

E do Mano Menezes, o que você acha?

Ele é o técnico do Andrés, do Ronaldo, do Ricardo Teixeira. É do time. Não vou falar mais nada para não ser processado. O Muricy Ramalho nunca daria certo trabalhando com esse tipo de gente. Eu lamento demais a Seleção Brasileira por quem o povo é apaixonado estar nas mãos destes homens. Eu lamento.

Como é a sua situação profissional atual?

Eu tenho contrato com o SBT. Falo para as afiliadas do SBT. É um comentário de cinco minutos. O Silvio não me deixa falar para o Rio de Janeiro e São Paulo. Ainda não confia em mim nestas praças. Mas ele vai entender que estou mudado. Comento também para mais de 200 emissoras de rádio do Brasil inteiro. E trabalho com todo o prazer no Esporte Interativo. Faço dois programas todos os dias. E ainda um especial com entrevistas. O Kajuru Pergunta. Além disso, tem o meu trabalho com o blog, facebook, twitter. Eu sou muito ligado em redes socais. Estou muito feliz com o que estou fazendo. Tenho dois convites para voltar de vez para a tevê aberta. Quero pensar até janeiro se aceito ou não. Volto a confirmar que me sinto bem demais no Esporte Interativo.

Que balanço você faz da sua vida, agora aos 50 anos?

Que um menino que, aos 10 anos, anunciava missas, mortes e colocava música para tocar na praça de Cajuru, pequena cidade de São Paulo, fui longe demais. Meu pai era padeiro e a minha mãe era merendeira. E eu convivi muito pouco com meu pai porque logo ele foi internado em um sanatório em Araras por ser alcóolatra. Não convivi com ele. Só quando eu era adulto ele me procurou quando estava fazendo sucesso e me disse: "Filho, você é o meu orgulho. Por você, nunca mais vou beber". E nunca mais bebeu. O exemplo do meu amado pai serve para mim. Errei por não aceitar limites. Alguém que controlasse a minha boca no microfone. Por que, graças a Deus, eu sou um excelente comunicador. As pessoas param para me ouvir desde que me conheço por gente. Sei que me deixei levar, exagerei, mas sempre fui sincero. Nunca me vendi, deixei levar a minha alma por dinheiro, nunca me corrompi. Nunca fui trabalhar onde não acreditava como a TV Globo, por exemplo. Errei, muito. Quase morri por causa dos meus exageros. Gritei, falei bobagens, xinguei quando não precisava. Hoje estou amadurecendo. Sinto ter muito espaço ainda na mídia. E quero aproveitar essa segunda chance que Deus está me dando. Se Ele deu é porque acha que mereço. Nunca tive mal dentro de mim. Muitas vezes fui ingênuo. Acabei usado. Me deixando usar. Mas esta fase acabou.

Estou saudável, com o tesão de trabalhar de um menino e marcado pelas pancadas que levei da vida. Estou vivendo o renascimento de Jorge Kajuru...

Por: Jorge Kajuru
Fonte: esportes.r7.com
Enviado por: Yna Beta


DESPEDINDO DE ADEMILDE FONSECA

O meio artístico ficou muito triste neste mês de Março de 2012. Perdemos grandes artistas, talentos raros como Chico Anísio e um intelectual do porte de Millôr Fernandes. Mas a música brasileira perdeu seu maior expoente num gênero dificílimo em que ela foi a primeira cantora a ser homenageada por todos os grandes compositores de choro, fazendo com que recebesse o título que soube carregar a vida inteira com classe, elegância e muito talento: "A rainha do chorinho"! Faleceu na noite de 27 de Março de 2012, 3ª feira, a extraordinária cantora Ademilde Fonseca, aos 91 anos, de enfarte!

Ademilde, além de uma linda voz, tinha o raríssimo dom de cantar o choro numa velocidade exigida por alguns deles sem que se perdesse uma única sílaba do fraseado da canção. Nunca, até hoje, houve uma cantora que conseguisse cantar um choro como ela! Fez parte da era de ouro do rádio em que as grandes cantoras tinham voz com personalidade. Ouvia-se uma cantora e de imediato sabia-se de quem se tratava.

Eram vozes inconfundíveis (Nora Nei, Angela Maria, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Zezé Gonzaga, etc.) e sem os recursos atuais de tecnologia que conseguem encobrir defeitos em que até um desafinado pode se tornar um bom cantor. Era a famosa época do "gogó"! Quem não tivesse um bom "gogó" não ia adiante, pois não conseguiria enganar o público.

Tive a sorte de privar de bons momentos com Ademilde, a quem conheci nos famosos almoços do jovem e grande cantor Márcio Gomes, um querido amigo e a voz mais bonita do Rio de Janeiro desta nova geração! Ela tinha uma luz especial que iluminava todos os ambientes por onde entrava. Era de uma simpatia contagiante e tinha a classe e a elegância das grandes divas!

Remeto a vocês, pessoas queridas, duas fotos do meu "arquivo do coração": uma foi tirada pelo ator Lino Correa em Janeiro passado quando ele levou Ademilde para visitar sua amiga Carmélia Alves lá no Retiro dos Artistas. Noutra foto sou o fã que abraça a cantora que ele tanto admira. Que ela permaneça sempre em nossos corações e nossas orações.

O abraço do Angelo de Matos.

Ademilde Fonseca e Carmélia Alves
Ademilde Fonseca e Angelo Matos

Autor: Angelo de Matos
Enviado por: Laura Lellis


SIMPLESMENTE, CHICO!

Adeus Chico Anysio! Neste teu último ato também me fizestes chorar, só que, desta feita, de tristeza. Lágrimas amargas rolam-me pela face e no rumo de minhas rugas chegam-me à boca. Outrora, as lágrimas eram doces, provocadas pela alegria quando me fazias rir a bandeiras despregadas com tua Escolinha. Junto contigo levas tantos hilários personagens que jamais serão por nós esquecidos e que deixas aqui para nosso gáudio. És eterno em tua arte! Até ao falares da morte, fazias graça. Um repórter perguntou-te do que tinhas mais medo e respondestes que velho deve ter medo apenas de duas coisas: tombo e pneumonia. Desconheço a razão do teu óbito mas, seja ela qual for, deu-te o conforto do perene descanso. Que Deus Te receba!

Autor Ary Franco – O Poeta Descalço


NASCE O FEMINISMO DE RESULTADOS

O Dia Internacional da Mulher, data mais machista do calendário mundial, ganhou neste ano contornos especiais no Brasil. Como se sabe, 8 de março é o dia em que a mulher é tratada como classe – na homenagem mais constrangedora que se poderia conceber. É o "dia delas", exaltam os festejos paternalistas, reduzindo todas as pessoas do sexo feminino a uma categoria. Mas, como esse tipo de bondade sempre pode piorar, a criatividade populista em torno da "presidenta" está produzindo um mês da mulher como nunca se viu antes – pelo menos em termos de maquiagem progressista.
Dilma Rousseff foi homenageada com uma sessão no Congresso Nacional. Lá, o Dia da Mulher caiu na terça-feira 13. Coincidentemente, o mesmo dia marcado para o ministro da Fazenda dar explicações sobre o escândalo da Casa da Moeda, no mesmo Congresso Nacional. Foi emocionante ver Guido Mantega protegido pelo feminismo. Não se via um disfarce feminino tão eficiente desde a fuga de Brizola para o Uruguai vestido de mulher, conforme a lenda da ditadura.
José Sarney também deu seu brado feminista. Às voltas com mais uma denúncia de privatização do Estado por sua grande família, o presidente do Senado voltou suas energias para o Dia Internacional da Mulher. Em discurso emocionado, elogiou o "caráter de mulher" de Dilma Rousseff. Só um homem realmente sensível saberia identificar uma mulher com caráter de mulher.
Só um homem sensível como José Sarney saberia identificar uma mulher com caráter de mulher
Na sessão solene, vários políticos tiveram a oportunidade de parabenizar Dilma por ela ser mulher. É um mérito e tanto. É preciso muito talento gerencial para juntar, naquela escuridão danada, os cromossomos X – sem deixar que um Y venha estragar tudo, dando origem a um ser com barba, gravata e nenhum dia internacional de bajulação. Parabéns, Dilma! Esse gesto nobre se espalha pelo mundo a cada 8 de março, congratulando esposas, amantes, secretárias, ministras e especialmente mães, que, se não fossem mulheres, não dariam a ninguém a chance de nascer (o que provocaria uma onda de desemprego entre os obstetras).
Esse galanteio genérico da sociedade para com o sexo feminino não é o que há de mais estranho na modernidade. O mais estranho é boa parte das mulheres aceitar essa esmola moral, entrando felizes no curralzinho VIP do mês de março – o "seu" mês! – com pulseirinha de identificação e tudo. Talvez Luz Del Fuego precisasse nascer de novo para mandar José Sarney ir procurar o "caráter de mulher" no seu mausoléu em São Luís, no Maranhão, de preferência na próxima encarnação. Ou quem sabe uma junta celestial reunindo Zilda Arns, Ruth Cardoso e Leila Diniz pudesse fulminar com um raio esse feminismo de elevador – se possível esclarecendo que símbolos femininos não nascem em laboratório sindical.
Em pronunciamento oficial na TV, Dilma Rousseff declarou que sua própria eleição foi marcante para a afirmação das mulheres no Brasil. Mais feminino que isso, só a viúva profissional Cristina Kirchner usando sua condição de vítima do destino para violentar a liberdade de imprensa. Ouçam os cromossomos XX de Dilma falando à nação no dia 8 de março: "A mulher é uma pessoa dedicada e trabalhadora". Sotaque estranho. Quem reduz a mulher a "uma pessoa" talvez a esteja confundindo com "uma coisa" – uma coisa útil, que serve para embelezar discursos. Em lugar da mulher-objeto sexual, a mulher-objeto demagógico.
No mesmo discurso, a presidente lançou uma ameaça velada aos homens: eles ficarão em dívida com a sociedade se não olharem as mulheres com igualdade. Depois, na abertura da sessão pelo Dia Internacional da Mulher, o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, companheiro de Dilma, defendeu a criação de uma cota feminina no Congresso Nacional. Talvez seja o nascimento do feminismo de resultados, onde a mulher é uma pessoa cujo valor se mede pela aritmética. Considerando que a Presidência da República foi conquistada para as mulheres por um homem, a lógica está perfeita.
O Brasil assiste orgulhoso a essa espécie de corporativismo feminista, em que a nomeação de mulheres para os altos escalões do governo é um bem em si mesmo, não importando quem sejam as portadoras dos cromossomos XX. Se o parâmetro de igualdade não for a saudosa companheira Erenice, nem tudo estará perdido.

Autor Guilherme Fiuza
Fonte: Revista Época

Enviado por: Jandira soares


GERAÇÃO DE FILHOS ÚNICOS

Os filhos únicos normalmente são crianças planejadas, pois os pais decidiram ter apenas um filho para poder dar tudo de forma integral, principalmente atenção exclusiva. Mas tudo que é demais pode gerar saciação ou despreparo para lidar com a falta e os pais precisam ficar atentos. Devem dar amor e atenção mas também impor limites, assim, a criança crescerá sabendo o que é certo e errado e que o mundo não gira em torno dela.

Como os filhos únicos convivem com muitos adultos, são crianças com vocabulário avançado para a idade e são muito criativos, já que desenvolvem habilidades brincando sozinhos. Mas, por outro lado, faltam modelos variados de conduta e, muitas vezes, apresentam dificuldades de relacionamento principalmente com outras crianças. As outras crianças, que vivem em um padrão diferente, não o compreendem devido ao seu repertório diferenciado e por isso há desavenças.

Por estar acostumado a ser o centro das atenções e ter seus gostos realizados pelos adultos, o filho único tem dificuldade em dividir e ser frustrado. Isso implica em uma inabilidade para lidar com o próximo quando esse não faz aquilo que esperam.

Na relação com outras crianças isso tende a se agravar, pois o outro pode não querer ceder. Sem habilidade para lidar com isso, é comum que o filho único arrume confusões e até mesmo bata em um coleguinha ou seja vítima de uma criança maior. Mas isso acontece só até a sua adaptação para lidar com um semelhante e reconhecer as diferentes regras de um novo ambiente.

Assim, é importante que os pais de filhos únicos favoreçam o contato de seu filho com outras crianças, para que eles aprendam as regras de conduta dos pequenos, levando os filhos para passear em locais infantis, beneficiando o contato e o entrosamento com novas crianças.

Outro fator importante é dar os limites adequados, pois, muitas vezes os pais relevam atitudes inadequadas porque seu filho é “sozinho”. Isso não faz bem à criança, pois ela não aprende as conseqüências de seus atos e não sabe até onde pode ir. Assim como também não ajuda nada superproteger o filho, uma vez que ele não saberá se defender sozinho; o que é fundamental no convívio com outras crianças e no futuro para suas relações sociais em geral.

Outro fator a ser considerado é quando os pais esperam atitudes maduras de seus filhos. Lembre-se, ele pode mostrar algumas atitudes maduras porque convive com muitos adultos, mas ainda é uma criança. Os comportamentos acima da norma são uma exceção e não a regra.

Para auxiliar o desenvolvimento saudável do filho único, ensine-o a compartilhar. Aprendendo a dividir, ele terá um convívio mais fácil com os demais.

Autora: Jéssica A. Fogaça
Psicóloga Infantil Comportamental e Arte Educadora
Enviado por:
Elisa Clozel l Lívia Clozel Comunicação


AÇÃO CONTRA CRUCIFIXOS MOSTRA INTOLERÂNCIA

Veja esta notícia publicada no Portal IG:

“(…) em atenção à queixa de um cidadão, que se sentiu discriminado pela presença de um crucifixo no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão entrou com uma ação civil pública para obrigar a União a retirar todos os símbolos religiosos ostentados em locais de atendimento ao público no Estado.

A ação, com pedido de liminar, visa garantir a total separação entre religião e poder público, característica de um Estado laico, ainda que de maioria cristã, como o Brasil. ‘Minha ação restringe-se aos ambientes de atendimento ao público. Nada contra o funcionário público ter uma imagem de santo, por exemplo, sobre a sua mesa de trabalho’.

Católico praticante (‘comungo e confesso’, diz Dias, 38 anos, o Procurador responsável pela ação. Uma decisão favorável no TRF-SP certamente levará o assunto a outras instâncias. O único precedente que existe é negativo. Em junho de 2007, o Conselho Nacional de Justiça indeferiu o pedido de retirada de símbolos religiosos de todas as dependências do Judiciário. Na ação pública, Dias lembra que, além de estarmos em um Estado laico, a administração pública deve zelar pelo atendimento aos princípios da impessoalidade, da moralidade e da imparcialidade, ou seja, garantir que todos sejam tratados de forma igualitária. O procurador entende, nesse sentido, que um símbolo religioso no local de atendimento público é mais que um objeto de decoração, mas pode ser sinal de predisposição a uma determinada fé. “Quando o Estado ostenta um símbolo religioso de uma determinada religião em uma repartição pública, está discriminando todas as demais ou mesmo quem não tem religião, afrontando o que diz a Constituição’.” (04/08 – 16:29 – Mauricio Stycer, repórter especial do IG).

O tema vem sendo cada vez mais discutido e, ao meu ver, está sendo objeto de uma interpretação equivocada por aqueles que desejam a retirada dos símbolos religiosos. O Estado é laico, isso é o óbvio, mas a laicidade não se expressa na eliminação dos símbolos religiosos, e sim na tolerância aos mesmos.

A resposta estatal ao cidadão queixoso, mencionado acima, não deveria ser uma ação civil pública, mas uma simples orientação, no sentido de que o país ter uma formação histórica-cultural cristã explica que haja na parede um crucifixo e que tal presença não importa em discriminação alguma. Ao contrário, o pensamento deletério e a ser combatido é a intolerância religiosa, que se expressa quando alguém desrespeita ou se incomoda com a opção e o sentimento religioso alheios, o que inclui querer eliminar os símbolos religiosos.

Ao contrário do que entende o ilustre Procurador mencionado, a medida não se limitará aos ambientes de atendimento ao público. O próximo passo será proibir também os símbolos na mesa de trabalho, seja porque o ambiente pertence ao serviço público, seja porque em tese poderia ofender algum colega que visualizasse o símbolo. No final, como se prenuncia no poema “No caminho, com Maiakóvski”, o culto e devoção terão que ser feitos em sigilo, sempre sob a ameaça de que alguém poderá se ofender com a religião do próximo. Nesse passo, eu, protestante e avesso às imagens (é notório o debate entre protestantes e católicos a respeito das imagens esculpidas de santos), tive a ocasião de ver uma funcionária da Vara Federal onde sou titular colocar sobre sua mesa uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. A minha formação religiosa e jurídica, onde ressalto a predileção, magistério e cotidiano afeito ao Direito Constitucional, me levou a ver tal ato com respeito, vez que cada um escolhe sua linha religiosa. A imagem não me ofendeu, mas sim me alegrou por viver em um país onde há liberdade de culto. Igualmente, quando vejo o crucifixo com uma imagem de Jesus não me ofendo por (segundo minha linha religiosa) haver ali um ídolo, mas compreendo que em um país com maioria e história católica aquela imagem é natural. O crucifixo nas cortes, independentemente de haver uma religião que surgiu do crucificado, é uma salutar advertência sobre a responsabilidade dos tribunais, sobre os erros judiciários e sobre os riscos de os magistrados atenderem aos poderosos mais do que à Justiça.

Vale dizer que se a medida for ser levada a sério, deveríamos também extinguir todos os feriados religiosos, mudar o nome de milhares de ruas e municípios e, ad reductio absurdum, demolir simbolos e imagens, a exemplo, que identificam muitas das cidades brasileiras, incluindo-se no cotidiano popular de homens e mulheres estratificados em variados segmentos religiosos. Ao meu sentir, as pessoas que tentam eliminar os símbolos religiosos têm, elas sim, dificuldade de entender e respeitar a diversidade religiosa. Então, valendo-se de uma interpretação parcial da laicidade do Estado, passam a querer eliminar todo e qualquer símbolo, e por consequência, manifestação de religiosidade. Isso sim é que é intolerância.

Embora cristão, as doutrinas católicas diferem em muitos pontos do que eu creio, mas se foram católicos que começaram este país, me parece mais que razoável respeitar que a influência de sua fé esteja cristalizada no país. Querer extrair tais símbolos não só afronta o direito dos católicos conviverem com o legado histórico que concederam a todos, como também a história de meu próprio país e, portanto, também minha. Em certo sentido, querer sustentar que o Estado é laico para retirar os santos e Cristos crucificados não deixaria de ser uma modalidade de oportunismo.

Todos se recordam do lamentável episódio em que um religioso mal formado chutou uma imagem de Nossa Senhora na televisão. Se é errado chutar a imagem da santa, não é menos agressivo querer retirar todos os símbolos. Não chutar a santa, mas valer-se do Estado para torná-la uma refugiada, uma proscrita, parece-me talvez até pior, pois tal viés ataca todos os símbolos de todas as religiões, menos uma. Sim, uma: a “não religião”, e é aqui que reside meu principal argumento contra a moda de se atacar a presença de símbolos religiosos em locais públicos.

A recusa à existência de Deus, a qualquer religião ou forma de culto a uma divindade não é uma opção neutra, mas transformou-se numa nova modalidade religiosa. Se por um lado temos um ateísmo como posição filosófica onde não se crê na(s) divindade(s), modernamente tem crescido uma vertente antiteísta. Para tentar definir melhor essa diferença, vale dizer que se discute se budistas e jainistas seriam ou não ateus, por não crerem em divindades além daquela representada pela própria pessoa ou grupo delas, no entanto jamais se discutiria se um budista é ou não antiteísta. É inegável reconhecer-se que esta nova vertente religiosa tem seus profetas, seus livros sagrados e dogmas. Como a maior parte das religiões, faz proselitismo, busca novos crentes (que nessa vertente de fé, são os “não crentes”, “not believers”, os que optam por um credo que crê que não existe Deus algum).

É conhecida a campanha feita pelos ateus nos ônibus de Londres. A British Humanista Association colocou o anúncio “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life” (“Provavelmente Deus não existe. Então, pare de se preocupar e aproveite sua vida”) nas laterais de ônibus britânicos, ao lado dos tradicionais anúncios religiosos. Repare-se que o “provavelmente” demonstra educação, senso político ou cortesia, e que nos cartazes nos ônibus todas as letras estavam em caixa alta, eliminando a discussão sobre se deveriam escrever Deus com “D” ou “d”. Mas nem todos os ateus são educados e cordatos, embora uma grande quantidade deles, grande maioria eu creio, o seja.

Assim como o Protestantismo foi uma reação aos que não estavam satisfeitos com o catolicismo romano, o antiteísmo, ou ateísmo militante, que vemos hoje, é uma reação dos que estão insatisfeitos com a religião. Interessante perceber que esta linha de ateus é intolerante e, como foi historicamente comum em todas as religiões iniciantes ou pouco amadurecidas, mostrou-se virulenta e desrespeitosa no ataque às demais. Esta nova religião, a “não religião”, ao invés de assumir o controle ou titularidade da representação divina, optou por entender que não existe Deus nenhum. Em certo sentido, ao eliminar a possibilidade de um ser superior, assumiu o homem como o ser superior. Aqui o homem que professa tal tipo de crença não é mais o representante de Deus, mas o próprio ser superior. Nesse passo, a nova religião tem outra penosa característica das religiões pouco amadurecidas, consistente na arrogância e prepotência de seus seguidores, apenas igualada pelo desprezo à capacidade intelectual dos que não seguem a mesma linha de pensamento.

Assim, enquanto existe um ateísmo que simplesmente não crê e que demonstra as razões disso em um ambiente de respeito e diversidade, vemos crescer também um outro ateísmo, agressivo, que não apenas não livrou o mundo dos males da religião, mas também passou a reprisá-los.

O principal profeta dessa religiosidade invertida (mas nem por isso deixando de ser uma manifestação religiosa) é Richard Dawkins, autor do livro “Deus, um Delírio”. Ele está envolvido, como qualquer profeta, na profusão de suas ideias, fazendo palestras e livros, concedendo entrevistas e fazendo suas “cruzadas”. A Campanha Out (em inglês: Out Campaign) é uma iniciativa proselitista em favor do ateísmo, tendo até mesmo um símbolo, o “A” escarlate. A campanha atualmente produz camisetas, jaquetas, adesivos, e broches vendidos pela loja online, e os fundos se destinam à Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência (RDFRS). Algo que não deixa de ser muito semelhante às campanhas financeiras típicas de outras manifestações de fé.

Como alguns profetas religiosos, Dawkins não poupa pessoas ilustres de credos concorrentes. Por exemplo, em seu livro, ele diz sobre Madre Teresa o seguinte: “(…) Como uma mulher com um juízo tão vesgo pode ser levada a sério sobre qualquer assunto, quanto mais ser considerada seriamente merecedora de um Premio Nobel? Qualquer um que fique tentado a ser engabelado pela hipócrita Madre Teresa (…)” (pág. 375).

Naturalmente, entendo que Dawkins e seus seguidores têm todo o direito de pensarem e professarem qualquer fé, mesmo que seja a fé na inexistência de Deus e nos malefícios da religião. Contudo, só porque não creem em um Deus ou vários dEles, não estão menos sujeitos aos valores, princípios e leis que, se não nos obrigam à fraternidade, ao menos nos impõem a respeitosa tolerância. Outra coisa que não se pode é identificar em qualquer Deus ou símbolo religioso um inimigo e se tentar cooptar a laicidade do Estado para proteger sua própria linha de pensamento sobre o assunto religião.

Ao meu ver, discutir os símbolos religiosos é mais fácil do que enfrentar a distribuição de renda, a fome, injustiça e a desigualdade social. Não nego a importância do assunto, mas acharia cômico se não fosse trágico que as pessoas se ofendam com uma cruz o bastante para acionar o Estado e não o façam diante de outras situações evidentemente mais prementes. Talvez mexer com os religiosos seja mais simples, divertido e seguro, mas certamente não demonstra uma capacidade superior de escolher prioridades. Portanto, parece conveniente lembrar que católicos, judeus, evangélicos, espíritas e muçulmanos, e bom número de ateus também, gastam suas energias ajudando aos necessitados. Tenho a esperança de que nas discussões haja mais coerência e menos “pirotecnia” e “perfumaria” de quem discute o sexo, digo, a existência dos anjos em vez de enfrentar os verdadeiros problemas de um país que, salvo raras e desonrosas exceções, é palco de feliz tolerância religiosa.

A eliminação dos símbolos religiosos atende aos desejos de uma vertente religiosa perfeitamente identificada, e o Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras. A solução correta para a hipótese é tolerar e conviver com as diversas manifestações religiosas. Assim, os carros poderão continuar a falar em Jesus, Buda, Maomé, Allan Kardec ou São Jorge sem que ninguém deva se ofender com isso. Ou, se isso ocorrer, que ao menos não receba o beneplácito de um Estado que optou por ficar equidistante das inúmeras, infinitamente inúmeras, formas de se pensar o tema fé. Não ter fé e não apreciar símbolos religiosos é apenas uma delas, respeitabilíssima, mas apenas uma delas.

Por fim, acaso fosse possível ser feita uma opção, não poderia ser pela visão da “minoria”, mas da “maioria”. Talvez essa afirmação choque o leitor. Dizer que se for para optar, que seja pela “maioria” choca, pois o conceito de “respeito às minorias” já está razoavelmente assimilado. Mas também deveria chocar a ditadura da minoria, a tirania dos que se transformam em vítimas ao invés de evoluírem o suficiente para ver nos símbolos religiosos não uma ofensa, mas um direito, e entender que os que já estão por aí, nas ruas, repartições e monumentos são apenas uma consequência da nossa longa formação histórica e cultural.

Em suma, espero que deixem este crucifixo, tão católico apostólico romano quanto é, exatamente onde ele está. Excluir símbolos é fazer o Estado optar por quem não crê. A laicidade aceita todas as religiões ao invés de persegui-las ou tentar reduzi-las a espaços privados, como se o espaço público fosse privilégio ou propriedade de quem se incomoda com a fé alheia. Eu, protestante e empedernidamente avesso às imagens esculpidas, as verei nas repartições públicas e saudarei aos católicos, que começaram tudo, à liberdade de culto e de religião, à formação histórica desse país e, mais que tudo, ao fato de viver num Estado laico, onde não sou obrigado a me curvar às imagens, mas jamais seria honesto (ou laico, ou cristão, ou jurídico) me incomodar com o fato de elas estarem ali.

Autor: William Douglas juiz federal, professor, escritor, mestre em Direito – UGF, Especialista em Políticas Públicas e Governo – EPPG/UFRJ. (e Batista).
Enviado por: Dilma Faria Terra


Faz bem prever a vida?

Você já imaginou alguma vez se existisse um filme que mostrasse a sua trajetória de vida do começo ao fim? Se pudesse hoje conhecer o futuro em detalhes? Saber antecipadamente o resultado das suas escolhas?

Se isso fosse possível assistiríamos a esse filme e só depois decidiríamos com quem casar, ter filhos ou não, qual carreira seguir, entre tantas outras dúvidas que surgem ao longo da nossa história.

Tentar prever o futuro é um desejo bastante comum entre as pessoas, na busca de diminuir os riscos e de se sentirem mais seguras perante os imprevistos da vida.

Tentativas de controlar a vida

Como conhecer o futuro não é garantido, existem aquelas pessoas que pensam em todas as possibilidades referentes a uma decisão a ser tomada, buscando se precaver de problemas que a mesma poderá gerar. Por isso, os aspectos negativos acabam ganhando maior atenção. Certa vez ouvi me falarem: “Penso em todas as possibilidades ruins, porque assim estou preparado se algo não der certo depois”.

Trata-se de um tipo de ansiedade antecipatória que ocorre, muitas vezes de forma inconsciente, para diminuir a insegurança e o medo que surgem junto com a necessidade de tomar decisões e construir uma trajetória própria. Quanto mais ansiosa a pessoa for, mais forte costuma ser esse processo.

Porém, é uma forma ilusória de ter o controle da situação, que na realidade gera duplo sofrimento. No momento presente esses pensamentos por si só geram diversos sentimentos como medo, aumento da insegurança e ansiedade, e, consequentemente, não permitem que a pessoa possa aproveitar cada situação plenamente. No momento futuro, caso esses pensamentos ruins se concretizem (o que geralmente não ocorre) o sofrimento existirá da mesma forma. Com isso, ela sofreu em dobro acreditando estar preparada para os imprevistos que poderiam ocorrer.

As tentativas de controle ocorrem de maneira “automática” em muitas pessoas, ou seja, sem se dar conta, já estão rodeadas por pensamentos antecipatórios e ruins.

Como driblar os pensamentos antecipatórios?

Uma técnica eficaz para frear, momentaneamente os pensamentos futuros e ansiogênicos, é tentar se concentrar e pensar em outra coisa que não tenha nada a ver com o assunto. São formas de desviar a atenção e tentar focar em outro tema. A meditação e a yoga são práticas que ajudam nesse processo e acalmam a mente e o corpo.

Outra forma, com efeito mais duradouro, é o auto-conhecimento. Conhecer o que gera ansiedade e os motivos reais que fazem você sentir medo. Saber qual caminho se quer trilhar e onde se deseja chegar. Não perder de vista qual é o seu objetivo. Para isso, o psicólogo pode ser um aliado importante.

A vida é um caminho

É importante curtir cada etapa da vida, o que inclui as vitórias, mas também os obstáculos. Poder olhar para trás e ver o quanto percorremos do caminho traçado. Isso promove uma sensação de conquista, superação dos próprios limites, crescimento e amadurecimento.

É através de acertos e erros que formamos quem somos e quem queremos ser. Para que possamos colher bons frutos no futuro precisamos ter confiança e força de vontade de viver o momento presente. Portanto, coragem!

“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher”. (Cora Coralina)

Autora: Viviane Lajter Segal
Enviado por: Yêda Saraiva


NÃO DEIXE O MUNDO VIRTUAL AFETAR SEUS RELACIONAMENTOS

Checar mensagens enquanto conversa com um amigo pode parecer descaso

Recentemente vivi uma situação que chamou a minha atenção: minhas filhas de 11 e 13 anos e o primo, de 16 anos, encontraram-se na casa dos avós no almoço de domingo. Os três com os respectivos celulares em mãos logo se uniram e foram trocar músicas e mostrar os novos jogos descobertos.

Animados, intercalavam checagens de novas mensagens que não paravam de chegar enquanto trocavam informações. Naquele momento, a diferença de idades não se fazia notar, pois todos estavam no mesmo nível tecnológico e falavam exatamente a "mesma língua".

Essa é uma das cenas mais comuns nos dias de hoje: as pessoas conectadas, checando mensagens, ouvindo músicas com fones de ouvido, mexendo em seus Ipads, Iphones, Itunes e tudo o mais que há por aí da mais alta tecnologia.

A constatação de que os adolescentes não sabem mais se relacionar sem esses aparelhinhos no meio me preocupou. Apenas bater papo ou jogar algum jogo de tabuleiro, como fazíamos antes, já não satisfaz mais. Tudo isso ficou "sem graça".

É uma grande ironia: as pessoas ali, ao vivo, não se relacionam, mas estão cheias de "amigos" na internet.

E aí eu e tantos outros pais que vivemos o mesmo dilema nos perguntamos: isso é saudável? Será que essa necessidade de estar conectado constantemente pode atropelar os relacionamentos pessoais? Qual é o limite que devemos colocar no uso desses equipamentos para que os filhos não fiquem absolutamente viciados nisso? Será, talvez, que devemos simplesmente nos conformar com a nova realidade e aceitar que pra eles isso satisfaz?

Vejo, frequentemente, outra cena que me preocupa: casais de namorados ou mesmo marido e mulher que, à mesa do restaurante ou em um barzinho com música ao vivo, não se falam. Ambos estão preocupados em checar suas mensagens no celular, as últimas postagens do Facebook ou bater papos ?virtuais? via MSN. É uma grande ironia: as pessoas ali, ao vivo, não se relacionam, mas estão cheias de "amigos" na internet. Para onde foi a qualidade dos vínculos interpessoais? O virtual vale mais que o presencial?

Temos que educar nossos filhos dando-lhes limites para que não se transformem em adultos viciados em relacionamentos "virtuais" e para que deem o devido valor ao contato humano. Como você se sente quando está contando algo para uma pessoa e ela fica o tempo todo checando mensagens, dizendo que está prestando atenção ao que você diz, mas olhando para o celular e teclando uma resposta? Não lhe parece descaso com a sua pessoa?

Pois é, infelizmente isso é cada vez mais comum. Devemos aceitar o avanço tecnológico, pois, quanto a isso, não há mais volta. Ao mesmo tempo, não podemos fechar os olhos ao que estamos fazendo com nossas relações.

Recebo casais no consultório que se queixam da escassez de diálogo em função do uso exagerado do computador por parte de um deles. A falta de limite colocado por aqueles que levam trabalho para casa e continuam conectados até tarde da noite com "coisas que não podem ser deixadas para amanhã" tem afetado diversas relações.

Pais que não têm mais tempo para os filhos, para a família, para o lazer e casais que não sabem mais o que é "namorar" vão pouco a pouco minando seus vínculos.

A internet chegou definitivamente para nos auxiliar, para abrir o mundo e nos conectar com coisas que nem imaginávamos ser possível, mas não permita que ela nos desconecte do que temos de mais valioso: nós mesmos e nossas relações verdadeiras.

Fonte: www.minhavida.com.br
Autora: Marina Vasconcellos
Psicóloga
Enviado por: Marly


DIFERENÇA LÓGICA ENTRE RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma.
A religião é para os que dormem.
A espiritualidade é para os que estão despertos.

A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.

A religião ameaça e amedronta.
A espiritualidade lhe dá Paz Interior.
A religião fala de pecado e de culpa.
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"..

A religião reprime tudo, te faz falso.
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
A religião não é Deus.
A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus.

A religião inventa.
A espiritualidade descobre.
A religião não indaga nem questiona.
A espiritualidade questiona tudo.

A religião é humana, é uma organização com regras.
A espiritualidade é Divina, sem regras.
A religião é causa de divisões.
A espiritualidade é causa de União.

A religião lhe busca para que acredite.
A espiritualidade você tem que buscá-la.
A religião segue os preceitos de um livro sagrado.
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.

A religião se alimenta do medo.
A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé.
A religião faz viver no pensamento.
A espiritualidade faz Viver na Consciência..

A religião se ocupa com fazer.
A espiritualidade se ocupa com Ser.
A religião alimenta o ego.
A espiritualidade nos faz Transcender.

A religião nos faz renunciar ao mundo.
A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.
A religião é adoração.
A espiritualidade é Meditação.

A religião sonha com a glória e com o paraíso.
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
A religião vive no passado e no futuro.
A espiritualidade vive no presente.

A religião enclausura nossa memória.
A espiritualidade liberta nossa Consciência.
A religião crê na vida eterna.
A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna.

A religião promete para depois da morte.
A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.

"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual... Somos seres espirituais passando por uma experiência humana..." (Pierre Teilhard de Chardin)

Autor: Guido Nunes Lopes
Enviado por: Sandra Fontes


É, LEITOR, CABE RIR

Foi-se o tempo em que o Judiciário era o poder menos conhecido da República. Que seu funcionamento e suas mazelas eram assuntos que somente interessavam aos profissionais do Direito. Hoje - e é um fato extremamente positivo - comenta-se sobre a Justiça em qualquer lugar. Porém, pouco se fala sobre a luta travada no interior do Judiciário. Os privilégios denunciados e comprovados estão restritos a uma pequena parcela dos magistrados e funcionários. Nos juizados de primeira instância, os juízes trabalham muito, sem a mínima estrutura operacional e o número de funcionários é insuficiente para o bom andamento dos trabalhos. E estão, até hoje, aguardando receber as "vantagens eventuais", espécie de mais-valia macunaímica. Muitos reclamam que suas sentenças condenatórias são reformadas nas cortes superiores, lançando por terra todo o trabalho realizado, além de jogar água no moinho da impunidade.

Em meio a este saudável debate, o Supremo Tribunal Federal se destaca. Suas sessões são acompanhadas pela televisão como se fosse um reality show. Os ministros adoram o som da própria voz. Os votos são intermináveis. A maior parte da argumentação poderia ser resumida em poucas páginas. Pior só o regimento interno. O parágrafo único do artigo 16 reza que os ministros "receberão o tratamento de Excelência, conservando os títulos e as as honras correspondentes, mesmo após a aposentadoria". É inacreditável. O STF não deve ter recebido a notícia que a República foi proclamada em 1889. Acredita que a denominação de ministro é um título nobiliárquico.

Um bom exemplo de como funciona aquela Corte foi a apreciação da contestação da Associação dos Magistrados Brasileiros acerca das atribuições do Conselho Nacional de Justiça. A derrota da AMB foi saudada como uma grande vitória. Foi ignorado o placar apertadíssimo da decisão: 6 a 5. E que o presidente do STF, Cezar Peluso, foi um dos vencidos (e quem assistiu a sessão deve ter ficado horrorizado com as suas constantes intervenções, atropelando falas de outros ministros, e esquecendo-se que era o presidente, e não parte ativa do debate). É sabido que Peluso também é o presidente do CNJ e adversário figadal da corregedora, ministra Eliana Calmon. Quase um mês depois da "vitória democrática", nada mudou. O STF ainda não resolveu várias pendências envolvendo a decisão, o que, na prática, pode retirar os instrumentos investigatórios do CNJ.

O STF condensa os defeitos do Judiciário. O relatório das atividades de 2011 serve como um bom exemplo. Diferentemente do ano anterior, neste, Peluso deixou de lado o culto da personalidade. Só pôs uma foto, o que, para os seus padrões, é um enorme progresso. Porém, cometeu alguns equívocos. Como um Dr. Pangloss nativo, considerou a ação do Judiciário marcada pela "celeridade, eficiência e modernização". Entusiasmado, escreveu duas introduções, uma delas, curiosamente, intitulada "visão de futuro". Nesta "visão", encerrou o texto com uma conclamação política, confusa, desnecessária e descabida para uma Suprema Corte: "O Poder Judiciário já não precisará lidar com uma sobrecarga insuportável de processos, em todas as latitudes do seu aparato burocrático, e poderá ampliar e intensificar sua valorosa contribuição ao desenvolvimento virtuoso da nação, entendido não apenas como progresso econômico, mas como avanço social, educacional e cultural, necessários à emancipação da sociedade em todos os planos das potencialidades humanas."

A leitura do relatório, confesso, causa um certo mal-estar. Por que tantas fotografias do prédio do STF? Falta o que dizer? Quando se espera informações precisas, o leitor é surpreendido por esquecimentos. Um deles é sobre o número de funcionários. Segundo o relatório, o tribunal tem como "força de trabalho disponível" 1.119 funcionários. Foram omitidos os terceirizados: "apenas" 1.305 trabalhadores! Também chama a atenção que entre as 102 mil decisões daquela Corte, 89.074 foram, apesar de possíveis e previstas no regimento interno (que deveria ser modificado), monocráticas, de um só ministro (87%), das quais 36.754 couberam exclusivamente ao presidente.

Mais estranhas são afirmações, como as do ministro Marco Aurélio. Disse no programa "Roda Viva", da TV Cultura, que julgou, em 2011, 8.700 processos. Isso mesmo: 8.700 processos. Podemos supor que metade tenha sido julgada no mérito. Sobraram 4.350. Vamos imaginar, com benevolência, que cada processo tenha em média 500 folhas. Portanto, o ministro teve de ler 2.175.000 páginas. Se excluirmos férias forenses (e haja férias!), os finais de semana, os feriados prolongados, as licenças médicas, as viagens internacionais, as sessões plenárias, o ministro deve ter ficado com uns quatro meses para se dedicar a estes processos. Em 120 dias, portanto, teve de ler, em média, 18.125 páginas. Imaginando que tenha trabalhado 14 horas diárias leu, por hora, 1.294 páginas, das quais 21 por minuto, número invejável, digno de um curso de leitura superdinâmica. E de olhos de lince (pensei até em recomendar este "método" ao ministro Ricardo Lewandowski, que declarou ter dificuldade de ler as 600 páginas com depoimentos sobre o processo do mensalão).
É, leitor, cabe rir. Fazer o quê? Mas fique tranquilo e encha o peito de ufanismo. Li no relatório que o STF está levando sua experiência aos encontros internacionais "para emitir pareceres sobre aspectos eleitorais da Albânia, serviço alternativo e regime jurídico do estado de emergência da Armênia", sem esquecer "os partidos políticos do Azerbaijão"
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Autor: Marco Antonio Villa
Fonte: www.marcovilla.com.br


INVESTIGAÇÃO SOBRE PATRIMÔNIO DE JUÍZES PERMANECE SUSPENSA

O Conselho Nacional de Justiça continuará impedido de investigar os bens de magistrados e servidores de 22 tribunais para apurar suspeitas de enriquecimento ilícito.

O ministro Luiz Fux não atendeu o pedido da Advocacia-Geral da União para submeter ao plenário do Supremo, com urgência, a proposta de cassação da liminar do ministro Ricardo Lewandowski, que suspendeu as inspeções autorizadas pela corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon.

Nesta quinta-feira, Fux determinou várias providências que deverão retardar o exame nas folhas de pagamento dos tribunais e nas declarações de bens e valores de magistrados e funcionários.

A suspensão das investigações havia sido determinada em mandado de segurança impetrado pela AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) e Anamatra (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho).

Elas alegam quebra ilegal de sigilo bancário e fiscal de mais de 200 mil pessoas.

Por entender que essas investigações atingem milhares de servidores do Judiciário, Fux abriu prazo de 15 dias para que as entidades de servidores da Justiça defendam interesses dos associados. Ele deu dez dias para que o CNJ diga se as investigações atingem titulares de cartórios.

TRÂMITE

Após o recebimento das informações, o processo será enviado ao Procurador-Geral da República. Depois disso, o relator deverá pedir data para julgamento da ação no Supremo Tribunal Federal.

Fux considerou que o pedido de urgência da AGU ficou prejudicado, pois será necessário garantir ampla defesa às partes e ouvir o Ministério Público, antes da deliberação do plenário.

No pedido, a AGU lembrou que a Procuradoria-Geral da República entendeu que não houve quebra de sigilo e arquivou representação criminal contra Eliana Calmon.

Em reforço à tese de que a liminar deve ser cassada, a AGU citou que o STF reafirmou o entendimento de que cabe ao CNJ julgar processos disciplinares contra magistrados, independentemente das corregedorias estaduais.

O presidente do STF, Cezar Peluso, atendeu pedido das associações e redistribuiu o mandado de segurança sobre a quebra de sigilo, então relatado por Joaquim Barbosa, para Fux, relator de ação anterior sobre os mesmos fatos.

Autor: Frederico Vasconcelos
Fonte: www.marcovilla.com.br


O NÃO DE ELOÁ 
(Isabel Alves) 

UM ALERTA PARA OS PAIS!!! 
Criando um Monstro

O que pode criar um monstro? O que leva um rapaz de 22 anos a  estragar a  própria vida e a vida de outras duas jovens por... Nada? 
Será que é índole? Talvez, a mídia? A influência da televisão? A situação  social da violência? Traumas? Raiva contida? Deficiência social ou mental? Permissividade da sociedade?  
O que faz alguém achar que pode comprar armas  de fogo, entrar na casa de uma família, fazer reféns, assustar e  desalojar vizinhos, ocupar a polícia por mais de 100 horas e atirar em duas pessoas inocentes?
O rapaz deu a resposta: 'ela não quis falar comigo'. A garota disse não, não quero mais falar com você.  
E o garoto, dizendo que ama, não aceitou um não.  
Seu desejo era mais importante. 
Não quero ser mais um desses psicólogos de araque que infestam os programas vespertinos de televisão, que explicam tudo de maneira muito simplista e falam descontextualizadamente sobre a vida dos outros sem sere chamados. 
Mas ontem, enquanto não conseguia dormir pensando nesse absurdo todo, pensei que o não da menina Eloá foi o único.

Faltaram muitos outros nãos nessa história toda.
Faltou um pai e uma mãe dizerem que a filha de 12 anos NÃO podia namorar um rapaz de 19.  
Faltou uma outra mãe dizer que NÃO iria sucumbir ao medo e ir lá tirar o filho do tal apartamento a puxões de orelha. Faltou outros pais dizerem que NÃO iriam atender ao pedido de um policial maluco de deixar a filha voltar para o cativeiro de onde, com sorte, já tinha escapado com vida.  
Faltou a polícia dizer NÃO ao próprio planejamento errôneo de mandar a garota de volta pra lá. 
Faltou o governo dizer NÃO ao sensacionalismo da imprensa em torno do caso, que permitiu que o tal sequestrador conversasse e chorasse compulsivamente em todos os programas de TV que o procuraram. 
Simples assim. NÃO.
Pelo jeito, a única que disse não nessa história foi punida com uma bala na cabeça.

O mundo está carente de nãos. 
Vejo que cada vez mais os pais e professores morrem de medo de dizer não às crianças. 
Mulheres ainda têm medo de dizer não aos maridos (e alguns maridos, temem dizer não às esposas). 
Pessoas têm medo de dizer não aos amigos. 
Noras que não conseguem dizer não às sogras. 
Chefes que não dizem não aos subordinados. 
Gente que não consegue dizer não aos próprios desejos.  
E assim são criados alguns monstros. 
Talvez alguns não cheguem a sequestrar pessoas. Mas têm pequenos surtos quando escutam um não, seja do guarda de trânsito, do chefe, do professor, da namorada, do gerente do banco. Essas pessoas acabam crendo que abusar é normal.
E é legal.

Créditos:
Apresentação Elaborada pelo Professor Jorge Pétrus
http://www.professorjorge.org
Artigo publicado no JB, da drª Maria Isabel, professora de psicologia, que denominei de "o não de Eloá". 

Centro de Apoio e Defesa da Cidadania-RJ 
Encaminhado por sua aluna Danielli Pinho.
Enviado ao Site "velhos amigos" por Cely Cunha


MUDE & MARQUE

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos.
Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... você começará a perder a noção do tempo.

Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo
as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea.

Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva
do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.

Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: nosso cérebro é extremamente otimizado.

Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho.

Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade.

Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo.

É quando você se sente mais vivo.

Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e "apagando" as experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente. Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo.
Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo.
Como acontece?
Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente);

O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência).

Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente.
Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa...
São apagados de sua noção de passagem do tempo...

Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir-as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações... enfim... as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo.

Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de
novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.
Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a... r-o-t-i-n-a.
Não me entenda mal.

A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.

Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M (Mude e Marque).

Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas.
Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia).

Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais.

Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo.

Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente.

Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes.
Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes.
Seja diferente.

Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos... em outras palavras...
V-I-V-A
.

Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo.

E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o... do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.
Cerque-se de amigos.

Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.
Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?
Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

Autor: Airton Luiz Mendonça
(Artigo do jornal o Estado de são Paulo)
Enviado por: Nilce de Oliveira


 

SEXALESCENTES RESULTAM DE JOVENS SENIS

Carmen Dell’Orefice, a modelo mais velha do mundo em atividade, completou 80 anos em 2011, nessa foto da campanha publicitária da Rolex, é associada à frase: classe é para sempre. Sem dúvida Carmem é, como sempre foi, uma beldade. Mas será que é saudável os idosos se compararem a ela, submeterem seus corpos a rotinas, dietas e plásticas para corresponder a esse padrão de beleza? Buscarem essa infinita classe, mencionada no slogan?

Com o aumento da expectativa de vida e a disposição de recursos maior na camada mais madura da sociedade, esse nicho de mercado passa a ser interessante para diversas empresas que passaram a investir na construção de uma imagem marcária mais condizente com essa faixa etária de consumidores. Mas ainda assim, muito distante da realidade.

Edgar Morin chamou esse processo de “juvenilização” do homem. Antes a pessoa aprendia enquanto jovem e depois passava a aplicar o que aprendeu. Não se ensinava truque novo a cachorro velho. Atualmente esse ditado é completamente anacrônico. Haja vista a quantidade de idosos aprendendo a usar as máquinas computacionais contemporâneas, por exemplo.

E têm de aprender na marra. Não há alternativa, mesmo os que se recusam a usar os notórios computadores e celulares, são obrigados a usar caixas eletrônicos, monitores cardíacos, leitores de código de barras entre infinitos outros equipamentos que utilizam processadores.

Assim, os adultos e idosos contemporâneos tem de manter características próprias dos jovens. Têm de estar dispostos a aprender, jogar, brincar, competir, preencher seu dia com atividades novas e desafiadoras. Tudo isso mantendo a vitalidade, alegria e força. O tempo social e cultural se sobrepõe ao tempo físico do corpo.

Os velhos tem de ser ágeis e despertos, como os jovens para poderem ocupar o espaço público. Essas características são necessárias até para as atividades mais corriqueiras como atravessar uma rua, já que os sinais fecham tão rápido que se o pedestre não for capaz de correr, arrisca ser atropelado.

Em contrapartida a essa “juvenilização”, do outro lado da pirâmide etária, os jovens estão sendo cobradas cada vez mais cedo a demonstrar responsabilidade, tomar decisões, assumir riscos individuais. “O mesmo espírito do desafio que estimula a permanência da jovialidade e do vigor, exige das crianças que sejam precocemente adultas para fazerem frente à variedade, diversidade e onipresença do perigo e para fazerem frente à complexidade das escolhas e decisões a que são submentidas. Isto trouxe como consequência uma precoce e forçada senilização da juventude.” (Baitello Jr., 2005: 27)

Desde muito cedo, começam a ser expostos a imagens educacionais, informacionais, comportamentais, publicitárias e comerciais. São vistos como consumidores. Mas nem sempre são preparados para processar essas imagens. Pois essa medialiteracy demanda tempo, exige experiência e maturidade

O envelhecimento comportamental precoce dos jovens pode ser percebido pelos “movimentos de conservadorismo juvenil, pelas ondas de apatia, acriticismo e desmotivação encontradas em determinados momentos e movimentos de jovens, na carência de novas utopias, no culto a velhos clichês, no esmaecimento da inventividade nas escalas mais amplas que as tribais, nas sociedades e na comunicação de massas, no apelo que sentem para as manifestações mais triviais e tolas da chamada ‘cultura de massa’, na facilidade com que sucumbem à idiotia das imagens veiculadas em proporção e dimensões cada vez menos sutis.” (Baitello Jr., 2005: 28)

Nossa sociedade atual reduz todas as coisas, incluindo o ser humano, a partes. Neste contexto, a pessoa se torna parte de um grupo e seu próprio corpo físico é considerado como um elemento separado. Nossa existência física é tomado como em paralelo à nossa existência imagética, especialmente quando as imagens são tecnicamente reproduzidos em série. Não só as pessoas consomem essas imagens, mas também as imagens consomem as pessoas.

Imagens pré-concebidas de sucesso, beleza, perfeição, entre outras, fazem as pessoas forçarem seus corpos para caber nessas imagens, às vezes em detrimento do corpo. O corpo idoso adoece de tentar viver no ritmo frenético dos jovens. Da mesma forma, causa angústia ter de decidir aos 17 anos sobre a carreira a ser adotada pelo resto da vida. Nesses exemplos, as pessoas consomem uma imagem de ser humano ideal, mas também a mesma imagem de sucesso consome o corpo, fez com que ele adoeça ou angustie. É o que Baitello Jr denomina de iconofagia.

Sexalescentes, sexagenários com comportamento de adolescentes, são resultado do mesmo processo que produz jovens senis, com comportamento de velhos. E deve ser observado com atenção, para mitigar os danos dessa cultura contemporânea iconofágica, viabilizada pelo abundante aparato comunicativo.

Autora: Danielle Denny
Enviado por: Diva Buss

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O presente artigo foi inspirado pelo livro: BAITELLO JUNIOR, Norval. A era da iconofagia: ensaios de comunicação e cultura. São Paulo: Hacker, 2005. Principalmente pelo trecho às folhas 26 e 28.


VOCÊ É BRANCO? CUIDE-SE!

Hoje, tenho eu a impressão de que o ‘cidadão comum e branco’ é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afrodescendentes, homossexuais ou se auto-declarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.

Assim é que, se um branco, um índio ou um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles.

Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior.

Os índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado.

Menos de meio milhão de índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também – passaram a ser donos de 15% do território nacional, enquanto os outros 183 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele. Nesta exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não índios foram discriminados.

Aos ‘quilombolas’, que deveriam ser apenas os descendentes dos participantes de quilombos, e não os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito.

Os homossexuais obtiveram, do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef, o direito de ter um congresso financiado por dinheiro público, para realçar as suas tendências, algo que um cidadão comum jamais conseguiria.

Os invasores de terras, que violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que o governo considera, mais que legítima, meritória a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem este ‘privilégio’, porque cumpre a lei.

Desertores e assassinos, que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para ‘ressarcir’ àqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos.

E são tantas as discriminações, que é de se perguntar: de que vale o inciso IV do art. 3º da Lei Suprema? Como modesto advogado, cidadão comum e branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios.

INCISO IV DO Art. 3º DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL A QUE SE REFERE O DR. IVES GRANDA, NA ÍNTEGRA:
"promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação."

(Ives Gandra da Silva Martins é renomado professor emérito das universidades  Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo)


DESTINAÇÃO CORRETA DO LIXO: UM CAMINHO SEM VOLTA

Um dos maiores desafios atuais da sociedade é o manejo e a destinação ambientalmente adequada dos resíduos sólidos. Após duas décadas tramitando no Congresso, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) completou um ano de aprovação em agosto. Sancionada por meio da Lei 12.305/2010 e regulamentada no Decreto nº 7404/2010, a Política representou um consenso envolvendo as partes dos ciclos da produção de resíduos sólidos no Brasil, além de governo e sociedade civil.

Para o país, o estabelecimento de um marco regulatório para a gestão desses materiais converterá em benefícios ambientais, sociais e econômicos sem precedentes. Afinal, de acordo com dados do IBGE, mais de 70% dos resíduos gerados no Brasil são destinados a lixões ou similares, sem qualquer tipo de tratamento. Com a nova lei, a partir de agosto de 2014 nenhum lixo poderá ser despejado a céu aberto em todo o país. Essa decisão é de fundamental importância para o bem-estar da população e para a manutenção do nosso ecossistema.

A PNRS determina ainda outras metas ambiciosas e necessárias que vale relembrar, como a implantação de coleta seletiva em todos os municípios brasileiros e a geração de trabalho, emprego e renda. No caso da coleta, Dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB/2008) revelam que 994 cidades dispõem desse serviço, ou seja, apenas 18% dos municípios em todo o território brasileiro.

Além de todos os benefícios ambientais e sociais, não poderíamos deixar de citar o valor econômico dos resíduos. Em estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, descobriu-se que o país perde cerca de R$ 8 bilhões por ano com a falta de reciclagem.

O manejo racional e eficiente dos resíduos sólidos deixou de ser uma solução distante, futurista e ignorada e, a cada dia, estamos mais próximos de uma realidade onde o lixo passará de ameaça para oportunidade. No Brasil, está se popularizando o conceito de Central de Tratamento de Resíduos (CTR), considerada como a solução mais segura, moderna e eficiente para tratar diversos tipos de resíduos e para permitir a extinção definitiva dos lixões.

Uma CTR é formada por um conjunto de tecnologias que evitam a poluição do solo, ar e água. Formada basicamente por um aterro sanitário que traz consigo um eficiente sistema de impermeabilização do solo, uma CTR tem a capacidade de transformar o chorume em água de reuso e o biogás gerado pelo metano em energia elétrica. Une-se a essas soluções a possibilidade de tratar resíduos da saúde, da indústria e entulho e ainda de abrigar ações de educação ambiental.

Os benefícios destes projetos vão além dos aspectos ambientais, trazendo ganho social para as comunidades onde estão inseridas, pois geram emprego e renda e aquecem a economia local, além possibilitar um considerável aumento na qualidade de vida da população.

Sabemos, entretanto, que para alcançar as metas que a Política Nacional de Resíduos Sólidos propõe, serão necessários investimentos, tecnologia e vontade política. Por isso, é tão importante a conscientização e a mobilização do poder público para esta nova realidade, especialmente nos municípios, que serão os responsáveis pelos Planos de Gerenciamento de Resíduos Sólidos Especiais. Os benefícios são incontáveis – vão da garantia da saúde da população à sobrevivência do próprio planeta.

Autor: Julius Stepansky é Diretor de Operações da Haztec Tecnologia e Planejamento Ambiental
Enviado por: Carlos Eduardo


DESCONSTRUINDO NEM

Traficante Nem impôs violência nos morros evitando sujar as mãos
Bandido deixou Rocinha e Vidigal sob seis anos de crueldades e terror

RIO - Com ordens de execuções, espancamentos e lei do silêncio, o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, impôs aos moradores das favelas da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu longos seis anos de terror. Aos 35 anos, o bandido, até ser capturado, usava métodos semelhantes aos de chefões da máfia italiana que passamos a conhecer no cinema: dava um valor enorme à família diz ter entrado no crime para pagar o tratamento da filha que sofria de uma doença óssea rara , falava poucas gírias e palavrões e evitava pegar em armas. Mas era ele quem garantia o arsenal da quadrilha e dava a palavra final no tribunal do tráfico. Manteve-se assim, encobrindo sua face violenta com discrição e presentes que dava aos moradores, e pagando um mensalão a policiais da banda podre que, segundo declarou à Polícia Federal, chegava à metade do que arrecadava, R$ 500 mil.

A verdadeira personalidade de Nem pode ser traçada a partir de relatos de moradores e de muitas escutas feitas quando ele ainda sequer era "dono" absoluto do morro. Seu lado mais cruel se revela. O mestre, como fazia questão de ser chamado, não admitia roubos que podiam atrair a polícia para a favela. Chegou a mandar surrar crianças. Uma vez, o ladrãozinho teve as mãos marcadas ao segurar um ovo quente. Nada podia atrapalhar os negócios.

A vida pessoal também era pretexto para seu exercício de poder. Vaidoso, exibia, com boas roupas e coberta de ouro, sua preferida, Danúbia Rangel, uma loura cheia de curvas, de cerca de 25 anos, que circulava pelas vielas da favela de moto e gostava de se exibir em bailes funks. Bailes patrocinados por ele, diga-se de passagem. Mas bastava alguém ousar olhar duas vezes para sua mulher que o "mestre" mandava dar um "pau" no incauto. Ou nela mesma.

Segundo policiais federais, o império das drogas de Nem foi mantido ainda com matanças de traidores e opositores, expulsando moradores da favela e ordenando espancamentos públicos para punir detratores e pequenos transgressores flagrados agindo nas favelas sob seu domínio.

Para manter seus negócios, ele atuava em três frentes: pagava propina alta à banda podre da polícia para manter seus negócios ilícitos, mandava matar inimigos e investia no assistencialismo. Não há notícia de que tenha matado alguém de próprio punho, mas temos informações de que várias pessoas foram executadas por ordem dadas diretamente por ele afirmou o delegado Victor Hugo Poubel, da Polícia Federal do Rio.

Diálogos captados em escutas telefônicas, feitas quando Nem ainda não tinha chegado ao topo do tráfico na Rocinha, comprovam que o traficante sempre foi implacável. Em processo que corre na 33 Vara Criminal, um bandido conhecido como "Peteleco" presta contas a Nem de como tratou um inimigo da facção rival do Jacaré e da Providência que teria sido torturado no Vidigal e depois executado em 2006:

Tá com um cabo na b. Quebraram ele (mataram).

Poubel coordenou as operações federais que levaram as prisões dos traficantes Alexander Mendes da Silva, o Polegar (localizado em Pedro Juan Caballero, no Paraguai), de Nem e de outras seis pessoas, entre elas os traficantes Sandro Luiz de Paula Amorim, o Peixe, e seu sócio Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, chefes do tráfico no Complexo do São Carlos. Operações consideradas fundamentais para o sucesso da entrada, sem resistência, das forças de segurança nas três comunidades da Zona Sul.

De acordo com ele, os inúmeros registros de pessoas desaparecidas nas favelas não deixam dúvidas sobre violência de Nem. No dia em que as favelas da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu foram ocupadas, cães farejadores da Polícia Federal encontraram na mata que cerca as três comunidades dois cemitérios clandestinos. Ossadas foram recolhidas e levadas para o Instituto Médico-Legal (IML). Uma delas pode ser da modelo Luana Rodrigues de Sousa, de 20 anos, que desapareceu em maio deste ano, depois de receber um telefonema. Na última vez que foi vista, a modelo subia a Rocinha pela Estrada da Gávea. Luana teria sido executada depois de Nem ter descoberto que ela mantinha um relacionamento amoroso com um militar lotado no 23 BPM (Leblon).

Ao dar a ordem, o traficante Nem, apontaram investigações da polícia, acreditava que a modelo estaria repassando informações de sua quadrilha para os policiais. Em pelo menos duas ocasiões este ano, apreensões de grande quantidade de drogas deixaram o bandido revoltado. Luana foi assassinada no alto da Favela da Rocinha, mas não morreu sozinha: uma amiga e um rapaz foram mortos na mesma ocasião. O bandido não queria testemunhas. Os três tiveram os corpos destroçados e enterrados na mata. Uma investigação da Divisão de Homicídios (DH) chegou aos autores, entre eles Nem.

Traficante nunca é bonzinho. Ele ordena assassinatos toda vez que corre risco de ter sua liderança contestada. Manda matar, espancar ou expulsa quem duvida de suas ordens afirma Victor Cesar Santos, outro delegado da PF do Rio, que foi chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecente (DRE).

O traficante assumiu o controle de toda a Favela da Rocinha em 29 de outubro de 2005, quando a Polícia Civil matou Eriomar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi. Agentes foram infiltrados na favela após uma operação e lá permaneceram. Bem-Te-Vi comandava o tráfico na parte baixa da favela, enquanto a parte de cima estava sob controle de um traficante conhecido como Lion. Nem assume o comando do tráfico e passa a controlar todo o complexo, incluindo o alto da Rocinha, o Vidigal e a Chácara do Céu.

Ele descobriu cedo que a imagem era um capital importante. Ao mesmo tempo que permitia que um bandido espancasse uma criança, ele mandava espancar o bandido quando a mãe da vítima o procurava para reclamar.

Um dos casos mais absurdos que me lembro foi quando bandidos da boca espancaram uma criança, acusada de um roubo. O menino levou coronhadas e foi surrado com cabo de fuzil. Quando a mãe procurou o traficante para reclamar, Nem se mostrou surpreso com o fato e determinou que o bandido que surrara a criança fosse também espancado conta um morador, sem se identificar,

Manipulador, Nem criou para si um personagem que começou a ser desconstruído com a prisão, quando o lobo que sempre foi saltou como fera acuada do porta-mala de um carro.

Autores: Antônio Werneck - Carla Rocha
Fonte: Jornal O Globo


ESSE PETRÓLEO VOLTARÁ A SER NOSSO!

Uma lama preta e oleosa era usada como combustível para iluminar as residências da localidade de Lobato, na Bahia, observou o engenheiro agrônomo Manoel Inácio Bastos que imediatamente procurou apoio para aprofundar suas pesquisas. Em 1939, seis anos depois, surgem os investimentos na Bacia do Recôncavo. Apenas dois anos depois é descoberto o primeiro depósito realmente comercializável: o Campo de Candeias. Desde então...

É um crime lesa-pátria, um atentado e uma ameaça à existência nacional, diante dos exemplos desastrosos dos outros países, entregar aos trustes estrangeiros (transnacionais) a exploração e o aproveitamento da riqueza petrolífera do Brasil.
Senador José Pessoa, 12/11/1948

Esse foi um dos discursos cunhados durante a mais extraordinária campanha popular que já houve no Brasil: O petróleo é nosso. Nela, trabalhadores, estudantes, professores, técnicos e cientistas, militares da ativa e da reserva, profissionais liberais, escritores, artistas etc., entidades como Clube Militar, UNE, Clube de Engenharia, faculdades, etc., todos os brasileiros se envolveram numa vigorosa campanha defendendo o petróleo como monopólio estatal como a única maneira de não se esvair essa e outras riquezas nacionais para fora do país deixando aos brasileiros o vazio e a miséria.

E os patriotas acrescentaram aos seus brados, nas reuniões, nos debates, manifestações, passeatas: O petróleo é nosso!

Depois dos trustes insistirem que não havia petróleo no Brasil, os trabalhos no poço de Lobato, na Bahia, mesmo sabotados, revelaram a existência do petróleo em solo brasileiro. Então, as grandes corporações estrangeiras se voltaram para a política de concessões destinada a explorar o nosso subsolo. Diziam que o brasileiro não tinha capacidade para a empreitada do petróleo, mas todas as expectativas foram superadas, chegando a desenvolver tecnologias inéditas, a receber o reconhecimento internacional pelo seu desempenho — entre eles, produção de petróleo em grande profundidade.

No Congresso Nacional se tornou muito pertinente a frase de Arthur Bernardes, ex-presidente e, na época, deputado: “Já tive o ensejo de dizer desta tribuna que uma das tarefas mais árduas para o político no Brasil é defender as riquezas naturais do país. Estrangeiros se mancomunaram contra elas e conseguem, não raro, aliciar nacionais para trair sua pátria.”

Do Clube Militar saíram passeatas com o próprio Arthur Bernardes (que não era afeito a comícios) e avolumou-se nas ruas. Os mais autênticos líderes operários, que desde suas campanhas econômicas mobilizavam os trabalhadores e elevavam o conteúdo político das suas reivindicações legítimas, das mais justas razões nacionais e morais, transformaram a divisa do Petróleo é nosso numa palavra-de-ordem e no clamor nacional que se alastrou por todo o território brasileiro. O povo inteiro havia se mobilizado.

Em 3 de outubro de 1953 foi sancionada por Getúlio Vargas a lei do monopólio estatal do petróleo, criando a Petrobrás (Petróleo Brasileiro S/A).

Não tardou em ser apresentada uma lei no Senado visando revogar a lei da Petrobrás — de autoria do então senador Assis Chateubriand. Foi derrotada pelos patriotas.

Agora, quase cinquenta anos depois, sub-repticiamente, atendendo aos interesses dos trustes, quebraram o monopólio da Petrobrás. Desrespeitaram a vontade do povo, a tenacidade, a competência e tudo que os brasileiros construíram em desenvolvimento de tecnologias, de estruturação industrial e em empreendimentos avançados.

Porque é decisiva a atuação da Petrobrás estatizada:
A Petrobrás em menos de 50 anos investiu 100 bilhões de dólares somente em atividades petrolíferas no Brasil. Compare: 6.311 empresas estrangeiras (corporações transnacionais e suas prepostas), no século XX, investiram juntas 90 bilhões de dólares em todas as atividades.

Esta é a diferença da empresa que tem alma brasileira e é estatal para servir à população.

A Petrobrás nunca enviou lucro para fora; reinvestiu tudo no Brasil. As estrangeiras remetem tudo para o exterior: em 1994 U$ 500 milhões; em 2000 as remessas subiram para U$ 20 bilhões.

A produção de GLP (gás de cozinha) permitiu uma enorme preservação de nossas matas e diversificação de matérias-primas, substituindo o uso da lenha no preparo dos alimentos.

Desenvolveu tecnologia própria para unidade de lubrificantes básicos de petróleo, possibilitando ao petróleo nacional um rendimento melhor.

Na área de refino, com o Cenpes (Centro de Pesquisa da Petrobrás) construiu os parques de lubrificante que permitiu a independência do Brasil nessa área — desapareceu a necessidade de importá-los.

Desenvolveu avançado esquema administrativo. O funcionário da Petrobrás entrava por concurso público e incorporava a existência da empresa em sua vida, porém em condições dignas.

Aumentou a capacidade de refino de 2 mil para 7,8 milhões de barris/dia.

Entre 1980 e 1990 os navios passaram a ser construídos no Brasil, atingindo uma frota de mais de 6 milhões de toneladas.

A Petroquisa (Petrobrás Química S/A), além de evitar importações e remessas de lucros de empresas estrangeiras, gerou muitos empregos.

Desenvolveu muitas tecnologias com as nossas universidades.

Em 1973, a participação nacional na produção de fertilizantes era de apenas 13%; 12 anos depois, (1985), apenas 15% do total empregado na agricultura vinha do exterior.

Quem compra, pode vender — tem o parceiro. A Interbrás (Comércio Internacional S/A), subsidiária da Petrobrás, na contra-mão do processo controlado pelas corporações estrangeiras do petróleo, vendeu automóveis, açúcar, eletrodomésticos, soja, equipamentos, carnes e obras de engenharia.

A Petrobrás recolhe U$ 6,5 bilhões em impostos por ano, enquanto todo o sistema financeiro apenas 3 bilhões.

O alerta nacional
Todos estes benefícios para o povo brasileiro estão sendo destruídos em benefício do cartel internacional.

1 -  Estão mudando a legislação para permitir aos estrangeiros a exploração do subsolo e das reservas naturais de uma maneira geral, particularmente da água, minérios, petróleo.

2 - Buscam desnacionalizar uma Petrobrás voltada para os interesses do Brasil, empresa que contraiu importante compromisso social com a nação e o povo brasileiro.

3 - Criam a imagem de que a Petrobrás deve ser uma empresa com objetivos financeiros, exclusivamente voltada para os lucros. Impedem a sua ação precípua para o desenvolvimento nacional.

4 - Tiram a alma brasileira da Petrobrás e a transformam em “unidades de negócios”. Isso implica em que os acionistas minoritários estrangeiros passam a exigir que a Petrobrás distribua seus lucros ao invés de reinvesti-los no Brasil.

5 - Terceirizam os funcionários, alijando o melhor sistema empregatício do mundo, o do concurso público, em que o empregado insere toda a sua vida no da existência da empresa — é um absurdo a locação feita por intermédio de gigolôs de mão-de-obra, exploradores.

6 - É um crime entregar à sanha do truste internacional áreas em que a Petrobrás investiu muito e descobriu petróleo.

Está provada a competência da Petrobrás. Do poço ao posto deve haver a bandeira nacional.

Por todos os meios, diga não às limitações das áreas petrolíferas que por conquista do povo brasileiro, direito, investimento, são da Petrobrás.

Como admitir que a Petrobrás invista, bilhões, e não possa trazer os usufrutos disto para o povo brasileiro?

O petróleo é nosso! Do poço ao posto!

Assim, os empregos estarão garantidos para os brasileiros!

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Autor: Rui Nogueira é médico e escritor. Autor de Servos da moeda, Nação do sol, Amazônia, império das águas e Petrobrás, orgulho de ser brasileira.


MEU ENCONTRO COM NEM

Era sexta-feira 4 de novembro. Cheguei à Rua 2 às 18 horas. Ali fica, num beco, a casa comprada recentemente por Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, por R$ 115 mil. Apenas dez minutos de carro separam minha casa no asfalto do coração da Rocinha. Por meio de contatos na favela com uma igreja que recupera drogados, traficantes e prostitutas, ficara acertado um encontro com Nem. Aos 35 anos, ele era o chefe do tráfico na favela havia seis anos. Era o dono do morro.

Queria entender o homem por trás do mito do “inimigo número um” da cidade. Nem é tratado de “presidente” por quem convive com ele. Temido e cortejado. Às terças-feiras, recebia a comunidade e analisava pedidos e disputas. Sexta era dia de pagamentos. Me disseram que ele dormia de dia e trabalhava à noite – e que é muito ligado à mãe, com quem sai de braços dados, para conversar e beber cerveja. Comprou várias casas nos últimos tempos e havia boatos fortes de que se entregaria em breve.

Logo que cheguei, soube que tinha passado por ele junto à mesa de pingue-pongue na rua. Todos sabiam que eu era uma pessoa “de fora”, do outro lado do muro invisível, no asfalto. Valas e uma montanha de lixo na esquina mostram o abandono de uma rua que já teve um posto policial, hoje fechado. Uma latinha vazia passa zunindo perto de meu rosto – tinha sido jogada por uma moça de short que passou de moto.

Aguardei por três horas, fui levada a diferentes lugares. Meus intermediários estavam nervosos porque “cabeças rolariam se tivesse um botãozinho na roupa para gravar ou uma câmera escondida”. Cheguei a perguntar: “Não está havendo uma inversão? Não deveria ser eu a estar nervosa e com medo?”. Às 21 horas, na garupa de um mototáxi, sem capacete, subi por vielas esburacadas e escuras, tirando fino dos ônibus e ouvindo o ruído da Rocinha, misto de funk, alto-falantes e televisores nos botequins. Cruzei com a loura Danúbia, atual mulher de Nem, pilo-tando uma moto laranja, com os cabelos longos na cintura. Fui até o alto, na Vila Verde, e tive a primeira surpresa.

Não encontrei Nem numa sala malocada, cercado de homens armados. O cenário não podia ser mais inocente. Era público, bem iluminado e aberto: o novo campo de futebol da Rocinha, com grama sintética. Crianças e adultos jogavam. O céu estava estrelado e a vista mostrava as luzes dos barracos que abrigam 70 mil moradores. Nem se preparava para entrar em campo. Enfaixava com muitos esparadrapos o tornozelo direito. Mal me olhava nesse ritual. Conversava com um pastor sobre um rapaz viciado de 22 anos: “Pegou ele, pastor? Não pode desistir. A igreja não pode desistir nunca de recuperar alguém. Caraca, ele estava limpo, sem droga, tinha encontrado um emprego... me fala depois”, disse Nem. Colocou o meião, a tornozeleira por cima e levantou, me olhando de frente.

Foi a segunda surpresa. Alto, moreno e musculoso, muito diferente da imagem divulgada na mídia, de um rapaz franzino com topete descolorido e riso antipático, como o do Coringa. Nem é pai de sete filhos. “Dois me adotaram; me chamam de pai e me pedem bênção.” O último é um bebê com Danúbia, que montou um salão de beleza, segundo ele “com empréstimo no banco, e está pagando as prestações”. Nem é flamenguista doente. Mas vestia azul e branco, cores de seu time na favela. Camisa da Nike sem manga, boné, chuteiras.

– Em que posição você joga, Nem? – perguntei.

– De teimoso – disse, rindo –, meu tornozelo é bichado e ninguém me respeita mais em campo.

Foi uma conversa de 30 minutos, em pé. Educado, tranquilo, me chamou de senhora, não falou palavrão e não comentou acusações que pesam contra ele. Disse que não daria entrevista. “Para quê? Ninguém vai acreditar em mim, mas não sou o bandido mais perigoso do Rio.” Não quis gravador nem fotos. Meu silêncio foi mantido até sua prisão. A seguir, a reconstituição de um extrato de nossa conversa.

UPP “O Rio precisava de um projeto assim. A sociedade tem razão em não suportar bandidos descendo armados do morro para assaltar no asfalto e depois voltar. Aqui na Rocinha não tem roubo de carro, ninguém rouba nada, às vezes uma moto ou outra. Não gosto de ver bandido com um monte de arma pendurada, fantasiado. A UPP é um projeto excelente, mas tem problemas. Imagina os policiais mal remunerados, mesmo os novos, controlando todos os becos de uma favela. Quantos não vão aceitar R$ 100 para ignorar a boca de fumo?”

Beltrame “Um dos caras mais inteligentes que já vi. Se tivesse mais caras assim, tudo seria melhor. Ele fala o que tem de ser dito. UPP não adianta se for só ocupação policial. Tem de botar ginásios de esporte, escolas, dar oportunidade. Como pode Cuba ter mais medalhas que a gente em Olimpíada? Se um filho de pobre fizesse prova do Enem com a mesma chance de um filho de rico, ele não ia para o tráfico. Ia para a faculdade.”

Religião “Não vou para o inferno. Leio a Bíblia sempre, pergunto a meus filhos todo dia se foram à escola, tento impedir garotos de entrar no crime, dou dinheiro para comida, aluguel, escola, para sumir daqui. Faço cultos na minha casa, chamo pastores. Mas não tenho ligação com nenhuma igreja. Minha ligação é com Deus. Aprendi a rezar criancinha, com meu pai. Mas só de uns sete anos para cá comecei a entender melhor os crentes. Acho que Deus tem algum plano para mim. Ele vai abrir alguma porta.”

Prisão “É muito ruim a vida do crime. Eu e um monte queremos largar. Bom é poder ir à praia, ao cinema, passear com a família sem medo de ser perseguido ou morto. Queria dormir em paz. Levar meu filho ao zoológico. Tenho medo de faltar a meus filhos. Porque o pai tem mais autoridade que a mãe. Diz que não, e é não. Na Colômbia, eles tiraram do crime milhares de guerrilheiros das Farc porque deram anistia e oportunidade para se integrarem à sociedade. Não peço anistia. Quero pagar minha dívida com a sociedade.”

Drogas “Não uso droga, só bebo com os amigos. Acho que em menos de 20 anos a maconha vai ser liberada no Brasil. Nos Estados Unidos, está quase. Já pensou quanto as empresas iam lucrar? Iam engolir o tráfico. Não negocio crack e proíbo trazer crack para a Rocinha. Porque isso destrói as pessoas, as famílias e a comunidade inteira. Conheço gente que usa cocaína há 30 anos e que funciona. Mas com o crack as pessoas assaltam e roubam tudo na frente.”

Recuperação “Mando para a casa de recuperação na Cidade de Deus garotas prostitutas, meninos viciados. Para não cair na vida nem ficar doente com aids, essa meninada precisa ter família e futuro. A UPP, para dar certo, precisa fazer a inclusão social dessas pessoas. É o que diz o Beltrame. E eu digo a todos os meus que estão no tráfico: a hora é agora. Quem quiser se recuperar vai para a igreja e se entrega para pagar o que deve e se salvar.”

Ídolo “Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.”

Policiais “Pago muito por mês a policiais. Mas tenho mais policiais amigos do que policiais a quem eu pago. Eles sabem que eu digo: nada de atirar em policial que entra na favela. São todos pais de família, vêm para cá mandados, vão levar um tiro sem mais nem menos?”

Tráfico “Sei que dizem que entrei no tráfico por causa da minha filha. Ela tinha 10 meses e uma doença raríssima, precisava colocar cateter, um troço caro, e o Lulu (ex-chefe) me emprestou o dinheiro. Mas prefiro dizer que entrei no tráfico porque entrei. E não compensa.”

Nem estava ansioso para jogar futebol. Acabara de sair da academia onde faz musculação. Não me mandou embora, mas percebi que meu tempo tinha acabado. Desci a pé. Demorei a dormir.

Autora: Ruth de Aquino
Fonte: http://revistaepoca.globo.com


A INDÚSTRIA CONTINUA NOS ENVENENANDO

A toxicidade potencial de alimentos industrializados que utilizam corantes artificiais é complexa e controversa. Estes aditivos, cada vez mais comuns, são usados principalmente para fazer com que os alimentos ricos em calorias e pobres em nutrientes se mostrem com melhor aparência, parecendo saudáveis. Muitos deles, segundo especialistas, são tóxicos ou cancerígenos. Geralmente aparecem nos invólucros dos produtos como uma cor ou um simples código numérico.

Alguns dos aditivos alimentares que colorem produtos industrializados podem até não ser tão nocivos, mas existe atualmente uma pressão maior sobre os fabricantes para utilizarem substâncias corantes provenientes de plantas, ao invés de elementos quimicos sintéticos, potencialmente lesivos.

O caramelo, o grande precursor dos corantes alimentares, é o mais comum dentre todos. É o que faz com que as bebidas do tipo “cola” adquiram suas cores conhecidas. Existe em quase todos os líquidos bebíveis de cor amarronzada, tais como whisky, alguns sucos, vários molhos à base de soja e muitos vinagres balsâmicos. Também é utilizado em muitos tipos de junk-food, desde cookies até batatas chips. Esse corante provém da caramelização (queima) do açúcar.

Qualquer alimento queimado ou submetido à carbonização (pelo carvão) pode produzir câncer devido à liberação de uma substância denominada acrilamida. O que mais surpreende é que o FDA considera a acrilamida tóxica apenas em grandes doses e sustenta que as pequenas quantidades são insignificantes.

Muitas vezes o caramelo é processado com amônia e isto é indicado no invólucro por alguns códigos. Nos Estados Unidos, apenas o Estado da Califórnia listou todos os produtos corados à base de caramelo como carcinogênicos (passíveis de produzirem câncer).

Outro corante muito usado é à base de carmin, retirado de secreções de besouros. Muitas pessoas são extremamente alérgicas ao carmin e podem apresentar até reações anafiláticas que podem levar a estados de coma e à morte. O carmin é um corante muito utilizado em iogurtes e sorvetes.

Alguns corantes extraídos de plantas naturais começam a surgir no mercado dos alimentos industrializados. Entretanto, infelizmente o FDA, o mais importante orgão mundial na vigilância de quaisquer produtos medicamentosos ou alimentares nos Estados Unidos, mantém a autorização para vários tipos de corantes sintéticos que são, sabidamente, causadores de problemas sérios à saude.

É importante salientar que alguns pesquisadores renomados do Estado da California estão fazendo uma pressão forte para que muitos dos corantes não naturais sejam banidos do mercado, demonstrando casos clínicos de crianças que apresentaram graves manifestações clínicas. Muitos dos corantes já foram banidos em vários paises da Europa mas, como em outros exemplos bem conhecidos, existe uma força quase indestrutível do poder econômico que não quer saber o que é bom para a saúde, mas, sim, para seus bolsos. Com isso, o FDA continua rejeitando muitas das queixas referentes aos corantes alimentares no que diz respeito à saude das pessoas, mesmo com os clamores de importantes cientistas.

Por aqui também seguimos o que nos é imposto pelos interessados em lucros apenas e, com isso, continuamos vendo um contingente da população, crianças e adultos, cada vez mais pesados e doentes.

Autor: Sergio Vaisman* é médico especialista em Cardiologia e Nutrologia, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atua em São Paulo na área de medicina preventiva, é professor de pós-graduação em Bioquímica Aplicada à Medicina, pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, e professor visitante da Universidade de Estudos de Siena, na Itália. Possui inúmeros trabalhos científicos e livros publicados. Também ministra palestras nas áreas de medicina preventiva e medicina ambiental. É comentarista e consultor de saúde na TV Climatempo, produtor e apresentador do programa Saúde no Mundo Tóxico e edita o site www.sergiovaisman.med.br.
Fonte: site Mercado Ético


CORRUPÇÃO E PODER

O novo ministro do Esporte, Aldo Rebelo, afirmou recentemente que os desmandos que ocorreram em sua pasta se devem a que as ONGs passaram a ter maior participação na concretização de políticas públicas. E sentenciou: ele só fará convênios com prefeituras, não mais com segmentos da sociedade civil. Ou seja, em vez de destrinchar o que ocorre na administração federal e de analisar as bases reais do poder e da corrupção, encontra um bode expiatório fora do governo.

No caso, quanto eu saiba, é opinião de pessoa que não tem as mãos sujas por desvios de recursos públicos. Não se trata, portanto, de simples cortina de fumaça para obscurecer práticas corruptas. São palavras que expressam a visão de mundo do novo ministro: o que pertence ao "Estado", ao governo, é correto; o que vem de fora, da sociedade, traz impurezas... O mal estaria nas ONGs em si, não no desvio de suas funções nem na falta de fiscalização, cuja responsabilidade é dos partidos e dos governos.

Esse tipo de ideologia vem associado a outra perversão corrente: fora do partido e do governo nada é ético; já o que se faz dentro do governo para beneficiar o partido encontra justificativa e se torna ético por definição.

Repete-se algo do mensalão. Naquele episódio, já estava presente a ideologia que santifica o Estado e faz de conta que não vê o desvio de dinheiro público, desde que seja para ajudar os partidos "populares" a se manterem no poder. Com uma diferença: no mensalão desviavam-se recursos públicos e de empresas para pagar gastos eleitorais e para obter apoio de alguns políticos. Agora são os partidos que se aninham em ministérios e, mesmo fora das eleições, constroem redes de arrecadação por onde passam recursos públicos que abastecem suas caixas e os bolsos de alguns dirigentes, militantes e cúmplices.

A corrupção e, mais do que ela, o "fisiologismo", o clientelismo tradicional, sempre existiram. Depois da redemocratização, começando nas prefeituras, o PT - e não só ele - enveredou pelo caminho de buscar recursos para o partido nas empresas de coleta de lixo e de transporte público (sem ONGs no meio...). Há, entretanto, uma diferença essencial na comparação com o que se vê hoje na esfera federal. Antes o desvio de recursos roçava o poder, mas não era condição para o seu exercício. Agora os partidos exigem ministérios e postos administrativos para obterem recursos que permitam sua expansão, atraindo militantes e apoios com as benesses que extraem do Estado. É sob essa condição que dão votos ao governo no Congresso. O que era episódico se tornou um "sistema", o que era desvio individual de conduta se tornou prática aceita para garantir a "governabilidade".

Dessa forma, as "bases" dos governos resultam mais da composição de interesses materiais que da convergência de opiniões. Com isso perdem sentido as distinções programáticas, para não falar nas ideológicas: tanto faz que o partido se diga "de esquerda", como o PC do B, ou centrista, como o PMDB, ou de centro-direita, como o PR, ou que epíteto tenham, todos são condôminos do Estado. Há apenas dois lados, o dos condôminos e o dos que estão fora da partilha do saque. O antigo lema "é dando que se recebe", popularizado pelo deputado Cardoso Alves no governo Sarney, referia-se às nomeações, ao apadrinhamento, que, eventualmente, poderiam levar à corrupção, mas em si mesmo não o eram. Tratava-se da forma tradicional, clientelista, de fazer política.

Hoje é diferente. Além da forma tradicional - que continua a existir -, há uma nova maneira "legitimada" de garantir apoios: a doação quase explícita de ministérios com as "porteiras fechadas" aos partidos sócios do poder. Digo "legitimada" porque desde o mensalão o próprio presidente Lula outra coisa não fez senão justificar esse "sistema", como ainda agora, no caso da demissão dos ministros acusados de corrupção, aos quais pediu que tivessem "casca dura" - ou queria dizer caradura? - e se mantivessem no cargo. Num clima de bonança econômica, a aceitação tácita deste estado de coisas por um líder popular ajuda a transformar o desvio em norma mais ou menos aceita pela sociedade.

Pois bem, parece-me grave que, no momento em que a presidenta esboça uma reação a esse lavar de mãos, um ministro reitere a velha cantilena: a contaminação adveio das ONGs. Esqueceu que o governo tem a responsabilidade primordial de cuidar da moral do Estado. Não há Estado que seja por si só moral, nem partido que seja imune à corrupção pela graça divina. Pior, que não se possa tornar cúmplice de um sistema que se baseie na corrupção.

O "sistema" reage a essa argumentação dizendo tratar-se de "moralismo udenista", referência às críticas que a UDN fazia aos governos do passado, como se ao povo não interessasse a moral republicana. Ledo engano. É só discutir o tema relacionando-o, por exemplo, com trapalhadas com a Copa para ver se o povo reage ou não aos desmandos e à corrupção. A alegação antimoralista faz parte da mesma toada de "legitimação" dos "malfeitos". Não me parece que a anunciada faxina, embora longe de haver sido completa, tenha tirado apoios populares da presidenta. O obstáculo a uma eventual faxina não é a falta de apoio popular, mas a resistência do "sistema", como se viu na troca de um ministro por outro do mesmo partido, possivelmente também para preservar um ex-titular do mesmo ministério que trocou o PC do B pelo PT e hoje governa o Distrito Federal. Estamos diante de um sistema político que começa a ter a corrupção como esteio, mais do que simplesmente diante de pessoas corruptas.

Ainda há tempo para reagir. Mas é preciso ir mais longe e mais rápido na correção de rumos. E nesse esforço as oposições não se devem omitir. Podem lutar no Congresso por uma lei, por exemplo, que limite o número de ministérios e outra, se não a mesma, que restrinja ao máximo as nomeações fora dos quadros de funcionários. Por que não explicitar as condições para que as ONGs se tornem aptas a receber dinheiros públicos? Os desmandos não se restringem ao Ministério do Esporte, há outros na fila. Os dossiês da mídia devem estar repletos de denúncias. Não adianta dizer que se trata de "conspirações" contra os interesses populares. É da salvaguarda deles que se trata.

Fonte: O Estado de S. Paulo
Autor: Fernando Henrique Cardoso
Sociólogo, foi, Presidente da República
Enviado por: João Paulo


OS BONS SÃO MAIORIA

Uma campanha de marketing nacional trouxe uma verdade bela e esperançosa.

... Espalhados pelas cidades, vários outdoors revelavam alguns dados estatísticos muito interessantes. Eis alguns deles:

Para cada pessoa dizendo que tudo vai piorar, existem cem casais planejando ter filhos.

Para cada corrupto existem oito mil doadores de sangue.

Enquanto alguns destroem o meio ambiente, 98% das latinhas de alumínio já são recicladas no Brasil.

Para cada tanque fabricado no mundo, são feitos cento e trinta e um mil bichos de pelúcia.

Na Internet, a palavra amor tem mais resultados do que a palavra medo.

Para cada muro que existe no mundo, se colocam duzentos mil tapetes escritos “bem-vindo”.

Enquanto um cientista desenha uma nova arma, há um milhão de mães fazendo pastéis de chocolate.

Existem razões para acreditar. Os bons são maioria.

Estamos precisando de visão otimista e positiva como esta em nosso mundo.

Aqueles que desejam ver o mundo em pânico e se alimentam de notícias ruins – pois dizem que são essas que vendem – não podem mais controlar nossos sentimentos.

Nós, como consumidores de notícias, de informações, devemos mostrar que desejamos também ver o lado bom do mundo, da vida, das pessoas.

Se analisarmos qualquer noticiário, seja local ou nacional, iremos ainda perceber a grande dominação das notícias ruins, como se o mundo estivesse vivendo o caos absoluto.

Não é bem assim. Muito de bom está sendo feito no mesmo instante em que ocorrem assassinatos, acidentes, crises políticas, etc.

O bem está sendo construído no mundo, sim, mesmo os pessimistas e terroristas de plantão dizendo que não ou mesmo se negando a ver.

O que acontece é que, muitas vezes, os bons ainda são tímidos e receosos. Isso os impede de se sobrepor aos maus bulhentos e arrojados.

Allan Kardec, em O livro dos Espíritos, questiona, no item 932:
Por que, no mundo, os maus têm geralmente maior influência sobre os bons?

Eis a resposta que obteve dos Espíritos:
É pela fraqueza dos bons. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes últimos quiserem, dominarão.

Permaneçamos refletindo sobre esta última afirmação: Quando os bons quiserem, dominarão.

Reflitamos qual nosso papel nesta mudança. O que posso fazer para ter parte nesta dominação pacífica e definitiva do bem na face da Terra.

Permitamos que nossos gestos de amor ganhem o mundo e mostrem à sombra que seus dias de dominação estão contados.

Raia o sol de uma Nova Era. O tempo do amor finalmente chegou.

Façamos parte desta transformação de alegria que tomará conta do orbe. Amemos mais. Participemos mais. Sorriamos mais.

Atenciosamente,
Muaciel Marques

Autor: Muaciel Marques
Enviado por: José Moreno


COMEMORAR O MEDO

Bom,
Nada mais inseguro do que um escritor numa conferência sobre segurança, um escritor que se sente um pouco solitário porque foi o único convidado nesta e na anterior edição… preciso de um abrigo,preciso de um refúgio… é um texto que vou ler… o presidente tinha dito que eu devia falar espontaneamente... Não sou capaz em sete minutos. Eu escrevi este texto que vou ler e chama-se Comemorar o Medo.

Comemorar o Medo.

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos.Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.

Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más, propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história e, a mais grave dessa longa herança de intervenção externa, é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e a ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação, precisamos de intervenção com legitimidade divina. O que era ideologia passou a ser crença. O que era política tornou-se religião. O que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: Para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade.Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se quisermos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

Há uma arma de destruição maciça que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra, essa arma chama-se fome! Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome.O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, amaior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda uma outra silenciada violência. Em todo o mundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

A nossa indignação, porém é bem menor que o medo! Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo.Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente.Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer: Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares;os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras e, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe. Muito obrigado!

Autor: Mia Couto


A DOENÇA DA PRESSA

Os psicólogos dizem que o sentimento permanente de urgência sem justificativa é uma síndrome contemporânea – também gera problemas físicos

O dia da gaúcha radicada em São Paulo Edi Terezinha Ramos Caldeira, de 59 anos, começa às 5 da manhã. Ela gosta de adiantar as coisas enquanto a casa dorme. Divide seu tempo entre a casa, a família e a venda de joias. Chega a atender 40 pessoas em uma semana. Não dirige, mas pouco depende de ônibus. Como a maior parte de seus clientes vive na vizinhança e em bairros próximos,

Terezinha faz o percurso a pé. “Se somar o tempo que passo parada no ponto de ônibus e o percurso, sou mais rápida”, diz. Ela é mais rápida também do que o elevador. Seu principal ourives fica no 7o andar de um prédio no centro da cidade de São Paulo. Terezinha não se lembra se algum dia pegou a fila do elevador. Ela sobe de escada. “É uma barbaridade o que esse elevador demora.” As caminhadas com o peso da mala de rodinhas que puxa para cima e para baixo lhe renderam o desgaste da cartilagem do joelho recentemente. E, há dez anos, uma crise de depressão séria. Ela se viu, de uma hora para outra, obrigada a assumir o lugar do síndico do condomínio onde mora. “Foi muita coisa ao mesmo tempo. Pifei”, diz ela. Foi um ano de antidepressivos e terapia para Terezinha se recuperar. No ano seguinte, teve mais duas crises. Desde então, aprendeu a perceber os sintomas. Ela suspende as visitas a clientes até se recompor. E não tem depressão há oito anos.
O perfil de Terezinha faz parte do cenário da vida moderna. Quem não conhece alguém como ela? Organizada, fissurada no relógio, altamente produtiva.

Aparentemente, são pessoas que agem de acordo com as exigências das obrigações do ambiente externo. Mas cresce o número de psicólogos que desconfiam que, momento em muitas pessoas, a pressa surge sem estímulos externos justificáveis. Longos períodos de correria condicionaram as pessoas a viver dessa forma mesmo quando não precisam.
Será uma atitude normal ou doentia? A distinção é sutil. Para começar, casos assim não podem ser classificados como doença, mas como um comportamento obsessivo.

Caracterizam-se por um sentimento de pressa sem motivo. Crônico. Surge mesmo nas férias ou em situações em que não há motivo para alguém ficar ansioso ou apressado. Os principais sinais de que o sentimento de urgência fugiu do controle são quando algo simples e, aparentemente inofensivo, causa irritação e até mesmo raiva intensa. Quem fica nervoso com um sinal fechado, um elevador seguindo na direção oposta quando não está atrasado para nenhum compromisso é uma possível vítima da pressa crônica. 

Nos Estados Unidos, o termo usado para pessoas com esses sintomas é hurry sickness (ou doença da pressa). Ele foi criado pelo cardiologista americano Meyer Friedman em 1959. O médico reparou que os braços das cadeiras da sala de espera duravam muito pouco. Descobriu que os pacientes se sentavam na ponta dos assentos, na posição de quem pretende levantar a qualquer momento, e  batucavam nervosamente nos apoios de braços das poltronas. Friedman resolveu estudar os efeitos do estresse. Concluiu que pessoas tomadas pelo sentimento de urgência constante e irritabilidade eram mais sujeitas a problemas cardíacos.

A ideia de doença da pressa continua atual. Dois estudos recentes tentam mapeá-la. O primeiro deles foi feito pela coordenadora do Laboratório de Estudos Psicofisiológicos do Stress da PUC-Campinas, Marilda Lipp. Ela ouviu quase 2 mil pessoas com mais de 25 anos em São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas, e descobriu que 65% dizem viver com pressa. “Quase todos nós temos pressa, mas em 10% das pessoas que entrevistei esse sentimento é exagerado”, diz Marilda. “Essas pessoas fazem diversas atividades ao mesmo tempo, vivem com a sensação de urgência e se irritam quando sentem que estão perdendo tempo.”

Outra pesquisadora, Ana Maria Rossi, da International Stress Management Association (Associação Internacional de Gerenciamento do Estresse), entrevistou 900 profissionais entre 24 e 58 anos, em São Paulo e em Porto Alegre. Constatou que 36% deles sofrem da doença da pressa. Eles sentem pressa de forma crônica e injustificada.

O preocupante nos resultados dessa pesquisa é que o grupo identificado com esse perfil apresenta uma série de disfunções. Segundo o levantamento, 93% reclamam de crises de ansiedade, 91% de angústia e 57% de sentimentos de raiva injustificada. Dores musculares, incluindo dor de cabeça, atingem 94% dos entrevistados, 45% deles sofrem com distúrbios do sono e 24% com taquicardia.

O diagnóstico da pressa crônica é difícil de fazer. As pessoas não conseguem enxergar quando seu comportamento é exagerado em relação à realidade. Contribui para isso a imagem de eficiente que o apressado tem na sociedade. “Mesmo quando alguém reconhece que está com um problema, acha que seu ritmo de vida requer essa postura”, diz Ana Maria.

As pessoas procuram tratamento quando as consequências desse comportamento chegam a extremos. A angústia cede lugar à depressão. Os problemas com o sono ou a taquicardia tornam-se crônicos e ameaçam causar danos físicos graves, como problemas no coração. “Os pacientes recorrem aos médicos por causa de sintomas variados: taquicardia, dores musculares, cefaleia e palpitações, sem perceber que a ansiedade está por trás deles”, diz o psiquiatra Marcio Bernik, coordenador do Programa Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Para os psicólogos, está claro que pressa crônica virou um sintoma que pede tratamento. Mas entre os médicos essa abordagem é polêmica. Para eles, os psicólogos estão dando um nome novo para um problema antigo. “Os sintomas identificados nas pessoas com esse comportamento são os mesmos de alguém que sofre de Transtorno de Ansiedade Generalizado (TAG), uma doença com múltiplas causas”, diz Geraldo Possendoro, psiquiatra e psicoterapeuta especializado em estresse da Universidade Federal de São Paulo. Quem tem o TAG costuma se preocupar de forma obsessiva com o que ainda vai acontecer. “Eles têm a necessidade de se antecipar e, por isso, sentem tanta pressa.” .

Os psicólogos concordam que esse pode ser um dos quadros de TAG. Mas argumentam que encontraram a origem de um dos comportamentos obsessivos associados ao transtorno: a pressa contínua. E que isso facilita o tratamento e aumenta as chances de melhora do paciente. 

Independentemente da classificação científica da pressa crônica ou de seus sintomas, o importante é estar atento. Isso ajuda a desacelerar ou a procurar auxílio profissional quando o sentimento de urgência interfere no dia a dia, nas relações sociais e, principalmente, na saúde. O tratamento consiste em aceitar o problema, aprender a identificar comportamentos que são fruto da pressa e, aos poucos, substituí-los por ações opostas, como pegar a fila mais longa ou parar no semáforo amarelo em vez de acelerar o carro. 

A pressa é inerente à vida nas cidades. O sociólogo alemão Georg Simmel discorreu sobre a “intensificação da vida nervosa” como condição de quem vive nas grandes cidades. “Disso resulta a mudança rápida e ininterrupta de impressões interiores e exteriores do homem e suas reações”, disse ele num discurso proferido em 1903 em Frankfurt, na Alemanha. Hoje, a tecnologia, os problemas de trânsito e as exigências da vida profissional acentuaram essa vida nervosa. Nesse ponto, médicos e psicólogos concordam. Os dias de hoje exigem respostas mais rápidas, e a pressa, se não é um sintoma em si, é um dos principais fatores causadores de estresse.

“A evolução das tecnologias móveis, como celulares e computadores portáteis, tem feito com que as pessoas não se desliguem mais do trabalho”, diz Possendoro. “Elas começam a responder às mensagens ainda antes do café da manhã e se mantêm conectadas até a hora de dormir.” Os números apoiam essa tese. De acordo com uma pesquisa da consultoria Radicati Group, em um dia uma pessoa recebe mais de 100 e-mails e responde ou envia mais de 50 deles, independentemente de estar no escritório ou não. A estimativa é que, em 2014, o número de mensagens que circulam globalmente deverá aumentar em mais de 30%. 

O publicitário paulistano Marcos Mauro Rodrigues, de 57 anos, extrapola essas estatísticas. Ele recebe até 1.000 e-mails por dia e lê parte deles enquanto executa outras tarefas, como falar ao telefone. Seu dia onde trabalha na agência de comunicação começa às 9 da manhã e termina por volta das 11 da noite, com apenas 15 minutos para o almoço. Férias de um mês não fazem parte de sua vida há duas décadas. Marcos fuma dois maços de cigarro por dia e abusa do café. “Sei que meu corpo sofre”, diz. “Mas acho que, se ficar uma semana em uma rede no sítio sem fazer nada, tenho um chilique.”

Nesse cenário cheio de ralos para escoar as horas do dia, apressar-se é a diferença entre ter ou não tempo para o prazer e a família. Para os psicólogos, saber diminuir o passo é tão importante quanto conseguir acelerá-lo.
A vida é muito curta para ser vivida sempre com pressa.

Autoras: Flávia Yuri e Margarida Telles
Fonte: Revista Época


ERRO E PERDÃO

O antigo presidente Juscelino Kubitscheck dizia que costumava voltar atrás, pois não tinha compromisso com o erro. Esta frase diz tudo. Errar faz parte de nossa vida e o aprendizado com estes erros faz com que aumente a nossa experiência e nos torne capaz de não cometer pelo menos o mesmo erro novamente.

Existem escolas que dizem que o erro é fundamental, apesar de nos trazer dissabores. Quando você erra você se questiona e este questionamento pode gerar uma mudança, crescimento e satisfação. Por outro lado tem muita gente que acha que não erra simplesmente porque não faz nada. Estes passam a vida comentando e criticando os erros dos outros e nunca assumem nada. A responsabilidade é sempre do governo, do funcionário de outro setor, do vizinho, enfim, do outro. Estes nunca se corrigem, pois acham que não erram e mesmo quando percebem não assumem seus erros.

Alguns ainda dizem que erraram por culpa do outro. Por outro lado, também é importante saber perdoar os erros dos outros e também os nossos. Isto mesmo. Perdoar a si próprio. Existem estatísticas que indicam que grande parte de doenças são de origem emocional e destas, a grande maioria é pela falta de perdoar. Quando achamos que alguém nos ofendeu e não conseguimos perdoar, isto fica remoendo o nosso consciente e causando distúrbios no nosso metabolismo, tais como ansiedade, depressão, insônia, hipertensão e muitos outros.

Isto vale para todos os relacionamentos, quer sejam profissionais ou dentro de nossa casa e variam de acordo com o que a pessoa representa para você. Por exemplo, se um bêbado lhe diz um monte de besteiras na rua, você não liga, pois nem sabe quem é o infeliz e logo esquece o acontecido. Se acontecer o mesmo com alguém muito conhecido ou mesmo querido, a situação muda completamente e você se magoa.

Por outro lado, é aí que mais precisamos perdoar. Provavelmente esta mesma pessoa que lhe magoou também já lhe deu muitas alegrias e entender um erro e perdoar é importante para bem viver. O médico e acupunturista Dr. Alexandre Massao Yoshizumi da Universidade de São Paulo diz que quando não há o perdão, os sentimentos e pensamentos costumam ser repetitivos sobre o assunto, e isto gera uma estagnação da energia, um tipo de curto circuito emocional que nos impede de ir adiante.

Quando ocorre o verdadeiro perdão, a pessoa permite que a energia flua dentro dela, desintoxicando os órgãos atacados. Por exemplo, o fígado é atacado pelos sentimentos fortes de raiva, mágoa e frustração e livrando-se deles, a doença pode desaparecer. Não devemos nos envergonhar em corrigir nossos erros, mudar de opinião e perdoar. Isto nos fará mais felizes e saudáveis.

Autor: Célio Pezza

Peter Pan e a responsabilidade

O escocês J.M. Barrie criou, por volta do ano de 1902, o seu personagem Peter Pan, representando uma criança que não desejava crescer.

A temática envolvendo o jovem Pan está sobretudo na questão de evitar os desconfortos da vida adulta, as responsabilidades, os sofrimentos.

A chamada síndrome de Peter Pan tornou-se um termo psiquiátrico usado para descrever um adulto que receia os comprometimentos, e se recusa a agir conforme sua idade, a amadurecer.

Responsabilidade é uma palavra que dói, só de dizer, só de pensar, para muitos jovens nesses dias.

Tudo parece mais leve, mais fácil, quando nos abrigamos na terra do sonho, ou na terra do nunca, usando da localização criada pelo pai de Pan, Barrie.

Compromissos são pesados, exigem isso, exigem aquilo. Por isso, é melhor não tê-los - pensam muitos.

Amadurecimento parece sinônimo de tristeza, de prisão.

Não há nada de mal em querer manter viva a sua porção criança, sua alma juvenil e sonhadora. A alma dos planos, da imaginação fértil, da criatividade - tudo isso é muito bom.

Porém, o exagero, a falta de encarar a vida como uma responsabilidade séria, poderá trazer muitos prejuízos ao Espírito em desenvolvimento.

Por que ter medo da responsabilidade? Do compromisso? São leis da natureza - caminhos necessários da vida.

E a responsabilidade não precisa ser vista como algo pesado, penoso, que cerceia nossa liberdade. Pelo contrário: quanto mais responsáveis somos, e cumpridores de nossos deveres, mais livres seremos.

Ser responsável é poder responder pelas próprias ações. É poder justificar as razões dos próprios atos. Assim, é da lei natural.

Fugir da responsabilidade é fugir da vida, das Leis Divinas.

É como se ousássemos dizer, em determinada manhã: Hoje não serei influenciado pela força da gravidade!

Não há como escapar. a falta de responsabilidade aqui gera ali, pela lei universal de causa e efeito, o compromisso de reparação, de ajuste, de acerto.

Assim, a fuga é apenas temporária, a responsabilidade apenas postergada, e novos comprometimentos adquiridos. Muitos deles, inclusive, que não seriam necessários.

Em função de tudo isso perguntaríamos aos que clamam a liberdade sem responsabilidade: de que adianta fugir? De que adianta postergar?

A vida adulta não precisa ser encarada com esse cenho carregado, com essa seriedade sisuda, cabisbaixa, amarga.

Nossa porção criança - não a que não deseja crescer, mas a que não deseja amargar - sempre nos auxiliará a enxergar os acontecimentos sob o lado bom dos mesmos.

Ela nos trará o humor saudável, a leveza nos relacionamentos com os outros, o coração aberto, sem as máculas dos preconceitos, o sorriso constante de gratidão pela oportunidade de viver.

Que possamos levar, da figura simpática de Peter Pan, a leveza de seus voos, da porção criança que nos ajuda a nunca desistir dos sonhos almejados.

Que possamos carregar em nós a criança que deseja crescer sim, em seu tempo, sem pressa, aproveitando cada fase da vida com tudo que tem a nos conceder de melhor.

Autor: Momento Espírita
Enviado por: Eunice Bertoti


RESGATEM NOSSOS BONDES

Emocionados com a recente tragédia, perplexos com o comportamento irresponsável, cínico e frígido do governo do estado, seguimos expressando nossa tristeza e indignação, em sucessivos atos e audiências públicas, cultos religiosos, concentrações nos largos ou em pequenas reuniões.

Santa Teresa é o único bairro do Brasil em que o bonde é meio de transporte e elo mais forte da identidade de seus moradores. Cantado em prosa e verso, cartão-postal do Rio, ele circula entre nós há 115 anos. Em 31 de dezembro de 1970, quando foram desligadas as estações que forneciam energia para os bondinhos que ainda restavam na cidade, o nosso seguiu nos trilhos.

Não por milagre, mas por obra corajosa e subversiva de seus funcionários, que clandestinamente puxaram cabos, fizeram um "gato" e asseguraram que ele continuasse circulando. Por meio da Associação de Moradores, a Amast, em 25 de março de 1988 conquistamos o tombamento do serviço de bondes: protegido pela lei, ele não pode parar.

Entretanto, mantê-lo ativo e seguro, sempre exigiu inúmeras mobilizações. Em 2004, quando o Banco Mundial (Bird) liberou R$22 milhões para a reforma total do sistema, 14 bondes foram levados a Três Rios, para restauração.

Anos depois, sem consulta aos moradores ou ao patrimônio histórico, nos devolveram um VLT travestido de bondinho: ele não fazia curvas, tropeçava nos trilhos, apresentava problemas nos freios e acabou matando uma jovem professora. Como a atual, esta foi uma tragédia prévia e publicamente anunciada por nossa Associação de Moradores.

Conscientes de que técnicas e tecnologias antigas são mais eficientes, duráveis e estáveis do que a maioria das invenções ditas "modernas", perguntávamos: por que jogar fora um sistema que, há mais de cem anos, se mostrava eficaz?

Agora, quando a falta de manutenção dos tradicionais bondinhos causou a morte do Nelson - nosso querido motorneiro - e de seis turistas, o governo do estado fala em privatização. Entretanto, num contexto planetário de mudança da matriz energética baseada na queima de combustíveis fósseis para outras que não agridam o meio ambiente, o sistema de bondes é um exemplo que deve ser democratizado, não privatizado.

Os turistas são bem-vindos a viajar conosco, mas não aceitamos que se torne prioritariamente turístico, isto significaria exclusão social. Em tempos de preparação da cidade para a Copa do Mundo, serão os investimentos orientados apenas pelo lucro?

Haverá ouvidos sensíveis à ideia de que, preservada, Santa Teresa poderá ser exemplo de bairro sustentável? Por quanto tempo as autoridades seguirão ignorantes em relação à importância estratégica de Santa Teresa, APA que é porta de entrada de uma das maiores florestas urbanas do planeta?

Somos pela cultura, mas não a consumista. Somos pelo turismo, mas não o de massa. Não estamos interessados num progresso que é predador das culturas locais, que quer vender nossas ruas em troca de nossa qualidade de vida.
Queremos a volta ao tempo em que o intervalo entre as viagens era de apenas 10 minutos e os moradores acertavam seus relógios orientados pela passagem do bonde.
Queremos um sistema que integre o bonde a outros meios de transporte de toda a região metropolitana.
Queremos a constituição de uma empresa pública para gerir o sistema com eficiência e visão social.

Se as definições constitucionais asseguram a gestão democrática do país, dos estados, das cidades, temos o direito de participar de todo e qualquer projeto relativo ao lugar onde vivemos. Com esta convicção seguiremos buscando o apoio de brasileiros e estrangeiros "cariocas de coração": poetas, seresteiros, intelectuais, políticos, homens e mulheres de boa vontade e de bom-senso!

Com esperança, seguiremos lutando pelo direito de ter o bonde circulando em nossas ruas, poetizando as nossas vidas, alegrando os nossos corações.

Autor: Léa Tiriba (professora da Escola de Educação da Unirio)
Fonte: O Globo


O CALDEIRÃO QUE O DIABO ABOMINOU

Há pouco mais de cem anos, bem no final do século XIX, ocorreu a Guerra de Canudos, quando, depois de algumas tentativas, finalmente tropas federais destruíram uma comunidade no interior da Bahia, matando seu líder, o beato Antônio Conselheiro, e milhares de resistentes, restando apenas alguns poucos idosos, mulheres e crianças. Cinco anos depois, Euclides da Cunha lança “Os Sertões - Campanha de Canudos”, e só a partir do lançamento dessa obra, provavelmente devido ao interesse de um editor que enxergou nela um grande filão, a história de Canudos chegou até os dias atuais. Certamente muitos pesquisadores se dedicaram ao esclarecimento dos fatos; mas, sem “Os Sertões”, talvez Canudos fosse apenas uma história de gente antiga, que não tem o que fazer e fica por aí assustando crianças que fazem xixi na cama.

Euclides da Cunha, na condição de correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo, foi o “Repórter Esso” de Canudos: testemunha ocular da História. Enquanto os jornais das grandes cidades incitavam o novo governo republicano contra a resistência dos “monarquistas” de Canudos, Euclides da Cunha registrava a carnificina cometida contra um povo relegado ao abandono e à miséria, que se perpetuam através dos tempos, monárquicos ou republicanos.

Sobre Canudos, quase todo brasileiro conhece alguma coisa que seja, mesmo superficialmente, visto que, além da obra de Euclides da Cunha e tantas outras nela inspiradas, mais recentemente o filme Guerra de Canudos foi um grande sucesso de público e palpites da crítica, além de ter sido premiado em importantes festivais. Também muitos são os vídeodocumentários sobre a Guerra de Canudos; e a maioria dos professores de História recomenda a obra euclidiana aos seus alunos.

Porém, se o episódio de Canudos é conhecido mundo afora, principalmente através de “Os Sertões”, o mesmo não ocorre com acontecimentos idênticos que também tiveram como palco os sertões nordestinos, como, por exemplo, a destruição da comunidade Caldeirão da Santa Cruz do Desterro, no Sertão do Cariri (CE).

Em meados dos anos 20, José Lourenço, um beato que foi preso por pregar em praça pública, acabou sob a proteção do Padre Cícero do Juazeiro, que lhe concedeu o direito de habitar uma propriedade abandonada, num pé da serra. Não demorou muito, o beato atraiu cerca de 500 famílias para o local, onde fundaram um vilarejo, a comunidade Caldeirão, no Sertão do Cariri. O vilarejo prosperou, com suas casinhas simples, igrejinha, escola, trabalho, atividades culturais, religiosas e de lazer, tudo sob sistema de mutirão, sem qualquer ajuda externa. A comunidade era formada por retirantes de diversos estados nordestinos.

Caldeirão tornou-se uma comunidade auto-suficiente, até mesmo ferramentas de trabalho eram fabricadas no local, algumas foram desenvolvidas apropriadamente para o trabalho em condições peculiares. Sobre a agricultura, remanescentes daquela experiência relatam que tudo era tratado de forma ecologicamente correta, atentando-se para a preservação do solo, dos mananciais hídricos, da fauna e flora, cujas explorações atendiam às normas específicas da comunidade. Criações de bovinos e caprinos garantiam o fornecimento de carne e leite, que por sua vez geravam a produção de charque, queijo e manteiga, enquanto as peles se transformavam em calçados, cintos, bolsas e artesanatos. A produção atendia ao consumo interno, e o excedente era vendido nas cidades vizinhas, principalmente nas prósperas Juazeiro e Crato, gerando receita para a aquisição de produtos necessários à sobrevivência naqueles confins.

No Caldeirão, a terra e os meios de produção eram de propriedade coletiva... Epa! Acho que foi aí que o bicho pegou! O leitor também já deve ter percebido o que deve ter acontecido com uma comunidade com essas características, na primeira metade do século 20.

Massacre de Caldeirão

Os coronéis da região, ricos fazendeiros, eram detentores de grandes fortunas, ostentavam fabulosos patrimônios que incluíam: terras, casarões, gado, engenhos, trabalhadores em regime escravo e até alguns políticos amestrados. Delegados e juízes também podiam ser considerados propriedades de alguns desses senhores da vida e da morte. Nesse contexto, prosperava uma comunidade formada por pessoas que ali chegaram arrastando corpos desnutridos, expressando abatimento moral e desesperança, como em “Retirantes”, quadro de Cândido Portinari.

Em 1936, Caldeirão se distinguia como uma comunidade relativamente próspera. Foi aí que os coronéis da região começaram a sentir dificuldade de conseguir mão-de-obra barata, trabalhadores semi-escravos. Logo se iniciou uma campanha contra aquilo que as oligarquias regionais chamavam de “uma nova Canudos”. Não demorou muito e o beato José Lourenço e seus seguidores foram perseguidos sob a acusação de “prática de comunismo primitivo”.

Depois de intensa campanha, a ditadura getulista autorizou a invasão da comunidade Caldeirão pelas forças da Polícia militar do Ceará e do Ministério da Guerra. Seus crimes: haviam encontrado uma maneira de sobreviver à seca, à fome e ao coronelismo, apenas unindo forças e pacificamente trabalhando a terra. Porém, ao contrário do que se propagava, a comunidade não dispunha de armas ou planos para enfrentar os invasores. Caldeirão, ao contrário de Canudos, não ofereceu resistência, exceto alguns gestos isolados de defesa e proteção pessoal sob impulsos do instinto de sobrevivência. Quando da invasão, os armazéns da comunidade encontravam-se abarrotados de algodão, milho, feijão, arroz, rapadura e farinha. Havia máquinas e objetos importados. Tudo foi destruído, inclusive as novas plantações e muitos animais. As mulheres foram estupradas, e os objetos pessoais de valor foram levados como prêmios de guerra.

Sobreviventes da comunidade Caldeirão, entre eles o beato José Lourenço, reorganizaram-se na Chapada do Araripe (CE), fundando nova vila, com a mesma orientação comunitária do Caldeirão. Logo, esta também foi considerada um embrião do “comunismo ateu” que se instalara do outro lado do mundo e, na visão tosca dos fazendeiros, ameaçava migrar para aquelas bandas. Desta vez os membros da nova comunidade se prepararam, ainda que de forma rudimentar, para a luta de resistência armada. Na Serra do Araripe as forças de repressão usaram aviões para bombardear um grupo de resistentes armados de peixeiras, foices, facões e espingardas de caça. A Polícia Militar do Ceará e o Exército getulista destruíram a vila e enterraram mais de mil mortos em valas comuns.

Protegido pelos seus seguidores, novamente o beato José Lourenço escapa e se refugia em Pernambuco, seu Estado de origem.

Tentativa de resgate da história

“A Universidade Regional do Cariri (URCA) planeja percorrer os caminhos trilhados pelo Beato, na busca de locais para implantação de uma sociedade solidária. A URCA pensa, também, revisitar as trilhas utilizadas por José Lourenço, nas suas fugas das forças policiais. Por conta disso, já em outubro de 2005, uma equipe da URCA refez o itinerário de José Lourenço, na fuga do Caldeirão até sua nova morada: o Sítio União, localizado no município de Exu (PE). Com a permissão do atual dono da propriedade, a equipe percorreu o local, em busca de algum vestígio que lembrasse a passagem do Beato por aquele lugar. Infelizmente, somente o alicerce do engenho, o açude e um depoimento de Zé de Teresa, neto de uma testemunha da época, resistem ao processo de esquecimento da memória de José Lourenço.”(*)

A imprensa, sob a censura do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, do Governo Vargas), quase nada publicou sobre os massacres, e mesmo as matérias obscuras que instigavam as autoridades contra as comunidades sumiram das redações, apagaram o pouco que haviam escrito sobre essa história, um importante capítulo das lutas populares no Brasil.

À comunidade do Caldeirão faltou um Euclides da Cunha para registrar a covardia, até mais brutal que em Canudos, pois o arraial baiano resistia às ofensivas: o fracasso da primeira expedição militar contra Canudos rendeu aos conselheiristas as armas do contingente que investiu contra a comunidade; o armamento adquirido no primeiro confronto serviu para vencer as tropas das duas expedições seguintes e para lutar bravamente contra a quarta expedição militar, aquela que finalmente destruiu o sonho de milhares de pessoas que insistiam em sobreviver com dignidade.

Esta é apenas uma introdução à história do Caldeirão que o diabo abominou.

Autor: Fernando Soares Campos
Fonte: Assaz Atroz


UMA PETIÇÃO NACIONALISTA

Em memória de Frédéric Bastiat.

Prezados ministros, ilustre presidente Dilma. Venho, aqui, apresentar uma petição em nome da Associação Brasileira dos Produtores de Coisas Obsoletas (ABPCO). Tendo observado atentamente as últimas medidas do governo, tal como a elevação do imposto para carros importados, não pude deixar de notar um claro viés mercantilista.

O governo, finalmente, assume sua postura nacional-desenvolvimentista, que busca proteger produtores nacionais da concorrência externa. Objetivo deveras legítimo. Afinal, faz-se mister garantir os empregos dos brasileiros, não dos chineses ou coreanos. “Quem ama protege”, disse Carlos Lessa. E é justamente com base neste nobre ideal que vos apresento esta humilde petição.

A ABPCO representa produtores de carroças, máquinas de escrever, gramofones, lampiões, tudo aquilo que foi injustamente prejudicado pelo avanço da tecnologia capitalista, importada de outros países. Pergunto: é justo um produtor de máquinas de escrever ir à falência só porque inventaram o computador?

Alguns liberais podem argumentar que o computador trouxe inúmeros benefícios para todos os consumidores, gerou produtividade maior na economia e ajudou no progresso da nação. Mas, e quanto aos empregos de todos aqueles pobres trabalhadores envolvidos na manufatura das máquinas de escrever? Como eles ficam sem proteção?
Como representante da ABPCO, regozijo-me ao saber que Vossas Excelências não sois insensíveis como os liberais. Vós compreendeis a importância de se proteger os empregos dos produtores nacionais, ainda que seus produtos sejam piores e mais caros.

Muitos empresários argumentam que o “Custo Brasil” é alto demais, que não é justo competir com esta infraestrutura, alta taxa de juros, burocracia asfixiante e impostos escorchantes. São reclamações legítimas. Mas o que o governo pode fazer? Reformas estruturais? E como fica a governabilidade? O governo vai reduzir seu raquítico gasto público, de um trilhão de reais? E como ficariam aqueles que dependem do governo? Políticos, burocratas, centrais sindicais, MST, ONGs, empreiteiras e milhões de famílias que vivem do Bolsa Família...

Aliás, permitam-me um parêntese: parabéns pelo recente anúncio do aumento de beneficiados com este programa. Já são quase 14 milhões de famílias! É assim que um programa social, que tem como meta reduzir a miséria, deve ser julgado: quanto mais gente depender do governo para viver, maior o seu sucesso. Maravilhoso será o dia em que todos estiverem no programa. Seremos tão ricos quanto Cuba!

Mas divago. Devo regressar à crítica dos empresários. O governo teria que demitir funcionários, e sabemos como os serviços públicos hoje são excelentes, justamente por conta do enorme aumento no quadro de pessoal durante a gestão petista. A saúde pública, segundo o ex-presidente Lula, é quase perfeita. Esta é uma conquista importante que não podemos abrir mão. Escolas excelentes, transporte público de primeira, segurança, e vamos sacrificar isso tudo só para permitir juros menores?

Creio que o caminho escolhido por vosso governo é mais sábio: decretar a redução dos juros na marra, mesmo sem cortar gastos públicos; aceitar mais inflação (o que são míseros 7% ao ano?); aumentar impostos; direcionar crédito subsidiado do BNDES para grandes empresas; e, claro, proteger o produtor nacional.

Alguns ousam chamar o aumento do IPI de protecionismo. Um disparate! O ministro Pimentel soube dar uma resposta à altura: argumentou que não é protecionismo porque as importações não foram proibidas. Brilhante! E é justamente pegando carona nesta lógica impecável que gostaria de propor, em vez de proibir a importação dos concorrentes, uma singela tarifa de 1.000% (o número é arbitrário; aceitamos 900%). Ninguém poderá acusar vosso governo de protecionista.

Finalizo esta petição confiante de que o governo será sensível à demanda dos produtores em questão. Empregos estão em jogo. Não podemos sacrificá-los apenas para o benefício dos consumidores, que, como bem colocou o ministro Mantega, sofrem assédio dos importados.

PS: gostaria de vos alertar quanto a uma campanha que circula na internet, de boicote aos carros nacionais após o aumento do IPI. Se os consumidores deixarem de trocar de carro até o fim do ano, os estoques poderão subir muito, entupindo os pátios das montadoras. Seria terrível para o governo. Mas não fiqueis tão preocupados. O povo é nacionalista. Quem ama o país está disposto a comprar até carroça nacional pelo preço de Ferrari. Contamos com isso..

Autor: Rodrigo Constantino
Fonte: O Globo


O JOVEM, A IDOSA E O MEIO AMBIENTE

(Onda verde?! Lembre um pouco o que houve antes)

Na fila do supermercado, o caixa diz uma senhora idosa:
- A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico são nocivas ao meio ambiente.

A senhora pediu desculpas e disse:
- Não havia essa onda verde no meu tempo.
O empregado respondeu:
- Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com nosso meio ambiente.

- Você está certo -responde a velha senhora-
nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente
.

Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas, esterilizadas e reutilizadas, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as mesmas garrafas, umas tantas vezes.

Realmente não nos preocupamos com o meio ambiente no nosso tempo.

Subíamos escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar o um carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisávamos ir a dois quarteirões.

Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o meio ambiente.

Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas e não estas máquinas bamboleantes de 220 volts.
Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.

Mas é verdade: não havia preocupação com o meio ambiente, naqueles dias.

Naquela época só tínhamos uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a tela era do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que, não se sabe como será descartado depois.

Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fazem tudo por nós. Quando embalávamos algo frágil para o correio, usávamos jornal amassado para protegê-lo, não plástico bolha ou pellets de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar.

Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a grama. Era utilizado um cortador de grama que exigia músculos.
O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia usar esteiras que também funcionam a eletricidade.

Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o meio ambiente.

Bebíamos diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos.
Recarregávamos as canetas com tinta umas tantas vezes ao invés de comprar uma outra.
Usávamos navalhas, ao invés de aparelhos 'descartáveis' e poluentes só porque a lâmina ficou sem corte.

Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas.
Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos.
E não precisávamos de GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

Minha geração VIVEU uma onda verde!

Então, não é risível que a atual geração fale tanto em meio ambiente, mas não quera abrir mão de nada para viver um pouco como na minha época?

Enviado por: Laura Maria Lellis da Silva


"O homem não aceita mais ficar triste"

" Uma das maiores autoridades brasileiras em depressão, o médico diz que, hoje, qualquer tristeza é tratada como doença psiquiátrica. E que prefere-se recorrer aos remédios a encarar o sofrimento".
Adriana Prado

RECEITA

Chalub afirma que muitos médicos se rendem aos laboratórios farmacêuticos e Indicam antidepressivos sem necessidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que a depressão será a doença mais comum do mundo em 2030 – atualmente, 121 milhões de pessoas sofrem do problema. Para o psiquiatra mineiro Miguel Chalub, 70 anos???, há um certo exagero nessas contas. Ele defende que tanto os pacientes quanto os médicos estão confundindo tristeza com depressão. “Não se pode mais ficar triste, entediado, porque isso é imediatamente transformado em depressão”,disse em entrevista à ISTOÉ.

"Hoje, brigar com o marido, sair do emprego, qualquer motivo é válido para se dizer deprimido. Mas o sofrimento não significa depressão".

Professor das universidades Federal (UFRJ) e Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ele afirma que os psiquiatras são os que menos receitam antidepressivos, porque estão mais preparados para reconhecer as diferenças entre a “tristeza normal e a patológica”. Mas o despreparo dos demais especialistas não seria o único motivo do que o médico chama de “medicalização da tristeza”. Muitos profissionais se deixam levar pelo lobby da indústria farmacêutica. “Os laboratórios pagam passagens, almoços, dão brindes. Você, sem perceber, começa a fazer esse jogo.”

"Há a tendência de achar que o medicamento vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade".

Istoé:
- Por que tantas previsões alarmantes sobre o aumento da depressão no mundo?
Miguel Chalub:
- Porque estão sendo computadas situações humanas de luto, de tristeza, de aborrecimento, de tédio. Não se pode mais ficar entediado, aborrecido, chateado, porque isso é imediatamente transformado em depressão. É a medicalização de uma condição humana, a tristeza. É transformar um sentimento normal, que todos nós devemos ter, dependendo das situações, numa entidade patológica.
Istoé:
- Por que isso aconteceu?
Miguel Chalub:
- A palavra depressão passou a ter dois sentidos. Tradicionalmente, designava um estado mental específico, quando a pessoa estava triste, mas com uma tristeza profunda, vivida no corpo. A própria postura mostrava isso. Ela não ficava ereta, como se tivesse um peso sobre as costas. E havia também os sintomas físicos. O aparelho digestivo não funcionava bem, a pele ficava mais espessa. Mas, nos últimos anos, a palavra depressão começou a ser usada para designar um estado humano normal, o da tristeza. Há situações em que, se não ficarmos tristes, é um problema – como quando se perde um ente querido. Mas o homem não aceita mais sentir coisas que são humanas, como a tristeza.
Istoé:
- A que se deve essa mudança?
Miguel Chalub:
- Primeiro, a uma busca pela felicidade. Qualquer coisa que possa atrapalhá-la tem que ser chamada de doença, porque, aí, justifica: “Eu não sou feliz porque estou doente, não porque fiz opções erradas.” Dou uma desculpa a mim mesmo. Segundo, à tendência de achar que o remédio vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade. Eu não preciso mais ser infeliz.
Istoé:
- O que diferencia a tristeza normal da patológica?
Miguel Chalub:
- A intensidade. A tristeza patológica é muito mais intensa. A normal é um estado de espírito. Além disso, a patológica é longa.
Istoé:
- Quanto tempo é normal ficar triste após a morte de um ente querido, por exemplo?
Miguel Chalub:
- Não dá para estabelecer um tempo. O importante é que a tristeza vai diminuindo. Se for assim, é normal. A pessoa tem que ir retomando sua vida. Os próprios mecanismos sociais ajudam nisso. Por que tem missa de sétimo dia? Para ajudar a pessoa a ir se desonerando daquilo.
Istoé:
- Quais são os sintomas físicos ligados à depressão?
Miguel Chalub:
- Aperto no peito, dificuldade de se movimentar, a pessoa só quer ficar deitada, dificuldade de cuidar de si próprio, da higiene corporal. Na tristeza normal, pode acontecer isso por um ou dois dias, mas, depois, passa. Na patológica, fica nas entranhas.
Istoé:
- Ainda há preconceito com quem tem depressão?
Miguel Chalub:
- Não. É o contrário. A vulgarização da depressão diminuiu o preconceito, mas criou outro problema, que é essa doença inexistente. Antes, a pessoa com depressão era vista como fraca. Hoje, as pessoas dizem que estão deprimidas com a maior naturalidade. Não se fica mais triste. Se brigar com o marido, se sair do emprego, qualquer motivo é válido para se dizer deprimido. Pode até ser que alguém fique realmente com depressão, mas, em geral, fica-se triste. O sofrimento não significa depressão. E não justifica o uso de medicamentos.
Istoé:
- Os médicos não deveriam entender este processo?
Miguel Chalub:
- Os médicos não estão isentos da ideologia vigente. O que acontece é: você vem ao meu consultório. Eu acho que você não está deprimido, que está só passando por uma situação difícil. Então, proponho que você faça um acompanhamento psicoterápico. Você não fica satisfeito e procura outro médico, que receita um antidepressivo. Ele é o moderno, eu sou o bobão. Para não ser o bobão, eu receito um antidepressivo logo. É uma coisa inconsciente.

Istoé:
- Inconsciente?
Miguel Chalub:
- Os médicos querem corresponder à demanda. Senão, o paciente sairá achando que não foi bem atendido. Receitando um antidepressivo, eles correspondem à demanda, porque a pessoa quer ser enquadrada como deprimida. Mas há a questão dos laboratórios. Eles bombardeiam os médicos.
Istoé:
- A ponto de influenciar o comportamento deles?
Miguel Chalub:
- Se for um médico com boa formação em psiquiatria, mesmo que não seja psiquiatra, ele saberá rejeitar isso, mas outros não conseguem. Eles se baseiam nos folhetos do laboratório. Não é por má-fé. Os laboratórios proporcionam muitas coisas. Pagam passagens, almoços, dão brindes. O médico, sem perceber, começa a fazer o jogo. Porque me pagaram uma passagem aérea ou me deram um laptop, acabo receitando o que eles estão querendo.
Istoé:
- O médico se vende?
Miguel Chalub:
- Sim. Por isso é que há uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibindo os laboratórios de dar brindes aos médicos. Nenhum laboratório suborna médico, não que eu saiba, nem vai chegar aqui e dizer: “Se você receitar meu remédio, vou lhe dar uma mensalidade.” Mas eles fazem esse tipo de coisa, que é subliminar. O médico acaba tão envolvido quanto se estivesse recebendo um suborno realmente.

Istoé:
- Esse lobby é capaz de fazer um médico receitar certo remédio?
Miguel Chalub:
- Aí é a demanda e a lei do menor esforço. Se o paciente chegar se queixando de insônia, por exemplo, o que o médico deveria fazer era ensiná-lo como dormir. Ou seja, aconselhar a tomar um banho morno, um copo de leite morno, por exemplo. Mas é mais fácil, tanto para o paciente quanto para o médico, receitar um remédio para dormir.
Istoé:
- Os demais especialistas também receitam remédios psiquiátricos, não?
Miguel Chalub:
- Quem mais receita antidepressivos não são os psiquiatras, são os demais especialistas. Os psiquiatras têm uma formação para perceber que primeiro é preciso ajudar a pessoa a entender o que está se passando com ela e depois, se for uma depressão mesmo, medicar. Agora, os outros, não querem ouvir. O paciente diz: “Estou triste.” O médico responde: “Pois não”, e receita o remédio. Brinco dizendo o seguinte: se você for a um clínico, relate só o problema clínico. Dor aqui, dor ali. Não fale que está chateado, senão vai sair com um antidepressivo. É algo que precisamos denunciar.
Istoé:
- Os psiquiatras deveriam ser os únicos autorizados a receitar esse tipo de medicamento?
Miguel Chalub:
- Não acho que seja motivo para isso. Os outros especialistas têm capacidade de receitar, desde que não entrem nessa falácia, nesse engodo.

Istoé:
- Mas os demais especialistas estão capacitados para receitar essas drogas?
Miguel Chalub:
- Em geral, não.
Istoé:
- É comum o paciente chegar ao consultório com um “diagnóstico” pronto?
Miguel Chalub:
- É muito comum. Uma vez chegou um paciente aqui que se apresentou assim: “João da Silva, bipolar”. Isso é uma apresentação que se faça? Quase respondi: “Miguel Chalub, unipolar”. É uma distorção muito séria.
Istoé:
- O acesso à informação, nesse sentido, tem um lado ruim?
Miguel Chalub:
- A internet é uma faca de dois gumes. É bom que a pessoa se informe. A época em que o médico era o senhor absoluto acabou. Mas a informação via Google ainda é precária. Muitas vezes, a depressão, por exemplo, é ansiedade. Mas as pessoas não querem conviver com a ansiedade, que é uma coisa desagradável, mas que também faz parte da nossa humanidade. Tenho uma paciente que disse: “Ando com um ansiolítico na bolsa. Saí de casa, me aborreci, coloco ele para dentro.” Então é isso? Se alguém me fala algo desagradável, eu tomo um ansiolítico? Isso é uma verdadeira amortização das coisas.
Istoé:
- O que causa a depressão?
Miguel Chalub:
- Esse é um dos grandes mistérios da medicina. A gente não sabe por que as pessoas ficam deprimidas. O mecanismo é conhecido, está ligado a uma substância chamada serotonina, mas o que o desencadeia, não sabemos. Há teorias, ligadas à infância, a perdas muito precoces, verdadeiras ou até imaginárias – como a criança que fica aterrorizada achando que vai perder os pais. As raízes da depressão estão na infância. Os acontecimentos atuais não levam à depressão verdadeira, só muito raramente. Justamente o contrário do que se imagina. Mas mexer na infância é muito doloroso. Não tem remédio para isso. Precisa de terapia, de análise, mas as pessoas não querem fazer, não querem mexer nas feridas. Então é melhor colocar um esparadrapo, para não ficar doendo, e pronto. É a solução mais fácil.
Istoé:
- O antidepressivo é sempre necessário contra a depressão?
Miguel Chalub:
- Quando é depressão mesmo, tem que ter remédio.
Istoé:
- Há quem diga que hoje a moda é ter um psiquiatra, não um analista. O que sr. acha disso?
Miguel Chalub:
- As pessoas estão desamparadas. Desamparo é uma condição humana, mas temos que enfrentá-lo, assim como o fracasso, a solidão, o isolamento. Não buscar psiquiatras e remédios. Em algum momento, isso pode ficar tão sério, tão agudo, que a pessoa pode precisar de uma ajuda, mas para que a ensinem a enfrentar a situação. Ensina-me a viver, como no filme. Não é me dar pílulas, para eu ficar amortecido.
Istoé:
- O que é felicidade para o sr.?
Miguel Chalub:
- A OMS tem uma definição de saúde muito curiosa: a saúde é um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Essa é a definição de felicidade, não de saúde. Felicidade, para mim, é estar bem consigo mesmo e com o outro. Estar bem consigo mesmo é também aceitar limitações, sofrimento, incompetências, fracassos. Ou seja, felicidade também é ficar triste de vez em quando.

Fonte: Isto É
Enviado por: Nilce de Oliveira Tacuchian


AH, O TÉDIO

Antropóloga da Intel diz que é preciso dar um tempo na tecnologia para viver melhor

SÃO FRANCISCO e RIO - Antes da internet, e mesmo em seus primórdios, os lançamentos de tecnologia tinham data marcada. Ou, pelo menos, eram os esperados - a nova versão de um programa, um novo computador ou periférico, processadores mais turbinados. Entretanto, com nossas vidas digitais cada vez mais on-line, o aumento da mobilidade com smartphones e tablets, a computação em nuvem e as redes sociais que podem ser acessadas de qualquer lugar, as novidades techie vêm se sucedendo em ritmo tão frenético que é quase impossível acompanhá-las. Não sobra mais espaço para nos desligarmos e "desfrutarmos" um pouco de monotonia, que pode fazer bem num cenário tão estressante. Quem garante é a antropóloga e pesquisadora Genevieve Bell, diretora de Interação e Experiência nos Intel Labs, que conversou com O GLOBO durante o Intel Developer Forum (IDF), nos EUA.

- Existe tanta tecnologia em nossas vidas, que vivemos sob uma promessa de conectividade constante, uma quase garantia de que sempre teremos à mão diversos dispositivos conectados proporcionando-nos "ricas experiências" - diz a pesquisadora.

- Mas o fato é que nós, que estamos enfronhados nesse meio high-tech, raramente clicamos no botão de "desliga" para nos entregar a momentos de tédio. E as indústrias da tecnologia e do entretenimento continuamente se dedicam a pôr o tédio para baixo do tapete, escondendo-o de nós como se fosse vergonhoso ou nocivo se entediar.

Hoje, as rainhas desse ritmo techie vertiginoso são Google e Facebook. Quase toda semana há uma atualização ou nova função na rede social de Mark Zuckerberg - só na semana passada foram os novos tipos de lista para amigos e o botão de assinatura na rede social. Já a Google se espalha por serviços como nuvem (Google Apps), navegação internet (browser Chrome) sistemas operacionais (Chrome OS e Android) e redes sociais (Google+ e Orkut). Todos atualizados constantemente - a ponto de o usuário final perder a noção da avalanche de características que chegam.

- Antes sabíamos o que esperar, mas hoje a toda hora entramos no e-mail, no Facebook ou no Twitter e aparece um aviso sobre uma nova função de que nem tínhamos ideia - constata Esteban Gonzalez Clua, professor do Instituto de Computação da UFF e gerente do Media Lab, laboratório da universidade para desenvolvimento de mídias digitais.

Se a Apple ainda anuncia suas novidades em eventos esperados, a quantidade de aplicativos presentes no iPad e no iPhone se renova num ritmo feroz. Em 2008, a App Store tinha 500 apps, hoje tem mais de meio milhão. Os downloads até setembro daquele ano foram 55 milhões e hoje já ultrapassam 15 bilhões, segundo dados da própria empresa. Com o Android não é diferente. Em março de 2009 havia 2.300 aplicativos e hoje há mais de 250 mil. Os downloads quase quintuplicaram de agosto de 2010 para cá: cresceram de 1 bilhão para 4,5 bilhões, segundo a Google e o TechCrunch.

- No mundo, há cerca de 5 bilhões de celulares e smartphones em circulação, um bilhão de PCs, mais de um bilhão de internautas e 2,5 bilhões de TVs – acrescenta  Genevieve.  - É um monte de coisas que nos afastam da monotonia. No final das contas, acabamos sendo induzidos e seduzidos a trocar o salutar tédio por uma sobrecarga de estímulos. E chegamos ao ponto em que as demandas desses nossos dispositivos excedem nossa capacidade de atendê-las

CELULAR FORA DO QUARTO DE DORMIR

Segundo a antropóloga, pesquisas nos EUA, Europa e Oceania apontam qua a primeira coisa que as pessoas fazem ao acordar é esticar o braço e pega o dispositivo mais próximo, seja um celular, um iPod ou um tablet, para ler mensagens, ouvir música e checar o Twitter ou o Facebook.

- Precisamos encontrar tempo livre em que não estejamos logados nem conectados. Deixar os celulares e Blackberries fora do quarto de dormir, pegar no sono sem a TV ligada. - aconselha. -

Algumas pessoas para vencer a compulsão de ir dezenas ou centenas de vezes por dia consultar e alimentar as redes sociais, decidiram "se matar" no Twitter e no Facebook, simplesmente deletando suas contas, de modo a voltar a ter tempo realmente livre para si.

A compulsão não é por acaso. O próprio Facebook declara em sua página de estatísticas que contém mais de "900 milhões de objetos com que as pessoas podem interagir (páginas, grupos, eventos e comunidades)" e 30 bilhões de diferentes conteúdos compartilhados a cada mês.

- Toda essa renovação de conteúdos, aplicativos e tecnologias cria um forte efeito de dispersão nos jovens (a chamada geração Y, já conectada) - afirma Esteban Clua, da UFF. - Os estudantes têm dificuldade de chegar ao final de um texto mais longo, acostumados que estão aos 140 caracteres de um tweet. Eles não conseguem se aprofundar num tema, e com isso acabam não desenvolvendo o senso crítico - alerta.

A tendência a aumentar a velocidade das novidades não dá mostras de arrefecer. Microsoft e Intel, dois gigantes dos primórdios da revolução da informação, estão correndo atrás para não se tornarem patinhos feios do binômio mobilidade/aplicativos. O Windows 8 foi praticamente reconstruído do zero, para funcionar em computadores e tablets, usando recursos mais modernos - e finalmente saindo da zona de conforto do design que já conhecíamos há milênios de ferramentas como o Painel de Controle e o Gerenciador de Tarefas-, enquanto Paul Otellini, diretor executivo da Intel, afirmou no IDF que em dez anos teremos aplicativos capazes de nos entregar o que queremos imediatamente, sem depender de buscas, e que o poder dos servidores parrudos de hoje estará em gadgets em nossos bolsos: A questão, agora, é quem vai fazer upgrade de nossos cérebros.

UM ESTADO FUNDAMENTAL DO SER HUMANO

Segundo Genevieve Bell, diretora de Interação e Experiência nos Intel Labs, um aparelho como o celular hoje não é mais um dispositivo telefônico, mas se tornou uma certeza de que não teremos mais momentos de monotonia nem períodos em que simplesmente não teremos nada para fazer, sem um game, um mapa, uma oportunidade de "teclar" com um amigo (enviar um SMS para ele) ou mesmo twittar ou postar algo no Facebook.

No entanto, a antropóloga afirma que, tanto física quanto psicologicamente, sentir-se entediado é um momento em que nosso cérebro sofre um "reset", ou seja, passa pelo que corresponderia à reinicialização de um computador quando se tecla o famoso Control+Alt+Del ou se aperta o botão de restart. E, com esse reset nossa consciência também é reinicializada.

- O filósofo Martin Heidegger, que, já em 1929, apontou o tédio como um estado fundamental do ser humano - afirma Genevieve.

De origem australiana, tendo vivido uma infância junto à natureza e em contato tanto com crianças de origem européia quanto aborígenes, Genevieve lidera na Intel um grupo de cientistas sociais, designers de interação e cientistas da computação, moldando novas tecnologias e produtos mais aderentes às necessidades e desejos das pessoas. Atuando na empresa há 13 anos, ela e sua equipe alteraram a forma como a gigantes dos processadores planeja seus produtos e suas estratégias, com foco mais no ser humano do que na capacidade eletrônica do silício.

- Minha missão é ir à casa das pessoas e aos seus locais de trabalho para contar as histórias delas quando estão imersas em novas tecnologias e trazer essas experiências para dentro da companhia - conta a especialista. - E cada vez mais percebo que, para a grande maioria, curtir o tédio é algo que faz as pessoas se sentirem culpadas por não estarem fazendo algo produtivo, absorvendo informações ou digerindo conteúdos.

Fonte: O Globo Digital
Carlos Alberto Teixeira (cat@oglobo.com.br) e André Machado (amachado@oglobo.com.br)


NIETZSCHE E O SOFRIMENTO

Todos nós temos fases ruins na vida. Todos  enfrentamos dificuldades que perecem intransponíveis.  Todos passamos por reveses, quando isso acontece, muitas vezes temos vontade de desistir.

A maioria dos filósofos tentou reduzir nosso sofrimento, oferecendo conselhos de como amenizar a dor. Teve um que se debruçou mais seriamente sobre essa questão, Friedrich Nietzsche. Ele acreditava que todos os tipos de sofrimento e fracasso deveriam ser bem-vindos no caminho para o sucesso e vistos como desafios a serem superados, como os alpinistas fazem ao subir uma montanha.

Praticamente sozinho entre os filósofos considerava os infortúnios como algo vantajoso na vida. Ele escreveu: “A todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiança e a desgraça dos derrotados.”. Para compreender o que Nietzsche quis dizer, vale a pena escalar sua montanha preferida, nos Alpes suíços.
Nietzsche entendia de esforço, tanto físico quanto mental. Sua vida foi muito difícil. Ele viveu em permanente luta contra doenças: vertigens, dores de cabeça, enjôos, provavelmente em decorrência da sífilis que contraiu jovem, num bordel em Colônia. Era obrigado a estar sempre se mudando, em busca de um local cujo clima não agravasse seu estado. O lugar onde se sentia melhor era Sils Maria, no alto das montanhas no sudeste da Suíça. Ele esteve lá pela primeira vez em junho de 1879 e apaixonou-se pelo lugar. “Tenho o melhor da Europa, com seu ar soberbo”, escreveu. “Sua natureza combina com a minha.” Ele passou oito verões em Sils Maria, em um quarto alugado por um fazendeiro. Lá ele trabalhou em algumas de suas maiores obras como: Assim falava Zaratrustra, Além do Bem e do Mal e Crepúsculos dos Ídolos. Mas seus livros não fizeram sucesso enquanto ele estava vivo, embora tenha recebido o título de professor universitário aos 24 anos. Seu pensamento destoava dos demais colegas. Ele se viu obrigado a se aposentar aos 35 anos. Pelo resto da vida viveu com pouco dinheiro e os muitos livros que escreveu foram ignorados.

Ele tinha uma rotina definida: acordava às 5h da manhã, escrevia até o meio-dia e saia para caminhadas nas montanhas ao redor do lugarejo. Nietzsche não foi viver nas montanhas só por causa do ar puro e das belas paisagens. O cenário que o rodeava espelhava suas idéias sobre si e seu trabalho. A “filosofia é o exílio voluntário entre montanhas geladas”.

A vida amorosa de Nietzsche foi igualmente desastrosa. Todas as suas tentativas de seduzir mulheres foram em vão. Muitas se assustaram com seu volumoso bigode. Diversas vezes ele confessou sofrer com a solidão. Escreveu a um amigo casado: “Graças a sua esposa, as coisas são 100 vezes melhores para você do que para mim”. Vocês têm seu ninho juntos. “Eu tenho, se tanto, um caderno”.

Nietzsche resolveu mergulhar na filosofia, mas sua vida produtiva foi abreviada cruelmente. Terminou seus dias na loucura, depois do famoso colapso nervoso em que abraçou um cavalo em Turim, no ano de 1889. Ele voltou à pensão onde morava, dançou nu, pensou em fuzilar o Kaiser e declarou ser, entre outro, Jesus, Napoleão, Buda, o rei do Piemonte, Alexandre, O Grande. Foi posto num trem de volta à Alemanha e confinado num sanatório, onde, sob os cuidados da irmã e da mãe, permaneceu onze anos, até sua morte aos 56 anos.

Uma lição que a vida difícil ensinou a Nietzsche foi que toda conquista é fruto de luta e esforço constantes, embora imaginemos o sucesso como fácil e natural para algumas pessoas. Na visão de Nietzsche, não existe estrada reta até o topo. “Não falemos de dons ou talentos inatos”, escreveu. “Podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talentos, mas conquistaram seu mérito e transformara-se em gênios. Elas fizeram isso superando dificuldades.”

Nietzsche dizia que, sem dor, sem enfrentar a dor, ninguém consegue nada. Para conseguir as coisas que valem à pena, é preciso sofrer. A essência da filosofia dele é uma idéia muito simples: dificuldades são normais. Não devemos entrar em pânico nem desistir de tudo. Nossa dor vem da distância entre aquilo que somos e o que idealizamos ser. Por não dominarmos a receita da felicidade, nós acabamos sofrendo. Mas ele achava que não bastava sofrer. Se o único requisito para se sentir realizado fossem as dificuldades, todos seríamos felizes. O segredo está em saber reagir bem ao sofrimento, ou, quem sabe, usá-lo para criar coisas belas.

Nietzsche tinha boas sugestões para isso. Ele foi um dos poucos filósofos a destacar o lado bom, das dificuldades e do fracasso. Ele achava que todos nós podíamos nos beneficiar deles. Ele dizia que o fracasso é um tabu em nossa cultura, tratado como se fosse uma coisa que só acontecesse a alguns coitados, mas ninguém fala a respeito.

E, do outro lado, há o sucesso. Os dois são coisas distintas. O interessante é a idéia de que na vida de qualquer um, mesmo sendo uma boa via, sempre haverá um grau de fracasso. Pode não ser muito, mas sempre haverá. Para Nietzsche o fracasso não bastava. Todas as vidas têm um grau de fracasso. O que tornam algumas mais satisfatórias é a forma como o filósofo é encarado.

Um dado que surpreende na biografia de Nietzsche é a vontade que ele sentiu de abandonar a vida acadêmica para se dedicar a profissão de jardineiro. Esse plano nunca se realizou, mas lidar com plantas ensinou-lhe uma lição: “Diante de problemas, devemos nos espelhar nos jardineiros. Eles deparam-se com plantas que tem raízes feias. Pois eles são capazes de cultivar algo que parece feio a princípio, até extrair a beleza que há nele.

Para ele, essa é uma metáfora de como devemos agir na vida. Pegar situações que nos parecem horríveis e fazer nascer algo de belo delas.

Há algo animado na comparação botânica feita por Nietzsche. Mesmo nossos sentimentos mais vis e negativos podem dar belos frutos se bem cultivados. Isso só depende de nós mesmos. A inveja, por exemplo, pode gerar só amargura, mas se conduzido do jeito certo, pode nos estimular a disputar com um rival e produzir algo maravilhoso. A ansiedade pode nos deixar em pânico, mas também pode nos levar a uma análise do que está errado, gerando, assim, paz de espírito. Era por isso que Nietsche desejava o infortúnio a seus amigos, por acreditar que as dificuldades eram um mal necessário e que, se cultivados com aptidão necessária, podiam levar a criação de coisas belas.

Se Nietzsche dedicou-se a pensar nas melhores reações aos problemas, ele também refletiu sobre quais seriam as mais desastrosas e concluiu que das piores era afogar as mágoas. Um dos traços mais marcantes de Nietzsche era seu horror ao álcool. Era mais uma questão de gosto pessoal. Ele dizia que qualquer pessoa que quisesse ser feliz não deveria chegar perto de bebidas alcoólicas. Ele dizia: “os espíritos mais elevados devem se abster da bebida. A água basta.” Imaginar que é bom escapar dos problemas tomando 1 ou 2 drinques de vez em quando é ter uma visão equivocada da análise nietzschiana da relação entre o sofrimento e felicidade. A felicidade não vem da fuga dos problemas, e sim do ato de cultivá-los para extrair algo positivo deles. A última coisa que Nietzsche recomendaria seria afogar as mágoas. Nossas preocupações são pistas valiosas do que está errado com a nossa vida e podemos apontar o caminho para torná-la melhor.

Nietzsche nasceu na pequena Rocken, na ex-Alemanha Oriental. Seu pai era o pastor local. A mãe extremamente devota, também era filha de pastor. O filósofo adorava o pai, e deve ter ficado em choque quando o perdeu repentinamente com apenas quatro anos. Essa perda o atormentava pela vida toda. Uma das primeiras coisas que fez quando juntou algum dinheiro, ao vencer um processo judicial contra um editor, foi comprar uma grande lápide que até hoje vemos no túmulo de seu pai. Nela, ele mandou inscrever uma frase do Novo Testamento: “Die Liebe höret nimmer auf”, “O Amor nunca morre”, uma tradicional mensagem natalina.

Mesmo tendo amado profundamente o pai e mesmo estando sepultado num cemitério cristão ao lado dele, Nietzsche via com reservas o tipo de ajuda que o cristianismo oferece em tempo de dificuldades.

É revelador visitar a casa onde Nietzsche nasceu, à sombra da igreja luterana, onde seu pai era páraco. O local está povoado em detalhes. Ele escreveu em uma atmosfera religiosa. Assim é surpreendente ler o que ele escreveu já adulto, sobre a religião de seus pais. “É justo que se leia o Novo Testamento com reservas. Em todo o texto, há uma única figura que inspira respeito, Pilatos, o governador romano. Simplificando, é indecente ser cristão hoje em dia.” Ele era contra o cristianismo pelo mesmo motivo que condenava o álcool. Ir a um culto na igreja pode fazer você se sentir melhor rapidamente, da mesma forma que se embebedar pode fazer isso. Para ele a fé cristã pode amortizar a dor, amortizando também a energia que ela nos dá para superar os problemas e chegar à verdadeira felicidade.

Há diferenças inegáveis entre a igreja e o bar. Mas, para Nietzsche o tipo de consolo oferecido nos dois locais é o mesmo. Ele acredita que o Novo Testamento tenta nos animar dizendo que muitas coisas que vemos como problema na verdade não são problemas, mas qualidades. Para quem é acanhado demais, está escrito: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra”. Para os que sofrem por não ter amigos: “Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem”. E para aqueles que sofrem com a falta de dinheiro e que invejam aqueles que o têm, lá está o consolo: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”.

Para Nietzsche essas palavras eram catastróficas como o álcool, o aconselhamento cristão pode aliviar a dor, mas também leva a energia para superar o problema que o gerou. Então, como Nietzsche gostaria que os cristãos se comportassem ao se deparar com as dificuldades? Ele queria que deixassem de fingir não desejar as coisas mais difíceis. Ele enfrentou dificuldades imensas. Ele foi pobre, doente e solitário. Mas nunca teve a atitude que acusava os cristãos de terem, ou seja, ele nunca afirmou que a saúde, riqueza e amor eram coisas ruins. Aceitava o fato de não ter essas coisas, em parte por escolha própria, em parte graças às circunstâncias, mas jamais negou seus desejos, nem sua dor. Assim, talvez não seja surpreendente encontrar nos registros funerários do vilarejo de Röcken, a inscrição deixada pelos páracos, ao lado de seu nome, dizendo “O Anticristo”.

Embora tenha tido uma vida difícil, não devemos achar que ele viveu se lamentando o tempo todo. Muitas vezes ele falava de satisfação, sobretudo quando estava nas montanhas. Mas por satisfação, ele queria dizer algo mais abrangente do que a sensação de bem-estar que talvez possamos imaginar. Chegou a escrever sarcasticamente sobre pessoas que ele considerava “viciada na religião do conforto”. Ele chamava essas pessoas de “pequenas, mesquinhas que se escondem na floresta como cervos amedrontados”. Mas aqueles que se aventurarem a sair para a clareira poderão apreciar a vista e respirar a brisa. Só então compreenderão a vantagem de abandonar o conforto em busca da verdadeira realização, como dia a famosa frase de Nietsche “Aquilo que não me mata só me fortalece”.

Como todos os filósofos, o interesse de Nietzsche era que as pessoas fossem felizes, mas diferentemente de todos os outros, ele acreditava que os extremos da dor eram um componente vital para chegar a felicidade que tinha em mente. Nem tudo aquilo que nos faz sofrer é necessariamente ruim, assim com nem tudo que nos dá prazer necessariamente nos faz bem. “Considerar o sofrimento como algo mau a ser abolido, é o acúmulo da idiotice.”

Autor: Alexandre Caires
Enviado por: Yedda Campos


O futuro no pretérito

Luís Eduardo de Carvalho andava se sentindo incomodado. Consultor em inovação – ele dirige a Nodal Consultoria junto com mais dois sócios – e professor em cursos de alto nível, ele achava que havia qualquer coisa muito errada na obsessão desmedida por novidades que sentia nos alunos. O termo ‘inovação’ carrega um juízo de valor. "Se só o que é novo é bom, então tudo o que é velho é ruim?”, questionava-se, até que teve um lampejo de que era perfeitamente possível inovar voltando ao antigo. Fã de neologismos, ele cunhou o termo envelhação (envelhecimento + inovação) para dar conta da ideia.

“Não existe nada de novo sob o sol, mas a gente fica nessa dicotomia entre o novo e o velho”, justifica. E conta uma historinha vivida há pouco tempo para mostrar que a linha nem sempre é clara. Ele e um grupo de alunos gastaram dois dias inteiros em um exercício para a criação um modelo de negócios inovador na área de mobilidade urbana. Partindo dos modernérrimos sistemas de car sharing (As empresas de car sharing alugam carros por períodos curtos e preços baixos para clientes que pagam uma taxa mensal. Os clientes têm quase os mesmos benefícios de ter um carro próprio sem ter de se preocupar com gasolina, manutenção, seguro etc.), começaram a sobrepor inovações adicionais até chegar ao seguinte resultado: uma empresa que buscasse o cliente onde ele estivesse e o levasse até onde ele quisesse e só cobrasse pelo trajeto percorrido com ele. “Havíamos inventado o táxi”, diz, com uma pitada de autoironia.

Cacoetes da inovação

Olhar para o passado na hora de inovar chega a soar contraintuitivo. Culpa, segundo o professor Wilson Nobre Filho, de um cacoete da Revolução Industrial. “Existe o pressuposto de que a inovação tem de ser tecnológica”, diz Nobre, membro do Fórum de Inovação da FGV.

Para ele, essa é uma concepção tão falsa quanto achar que as inovações precisam ser inéditas. “Se fosse assim, haveria pouca inovação no mundo”, afirma, explicando que são o contexto e o resultado obtido que tornam uma ideia inovadora de fato. “Mesmo que eu reaplique alguma coisa que já tenha sido abandonada há muito tempo, ela pode ser inovadora para o novo contexto”, garante. (mais sobre inovação na reportagem “O gesto criador”)

“A gente está fazendo esse resgate porque o mundo era mais sustentável no passado”, crava o arquiteto Marcelo Bueno, sem pestanejar. Em 1997, ele entrou em crise com sua profissão e decidiu viajar para a Austrália, onde tomou conhecimento do movimento da perma-cultura. Encantou-se de tal maneira, que se dispôs a fundar o Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica (Ipema), assim que voltou ao Brasil, em 1999.

Na fala de Bueno transparece a ideia de que ainda vamos descobrir a saída para a atual crise ambiental esquecida no fundo de algum baú. O diretor-geral do Instituto Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura (Tibá), Peter Van Lengen, é ainda mais assertivo ao afirmar que o mundo moderno está “matando o planeta”, e que o passado é a nossa salvação.

O Tibá foi fundado em 1987, para pesquisar e resgatar técnicas de construção tradicionais como taipa, bambu, adobe, entre outras. “Não estamos falando de coisas de baixa qualidade, mas de tecnologias ecológicas por natureza, culturalmente ricas e comprovadas pela história que o capitalismo apagou para ganhar dinheiro”, defende. “Uma casa moderna está cheia formaldeídos e tintas que liberam toxinas e, para piorar, você fecha todas as janelas e liga o ar-condicionado, que libera bactérias nocivas. Depois não entende por que fica doente!”, exaspera-se, garantindo que seria possível evitar todos esses contratempos reaprendendo a usar os materiais de antigamente. (mais na reportagem “Muitas e boas”)

Bueno vê a questão de um ângulo um pouco diferente. “Nossa civilização inteira está baseada em recursos não renováveis. E se acontecer uma crise econômica ou ambiental em larga escala? O que o morador de uma grande cidade faria se os supermercados simplesmente não abrissem mais? Temos de estar preparados”, preocupa-se. Por isso ele foi resgatar o estilo de vida das histórias de seu avô. “No tempo dele tudo era produzido localmente, os materiais de construção, a comida, a roupa, e tudo dava certo.”

Medo do desconhecido

Embora o trabalho do Ipema e do Tibá busquem a seriedade, não é todo mundo que concorda com essa linha de pensamento. O professor Nobre, por exemplo, alerta que essa é uma forma de inovação que pode travar outros avanços. “Pegar o que já funcionou no passado é uma forma de inovação meio grosseira. Não que seja errado, mas é algo que fazemos quando temos medo do desconhecido”, problematiza.

O professor da Business School São Paulo Humberto Mariotti saca do bolso o conceito de segurança ontológica para alertar sobre esse risco. De acordo com ele, quando o mundo passa a mudar muito, as pessoas tendem a se voltar para um passado idealizado, em busca de segurança. “Eu me rodeio de símbolos de estabilidade na tentativa de voltar para um mundo onde as coisas não eram tão destrutivas. Essa é uma reação mais sentimental do que prática”, esclarece.

Não significa que tudo o que cabe sob o guarda-chuva da envelhação trate a inovação com desdém ou esteja embebido em saudosismo. A realidade é mais complexa que isso e sobram casos em que envelhar um pouquinho é o pressuposto necessário para inovar de monte. José Bueno, diretor do Instituto Harmonia – que, entre outras práticas, promove atividades para diminuir o fosso entre as gerações – usa a metáfora do arco. “Quanto mais você puxa a corda para trás, mais a flecha voa para a frente”, filosofa.

O caso do DescolaAí é paradigmático. Fundada em julho pelo empresário e ativista Guilherme Brammer, essa pontocom baseia seu plano de negócios no conceito de consumo colaborativo (a noção de consumo colaborativo nasceu nos Estados Unidos como resposta ao consumismo exacerbado. Parte da constatação de que uma boa parte dos produtos fabricados acaba subutilizada, e dividi-los entre mais de uma pessoa seria uma forma de combater o desperdício. Uma furadeira, por exemplo, é usada, em média, entre 6 e 13 minutos durante toda sua vida útil) e oferece uma plataforma na qual seus usuários podem alugar ou trocar objetos.

Embora chegue ao mercado esbanjando novidade, Guilherme reconhece que, no fundo, seu site requenta uma prática antiga. “Tentamos resgatar algo que nossos avós já faziam, porque tinham uma vida mais colaborativa com a família e os vizinhos”, admite. Até o fim do ano, seu portal também investirá na volta do escambo. “Vamos lançar a troca de serviços: um marceneiro, por exemplo, pode trocar seu trabalho com um médico que esteja querendo reformar o consultório”, completa. (O banco de horas tem proposta similar – linkar com Estalo)

Um exemplo um pouco mais singelo vem de Serra da Canastra, em Minas Gerais, onde o agrônomo Alessandro de Oliveira deu um passo atrás para dar três ou quatro à frente. Há 12 anos ele vem fazendo experiências para aumentar a produtividade da cultura cafeeira na região. A ideia central é de uma simplicidade atroz: ele reduziu o espaço entre as fileiras de pés de café dos 3,5 metros usuais para 2,5 metros, para fazer caber mais plantas e aumentar o rendimento de 27 para 42 sacas por hectare. Só que isso tem uma “pegadinha”: os tratores não conseguem entrar na plantação. A solução? Mulas.

No começo, nem ele botava muita fé – tanto que comprou um canhão (um canhão é um aspersor de grande porte que borrifa água a grandes distâncias e pode ser usado para irrigar ou distribuir defensivos em lavouras), que acabou encostado –, mas os animais saíram-se melhor que a encomenda. As mulas mantêm uma velocidade de 6 km/h, similar à de um trator, e custam 40% menos – uma economia de R$ 611 por hectare. Não foi só trazer os animais e pronto. Foram precisos cinco anos para aprimorar os maquinários puxados pelas mulas. “Quando começamos, os equipamentos para as mulas eram muito rudimentares, e a gente precisou evoluir isso”, explica Oliveira, contando que todos os desenvolvimentos foram feitos por mecânicos da região.

Wilson Nobre ressalta que tem muita tecnologia embarcada em uma porção de coisas que estão, à primeira vista, na contramão da modernidade. É o caso da agricultura orgânica. Mesmo que ignorem um bom bocado das práticas e produtos da agricultura convencional, os orgânicos nada têm de rudimentar. “A natureza possui sistemas de produtividade estupidamente mais eficazes do que os nossos”, diz, apontando os avanços da biomimética [Das palavras gregas bíos (vida) e mímesis (imitação), a biomimética procura compreender como as estruturas biológicas funcionam para, depois, reproduzilas. O velcro, por exemplo, foi criado nos anos 40 por um engenheiro suíço que se inspirou nas sementes de uma planta que ficavam grudadas em suas roupas durante suas caminhadas pelos Alpes] (mais na reportagem “O que a natureza faria?”). “Estudando a natureza é possível que a gente redescubra coisas que as sociedades antigas usavam, mas sem ter a ciência para explicar como funcionava”, elabora.

O professor descreve a situação usando a metáfora da espiral. Para ele, a evolução acontece em movimentos circulares, mas não no mesmo plano. Ao olhar para baixo, vemos coisas familiares se alinhando, mas sempre de outra perspectiva. “Você vai e diz ‘já vi isso antes’, mas, mesmo que a gente volte a descobrir o valor de um monte de coisas do passado, vamos usar de formas diferentes”, assegura.

Em outra área, a bióloga Tamara Azevedo recorre à mesmíssima metáfora ao explicar o seu trabalho na Co- Criar, consultoria que ajuda organizações lançando mão de processos participativos. “Uma das coisas que fazemos é sentar as pessoas em círculo para exercitar a escuta. Isso é visto como inovação, mas os indígenas fazem o mesmo há milênios”, comenta, acrescentando que o modelo foi adaptado para a realidade de hoje. “É uma espiral”, ecoa.

O consultor e professor da Fundação Dom Cabral Paulo Ferreira Vieira conta que está prestes a colocar à disposição dos altos executivos paulistanos uma inovação importada diretamente das tribos da África Subsaariana. “Eles têm uma coisa chamada Casa da Palavra, aonde vão para conversar sobre os problemas da comunidade. Essas tribos têm muito claro que o problema de um afeta a todos. Já as empresas tem muita dificuldade em perceber isso”, diz.

Há anos, Vieira pinça exemplos das artes e da mitologia grega para apimentar suas aulas. “Para conseguir gerar mais interesse nos alunos, virei um contador de histórias”, resume. Segundo ele, os artistas envelham o tempo todo, ao reinterpretar obras do passado. “Mostro como os chorinhos do Jacob do Bandolim foram recriados pela Elizeth Cardoso e pelo violoncelista Yo-Yo Ma, para explicar como é possível inovar sobre um legado sem que isso o destrua”, explica.

O legado, no fim das contas, parece ser o núcleo da questão. O filósofo e poeta hispano-americano George Santayana estava com mais razão do que poderia imaginar quando disse: “Povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.

Envelhação em larga escala

Há uma boa dose exemplos de envelhação em coisas corriqueiras e tremendamente fáceis de entender. As ecobags, por exemplo.

Percebendo que as sacolinhas descartáveis estavam se tornando impopulares, o Grupo Pão de Açúcar tomou a dianteira e, em 2005, deu uma repaginada nas antiquadas sacolas de feira e começou a vender ecobags para seus clientes. Foi um sucesso. Mais de 2,2 milhões de unidades foram comercializadas nas lojas do grupo apenas no ano passado.

Não é o único caso de alta visibilidade. Os fabricantes de refrigerantes estão tirando as garrafas retornáveis da aposentadoria. Embora nunca tenham saído do completamente do mercado – elas continuaram comuns em bares e restaurantes –, há alguns anos a Coca-Cola decidiu voltar a vender refrigerantes em vasilhames retornáveis para o consumidor final. Em abril passado, a Ambev também embarcou na onda e trouxe de volta as garrafas de um litro Guaraná Antarctica.

Autor: Fábio Rodrigues

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