O PRAZER RESIDE EM SER SIMPLES
AS FLORES NÃO MORREM, DESENCANTAM...
Luiz Maia
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A internet é mesmo surpreendente. Uma amiga me confidenciou que estava triste por seu casamento chegar ao fim. Uma união de doze anos acabara. Disse-me que estava perdida pois não fizera outra coisa a não ser doar-se inteiramente ao marido e aos filhos. Sentia-se sozinha ultimamente. Ela sabia que logo precisaria encontrar uma razão para viver. Mas não sabia por onde começar. Eu falei que seria difícil para mim opinar sobre um assunto delicado como esse. Mas insinuei que a amiga poderia procurar os serviços de um terapeuta. Seria o mais recomendável nesse momento. Prolongamos a conversa por uns dias, quando então desejei-lhe sorte. Geralmente somos maus juízes enquanto não reunirmos todos os elementos de que precisamos para concluir o que sentimos sobre determinado assunto. Por mais que queiramos ajudar alguém, fica difícil por muitas razões. Uma simples análise que fizermos, sem irmos ao âmago da questão, poderá fazer com que tudo que dissermos pareça leviano. O melhor é agirmos com precaução. Uma certa dose de cautela nunca é demais. Não compreendo as pessoas que vivem imaginando um mundo para elas, pois se esquecem que a única coisa certa que elas têm para viver é o dia de hoje. Pelo visto muitos não entendem a máxima que rege nossas vidas. Creio que ninguém tem o direito de se anular, doando-se ao outro uma vida inteira. Não faz sentido. Somos indivíduos, necessitamos preservar nossa individualidade. Resguardar nossos momentos de privacidade é preciso, além de termos um tempo só para nós. Nesse caso como fica nossa auto-estima? Precisamos gostar de nós mesmos para poder gostar dos outros. Muitas pessoas não se prepararam para a vida, sei que é difícil. Um dia a pessoa se casa com o espírito desarmado, imaginando que todos os seus problemas tiveram um fim. Mas, quando o casamento chega à exaustão, o mundo dela vem abaixo. Nada nesse mundo é eterno. Nada é para sempre. Não nos ensinaram nas escolas sobre dores, falências, desenganos, saudade e desencontros. Somos um bando de despreparados para o enfrentamento da vida. Creio que a vida não acaba para ninguém, simplesmente porque seu casamento não deu certo. O melhor é valorizar o bom que restou da relação. O mais recomendavel é resguardar as boas lembranças e os ensinamentos havidos na vida a dois. Certamente temos muito a aprender com nossas experiências. Elas poderão ser úteis num futuro breve. Todos precisam crer em suas potencialidades. No amor que existe em seus corações. Acreditando, existirá sempre alguém merecedor de cada um. Claro que qualquer pessoa pode ser feliz novamente ao lado de outra. Vale a pena tentar. Desejo-lhe um ótimo fim de semana! |
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O que aconteceria se de repente eu calasse minha voz, se eu deixasse de expressar meus sentimentos, se me esquecesse de enaltecer as mulheres e a beleza que há nos fenômenos da natureza? Embora eu sinta prazer de traduzir em palavras o meu amor à vida, há momentos em que eu esqueço tudo e me entrego ao silêncio sem querer falar. Às vezes esqueço os discursos de paz que proferi, o medo que eu tive da falta de abraços, o descaso com a ecologia e a ausência no mundo de amores perfeitos. Nem sei como eu pude esquecer-me das vezes em que falei do meu amor à natureza, da falta de compreensão humana em relação à necessidade que temos de amar. O que seria de mim se eu não mais elogiasse o belo, a vida, os amores; não mais me lembrasse daquela amizade distante. Se eu me esquecesse de tudo talvez não compreendesse a dor daqueles que sofrem abraçados às paixões frustrantes, mas que reúnem forças para subir aos palcos e cantar o amor à vida. Não sei mais caminhar por entre os canteiros, apreciar as flores, cantar nossa música preferida sem tê-la comigo ao meu lado. Não quero esquecer esse amor que se fez mais forte que o próprio desejo que há em mim. Como posso me esquecer de seus gestos inaudíveis, de sua agonia contida em se fazer entender, dessa minha loucura serena ao me lembrar de você? |
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Parece que o destino nos reservou a triste condição de campeão mundial no que se refere ao tratamento desumano contra os animais. Ultimamente o que mais a imprensa vem noticiando é a tortura e a consequente morte de cães. A sociedade precisa se espelhar e louvar a atitude cidadã daqueles que saem em defesa desses bichinhos. Pelo visto o homem chegou ao ponto máximo de crueldade ao praticar atos covardes contra muitos desses indefesos animais. Cães, gatos, cavalos e outros bichos precisam ser respeitados como seres vivos e criaturas que são; do mesmo modo como os seres humanos. É oportuno o momento para lançarmos um veemente protesto contra as atividades cruéis que são desenvolvidas no nosso país contra animais indefesos. Causa-me indignação assistir a essa glamorização dos rodeios e vaquejadas que prosperam no Brasil. Bois e cavalos são confinados, torturados, maltratados e submetidos a dores intensas para, logo em seguida, serem agredidos e derrubados nas arenas como se fossem um brinquedo qualquer. Além disso, vemos comerciais de Vaquejadas e Rodeios sendo publicados na mídia como se fossem essas atividades honrosas, e não crimes horrendos contra bichos inofensivos. Quando vemos uma novela glorificando essa estranha “diversão”, atividade essa que não dignifica nem deve ser chamada de esporte, percebemos então que estamos perdidos. Pior ainda é assistirmos muitas empresas e até governos apoiando esses eventos sádicos. Isto é um absurdo sem tamanho. Mais que nunca a sociedade necessita se organizar para ocupar os espaços livres visando defender nossa fauna e a flora, tão maltratadas ultimamente por serem vítimas da sanha perversa dos homens. Por outro lado é fundamental nossas crianças aprenderem a plantar árvores desde cedo, e os pais ensinarem aos seus filhos a cuidar bem dos rios, mares e florestas tropicais. A escola deveria firmar na mente dos mais jovens a perspectiva do interesse pelo destino do planeta. Implantar programas pedagógicos neste sentido deveria estar na agenda daqueles que nos governam. Seria pertinente que a sociedade se unisse em torno dessa causa, objetivando dar um basta nessas atividades inescrupulosas que denigrem a nossa condição de seres pensantes. Enquanto não nos indignarmos e lutarmos para que esses crimes tenham um fim, não podemos nos orgulhar de pertencer à espécie humana. Há que se cuidar das ruas como se fossem nossas casas, dos animais como se fossem nossos irmãos de caminhada. Um bom começo é não prestigiar, não dar audiência a esses eventos degradantes. Além de colocar na cadeia quem maltrata e mata os animais. Talvez assim vejamos em breve surgir uma sociedade comprometida com os princípios que valorizam a vida, à ética, o meio ambiente, a fauna e flora. Façamos nossa parte. |
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Em algum lugar um dia nasceu Jesus. O Cristo, o Salvador! Ressurge nossa esperança a cada ano quando celebramos sua vinda ao mundo. Imagino seu nascimento ocorrendo nos dias atuais. Quem sabe debaixo de um viaduto da cidade do Recife. Em meio à pobreza, Ele fora recebido sem luxo nem requintes. Fico a pensar na sua presença santa iluminando aquele quarto improvisado, construído com caixas de papelão. Ele, o Cristo Jesus, que nasceu junto aos cachorros esquálidos, às mulheres desvalidas, aos homens carentes e aos cheira-cola alucinados - todos perplexos diante de tamanha alegria -, é o Cordeiro de Deus, Santo que tira o pecado do mundo. Alguns jornais velhos servem de berço para abrigar o nosso Rei, o lixo reclicável adormece debaixo daquele que veio para nos salvar. Jesus nasceu para nos ensinar a repartir o pão e a praticar o amor, ensinar como devemos ser solidários aos mais fracos e oprimidos. E como se isso não bastasse, atingiu o ponto máximo aqui na terra quando em nosso lugar morreu pregado na cruz. Portanto, foi Jesus Cristo quem encarnou o espírito do Pai Celestial durante todo tempo em que veio pregar o Evangelho entre os homens. Quando comemoramos o Natal nos aproximamos mais das pessoas, aprendemos que só fazendo o bem vale a pena viver nesse mundo. De repente passamos a agir como pequenas centelhas cristãs que tentam ajudar ao próximo, anunciando a Luz que vem do Salvador. Existem centenas de seres humanos que comungam com os ensinamentos cristãos. Mas, se ainda não vislumbramos um mundo de acordo com os parâmetros cristãos, como o que Jesus nos ensinou, não podemos esmorecer nem tampouco perder a fé. Certamente o que está faltando é unir cada um de seus ensinamentos em torno de uma causa comum, objetivando enaltacer a própria condição humana. Creio que não podemos em hipótese alguma deixar a chama da Esperança apagar. Temos que deixá-la permanentemente acesa porque em cada canto do Universo Sua Verdade um dia prevalecerá. Viva Jesus! Hoje e sempre em nossos corações. |
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Você se lembra de quando falávamos de nossos sonhos, lá na varanda de nossa casa? Muitas vezes disseram que éramos uns bobos. Lembra também quando juntos partilhávamos esperanças com os amigos? E daqueles devaneios de querermos mudar o destino da humanidade? Pois bem, agora não precisamos de mais nada pois a esperança nos abraçou, de forma demorada e definitiva. Certamente não há nada melhor além daquilo que nos foi prometido. Nem precisávamos de algo mais. Desejamos apenas a esperança tão ansiada que chegou em forma de realidade. Um novo tempo começa enfim, mudando nossos destinos e a forma de encararmos a vida. Nada será como antes. O mundo mudou e as pessoas estão livres para serem felizes. É tempo de reunirmos os cacos e refazermos nossa caminhada. O tão almejado período de paz parece refletir em cada rosto, em cada ação demonstrada pelas pessoas nas ruas, nas esquinas e nas avenidas deste nosso lugar. A alegria toma forma e já não temos tempo a perder para abraçar os amigos que chegam. Quase sempre eu não sabia o porquê do mundo ser tão injusto com tanta gente. Claro que em nossas conversas sempre soubemos separar a realidade crua em que vivíamos do mundo que queríamos para todos nós. Sabíamos que a luta seria grande, mas que nada nos faria desistir de seguir em frente. Por isso valeu a pena. Agora eu vejo que os jornais já não trazem notícias de violência, de corrupção, de crimes. Dizem que a fome já não existe nos lares mais pobres. As guerras foram todas banidas e as armas conduzidas para o museu mais próximo. O sorriso está estampado em cada face onde antes tudo era incerteza. Já não ouvimos os gritos que varavam as madrugadas anunciando a agonia de um povo oprimido, de uma gente excluída da sociedade pelo esquecimento vil daqueles que supunham ser superiores ao próprio tempo. Vamos seguir sorrindo porque o momento é propício para comemorarmos a valorização da vida. Hoje respiramos a paz sonhada. Brindemos a alegria de poder viver sem sobressaltos, sem ódio no coração, sem medo do dia de amanhã. |
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Às vezes voltar no tempo dói ao compararmos certos aspectos do passado com fatos que se nos apresentam agora. É o caso da década de sessenta que ficou em nossa memória. Naquele tempo havia mais opções e práticas culturais que hoje. Não se trata do número de salas de cinemas, nem da quantidade de teatros que existiam no país. Os anos sessenta foram um período fértil em todas as áreas ligadas à arte em geral. Não é sonho, mas a pura constatação. Não se trata de números, mas de qualidade de vida. A questão é mais profunda e tem a ver com um maior engajamento da sociedade como um todo, coisa difícil de ocorrer hoje em dia. Naquele período era inegável que dispúnhamos de mais opções e de melhores condições de trabalho na área artística. Como exemplo eu diria que atrizes e atores eram de fato obrigados a ler Shakespeare. Imprescindível era aprender as lições de interpretação com o pai da dramaturgia Universal. Lembro-me de vários artistas que iniciaram nas artes cênicas fazendo teatro nos palcos e/ou nos canaviais pernambucanos. Hoje a coisa mudou. Basta ter um rostinho bonito e um bumbum insinuante para virar artista de televisão. É muito diferente. Como todo conceito extensivamente mal utilizado, a Arte também tem sofrido distorções de uso e esvaziamento de seu real significado. O nível das escolas públicas era infinitamente melhor que hoje. Difícil era o educandário particular que podia concorrer com o ensino público daquela época. Os professores eram chamados de mestres, dado o respeito que eles impunham. Os pais eram mais respeitados e os filhos mais obedientes e responsáveis que na era moderna. Sou contemporâneo daqueles que viram surgir artistas fantásticos da estirpe de um Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Tayguara, Tom Jobim, Gilberto Gil, João Gilberto, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga, MPB 4, Beatles, Elvis Presley, etc. Época de ouro onde pontificavam nomes que ficaram famosos nas mais diversas atividades, como Che Guevara, Dom Helder Camara, Henfil, Pelé, Geraldo Vandré, Garrincha, Cassius Clay, Nara Leão, Antônio Maria, etc. Bons tempos. Inegavelmente superior em qualidade e em oportunidade de escolhas. Como não lembrar desse tempo? Como não fazer comparações? Mas o mundo mudou e com ele surgiu uma nova e fascinante sociedade. Temos que nos adequar à realidade a menos que queiramos ficar defasados por completo. É preciso ressaltar que a despeito de sentirmos nostalgia de um tempo que se foi, mesmo assim o advento da informática poderá tornar este mundo melhor. O ganho é enorme: as distâncias diminuíram, podemos hoje comprar quase tudo pela internet, com a comodidade de poder receber a mercadoria em casa. Podemos trabalhar, pesquisar, trocar mensagens com uma rapidez nunca imaginada num passado recente. Mas se faz necessário saber fazer uso da melhor forma possível dos benefícios da sociedade moderna. Saudade à parte, não nos esqueçamos de tirar o melhor proveito dela. |
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Existem pessoas que agem a vida inteira com indiferença, esquecendo-se de escutar os apelos que vêm do mundo. Antes deveriam pensar nas consequências de seus atos. Aqueles que conhecem um pouco da vida saberão o porquê dessas minhas palavras. Por não aceitar seguir determinados caminhos foi que um dia eu conheci a solidão. Eu me vi só no dia em que não aceitei agir com subserviência, por não admitir agradar pessoas que não merecem um aperto de mão. Quando apanhei por não calar diante do mal que queriam fazer. Eu me vi só por ter aprendido na vida a não fazer concessões às leis do "vale tudo", do "jeitinho brasileiro", métodos que só fazem diminuir a quem os pratica. Eu sei que existem caminhos que nos fazem abraçar a solidão. Muitas vezes nos sentimos ilhados, mas satisfeitos por não compactuarmos com atitudes mesquinhas que só denigrem a espécie humana. Eu sinto às vezes uma estranha solidão. A solidão daqueles que só comungam com o bem-querer, que só pensam em viver a lei do amor. Bendita solidão. Sinto-me só por não acreditar nas palavras dos que pregam a falsa paz ou na bondade tardia das pessoas que visam fortalecer a descrença num mundo melhor. Quem me conhece sabe que eu jamais acreditarei nisso. Não admito nas pessoas os atos torpes, as atitudes desonestas, o desamor vivido entre elas. Esses gestos menores nos conduzem fatalmente à tristeza infinda. Eu me senti só no dia em que fui abandonado pelos amigos, até esquecido por pessoas que um dia se disseram amigas. O mundo está cheio de egoístas que não sabem viver corretamente, gente que interfere negativamente no caminho daqueles que só fazem o bem. Eu me vi só no dia em que me negaste um abraço, quando demonstraste indiferença aos vários acenos meus. Quando fingiste que me querias bem. Eu me senti só no momento em que não me recebeste em teu coração, quando sorrindo fingiste não perceber a minha presença. Eu me vi só quando perdi tua amizade, quando deixaste de sorrir nas vezes em que me vias. Eu me senti só no momento em que me negaste guarida, quando ignoraste o meu beijo naquela despedida. Hoje eu me sinto só quando te procuro e só encontro algumas lembranças daquilo que fomos um dia. |
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Rio de Janeiro, segunda-feira nov/1978. O avião da Varig parte da Galeão com destino ao Recife. E eu louco para chegar em casa. Afinal de contas, quase três anos distante dos familiares. O Rio começara a ficar para trás. Tudo adquiria o sabor de saudade. Suas praias, as garotas moderninhas, sua beleza natural, tudo me levava a conhecer o sabor da despedida. Ao meu lado sentou-se uma jovem com seus dezoitos anos. Parecia tensa ao me perguntar para onde eu ia. Recife, respondi. Seus olhos brilharam ao dizer, "que bom! Estou indo para lá de férias". Era uma pessoa falante, mas trazia no olhar uma espécie de medo. "Devia ser a viagem de avião", pensei. Mal o avião decolara a aeromoça me serve um prato que parecia comida. Tinha uma aparência de plástico, algo sofisticado sem sabor e de qualidade duvidosa. Comida de astronauta, talvez. Deu saudade do bife acebolado e o filé ao molho madeira que minha mãe fazia. E eu com a boca cheia d’água, diante dessa comida plastificada. Enquanto eu comia aquilo, a moça ao meu lado começa a ler o livro "Dez lições para ser feliz". Tão nova e já envolvida com questões circunstanciais. Sua idade ainda não permitia isso. Esses picaretas escrevem um livro, ficam ricos e jamais conseguirão fazer alguém feliz! Felicidade sempre pareceu-me algo distante, inatingível. Coisa mesmo de quem vive a sublimar a crueza da vida, oferecendo-nos alguns pontos de apoio porque o homem precisa sonhar e ter esperança. A felicidade reside nas coisas mais simples da vida, mas a simplicidade geralmente não é muito considerada. De repente o avião começa a trepidar ao passar por dentro de nuvens. O comissário de bordo pede para que amarremos o cinto. A aeromoça trata de acalmar uma senhora grávida, cujo marido dormia como um bêbado. A mocinha agora segura minha mão e pede que rezemos juntos. A aeromoça por instantes sorriu para mim, tentando amenizar nossa aflição. Da janela dava para perceber os raios iluminando os céus do Recife. A cada relâmpago, a mocinha segurava minha mão com mais força. Eu tratei de abraçá-la dizendo que já havíamos chegado. Após nos despedirmos, eu corri para pegar a bagagem, enquanto a garota descera segurando firme seu livro que ensinava, em dez lições, o caminho mais fácil para se chegar à felicidade... |
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Feito um menino bobo, sigo a percorrer caminhos, deixando-me levar pelas belezas existentes no planeta. Nem me lembro dos tantos momentos em que me vi fascinado pelos fenômenos da natureza, do amanhecer ao entardecer. Como o ciclo do dia, que ao iniciar não tarda para findar, assim ocorre também com os seres humanos. Não podemos nos enganar quanto a querer retardar nossa passagem aqui na Terra. Ao ver um pôr do sol, começo a refletir na noite que chega trazendo consigo o silêncio revelador do quanto que sou apegado à vida. Tenho a sensação de que partimos a cada instante. Sutil e suavemente vamos deixando tudo para trás. Não basta somente amar a vida, mas compreender que o Universo está em permanente mutação; sobretudo que a espécie humana envelhece e que novas gerações haverão de surgir. Já andei mundo afora, refiz caminhos, diminuí as passadas quando foi preciso parar. Amei a vida em doses homeopáticas, realizei planos, sonhei com o melhor para a espécie humana, mas confesso que nem sempre fui feliz. Já fui idealista, sofri desenganos, sobrevivi às intempéries quando muitos nem acreditavam mais em mim. Hoje, aqui no meu canto calado, sinto-me como se eu fosse a madrugada que se despede de nós sem ser notada. E assim, caminhamos a contemplar mais pores do sol. Neste momento, envolvido nesta minha introspecção, mais que ninguém eu gostaria de receber mais abraços, de contemplar mais olhares, de recontar estrelas e investir em novos sonhos, ignorando finalmente a despedida que para mim se oferece sorrindo. |
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Aparentemente não satisfeitas com suas vidas, é comum hoje em dia ver pessoas querendo sair do anonimato. Qualquer indivíduo com um mínimo de percepção nota que tem muita gente fazendo de tudo para aparecer. Algumas até gostariam de ser notícia durante vinte e quatro horas, enquanto outras tantas buscam na mediocridade qualquer coisa para ter seus minutos de fama. Em nenhum momento estão preocupadas em expor suas intimidades nas revistas de circulação nacional ou mesmo nas telinhas de tevê de certos programas que primam pela inutilidade. Quantas mocinhas inocentes não sofrem as influências negativas quando tentam em vão ser uma celebridade? Reconheço que a mídia tem colaborado para a banalização do culto ao corpo, sendo esse tema inclusive motivo de pesquisa e de estudo entre os sociólogos brasileiros. Apesar de ser um fato inconteste, é certo também que a deseducação da população contribui para fortalecer tais valores. Para as pessoas públicas a sensação de liberdade não passa de um sonho a ser atingido. Sair às ruas despreocupadamente, ir ao teatro em companhia de amigos, frequentar salas de cinema, shoppings ou caminhar pelo calçadão nas malhações matinais sem ser notado é fundamental para o nosso bem-estar. É aquilo a que chamo de "ser diferente". Dinheiro nenhum paga a tranquilidade de poder ir e vir sem ser molestado por um batalhão de "paparazzis". Ao contrário do que alguns possam imaginar, não existe bem maior no mundo do que passar despercebido pela multidão. É muito bom alguém ser reconhecido por sua simplicidade, pelo trabalho que realiza, pela arte que executa ou por sua postura diante da vida. Mas é imprescindível que seja resguardada sua total e plena privacidade. |
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"Eu queria poder carregar um sorriso no coração nos momentos em que a vida me parecer triste." O que me leva a falar de saudade, esse tema tão batido? Para mim não há como esquecer uma época em que tudo parecia mágico. Com toda franqueza eu me sinto incapaz de ignorar sua importância para mim. Na infância cheguei a ter receio do escuro, do raio, do trovão. Mas cresci tentando superar o medo. Durante o dia eu parecia forte, determinado, porém à noite era extremamente frágil, pessimista. Meus sonhos eram desfeitos ao cair da noite. Fui uma criança medrosa, mas encontrei nos braços de minha mãe um abrigo acolhedor. Hoje em dia, distante da mocidade, passei a me sentir um estranho ao caminhar por ruas, praças e shoppings da cidade. Quanto mais ando, por antigos e novos endereços, lembrando o Recife de antigamente, a cada passo que eu dou mais a cidade me parece estranha. Essa minha angústia existencial aflorou de tal sorte quando eu comecei a perceber que as pessoas passam por mim sem sequer me notar. Algo difícil de ocorrer nos anos sessenta. Mesmo morando na mesma cidade, o fato é que as pessoas hoje passam por mim sem saber quem eu sou. Do mesmo jeito como eu não conheço ninguém. Hoje eu sinto falta de tudo que é simples, do que me parece vital: dos raios de sol ao cair da tarde, rompendo as folhas das mangueiras do meu quintal; do arco-íris por sobre as roupas dependuradas, que pareciam porta-estandartes coloridos nos varais. Do cantar admirável dos pássaros nos galhos das laranjeiras, tornando mais bonito o amanhecer. O aroma de jasmim que adornava os jardins das residências nas Graças, Rosarinho e Derby, além do latido dos cães ainda está gravado em minha mente. Eu queria poder carregar um sorriso no coração nos momentos em que a vida me parecer triste. Por ora eu penso em descansar e busco sentar no banco da praça. Ao meu lado eu noto um casal de namorados. Eles discutem, brigam e viram a cara para o lado. Não sabem eles que estão a perder um precioso tempo... Certamente estamos vivendo um mundo novo, bem diferente do meu. Pelo que pude notar, as pessoas já não frequentam mais festas, hoje elas dizem que vão à balada. Se passam por algum constrangimento, afirmam que é uma saia justa. Se alguma coisa aconteceu que as fez passar vergonha, pagaram um tremendo mico. As pessoas antigamente, quando reconhecidas por seu trabalho, ganhavam um bom dinheiro e passavam a ser bem sucedidas. Hoje, são todos bombados. Namoro de hoje é ficar, conjunto musical virou banda, passear de mãos dadas deu vez aos encontros em motel. Sei não, mas essa geração precisa entender um pouco mais daquilo que é dar e receber carinho, conversar, dançar e jantar à luz de velas. Ser gentil e cavalheiro com as mulheres, coisas simples que a cada dia vão ficando mais distante de nós. Coincidentemente, hoje fiquei sabendo que no bairro fechou a única floricultura que havia. Como presentear a pessoa amada, se ninguém sabe mais onde comprar flores? Espero que as pessoas não esqueçam de reverenciar o amor, um sentimento que permanece eterno. |
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O vento forte repentinamente se aproximou de mim. Sem perceber o perigo, eu resolvi seguir naquela manhã o meu caminho, alegre e feliz, em meio aos arvoredos, segurando pela mão a minha flor amada. Era uma rosa especial, dessas generosas e cuja beleza e fragrância a todos envolvia. O vento soprava muito forte, mas eu continuei a caminhar agarrando-me a uma árvore, buscando refúgio em seus fortes galhos, até que num dado momento a ventania enlouquecida arrastou-me para longe, tirando do meu alcance aquela flor. Juro que não houve tempo sequer de eu poder segurá-la. Desesperado, enlouquecido, corri pelos campos chamando por seu nome, implorando a Deus que me fizesse encontrá-la, até que, afinal ,eu a peguei em meus braços, ferida, já tão frágil, tão diferente daquela flor exuberante, agora necessitando de urgentes cuidados. Eu fiquei ali parado, sem saber da gravidade que a acometera, nem ao menos o que fazer. E em silêncio comecei a chorar baixinho, e, agarrado à dor da impotência pensei... O cerco encolheu velozmente Dali em diante o meu peito apertara, a incerteza dominara meus passos, antes firmes e cheios de esperança por viver. Ademais, o que faço Senhor para continuar vivendo sem esta flor que alegrou nossas vidas, mesmo tendo uma curta existência, era de todo a razão da alegria e da felicidade de todos nós. O que fazemos, Senhor, se já não conseguimos olhar mais de frente, querendo a qualquer momento ver esta flor desabrochar sobre nós, a exalar seu aroma outra vez? O que fazemos agora, meu Pai? |
Autor: Luiz Maia
www.luizmaia.blog.br
É Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar", "Cânticos", "À flor da pele" e "Tamarineira - Natureza e Cidadania". Recife-PE.
Webdesigner: Netty Macedo
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