
ENTRE NESTE NOVO MUNDO
A AFIRMAÇÃO DA CIDADANIA
Maria Helena Gouveia
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Os atributos de quem trabalha no Terceiro Setor - solidariedade, dedicação, liderança e firmeza de caráter - transformam-se em capital social precioso: a afirmação da cidadania. Antoninho
Marmo Trevisan Antoninho Marmo Trevisan é um dos nomes mais respeitados no meio empresarial. É presidente da Trevisan Auditores e Consultores e diretor da Grant Thornton do Brasil, duas das maiores empresas de auditoria no país e nos grandes centros internacionais. Fundou a Faculdade Trevisan, notável pela excelência de ensino no setor de gestão empresarial. É palestrante disputado pela qualidade e fluência de comunicação. Publicou vários trabalhos de administração de empresas e o livro Empresários do futuro, especialmente dedicado aos jovens que se iniciam na carreira profissional, entre inúmeros outros trabalhos de reconhecida importância. Com todas essas atividades, Trevisan ainda dispõe de tempo para se dedicar ativamente a importantes entidades do Terceiro Setor como o Instituto Ethos, a AACD, a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, a Associação de Apoio ao Programa de Alfabetização Solidária. Certamente você, leitor, está me perguntando por que esta introdução curricular, diferente da abordagem que fiz nos demais capítulos deste livro. Apenas para lhe dizer como a experiência e o trabalho voluntário de Antoninho Marmo Trevisan ultrapassaram o que chamaríamos de limites normais das atividades do Terceiro Setor, como assistência aos carentes, aos enfermos, às crianças, aos jovens, às mulheres, aos idosos e às empresas de responsabilidade social. Trevisan ousou, foi além, provou que através do Terceiro Setor também se revitalizam cidades! Ao lhe perguntar sobre as suas atividades nessa área, o seu entusiasmo transpareceu num certo jeito de menino travesso contando a sua mais recente peripécia: ele se referia à sua querida cidade de Ribeirão Bonito. Foi lá que nasceu o menino Toninho. Lugar simples, pequeno, origem de sua família. Foi lá que ele sentiu o gosto da liberdade, correu livre pelos campos, mergulhou nas águas puras dos riachos, aprendeu as primeiras letras, jogou bola com os primeiros amigos e começou duro no trabalho. Mas o menino e seus companheiros cresceram. A vida os chamava para a responsabilidade, para o próprio sustento. Os estudos, os trabalhos, as esperanças e as aspirações a um futuro promissor separaram os amigos, indicando-lhes novos caminhos, centros urbanos com mais oportunidades. Cada um seguiu o seu roteiro de vida. A cidade ficou confinada a seus modestos limites, na memória da infância. Na cidade grande, Toninho, o office-boy, caminhava determinado: a persistência e o otimismo sempre foram seus aliados. Lutou, estudou, perseverou, ultrapassou toda sorte de dificuldades e acabou encontrando a direção certa. Manteve os sonhos para poder realizá-los. Todos os sucessos obtidos, todos os degraus conquistados passo a passo, na vida e na carreira, jamais o impediram de amar a sua cidade natal. Por esse motivo, criou uma ONG inusitada, a Amarribo, Associação de Amigos de Ribeirão Bonito, com estatuto escolhido entre os melhores, visando à revitalização da cidade, e que, com toda a certeza, servirá de exemplo para inúmeras outras na mesma situação. Certamente Ribeirão Bonito, a 265 quilômetros da capital paulista, com pouco mais de doze mil habitantes, não é a cidade mais importantes do Brasil, nem possui a maior renda per capita, nem é um pólo agropecuário, industrial ou comercial, mas é a sua cidade, onde estão as suas raízes jamais esquecidas, e que ele deseja ver renascendo. Para isso chamou antigos companheiros, a maioria residente em outras localidades. Essa união reavivou o amor pela terra, despertou o desejo de vê-la bem cuidada, com desenvolvimento próprio, com possibilidades de crescimento e progresso. Em primeiro lugar, a Amarribo recuperou a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, um símbolo da cidade, de significado muito especial para os moradores que tantas vezes se reuniram para a missa de domingo, para as novenas, para as orações de conforto e de esperança. Mandou pintar as paredes, embelezar o altar, reavivar as cores e os matizes dos seus santos, melhorar o caminho até o alto do morro onde está situada. Terminados os trabalhos, preparou a reinauguração solene, o ponto do 1º Encontro de Amigos de Ribeirão Bonito. Imprimiu os convites para uma programação de três dias de comemorações. A cidade voltou a sentir gosto de festa! Os clubes locais se movimentaram. O Primavera Clube reuniu as crianças para gincanas e brincadeiras, convidou um grupo de pagode para alegrar a garotada. Como não poderia deixar de acontecer em toda cidade interiorana que se preza, a Banda se apresentou às seis horas da tarde, quando o sol se pôs e deu lugar às cores que acentuaram reminiscências e recordações guardadas no tempo e que se prolongaram no "encontro informal" com música, poesia, dança e muito bate-papo. No dia seguinte, o encontro na entrada do Morro da Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Todos os moradores se fizeram presentes com a sua melhor roupa. A nova Associação passava a existir. Visitaram o Morro, a estação de trem (atual sede da Prefeitura), o Instituto de Educação, a Igreja Matriz, o Grupo escolar. Assistiram à missa, com a participação dos padres que por lá passaram. Finalmente, na noite de sábado, um grande baile no Ribeirão Bonito Clube, animado pela Orquestra Leopoldo de Tupã e amplamente anunciado com um aviso: "Vendas só por antecipação!" Assim se oficializou o movimento que se propunha a dar nova vida e desenvolvimento à querida cidade da infância. Surgiram outras propostas, várias etapas foram realizadas. Entre elas um pacto com os três candidatos que disputaram a Prefeitura, para que o vencedor, antecipadamente, se comprometesse com a limpeza da cidade. Dessa forma fortaleceu-se a auto-estima dos moradores, a vontade de melhorar e embelezar as suas casas, os jardins, as praças, e tudo isso está chamando a atenção das cidades vizinhas. A Amarribo deu o exemplo. Quantas cidades brasileiras poderão fazer o mesmo? Seriam centenas de sementes germinando, centenas de lugares com amor-próprio, com seus habitantes orgulhosos da terra onde nasceram, construindo um futuro promissor. Seria, certamente, um impulso nacional! Basta o sonho e a vontade de transformar o pequeno lugar de origem. Oferecer-lhe novas e possíveis condições de progresso e não permitir que fique apenas como uma recordação longínqua, mas como um motivo de orgulho pelo crescimento e pelo exemplo de cidadania. E, quem sabe, publicar versos como no convite do 1º Encontro dos Amigos de Ribeirão Bonito. "... você era e é a minha família, a minha terra amada. Quero vivê-la novamente e sentir que o passado não foi o que passou, mas sim o que ficou." Segundo Trevisan, se no passado se imaginava que o bem poderia ser feito a qualquer preço - a filantropia era vista como uma esmola, uma maneira de garantir um lugar no céu -, hoje, ao contrário, deve ser exercida por pessoas preparadas e competentes. Ele compara, como exemplo, o socorro a um acidentado. Se a pessoa não souber como agir, poderá ocasionar sérias conseqüências. Para ele, o Terceiro Setor precisa ter gestão profissional, contabilidade, auditoria. Precisa existir juridicamente e de maneira organizada. Somente assim haverá um bom relacionamento entre os patrocinadores e as entidades. A nossa história aponta muitos erros políticos. Contrói-se uma escola, mas faltam professores ou se colocam professores mal remunerados. Faz-se um hospital, mas o prédio não tem as instalações necessárias. O Brasil tem muitas ações que ninguém sabem quais são, ninguém vê. O brasileiro está cético quanto à aplicação do dinheiro procedente dos impostos. Periodicamente, surgem novas contribuições fiscais para resolver a questão social, para a Previdência, para a saúde etc., e as pessoas percebem que tudo vai para uma vala comum. Ao mesmo tempo, sabe-se que inúmeras doações a entidades particulares desaparecem com o tempo sem que se saiba o seu paradeiro. Isso é pecado mortal para o Terceiro Setor. Nada pode ir para a vala comum. Tudo tem que estar ligado a projetos específicos. Concluído o projeto, é preciso dar satisfação a quem colaborou, é preciso dar publicidade ao que foi feito. Em seus trabalhos, Trevisan conheceu várias entidades e fundações seriíssimas que optaram por ter superintendentes profissionais, que no final de cada ano publicam o balanço social, e conseqüentemente, são as que têm conseguido maior eficácia. Para
Trevisan, consultor e participante ativo do Terceiro Setor, a caridade
praticada com inteligência deve ser divulgada e se transformar
em novas e permanentes fontes de crescimento social. Texto
do livro |
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