ENTRE NESTE NOVO MUNDO

O VIAGRA E O MACHISMO PARTE II

Moacir Costa

 

As mulheres falam sobre isso no seu consultório?

Falam. E sofrem, porque o machista não forma vínculos com a companheira, sempre viveu em função de um impulso da sexualidade que o leva a uma relação mais física ou mecânica, sem envolvimento. É claro que, depois de certa idade, já não consegue suportar a situação, a menos que vá trocando de parceira. A maioria dos machões que conheço e que colecionaram mulheres na década de 60 está hoje, aos 50, 60 anos, nos consultórios de psiquiatras ou de urologistas. São pessoas depressivas, fumantes inveterados, a maioria dependente de alguma droga, mesmo que seja remédio para dormir. Aos 50 anos, não têm força nem motivação para repetir o roteiro que se obrigaram a cumprir. É um desdobramento melancólico, pois somam-se o fracasso nas conquistas, a ansiedade de fazer a busca e a solidão pela falta de envolvimento. Isso os faz infelizes e deprimidos. Começam a ficar impotentes. Raramente passam dos 50 sem apresentar dificuldades sexuais.

Mas a maioria procura psiquiatras?

Acho que não escapam do psiquiatra, do urologista, do terapêuta sexual. Ficam sozinhos, sobram. E olha que muitos foram casados com mulheres bastante interessantes, só que não prestaram atenção nelas. Aliás, não formam vínculos nem com os filhos. Meu livro "Sexo - O Dilema do Homem" aborda esse tema. No meu outro livro, "Sexo - Minutos que Valem Ouro", Raul, gerente de banco, o penúltimo personagem, é um exemplo do que estamos falando. É impotente, hipertenso, tem ejaculação precoce. Mas, em se tratando de amor, não tem acordo com ele. Na despedida do filho no aeroporto, dá-lhe um tapinha nas costas e pronto. Não aprendeu a colocar emoção e sentimento nos relacionamentos. É o durão, a vida para ele é sempre um a linha reta.

Por que o fenômeno do afloramento homossexual pode ocorrer na faixa dos 50 anos?

Penso que as defesas do indivíduo caem por terra. Ele não tem mais condições de acreditar naqueles impulsos que lhe deram alguma satisfação no relacionamento heterossexual. Os conflitos homossexuais, somados a outros problemas, sempre o atormentaram, e parece que nessa fase da vida as defesas vão se reduzindo. talvez ele também tenha uma tomada de consciência mais ampla sobre suas necessidades, seus interesses e desejos, que começam a ser reavaliados. A própria terapia psicológica ajuda o indivíduo a aceitar um pouco melhor sua condição.

É que esse homem tem resistência em reconhecer e admitir seus desejos homossexuais. Luta muito, às vezes constitui família, mas sempre se pode notar seu desconforto na relação conjugal. Recentemente tive uma clássica situação dessas no consultório: um profissional liberal, 46 anos, não está agüentando mais. Tem três filhos e perdeu a motivação na vida sexual com a companheira. Tem de dar as escapadas, procurar um garoto de programa. Nessa relação, ele se sente forte, vibra. Com a mulher, porém, já não tem mais excitação.

Esse homem deve passar por um grande sofrimento até ter coragem de romper.

Sim. Ele me disse: "A primeira pessoa que estou procurando é o senhor. Ninguém sabe sobre esse problema até hoje."

Texto do Livro:
A Pílula do Prazer
Editora Gente

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