SÉRGIO BUARQUE DE HOLLANDA
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Um homem de uma capacidade de reflexão, de concentração fora do comum e um grande boêmio. Um homem que encarava os problemas com seriedade, e extremamente moleque, um grande gozador. Jovem na Alemanha, teve um filho com uma moça alemã. Veio embora e o filho ficou por lá. Mais tarde, muito tempo depois, tentaram localizar o rapaz, mas não conseguiram. E ele que sempre teve um jeito de estrangeiro, quando lhe perguntavam: “Professor, o senhor é filho de alemão?”. Ele respondia: “Não, sou pai de alemão. Sérgio Buarque de Holanda nasceu em 1902, na Rua São Joaquim, no bairro da Liberdade. Sua primeira obra não foi um livro, mas uma valsa. Composta quando tinha nove anos, a valsinha Vitória Régia foi publicada na revista Tico-Tico. Ele a tocou de improviso e alguém escreveu a partitura, que ele não sabia como fazer. Estudou piano por sete anos. Menino, gostava de dançar — especialmente o charleston — e de ir ao cinema, mas parecia diferente dos outros. Sempre teve compulsão pela escrita e era um apaixonado pelos livros. Se enfurnava na Biblioteca Pública do Estado, e lá passava horas, fascinado por autores vetustos, como os antigos cronistas portugueses. Sem saber precisar como e por que foi se tornando um escritor. “Dei para escrever com fertilidade e ferocidade inesgotável, bem indigna do autor remido em que iria me transformar”, declarou certa vez. Em tiras de papel almaço ia tomando notas das leituras e fazendo anotações diárias. Escrevia ao acaso, um misto de ficção e ensaio. Fez também os seus versinhos. “Sabia fazer versos no duro” diria Manuel Bandeira. Ele, entretanto, sempre renegou esse seu lado. “Não sou escritor por vocação, nunca fui poeta.”. Em 1921, quando Mário de Andrade publicava a sua Paulicéia Desvairada, a família Buarque de Hollanda deixava São Paulo e se mudava para o Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, Sérgio ingressava na Faculdade de Direito, onde conhece Prudente de Moraes Neto, que se tornaria seu grande amigo. Começa também a publicar artigos na Revista do Brasil e em O Jornal. E além disso lia, cada vez com ânsia maior. Usava nessa época um monóculo, que lhe emprestava um ar extravagante, e tinha por hábito ir, todas as manhãs, às livrarias, onde gastava todo o dinheiro que conseguia na compra das novidades do mundo literário. “Desde muito moço aproveitou ao máximo as leituras e acumulou um saber que espantava os amigos. Sobretudo porque a sua curiosidade era dirigida igualmente ao passado e ao presente, à inovação e à tradição, com o dom contraditório de se apaixonar tanto pela minúcia quanto pelo conjunto”, escreveu sobre ele Antonio Candido. Em todos os lugares era visto com quatro ou cinco livros debaixo do braço, lendo na praia, nos bondes, onde estivesse. Marcava-o também a boemia. Nos cafés as discussões giravam em torno de política e literatura. No bar Lamas, no Largo do Machado, passava intermináveis noitadas ao lado de Prudente de Moraes Neto e de Gilberto Freyre. “Mais de uma vez amanhecemos, bebendo chope, em bares tradicionalmente cariocas, ouvindo os para nós brasileiríssimos e como que mestres, além de amigos, da cultura brasileira, Donga, Patrício e Pixinguinha”, disse Gilberto Freyre numa entrevista. Ainda em1922, ano de intensa agitação, acontecia a Semana de Arte Moderna — um libelo contra as tradições. Sérgio Buarque acompanhava toda a movimentação e deveria estar no Teatro Municipal de São Paulo naqueles dias. Sabia tudo, conhecia tudo e entre os modernistas, com os quais convivia, apesar de ser o mais jovem, era de todos o mais bem informado. Por Mário e Oswald de Andrade, foi indicado para ser o representante em terras cariocas da Klaxon — primeira revista do movimento. No entanto, por não ser aluno dos mais aplicados no curso de direito, acabou ficando de segunda época, o que o deixaria preso no Rio. Os primeiros modernistas, não tinham um posicionamento ideológico definido. É só com a publicação do Manifesto Pau- Brasil, de Oswald de Andrade, em 1924, que o grupo começava a se dividir. Contra o Pau- Brasil se insurgia o grupo Anta, em torno do qual se uniam Plínio Salgado, Cassiano Ricardo e Menotti del Pichia. Depois da morte prematura da Klaxon, Prudente de Moraes e Sérgio Buarque resolvem editar a revista literária Estética , que pretendia garantir certa unidade ao movimento. A pretensa unidade, entretanto, acabaria já no segundo número. Os dois começam a criticar os modernistas que não conseguem se livrar do academicismo. No artigo “O lado oposto e outros lados”, o futuro historiador decide “romper com todas as diplomacias nocivas” e investe contra os acadêmicos modernizantes, em especial Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida, que fora sua primeira grande amizade literária. As reações ao artigo foram grandes, muito maiores do que se esperava, e a onda de intolerância acabaria por fazer Sérgio Buarque ter profunda desilusão com a vida intelectual. O amigo Vieira da Cunha, o chama, nessa ocasião, para dirigir um jornal em Cachoeiro de Itapemirim, o recém-criado "O Progresso". Sem conseguir ver uma saída possível, ele aceita o convite. Desfaz-se de todos os livros e intempestivamente vai embora, para se deixar quieto, como um jornalista de roça. Foi ainda durante essa temporada que trabalhou, pela primeira e única vez, como advogado. Formado já havia dois anos, atuou como promotor na cidade de Muniz Freire. Para trabalhar teve que viajar seis horas no lombo de um burro e quando chegou estava de tal maneira esfolado, que só um banho de salmoura foi capaz de fazê-lo comparecer ao júri no dia seguinte. Grande gozador, em Cachoeiro se divertia instigando a briga entre duas famílias rivais, e com suas conversas, um tanto avançadas, logo ganhou o apelido de Dr. Progresso. Costumava tomar umas e outras e seria justamente a farra que o curaria da crise existencial. “Benditos porres de Cachoeiro de Itapemirim! Eles nos valeram a devolução, em perfeito estado, de Sérgio, enfim descerebralizado, pronto para a aventura na Alemanha”, escreveu Manuel Bandeira no livro Flauta de Papel. Bandeira conta ainda que, não fosse um feliz incidente, Sérgio Buarque teria se deixado ficar esquecido em território capixaba. “Por um triz que Sérgio se perde, e foi quando pretendeu ser professor no ginásio de Vitória. O Estado do Espírito Santo até hoje não sabe a oportunidade que botou fora quando seu governador de então voltou atrás do ato que nomeava professor de História Universal e História do Brasil o futuro autor de Raízes do Brasil”. Um tanto desajeitado, com um par de óculos que lhe dá certa seriedade, ele entra no trem que parte de Cachoeiro de Itapemirim. O trem devagar começa a andar, deixando tudo para trás, levando as notas de um projeto ainda dos tempos de convivência com Prudente de Moraes Neto. Depois da curta temporada e da escala no Rio, o futuro autor partiria para Berlim como enviado especial dos Diários Associados. Rubem Braga conta, em uma crônica do seu livro Recado de Primavera, que quando os amigos de Cachoeiro viram aquele nome no jornal se perguntaram, incrédulos : “Será o Dr. Progresso?” Ao que alguém respondeu “ O quê! Então o Chateaubriand vai mandar um bêbado daquele para a Europa?” Enquanto trabalha como jornalista e também como tradutor de filmes, entre eles o famoso Anjo Azul, com Marlene Dietrich, procura dar consistência à idéia de um ensaio sobre nossa formação. A historiografia alemã o influencia bastante e seu primeiro clássico começava a ganhar forma. Descobriu a que viria a ser sua maior vocação — a de historiador. Surgia o interesse pela história, que ele passaria então a considerar como “o elo primordial das ciências humanas”. Antes disso, era essencialmente um crítico literário e jornalista. O contato com os estudos históricos e sociais alemães e o fato de ver o país de fora, despertariam nele a tarefa a que se propunham os intelectuais brasileiros da época — entender o País. “Eu escrevia artigos tentando explicar o Brasil para os alemães. Só quando você está no exterior é que consegue ver o seu próprio país como um todo. Você o encara sob uma perspectiva diferente. E o Brasil não é fácil de entender”, diria ele anos depois. De volta ao Brasil, o livro continuaria a ser trabalhado e seria o primeiro da coleção Documentos Brasileiros que a Livraria José Olympio iniciava. Os bares e os cafés cariocas não têm mais sua presença constante e a literatura ia perdendo espaço para a história. Começava uma nova fase em sua vida. O boêmio se deixa aprisionar e se casa com Maria Amélia Alvim. Os filhos começavam a vir, um atrás do outro, e os livros também. Mas não muitos. Porém fez de cada livro uma viagem profunda. Seu estilo devassa o processo histórico e sua cultura monumental lhe permitia a reconstrução minuciosa da maneira de ser de povos esquecidos no tempo. Raízes do Brasil fora apenas o prelúdio. As obras posteriores se diferenciam imensamente do ensaio de estréia, deixando o cunho especulativo e interpretativo de lado e passando a estar fortemente calcadas na pesquisa histórica. Convidado para o cargo de Diretor do Museu Paulista, depois de 25 anos distante, voltava à sua cidade natal. “São Paulo tornara-se inseparável de minha nostalgia da infância e da mocidade”, disse na ocasião. O contato com a documentação sobre o estado, enquanto esteve à frente do museu, o teria motivado a escrever dois livros - Caminhos e Fronteiras e Monções. Em ambos tratou da colonização e povoamento dos interiores, em especial do sertão paulista. Visão do Paraíso, considerada sua obra mais erudita, tomou anos de pesquisa, escrito em 1958 como sua tese de cátedra para a USP, na qual já dava aulas havia dois anos e como a data do concurso se aproximava, a redação do livro teve que ser feita em pouco mais de três meses apesar da longa pesquisa. Em uma época em que predominava o cunho econômico-social das análises, o livro fala sobre os motivos edênicos dos descobrimentos. Com os pés fincados nos estudos literários, Sérgio Buarque faz uma recomposição da concepção paradisíaca que os descobridores tinham do Novo Mundo. Os fundamentos mais remotos da história do continente são recuperados e a obra vai atrás do repertório de crenças e lendas que transmitiam a idéia de que o Éden terrestre de fato existia. O novo continente seria uma dádiva divina, uma terra coberta de riquezas, “em que se plantando tudo dá”. Apesar de ser reconhecido por suas qualidades literárias, dono de um estilo raro no ensaísmo brasileiro, ele mesmo declarou em depoimento: “ Tenho aguda consciência de minhas limitações pessoais como escritor, e confesso aqui, sem modéstia fingida, que hoje, na idade a que cheguei, o ato e o hábito de escrever me vão fugindo cada vez mais”. Longe do estereótipo do intelectual casmurro, Sérgio Buarque era um exímio contador de histórias e um grande gozador. “A sua casa era uma festa”, conta José Sebastião Witter, professor aposentado do Departamento de História da USP, que foi seu aluno e assistente. “Ele sempre nos chamava para ir lá. Até um determinado momento se discutiam as questões do departamento, das pesquisas, mas tudo sempre terminava em uma conversa sobre música, uma piada, uma fofoca sobre os outros catedráticos”. Como professor, gostava de emprestar livros aos seus alunos, de sugerir temas para as pesquisas e, ainda que não intencionalmente, criou uma geração de historiadores. Com a ditadura militar em 1964, e a repressão chegando ao ápice quatro anos depois com o AI-5, as persseguições políticas aumentaram, e vários professores foram afastados compulsoriamente. Sérgio Buarque de Holanda não deixou de se posicionar e resolveu se aposentar como forma de protesto. O historiador que sempre fora um supersticioso — tinha tanto horror ao número13 que nunca deixava o 13º cigarro sobrar no maço— deixava a Universidade depois de exatos 13 anos de trabalho. Ele não voltaria a dar aulas. Já no final da vida resumiu sua experiência:" Geralmente confundem historiador com antiquário. Escrever história é ter uma visão dialética do passado e, eventualmente, de suas consequências no presente". Seu último grande trabalho foi a coordenação da série História Geral da Civilização Brasileira, da qual esteve a frente de sete dos 11 volumes. Para essa empreitada, mobilizou, entre 1960 e 1972, dezenas de colaboradores mas acabou fazendo sozinho um dos livros. Quando chegou ao 7º volume, cansado das cobranças e dos atrasos, escreveu as quase 500 páginas de Do Império à República. Com esta obra tornou-se um dos maiores especialistas no período imperial. Sua preocupação política, que sempre fez questão de manifestar em suas obras e em suas atitudes, acabariam por levá-lo a ser um dos fundadores do PT, em 1980. O historiador morreria dois anos depois. Ainda no livro Recado de Primavera, Rubem Braga rememora uma certa noite de verão, com lua cheia, quando Sérgio saía de um baile — não em Cachoeiro, mas na Vila de Itapemirim. "Ele dizia que ia acender o cigarro na Lua. E partiu, cambaleando entre as palmeiras. Vai ver que acendeu." Enviado
por: Paulo Gervais |
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