GILBERTO FREYRE

O OUTRO BRASIL QUE VEM AÍ

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.

Gilberto Freyre nasceu em 15 de março de 1900, em Recife, Estado de Pernambuco, mas criou-se em Olinda, cidade vizinha.
Quando criança tornou-se mais notado por seus desenhos que pela palavra escrita, chegando a ser confundido com portador de retardo mental por sua dificuldade em aprender a ler e escrever. Viveu algum tempo num engenho, e essa experiência é relatada mais tarde em alguns livros.

Contudo, aprendeu latim com seu pai, e em 1914 já dava aulas e participava ativamente nos trabalhos da sociedade literária de seu colégio, logo vindo a tornar-se redator-chefe do periódico escolar. A partir daí, entre visitas, palestras e conferências tomou interesse pelo socialismo cristão.

Já estudioso de inglês, francês e de grego, em 1919, na Universidade de Baylor (Waco-Texas) ensinou francês a jovens oficiais norte-americanos convocados para a guerra, além da atividade de professor de literatura e crítico especializado na filosofia e na poesia do autor Robert Browning.

Como estudante de Sociologia, fez pesquisas sobre a vida dos negros de Waco e dos mexicanos marginais do Texas, concluindo também na U. de Baylor, o curso de Bacharel em Artes, quando aprimorou sua arte de caricaturista. Fez também cursos de Ciências Políticas na Universidade de Colúmbia e outras, regressando ao Brasil em 1924 com muitos títulos de pós-graduação e um vastíssimo conhecimento.

Com escritores e jornalistas brasileiros fez várias incursões ao interior nordestino. Em 1925 organizou o Livro do Nordeste, que consagrou o até então desconhecido pintor Manuel Bandeira com seu poema "Evocação do Recife", publicado pela primeira vez.

Nos anos seguintes colaborou em vários jornais tendo sido o primeiro catedrático em Sociologia no Brasil. Em 1930 conheceu uma parte do continente africano (Dacar, Senegal) e em Lisboa iniciou as pesquisas e estudos de base para o livro "Casa-grande & Senzala", sua mais conhecida obra, concluída somente em 1933, e impressa graças à ajuda do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt. Obra elogiada e premiada, deu seqüência a vários outros livros sobre a realidade nordestina como "Olinda, 2º guia prático, histórico e sentimental da cidade brasileira" "Sobrados e Mocambos" e muitos outros.

Preso no Recife em 1942 por ter denunciado, em artigo publicado no Rio de Janeiro, atividades nazistas e racistas no Brasil, livrou-se das acusações graças à interferência direta do seu amigo General Góes Monteiro, mas teve quase toda a sua tiragem de suas obras apreendida nas livrarias do Recife pela Polícia do Estado de Pernambuco. Enquanto suas obras já estavam sendo divulgadas e traduzidas no exterior, no Brasil participava de comícios e conferências, escrevia artigos e animava os estudantes na luta contra a Ditadura.

Eleito deputado federal em 1946, tomou parte nos trabalhos da Assembléia Constituinte, no Rio de Janeiro, "Casa-grande & Senzala" chegava à 5a.edição no Brasil, enquanto era traduzido como "The masters and the slaves" em inglês.

A convite da Unesco, em 1948 tomou parte, em Paris, no conclave de 8 notáveis cientistas e pensadores sociais, reunião que valeu a obra "Tensions that cause wars".

Colaborando ativamente em jornais e periódicos de outros países, sempre encontrou tempo para lançamento de novos estudos e novos livros. Em 1954 foi escolhido pela Comissão das Nações Unidas para o estudo da Situação Racial na União Sul-Africana e apresentou à Assembléia Geral da ONU um estudo por ela publicado no mesmo ano: Elimination des conflits et tensions entre les races.

Em Amsterdam, no 3º Congresso Mundial de Sociologia, recebeu talvez a maior homenagem já prestada na Europa a um intelectual brasileiro, com a discussão de Casa-grande & Senzala por selecionadíssimo naipe de intelectuais do mundo inteiro.

Foi homenageado pela Escola de Samba da Mangueira, no carnaval carioca em 1962, com enredo inspirado em Casa-grande & Senzala.

Sagrado como Sir pela Rainha Elizabeth II e homenageado com título de Doutor Honoris Causa por várias Universidades de renome no mundo afora, completou 60 anos escrevendo livros, colaborando em jornais e revistas nacionais e estrangeiros, dirigindo cursos, proferindo conferências, e atendendo a convites de universidades européias e norte-americanas. Troféus e medalhas, títulos vários, prêmios diversos constam no histórico de Gilberto Freyre, que se manteve atuante até 18 de julho de 1987, quando veio a falecer. Nessa ocasião, a Editora José Olympio lançou a 25ª edição brasileira de Casa-grande & Senzala.

Todo o patrimônio cultural, bens e acervos de Gilberto Freyre estão reunidos na Fundação Gilberto Freyre, disponível para estimular a continuidade dos seus estudos e de suas idéias, voltados para a compreensão e interpretação da realidade social brasileira.

Fonte: www.releituras.com
Enviado por: Maria Lucia

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