AUTORES CÉLEBRES

Esta página foi aberta por sugestão da nossa "VelhaAmiga" Dulce Rossi Del Claro que quer incentivar a leitura dos nossos autores célebres.
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ERICO VERISSIMO

O PRISIONEIRO - PARTE 3 (FINAL)

O tenente calou-se e começou a beber, distraído, da pequena xícara de café que o garçom pusera na sua frente.
- Depois, o funeral... Era Verão. No cemitério o ar estava pesado de perfume. Magnólias... O céu muito limpo. Lembro-me de detalhes sem importância daquela hora. Uma libélula pousou sobre a tampa do caixão. As meias de minha mãe estavam muito frouxas em suas pernas finas. Decorei a inscrição de uma lápide próxima, o nome do morto, a data do seu nascimento e a da sua morte. (Era um cemitério só de negros, naturalmente.) Quase pisei numa rosa amarela que estava no chão, quando caminhávamos para o portão do cemitério. Eu estava de mãos dadas com minha mãe, que ainda chorava, mas mal podia reprimir a minha alegria, que agora, mais do que nunca, sinto que era egoísta, malvada... Naquele momento entrou no cemitério um enterro puxado a jazz-band, com bandeiras, gente alegre a dançar e a cantar. Era uma música marcial, cheia de júbilo, com a qual o meu sentimento reprimido se identificou.
Foi então que tive um pensamento que até hoje me arde como uma queimadura na memória. Agora que ele morreu, minha mãe e eu podemos viver como brancos.
- E foi o que aconteceu mesmo?
O tenente sacudiu a cabeça.
- Não. Minha mãe poderia ter voltado, como eu esperava e desejava, para a cidade onde viviam seus pais e reconciliar-se com eles e seu mundo. Mas não fez nada disso. Ficou onde estava. No gueto negro, conservando os mesmos amigos e os mesmos hábitos.
- Eu a compreendo muito bem. Essa era a sua maneira de protestar contra a discriminação. já pensou que, procedendo assim, ela tomou uma posição na luta racial?
- Sim, pensei. E isso me inquieta, porque estou ainda indeciso. Minha mãe tinha mais coragem que eu. E mais dignidade.
- Onde está ela?
- Morreu há três anos. Foi enterrada perto do velho, naquele mesmo cemitério...
- E você não pensou em que vindo para cá podia ser morto?
- Achei que isso podia ser também uma solução. A professora acendeu o seu sexto cigarro. - Tenente, você acredita no pecado?
- Intelectualmente... não. Mas com o corpo e com essa parte do cérebro que paradoxalmente parece imune à razão, acredito, sim, e como! A verdade é que estou numa confusão mental, especialmente depois de ter passado um ano metido nesta guerra. Tenho a impressão de que me estou desintegrando aos poucos, perdendo a identidade... Odeio este clima, não compreendo este povo e seria insincero se dissesse que gosto dele. Embarcarei amanhã, de volta para casa. Devia estar feliz e, no entanto, sinto-me apreensivo, ambivalente. Às vezes pergunto a mim mesmo quem sou, que é este mundo para onde fomos trazidos. Leio notícias de meu país a respeito das explosões de violência racial. Lá temos agora guerrilheiros urbanos negros. Aqui combatemos os que convencionamos chamar de vermelhos. Mas não serão, todas essas revoltas, lá e aqui, fragmentos da mesma luta provocada pela incurável estupidez humana? O desconcertante é que trinta por cento dos soldados de nossa tropa nesta frente de guerra são pretos. Isso tem sentido?

Esperou que a amiga lhe dissesse alguma coisa, mas como ela permanecesse calada e aquela pausa de silêncio se lhe tornasse um pouco opressiva, tornou a falar.
- O pastor de nossa paróquia disse uma vez num sermão dominical que o corpo é a casa da alma e por isso deve ser respeitado. Ora, eu acho que no caso dos pretos, o corpo é a penitenciária de seu espírito. E quem tem a chave que nos poderá libertar? Os brancos?
- Não, não creio. Seria uma resposta simplória de mais. Os brancos de seu país também vivem numa penitenciária que eles mesmos construíram com o feio cimento de seus preconceitos. Devem por sua vez achar que a chave da sua liberdade está em poder dos chamados homens de cor.
- Quem tem então a chave? Talvez Deus. Mas Deus parece ser neutro na questão. Deus não tem pele.
Ela sorriu tristemente.
- Fale-me da sua mulher.
- Para principiar, é uma quadrarona...
- Quê?
- Uma pessoa que tem um quarto de sangue negro.
- Ridículo! Você mesmo faz o jogo dos "brancos" avaliando as pessoas de acordo com os valores deles. Porque usar essa nomenclatura absurda e deprimente? Porque nãocomeçou por dizer como é a sua mulher como um ser humano?
- É bonita, inteligente, boa companheira...
- Então que é que há de errado com o seu casamento?
Deixou de gostar dela?
O tenente emborcou a xícara de café e sorveu todo o seu conteúdo como quem toma um licor forte para cobrar coragem.
Era singular: achava mais fácil confessar àquela mulher estranha e estrangeira os seus sentimentos para com o pai e a mãe do que contar-lhe suas relações com K. Era como se estivesse diante da esposa legitima.
- Passei os meus primeiros meses neste país na mais absoluta abstinência sexual. Um dia, solitário e meio triste, faminto de companhia feminina, fui a um desses salões públicos de dança e lá encontrei uma moça... uma nativa. Dancei com ela e meia hora mais tarde estávamos na cama, depois de eu ter discutido preços, quase morto de vergonha, com o seu proxeneta, que me exigiu o pagamento adiantado de uma determinada soma... um sujeito que abominei desde o momento em que o vi. - O tenente baixou a cabeça e a voz, e acrescentou: - Por sinal o homem está nesta sala, à sua esquerda, na mesa do centro...

A professora voltou a cabeça disfarçadamente para a direção indicada, lançou um rápido olhar para o traficante de mulheres, que estava a comer com uma colher a cremosa polpa de uma manga. Tornando a encarar o amigo, murmurou:
- Conheço o tipo. Um dia teve a audácia de ir à minha casa para me fazer uma proposta. Queria simplesmente incluir meu nome na lista das "moças que utilizavam seus serviços".
- Quê? Mas não é possível!
- Que é isso, tenente? Me acha assim tão velha e feia?
- A coragem do canalha!
- Ora - sorriu ela -, esse homem é um realista frio, sem a menor sensibilidade moral. Ele me fez sua proposta baseado no princípio, desgraçadamente válido, de que ninguém ou, melhor, muito pouca gente no mundo recusa a oportunidade de ganhar mais dinheiro... Viu-me sozinha, sem homem, e fez lá os seus cálculos. Sabe o que me contou? Que entre seus clientes existe gente de todos os gostos. Uns preferem meninas impúberes, outros moças entre quinze e vinte, mas às vezes é também procurado por cavalheiros de meia-idade que se inclinam pelas mulheres maduras como eu. E não é raro aparecerem fregueses que só gostam de rapazes.
- Mas você não botou esse ordinário para fora de sua casa, a bofetadas?
- Não. Se a sua proposta tivesse tido o poder de me indignar a esse ponto, isso poderia significar que existe escondida dentro de mim, reprimida, a semente de um desejo que, a proposta do alcoviteiro podia fazer germinar. A coisa toda era tão absurda que nem me tocou... Antes de retirar-se, o homenzinho me deixou um cartão de visita, com nome e endereço, para "o caso de eu mudar de ideia". Pois esse pilar da sociedade, tenente, e centenas de outros que, como ele, traficam com prostitutas e entorpecentes ou fazem o mercado negro, são parte do complexo político e econômico que vocês querem manter a qualquer preço... Mas continue a sua história. Você então foi para a cama com a moça... E depois?
- Sim - balbuciou ele, meio desconcertado. - Tornei a estar com ela muitas vezes num quarto alugado à hora, nos altos do Café Caravelle. Uma mulher que trabalha para esse cão faz a cobrança à entrada. Sou obrigado a consumir bebidas a preços exorbitantes. Tudo isso é muito sórdido. Bom, mas o pior é que... que... não sei como vou me explicar...
A professora ajudou-o a terminar a frase:
- O pior é que isso que devia ser apenas um fortuito encontro de corpos para sua satisfação sexual, se transformou noutra coisa. Você está interessado sentimentalmente na rapariga, não é verdade?
- Exatamente.
- Como se chama ela?
- Não consegui aprender seus dois nomes. O primeiro me soa como uma letra do alfabeto: K. É esse o "nome" que lhe dou. Curioso, quando menino eu associava essa letra ao título da sociedade secreta que no Sul de meu país persegue os negros. Seus adeptos usam vestes brancas, escondem a cara e a cabeça sob um capuz cônico e alto, que me lembra as figuras da Inquisição que eu via em livros e revistas... Sim, os inquisidores que queimavam os hereges. Por muito tempo herege, foi uma palavra que associei à figura de minha mãe, desde a noite em que membros daquela sociedade traçaram uma cruz de fogo na relva, à frente de nossa casa. Temi que quisessem queimar minha mãe... - Calou-se perdido em recordações. - K sempre foi para mim uma letra macabra. Agora simboliza a mulher que me inspira... afeição. Não é engraçado?
- Perdeu então a conotação sinistra?
- Não creio. Tenho o pressentimento de que, de certa maneira, mais cedo ou mais tarde, serei castigado por sentir o que sinto por essa moça. As palavras podem ser sombras, mas que força possuem essas sombras! Que magia!
- De acordo. Mas devemos defender-nos de toda palavra, toda linguagem que nos desfigure o mundo, que nos separe das criaturas humanas, que nos afaste das raízes da vida.
- Como? Como?
- Ora, fazendo exercícios. Repita uma palavra muitas vezes, muitas vezes, até que ela perca o seu sentido. Quando o som K deixar de significar os fantasmas da sua infância e mesmo não simbolizar mais as suas relações "pecaminosas" com essa menina... a pessoa dela ainda estará à sua espera (sem nome, pouco importa!) nos altos do Café Caravelle. Se, por outro lado, você não vencer o medo que lhe inspiram as iniciais ou o nome dessa monstruosa sociedade secreta, como é que vai ter coragem de enfrentá-la no plano físico? É com palavras, símbolos e metáforas que os demagogos nos hipnotizam e os ditadores nos dirigem e dominam, é ou não é?

Ele sacudiu afirmativamente a cabeça, olhou em silêncio a própria imagem refletida e deformada no côncavo de uma colher.
- E qual é mesmo o seu grande problema com K? Ela gosta de você?
- É inacreditável, mas não sei. Tive medo de perguntar.
Se perguntasse, possivelmente ela me diria uma mentira amável, profissional. De resto, mal nos comunicamos verbalmente. Não sei mais que uma escassa dezena de palavras e frases da língua dela. Ela sabe muito pouco, quase nada, da minha. Entendemo-nos... e às vezes nos desentendemos com gestos. O que mais me preocupa é que, sentindo o que sinto por essa...
- Diga logo sem medo: prostituta. Não se trata de um adjetivo, mas de um substantivo que designa uma profissão.
-... sim, estou traindo a minha mulher. Por outro lado me entristece, e às vezes revolta, saber que K. recebe apenas uma parcela mínima do que pago por ela ao sujeito que a explora. Também me fere a ideia de que ela faz comigo o mesmo que faz com centenas de outros homens... Hoje mesmo K. Já deve ter entregue o corpo a muitos outros.
- Isso é ciúme ou compaixão.
- Creio que ambas as coisas.
- Se você pudesse estar certo de, que sente por essa pobre menina mais compaixão do que ciúme, eu passaria a depositar todas as minhas esperanças na sua salvação, tenente. Mas não me pergunte o que entendo precisamente por salvação.
- Ouvi dizer que aos doze anos, veja bem, doze anos, durante a guerra de 54, K. foi violentada por um soldado de seu país, minha amiga, um mercenário branco... No dia em que me contaram isso fiquei tão inibido que nem a pude tocar...
- E você não pensou na analogia que existe entre. K. e esta terra? Hoje não serão vocês os violadores?
- Por favor, não aumente a minha confusão!
Ela fez um gesto de paz: estendeu a mão por cima da mesa e tocou rapidamente o braço dele.
- Está bem - disse. - Mas encaremos os fatos. Você volta amanhã para casa. Isso significa pelo menos o fim de seu caso com K. no plano carnal. O tempo tomará conta do resto. Ele sacudiu a cabeça repetidamente, de um lado para outro, como se quisesse espantar uma mosca importuna. E de súbito apanhou o copo, onde restava algum vinho, levou-o à boca, e esvaziou-o num único sorvo.
- É estranho, mas desde hoje de manhã estou com o pressentimento de que não chegarei a embarcar... porque alguma coisa de mau me vai acontecer.
- Tire isso da cabeça! Será que já se deixou contaminar, pelo espírito supersticioso dos nativos?
Pausa na conversação. O tenente olhou para o seu relógio-pulseira.
A professora interpretou o gesto.
- Tem encontro marcado com ela esta noite?
Ele esteve a ponto de mentir que não.
- Sim, dentro de quinze minutos. Vou dizer-lhe adeus.
Fez um sinal para o garçom e, quando este se aproximou, pediu-lhe a conta. Olhou para a amiga:
- Não sei como lhe agradecer...
Ela o interrompeu com um gesto.
- Não me agradeça... Trocamos confissões. Creio que fizemos algum bem um ao outro. - Mudou de tom. - Estou com meu carro à porta do restaurante. Quer que o leve até ao Caravelle?
- Não, obrigado. Prefiro ir a pé.
- Compreendo. Vai em companhia de seus fantasmas... Mas, por favor, não leve muito a sério o que eles lhe disserem.
Temos de nos convencer de que nossa memória nem sempre é boa amiga.
Paga a despesa, encaminharam-se ambos para a porta do salão. Ao passar pelo proxeneta - que entesou o busto e sorriu, esperando talvez um cumprimento - o tenente sentiu um calorão no corpo inteiro e teve ímpetos de esmagar o verme.
(Menino: o jardim úmido, o limo, a lesma, a gosma na sola do pé.) A professora tomou-lhe do braço com certa ternura:
- Haja o que houver, tenente, lembre-se de uma coisa. É preciso a gente aprender a viver em paz consigo mesma e seu passado. E também devemos (porque não?) incluir-nos a nós mesmos no número daqueles a quem precisamos perdoar... à porta de L'Oiseau de Paradis, ao apertarem-se longamente as mãos na despedida definitiva, a professora alçou-se na ponta dos pés e beijou-lhe uma das faces. Sair do interior do restaurante para a rua foi como deixar bruscamente as leves e frescas águas de uma piscina para mergulhar num mar espesso e estagnado de óleo quente.

O tenente sentiu logo, no corpo e no espírito, o peso da noite. Os altos coqueiros que orlavam a avenida, à beira do canal, estavam imóveis. Luzia no céu, baça como um olho insone, uma lua cheia cor de melão. Vinha de longe - dez quilômetros? Quinze? - um troar de canhões. Ele começou a andar lentamente na direção do Caravelle. O suor escorria-lhe pelo rosto e pelo torso, empapando o blusão. Chegavam até ele, misturadas, as emanações do rio: cheiro de água e madeira apodrecida temperado enjoativamente pelo aroma de flores-de-lotus. O tenente se viu com dezesseis anos entregando, entre orgulhoso e canhestro, o caderno de composição literária ao seu professor: tinha escrito um poema em que comparava a lua cheia com um luminoso loto boiando no lago azul do céu... Agora estava enfarado de lotos. Desde que chegara àquela cidade era perseguido pela flor simbólica. Por toda a parte via desenhos, bordados ou relevos com motivos inspirados no loto. Via flores-de-lotus nos vasos. Lotus nos fossos da cidadela. Lotus nos lagos dos jardins. Comia sementes de lotus no arroz. A cidade às vezes lhe parecia uma mulher suja que se perfumava de essência de lotus para esconder o fedor de suas podridões.
O tenente pensava na mulher de quem acabara de despedir-se. Que significação teria aquele beijo? Ternura de irmã? Talvez compaixão... Ele não podia acreditar na ternura, mas recusava a compaixão. Queria amor, isso sim, não piedade. Fosse como fosse, a professora ficara para trás. Nunca mais! Ia agora ver K., teria a rapariga nua na cama... a última noite.

Depois K. seria também apenas uma imagem na memória, uma figura que se iria desbotando aos poucos, lavada pelas águas do tempo. A vida era muito estranha... Passou por uma janela aberta, vislumbrou no interior da casa um altar onde se queimava incenso. A fumaça chegou-lhe às narinas, lembrando-lhe um dia em que, adolescente, entrara por curiosidade na única igreja católica existente na cidade onde vivia, e assistira a uma missa inteira, deslumbrado pelo ritual, os paramentos do padre, a música do órgão, o fulgor do ostensório, o mistério da comunhão - o corpo e o sangue de Cristo - e depois voltara para casa com um sentimento de culpa por haver traído a sua própria religião, desejando ajoelhar-se diante de seu ministro para confessar aquele pecado e outros, muitos outros que o atormentavam, mas sabendo ao mesmo tempo, frustrado, que na sua igreja não havia confessionário.

A dor de cabeça lhe voltara, era agora uma espécie de dor opaca, que lhe tomava todo o crânio. Apalpou um dos bolsos do blusão e certificou-se de que tinha ali comprimidos de aspirina: engoliria dois deles logo que chegasse ao quarto onde K. o esperava. Tateou o outro bolso e sentiu o duro relevo do estojo que continha o anel... Turquesa. Os olhos da professora. Pensou nos soldados amarelos a se revezarem disciplinados sobre o corpo dela, como se cumprisse uma tarefa militar: sugavam o ar e chupavam os dentes para exprimir convencionalmente o seu gozo. Teve pena da amiga. Como tudo aquilo era triste, sórdido e ao mesmo tempo gratuito! É preciso a gente aprender a viver em paz consigo mesma e seu passado. Ela lhe beijara a face... mesmo sabendo que ele tinha sangue negro nas veias. As palavras são as sombras das coisas. Talvez. Mas as palavras podiam ferir. As palavras às vezes matavam. As luzes da cidade estavam amortecidas. As pessoas que passavam na calçada pareciam figuras de sonho. Um que outro automóvel ou velotáxi rodava ao longo da avenida. A Lua parecia segui-lo como um implacável olho sem pálpebra.
Passou a uma esquina por três fuzileiros negros. Ouviu um deles exclamar: "Terra do diabo! Quem me dera estar em casa agora!" Era assim - refletiu, atravessando a rua -, aqueles homens de cor não podiam viver muito tempo longe da pátria que os repudiava. Artistas e intelectuais negros de sua terra visitavam a Europa, onde geralmente eram tratados como seres humanos, aceitos em quase todos os lugares.

Dormiam até com mulheres brancas. Falavam e escreviam furiosamente contra o seu país natal, mas acabavam sempre voltando para lá, pois não suportavam a falta daquela terra onde eram considerados apenas cidadãos de terceira classe. (Os cães e gatos de estimação eram os de segunda.) E pela primeira vez naquele dia o tenente sentiu, intenso, o desejo de voltar para casa, fugir daquele pesadelo asiático, gozar de novo dos confortos, das máquinas, da bem organizada rotina da vida de seu país de origem. Pensou na própria esposa com remorso. Imaginou que o filho caminhava agora a seu lado, com a cabeça enfaixada em ataduras sangrentas. Aonde vais, papai? Vou dormir com uma vagabunda. Escuta o que te digo, eu, teu pai, sou um traidor. Traí meu próprio pai. Traí minha mãe. Traí minha raça. Agora vou trair mais uma vez minha mulher, tua mãe. Vai-te daqui!

Talvez hoje eu faça um filho na rameira. Aí terei traído a ti também. (Como podia pensar essas coisas que realmente não sentia?) O suor continuava a escorrer-lhe cada vez mais abundante pelo corpo todo. Tirou do bolso o lenço e passou-o repetidamente pela cara. Ao chegar à esquina de uma praça avistou o letreiro luminoso do Café Caravelle, azul e vermelho. Parou, sentindo de repente a estranheza e a improbabilidade daquela situação. Ele, naquele lugar, àquela hora, naquelas circunstâncias... Ia para os braços de uma prostituta, uma figurinha como as que ele vira tantas vezes, encantado, nas gravuras coloridas dos livros da adolescência: esbeltas, delicadas, em seus pijamas negros, os rostos meio
sombreados pelos chapéus cónicos... Quem sou eu? - perguntou-se a si mesmo. Trazia no bolso os papéis de identidade com o seu nome e número. O número era de certo modo mais importante que o nome. Não estaria longe o dia em que os homens todos fossem apenas números num computador descomunal. E esse computador bem poderia então transformar-se no deus de uma nova era.

Mais de uma vez, quando estava com K. na cama, pensara na possibilidade de ser apunhalado pelas costas por um inimigo que se esgueirasse despercebido para dentro do quarto. Imaginou-se morto, completamente nu, sem qualquer documento de identidade, estendido no fundo de um beco ou boiando nas águas do rio... A pessoa que o encontrasse veria logo: é um homem. Se fosse um compatriota seu, acrescentaria: de raça negra. Seu cadáver seria metido na gaveta da geladeira do necrotério, onde aguardaria identificação. Mas se lhe descobrissem o nome ou o número, nem por isso ele recuperaria a vida. Não seria a identidade de uma pessoa mais que uma combinação de letras, sons e algarismos?

Tornou a pensar na professora. Sombras... Pronunciou baixinho o próprio nome, muitas, muitas vezes, até que aquela combinação de fonemas perdeu todo o sentido. Fez o mesmo com o nome daquela cidade e o daquele país. Depois, lentamente, sentindo uma leve contracção de garganta, atravessou a praça na direção do café. Ouvia-se ainda a trovoada longínqua do canhoneio. Entrou no café, onde soldados e civis bebiam, sentados às mesas ou de pé, junto ao balcão, quase todos acompanhados de mulheres nativas. Uma electrola automática enchia, o ar da estridência de guitarras eléctricas e das vozes guturais de um quarteto misto que, para o tenente, parecia repetir, numa obsessão desesperada, a mesma frase de três palavras. (Quantos dos homens que ali estavam haviam já dormido com K.?) Aproximou-se da caixa. A madama sorriu-lhe com seus dentes podres. Metida numa bata negra, era gorducha, tinha a cara muito pintada e um princípio de calvície que lhe abria clareiras no couro cabeludo oleoso.
- Ah! O senhor tenente! Boa noite. A menina já está lá em cima à sua espera. - Olhou para o relógio de parede.
- O senhor chegou três minutos atrasado. Sua hora termina às dez em ponto. Cada minuto extra lhe custará dinheiro.
- Quanto lhe devo? - perguntou ele, evitando encará-la.
- Ah! Ela me disse que o senhor vai embora amanhã, não?
- É verdade.
- Para sempre?
- Sim.
- Mas então esta noite é muito especial. Meti no gelo uma garrafa grande de champanha. Mas, por favor, não quebrem as taças, sim? O patrão não gosta disso. Ontem, lá em cima, um soldado quebrou o copo depois de beber. O outro homem que mais tarde usou o quarto, cortou-se. Tinha ficado um caco na cama...
- Está bem! Está bem! Diga logo quanto tenho de pagar.
- Vamos ver... - Como de costume ela ficou um instante a manejar o ábaco, movendo as contas com destreza, enquanto ele esperava, soltando suspiros de impaciência.
- Pronto, senhor tenente! É pouco. Está tudo incluído: o quarto, a bebida e a
moça.

Ele achou a soma exagerada mas pagou sem discutir. Deu uma gorjeta à madama, que fez uma inclinação de cabeça, exclamando:
- Desejo que toda a força do tigre branco esteja esta noite em seu corpo, senhor oficial!
Apanhou a bandeja com a garrafa de champanha e as taças e encaminhou-se para o andar superior. Ele a seguiu. A escada estreita cheirava a mofo e rangia. O quarto ficava imediatamente por cima do salão principal do café.
- Adiante! - ordenou o tenente. - Deixe a bandeja em cima da mesa e saia em seguida.
Só entrou no quarto depois que a mulher desceu.
Num vestido cor de rosa-chá, K. encontrava-se de pé junto da janela, a olhar para fora. Quando o tenente entrou, ela voltou a cabeça, sorriu e caminhou para ele de braços estendidos. Ele lhe tomou das mãos e beijou-as. (O sexo de quantos homens estes dedos terão acariciado hoje?) Estreitou-a depois contra o peito, sentiu-a frágil e pequena, e isso o enterneceu. Como de costume, a cabeça dela aninhou-se-lhe no
peito e ali ficou como se tivesse encontrado o seu lugar definitivo. Ele lhe beijou os cabelos, depois o lóbulo das orelhas, o pescoço, o queixo e finalmente os lábios, longamente. Imaginou, num arrepio desagradável, que estava indiretamente beijando a boca de centenas de homens desconhecidos. Eram lábios públicos, aqueles. Tinham um preço. De novo apertou a rapariga contra o próprio corpo.
(Estarei cheirando mal? Ela sentirá nojo de mim? E dos outros?)

Ficaram assim enlaçados por alguns instantes, enquanto, despedindo-se, ele olhava em torno do pequeno quarto: o papel da parede, já descascado em alguns pontos - narcisos contra um fundo de folhas secas -, as cortinas verdes desbotadas, o tapete puído, o pequeno guarda-roupa com espelho na porta, a coberta de oleado da mesinha, em xadrez rosado... E lá estava também a cama de ferro que sempre lhe
lembrava a de seus pais - tudo isso mal iluminado pela luz de um bico de luz elétrica, nu e encardido, que pendia de um fio, do centro do teto. Via-se que a cama havia sido arrumada às pressas, a colcha mal esticada. Era improvável que tivessem mudado o lençol. Iam, pois, deitar-se sobre o suor de outros corpos, e possivelmente haveria naqueles panos manchas do sêmen de outros homens. (Brancos? Negros? Amarelos?) Talvez a própria K. tivesse sido a última mulher a entregar seu corpo naquele
leito.
- Você está bem? - perguntou ele ao ouvido da moça.
- Bem - respondeu ela. E, erguendo o rosto, perguntou: - Amanhã?
- Amanhã. Meio-dia.
- Estou triste. Muito triste.

Seria mesmo de genuína tristeza a expressão que via no rosto dela ou apenas um simulacro, um mero movimento de músculos estudado diante do espelho? Não podia esquecer que K., afinal de contas, era uma profissional, e uma das regras de seu jogo era dar sempre ao homem com quem estava, se não a certeza de que ele era o único, pelo menos a ilusão de que era o mais querido. Sabia que ela nascera do outro lado do rio, nos arrozais, e que seus pais eram camponeses. Muitas moças de sua profissão tinham a mesma origem humilde e a miséria as levara à prostituição. Moravam agora na cidade e algumas delas eram amantes exclusivas de oficiais brancos. O proxeneta de K., porém, achava que podia fazer mais dinheiro com o corpo dela vendendo-o a varejo. O tenente libertou a moça de seu abraço, tirou do bolso
o pequeno estojo e abriu-o.
- Para você.
K. apanhou o anel e, sorrindo como uma menina que acaba de ganhar um brinquedo, enfiou-o num dos dedos, murmurando:
- Bonito. - Ergueu os olhos. - Obrigada!
Nesse ponto pareceu que seu vocabulário se esgotava.
Seus olhos eram como duas luas escuras - pensou ele. Uma franja negra e lustrosa cobria-lhe parte da testa arredondada. O rosto era quase triangular, largo à altura das zigomas, o nariz curto. O lábio superior lembrava vagamente o desenho do telhado de um pagode. Ele se encaminhou para a mesa, encheu as taças de vinho, deu uma delas a K. e ficaram ambos por algum tempo a beber em silêncio. O champanhe parecia legítimo, concluiu ele, engolindo dois comprimidos de aspirina. (Que percentagem teria K. naquela garrafa?) Tornou a beber, dessa vez um gole mais largo, e pensando em que o álcool não ia contribuir em nada para lhe clarear a cabeça. Apontou para o anel:
- Ele... aquele homem... compreende? - Formou um círculo com o polegar e o indicador e levou-o aos olhos, para dar a ideia de óculos. - Não vai tirar de você esse anel?

K. arregalou os olhos, como se não houvesse entendido o que ele dizia. O tenente repetiu a pergunta, em outras palavras e com diferente mímica. Ela encolheu os ombros. Depôs a taça sobre a mesa e bateu repetidamente com a unha do indicador, no mostrador do seu relógio-pulseira.
- O tempo...
Era outra palavra importante de seu vocabulário na língua daqueles homens brancos que compravam amor à hora. Fez meia volta, encaminhou-se para o quarto de banho e fechou a porta atrás de si. O tenente desabotoou o blusão, despiu-o e jogou-o para cima de uma cadeira. Agarrou a colcha da cama, puxou-a, e saiu a andar pelo quarto, enxugando com ela o pescoço, as costas e o peito. Tudo aquilo, visto, ouvido e sentido através de sua dor de cabeça e de seu estonteamento começava a parecer um sonho doido. O canhoneio longínquo, os sons da electrola automática lá em baixo, as risadas e as exclamações dos soldados, os gritinhos das mulheres... Sentou-se numa cadeira, com a colcha caída aos pés, e ficou a acompanhar com o olhar os movimentos de uma barata que subia na parede fronteira. Lembrava-se de uma certa noite, naquele mesmo quarto, durante a estação das chuvas. Ele ficara abraçado com K. na cama, ouvindo o' aguaceiro bater no telhado de zinco. Chovia incessantemente havia duas semanas, e a água caía em torrentes de um céu de ardósia, com uma violência de dilúvio. Ele tivera de sair em várias missões pelas aldeias circunvizinhas, atolando-se em lamaçais - um barro gordo grudado nas botas, no uniforme, na pele...

Parecia-lhe que, sob a chuva, tudo inchava - as árvores, a terra, as madeiras, as casas, as pessoas. Os próprios guerrilheiros inimigos proliferavam como cogumelos brotados da terra empapada. Na cidade as paredes internas dos edifícios porejavam água, recendiam a mofo. Os lençóis das camas estavam permanentemente húmidos. E sempre o calor, os mosquitos e aquela impressão de que o mundo ia dissolver-se
sob a chuva, e o próprio cérebro da gente acabaria transformando-se num mingau aguado...
Poucos minutos depois, K. saiu do quarto de banho completamente nua, os braços caídos ao longo do corpo. Era esbelta como uma adolescente, os quadris estreitos, os seios miúdos. Apagou a luz da lâmpada central, acendeu a da mesinha-de-cabeceira, subiu para a cama e ficou sentada no centro dela, à maneira oriental. Ele tornou a ver a estudante da manhã envolta em chamas. K. olhava para ele, serena, esperando. Seu corpo despedia uma certa luminosidade. Era como uma estátua de cobre brunido. (Ele descobrira uma noite, divertido, que seu umbigo parecia a minúscula estilização de uma flor-de-loto.) A delicadeza de seu sexo, quase tão
fechado como o de uma virgem, sempre o comovia. (Seu dedo costumava brincar com a pérola da ostra, dentro da concha.)

Ele continuou a contemplá-la, ofegante, mas com a carne estranhadamente esvaziada de desejo. Imaginava K. com doze anos, na sua choupana, nos arrozais. O mercenário branco, enorme, derrubava-a... Ouviu os gritos lancinantes da menina,
sentiu que o homem lhe rasgava as entranhas - suado, brutal, arquejante, gemendo de gozo, e depois a deixava ensanguentada e sem sentidos entre as ruínas dos ranchos reduzidos a cinzas, e se ia para outras carnificinas e estupros. enquanto
as bombas lançadas pelos aviões de seu exército mercenário continuavam a bárbara violação daquela terra e daquela gente. K. sorria, esperando. O tenente sentia-se como na sua noite nupcial. Uma virgem esperava-o na cama de seus pais. isso o
inibia.
- Vem - murmurou ela.
Ele não respondeu nem fez o menor movimento. Era como se estivesse paralisado por um sortilégio qualquer. Tão pequena - pensou -, tão frágil. Como é que tem forças para suportar esta vida? Por quanto tempo mais poderá andar como uma
mercadoria de aluguel, de mão em mão? Veio-lhe, então, um pensamento tão pungente, que o deixou de olhos úmidos. Quando ela envelhecer e perder a graça, o seu proxeneta se descartará dela como quem joga fora uma escova de dentes gasta e inútil. K. irá baixando de categoria, acabará como prostituta de beira de cais. Por fim, velha, desdentada, doente, voltará para os arrozais para lá morrer... E nesse
dia, nesse dia onde estarei eu, Deus meu? Seria melhor que ela se consumisse agora numa labareda purificadora, como a estudante budista. Antes da queda, antes da velhice e da decomposição...

O sangue subia-lhe à cabeça, turbulento. Não devia ter bebido. De qualquer modo, agora era tarde de mais. K. ainda lhe sorria, punha de novo o indicador sobre o relógio-pulseira, chamando-lhe a atenção para a passagem do tempo. Ergueu-se com acanhada relutância, deu alguns passos, sentou-se na beira da cama, acariciou os cabelos da rapariga. Puxou-lhe a cabeça, aninhando-a no ângulo entre o braço e o
antebraço esquerdos e, enlaçando-lhe a cintura com o braço direito, beijou-lhe a boca de leve, bem de leve, como temendo machucá-la. No seu beijo havia uma ternura sem desejo. Era curioso. Parecia anestesiado da cintura para baixo. A simples ideia de penetrar aquele corpo causava-lhe um arrepiado constrangimento. Ela era uma menina de doze anos. Sua irmã menor. Então K., percebendo a sua indecisão, procurou excitá-lo com sua técnica de profissional, mas sem resultado. Quis repetir as carícias, mas ele a deteve, exclamando "Não!" quase colericamente. Entrou no quarto de banho, despiu-se, saltou para dentro da banheira, tomou uma ducha rápida, usando o chuveiro manual que lembrava ridiculamente um telefone, enxugou-se, voltou para o quarto e deitou-se ao lado de K. "Doente?", - perguntou ela. Ele sacudiu a cabeça vigorosamente, negando. - Aquela impotência, que sabia temporária, longe de envergonhá-lo, dava-lhe uma sensação de pureza que de certo modo o gratificava.

Começou a acariciar a rapariga, cuja epiderme tinha a maciez e a textura de uma
pétala de magnólia. (O cemitério, a cova do pai, o jazz-band, as meias da mãe.) Brincou inocentemente com os bicos dos seios dela, fazendo-a rir. (E aquele riso? Significaria que ela sentia prazer... ou ria porque tinha aprendido que uma mulher deve fingir que se excita quando lhe bolem nos seios, e que a melhor maneira de revelar excitação é rir baixinho, como se tudo fosse um brinquedo?) Espalmou a mão no ventre magro da rapariga, explorou com dedos esfrolantes o bosque do púbis, apalpou os músculos elásticos das coxas e, enquanto fazia isso, pensava em que aquela era sua última noite com K., e as lágrimas (ou seria apenas suor?) escorriam-lhe pelas faces, e o coração se lhe apertava (a vida era mesmo uma história contada por um idiota), e as têmporas continuavam a pulsar, enquanto longe o bombardeio continuava, e lá embaixo guinchavam as guitarras eléctricas, e ali, no quarto, a
barata agora caminhava no teto. Via os dedos dos pés de K. minúsculos, unhas rosadas, junto dos seus enormes pés mulatos, e uma libélula de asas iridescentes pousava no caixão de seu pai, e as meias pregueavam-se frouxas naspernas de sua mãe, e a inscrição da lápide lhe voltava nítida à mente... e havia uma rosa caída no meio do caminho e a professora dizia que a compaixão o poderia salvar...

E de repente sua mulher e seu filho estavam também ali no quarto, aos pés da cama, e ambos olhavam a cena, e havia sangue nas ataduras da cabeça do menino, e o silêncio de ambos era uma acusação mas - engraçado! - ele não se preocupava com aquilo, e sua mão voltava a acariciar o rosto de K... Começou a dizer-lhe em surdina, ao ouvido, palavras de grande amor e de grande ternura que ela não podia entender, e por isso ria, ria baixinho, ela a menina que tinha sido violentada por um
mercenário brutal... e a vida era absurda, e ele decerto não passava de uma personagem sem nome num pesadelo de Deus... e uma grande canseira tomava-lhe conta do corpo e então cerrou os olhos enquanto K. lhe acariciava os cabelos, enxugava o suor do rosto com a ponta do lençol, verónica... verónica... e começou a cantar-lhe baixinho uma canção cuja música ele não podia compreender... uma melopeia que ele já ouvira tocada em flauta por um pescador... triste, triste... e
buscava seguir a linha melódica mas esta lhe fugia como um pássaro arisco... uma ave-do-paraíso, perseguida, ferida, destruída por soldados amarelos que chupavam os dentes, faziam mesuras diante de seu imperador, enquanto uma guitarra enorme enchia o mundo com sua estridência endoidecedora, e tudo escurecia no final dos tempos e era bom descansar, dormir, não despertar mais...

Estavam iluminadas as três janelas centrais do sexto andar do Hotel du Vieux Monde. Eram as do apartamento do coronel. Metido num pijama de tecido leve, andava ele a caminhar de sala em sala, acendendo as luzes, como se procurasse alguém ou alguma coisa. Tinha feito várias tentativas frustradas para dormir. Sentia uma canseira profunda que o quebrantava até aos ossos, e estava ao mesmo tempo excitado como se houvesse ingerido uma dose maciça de dexedrina. Entrou no
banheiro, umedeceu os olhos e, distraído, mais uma vez escovou os dentes, fez um gargarejo de água com dentifrício. Olhou para o espelho, quase sem se reconhecer, voltou para o quarto de dormir e foi apagando de novo todas as luzes. O condicionador de ar mantinha a temperatura ambiente um pouco abaixo de 60º Fahrenheit. Deitou-se de lado, cruzou os braços sobre o peito, cerrou os olhos e pensou numa armadilha para aprisionar o sono. A primeira que lhe ocorreu foi o clássico contar de ovelhas imaginárias. Tolice. O melhor era fazer de conta que estava dirigindo um automóvel a toda a velocidade por uma estrada de
asfalto, numa recta longa, a perder de vista, os olhos fixos na linha branca que a dividia ao meio...

Lembrou-se de um quadro surrealista que vira num museu: vasta estepe nua com
linhas paralelas fugindo para o horizonte... Inútil! Fazia mais de vinte e quatro horas que não pregava olho e no entanto ali estava sem conseguir dormir. Remexeu-se,
procurando outra posição mais confortável. Ioga. Estendeu-se de costas, os braços caídos ao longo do corpo, afastou um pouco as pernas uma da outra. Relaxar os músculos... Descontrair-se... Pareceu-lhe que, apesar de todas as tentativas que fazia para ficar em estado de repouso, seu cérebro era uma espécie de alucinado balão efervescente que recusava paz e descanso ao resto do corpo. Tornou a saltar da cama, apanhou a garrafa de metal, abriu-a, levou-a à boca, tomou vários goles, sentiu a água gelada descer agradavelmente pelo esófago e cair no estômago. Ficou parado a escutar a trovoada distante do canhoneio. Onde estariam atirando? Era insensato como às vezes tinham de disparar cegamente na direcção onde se supunha estivesse o inimigo..

As ratazanas provavelmente estavam escondidas em suas tocas. Mas o remédio mesmo era continuar aquela táctica de terra arrasada, se quisessem aniquilar os comunistas definitivamente. Era preciso ganhar aquela guerra, custasse o
que custasse! Sentou-se na cama, passou a mão pela testa. Ansiava por voltar a ser um combatente. Agora era questão apenas de dias, e ele se libertaria definitivamente da sua prisão burocrática. Irritava-o, porém, desmoralizava-o a ideia de não ter descoberto ainda o contrabando de explosivos de plástico escondido em algum lugar daquela cidade maldita, e de não haver prendido os terroristas responsáveis pelas
explosões no hotel e no cinema. Tornou a deitar-se. Sua cabeça era uma espécie de televisor em cujo quadro se passasse um filme desvairado, feito de pedaços de outros - drama, comédia, documentário -, tudo desconexo, vertiginoso, incongruente e impossível de apagar... A loucura - refletiu - devia ser a permanência daquele estado de confusão e excitação elevado ao cubo. Acendeu a lâmpada de cabeceira, olhou o relógio-pulseira. Quinze para as dez. Se eu não dormir esta noite, minha cabeça
explodirá como uma granada. Ficou a fantasiar a metáfora... Seus pensamentos se irradiariam para todos os lados como estilhaços, junto com todo o lixo da memória.

Ah! Se o seu respeitável pai pudesse "ver" o estouro... Se as cenas do passado, seus sentimentos e pensamentos mais secretos pudessem assumir uma expressão plástica e o velho ficasse sentado naquela poltrona, ali no canto, boquiaberto, a olhar
a atomização de seu cérebro - na certa morreria de desgosto por descobrir as sujeiras, as iniquidades, os pecados que se escondiam no consciente e no inconsciente de seu unigênito... Veria, nas mais diferentes formas, um pensamento que o filho
muitas vezes repelira, mas que insistia em aparecer-lhe na mente, com maior ou menor intensidade e nitidez: o pai morto dentro de um caixão, um crucifixo no peito... Mudava o tipo do esquife, o ambiente, a causa da morte, mas o defunto era
sempre o mesmo, a mesma cara cor de cera, solene e altiva até na morte... Quantas vezes ele tivera, sob os mais variados disfarces, essa visão parricída! De novo fechou os olhos e pensou na mulher amada. Que estaria ela fazendo àquela hora? Talvez gemendo de prazer nos braços de um outro homem... A ideia lhe era desagradável, mas ele não podia censurar a amante. Tinham-se dito adeus sem maiores promessas. Falara-se na possibilidade de ele não voltar mais, pois poderia ser morto em acção. Ou então retornar à mesma situação familiar sem remédio.

Era curioso como um homem podia ter a coragem suficiente para enfrentar a peito descoberto um inimigo armado de metralhadora e, no entanto, revelar-se um covarde incapaz de quebrar as grades de papel e palavras da sua prisão social... e resignar-se abjectamente a continuar representando sua triste parte na insípida comédia, usando máscaras em vez da sua face natural. E qual seria mesmo a sua face verdadeira, a que um dia teria de apresentar a Deus? Mas acreditaria ele mesmo no juízo Final, ou seria Deus apenas mais uma das invenções de sua excelência reverendíssima o senhor bispo, seu pai? O coronel voltou-se para o outro lado e viu em cima da mesinha-de-cabeceira, junto da lâmpada, a carta da mulher,
chegada havia dois dias, e que ele não tivera ainda a coragem de abrir. Detestava aquela caligrafia, aquele estilo (todas as moças que haviam cursado a sua escola possuíam o mesmo talhe de letra), os pequenos incidentes domésticos que ela lhe contava com pormenores irritantes (cenas de supermercado e chás de caridade, enredos de filmes) e, acima de tudo, repelia os beijos que ela lhe mandava, usando invariavelmente a mesma fórmula, no fim da carta. Olhou longamente para o vidro que continha os comprimidos soporíferos. Tomara dois antes de ir para a cama
mas ainda não lhes sentira o efeito. Devia tornar um terceiro?

De novo imaginou a longa faixa de asfalto com a linha divisória branca. Depois começou a escrever mentalmente uma carta à filha: "Queridíssima: Aqui estou no meu quarto, insone, pensando em ti. Lá fora faz um calor de Geena (como diria o teu avô). Ouço o troar dos canhões, vindo de longe. Não te impressiones, são os nossos soldados que atiram contra o inimigo-fantasma. Tive um dia muito duro e estou morto de cansado, mas a despeito disso não consigo dormir. Quisera que
estivesses a meu lado, meu amor. (E agora a carta já era dirigida à amante.) Em certas horas sinto falta de tua presença física de uma forma que chega a doer. Tenho às vezes a impressão de que, os homens de todas as nações da Terra enlouqueceram, mas acho que nós devemos conservar a nossa sanidade mental para trazer ordem ao mundo e evitar que nele se estabeleça definitivamente o caos... Sabes de uma coisa estranha? Um dia, em pleno combate, acredites ou não, pensei
em ti. Guerrilheiros invisíveis trepados em árvores fizeram fogo contra nós, mataram um de meus soldados. Com uma rajada de metralhadora derrubei um dos atiradores... Não te horrorizes, meu amor (de novo escrevia à filha), porque esse
foi o único homem que matei nesta guerra com minhas próprias mãos. Caiu da árvore como uma fruta podre. (Apagou mentalmente estas duas últimas palavras.) Não teria mais de dezassete anos. Quase da tua idade! Pensei em ti, comovido. Era magro e estava vestido de farrapos e tinha enrolado nos pés, à guisa de sapatos, pedaços de pneumáticos velhos.

Não fomos nós quem provocou esta guerra terrível, mas temos de fazer o nosso melhor para vencer, e o nosso melhor é o "melhoríssimo" no mundo inteiro. E eu peço sempre a Deus que nos proteja e inspire, para que possamos usar a nossa força e a nossa riqueza não só em benefício próprio como também para a felicidade e o bem-estar da Humanidade inteira. Sei que no resto do mundo somos censurados. Chamam-nos de imperialistas, colonialistas, opressores. Na nossa própria terra, além da massa dos indiferentes, dos alienados, existem os falcões, que estão do nosso lado, aprovam o emprego do nosso poderio militar para deter a expansão comunista na Ásia e no resto do mundo, e as pombas, que servem consciente ou
inconscientemente os interesses do comunismo internacional, mal sabendo que, no dia em que o mundo for comunizado, elas serão as primeiras vítimas. Minha querida filha, se há ideia que me horroriza é a de que possas um dia viver dentro de um
regime totalitário, sob o olhar vigilante do Irmão Maior, apenas como uma peça da máquina do Estado. Nossos bravos rapazes e teu próprio pai aqui estão lutando para que tu e teus filhos venham a gozar de uma longa era de paz, justiça e
liberdade, em que cada qual possa escolher livremente a sua religião, os livros que quer ler e a profissão para a qual se sente inclinado... Um mundo em que qualquer um possa dizer o que pensa sem ter medo de ser posto na cadeia ou mandado para
uma Sibéria qualquer. Pensa apenas isto: todos nós estamos aqui passando durezas e arriscando nossas vidas e mesmo perdendo-as em prol da democracia..."

Sentou-se brusco na cama, abriu o vidro de sonífero, tirou dele um comprimido, meteu-o na boca e mastigou-o antes de engolir. Era amargo. O canhoneio cessara por um momento. Tornou a deitar-se. Retomou a carta imaginária. Agora se dirigia de novo à amante: "Como eu ia te dizendo, em pleno combate pensei em ti. Quando me aproximei do comunista que matei, ele estava estendido ao pé da árvore, de costas, os olhos, negros como os teus, muito abertos e imóveis... e parece incrível que tua imagem me tivesse vindo à mente naquele exato momento. Por quê? Creio que foi a posição em que o rapaz se encontrava, estendido sobre a relva, os cabelos metidos num tufo de verdura, as pernas um pouco afastadas uma da outra. Lembrei-me daquela nossa tarde no bosque (te lembras?) em que fizemos o amor sobre a relva, debaixo de uma bétula, e tu ficaste com medo de que alguém aparecesse, estás te recordando?... e até um esquilo nos espiou, curioso, por entre a forquilha de uma árvore e tu rompeste a rir...

Querida filha, reza por mim, pede a Deus que perdoe os pecados de teu pai e os teus
próprios, e acredita no meu amor..." No mesmo andar, no quarto só, o major, sentado junto à mesa, escrevia uma carta à sua ex-esposa. "Meu bem, embora eu saiba que te obstinas em não responder às minhas cartas, aqui estou de novo, porque minha afeição por ti e pelos nossos filhos é maior, muito mais forte do que meu amor-próprio. Posso ser morto a qualquer momento. Por favor, quero que me compreendas. Não estou tentando nenhuma chantagem sentimental, nem sequer pedindo compaixão, ali, não! Tu me conheces. Posso ser tudo, menos trágico. A tragédia não foi feita para os gordos. Nosso destino é a farsa. Mas a verdade
é que nosso país está metido até o pescoço na mais surrealista das guerras. A semana passada mataram um de meusmelhores sargentos: passava de jipe por uma estrada quando uma bala, vinda ninguém até agora sabe de onde, trespassou-lhe
a cabeça. Tudo ocorreu de um modo tão silencioso, que o homem que dirigia o jipe levou alguns minutos para perceber que levava a seu lado um cadáver. Pensou que o companheiro dormia (as horas de sono aqui são muito irregulares...).

Ora, amanhã bem pode chegar a minha vez, magro ou gordo, trágico ou cómico. Não é impossível também que, seguindo o exemplo desses sacerdotes de túnica cor de abóbora, eu derrame sobre o meu corpo uma lata de gasolina (podes ficar certa de que usarei patrioticamente a boa, pura gasolina saída do solo sacrossanto de nosso Estado natal, das jazidas das quais teu pai tem tantas ações preferenciais), acenda um isqueiro, também de fabricação nacional, e vum! - lá estarei eu transformado naquilo que os poetas chamam de sarça-ardente. Estou certo de que tenho em mim os elementos de uma bela tocha, pois unto não me falta. E agora fico a pensar no meu pobre corpo carbonizado no meio de uma dessas ruas, sob o olhar indiferente dos nativos. (Quero que reclames os meus dentes de ouro, junto com os meus outros pertences.) Mas, falando sério, algo de terrível me pode acontecer nesta guerra, inclusive sair dela vivo. Escuta. Eu te amo. Às vezes temo vir a odiar minha própria mãe (deveria escrever "santa mãe" mas não posso, seria sarcasmo) por tudo quanto ela fez para nos separar. Outra coisa. Não negarei que às vezes vou para a cama com prostitutas nativas. São frágeis como flores, limpinhas, amáveis e foram educadas para agradar os homens, civis e militares indistintamente, magros ou gordos. Mas a
verdade é que só a ti realmente quero. Gostaria que não fosses tão teimosa e me escrevesses duas linhas, dando-me pelo menos a esperança de que um dia talvez possamos de novo viver juntos, com nossos filhos. Não me castigues por um crime que não cometi. Está claro que não me considero completamente isento de culpa. Ninguém é mais inocente nos dias que correm., mesmo se excluirmos o pecado original, que é uma imagem sempre de grande efeito literário."

Por um instante o major ficou escutando o surdo e remoto trovejar dos canhões. Estava metido apenas nas calças do pijama. O ventre, duplamente pregueado, caía-lhe sobre as coxas. Encheu o cachimbo, acendeu-o. ficou um instante a fumar e a olhar, distraído, para o retrato da mulher e dos filhos, que tinha na sua frente. Depois continuou a escrever: "Hoje tive um dia terrível. Andamos em busca de um
contrabando de explosivos plásticos que entrou na cidade recentemente, e levamos adiante as investigações para descobrir os terroristas responsáveis pelas bombas que explodiram num hotel e num cinema, fazendo muitas vítimas. Estou quase morto de fadiga, mas não quis ir para a cama sem primeiro conversar um pouco contigo. Preciso dormir, para amanhã estar em condições de enfrentar outro dia duro. E o pior é que bem posso ser despertado no meio da noite porque outra bomba estourou em algum lugar ou porque algum suspeito foi preso... Tivemos hoje um calor de tal modo intenso que a cidade parecia mergulhada num caldeirão cheio de chumbo derretido. Tenho aqui no quarto uma engenhoca de ar condicionado que me proporciona uma débil paródia de Primavera. É melhor que nada. Sinto-me triste, minha querida. Não rias de mim. É a pura verdade. A solidão me pesa no peito. Ou será no estômago? às vezes entretenho-me a escutar os roncos de minhas entranhas, que tocam músicas um pouco mais melódicas que as nativas. Mudando de assunto: Vou à missa todos os domingos e rezo com a convicção que este calor permite. O pároco é um mau orador mas uma boa alma. Prefiro-o ao nosso capelão, que é um monstro de formalismo. Conto-lhe os meus pecados, estropiando a língua do bom velho, e ele me absolve com uma facilidade que me deixa desconfiado.

Estive pensando um dia destes em que o catolicismo é uma religião elástica, uma espécie de nugá espiritual, pois, por mais que nos afastemos dela, de um modo ou de outro acabamos sendo puxados para o seu âmago e reabsorvidos. E somos sempre recebidos com uma vitela gorda e um anel, como na parábola bíblica. Minha letra está piorando, não espero que a consigas decifrar, o que não tem a menor importância, pois esta carta jamais chegará às tuas mãos, ó queridíssima! Assim posso abrir diante de ti a minha alma e o meu ventre, numa espécie de confissão a uma sacerdotisa invisível, amém, amém, amém..." Releu a carta, soltou um risinho convulsivo de garganta, e depois rasgou-a em pedaços. Encaminhou-se para o quarto de banho, ouvindo com a memória a voz da mãe, vendo-lhe a imagem e achando que sua mulher devia odiá-lo por ele parecer-se tanto com a velha. Era o diabo! Abriu um vidro, tirou dele um comprimido alcalinizante na forma de uma moeda de cinquenta centavos, deixou-o cair num copo de água e esperou que a rodela se dissolvesse. Depois bebeu todo o conteúdo do copo e voltou para o quarto de dormir. Pensou em orar. Tempo perdido. Deus sabia o que ele lhe ia dizer e pedir. Se não soubesse, não seria Deus. E se não fosse Deus, nada teria sentido no Universo. Atirou-se na cama e apagou a luz de cabeceira e, de olhos fechados, ficou a ouvir o zumbido do condicionador de ar, o canhoneio e, dentro do próprio ventre, gemidos prolongados e plangenttes que lembravam a sereia dos carros dos bombeiros de sua infância que passavam a toda velocidade na direção do lugar onde irrompera o incêndio. Onde? Onde? E então ele saltou para o estribo de um deles e lá se foi, em ziguezagues vermelhos, por becos e ruas do passado, rumo dos confins sombrios do sono.

Ser capitão daquele vapor fluvial fora sempre o seu sonho, e agora ali estava ele, orgulhoso no seu uniforme... mas ao mesmo tempo tomado de um estranho medo... Não era fácil conduzir o barco no rio escuro, na noite escura, sem abalroar com outra embarcação ou entrar terra adentro... Apreensivo, imóvel na ponte de comando, ouvia confusamente as vozes e as risadas dos passageiros que se divertiam no salão... Prostitutas pintadas, jogadores de baralho profissionais, como nas histórias antigas... camisas de peito e punhos de renda, uma carta clandestina metida numa das mangas da sobrecasaca... um pequeno revólver de cabo de madrepérola escondido num bolso... A pianola não cessava de tocar... As mulheres soltavam gritos indecentes... O rio escuro e imenso, e o medo e a desconfiança de que o mar não estava longe e de que todos iam perder-se no mar... Sabia que o pastor de sua
paróquia andava vasculhando o navio à sua procura para levá-lo de volta à Escola Dominical, pois um menino não devia estar naquele antro de perdição que cheirava a álcool, fumo e fêmea...

Fazia muito calor, as rodas do navio eram ao mesmo tempo as rodas de um moinho de trigo de um conto mal lembrado, e ele procurava examinar o mapa e a bússola, mas não conseguia enxergar nada, porque estava tudo envolto em bruma... mas não tão escuro que não pudesse divisar o vulto do homem ao leme... Tentou mover-se, queria descer ao salão mas não conseguiu fazer sequer um movimento, estava
paralisado, impotente, e então lembrou-se de que sua própria mãe divertia-se lá em baixo, de cara pintada como as outras, e andava de mesa em mesa - a pianola! a pianola! a pianola! - oferecendo seus beijos aos jogadores, que em troca lhe davam
dinheiro e palmadas nas nádegas e agora ele percebia que os batoteiros eram todos negros... ou seria apenas a falta de luz que lhes escurecia a pele? Se ao menos ele pudesse acionar uma daquelas alavancas... dar uma ordem à casa das
máquinas para que fizessem o barco parar...

Porque tinha enveredado terra adentro, navegava por uma rua seca, sobre as
pedras irregulares do calçamento... casas de um lado e de outro, e suas rodas continuavam a mover-se... e a pianola! a pianola!... e ele temeu que os costados da embarcação derrubassem as frágeis casas dos pobres carpinteiros... Mas de novo singravam, sangravam o rio e de repente ele descobriu, num susto, que quem estava ao leme era o cadáver putrefato de seu pai... Santo Deus! O seu fedor ia empestar
todo o navio, escandalizar os passageiros e haveria um motim a bordo e o capitão seria enforcado porque todos saberiam que um cadáver pilotava o vapor e ia levá-los todos para o mar, a morte, o Inferno... Mas como se explicava que seu pai estivesse ao mesmo tempo no porão serrando e aplainando tábuas para fazer com elas féretros para todos os que estavam a bordo e para si mesmo? Quis fugir da ponte de comando mas alguém - sua mãe? a professora? - lhe batia de leve na cara, batia na cara, batia na cara...

O tenente despertou. K. lhe tocava com os dedos uma das faces. Estava completamente vestida e murmurava: "O tempo! O tempo!" Ele se levantou, estonteado e, como um sonâmbulo, foi apanhando uma a uma as peças de sua roupa. Enveredou para o quarto de banho, postou-se diante do espelho da pia, como
procurando identificar-se a si mesmo, depois abriu a torneira e, juntando água na concha formada pelas mãos, molhou a cabeça, o pescoço, as faces. Em seguida começou a enxugar-se com uma toalha, atabalhoadamente, enquanto lhe cruzavam pela mente, esbatidas e fugidias, imagens do sonho - um navio, o grande rio da sua infância, uma rua, a figura da mãe... ou da professora?

A voz de K. chegou-lhe aos ouvidos: "O tempo! O tempo! O tempo!" Parecia uma sineta de vidro a tocar alarme. Ele terminou de vestir-se, aproximou-se dela, tomou-a nos braços, beijou-lhe as faces, os olhos, os lábios, murmurando, entre um beijo e outro, palavras de ternura, pouco lhe importando que ela não as compreendesse. Depois abriu a bolsa da rapariga e atufou nela várias notas esverdeadas do dinheiro
de seu país, dizendo: "Para você, ouviu? Você! Não para aquele homem!" K. sacudia repetidamente a cabeça, dando a entender que compreendia tudo. Embaciava seus olhos - quis ele crer- uma névoa de tristeza. Ela ergueu a mão, mostrou o
anel e balbuciou: "Muito obrigada."

Bateram na porta. O tenente foi abri-la. Era a madama, que reclamava:
- Perdão, senhor oficial, mas seu tempo terminou.
- Compro mais uma hora com a moça! - exclamou ele, frenético, metendo a mão num dos bolsos das calças.
A velhota sacudiu negativamente a cabeça.
- Sinto muito. A menina tem compromisso com outro freguês. Ele já está lá em baixo, impaciente. É até um senhor muito...
- Não quero saber quem é! - replicou ele, indignado. - Está bem. Peço apenas meio minuto. Pode ir embora!
Quase bateu a folha da porta na cara da alcoviteira. Voltou-se para K. e, vendo-a ali parada no centro da peça, submissa e desamparada, como uma simples coisa sem vontade própria, teve tanta pena dela, que lágrimas lhe vieram aos olhos, dessa vez abundantes.
Estreitou-a contra o próprio corpo, demoradamente, num silêncio trêmulo. Depois desprendeu-se dela, fez meia volta, precipitou-se para a porta, como se estivesse fugindo de alguém ou de alguma coisa, abriu-a num safanão, desceu a escada quase a correr, atravessou o salão do café sem olhar para nada nem para ninguém, e ganhou a calçada. A Lua lá estava, alto no céu, à sua espera, como um anjo-da-guarda: tinha perdido sua cor amarelenta e agora parecia um disco de
luminoso gelo.

O tenente atravessou a rua, sentindo um aperto no coração. Quando chegou à calçada oposta voltou-se e olhou para a janela ainda iluminada do quarto que acabara de deixar, na esperança de avistar o vulto de K. Não viu ninguém e isso o deixou ainda mais triste. Continuou o seu caminho em direção ao centro da praça, pisando sobre a relva dos canteiros, refletindo sobre aquela despedida apressada e
prosaica, tão diferente da que ele havia imaginado. Tinha já atravessado a praça e ia entrar na avenida do canal quando de súbito uma explosão brutal como que rasgou a noite de cima a baixo, precedida de um relâmpago. O tenente atirou-se ao chão e ficou estatelado, de bruços (bombardeio? um plástico?), o coração a bater no ritmo do susto, as unhas cravadas na terra, procurando instintivamente abrir nela uma
cova onde abrigar-se. Sentiu uma dor e um zumbido nos ouvidos, como se o estrondo lhe tivesse rompido as membranas do tímpano. O choque embotou-lhe por alguns segundos a faculdade de pensar. Não poderia dizer quantos minutos ali
ficou estendido sobre o canteiro, mordendo os talos de relva que lhe entravam pela boca. Era como se o próprio tempo tivesse sido atomizado pela medonha explosão. E, dentro do silêncio oco que se fizera na noite, ele sentia, mais que ouvia, o trânsito surdo do próprio sangue alarmado. Só ergueu-se aos poucos, ficou primeiro de joelhos, sacudindo a cabeça de um lado para outro, e por fim se pôs de pé.

Voltou-se e viu o Café Caravelle em chamas. Compreendeu então o que se havia passado. Pensou em K. e rompeu a correr na direção do incêndio. Estava já na calçada fronteira à do café e ia atravessar a rua, quando alguém lhe agarrou fortemente o braço. Era um soldado da Polícia Militar. Dizia-lhe alguma coisa que no seu aturdimento ele não conseguia entender. Mas o homem empurrava-o para trás, obrigava-o a sentar-se num dos bancos da praça (Calma, tenente! Calma, tenente!). Vultos moviam-se ao clarão do incêndio. Um jipe parou junto ao meio-fio, à frente do café, e de dentro dele saltaram cinco soldados com capacetes brancos. O tenente olhava estupidificado para tudo aquilo. Viu quando os guardas estenderam uma corda, isolando uma larga área à frente do prédio e ouviu, vindo de longe, o uivo de uma sereia. Dentro de alguns minutos chegou o primeiro carro de bombeiros, seguido de uma ambulância. Ficou a olhar para a casa em chamas e a pensar em K. Curiosos apareciam de todos os lados. Janelas iluminavam-se em derredor da praça.

Os bombeiros começaram a trabalhar para apagar o fogo e evitar que se comunicasse às casas vizinhas. Chegaram abafadas aos ouvidos do tenente vozes humanas e o crepitar das chamas. De repente se ouviu novo estrondo. Era o andar
superior do café que se desmoronava. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, cobriu o rosto com as mãos e desatou a chorar. Cerca de uma hora mais tarde, os bombeiros haviam retirado alguns corpos de dentro das ruínas do café. Os poucos que apresentavam ainda sinais de vida foram metidos numa ambulância e levados a toda a velocidade para o hospital. Os mortos ficaram estendidos sobre o asfalto da rua. Fazendo um esforço sobre si mesmo, o tenente aproximou-se de um dos soldados da Polícia Militar, identificou-se, passou sob o cordão de isolamento e, às tontas, começou a caminhar por entre os corpos. Estavam em sua maioria mutilados e
parcialmente carbonizados, e alguns haviam perdido a forma humana. Partículas de vidro rangiam debaixo da sola de suas botas. Sentiu sob um dos pés uma coisa flácida. e teve um estremecimento de horror quando viu que havia pisado num braço humano separado do corpo.

Andava no ar um bafo de cinzas úmidas, de mistura com um cheiro de carne e pano
queimados. Houve um momento em que o tenente parou, subitamente esquecido do que procurava e da razão por que estava ali no meio daqueles restos humanos, dos bombeiros e dos homens da Cruz Vermelha. Ouvia vozes em tom baixo, cortadas de ordens urgentes. "Sargento, aqui depressa! Este ainda está vivo. Tragam a maca. Plasma, rápido!" Viu quando levantaram um corpo e o levaram para uma ambulância, que arrancou e se foi a toda a velocidade, rua fora, a sirena uivando. Santo Deus! Por que estou aqui? Levou a mão à testa úmida e escaldante. Um soldado focou nele a luz de sua lanterna elétrica. "Está sentindo alguma coisa, tenente?" Ele ergueu a mão e sacudiu-a de um lado para outro, como para cortar o
raio luminoso, enquanto murmurava: "Não, não é nada, não é nada." O outro afastou-se.

Por vários minutos o tenente sentiu-se completamente perdido, começou a interrogar-se, aflito... E de repente, cerrando os olhos, teve contra as pálpebras a figura da estudante que morrera queimada aquela manhã... no seu vestido cor de rosa chá, de pé no quarto... Sim, K.! K.! K.! Olhou em torno. Restavam ainda uns quatro ou cinco cadáveres, no asfalto. Examinou-os um por um. Por fim avistou junto da sarjeta um corpo de mulher. Estava apenas parcialmente queimado, quase
intacto da cintura para cima. Ajoelhou-se ao pé dele. Reconheceu a fisionomia de K. Seus olhos estavam ainda abertos. Ele os fechou com dedos trémulos. Depois pegou-lhe da mão e viu nela o anel de turquesa. Soluços secos começaram a sacudir-lhe o corpo. Sentiu que lhe tocavam no ombro, ouviu uma voz:
- Conhece a moça?
Ele hesitou um instante:
- N... não.
- Tem certeza? Precisamos identificar todos os corpos.
- Não conheço... - balbuciou o tenente, mal dominando o tremor da voz.
- Que está procurando, então?
- Uma pessoa...
- Homem ou mulher?
- Homem.
- Como se chama?
- Não me lembro...
Curto silêncio. Depois, a mesma voz, mais alto:
- Vocês aí! Levem este cadáver para o necrotério, para futura identificação.
Dois homens ergueram o corpo de K. como se ela fosse uma boneca de pano e o atiraram como uma coisa - os brutos! - para dentro de um camião. O tenente ficou a seguir as luzes vermelhas das lanternas traseiras do veículo que se afastava.

Ergueu-se e pôs-se a caminhar na direção do centro da praça, incapaz de um pensamento coerente. Atirou-se sobre a grama de um canteiro e ali permaneceu, deitado de costas, a olhar para a Lua, ainda ofegante, sentindo suor e lágrimas escorrerem-lhe pelas faces. Se pudesse dormir e esquecer tudo aquilo! Fechou os olhos. Voltava-lhe agora à mente a face de K. morta na sarjeta: uma queimadura horrenda no pescoço, uma larga mancha escura no queixo, os cabelos chamuscados... Tentou, mas em vão, apagar aquela visão da memória. Quando os
soldados haviam erguido o corpo de K. - sim, agora ele se lembrava do macabro detalhe - ambas as pernas da rapariga, quebradas, estraçalhadas, balançavam-se de um lado para outro, como prestes a desligarem-se do corpo.

Que horas seriam? (O tempo! O tempo! - dizia K. com um dedo sobre o pequeno relógio.) Porque havia negado conhecê-la? Atraiçoara a pobre menina como havia atraiçoado o pai, a mãe, a mulher, o filho e a si mesmo. (Não era o que se podia
esperar de um negro?) Virou-se, ficou deitado de bruços. Mas afinal de contas, que sabia ele de K.? Ela era para ele apenas uma letra, um sinal. Se fosse interrogado, o repulsivo homenzinho que explorava seu corpo também havia de negar que a conhecia. E ela ficaria anônima, metida numa gaveta do refrigerador do necrotério. Pobre K.! Pobre K.! Levantou-se lentamente, e por alguns instantes não atinou com
o que fazer. Debaixo de uma lâmpada, aproximou dos olhos o mostrador de seu relógio-pulseira. Levou algum tempo para ver a hora. Onze e cinquenta. Ocorreu-lhe que onze era a hora de recolher, estabelecida pelo comando militar da cidade.
Procurou orientar-se na direção do hotel. Pensava agora nas palavras do porteiro noturno. Amanhã dia não-auspicioso.

De novo caminhava pela avenida do canal, completamente deserta àquela hora. Pensava na mulher e no filho, e de repente desejava intensamente estar com eles, voltar para casa, esquecer para sempre aquela terra e aquela guerra. Viu um automóvel que entrava na avenida. À luz de seus faróis agitou-se por um instante, indeciso e ofuscado como uma lebre perseguida. Segundos depois um jipe parava a seu lado, junto da calçada.
Uma voz:
- Tenente, suba!
Ele obedeceu. Era um carro militar. Sentou-se no banco traseiro, ao lado de um homem corpulento que fumava cachimbo. Era um major que ele conhecia de vista, mas com o qual nunca tivera qualquer convívio particular. O jipe tornou a arrancar.
- Tenente - perguntou o homem gordo, sem tirar o cachimbo da boca -, o senhor acredita na sorte?
Ele ficou sem saber que dizer. Mas o outro não esperou a resposta:
- Foi uma sorte encontrá-lo. Sorte nossa... não sei se sua também.
- Andavam à minha procura?
- O coronel deseja vê-lo.
- Por que motivo?
- Prefiro que ele próprio lhe diga.
O jipe rodava a toda a velocidade ao longo de ruas desertas e silenciosas. O tenente olhava fixamente para a nuca do chofer negro, que tinha a seu lado um sargento louro. Ambos traziam capacetes brancos e ostentavam no braço esquerdo uma banda
também branca com as iniciais P.M.
- Uma explosão feia. não, tenente? - disse o maior em tom casual.
- Horrível.
- Você estava nas redondezas quando o café foi pelos ares?
- Sim. Na praça.
- Tinha estado dentro do Caravelle?
O tenente teve uma breve hesitação antes de responder.
- Sim.
- Durante quanto tempo?
- Mais ou menos uma hora.

Ficou de súbito tenso, como um animal que pressente perigo. Será que desconfiam de mim? Claro. Um negro é por definição culpado até ao momento em que possa provar o contrário, o que nunca é fácil. Esperou que o outro tornasse a falar. Mas o
major continuou a fumar em silêncio. Com o rabo dos olhos examinava o homem que tinha a seu lado. Conhecia-lhe a ficha. Um belo exemplar de mestiço. Com algo de felino. Deve ser popular com as fêmeas. Muita mulher branca de minha terra gostaria de dormir com ele, só que preferiria morrer a confessar isso. Bela cara! Esses olhos escuros são mais expressivos, por exemplo, que os olhos claros e duros do coronel ou os desses famosos deuses nórdicos de dois metros de altura e bíceps de boxeadores. (Sorriu para os próprios pensamentos.) Seu Governo devia permitir e até mesmo encorajar uma certa dose de miscigenação no país, para quebrar a monotonia da chamada raça branca, metódica, previsível e reprimida, cujos representantes preferem inventar máquinas parecidas com o corpo humano a usar os
próprios corpos. Claro, a miscegenação deveria ser dirigida e controlada cientificamente para evitar o que os puristas chamam de "bastardização da raça". Mas que raça, santo Deus?

É o mais sortido e mirabolante cadinho racial da terra! Que seria de nós sem a inquietação metafísica do judeu e essa lânguida sensualidade do negro? Essas duas minorias são os lubrificantes de nossa áspera secura puritana. Por essa e outras razões, ambas naturalmente são segregadas. Os hebreus vivem a criar-nos sentimentos de culpa e problemas intelectuais. (Pensou nas suas discussões com o capitão médico judeu do quarto andar.) Os negros e mulatos são a presença física da carne e do pecado. Mas que se passará com esse pobre rapaz? Parece abalado. Se não me engano, suas mãos tremem. Sua respiração me parece irregular. Estendeu o braço e bateu de leve no joelho do tenente:
- Não se preocupe, meu amigo. O coronel quer apenas confiar-lhe uma missão.
- Mas... o meu tempo de serviço já terminou. Volto amanhã para casa.
- O seu tempo terminará oficialmente dentro de 10 horas e cinco minutos. Amanhã ao meio-dia, sob minha palavra, você estará a bordo do avião que o levará de volta à pátria.
O jipe estacou à frente do quartel-general. Guardas estavam postados entre a porta de entrada e a longa e larga cerca de arame farpado que circundava o casarão. O major gritou para um deles:
- Está tudo bem, sargento! Deixe-os passar.
Poucos minutos mais tarde, o major introduziu o tenente no gabinete do comandante.
- Eis o nosso homem - disse jovialmente à porta.
O coronel encontrava-se de pé, atrás de sua mesa de trabalho. O tenente perfilou-se e fez continência. O outro limitou-se a focar nele seu olhar pálido e duro, com uma
intensidade acusadora. Depois voltou-se para o major:
- Desejo ficar a sós com o tenente.
O maior retirou-se, fechando a porta atrás de si. O coronel pôs-se a caminhar de um lado para outro, as mãos trançadas às costas, a cabeça baixa, o ar distraído, como se
ignorasse a presença do outro oficial.
Não vai me mandar sentar - pensava o tenente - e eu mal me posso aguentar de pé... Mas que será que esse homem quer de mim? Porque não fala? Porque toda esta encenação?

Por sua vez o coronel observava-o obliquamente. Mal lhe podia discernir os traços fisionómicos, pois estava estonteado de sono. Não chegara a dormir meia hora... Havia sido despertado por causa daquela maldita explosão. Sabia que o rapaz tinha sangue negro: cinquenta por cento. A cara dele, entretanto, não lhe parecia desagradável. Encaminhou-se para a mesa e mexeu nuns papéis.
- Fique à vontade, tenente. Tenho aqui a sua folha de serviço... Vejo que seu trabalho tem sido bastante apreciável... Mas não o chamei à minha presença para o
elogiar, e sim para lhe confiar uma importante missão.
De novo calou-se. O tenente esperava, apreensivo, com uma secura na garganta.
- Você deve saber que o Café Caravelle foi pelos ares há menos de duas horas...
- Sei, coronel.
- Tem ideia de quem plantou a bomba?
Era uma pergunta apenas retórica.
- Não, senhor.
- Pois nós temos.
O suor entrava nos olhos do tenente e ele agora via o interlocutor através de uma cortina líquida. Esperou em silêncio que o seu comandante continuasse.
- Vinte minutos depois da explosão, nossa polícia apanhou dois terroristas no momento em que colocavam uma bomba dentro de um pagode. Ambos puseram-se em fuga, nossos homens fizeram disparos contra eles, derrubando-os. Um ficou
mortalmente ferido e, interrogado, confessou com um enorme orgulho que ele e o companheiro eram responsáveis pela explosão do café. Como tinha visto o seu companheiro cair baleado a poucos passos dele, julgando-o morto e sabendo-se
também ferido de morte, que podia falar livremente...

O coronel calou-se, levou a mão à boca para abafar um bocejo.
- Preste bem atenção, tenente. Esse terrorista confessou voluntariamente que seu camarada e ele haviam colocado uma bomba-relógio num outro prédio, e que essa bomba explodiria dentro de cinco horas! E quando um de nossos oficiais lhe perguntou "onde?", o bandido sorriu, guardou silêncio, e teve o seu momento de triunfo.
O coronel caminhou até à janela, em busca de um ar que a noite queda e pesada lhe negou. Tornou a encarar o tenente:
- Morreu poucos minutos depois. Mas seu companheiro foi ferido levemente numa perna e neste momento está sendo medicado no nosso hospital.
- Sim, senhor coronel. Pois bem. Dentro de poucos minutos o prisioneiro estará à sua disposição num cubículo do subsolo deste edifício...
- à minha disposição? - repetiu o tenente, não querendo compreender o que o outro insinuava.
O coronel olhou para o relógio-pulseira. Depois de novo seus olhos fitaram o interlocutor.
- Confio-lhe a tarefa de interrogá-lo e descobrir onde está a segunda bomba.
- Por que eu? - deixou o tenente escapar.
- Terei de justificar as ordens que dou aos meus subordinados?
- Não, senhor coronel.
- Bom, mas eu lhe explicarei. Quase todos os membros de sua unidade, como você sabe, encontram-se esta noite fora e longe da cidade, em missões especiais em várias aldeias da região... Não temos tempo a perder. Se mais uma bomba explodir esta noite, nosso prestígio sofrerá um golpe tremendo, pois o povo começará a considerar os nossos inimigos omnipresentes e omnipotentes e nós apenas...
impotentes.

O tenente olhava perdido para a janela. A Lua parecia uma fruta emaranhada entre os galhos de uma árvore do jardim.
Agora o estrondo distante do canhoneio recomeçava.
- Nunca acreditei muito nos métodos de vocês, os psicólogos. Sempre desconfiei da eficiência desses computadores eletrônicos que interpretam as respostas dos
prisioneiros interrogados. Seja como for, agora não temos tempo para recorrer às máquinas... A tarefa está em suas mãos. Pense apenas nisso: se você falhar, se dentro de três horas, veja bem, três horas no máximo, não conseguir arrancar uma confissão do prisioneiro, você será responsável pela morte ou a mutilação de dezenas, talvez centenas de pessoas inocentes, possivelmente crianças, mulheres, velhos...
O tenente estava atónito. Tudo aquilo lhe parecia um diálogo dentro de um pesadelo.
- Três horas... - balbuciou.
- Repito que, conforme a confissão do terrorista que morreu, a segunda bomba deverá explodir às quatro da manhã.
Precisamos saber exactamente onde foi posta, uma hora antes.
Pelo menos...
- Mas, coronel, o senhor sabe que esse tipo de gente em geral não fala.
- Faça o seu prisioneiro falar.
- Mas ele deve ser um fanático!
- Seja também um fanático.
O tenente começava a sentir-se encurralado.
- Bom... usarei primeiro todos os métodos persuasivos.
Se falharem recorrerei ao soro da verdade.
O coronel sacudiu negativamente a cabeça.
- Não creio que dê resultados positivos. Sei de casos... O prisioneiro pode ficar apenas entorpecido a dizer sandices.
- Mas então... que outros recursos me restam?
- Você mesmo os descobrirá à medida em que prosseguir o interrogatório. O essencial, a única coisa que realmente importa é descobrir onde está a segunda bomba. Pense nas vidas que ela vai destruir se você fracassar.
Um pensamento sombrio cruzou o espírito do tenente.
- Na sua opinião, coronel, é válida a ideia de que os fins justificam os meios?
- Isso é uma pergunta filosófica. Não vem ao caso.
- É uma pergunta ética...
- E esta guerra lhe parece ética? É uma ação ética colocar bombas em igrejas, hotéis, cinemas, colégios?
Responda.
- É evidente que não.
- E você sabe como é que os comunistas tratam os nossos soldados que conseguem aprisionar, não sabe?
O tenente sentia uma zoada nos ouvidos, como se de repente tivesse subido a uma grande altitude.
- Até onde deverei obedecer às leis internacionais que protegem os prisioneiros de guerra? - perguntou, ouvindo mal a própria voz.
- Quem lhe disse que neste caso se trata de um prisioneiro de guerra? Esse homem é um terrorista, um assassino. É co-responsável pela morte das dezenas de vítimas da explosão no Café Caravelle. Qualquer júri decente em nosso país condenaria esse criminoso à cadeira eléctrica.
- Mas de qualquer modo ele seria antes julgado, teria direito aos serviços de um advogado de defesa.
- Ridículo! Não se trata de descobrir se ele é culpado ou não. Há pouco me telefonaram do hospital comunicando que o prisioneiro, interrogado sumariamente, repetiu que era o responsável pela explosão no Caravelle, e confirmou a existência da segunda bomba, mas nega-se a revelar onde a colocou.
- Devo então concluir de suas palavras que, se os métodos legais de interrogatório falharem, estou autorizado a usar... - calou-se ante o horror da palavra que lhe veio à mente.
- Tenente, nosso Exército jamais usou a tortura.
Pessoalmente, veja bem, como homem e não como soldado, eu não hesitaria em arrancar as entranhas desse bandido, se tanto fosse necessário para obter a confissão que desejamos com tão desesperada urgência. Lembre-se de que você não é um soldado profissional e que em questão de dias ou, melhor, de horas estará definitivamente desligado das nossas Forças Armadas. Pense bem nisso, e não esqueça que as vidas de muitos seres humanos, que neste momento dormem em paz, são mais importantes perante Deus e os homens do que o conforto, o bem-estar e mesmo os chamados "direitos" de um criminoso. Não se trata de uma questão de ética, mas de simples aritmética...
- Sim, mas...
- Mas quê, tenente?
- Ainda não sei até aonde posso ir...
- Use seu próprio juízo.
- Sou ainda um soldado. Recebo ordens superiores.
- Pois bem. Já lhe dei a minha ordem. Descubra dentro de duas horas, no máximo, onde está a segunda bomba.
- Duas ou três?
- Pensando melhor: duas!

O tenente sentiu que o coronel lhe preparava uma armadilha. Suava abundantemente. Sentia a respiração curta, doía-lhe o corpo inteiro e a zoada nos ouvidos continuava. Encarava o superior hierárquico como hipnotizado pelo seu olhar.
- O major está dirigindo pessoalmente uma busca em toda a cidade. Mais de quinhentos de nossos homens estão empenhados nessa operação, tentando localizar a segunda bomba. A sorte deles será a sua, tenente, pois se encontrarem o que procuram dentro das próximas duas horas, você será dispensado de sua tarefa... - Hesitou por uma fração de segundo e acrescentou:
- ... desagradável.
O telefone tilintou. O tenente estremeceu. O comandante apanhou o fone num gesto brusco e levou-o ao ouvido.
- Sim... É o coronel... Quê? Ah! Está bem. O tenente vai descer dentro de um minuto. - Repôs o fone no lugar. - Tenente, o prisioneiro está à sua espera numa das celas do subsolo. O major o conduzirá até lá. Atente no que lhe vou dizer. Esse interrogatório será feito sob o maior sigilo.
Espero que nenhuma autoridade local e especialmente nenhum correspondente de guerra, nosso ou estrangeiro, fareje o que se está passando no porão deste edifício.
- Perfeitamente, coronel.
- Estamos então entendidos. Para esse interrogatório você contará com a colaboração do melhor de nossos intérpretes e com a de um sargento que, na vida civil, foi funcionário da Polícia e tem prática... desse... dessas coisas. Duas horas,
não esqueça, duas horas. E agora pode retirar-se.
O tenente perfilou-se, fez continência e encaminhou-se para a porta. Estava já com a mão na maçaneta quando de novo ouviu a voz do seu comandante.
- Lembre-se de que me interessam resultados e não métodos, tenente. Se você conseguir o que queremos, prometo não fazer perguntas.
E depois que seu oficial se foi, o coronel ficou a olhar fixamente para a porta, sentindo uma vaga e meio irritada vergonha das coisas que acabara de dizer e fazer. Estendeu-se pesadamente no sofá, fechou os olhos e dentro de poucos segundos caiu num sono profundo.
O tenente encontrou o major no corredor.
- O seu homem acaba de chegar - disse este último. - O coronel já lhe deu as ordens, não?
O outro sacudiu a cabeça, taciturno.
- Sabia o que o comandante queria de mim?
- Naturalmente.
- E que acha de tudo isso?
- Você tem nas mãos uma tarefa dura e ingrata. Vai ter de trabalhar sob uma pressão tremenda.
- O coronel praticamente me induziu a usar até a violência em caso extremo... mas teve o cuidado de não me "autorizar" isso oficialmente. Se eu falhar, pessoas
inocentes morrerão e eu ficarei responsável por essas mortes.
Se eu torturar o prisioneiro, é a desonra...
O major sorriu:
- Mas você não acha que, a esta altura dos acontecimentos, de um modo ou de outro, já estamos todos um tanto desonrados?
- As Forças Armadas são uma espécie de corpo místico. Eu sou um indivíduo. Dentro de poucas horas, um civil. E sempre, irremediavelmente, um negro. O coronel arranjou um alibi perfeito para si mesmo e para o Exército. Eu caí na armadilha...
- Não seja tão pessimista. Talvez nossos soldados encontrem a bomba dentro de menos de uma hora...
- Numa cidade do tamanho desta?
- Tudo pode acontecer na vida, inclusive as boas coisas...
Segurou num gesto paternal o braço do tenente e conduziu-o para a escada.
Caminhavam agora no subsolo ao longo de um estreito corredor de pedra, alumiado pela luz amarelenta produzida pelas pequenas e raras lâmpadas elétricas que, a intervalos, pendiam nuas do teto abaulado. O tenente teve a impressão de haver descido a uma catacumba. De um lado e de outro, via as portas das celas que, no tempo dos últimos conquistadores europeus daquele país, haviam servido como prisão provisória para réus que aguardavam julgamento.
Um oficial veio ao encontro de ambos. Trazia numa das mãos a sua maleta negra.
Era um capitão-médico com quem o tenente trabalhara muitas vezes nos últimos cinco meses em aldeias daquela e de outras províncias. Eram vizinhos de quarto no Vieux Monde.
- O prisioneiro está pronto para ser interrogado - disse ele com sua voz levemente nasalada. - Foi baleado na coxa esquerda, perdeu algum sangue mas o ferimento não é grave.
- Que idade tem? - indagou o tenente.
- Dezenove.
- Tão jovem assim?
O major encolheu os ombros:
- às vezes tenho a desconfortável impressão de que estamos lutando contra um exército infanto-juvenil...

Encaminharam-se os três em silêncio para o fundo da galeria, rumo ao cubículo onde ia processar-se o interrogatório. Mordendo a haste do cachimbo apagado, o major entregou-se a reflexões... Ali ia ele entre dois neuróticos reconhecíveis a olho nu. À sua direita tinha um inquieto centauro, metade negro, metade branco, prisioneiro perpétuo de sua pele, e era fácil deduzir-se de seu comportamento que ele desejava
apaixonadamente passar por branco... à sua esquerda marchava um judeu, pálido e perturbado como um condenado à morte que, ao raiar do dia, é arrastado por seus carcereiros para a cadeira eléctrica... Aliás, o relógio interior daquele intelectual desajustado parecia estar batendo sempre, fatalmente, a hora da própria execução.
Pararam diante da porta da penúltima cela da galeria.
- Bom - disse o major -, deixo vocês aqui. Tenho de voltar ao meu gabinete para esperar os resultados dessa recherche de la bombe perdue - sorriu ele, olhando para o médico que, na sua opinião, seria o único a compreender a alusão. - Doutor, não
se afaste muito, que seus serviços podem ser necessários. Tem pentotal sódico na bolsa? Muito bem. Tenente, logo que obtiver a confissão, telefone-me sem perda de tempo para que a bomba seja imediatamente desmontada pela nossa equipe
especializada nessas engenhocas mortíferas.
- Olhou para o seu relógio-pulseira. - Meia-noite e trinta e cinco. Sejam
felizes, rapazes!
Fez meia volta e se foi, voltando sobre seus próprios passos. Era céptico quanto ao resultado daquele interrogatório. Seria uma simples formalidade. Conhecia o tipo de homem que o inimigo encarregava desses actos de terrorismo. Eram suicidas natos. Estava certo de que, dentro de menos de três horas, mais uma bomba explodiria em alguma parte da cidade, ferindo e matando gente e causando danos materiais. E não seria a última. A trágica pantomima continuaria.
Pensou na mulher e na mãe e imaginou-as a seu lado. Ia agora ensanduichado, como um gordo naco de presunto já em processo de decomposição, entre duas fatias de pão doméstico. Sua mãe era, sem sombra de dúvida, o pão ázimo de sua vida. Até
quando duraria aquela prolongada e involuntária páscoa!
O tenente entrou na cela. Sobre uma base olfativa feita de cheiro antigo de humidade e mofo, pairava no ar enfumaçado um fedor vivo e novo de suor humano, misturado com sarro de charuto.

O prisioneiro estava sentado numa cadeira a um canto daquele cubículo tão mal iluminado quanto o corredor. O nativo era tão pequeno e frágil, que o tenente teve a desconcertante impressão de estar diante de um menino de quinze anos.
- É esse o terrorista? - perguntou ele ao homenzarrão que se encontrava de pé, no centro da cela, mas para cuja fisionomia ainda não atentara. A resposta lhe veio pronta, numa voz arrastada e lânguida de sulista, levemente rouca:
- Tão certo como dois e dois serem quatro.
- Mas é uma criança!
- Não se iluda. Esses sujeitinhos são como os escorpiões: pequenos mas venenosos. Espere e verá.
O tenente acercou-se do rapaz e pôs-se a examiná-lo, tomado de um constrangimento que o desarmava por completo. O Prisioneiro estava descalço e nu da cintura para cima.
Conservava apenas as calças do pijama, de um preto ruço e enodoado, que haviam sido cortadas do lado esquerdo, quase à altura da virilha. O terço médio da coxa esquerda estava envolto em ataduras. Os braços, finos como as pernas, manchados de equimoses arroxeadas, pendiam ao longo do tronco descarnado. As costelas apareciam em relevo na pele de um amarelo citrino, reluzente de suor. Manchas de carvão riscavam-lhe as faces como grafitos indecifráveis. O tenente continuou o exame, tomado de uma fascinação que não saberia explicar. Via a jugular do rapaz pulsar ao ritmo do sangue.
(Relampagueou-lhe na mente uma imagem de seu passado universitário. Em cima do estrado, o professor dizia:
"Cinestesia é o termo técnico que usamos para exprimir a sensibilidade corpórea, proprioceptiva, isto é, esse conjunto de sensações ,que nos vem de nossos músculos, de nossas vísceras, juntas, tendões e outras partes de nosso corpo.")
Podia quase ver as batidas do coração do prisioneiro. Seus mamilos eram pardos. O umbigo sugeria grotescamente um clitóride. A todas essas, ele evitava encarar o rapaz. Houve, porém, um momento de reconhecimento mútuo em que os olhares
de ambos se encontraram e então o tenente, perturbado, viu a própria imagem refletida nas pupilas de K., agora metidas no fundo das órbitas do minúsculo guerrilheiro. Havia entre K. e seu assassino uma parecença que não era propriamente de traços fisionómicos, mas de clima - uma espécie de ar de família.

O prisioneiro sorriu, e isso aumentou a confusão do tenente. Não era um sorriso altivo de desafio ou desdém, nem mesmo um rito de indiferença. Havia naquele mal definido movimento de lábios, algo de patético. Uma mensagem em código? o sinal de que tinha instintivamente reconhecido no soldado estrangeiro moreno um secreto aliado? Era possível que o nativo tivesse logo intuído sua origem racial? Ou seria apenas esse incerto sorriso infantil, misto de desmaiado medo e tímida esperança e já quase arrependimento, com que o aluno que acaba de cometer uma travessura na aula, sonda a possibilidade de comprar a benevolência do professor que o vai punir? E o terrorista não parecia mesmo um menino de escola posto de castigo ali no canto, na frente da classe?
- Estamos perdendo tempo. Meia-noite e quarenta e cinco!
O tenente voltou-se para o homem que acabava de falar. O sargento tinha quase dois metros de altura, o porte atlético, a cabeça completamente raspada. Vinha dele um cheiro ativo de suor.
Só agora o tenente percebia que tinha atrás de si o médico, e que uma terceira pessoa estava encostada na parede, num dos cantos do cubículo: um sujeito pálido, magro, de óculos, também em uniforme como os outros.
Em cima da mesa tosca, viu uma lâmpada apagada, um jarro com um líquido cor de mel, onde boiavam cubos de gelo, copos de papel, um gravador de fita magnética e um cinzeiro sobre o qual jazia a metade de um charuto recém-fumado, uma das pontas mascada e ainda reluzente de baba. Aquela mesa e cinco cadeiras constituíam o mobiliário daquela cela toda de pedra rusticada. Era decerto aqui - pensou o tenente - que os "outros" torturavam seus prisioneiros.

Olhou em torno, tonto, sem saber por onde começar. A cabeça continuava a doer-lhe surdamente. Buscou em vão uma janela. O calor e o abafamento ambiente aumentavam. O homem pálido de óculos aproximou-se dele e identificou-se.
- Sou o intérprete. - Revelou o nome por inteiro, o posto, e a unidade a que pertencia. Depois perguntou. - Não será conveniente aproximar o prisioneiro da mesa?
- Boa ideia.
O sargento deu dois passos na direção do prisioneiro, agarrou a cadeira em que ele estava sentado, ergueu-a no ar e praticamente a atirou no chão, junto da mesa. O nativo soltou um gemido, mordeu o lábio e seus olhos se empanaram. Deve ter
batido com o ferimento na perna da mesa, concluiu o tenente.
O mal-estar físico começava a embotar-lhe a capacidade de indignar-se.
- E agora, tenente? - perguntou o homenzarrão.
Sua antipatia pelo sargento aumentava de minuto para minuto.
Voltou-se para o médico, como para lhe pedir auxílio, mas este, sem o encarar, murmurou:
- Peço que me escuse. Tenho boas razões para não gostar... a... destas coisas. Estarei no corredor, se precisarem de mim.
O tenente sacudiu afirmativamente a cabeça. O capitão encaminhou-se para a porta mas, antes de sair, voltou-se e, de maneira a que todos ouvissem, disse:
- Quero mais uma vez preveni-lo, tenente, de que esse rapaz tem um coração enfermo.
O sargento sorriu sarcástico:
- Está certo de que este percevejo tem mesmo coração?

O médico simplesmente voltou-lhe as costas e se foi sem dizer mais palavra.
Sentaram-se os quatro à mesa, como se fossem começar um jogo de cartas amistoso. O sargento acendeu a lâmpada e uma luz intensa incidiu sobre o prisioneiro, que piscou ofuscado. O tenente despejou chá num copo e bebeu dele, sôfrego.
- Não acho isso necessário - disse. - A luz só pode aumentar o calor.
- Tenente, não conheço sua experiência em matéria de interrogatórios. Mas na Polícia nós metíamos em cima dos tipos uma luz ainda mais forte que esta. Garanto-lhe que dava resultados...
O prisioneiro mantinha os olhos entrecerrados. O tenente notou que a sua jugular agora pulsava num ritmo acelerado. A memória tornou a mandar-lhe imagens acompanhadas de ecos de vozes. O professor universitário explicava: "Cada pessoa é um idioma em si mesma, uma aparente violação da sintaxe da espécie."
- Posso fumar? - perguntou o sargento. E, sem esperar resposta, prendeu entre os dentes o toco de charuto, riscou um fósforo, acendeu-o, inalou a fumaça, soltou uma baforada.
O prisioneiro ficou olhando com ar divertido para as volutas azuis que subiam no ar espesso. O intérprete tirou um cigarro do bolso e também o acendeu: o olhar do prisioneiro voltou-se para ele e depois se fixou no tenente, como a esperar que
este fizesse o mesmo que os outros. A sintaxe da espécie... Ali estavam ao redor da mesa algumas frases do contexto humano. A sua combinação não parecia fazer o menor sentido para o tenente. Que tinham aqueles quatro homens em comum, como membros da mesma espécie animal? O desejo de sobreviver e de obter prazer da vida? O medo da morte? A capacidade de amar, de odiar... sim, e de aborrecer-se? O desejo de poderio e de auto-afirmação? Talvez também o amor à liberdade. Mas
que era liberdade? Qual dos quatro era realmente livre? Talvez aquele sujeitinho amarelo, raquítico e seminu que, se não tinha podido escolher a sua vida, pelo menos fora suficientemente livre e corajoso para escolher a sua morte.
E, acima de tudo, não era estúpido, absurdo o conjunto de circunstâncias que havia reunido ali aqueles quatro "idiomas"? Talvez a combinação daquelas "frases" formasse o incongruente discurso de um parafrásico que, no fundo, podia bem ser uma espécie de tentativa de descrição do caos...
O tenente tinha a impressão de que sua cabeça inchava aos poucos, era um porongo dolorido cheio de ecos. E seus olhos passeavam de pulso em pulso, de relógio em relógio. Meianoite e cinquenta.
O prisioneiro continuava a sorrir e a observar aqueles três homens grandes.
- Estamos perdendo tempo - rosnou o sargento, mordendo forte a ponta do charuto.
O tenente voltou-se para o intérprete:
- Bom, vamos começar o interrogatório. - Falava e via-se e ouvia-se no ato de falar, como se fosse uma terceira pessoa na qual não chegava a acreditar completamente. - Minha ideia é fazer-lhe uma série de perguntas, algumas delas até fúteis, e de repente, de surpresa, lançar a pergunta essencial: "Onde está a bomba?"
- Isso é pura perda de tempo! - exclamou o sargento, insolente.
O tenente encarou-o e teve gana de esbofeteá-lo.
- Você tem por acaso - perguntou - a fórmula mágica para arrancar desse menino a confissão que desejamos?
Os olhos do homenzarrão entrecerraram-se e seus lábios se crisparam num sorriso cruel.
- Ah, tenente! Se tenho! Uma fórmula que nunca falhou, que me lembre. - Inclinou-se sobre a mesa na direção do outro. - Depois que a sua "psicologia" fracassar, eu vou empregar o meu método. É simples. E velho como o mundo.
O tenente olhou para o intérprete. Podia jurar que o suor que escorria daquela cara lívida era gelado. Ali estava um soldado que cumpria com eficiência o seu dever, tratando de não comprometer a alma. Outro neutro.
O sargento estendeu a mão para o prisioneiro, e quase lhe tocou o ombro.
- Não se iludam com esse ar de inocência. Conheço bem esses bandidos. Há menos de um mês, metade de meu pelotão perdeu-se no matagal e caiu numa emboscada. Encontrámos mais tarde todos os nossos companheiros mortos, numa clareira. Tinham sido trucidados... estavam todos com as órbitas vazias. Os olhos jaziam no chão ao lado dos cadáveres, podres e cobertos de formigas...
Lançou um olhar de ódio para o prisioneiro, que continuava a sorrir inefavelmente como os mandarins de pedra da esplanada do museu. o tenente olhava fascinado para o bíceps do sargento, onde via uma mulher nua tatuada - uma fêmea de
quadris largos, fartos seios, púbis negro.
O prisioneiro tinha agora ambas as mãos espalmadas sobre a beira da mesa. Eram minúsculas e de unhas tarjadas de preto. O tenente queria induzir-se a odiar o prisioneiro para facilitar o interrogatório. Dizia-se a si mesmo: foram essas
as mãos aparentemente inocentes que colocaram no Café Caravelle a bomba que matou K. Ele é o assassino da mulher que eu amava. Mas qual! De certo modo o prisioneiro era K. Por outro lado, não teria ele o direito de mandar pelos ares, em pedaços, os homens que vendiam e compravam o corpo de sua irmã, mesmo que fosse preciso aniquilar também a vítima nesse ato de vingança?

Por alguns instantes o tenente e o intérprete, sob o olhar céptico do sargento, ficaram a combinar o género de perguntas que iam fazer ao prisioneiro. O homem pálido taquigrafava as suas notas numa caderneta. Olhavam os três para o pequeno guerrilheiro, que tinha ainda os olhos postos no tenente, agora com uma das
sobrancelhas erguidas interrogadoramente. O intérprete torceu um dos botões do gravador, acendendo um olho verde. Apertou uma tecla e os dois carretéis que continham a fita magnética começaram a rodar. O prisioneiro olhava entre intrigado e divertido para o aparelho. E o interrogatório começou. Durou vários minutos, pontilhado pelos suspiros impacientes do sargento, que havia tirado o blusão, com o qual enxugava repetidamente o torso suarento, e que andava de um lado para
outro na cela, como um animal enjaulado. O prisioneiro reafirmava a sua responsabilidade na explosão da bomba que destruíra o Café Caravelle? Sim. Tinha ajudado a plantar uma segunda bomba noutra parte da cidade? Tinha. Por quê? Recebera ordens. De quem? Do chefe. Quem era o chefe? Não podia dizer. Por quê?
Ordens. Onde estava a segunda bomba? (Sorriso. Silêncio. O prisioneiro fez uma das mãos avançar timidamente e acariciou o microfone com a ponta dos dedos.) Como se chamava? Não tinha nome. (Ao ouvir a tradução desta última frase, o sargento
berrou: "Estamos perdendo tempo!" O tenente olhava mesmerizado para o prisioneiro. A lavagem de cérebro a que os comunistas haviam submetido aquele menino - pensava-lhe tinha apagado até o nome.) Onde morava? Por aí... Nas Montanhas? Não. Nos arrozais? Não. Onde então? Onde fosse necessário. Onde estava a segunda bomba? (Sorriso e silêncio.)

Tinha passado a última noite em alguma sampana? Sim. Onde? Em alguma parte do rio. Naquele mesmo rio que banhava a cidade? Sim. Onde estava a segunda bomba?
Não podia dizer. Quem era o companheiro morto? Irmão. Como se chamava? Não podia dizer. Por quê? Ordens. A que horas ia explodir a segunda bomba? Não sabia.
Seu irmão declarara que a segunda bomba ia explodir às 4 da madrugada. Era verdade? Se ele dissera, devia ser verdade. Sabia que essa explosão podia causar a morte de dezenas de pessoas inocentes? Sabia. E isso lhe era indiferente? Mais de metade de sua família tinha morrido queimada numa aldeia bombardeada pelos aviões dos brancos. Lembrava-se exactamente do lugar onde ajudara o irmão a
colocar a segunda bomba? Sim. Onde era? Não podia dizer. Sabia que podia ser entregue às autoridades do Sul. Caso em que seria inapelavelmente fuzilado? Sabia.
Não tinha medo de morrer?

Nunca esperara escapar com vida daquela missão. Onde estava a segunda bomba?
Não diria jamais. Nem mesmo que lhe prometessem a liberdade em troca da
confissão? Nem mesmo. Neste ponto o sargento precipitou-se para o gravador,
apagou-o, encarou o tenente e exclamou:
- Esse sujeitinho não é nenhum super-homem! Pode ser, no máximo, um super-rato. Mas eu sei como arrancar a confissão desse pigmeu em cinco minutos!
Turvou-se a imagem do prisioneiro ante os olhos do tenente. Parecia pairar no ar esfumaçado como uma aparição sobrenatural. K. em cima da cama, nua. Estátua de cobre. Aqueles homens iam violar o prisioneiro como o brutal legionário violara a K. de doze anos. E ele assistiria a tudo inerte (ou ia fugir?) como fizera quando os três homens brancos tinham agredido e espancado seu pai. Seu olhar fixava-se na jugular do rapaz, que pulsava vivamente. O mau cheiro do suor no homem tatuado, agora mais próximo dele, sufocava-o. O interrogatório prosseguiu durante pouco mais de meia hora, mas sem nenhum resultado positivo.
O sargento dirigiu-se ao intérprete:
- Pergunte a esse rato se ele não tem medo que eu esmague seus escrotos sujos.
O intérprete hesitou, mas como não notasse nenhuma reação desfavorável no rosto do tenente, formulou a pergunta ao nativo, na língua deste. O prisioneiro sorriu e encolheu os ombros.
O sargento olhou o próprio relógio-pulseira:
- Uma e vinte!
O tenente ergueu-se.
- Vamos tentar o pentotal. Chame o doutor.
O sargento ergueu os braços, apareceram-lhe os cabelos louros e húmidos das axilas.
- Santo Deus! Vamos perder mais tempo ainda com essa bobagem. Sabe que se o pentotal falhar, precisaremos esperar um tempão antes que o prisioneiro esteja em condições de responder de novo às nossas perguntas?
O tenente cerrou os dentes:
- Eu lhe dei uma ordem, sargento. Obedeça.
O homenzarrão lançou para o seu superior hierárquico um olhar em que havia um misto de rancor e desprezo, e saiu da cela. Voltou poucos segundos depois com o médico.
- Vamos tentar o pentotal sádico, doutor - disse o tenente.
O prisioneiro olhava meio espantado para o recémchegado, que abriu a maleta e começou a preparar a seringa e a agulha em meio do silêncio. Quebrou uma ampola, meteu dentro dela a agulha e puxou o êmbolo da seringa.
- Façam o favor de segurar o braço do rapaz - pediu, não se dirigindo particularmente a ninguém. O tenente avançou, sentindo um estranho desejo de tocar a pele do prisioneiro. O médico passou um chumaço de algodão embebido em álcool sobre a prega do cotovelo do paciente.
- Tem veias sumidas... - murmurou, - Mas aqui está uma boa...
- Cravou nela a agulha e foi pressionando devagarinho o êmbolo. O prisioneiro olhava o próprio braço, curioso, e de quando em quando erguia a cabeça e focava o olhar no rosto do tenente, como a pedir-lhe explicação de tudo aquilo.
Agora o tenente sentia contra o flanco as batidas do coração do guerrilheiro. Houve como que um momento de comunhão. Ele pensou de novo em K. e lhe veio uma súbita pena dela, do prisioneiro e de si mesmo, e uma vontade quase irreprimível
de chorar. O sargento, de braços cruzados, esperava.
O médico levantou-se:
- Não acredito que o pentotal o faça confessar o que vocês querem. Tenho observado muitos casos. Em alguns o paciente consegue controlar-se e dizer apenas o que quer, apesar da sonolência. Noutros, entra a fazer fantasias. Mas vamos ver.
- Guardou a seringa na bolsa, voltou-se para o tenente. - Se houver alguma novidade, estou no corredor.
Retirou-se. O intérprete tirou o blusão, queixando-se do calor. O sargento acendeu um cigarro. O tenente segurou com ambas as mãos a cabeça do prisioneiro e mirou-o nos olhos, que estavam já embaciados. O rapaz sorria sempre. Parecia agora numa beatitude de nirvana.
O sargento olhou o relógio. Uma e meia. Coçou o peito, onde se viam tatuados uma âncora e nomes de mulheres sob ramos de flores. Dentro de alguns instantes o nativo deixou pender a cabeça para trás. O tenente segurou-a, e pensou no filho,
certa noite de um remoto Inverno em que o menino havia adormecido em seus braços. O sorriso continuava no rosto citrino. Os lábios moviam-se produzindo sons. O tenente olhou interrogadoramente para o intérprete, que se apressou a pôr
em funcionamento o gravador.
- Agora, silêncio, por favor. - Ergueu a voz e perguntou na língua do nativo: - Onde está a segunda bomba?
Aproximou o microfone da boca do prisioneiro, que começou a falar. Pronunciava palavras soltas, formava frases, que o intérprete ia anotando. De vez em quando este fazia uma careta, como para significar que não estava entendendo nada.
Os carretéis do gravador rodavam. O tenente olhava para os cabelos empastados de barro do prisioneiro. Tinha nas mãos a cabeça do filho que acabava de ser ferido por homens brancos, à saída da escola.
O menino sangrava. O seu sangue...
O prisioneiro parecia agora mais animado, e o tenente teve a impressão de que ele falava mais claro. A expressão do rosto do intérprete, entretanto, revelava decepção, quase irritação.

O prisioneiro continuou a falar, lentamente. Seus lábios pareciam beijar o microfone. O sargento olhava para o relógio, impaciente. Por fim o terrorista calou-se, cerrou os olhos e caiu no sono.
- Que foi que ele disse? - perguntou o tenente, olhando para o intérprete.
Este fez os carretéis rodarem em sentido contrário, e pouco depois, apertando em algumas teclas, pôs o alto-falante a funcionar. E foi traduzindo para os outros as lentas palavras do prisioneiro que o gravador reproduzia.
A segunda bomba? Ah! A segunda bomba. Onde foi mesmo que deixamos a segunda bomba? A segunda bomba? Ah! Meu irmão me roubou a pomba que meu avô me deu. (Aqui se ouviu a voz do intérprete: "Não é isso! Quero saber onde está a segunda bomba. Lembra-se da primeira?") Lembra-me da primeira. Era branca. ("Não! A segunda bomba. A primeira explodiu há poucas horas no "Café Caravelle"... Lembra-se?") Lembro-me. ("Onde está a segunda bomba?") Ah! A segunda bomba? Escondemos a segunda bomba... a segunda bomba no coração de um grande lato... um grande lato no meio da lagoa... As quatro da manhã o lato vai explodir... bum! e todos os latos do mundo... milhões... milhões!... vão pelos ares... com os peixes de
todas as águas... e os peixes caem mortos na terra... e apodrecem... e seu fedor será levado pelo vento... e todos os brancos fugirão perseguidos pela podridão dos peixes...

Ah! Mas em Setembro soprarão as monções de sudeste trazendo as grandes chuvas... e as águas lavarão o ar... e de novo o mundo ficará limpo... e o Sol brilhará outra vez... ah!... brilhará por cem anos lunares... e então toda a gente terá
peixe e arroz... e chá... ah!... um dia Buda descerá do céu, num avião de ouro, e os latos nascerão de novo em todas as águas... E o meu irmão me devolverá a pomba que meu avô me deu...
O sargento avançou, gritando:
- Rato imundo!
Estas palavras soaram na mente do tenente como Negro imundo! E o homem tatuado segurou o prisioneiro pelos ombros e pôs-se a sacudi-lo com furiosa força, e a cabeça do rapaz escapou das mãos do tenente e ficou a oscilar de um lado para
outro como se seu pescoço fosse de pano.
- Tenente, falta menos de duas horas para a bomba explodir! Precisamos reanimar este cachorro para continuar o interrogatório. Eu lhe disse que íamos perder o nosso tempo!
O oficial olhou para o intérprete:
- Chame o doutor. Depressa!
O sargento rompeu a esbofetear o prisioneiro, frenético. As faces do tenente ardiam. E ele desejou matar a tiros o brutamontes.
O coronel dormia profundamente, estendido no sofá de seu gabinete de trabalho. Ressonava forte e a intervalos soltava gemidos, como se estivesse sofrendo um pesadelo.
No mesmo andar daquele edifício o major estava sentado à sua mesa, respondendo a um chamado telefónico:
- Nada ainda? (Pausa.) Onde? A Universidade? É improvável, mas não podemos deixar de verificar.
Principalmente nos dormitórios. Sim, diga que me telefonem se descobrirem alguma coisa...
Repôs o fone no lugar. As pálpebras pesavam-lhe. Ardia-lhe os olhos injetados. Passou a mão pelas faces, a contrapelo, e sentiu a aspereza da barba.
Apanhou um lápis e começou a fazer rabiscos na folha de papel que tinha diante de si, e onde se viam vários nomes de pessoas politicamente importantes na cidade - e cujas casas ele recomendara fossem cuidadosamente revistadas.

Fazia pouco, um ajudante entrara em seu escritório para lhe comunicar que o interrogatório fora interrompido porque o prisioneiro caíra no sono. Ele não acreditava no pentotal. Para falar a verdade, começava a não acreditar em mais nada. Gases produziam-lhe dores abdominais. (Devia ser o maldito peixe que comera ao jantar.) Seria o cúmulo se agora caísse com uma intoxicação alimentar. E a de peixe deteriorado era a pior. Fatal, às vezes. Lembrava-se de casos... E por falar em caso, o seu ficaria resolvido se ele morresse. Um peixe podre teria tido o poder de solucionar um problema ético, sentimental, familiar. Mas se por acaso sobrevivesse, poderia escrever uma grande tragicomédia intitulada Jocasta e o Peixe Podre. Fizera uma lista dos lugares que deviam ser revistados. Templos e pagodes. Cinemas. (Tolice, pois às quatro da madrugada todos os cinemas estavam vazios.) Hotéis. Sim, todos os hotéis estavam sendo cuidadosamente esquadrinhados: foyers, quartos, corredores, porões... Os hospitais recebiam um "tratamento especial". A casa do arcebispo também. Mas como poderiam encontrar, no espaço de tão curtas horas, uma bomba escondida numa cidade de cem mil habitantes? A princípio pensara em sugerir ao comandante que fizesse soar um alarme geral. Desistira da ideia, compreendendo que isso poderia criar pânico e agravar a situação.

Acendeu o cachimbo e começou a fumar, olhando fixamente para o telefone. Dentro de alguns segundos, embora não desviasse o olhar do negro foco, não viu mais o objeto, mas as imagens e ideias que lhe passavam atropeladas pela cabeça. Que é que estou fazendo aqui? Sou um robot. Um robot gordo. Apertem num botão e eu me ponho a marchar como um soldado de mola. Um-dois! Um-dois! Apertem noutro botão e eu repetirei as ordens que me deram. Não! O que sou mesmo é um menino
exemplar. Eu amo a minha Mamã. Amo a minha Pátria. (Cantou baixinho em falsete os dois primeiros versos do hino nacional.) Sou um bom escuteiro que toma a mão das senhoras idosas e as ajuda a atravessar a rua. Todos os dias faço uma boa ação. Que boa ação fiz hoje? Entreguei um nativo raquítico a três sujeitos grandes para lhe arrancarem um segredo. Sou um ótimo petiz. Se um dia eu derrubar uma cerejeira a machadadas e me perguntarem quem foi que fez isso, porei a mão no peito e direi: "Fui eu, o bom menino nunca mente!" Dêem-me a liberdade ou dêem-me a morte. Mas que é a morte? Dormir, sonhar, quem sabe? No fundo, todos somos atores. Representamos vários papéis ao mesmo tempo. Uns mal, outros bem. No fundo, todos uns impostores. Diz o poeta que a vida não passa de um sonho de Verão. Sonho de Verão, uma merda! Talvez tivesse sido melhor fazer soar o alarme. Seja o
que Deus quiser. Do alto de seu trono Ele se ri desta comédia. Talvez não exista bomba nenhuma. O terrorista que morreu quis apenas fazer piada, o seu último trote.

A segunda bomba bem pode ser uma mistificação. A vida é outra mistificação. Mas eu sou um bom menino. Só existem duas cores: o preto e o branco. Nós somos do lado do branco, eles do preto. Quem afirmar que existem matizes é inocente útil. Ou alienado. Ou inimigo de Deus, da Pátria, da Família. (Bocejou longamente.) Mas eu sou um bom escudeiro. Somos uma nação de escudeiros. Estamos ajudando o mundo a atravessar a rua da pobreza e do subdesenvolvimento rumo da outra calçada onde se enfileiram as deslumbrantes lojas que vendem os nossos rádios, os nossos condicionadores de ar, os nossos televisores, os nossos automóveis... os cinemas onde passam nossos filmes em que brilham os nossos heróis, flores da raça humana.
Só ergueu uma das nádegas, contraiu os músculos do abdomen e soltou explosivamente, num som insolente de trombeta, parte dos gases que lhe comprimiam as tripas. Este é para a Pátria - murmurou. Repetiu com o mesmo êxito a operação pneumática e pensou: Este é para a Família. Tentou produzir uma terceira explosão, porém o mais que conseguiu foi uma ventosidade sem vibração nem música. Bom, este é para a Humanidade. Ergueu-se. A segunda bomba podia ter sido mesmo a derradeira empulhação do bravo guerrilheiro. Mais um logro
entre os muitos logros de que seu Governo fora vítima desde o dia em que os seus soldados haviam pisado pela primeira vez aquele solo maldito.

Aproximou-se da janela e ficou- a olhar para o jardim. O ar continuava parado e opressivo. Pensou na mulher e nos filhos, mas dessa vez sem ternura. Talvez, pensando bem, o mundo nada mais fosse que um produto dos gases intestinais que o Criador soltara apocalipticamente no infinito, formando a nebulosa inicial. Os
homens nesse caso nada mais seriam que subprodutos das fezes divinas. Ou protozoários que se alimentavam delas ... O telefone tornou a tilintar. Os três interrogadores estavam sentados à mesa, enquanto o doutor ocupava-se com o prisioneiro, procurando reanimá-lo. O sargento relanceou o seu relógio e disse:
- Temos apenas uma hora e pouco pela frente. - Olhou intensamente para o tenente e rosnou. - às quatro em ponto uma bomba vai explodir em alguma parte da cidade. Mulheres, crianças e velhos serão estraçalhados... Dez, doze, vinte, trinta, cinquenta... quem sabe? Pense bem, tenente, a vida dessa gente está em suas mãos. Porque hesita? O outro não respondeu. Debatia-se numa dúvida. Sabia que
o sargento queria que ele lhe autorizasse o emprego da violência. Quero resultados- tinha dito o coronel. - Não farei perguntas. É uma operação aritmética. Respirava com dificuldade, como se um cinturão de aço lhe apertasse o peito e a garganta. Estava banhado em suor. Os olhos do brutamontes não lhe davam trégua. A mulher tatuada em seu biceps também suava. O intérprete brincava com a lapiseira, rabiscava uma que outra palavra no seu caderno de notas. Encolhido na sua cadeira, o prisioneiro parecia ter diminuído de estatura física.

Que fazer? Havia pouco, o maior mandara indagar sobre a marcha do interrogatório e seu emissário lhe informara que a busca da bomba até àquele momento não havia apresentado nenhum resultado positivo. Que fazer, santo Deus? - Faltam apenas sessenta minutos para a explosão... - disse pouco depois o sargento. - O senhor, tenente, será o responsável pela morte de muita gente...
O prisioneiro olhava para o tenente. Este olhava para o prisioneiro. Pareciam hipnotizados um pelo outro. Ele é um assassino - pensava o oficial. - Ele matou K. Se eu autorizar o sargento a usar violência, isso não implicará
necessariamente na morte desse rapaz. Mas é monstruoso!
- Faltam cinquenta e oito minutos... o intérprete estendeu a mão, apanhou o jarro e despejou no seu copo o chá que nele restava e bebeu-o. O tenente continuava a olhar para o prisioneiro, que o doutor agora fazia levantar-se e conduzia para junto da mesa.
- Acho que este rapaz já está em condições mentais de ser de novo interrogado - disse ele com ar soturno.
- Mas não se esqueçam de que seu coração é fraco.
- Está bem, doutor- retrucou, áspero, o sargento. - Deixe isso por nossa conta.
Os cadáveres carbonizados no asfalto. K., de olhos vidrados, metade do corpo queimada. A estudante budista em chamas. Seu pai surrado na rua por três homens parecidos com o sargento... o prisioneiro olhava para ele - sentia o tenente - e parecia esperar dele uma palavra, um gesto, qualquer coisa...
E aqueles três pequenos relógios a baterem e caminharem inapelavelmente para a hora da explosão! Talvez a bomba estivesse na casa de sua amiga a professora. Ou no orfanato que ela dirigia. Imaginou as crianças mutiladas, desmembradas, desventradas, feitas uma polpa sangrenta.
- Cinquenta minutos... - disse o sargento, passando o blusão pela cabeça, pelo pescoço, pelo peito. Seu cheiro envolvia o tenente, entrava-lhe pelas narinas, pela boca, pestilencial. O cubículo parecia um forno aceso.
- Vamos, tenente. Basta uma palavra sua. Diga-a antes que seja tarde de mais.
O sargento segurava o seu braço, apertava-o com força crescente como se quisesse começar a tortura por ele.
- Não tem coragem?
O tenente encarou o interlocutor e, desvencilhando-se dele bruscamente, disse, rouco: - o suficiente para lhe quebrar a cara, sargento.
O outro soltou uma risada.
- Isso! Agora estou gostando. Mas não sou eu quem está em jogo. Vamos "acariciar" um pouco esse rato para ele dizer onde está a bomba. Seja homem! O tenente ergueu-se, evitando olhar para o prisioneiro. E berrou:
- Está bem! Empregue... o seu método!
O rosto do sargento iluminou-se. Ele se pôs de pé, brusco, derrubando a cadeira.
- Muito bem, tenente! Mais tarde, se quiser, pode me quebrar a cara. Mas agora vamos tratar do herói amarelo.
O tenente estava aturdido.
- Mas a coisa não pode ser assim tão vaga - prosseguiu o homem tatuado. - Quero ouvir e registrar uma ordem explícita de sua parte. - Dirigindo-se para o intérprete e, mostrando com o beiço o gravador, pediu: - Faça essa máquina funcionar.
o outro obedeceu. Acendeu-se de novo o olho verde e os carretéis recomeçaram a rodar. O sargento apanhou o microfone e aproximou-o da boca do seu superior.
- Espero as suas ordens, tenente.
O oficial hesitou. Veio-lhe à mente a palavra kamikaze. Quando adolescente havia lido relatos sobre a Segunda Grande Guerra, e uma das coisas que mais o impressionavam eram as trágicas façanhas dos aviadores amarelos que, para não
errarem o alvo, atiravam-se com seus aviões carregados de bombas sobre os encouraçados inimigos e morriam no holocausto. Ele agora ia fazer um kamikaze moral. Gritou:
- Se necessário, pode usar a violência para arrancar do prisioneiro a confissão que vai salvar da morte pessoas inocentes...
Ia voltar as costas para o sargento, quando este tornou a falar.
- Não, tenente, é preciso ficar tudo documentado. Diga em voz alta e clara o seu nome e confirme a ordem.
O tenente fez aos berros o que o outro lhe pedia. Disse o seu nome, o seu posto, deu o seu número e repetiu:
- Se for necessário, pode torturar o prisioneiro! Sob a minha inteira responsabilidade!
Tremia da cabeça aos pés. Não era ele que tinha falado. Mas outro, um desconhecido, um impostor, um sósia infernal. Porque havia feito aquilo? Detestava a violência. Amava o prisioneiro. Amava K. Odiava o sargento e sua raça. Mas era
um kamikaze. Acabara de assinar a sua própria sentença de morte. Era tarde de mais para voltar atrás.

O sargento havia desligado o gravador e afastado a mesa. O tenente precipitou-se para fora da cela, batendo a porta atrás de si, e saiu a andar às tontas pelo corredor deserto. Mas não tão depressa que não pudesse ser alcançado por um grito humano horripilante, um urro de animal ferido de morte. Levou as mãos ao meio das pernas, encostou uma face na parede da galeria, depois tapou os ouvidos com os punhos.
Por alguns instantes ainda ouviu os gritos lancinantes do prisioneiro, entremeados das exclamações do sargento. Depois - quanto tempo? dois minutos? três? cinco? dez? - fez-se um grande silêncio.
Uma figura surgiu no fundo do corredor e aproximou-se do tenente, a passo acelerado. Era o capitão-médico, que exclamava:
- Suspendam o interrogatório! Foi encontrada a bomba!
O tenente olhou para ele, aparvalhado, como se não tivesse compreendido o sentido daquelas palavras. Enquanto ambos caminhavam na direção da cela, o doutor contou:
- Uma irmã do prisioneiro procurou um de nossos oficiais e confessou tudo espontaneamente para salvar a vida do rapaz... A bomba tinha sido colocada no dormitório de um colégio de moças... do outro lado do rio. Foi desmontada há poucos
minutos... o médico abriu a porta da masmorra e entrou. O tenente seguiu-o como um autómato. No primeiro relance nenhum dos dois viu o prisioneiro. O intérprete, cuja palidez esverdeada se havia acentuado, estava de pé a um canto, dobrado sobre si mesmo, vomitando...
Sentado à mesa e enxugando a cabeça com o blusão, o sargento olhava para algo que jazia no chão da cela. Era o prisioneiro. Estava completamente nu, as pernas abertas, os braços estendidos, como um crucificado. Nas gazes que lhe envolviam a coxa esquerda, via-se uma larga mancha de sangue. O tenente olhava do sargento para o intérprete, incapaz de pronunciar uma palavra. O médico ajoelhou-se ao pé do
prisioneiro e tomou-lhe o pulso. Depois testou-lhe o reflexo das pupilas. Apanhou o auscultador e encostou os fones no peito do nativo, procurando ouvir-lhe as batidas do coração.
Ao cabo de alguns instantes, ergueu a cabeça e disse:
- Este homem está morto.
O tenente sentiu um aperto de garganta. Seu coração disparou. Um suor frio começou a escorrer-lhe ao longo da espinha. Teria ouvido bem as palavras do doutor? O sargento olhava para o cadáver com indiferença.
- Tem certeza, doutor?
- Absoluta.
O médico examinava os escrotos do prisioneiro.
- Vejo sinais de tortura neste corpo - murmurou.
O homem tatuado ergueu o carretel de fita magnética que tinha numa das mãos e disse:
- Recebi ordens do tenente. A minha prova está aqui.
O doutor perguntou ao intérprete:
- o prisioneiro confessou?
O homem lívido passou as costas da mão pela boca e sacudiu a cabeça negativamente:
- Não. E eu quero lavar as mãos de tudo isso. Fui designado apenas como intérprete. Não cheguei a tocar o prisioneiro nem sequer com as pontas dos dedos. O sargento acercou-se do médico e pousou-lhe a manopla no ombro.
- Escute aqui, doutor. É necessário mesmo declarar que o rapaz foi... foi torturado? Ninguém lhe vai fazer perguntas. Ninguém sabe que houve um interrogatório. Pense bem, doutor, esse menino não poderia ter morrido simplesmente de um ataque cardíaco? Ninguém sabe quem é. Não tem nome. Não é ninguém. O médico ergueu-se e enfrentou o homenzarrão;
- No atestado de óbito direi a verdade.
O sargento agarrou-lhe o braço, mas o médico desvencilhou-se dele num safanão.
- Não me toque! - gritou. - E não imagine nem por um momento que me pode intimidar!
O sargento ficou vermelho e seus olhos fuzilaram. O tenente não teve coragem de encarar o doutor. Saiu da cela e se foi ao longo do corredor num ritmo de fuga, em
busca de ar livre.
A cidade pareceu-lhe apenas uma ampliação do cubículo de onde acabava de fugir. O mesmo calor sufocante, o mesmo ar viciado e espesso, a mesma sensação de confinamento irremediável.
Ficou a caminhar por alguns minutos pelas ruas desertas, sem destino certo, arrastando o peso do próprio corpo, incapaz de um pensamento lúcido.
Parou a uma esquina, sentindo a memória subitamente bloqueada. Como se chamava? Esquecera o próprio nome. Não tinha passado... Onde estava? Não sabia. Olhou em torno, desnorteado.

Sentou-se pesadamente no meio-fio, junto de um poste de iluminação, apoiou os cotovelos nos joelhos e escondeu as faces nas mãos espalmadas e ficou a buscar, aflito, na memória dolorida a identidade perdida. Vinha de longe um ribombar abafado como o de uma trovoada. Pensou na chuva. desejou-a: uma chuva que caísse do céu em torrentes, inundasse a cidade, lavasse aquele ar, formando uma correnteza que pudesse levar seu corpo... para onde? Para o mar. Viu um menino à beira de um grande rio, um barco movido a rodas, amarrado a um trapiche sobre o qual se amontoavam balas de algodão... Lembrava-se apagadamente da infância, tinha uma esmaecida ideia do lugar onde nascera e cujo nome lhe soava na mente como o de uma cidade de uma civilização, antiga e morta do Oriente, que ele associava a pirâmides... múmias... um porteiro de hotel...
A luz da lâmpada caía em cheio sobre seu corpo. Olhou demoradamente para as próprias botas, para as calças de um pano verde-oliva. Uniforme militar. Sim, era um soldado. Tirou de um dos bolsos seus papéis de identidade e ficou a examiná-los. Pareceram-lhe escritos numa língua estrangeira. Compreendeu que tinha um número... Era, acima de tudo, um número... Por fim descobriu os seus três nomes e ficou a pronunciá-los baixinho, muitas vezes, procurando neles a sua própria pessoa, seu passado... E, de repente, rompeu a chorar convulsivamente como uma criança, recostado ao poste, deixando que as lágrimas lhe escorressem em grossas bagas
pelo rosto, misturadas com o suor. Estendeu-se de costas sobre a calçada, sentindo o contato quente das pedras. Viu a Lua, alto, no céu. Se pudesse ao menos encostar a cara na Lua e refrigerar-se no seu gelo... Cerrou os olhos de pálpebras ferradas de dor. E aos poucos foi recuperando a identidade, fantasma a fantasma, horror a horror. Teve a esperança - que em breve se dissipou - de que todas as coisas passadas no cubículo de onde fugira fossem apenas elementos de um pesadelo.
De novo pesou-lhe no peito a culpa de ter sido responsável pela morte de um ser humano. Sentia ainda nas narinas o cheiro acre do suor do sargento, o bruto que o obrigara a pronunciar a sentença de morte do prisioneiro... E o homem tatuado guardava consigo a fita magnética onde aquelas palavras terríveis tinham ficado gravadas.

Ergueu-se devagarinho. Reconhecia agora a cidade. Descobria pontos de referência, podia orientar-se. Olhou o relógiopulseira: três e cinquenta e cinco. De que dia? Ocorreu-lhe então que dentro de menos de dez horas entraria no avião que o ia levar de volta à pátria. Sabia agora que talvez não pudesse embarcar mais como um homem livre, mas sim como um prisioneiro acusado de crime de homicídio. Caminhou até à beira do rio. Viu luzes mortiças dentro de algumas sampanas. Ouviu vozes, tosses, gemidos. Um gato miou, não muito longe. Acocorou-se à beira d'água, mergulhou nela o lenço e depois passou-o pela testa e pelo rosto, longamente. Por um instante ficou escutando o bombardeio distante. Ergueu-se e saiu a andar, na direção do mercado e finalmente entrou na grande avenida que costeava o rio. Pensava no gravador, no olho verde, nos carretéis rodando... Sua memória era uma fita magnética que registrara não só as vozes mas também as imagens e os odores daquelas horas horrendas, na cela. Pensou no prisioneiro caído sobre as lajes, morto, as pernas abertas, os escrotos esmigalhados...
Santo Deus! Como tinha sido capaz de permitir uma coisa daquelas? E tudo inútil! No momento mesmo em que o sargento torturava o prisioneiro, a bomba estava sendo desmontada pelos peritos do Exército.

Sentiu então uma solidão insuportável. Desejou uma presença humana e amiga. Mas quem? Quem? Passaram-lhe pela mente várias faces... A professora! Descobriu que não estava longe da casa dela. Umas três ou quatro quadras. Sim, podia procurar a professora. Mas àquela hora? Ah! Ela compreenderia depois que ele lhe contasse tudo. Precisava abrir-se com alguém, repartir com outra criatura de Deus o peso que lhe oprimia o coração. Avistou a torre de uma igreja, a silhueta da cruz contra o
céu. Foi então tomado de uma súbita esperança. Conhecia o pároco, com o qual uma vez trocara meia dúzia de palavras. Parecera-lhe que o velho falava razoavelmente a sua língua. Podia confessar-se a ele. Sim, porque não? Um alvoroço formigou-lhe no corpo. Ali estava a solução! O confessionário. A absolvição. A salvação. A paz. De olhos erguidos para a cruz da torre, continuou a andar, acelerando o passo... A residência paroquial, de fachada caiada e singela, ficava ao lado da igreja. Atravessou o jardim, inadvertidamente pisando em flores (o cemitério, a rosa do caminho, a libélula, o Sol) e bateu na porta da casa, primeiro timidamente, depois com mais força. Esperou. Não ouviu nenhuma resposta. Aproximou-se de uma das janelas e bateu na veneziana. Finalmente ouviu um pigarro, seguido de uma voz de
timbre agudo:
- Quem é?
O tenente repetiu o próprio nome três vezes, tentando falar a língua do pároco.
- Que é que deseja?
- Quero me confessar.
- A esta hora da noite?
- Por amor de Deus, padre! Tenha paciência comigo.
Preciso desesperadamente do seu auxílio. Misturava a língua do sacerdote com a própria, repetia as frases, confusamente.
- Está bem. Já vou.
O tenente sentou-se no degrau da porta. Pensava no pastor batista de sua infância. Que diria ele se o surpreendesse ali à entrada da casa de um sacerdote católico, a quem suplicara ouvisse a sua confissão? Seu pai e sua mãe também ficariam escandalizados. O ar estava embalsamado pelo odor das flores do jasmimmanga
que se erguia sereno ao pé da igreja. A porta se abriu, enquadrando o vulto escuro do pároco. O tenente ergueu-se e recuou alguns passos, ficando na parte do jardim que o luar clareava, como para que o velho pudesse identificá-lo melhor. O padre aproximou-se e examinou-o por alguns segundos.
- Eu o conheço?
- Acho que não se lembra de mim... mas nós nos falámos uma vez, faz algum tempo, numa dessas aldeias...
- Costuma vir à missa regularmente?
- Não.
O sacerdote mirou-o em silêncio. Era um homem baixo e franzino, de cabelos completamente brancos.
- É pelo menos católico?
- Não, sou batista.
- Não compreendo... não me disse há pouco que queria confessar-se?
- Sim, padre, quero. Preciso muito. Eu lhe suplico que não me negue essa graça.
Cruzaram o pequeno pátio que separava a casa paroquial da igreja. O padre entrou na sacristia para apanhar a estola e, sempre em silêncio, encaminhou-se depois para o recinto do templo. A luz do luar, tamisada pelos vitrais das estreitas janelas em ogiva, produzia naquele interior um lusco-fusco de madrugada que o pároco esconjurou, acendendo o grande lustre central, para maior desconforto do tenente, que o seguira. O sacerdote fez uma breve genuflexão diante do altar-mor e depois entrou no confessionário.
- Ajoelhe-se, meu filho - pediu ele. E sua voz ecoou estranhamente na igreja vazia.
O tenente obedeceu, tomado de um sentimento de culpa e quase vergonha, parecido com o que experimentara quando, menino, assistira a uma missa inteira, escondido atrás de uma coluna, num templo católico.
- Agora conte-me o seu problema - disse o padre em voz baixa, quase sussurrada. Seu hálito recendente a alho chegou às narinas do tenente.
- Padre, sou responsável pela morte de um homem.
- Quer dizer que... matou alguém?
- Sim, indiretamente.
- Quando aconteceu isso?
O tenente hesitou, procurando situar-se no tempo.
- Faz pouco mais de meia hora... ou uma hora, talvez... não sei ao certo.
Começou a contar a sua história desde o encontro com K., no quarto do Caravelle, até àquele instante.
- Por favor - pediu o sacerdote -, fale mais devagar e mais claro. Não conheço bem a sua língua. O tenente estava de olhos cerrados, ambas as mãos apoiando a testa, agora calado, como se tivesse esquecido a própria história. Ouviu um mal-abafado bocejo do pároco.
Sentia agora a presença das imagens dos santos em seus nichos, espiões que o espreitavam.
- Padre, eu tinha que procurar um alívio na confissão.
Contou seu passado mais remoto, sua condição de negro, seus remorsos. Quando de novo ficou em silêncio, o padre perguntou:
- O senhor acha que deu o consentimento para torturar o prisioneiro movido por um sentimento de vingança? Quis castigar o homem responsável pela morte da... mulher que amava?
- Não, padre! Desde o momento em que vi aquele pobre menino, tive piedade dele, identifiquei-me com ele, como se ele fosse meu irmão. Não houve nenhum ódio... o que houve... o que penso que houve foi uma terrível confusão de espírito... E a presença daquele homem grosseiro e brutal, esse sim, movido por um desejo de vingança. O que não consigo compreender, o que não me perdoo, é ter cedido à
sua pressão... Eu me pergunto se tive medo dele, medo físico. Mas não creio... Foi algo ainda pior, uma espécie de medo moral, se se pode dizer assim. Imaginei ver os pensamentos dele: "Esse negro é um poltrão, um fraco ... " E por outro lado...
Calou-se. Pareceu-lhe que o padre ressonava. Mas tornou a ouvir-lhe a voz:
- Continue.
- Por outro lado, eu não queria ficar com o remorso de não ter conseguido salvar a vida de pessoas inocentes... o comandante não me deixou alternativa. Não admitia que eu falhasse. Declarou que não faria perguntas... Me diga, padre, me diga se eu queria mesmo salvar aquelas vidas ou apenas agradar ao coronel branco... Estou confuso... não sei...
- Obteve a confissão desejada?
O tenente sacudiu a cabeça.
- Não. O rapaz resistiu a todas as brutalidades. Só abriu a boca para gritar de dor. E o mais estúpido, o mais grotesco é que o sacrifício do prisioneiro foi inútil. Uma irmã sua confessou espontaneamente onde ele havia colocado a bomba... Estava por explodir no dormitório de um colégio de moças... não me lembro em que parte da cidade... Veja, padre, quando autorizei o emprego da tortura eu estava, por assim
dizer, tratando de salvar a vida dessas meninas... Ou estou errado, padre? Por amor de Deus, me esclareça. Sou um assassino?
- Não me cabe julgar.
- Cometi um pecado mortal?
O sacerdote pigarreou e por alguns segundos guardou silêncio. Depois, falando lentamente, escolhendo as palavras, murmurou:
- Meu filho... todos os homens são mortais. As moças cujas vidas a explosão da bomba poderia destruir, mais tarde ou mais cedo tinham de morrer. É uma lei divina. Sua intenção de salvá-las da aniquilação física, tenente, foi muito louvável, ninguém discutirá isso. - De novo calou-se, tornou a pigarrear, pareceu buscar penosamente as palavras. - Estou pensando nas ideias pragmáticas de seu comandante.
Superficialmente estão certas. Mas... mas a aritmética de Deus é diferente da dos homens. Para principiar, as almas não têm números nem nomes do arquivo do Todo-Poderoso. Os homens possuem um espírito... uma dignidade, uma integridade e você, meu filho, desrespeitou a dignidade daquela criatura do Senhor... permitindo que ela fosse torturada, vilipendiada... tratada como um objeto sem alma. Ferindo o prisioneiro, você feriu também Deus.
- Mas estou arrependido, padre!
- Está mesmo arrependido, profundamente contrito ou apenas diz isso porque deseja que eu lhe dê a absolvição para aliviá-lo de um insuportável peso de culpa?
- Juro, juro por Deus que estou arrependido! - exclamou o tenente num assomo agressivo.
- Não grite. Deus tem bons ouvidos. - Houve então um silêncio que pareceu mais um súbito vácuo. Alho no hálito do padre. A dureza dos bancos sob os joelhos. A sua canseira. Um desalento, uma sensação de que nada, nada no mundo fazia
sentido.
- Deus deve ter bons olhos também - retrucou o tenente.
- Mas às vezes desconfio que Ele perdeu a memória.
- Não blasfeme, meu filho.
Ele começava a sentir no padre um inimigo. Pior que isso: um estranho, indiferente à sua sorte. Um estrangeiro branco, de olhos azuis, sotaque carregado. Entre ambos não haveria nenhuma possibilidade de comunicação.
Sentiu um absurdo desejo de agredir o outro, o seu Deus e a sua religião.
- Padre... Deus deve ser branco e racista.
- Cale-se! Respeite este templo. - Havia uma ponta de rancor na voz do sacerdote. - Você devia ser mais humilde. Veio aqui em busca de alívio e perdão e no entanto está a dizer tolices e irreverências.
O tenente ergueu-se.
- Não preciso do seu perdão. Nem da sua Igreja. Nem do seu Deus.
Precipitou-se para a porta. Poucos minutos depois estava na rua, caminhando de novo sem direcção certa. Do céu a Lua o seguia como o olho plácido mas implacável do Deus que ele acabava de repudiar.
Cinco minutos mais tarde estava sentado numa sala, na presença da professora. Passara pela frente da casa e, vendo duas janelas iluminadas, batera à porta, levado por um impulso. Sua amiga não parecera surpreendida por vê-lo àquela hora e naquele estado. Convidara-o logo a entrar. Agora ele nem ousava encará-la, inibido por um constrangimento que lhe trancava as palavras na garganta. De cabeça baixa, examinava com meia atenção o desenho do tapete que tinha a seus pés, e que lhe lembrava vagamente - as futilidades da memória!- certa gravura colorida de uma enciclopédia que ele consultara, havia anos, para fazer uma dissertação ginasial sobre a arte da tapeçaria. A professora vestia um ao-dai de gaze azul por cima do pijama branco. Seus pés estavam metidos em chinelos. Que direito tinha ele de violar a intimidade daquela mulher?
- Peço-lhe que me perdoe. Eu ia passando... Não resisti ao desejo de vê-la.
- Está bem. Não se explique, não é necessário. Fique à vontade.
Ela se sentou junto do sofá, na poltrona sobre um de cujos braços jazia um livro fechado, com uma das páginas marcadas por um corta-papel de marfim. Passou os dedos de leve pelo dorso do volume.
- Perdi o sono e vim para aqui ler. Deve ser o calor, o peso da noite...
Pouco alívio lhes vinha do pequeno ventilador que rodava e zumbia em cima da mesinha, na frente do sofá. Sem erguer os olhos, ele começou a narrar os acontecimentos daquelas últimas quatro horas, minuciosamente, sem pausa,
compulsivamente... E sentia que a história que contava à amiga já diferia da confissão que fizera ao pároco, havia pouco.
A professora escutou-o em silêncio. E quando ele fez uma pausa, ainda calada, ela acendeu um cigarro e pôs-se a fumar, pensativa.
- Agora me diga - suplicou ele -, me diga com toda a franqueza, sem medo - de me ferir, - o que pensa de tudo isso. Estou confuso... Há momentos em que me sinto um
criminoso, culpado pela tortura e pela morte de um ser humano. Noutros...
Calou-se, como engasgado.
- Culpado, criminoso... São termos legais e teológicos.
E a lei, como a Teologia, é uma invenção dos homens. Estamos outra vez tropeçando em palavras. Mas a verdade é que jamais nos livraremos de sua tirania. Nem da nossa teologia ou da nossa mitologia particular. Eu prefiro dizer, sinceramente,
que você é, antes de mais nada, uma vítima da engrenagem. E que é preciso desmanchar essa engrenagem e recomeçar tudo sobre bases novas. É um trabalho para séculos, mas alguém em alguma parte um dia tem de começar... O que eu penso, em termos práticos, é que neste momento você não se encontra em condições psicológicas para chegar a uma conclusão lógica sobre a situação...

Ele ergueu a cabeça e ficou de olhos piscos, como se a claridade o ofuscasse. A professora ergueu-se e apagou a luz do lustre, deixando só a da lâmpada que caía direta sobre a sua poltrona. Depois saiu da sala e voltou alguns minutos mais tarde, trazendo, dobrada sobre um dos braços, uma toalha, e, segura por ambas as mãos, uma bandeja com um jarro de limonada gelada e um pequeno balde metálico com cubos de gelo.
- Você deve estar com sede.
Deu-lhe um copo grande cheio de refresco, do qual ele bebeu avidamente, esvaziando-o. A professora apontou para o sofá.
- Agora deite-se ali. Ponha a cabeça na almofada. Não é necessário tirar as botas. Coloque os pés em cima desse jornal.
Ele levou alguns segundos para compreender aquele convite... ou ordem? Por fim, fez o que a amiga lhe dissera.
- Trate de relaxar esse corpo. Tente não pensar mais no seu problema. Pelo menos esta noite.
Ela pegou a toalha e, ajoelhando-se junto do sofá, começou a enxugar a testa e o rosto do amigo. Ele cerrou os olhos.
Sentiu depois o contacto do cubo de gelo que ela lhe passava pelas faces. Ela tinha trazido um pedaço da Lua para junto da sua pele. Ela era a boa. Sua única amiga...
- E a cabeça, dói?
- Um pouco.
- Tome esta aspirina.
Ele abriu os olhos, meteu na boca o comprimido, soergueu-se e aproximou os lábios do copo que a professora tinha na mão, para beber um gole de limonada, e enquanto ele fazia isso, ela punha a mão em sua nuca para amparar-lhe a cabeça, bem como costumava fazer a sua mãe quando ele era menino e ardia em febre na cama.
Tornou a estender-se no sofá e a fechar os olhos. De novo a amiga trouxe a Lua para a sua face. Ele sentia um alívio, um refrigério. Era a única, amiga que tinha no mundo. A imagem da própria esposa passou-lhe pela mente como a fotografia de
uma pessoa vagamente conhecida que vimos um dia, numa revista, num relance... o perfume que vinha do corpo daquela mulher era como uma aura do paraíso. Mas que direito tinha ele à bondade dela?
- Estou ainda constrangido por ter entrado aqui a esta hora - balbuciou, sem abrir os olhos, pois era-lhe mais fácil falar sem vê-la.
- Não se preocupe. Os amigos não se pedem desculpas. Nunca. Ou então não são amigos.
- Você é tão bondosa, tão... tão...
- Por favor, não me endeuse. Não tente me convencer de que sou boa. Não sou. às vezes até acho que sou dura de mais. Se não fosse, não teria sobrevivido. Seja duro também, especialmente numa circunstância como esta em que, mais que nunca, você precisa de si mesmo.
- Eu sei, eu sei, mas estou confuso. Seja franca, acha que sou um criminoso?
- Você se sente com inclinações assassinas? A ideia da tortura do terrorista lhe causou algum prazer?
- Não, ao contrário!
- Pois então fique tranquilo. E aprenda a viver sem a aprovação dos outros. Contente-se com a própria.
- Estou certo de que não aprovo o que fiz.
- Está bem. Mas no estado em que se encontra, acho que devia transferir para outro dia o exame do problema. Escute...
Estou pensando num aspecto da questão que você talvez não tenha considerado.
- Qual?
- Preste atenção. Se o prisioneiro tivesse sobrevivido, seria fatalmente entregue às autoridades locais e fuzilado pelo crime de haver colocado uma bomba num internato em que podia matar dez... quinze... vinte meninas... e também por sua responsabilidade na explosão do Café Caravelle.
Ela fez uma pausa.
- Pense nas outras bombas - continuou - milhões de vezes mais poderosas que essa engenhoca dos terroristas que era provavelmente de fabricação doméstica...
O tenente abriu os olhos e fitou-os na amiga.
- Que bombas?
- Neste momento as maiores cidades do mundo, tanto do oriental como do ocidental, estão correndo o risco de serem completamente destruídas. Cada uma delas tem no arsenal inimigo uma bomba com o seu nome escrito nos costados. Basta que um sujeito aperte num botão...
- Compreendo...
- Um chefe de Estado, reunido ao redor de uma mesa com o seu Gabinete e os generais do Estado-Maior de seu Exército, bebendo café, chá, vodka ou bourbon, pode decidir tranquilamente que seus técnicos devem apertar nesse terrível botão e desencadear a hecatombe. E então tudo irá pelos ares, colégios, igrejas, hospitais, museus, pontes, jardins... E isso talvez signifique a extinção da raça humana. Ele refletia... A professora passava-lhe de novo a toalha pelo rosto.
- O que quero dizer é que ninguém parece estar muito alarmado com essa possibilidade pavorosa, isto é, num grau proporcional ao estardalhaço que se faz por causa de bombas como as que explodiram esta noite e em outras. Não preciso dizer que não justifico de maneira nenhuma o terrorismo, sejam quais forem os seus motivos e objetivos... o que estou sugerindo é que vivemos sob o terrorismo generalizado e permanente, e que a nossa vida e a nossa morte dependem de um
punhado de "terroristas" que operam sob os mais variados "disfarces"... Defensores da Civilização Ocidental... da Cultura... do Proletariado... da Fé Cristã... da Liberdade... do Comunismo Internacional, etc...

Se essas bombas explodirem, eles não serão considerados criminosos simplesmente porque não sobrarão juizes nem tribunais para os julgar e responsabilizar... Porque tudo terá sido destruído, inclusive a teologia, a filosofia, as ideologias... e os
apetites econômicos e políticos que inspiraram o gesto fatal... Ele já se sentia melhor, embora persistisse o peso na cabeça. Pediu à professora que apagasse a luz, e ela lhe fez a vontade.
- Juro que amei aquele rapaz desde o momento em que o vi - murmurou o tenente - como se ele fosse do meu sangue, meu irmão menor. Senti pelo prisioneiro uma empatia tão grande, que quando ele estava sendo... torturado, no corredor, sem
vê-lo, cheguei a sentir as suas dores no meu próprio corpo... Eu sabia a espécie de tortura que o sargento lhe estava infligindo... esmagava o símbolo da masculinidade do rapaz.
Creio que cheguei a gritar.
- Você se sentiu então castrado fisicamente pelo sargento que antes, dentro da cela, o havia castrado moralmente, não é certo?
- E o que me desespera é que hoje falhei mais de uma vez como homem. Com K. no quarto, por cima do Café... Na cela, diante do prisioneiro, deixando-me dominar pelo sargento... Mais uma vez me encolhi, medroso, e fugi diante do homem branco...
Lembra-se da história da minha infância, quando meu pai foi atacado na rua por três brutamontes? Por favor, diga-me o que pensa de tudo isso!
- O que eu penso ou deixo de pensar não devia ter importância para você. Vamos nos separar talvez para sempre dentro de poucas horas. O essencial é o que você pensa de si mesmo.
O tenente rebolcou-se no sofá e ficou deitado de bruços. - O médico vai me denunciar... Serei levado a conselho de guerra. Ou entregue à justiça civil, quando voltar para a minha terra.
Levantou-se, caminhou pela sala de um lado para outro, de novo tomado de uma grande angústia, e depois deixou-se cair no sofá. A professora sentou-se a seu lado.
- Não estou muito certa disso. Algum correspondente de guerra teve conhecimento desse interrogatório?
- Não creio, mas de um modo ou de outro a imprensa não tardará a saber... e naturalmente pedirá a minha cabeça.
- O coronel não lhe prometeu que não faria perguntas? O maior não lhe garantiu sob palavra que hoje ao meio-dia você estaria a bordo do avião que o levará para casa?
O tenente encolheu os ombros.
- Se forem pressionados, ambos tratarão de salvar a honra do Exército e a própria. Não hesitarão em me sacrificar. Não tenho testemunha do que esses dois oficiais me disseram. Mas o sargento, esse guarda consigo a fita magnética em que minhas palavras comprometedoras ficaram gravadas.
Como única resposta a professora teve um gesto que ele não esperava: fê-lo pousar a cabeça no seu regaço. Nos primeiros instantes ele ficou contrafeito e tenso. Ela continuou a falar com a maior naturalidade:
- No momento não há palavra ou gesto seu que possa mudar a situação. O importante é conservar a cabeça fria e clara, os nervos controlados. O Sol de cada dia sempre traz uma luz nova. Trate de dormir um pouco, depois tome uma ducha, faça as malas, espere a hora de embarcar... e embarque!
- Para a outra frente de batalha?
- Seja para onde for. Mais tarde ou mais cedo você terá que tomar uma posição. Nestes nossos tempos, a neutralidade não é possível. Não existem mais esconderijos físicos ou psicológicos no mundo. É a hora do compromisso.
- E se eu for levado a júri como responsável pela morte do prisioneiro?
- Lute. Defenda-se.
- Mas será que em minha terra um negro pode esperar um
julgamento imparcial?
- Seja como for, defenda-se, lute, lute! Se não lutar é porque pensa que merece mesmo castigo, e nesse caso nem a sua absolvição unânime por todos os tribunais do mundo o livrará jamais do sentimento de culpa. Mas mesmo que se sinta culpado, defenda-se, reaja. Você tem ainda muita vida e mundo pela frente, muito tempo para espantar os seus fantasmas e ficar adulto definitivamente.
Fez-se um silêncio. E então - de propósito ou num gesto distraído? - a professora começou a acariciar-lhe os cabelos com os dedos, um dos quais em certo momento lhe tocou a orelha, produzindo-lhe uma cócega. Ele teve então consciência de que sua cabeça estava aninhada sobre o vale do sexo daquela mulher. Seu corpo ressuscitou para uma sensibilidade que não era a da dor. Um calor, que não vinha da atmosfera
ambiente, lhe acendeu a carne, e a sua virilidade despertada enrijou-se, agressiva, com tanta força que ele dobrou automaticamente as pernas para esconder aquela vergonha.

Ficou a respirar arquejante, a boca entreaberta, o sangue a pulsar-lhe forte. Temia e ao mesmo tempo desejava que ela notasse o que se passava com ele, embora tudo aquilo lhe parecesse estúpido, insensato. Ali! A maciez daquelas coxas contra sua face! Era melhor erguer-se, correr para a porta, fugir para sempre... Mas em vez disso ele meteu mais fundo a cabeça naquele recôncavo cálido e palpitante. E a sua mão, como se recebesse uma ordem que vinha do sexo e não da cabeça, agarrou a perna da amiga. Sentiu imediatamente a reação dela: um retesamento de músculos. Esperou que ela o esbofeteasse - sim, ele era um canalha, merecia, merecia ser esbofeteado -, mas os dedos dela lhe apertaram com força a orelha, como a transmitir-lhe o recado de sua aquiescência.
- Ó Deus! Ó Deus! Não permitas que isto aconteça! - e sua mão, impelida por uma força cega que ele não podia e já nem mesmo queria dominar, subiu por aquela perna, apertou-lhe o joelho, o princípio da coxa, por cima da seda do pijama, e dentro de um instante - como? como? como? - num silêncio ofegante estava em cima dela no sofá, a mexer-lhe nas roupas e depois a procurar com seu sexo o sexo dela. E quando o achou, foi como se descobrisse a porta de sua salvação, da sua libertação, da vida eterna... Segurando-a pelos ombros começou a fazer os movimentos do amor, procurando-lhe a boca, que ela lhe negava. Os braços da mulher continuavam caídos, o esquerdo ao longo da borda do sofá, e o direito estendido ao lado do corpo. E então, ansiado, ele descobriu, na sua confusão, que queria fazer-se pequeno e entrar inteiro naquela fêmea, e ficar quieto, escondido, protegido para sempre e sempre dentro de seu útero...

Por fim foi sacudido por um orgasmo sem prazer, como um doloroso esvair-se em
sangue, uma espécie de morte convulsiva... Ela espalmou ambas as mãos no peito dele e empurrou-o. Ele se deixou cair pesadamente no chão e ali ficou a respirar com dificuldade, as mãos cobrindo as faces. Depois ergueu-se, acercou-se da janela, olhou para a noite, mas sem vê-la, e desejou sumir. Vieram-lhe à mente os repugnantes soldadinhos amarelos que se haviam revezado sobre o corpo da menina, chupando os dentes de prazer.
- Perdão... - murmurou ele. - Não... não sei como foi... que isto aconteceu.
A voz da amiga soou tranquila às suas costas.
- Não fale, por favor. Não se explique.
- Mas eu... - insistiu ele, sem coragem de voltar-se.
- Agora pode ir embora - disse ela com uma firmeza sem rancor. - Não há mais nada, nada mesmo, que eu possa fazer por você.
Ele se encaminhou para a porta sem ânimo de olhar para trás. Ao entrar no saguão do hotel, esperou que os soldados que montavam guarda à porta central o prendessem, mas eles limitaram-se a lançar um olhar de morna e passageira
curiosidade para seus documentos de identidade. Os ponteiros do relógio de parede que estava por cima da porta do refeitório, marcavam quatro horas e cinquenta minutos.

O tenente aproximou-se do balcão da portaria e, dirigindo-se a um vulto em cujas feições não atentou, pediu-lhe a chave do quarto.
- Ah! O senhor tenente! - exclamou o velho porteiro, mostrando a dentadura. - Sente alguma coisa? Muito pálido... Cansado, não? Um conselho... Vá deitar-se ligeiro... pés voltados para o sul... quietinho. Hoje dia não-auspicioso.
O tenente apanhou a sua chave, entrou no elevador e levou algum tempo para discernir e apertar o botão sob o número cinco. A gaiola começou a subir, lenta.
No quinto andar a perspectiva do corredor evocou-lhe a "catacumba" com tamanha intensidade, que, estonteado, ele perdeu o equilíbrio e teve de recostar-se numa das paredes, sentindo a iminência de uma dor entre as pernas.
Retomou a marcha na direção de seu quarto. Um risco luminoso sublinhava a porta dos aposentos do capitão-médico. Estacou. Hesitou um instante antes de bater. De dentro veio uma voz: "Entre!"
Entrou. O médico estava sentado à escrivaninha, debruçado sobre um livro. Vestia apenas as calças do pijama e estava descalço. Por suas costas de pele sardenta, muito branca e de poros abertos, o suor escorria.
- Sente-se, tenente - disse ele sem voltar a cabeça nem erguer os olhos do livro.
O outro sentou-se.
- Sabia que eu vinha?
- Tinha quase a certeza...
- Naturalmente me reconheceu pelo cheiro do suor - pensou o tenente num desconforto. - Sei que a hora é imprópria...
- Para um médico não existem horas impróprias.
O tenente sentiu um elemento de hostilidade na maneira como o outro pronunciara aquelas palavras. Estudou o perfil do capitão, que ainda não havia olhado para ele. O homem tinha uma cabeça volumosa, testa olímpica, cabelos ruivos e crespos, óculos no nariz adunco. Um intelectual judeu típico - pensou. Não podia deixar de admitir para si mesmo que alimentava uma certa má vontade para com os judeus. Tentava
reagir contra esse preconceito absurdo, mas os motivos mitológicos e folclóricos de seu anti-semitismo estavam entranhados nele, vinham da infância e da adolescência.
Ecoavam-lhe na memória vozes dos guetos negros de seu passado: "Aquele judeu safado da casa de móveis me logrou." - "já está aí de novo o judeu da prestação." - "Raça maldita! Assassinos de Cristo!"
O doutor fechou o livro.
- Em que posso servi-lo?
Esta pergunta, que devia conter um oferecimento de auxílio, já trazia, em seu âmago, denunciado pela entonação em que fora feita, o germe de uma negativa.
- Para ser franco... nem sei bem porque entrei aqui. O outro voltou-se para ele e ambos ficaram a entreolhar-se em silêncio.
- Acho, doutor, que o senhor bem pode imaginar o meu estado de espírito depois... depois do que aconteceu. O médico ergueu-se, tirou um cigarro do maço que estava em cima da escrivaninha, levou-o à boca e acendeu-o.
- Espero que não tenha vindo aqui para me pedir que não revele no meu relatório que o prisioneiro foi torturado.
O tenente sacudiu a cabeça negativamente.
- Mesmo que eu quisesse fazer vista grossa - continuou o médico - e não quero, note bem, não quero... a verdade acabaria por ser conhecida, pois neste momento o corpo do prisioneiro está sendo submetido a uma necropsia.
- Não tenho o direito de lhe pedir nada, doutor. O senhor fará o que sua consciência lhe ditar. Mas eu queria... queria ao menos que soubesse as circunstâncias em que as
coisas se passaram.
- Estou informado de tudo. Conversei longamente com o intérprete. Não tenho motivos para duvidar da validade do depoimento dele.
- O que eu quero mesmo lhe dizer... é que não sou nenhum assassino.
- Todos somos assassinos, por comissão ou omissão.
Encurvado, a cabeça baixa, o tenente olhava obsessivamente para os pés nus do outro, de um branco rosado, as unhas grossas e pardacentas, um calo num dos dedos
grandes. - Foi num momento de exasperação... de confusão de espírito... de desespero que dei aquela ordem. Pensei nas pessoas que a explosão da bomba ia matar... nas crianças - improvisou -, sim, principalmente nas crianças. Tenho: um
filho... Fui obrigado a escolher (se é que meu estado de espírito me permitia raciocinar) entre me desgraçar, ordenando a tortura de um ser humano, e arcar pelo resto da vida com o remorso de não ter conseguido evitar a morte de tanta gente.
- E não é irônico que a bomba tenha sido descoberta só porque uma menina veio dos arrozais voluntariamente e revelou seu esconderijo, para salvar a vida de seu irmão... que àquela hora provavelmente já estava morto?
O tenente ergueu-se, num assomo de cólera.
- Mas eu não dei ordem para matar o rapaz! Consenti apenas em que o sargento aplicasse... o seu método.
- Eu lhe disse três vezes que o estado do coração do prisioneiro era péssimo.
Encararam-se com rancor.
- Mas que teria feito você no meu lugar? Me diga! Me diga!
- Não teria aceito a incumbência de interrogar o terrorista.
- Mas foi uma ordem superior! Não me restava outra alternativa. Seria preso, se não obedecesse...
- E isso não teria sido melhor para você?
O tenente tornou a sentar-se. Imagens passaram-lhe rápidas pela mente, misturadas, superpostas. K. A professora. O prisioneiro. A suicida da manhã. Teve a impressão de que ele destruíra, torturara, violara aquelas quatro criaturas. Talvez merecesse mesmo ser condenado. Mas não estava em condições de pensar com clareza... o melhor era ir para o quarto, deitar-se, procurar esquecer, dormir... Ou meter uma bala na cabeça e acabar com tudo de uma vez!
Continuou a olhar para os pés do doutor, que agora se moviam na sua direção. Queira Deus - pensou o tenente -, queira Deus que esse homem não me ponha a mão no ombro, que eu não poderei suportar seu contato. O outro, porém, limitou-se a mostrar-lhe o pulso esquerdo, onde se via um número tatuado - 12.345.
- Eu seria a última pessoa no mundo a tolerar ou justificar, mesmo academicamente, a tortura... - disse o médico. - Você conhece a minha história?
- Não. Porque havia de conhecer?
- Mas sabe que sou judeu, não sabe?
O tenente hesitou por um segundo, como se o outro lhe houvesse perguntado: "Sabe que sou leproso?"
- Sei.
- Pois bem. Aos catorze anos me levaram para um campo de concentração com toda a minha família: mãe, pai, um irmão mais velho que eu, e outro de apenas dois anos de idade...
- Acho desnecessário dizer-lhe que sou negro. Nós também conhecemos as humilhações dos guetos.
- Ah, tenente! Não queira comparar... Nosso caso foi mil vezes pior, talvez o mais horrendo e insensato pesadelo da História, Temos sido, durante milênios, os bodes expiatórios da Humanidade.

Não entrei aqui para discutir o problema hebreu - pensou o tenente, remexendo-se na sua cadeira, consciente agora de que sua dor de cabeça se agravava. O outro caminhava na sua frente, de um lado para outro, e falava, de fronte alçada, como se estivesse dando uma aula. O tenente seguia, fascinado, aqueles pés nus.
- Jamais esquecerei o dia em que os guardas reuniram no pátio murado todos os meninos do campo, entre doze e quinze anos, e nos fizeram formar, completamente despidos, para responder à chamada. Ordenaram-nos aos berros que nos perfilhássemos como soldados. As bestas nazistas nos disseram então as mais sórdidas chacotas, nos chamaram de judeus sujos e se riam, como se riam! Enquanto tremíamos de frio e de medo, aqueles porcos estavam abrigados pelos seus capotes, as suas botas, as suas luvas...
O médico aproximou-se da janela e ali ficou a olhar para fora. Só então o tenente percebeu que o canhoneio havia cessado. Olhou o seu relógio-pulseira e pensou: o dia em breve vai nascer.
- Mas isso foi apenas o princípio - prosseguiu o outro. - O pior estava ainda por vir. Éramos milhares naquele campo... Vivíamos como animais, subalimentados, com roupas insuficientes, no meio da sujeira e do fedor... Tenente, quantas pessoas terão tido como eu o "privilégio" de conhecer aos catorze anos, veja bem, catorze anos, todas as misérias, brutalidades e vilezas de que é capaz um ser humano - Atirou
o cigarro fora, pela janela. - Foi a minha educação sentimental. Meu pai e minha mãe passavam o tempo a rezar, confiando em Deus. Jamais desesperaram. Mas nem todos eram assim. Às vezes um dos internados tinha acessos de loucura. Um dia vi um homem precipitar-se desatinado sobre a cerca de arame farpado que circundava o campo, e pela qual passava uma corrente elétrica de alta voltagem. Esse não foi o único suicídio. Houve outros... Muita gente morria também durante os trabalhos forçados ou servindo de cobaias para experiências pseudocientíficas...
- Porque terei de ouvir toda essa conversa? - perguntava-se o tenente a si mesmo. Pensava em erguer-se e ir embora, mas uma força misteriosa o prendia àquela cadeira, e seus olhos continuavam fixos nos pés do homem do pulso tatuado.
- o comandante do campo era um coronel com veleidades artísticas e dotado de um senso de humor negro, Descobriu entre os internados gente que tocava instrumentos musicais e mandou organizar uma banda... Violinos, bandolins, cordeonas, guitarras... Obrigava os músicos a tocarem para acompanhar os condenados quando estes caminhavam para as câmaras de gás. E como aquelas bestas nazistas riam dessas procissões trágicas!

Foi ao som de uma marcha... (como poderei jamais esquecer a melodia?) que vi minha mãe com meu irmão menor nos braços, arrastar-se para a câmara letal, junto com outras mulheres, todas completamente nuas, sob as gargalhadas dos carrascos... Dias depois, meu pai teve de cavar com outros prisioneiros a vala comum onde iam ser enterrados. Fomos todos convocados obrigatoriamente para assistir à cerimônia. Os condenados foram alinhados à beira da cova e assassinados cada um com uma bala na nuca. Pensei em fechar os olhos... mas conservei-os
abertos. Meu pai voltou a cabeça e eu compreendi que ele me procurava no meio da multidão. Não me viu. Eu quis gritar-lhe alguma coisa mas a voz me ficou trancada na garganta. Vi quando um daqueles animais lhe meteu uma bala na nuca, e ele
tombou...
- Está bem! Está bem!
- Não, tenente, quero que compreenda bem porque não posso tolerar a violência. Vi muita gente do nosso campo torturada, humilhada. Meu irmão foi um deles... E um dia um porco nazista, à ponta de baioneta, obrigou um rabino, um ancião respeitável, a limpar com as barbas e a língua as imundícies de uma latrina. Você já viu um homem vilipendiado, mas viu mesmo?
- Está claro que vi! Já lhe disse que sou negro. Quando menino, eu estava presente quando o meu pai foi atacado e espancado na rua por três homens brancos. No dia seguinte ele se enforcou. Vocês, judeus, não têm o monopólio do sofrimento no mundo!

Como se não tivesse ouvido estas palavras, o médico sentou-se, apanhou outro cigarro e acendeu-o.
- Fui salvo por um milagre. Um velho que tomou conta de mim, depois que meus pais morreram, me escondeu na hora em que nos buscavam para entrar na câmara da morte. Dias depois chegaram as tropas aliadas, fui libertado com os sobreviventes do campo e mais tarde mandado para o seu país, tenente, onde tinha um parente que me reclamou. Foram necessários muitos anos de tratamento psiquiátrico para eu voltar a ser uma pessoa normal... se é que sou normal... ou se existe normalidade no mundo. Depois comecei a ler artigos e livros sobre as atrocidades nos campos de concentração nazistas... Procurava identificar as caras nas fotografias do campo em
que havia estado, na esperança louca de rever as faces da minha mãe, do meu pai, de meus irmãos, e a minha própria. Continuei a alimentar assim o meu ódio, um ódio que passou a ser a minha razão de viver. Detestava a raça que nos torturou... a sua língua, a sua cultura... tudo! Depois cheguei à conclusão de que ninguém pode passar a vida odiando com essa intensidade e ao mesmo tempo preservar o seu
equilíbrio mental. Fiz um prolongado tratamento psicanalítico. Procurei também o consolo da religião. O rabino que me instruiu me aconselhou o perdão, o esquecimento... Ora, esquecer não depende de nossa vontade. E o perdão, estou convencido, precisa ser mais que uma palavra...
Ergueu-se, foi até ao quarto de banho e voltou de lá segundos depois com uma toalha molhada, que começou a passar pelo peito.
- Formei-me em Medicina, escolhi uma profissão que é a negação mesma do assassínio. Adotei a nacionalidade do país que me acolheu. Evitei o casamento. Tive medo de ter filhos, porque eles seriam judeus como eu, e jamais pude esquecer aquelas crianças que vi no campo, esqueléticas de fome, roxas de frio ou mortas, deformadas, vítimas das "experiências" de um médico louco.
Porque não podia encarar o judeu? - perguntava-se o tenente. Porque insistia em olhar com aquela intensidade malévola para os pés dele?
- O tempo contribuiu para esmaecer um pouco todas essas lembranças sombrias. Tentei muitas vezes perdoar, como me aconselhou o rabino. Mas a dificuldade é que não consegui ainda perdoar-me a mim mesmo por ter sobrevivido. Essa ideia me perturbava e ainda perturba. Porque Deus, dentre todos os membros da minha família, escolheu a mim para poupar? Meu pai era um bom homem. Minha mãe, uma santa. Meu irmão mais velho, muito mais inteligente e melhor que eu. O meu irmão menor, um inocente. Porque foi que Deus me preservou? Será que me reservava alguma missão especial? Se tal é o caso, que missão é essa?
O tenente teve ímpetos de exclamar: "Pergunte a Ele! Foram vocês que inventaram esse Deus." Mas continuou calado. Notava agora que havia uma cicatriz no peito do pé esquerdo do outro.
- Se você me perguntar porque me apresentei voluntário ao Exército e pedi que me mandassem para cá, eu lhe poderia dizer (mas isso seria apenas parte da verdade) que eu quero ajudar os outros a viver, curar suas feridas, aliviar suas dores, sem olhar raça, credo religioso ou partido político. Mas, bem no fundo, desconfio que eu quero mesmo é expor-me aos perigos de ser morto em combate. Veja bem, tenente,
procuro dar a Deus mais uma oportunidade para verificar se é a mim mesmo que Ele quer poupar.
- Todas essas coisas que você contou se passaram há vinte anos.

O médico deixou a toalha cair no chão. Sem levar em conta a interrupção, prosseguiu:
- Você há pouco pôs o seu problema em termos de meios e fins. Eu não aceito a ideia de que os fins justificam os meios. O cão danado que era o chefe dos nazistas aceitava esse princípio. O mesmo acontecia com o sinistro ditador comunista. Um invocava como objetivo sagrado a defesa da raça ariana, que era um mito, uma mentira, o outro achava que todos os meios eram bons para promover a socialização do mundo. Pense nos milhões de criaturas humanas que morreram, perderam a liberdade e foram vítimas de atrocidades e injustiças por causa dessas falácias...
O tenente pôs-se de pé.
- Não vim aqui para discutir política ou filosofia.
- Para que veio, então?
- Não sei. Nem quero saber.
- Mas espere, tenente, você vai embarcar de volta à pátria dentro de poucas horas. Nossos caminhos se separam aqui e agora. Quero terminar meu argumento. Naquela cela subterrânea, havia uma pessoa viva de carne, osso, sangue, nervos... dotada de uma alma. Era lícito mandar torturá-la para salvar... uma abstração? Sim, tenente, os ditadores que mencionei costumavam falar nessa dupla abstração que é a
Humanidade do Futuro. Quem eram as pessoas que a bomba ia destruir? Naquele momento em que o prisioneiro ficou à sua mercê, tenente, não passavam de abstrações, hipóteses. E quem lhe garantia a existência real da segunda bomba? Não
podia ter sido tudo pura invenção vingativa do terrorista moribundo?
- Mas ficou provado que era uma realidade.
- O que não altera o raciocínio que acabei de expor.
O tenente encarou o interlocutor e sentiu que o detestava.
- Você quer se vingar em mim do mal que lhe fizeram os nazistas.
- Absurdo! Você não compreendeu nada do que eu lhe disse.
- Agora sou eu o seu bode expiatório.
Os olhos cor de âmbar do homem de pulso tatuado o fitavam. O tenente tornou a falar:
- A verdade é que vocês, os judeus da minha terra, não são diferentes dos brancos cristãos: também detestam e discriminam os negros!
- E os negros, por sua vez, não nos suportam! Quando vi você, farejei logo um anti-semita.

Ficaram a medir-se num desafio. Foi nesse momento de tensão que a campainha do telefone soou. O tenente estremeceu. (Devem estar me procurando.) O médico acercou-se da mesa e apanhou o fone.
- Alô! Sim, é ele mesmo. Que é que há? - Ficou a escutar, de cenho franzido. A voz que vinha do outro lado do fio parecia o zumbir de uma abelha dentro de uma caixa de fósforos. Enquanto recebia a mensagem, o médico olhava para o tenente. - Quantos?... Que desastre! Sim, estarei pronto em dois minutos.
Repôs o fone no lugar. Estava pálido e conturbado.
- É a mim que estão procurando? - indagou o outro.
Por uma fração de segundo o médico hesitou. Depois
contou:
- Uma coisa horrível aconteceu... Aviões de nossa Marinha despejaram por engano bombas de napalm numa aldeia amiga onde estavam acampados soldados nossos... Estão me chamando com urgência ao hospital central.
Como se despertasse de repente, desatou os cordões do pijama, cujas calças lhe caíram aos pés. Desvencilhou-se delas e começou a vestir-se às pressas. Enfiou as calças do uniforme, depois o blusão e finalmente as botas, sem meias. O tenente continuava parado no meio do quarto, as ideias num tumulto. Teria compreendido claro o que o médico acabara de contar?
- A coisa se deu há pouco mais de uma hora. Informaram-me de que as baixas são pesadas... Um verdadeiro desastre.
Pelo menos trinta mortos e talvez mais de oitenta feridos...
Foi o que me disseram.
O tenente escutava, perplexo.
- Estão começando a chegar os primeiros feridos - continuou o capitão, apanhando a boina. - O jipe que me vai levar ao hospital já deve estar lá embaixo. Vamos!
Encaminharam-se para fora do quarto.
- Porque está rindo? - estranhou o doutor, junto da porta do elevador, depois de ter premido o botão de chamada.
- Porque tudo isso é uma farsa, uma trágica farsa! - exclamou o outro. - Trinta mortos, mais de oitenta feridos...
O elevador chegou. Entraram. Começou a lenta descida.
- O almirante naturalmente mandará ao general um pedido de escusas - resmungou o tenente -, dirá que lamenta profundamente o que aconteceu... e que tudo foi um "erro de cálculo"... E a coisa ficará por isso mesmo. Amanhã esses mesmos pilotos serão condecorados por outros feitos dessa natureza, desde que as vítimas não sejam os nossos bravos rapazes e sim os "ratos asiáticos".
Sem dar-lhe ouvidos, o médico abriu a porta do elevador e cruzou o saguão a passo acelerado. O tenente seguiu-o, ele mesmo não sabia porquê. Junto da calçada, à frente do hotel, estava estacionado um jipe, com um soldado do corpo médico ao
volante. O doutor saltou para dentro dele e perguntou:
- Quer ir até ao hospital, tenente?
O outro subiu para o carro como um autômato que recebe um impulso elétrico. Sentou-se no banco traseiro. O jipe arrancou, sua buzina rompeu a uivar. O tenente teve a impressão de que aquele som agudo lhe trespassava o crânio como um estilete. Tapou os ouvidos com as mãos. E pensou: Agora vão pedir a minha cabeça. Serei levado a Conselho de Guerra. Ou entregue à justiça civil. Como um criminoso. Este comando cumpre o dever de comunicar que esta madrugada seus aviões por um deplorável erro de cálculo.. etc... etc... etc...

O horizonte começava a clarear. Viam-se já nas ruas homens e mulheres pedalando suas bicicletas, rumo dos lugares onde trabalhavam. O jipe uivava como um animal ferido de morte. E então o tenente olhou para o céu e reencontrou a Lua, que
esmaecia como o firmamento. O automóvel estacou à porta do hospital, onde se via um grande movimento de veículos e soldados. Gritavam-se ordens. Quando deu acordo de si, o tenente estava sozinho num dos degraus do pórtico. O médico tinha desaparecido. Dois homens tiravam uma padiola com um ferido de dentro de uma ambulância parada junto ao meio-fio. O tenente acompanhou-os escadaria acima e entrou no hospital. As luzes do corredor lhe revelaram o horror... O soldado queimado por napalm havia quase perdido a forma humana, mais parecia um animal
escorchado, de um vermelho vivo de lagosta que acaba de sair de um caldeirão de água fervente - as faces sem feições, a carne já com um aspecto purulento. O tenente encostou-se numa parede, atordoado, a visão embaralhada e ali ficou, enquanto passavam por ele outras macas com pedaços de carne queimada, alguns dos quais ainda gemiam.

Saiu para a rua, uma náusea a contrair-lhe o estômago. Desceu as escadas, tropeçando aqui numa padiola, chocando-se mais adiante com um soldado, e se foi madrugada adentro. O calor continuava pesado, opressivo, implacável. Duas mocinhas nativas passaram por ele, montadas nas suas bicicletas, e suas vozes frescas e musicais chegaram até aos seus ouvidos. Parou, imaginando que alguém tivesse pronunciado o seu nome. Depois retomou a marcha sem norte. Meteu-se em becos e ruelas, arrastando o corpo dolorido, a cabeça que parecia inchar, crescer cada vez mais... Por fim entrou numa rua larga, com muitas árvores, através das quais se avistava o rio, onde juncos e sampanas se moviam lentamente. Um jipe surgiu a uma esquina e aproximou-se dele em marcha lenta e em sentido contrário. A luz dos holofotes cegou-o por um instante. (A mariposa - a estudante suicida - a cruz de fogo.) O carro estacou junto do meio-fio, a uns cinco metros de onde estava o tenente. Um soldado saltou para a calçada e aproximou-se. Era da Polícia Militar e estava armado de metralhadora.
- Por obséquio - pediu -, os seus papéis de identidade!
Mas o que chegou à cconsciência do tenente foi um frase que a memória enferma lhe enviou, uma frase antiga, temível e carregada de injustiças e ameaças. "Agarra o negro!" "Agarra o negro!" "Agarra o negro!"
Uma fúria rebentou-lhe o peito. Ah, não! Desta vez, não!
Precipitou-se sobre o soldado, arrebatou-lhe a metralhadora das mãos e derrubou-o com um pontapé na boca do estômago.
Recuou dois passos e gritou: "Foge, papai, foge!" Destravou a arma, apontou-a para os holofotes, puxou no gatilho e com uma descarga estilhaçou e apagou os olhos do monstro. A seguir, numa feroz, orgulhosa alegria de homem que de repente descobre a porta da liberdade, ergueu a alça de mira para alvejar os vultos brancos encapuzados que se esgueiravam por entre as árvores do seu jardim... Depressa, antes que acendam a cruz de fogo!

Uma rajada de metralhadora rasgou-lhe o peito de lado a lado, cosendo-o por alguns segundos ao muro que lhe barrava a retaguarda. Deixou cair a arma, afrouxaram-se-lhe as pernas, dobrou-se sobre si mesmo, e, sangrando pela boca, caiu de borco, com uma das faces sobre as lajes da calçada... E as últimas imagens que suas pupilas refletiram, e que lhe chegaram sem sentido à sua consciência que se apagava, foram
duas botas militares negras, por entre as quais lucilava longe a luz da lanterna de uma sampana que cruzava o rio. O sargento ajoelhou-se ao lado do homem caído, segurou-o pelos ombros, fê-lo voltar-se de cara para o céu e depois focou nele o feixe de luz de sua lanterna elétrica.
- Conhece? - perguntou o fuzileiro, que só agora, as mãos espalmadas sobre o estômago, se erguia do lugar onde fora derribado.
- Não - respondeu o soldado, ainda mal podendo respirar.
- Chamamos uma ambulância?
- Não há tempo. Vamos levá-lo para o hospital no jipe. Depressa!
O sargento segurou o desconhecido por baixo dos braços, o outro apanhou-lhe as pernas à altura dos joelhos e assim o ergueram e puseram sentado no banco traseiro do carro. Ficou na calçada uma poça de sangue para a qual olhava agora fixamente- o homem que metralhara o tenente. Era um soldado negro.
- Vem ou não vem? - gritou o sargento.
O soldado subiu para o jipe e acomodou-se ao lado do companheiro que estava ao volante. O carro se pôs em movimento. Sentado junto do tenente, o sargento tomou-lhe o pulso e depois apalpou-lhe o peito à altura do coração.
- Está ainda vivo? - perguntou o soldado que dirigia o veículo.
- Duvido - respondeu o sargento, limpando num lenço os dedos manchados de sangue.
- Que será que deu no tenente? Eu apenas lhe pedi os papéis...
- Agora só Deus sabe. Porque este homem está morto.
O negro ia de cabeça baixa, balbuciando:
- Logo eu... logo eu...
O companheiro deu-lhe uma palmada rápida no joelho e tratou de consolá-lo.
- Se você não tivesse atirado nele, a esta hora estaríamos todos liquidados, com o bucho cheio de chumbo... E morreria muita gente mais. Na hora em que ele levantou a alça de mira da metralhadora, passavam pela rua homens e mulheres a pé e
em bicicletas... Ia ser um morticínio danado.
- Mas porque tinha de ser eu... logo eu? Não vê que ele é da minha raça? - Seus lábios tremeram, lágrimas lhe brotaram dos olhos e lhe escorreram pelas faces pardas.

Havia já clareado o dia quando o coronel-comandante entrou no hospital em companhia do major. Foram ambos levados para a pequena sala onde se encontrava o corpo do tenente, estendido numa cama de ferro e coberto até à cabeça por um lençol. O major descobriu-lhe o rosto, cuja pele as tintas da morte haviam deixado mais clara. O coronel fitou-o longamente e depois murmurou:
- Era um fraco, um neurótico. Não sei como mandam gente assim para cá. Nunca fiz muita fé nesses testes psicológicos... Esse homem quase matou quatro excelentes soldados, isso sem contar os civis que poderiam ter sido atingidos pelas balas perdidas de sua metralhadora...

O major refletiu melancolicamente que as almas perdidas o preocupavam muito mais que as balas perdidas. Olhando também para o cadáver, disse:
- Coitado! Tinha terminado seu tempo de serviço. Amanhã de manhã poderia estar em casa... E então uma mulher de ambos desconhecida, e que ali chegara sem que nenhum deles tivesse percebido, pousou com profunda ternura os seus olhos cor de violeta no rosto do morto e sussurrou:
- Ele já está em casa.
O Sol apontava por trás das montanhas quando o velho que, ao entardecer do dia anterior, havia apanhado uma pomba-rola com sua armadilha de bambu, saiu de sua choça e pôs-se a acender um fogo de gravetos para esquentar a água do chá matinal. Fumando o seu cachimbo de barro, acocorou-se junto da chaleira de ferro e contemplou satisfeito a gaiola onde a ave, imóvel, parecia olhar para ele. Ia armar de novo a sua arapuca, usaria a pombinha como engodo e esperaria que outros pombos caíssem na armadilha. Poderia esperar todo aquele dia. E muitos outros dias. Tinha muito tempo pela frente ou não tinha nenhum, o que dava no mesmo. Pensou nos dois netos que haviam sido mortos durante a noite, mas sem muita tristeza. Um dia haveria de reencontrá-los, em algum lugar, de alguma maneira. Lembrou-se de que quando um deles era menino ele lhe havia dado de presente uma pomba-rola. Sua boca desdentada pregueou-se num sorriso evocativo, entre nostálgico e divertido. Depois quedou-se a devanear. Imaginou-se a caminho do mercado, com uma canastra cheia de pombos...

Ouvindo um ronco que vinha do céu e sentindo um sopro que sacudia os arrozais e lhes encrespava as águas, ergueu a cabeça e, sempre sorrindo, ficou a contemplar os helicópteros militares que, como um bando de gordos patos selvagens de plumagem verde, seguiam numa revoada rumo da cordilheira.
FIM

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