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Ser
capitão daquele vapor fluvial fora sempre o seu sonho, e agora
ali estava ele, orgulhoso no seu uniforme... mas ao mesmo tempo tomado
de um estranho medo... Não era fácil conduzir o barco
no rio escuro, na noite escura, sem abalroar com outra embarcação
ou entrar terra adentro... Apreensivo, imóvel na ponte de comando,
ouvia confusamente as vozes e as risadas dos passageiros que se divertiam
no salão... Prostitutas pintadas, jogadores de baralho profissionais,
como nas histórias antigas... camisas de peito e punhos de renda,
uma carta clandestina metida numa das mangas da sobrecasaca... um pequeno
revólver de cabo de madrepérola escondido num bolso...
A pianola não cessava de tocar... As mulheres soltavam gritos
indecentes... O rio escuro e imenso, e o medo e a desconfiança
de que o mar não estava longe e de que todos iam perder-se no
mar... Sabia que o pastor de sua
paróquia andava vasculhando o navio à sua procura para
levá-lo de volta à Escola Dominical, pois um menino não
devia estar naquele antro de perdição que cheirava a álcool,
fumo e fêmea...
Fazia
muito calor, as rodas do navio eram ao mesmo tempo as rodas de um moinho
de trigo de um conto mal lembrado, e ele procurava examinar o mapa e
a bússola, mas não conseguia enxergar nada, porque estava
tudo envolto em bruma... mas não tão escuro que não
pudesse divisar o vulto do homem ao leme... Tentou mover-se, queria
descer ao salão mas não conseguiu fazer sequer um movimento,
estava
paralisado, impotente, e então lembrou-se de que sua própria
mãe divertia-se lá em baixo, de cara pintada como as outras,
e andava de mesa em mesa - a pianola! a pianola! a pianola! - oferecendo
seus beijos aos jogadores, que em troca lhe davam
dinheiro e palmadas nas nádegas e agora ele percebia que os batoteiros
eram todos negros... ou seria apenas a falta de luz que lhes escurecia
a pele? Se ao menos ele pudesse acionar uma daquelas alavancas... dar
uma ordem à casa das
máquinas para que fizessem o barco parar...
Porque
tinha enveredado terra adentro, navegava por uma rua seca, sobre as
pedras irregulares do calçamento... casas de um lado e de outro,
e suas rodas continuavam a mover-se... e a pianola! a pianola!... e
ele temeu que os costados da embarcação derrubassem as
frágeis casas dos pobres carpinteiros... Mas de novo singravam,
sangravam o rio e de repente ele descobriu, num susto, que quem estava
ao leme era o cadáver putrefato de seu pai... Santo Deus! O seu
fedor ia empestar
todo o navio, escandalizar os passageiros e haveria um motim a bordo
e o capitão seria enforcado porque todos saberiam que um cadáver
pilotava o vapor e ia levá-los todos para o mar, a morte, o Inferno...
Mas como se explicava que seu pai estivesse ao mesmo tempo no porão
serrando e aplainando tábuas para fazer com elas féretros
para todos os que estavam a bordo e para si mesmo? Quis fugir da ponte
de comando mas alguém - sua mãe? a professora? - lhe batia
de leve na cara, batia na cara, batia na cara...
O
tenente despertou. K. lhe tocava com os dedos uma das faces. Estava
completamente vestida e murmurava: "O tempo! O tempo!" Ele
se levantou, estonteado e, como um sonâmbulo, foi apanhando uma
a uma as peças de sua roupa. Enveredou para o quarto de banho,
postou-se diante do espelho da pia, como
procurando identificar-se a si mesmo, depois abriu a torneira e, juntando
água na concha formada pelas mãos, molhou a cabeça,
o pescoço, as faces. Em seguida começou a enxugar-se com
uma toalha, atabalhoadamente, enquanto lhe cruzavam pela mente, esbatidas
e fugidias, imagens do sonho - um navio, o grande rio da sua infância,
uma rua, a figura da mãe... ou da professora?
A
voz de K. chegou-lhe aos ouvidos: "O tempo! O tempo! O tempo!"
Parecia uma sineta de vidro a tocar alarme. Ele terminou de vestir-se,
aproximou-se dela, tomou-a nos braços, beijou-lhe as faces, os
olhos, os lábios, murmurando, entre um beijo e outro, palavras
de ternura, pouco lhe importando que ela não as compreendesse.
Depois abriu a bolsa da rapariga e atufou nela várias notas esverdeadas
do dinheiro
de seu país, dizendo: "Para você, ouviu? Você!
Não para aquele homem!" K. sacudia repetidamente a cabeça,
dando a entender que compreendia tudo. Embaciava seus olhos - quis ele
crer- uma névoa de tristeza. Ela ergueu a mão, mostrou
o
anel e balbuciou: "Muito obrigada."
Bateram
na porta. O tenente foi abri-la. Era a madama, que reclamava:
- Perdão, senhor oficial, mas seu tempo terminou.
- Compro mais uma hora com a moça! - exclamou ele, frenético,
metendo a mão num dos bolsos das calças.
A velhota sacudiu negativamente a cabeça.
- Sinto muito. A menina tem compromisso com outro freguês. Ele
já está lá em baixo, impaciente. É até
um senhor muito...
- Não quero saber quem é! - replicou ele, indignado. -
Está bem. Peço apenas meio minuto. Pode ir embora!
Quase bateu a folha da porta na cara da alcoviteira. Voltou-se para
K. e, vendo-a ali parada no centro da peça, submissa e desamparada,
como uma simples coisa sem vontade própria, teve tanta pena dela,
que lágrimas lhe vieram aos olhos, dessa vez abundantes.
Estreitou-a contra o próprio corpo, demoradamente, num silêncio
trêmulo. Depois desprendeu-se dela, fez meia volta, precipitou-se
para a porta, como se estivesse fugindo de alguém ou de alguma
coisa, abriu-a num safanão, desceu a escada quase a correr, atravessou
o salão do café sem olhar para nada nem para ninguém,
e ganhou a calçada. A Lua lá estava, alto no céu,
à sua espera, como um anjo-da-guarda: tinha perdido sua cor amarelenta
e agora parecia um disco de
luminoso gelo.
O
tenente atravessou a rua, sentindo um aperto no coração.
Quando chegou à calçada oposta voltou-se e olhou para
a janela ainda iluminada do quarto que acabara de deixar, na esperança
de avistar o vulto de K. Não viu ninguém e isso o deixou
ainda mais triste. Continuou o seu caminho em direção
ao centro da praça, pisando sobre a relva dos canteiros, refletindo
sobre aquela despedida apressada e
prosaica, tão diferente da que ele havia imaginado. Tinha já
atravessado a praça e ia entrar na avenida do canal quando de
súbito uma explosão brutal como que rasgou a noite de
cima a baixo, precedida de um relâmpago. O tenente atirou-se ao
chão e ficou estatelado, de bruços (bombardeio? um plástico?),
o coração a bater no ritmo do susto, as unhas cravadas
na terra, procurando instintivamente abrir nela uma
cova onde abrigar-se. Sentiu uma dor e um zumbido nos ouvidos, como
se o estrondo lhe tivesse rompido as membranas do tímpano. O
choque embotou-lhe por alguns segundos a faculdade de pensar. Não
poderia dizer quantos minutos ali
ficou estendido sobre o canteiro, mordendo os talos de relva que lhe
entravam pela boca. Era como se o próprio tempo tivesse sido
atomizado pela medonha explosão. E, dentro do silêncio
oco que se fizera na noite, ele sentia, mais que ouvia, o trânsito
surdo do próprio sangue alarmado. Só ergueu-se aos poucos,
ficou primeiro de joelhos, sacudindo a cabeça de um lado para
outro, e por fim se pôs de pé.
Voltou-se
e viu o Café Caravelle em chamas. Compreendeu então o
que se havia passado. Pensou em K. e rompeu a correr na direção
do incêndio. Estava já na calçada fronteira à
do café e ia atravessar a rua, quando alguém lhe agarrou
fortemente o braço. Era um soldado da Polícia Militar.
Dizia-lhe alguma coisa que no seu aturdimento ele não conseguia
entender. Mas o homem empurrava-o para trás, obrigava-o a sentar-se
num dos bancos da praça (Calma, tenente! Calma, tenente!). Vultos
moviam-se ao clarão do incêndio. Um jipe parou junto ao
meio-fio, à frente do café, e de dentro dele saltaram
cinco soldados com capacetes brancos. O tenente olhava estupidificado
para tudo aquilo. Viu quando os guardas estenderam uma corda, isolando
uma larga área à frente do prédio e ouviu, vindo
de longe, o uivo de uma sereia. Dentro de alguns minutos chegou o primeiro
carro de bombeiros, seguido de uma ambulância. Ficou a olhar para
a casa em chamas e a pensar em K. Curiosos apareciam de todos os lados.
Janelas iluminavam-se em derredor da praça.
Os
bombeiros começaram a trabalhar para apagar o fogo e evitar que
se comunicasse às casas vizinhas. Chegaram abafadas aos ouvidos
do tenente vozes humanas e o crepitar das chamas. De repente se ouviu
novo estrondo. Era o andar
superior do café que se desmoronava. Ele apoiou os cotovelos
nos joelhos, cobriu o rosto com as mãos e desatou a chorar. Cerca
de uma hora mais tarde, os bombeiros haviam retirado alguns corpos de
dentro das ruínas do café. Os poucos que apresentavam
ainda sinais de vida foram metidos numa ambulância e levados a
toda a velocidade para o hospital. Os mortos ficaram estendidos sobre
o asfalto da rua. Fazendo um esforço sobre si mesmo, o tenente
aproximou-se de um dos soldados da Polícia Militar, identificou-se,
passou sob o cordão de isolamento e, às tontas, começou
a caminhar por entre os corpos. Estavam em sua maioria mutilados e
parcialmente carbonizados, e alguns haviam perdido a forma humana. Partículas
de vidro rangiam debaixo da sola de suas botas. Sentiu sob um dos pés
uma coisa flácida. e teve um estremecimento de horror quando
viu que havia pisado num braço humano separado do corpo.
Andava
no ar um bafo de cinzas úmidas, de mistura com um cheiro de carne
e pano
queimados. Houve um momento em que o tenente parou, subitamente esquecido
do que procurava e da razão por que estava ali no meio daqueles
restos humanos, dos bombeiros e dos homens da Cruz Vermelha. Ouvia vozes
em tom baixo, cortadas de ordens urgentes. "Sargento, aqui depressa!
Este ainda está vivo. Tragam a maca. Plasma, rápido!"
Viu quando levantaram um corpo e o levaram para uma ambulância,
que arrancou e se foi a toda a velocidade, rua fora, a sirena uivando.
Santo Deus! Por que estou aqui? Levou a mão à testa úmida
e escaldante. Um soldado focou nele a luz de sua lanterna elétrica.
"Está sentindo alguma coisa, tenente?" Ele ergueu a
mão e sacudiu-a de um lado para outro, como para cortar o
raio luminoso, enquanto murmurava: "Não, não é
nada, não é nada." O outro afastou-se.
Por
vários minutos o tenente sentiu-se completamente perdido, começou
a interrogar-se, aflito... E de repente, cerrando os olhos, teve contra
as pálpebras a figura da estudante que morrera queimada aquela
manhã... no seu vestido cor de rosa chá, de pé
no quarto... Sim, K.! K.! K.! Olhou em torno. Restavam ainda uns quatro
ou cinco cadáveres, no asfalto. Examinou-os um por um. Por fim
avistou junto da sarjeta um corpo de mulher. Estava apenas parcialmente
queimado, quase
intacto da cintura para cima. Ajoelhou-se ao pé dele. Reconheceu
a fisionomia de K. Seus olhos estavam ainda abertos. Ele os fechou com
dedos trémulos. Depois pegou-lhe da mão e viu nela o anel
de turquesa. Soluços secos começaram a sacudir-lhe o corpo.
Sentiu que lhe tocavam no ombro, ouviu uma voz:
- Conhece a moça?
Ele hesitou um instante:
- N... não.
- Tem certeza? Precisamos identificar todos os corpos.
- Não conheço... - balbuciou o tenente, mal dominando
o tremor da voz.
- Que está procurando, então?
- Uma pessoa...
- Homem ou mulher?
- Homem.
- Como se chama?
- Não me lembro...
Curto silêncio. Depois, a mesma voz, mais alto:
- Vocês aí! Levem este cadáver para o necrotério,
para futura identificação.
Dois homens ergueram o corpo de K. como se ela fosse uma boneca de pano
e o atiraram como uma coisa - os brutos! - para dentro de um camião.
O tenente ficou a seguir as luzes vermelhas das lanternas traseiras
do veículo que se afastava.
Ergueu-se
e pôs-se a caminhar na direção do centro da praça,
incapaz de um pensamento coerente. Atirou-se sobre a grama de um canteiro
e ali permaneceu, deitado de costas, a olhar para a Lua, ainda ofegante,
sentindo suor e lágrimas escorrerem-lhe pelas faces. Se pudesse
dormir e esquecer tudo aquilo! Fechou os olhos. Voltava-lhe agora à
mente a face de K. morta na sarjeta: uma queimadura horrenda no pescoço,
uma larga mancha escura no queixo, os cabelos chamuscados... Tentou,
mas em vão, apagar aquela visão da memória. Quando
os
soldados haviam erguido o corpo de K. - sim, agora ele se lembrava do
macabro detalhe - ambas as pernas da rapariga, quebradas, estraçalhadas,
balançavam-se de um lado para outro, como prestes a desligarem-se
do corpo.
Que
horas seriam? (O tempo! O tempo! - dizia K. com um dedo sobre o pequeno
relógio.) Porque havia negado conhecê-la? Atraiçoara
a pobre menina como havia atraiçoado o pai, a mãe, a mulher,
o filho e a si mesmo. (Não era o que se podia
esperar de um negro?) Virou-se, ficou deitado de bruços. Mas
afinal de contas, que sabia ele de K.? Ela era para ele apenas uma letra,
um sinal. Se fosse interrogado, o repulsivo homenzinho que explorava
seu corpo também havia de negar que a conhecia. E ela ficaria
anônima, metida numa gaveta do refrigerador do necrotério.
Pobre K.! Pobre K.! Levantou-se lentamente, e por alguns instantes não
atinou com
o que fazer. Debaixo de uma lâmpada, aproximou dos olhos o mostrador
de seu relógio-pulseira. Levou algum tempo para ver a hora. Onze
e cinquenta. Ocorreu-lhe que onze era a hora de recolher, estabelecida
pelo comando militar da cidade.
Procurou orientar-se na direção do hotel. Pensava agora
nas palavras do porteiro noturno. Amanhã dia não-auspicioso.
De
novo caminhava pela avenida do canal, completamente deserta àquela
hora. Pensava na mulher e no filho, e de repente desejava intensamente
estar com eles, voltar para casa, esquecer para sempre aquela terra
e aquela guerra. Viu um automóvel que entrava na avenida. À
luz de seus faróis agitou-se por um instante, indeciso e ofuscado
como uma lebre perseguida. Segundos depois um jipe parava a seu lado,
junto da calçada.
Uma voz:
- Tenente, suba!
Ele obedeceu. Era um carro militar. Sentou-se no banco traseiro, ao
lado de um homem corpulento que fumava cachimbo. Era um major que ele
conhecia de vista, mas com o qual nunca tivera qualquer convívio
particular. O jipe tornou a arrancar.
- Tenente - perguntou o homem gordo, sem tirar o cachimbo da boca -,
o senhor acredita na sorte?
Ele ficou sem saber que dizer. Mas o outro não esperou a resposta:
- Foi uma sorte encontrá-lo. Sorte nossa... não sei se
sua também.
- Andavam à minha procura?
- O coronel deseja vê-lo.
- Por que motivo?
- Prefiro que ele próprio lhe diga.
O jipe rodava a toda a velocidade ao longo de ruas desertas e silenciosas.
O tenente olhava fixamente para a nuca do chofer negro, que tinha a
seu lado um sargento louro. Ambos traziam capacetes brancos e ostentavam
no braço esquerdo uma banda
também branca com as iniciais P.M.
- Uma explosão feia. não, tenente? - disse o maior em
tom casual.
- Horrível.
- Você estava nas redondezas quando o café foi pelos ares?
- Sim. Na praça.
- Tinha estado dentro do Caravelle?
O tenente teve uma breve hesitação antes de responder.
- Sim.
- Durante quanto tempo?
- Mais ou menos uma hora.
Ficou
de súbito tenso, como um animal que pressente perigo. Será
que desconfiam de mim? Claro. Um negro é por definição
culpado até ao momento em que possa provar o contrário,
o que nunca é fácil. Esperou que o outro tornasse a falar.
Mas o
major continuou a fumar em silêncio. Com o rabo dos olhos examinava
o homem que tinha a seu lado. Conhecia-lhe a ficha. Um belo exemplar
de mestiço. Com algo de felino. Deve ser popular com as fêmeas.
Muita mulher branca de minha terra gostaria de dormir com ele, só
que preferiria morrer a confessar isso. Bela cara! Esses olhos escuros
são mais expressivos, por exemplo, que os olhos claros e duros
do coronel ou os desses famosos deuses nórdicos de dois metros
de altura e bíceps de boxeadores. (Sorriu para os próprios
pensamentos.) Seu Governo devia permitir e até mesmo encorajar
uma certa dose de miscigenação no país, para quebrar
a monotonia da chamada raça branca, metódica, previsível
e reprimida, cujos representantes preferem inventar máquinas
parecidas com o corpo humano a usar os
próprios corpos. Claro, a miscegenação deveria
ser dirigida e controlada cientificamente para evitar o que os puristas
chamam de "bastardização da raça". Mas
que raça, santo Deus?
É
o mais sortido e mirabolante cadinho racial da terra! Que seria de nós
sem a inquietação metafísica do judeu e essa lânguida
sensualidade do negro? Essas duas minorias são os lubrificantes
de nossa áspera secura puritana. Por essa e outras razões,
ambas naturalmente são segregadas. Os hebreus vivem a criar-nos
sentimentos de culpa e problemas intelectuais. (Pensou nas suas discussões
com o capitão médico judeu do quarto andar.) Os negros
e mulatos são a presença física da carne e do pecado.
Mas que se passará com esse pobre rapaz? Parece abalado. Se não
me engano, suas mãos tremem. Sua respiração me
parece irregular. Estendeu o braço e bateu de leve no joelho
do tenente:
- Não se preocupe, meu amigo. O coronel quer apenas confiar-lhe
uma missão.
- Mas... o meu tempo de serviço já terminou. Volto amanhã
para casa.
- O seu tempo terminará oficialmente dentro de 10 horas e cinco
minutos. Amanhã ao meio-dia, sob minha palavra, você estará
a bordo do avião que o levará de volta à pátria.
O jipe estacou à frente do quartel-general. Guardas estavam postados
entre a porta de entrada e a longa e larga cerca de arame farpado que
circundava o casarão. O major gritou para um deles:
- Está tudo bem, sargento! Deixe-os passar.
Poucos minutos mais tarde, o major introduziu o tenente no gabinete
do comandante.
- Eis o nosso homem - disse jovialmente à porta.
O coronel encontrava-se de pé, atrás de sua mesa de trabalho.
O tenente perfilou-se e fez continência. O outro limitou-se a
focar nele seu olhar pálido e duro, com uma
intensidade acusadora. Depois voltou-se para o major:
- Desejo ficar a sós com o tenente.
O maior retirou-se, fechando a porta atrás de si. O coronel pôs-se
a caminhar de um lado para outro, as mãos trançadas às
costas, a cabeça baixa, o ar distraído, como se
ignorasse a presença do outro oficial.
Não vai me mandar sentar - pensava o tenente - e eu mal me posso
aguentar de pé... Mas que será que esse homem quer de
mim? Porque não fala? Porque toda esta encenação?
Por
sua vez o coronel observava-o obliquamente. Mal lhe podia discernir
os traços fisionómicos, pois estava estonteado de sono.
Não chegara a dormir meia hora... Havia sido despertado por causa
daquela maldita explosão. Sabia que o rapaz tinha sangue negro:
cinquenta por cento. A cara dele, entretanto, não lhe parecia
desagradável. Encaminhou-se para a mesa e mexeu nuns papéis.
- Fique à vontade, tenente. Tenho aqui a sua folha de serviço...
Vejo que seu trabalho tem sido bastante apreciável... Mas não
o chamei à minha presença para o
elogiar, e sim para lhe confiar uma importante missão.
De novo calou-se. O tenente esperava, apreensivo, com uma secura na
garganta.
- Você deve saber que o Café Caravelle foi pelos ares há
menos de duas horas...
- Sei, coronel.
- Tem ideia de quem plantou a bomba?
Era uma pergunta apenas retórica.
- Não, senhor.
- Pois nós temos.
O suor entrava nos olhos do tenente e ele agora via o interlocutor através
de uma cortina líquida. Esperou em silêncio que o seu comandante
continuasse.
- Vinte minutos depois da explosão, nossa polícia apanhou
dois terroristas no momento em que colocavam uma bomba dentro de um
pagode. Ambos puseram-se em fuga, nossos homens fizeram disparos contra
eles, derrubando-os. Um ficou
mortalmente ferido e, interrogado, confessou com um enorme orgulho que
ele e o companheiro eram responsáveis pela explosão do
café. Como tinha visto o seu companheiro cair baleado a poucos
passos dele, julgando-o morto e sabendo-se
também ferido de morte, que podia falar livremente...
O
coronel calou-se, levou a mão à boca para abafar um bocejo.
- Preste bem atenção, tenente. Esse terrorista confessou
voluntariamente que seu camarada e ele haviam colocado uma bomba-relógio
num outro prédio, e que essa bomba explodiria dentro de cinco
horas! E quando um de nossos oficiais lhe perguntou "onde?",
o bandido sorriu, guardou silêncio, e teve o seu momento de triunfo.
O coronel caminhou até à janela, em busca de um ar que
a noite queda e pesada lhe negou. Tornou a encarar o tenente:
- Morreu poucos minutos depois. Mas seu companheiro foi ferido levemente
numa perna e neste momento está sendo medicado no nosso hospital.
- Sim, senhor coronel. Pois bem. Dentro de poucos minutos o prisioneiro
estará à sua disposição num cubículo
do subsolo deste edifício...
- à minha disposição? - repetiu o tenente, não
querendo compreender o que o outro insinuava.
O coronel olhou para o relógio-pulseira. Depois de novo seus
olhos fitaram o interlocutor.
- Confio-lhe a tarefa de interrogá-lo e descobrir onde está
a segunda bomba.
- Por que eu? - deixou o tenente escapar.
- Terei de justificar as ordens que dou aos meus subordinados?
- Não, senhor coronel.
- Bom, mas eu lhe explicarei. Quase todos os membros de sua unidade,
como você sabe, encontram-se esta noite fora e longe da cidade,
em missões especiais em várias aldeias da região...
Não temos tempo a perder. Se mais uma bomba explodir esta noite,
nosso prestígio sofrerá um golpe tremendo, pois o povo
começará a considerar os nossos inimigos omnipresentes
e omnipotentes e nós apenas...
impotentes.
O
tenente olhava perdido para a janela. A Lua parecia uma fruta emaranhada
entre os galhos de uma árvore do jardim.
Agora o estrondo distante do canhoneio recomeçava.
- Nunca acreditei muito nos métodos de vocês, os psicólogos.
Sempre desconfiei da eficiência desses computadores eletrônicos
que interpretam as respostas dos
prisioneiros interrogados. Seja como for, agora não temos tempo
para recorrer às máquinas... A tarefa está em suas
mãos. Pense apenas nisso: se você falhar, se dentro de
três horas, veja bem, três horas no máximo, não
conseguir arrancar uma confissão do prisioneiro, você será
responsável pela morte ou a mutilação de dezenas,
talvez centenas de pessoas inocentes, possivelmente crianças,
mulheres, velhos...
O tenente estava atónito. Tudo aquilo lhe parecia um diálogo
dentro de um pesadelo.
- Três horas... - balbuciou.
- Repito que, conforme a confissão do terrorista que morreu,
a segunda bomba deverá explodir às quatro da manhã.
Precisamos saber exactamente onde foi posta, uma hora antes.
Pelo menos...
- Mas, coronel, o senhor sabe que esse tipo de gente em geral não
fala.
- Faça o seu prisioneiro falar.
- Mas ele deve ser um fanático!
- Seja também um fanático.
O tenente começava a sentir-se encurralado.
- Bom... usarei primeiro todos os métodos persuasivos.
Se falharem recorrerei ao soro da verdade.
O coronel sacudiu negativamente a cabeça.
- Não creio que dê resultados positivos. Sei de casos...
O prisioneiro pode ficar apenas entorpecido a dizer sandices.
- Mas então... que outros recursos me restam?
- Você mesmo os descobrirá à medida em que prosseguir
o interrogatório. O essencial, a única coisa que realmente
importa é descobrir onde está a segunda bomba. Pense nas
vidas que ela vai destruir se você fracassar.
Um pensamento sombrio cruzou o espírito do tenente.
- Na sua opinião, coronel, é válida a ideia de
que os fins justificam os meios?
- Isso é uma pergunta filosófica. Não vem ao caso.
- É uma pergunta ética...
- E esta guerra lhe parece ética? É uma ação
ética colocar bombas em igrejas, hotéis, cinemas, colégios?
Responda.
- É evidente que não.
- E você sabe como é que os comunistas tratam os nossos
soldados que conseguem aprisionar, não sabe?
O tenente sentia uma zoada nos ouvidos, como se de repente tivesse subido
a uma grande altitude.
- Até onde deverei obedecer às leis internacionais que
protegem os prisioneiros de guerra? - perguntou, ouvindo mal a própria
voz.
- Quem lhe disse que neste caso se trata de um prisioneiro de guerra?
Esse homem é um terrorista, um assassino. É co-responsável
pela morte das dezenas de vítimas da explosão no Café
Caravelle. Qualquer júri decente em nosso país condenaria
esse criminoso à cadeira eléctrica.
- Mas de qualquer modo ele seria antes julgado, teria direito aos serviços
de um advogado de defesa.
- Ridículo! Não se trata de descobrir se ele é
culpado ou não. Há pouco me telefonaram do hospital comunicando
que o prisioneiro, interrogado sumariamente, repetiu que era o responsável
pela explosão no Caravelle, e confirmou a existência da
segunda bomba, mas nega-se a revelar onde a colocou.
- Devo então concluir de suas palavras que, se os métodos
legais de interrogatório falharem, estou autorizado a usar...
- calou-se ante o horror da palavra que lhe veio à mente.
- Tenente, nosso Exército jamais usou a tortura.
Pessoalmente, veja bem, como homem e não como soldado, eu não
hesitaria em arrancar as entranhas desse bandido, se tanto fosse necessário
para obter a confissão que desejamos com tão desesperada
urgência. Lembre-se de que você não é um soldado
profissional e que em questão de dias ou, melhor, de horas estará
definitivamente desligado das nossas Forças Armadas. Pense bem
nisso, e não esqueça que as vidas de muitos seres humanos,
que neste momento dormem em paz, são mais importantes perante
Deus e os homens do que o conforto, o bem-estar e mesmo os chamados
"direitos" de um criminoso. Não se trata de uma questão
de ética, mas de simples aritmética...
- Sim, mas...
- Mas quê, tenente?
- Ainda não sei até aonde posso ir...
- Use seu próprio juízo.
- Sou ainda um soldado. Recebo ordens superiores.
- Pois bem. Já lhe dei a minha ordem. Descubra dentro de duas
horas, no máximo, onde está a segunda bomba.
- Duas ou três?
- Pensando melhor: duas!
O
tenente sentiu que o coronel lhe preparava uma armadilha. Suava abundantemente.
Sentia a respiração curta, doía-lhe o corpo inteiro
e a zoada nos ouvidos continuava. Encarava o superior hierárquico
como hipnotizado pelo seu olhar.
- O major está dirigindo pessoalmente uma busca em toda a cidade.
Mais de quinhentos de nossos homens estão empenhados nessa operação,
tentando localizar a segunda bomba. A sorte deles será a sua,
tenente, pois se encontrarem o que procuram dentro das próximas
duas horas, você será dispensado de sua tarefa... - Hesitou
por uma fração de segundo e acrescentou:
- ... desagradável.
O telefone tilintou. O tenente estremeceu. O comandante apanhou o fone
num gesto brusco e levou-o ao ouvido.
- Sim... É o coronel... Quê? Ah! Está bem. O tenente
vai descer dentro de um minuto. - Repôs o fone no lugar. - Tenente,
o prisioneiro está à sua espera numa das celas do subsolo.
O major o conduzirá até lá. Atente no que lhe vou
dizer. Esse interrogatório será feito sob o maior sigilo.
Espero que nenhuma autoridade local e especialmente nenhum correspondente
de guerra, nosso ou estrangeiro, fareje o que se está passando
no porão deste edifício.
- Perfeitamente, coronel.
- Estamos então entendidos. Para esse interrogatório você
contará com a colaboração do melhor de nossos intérpretes
e com a de um sargento que, na vida civil, foi funcionário da
Polícia e tem prática... desse... dessas coisas. Duas
horas,
não esqueça, duas horas. E agora pode retirar-se.
O tenente perfilou-se, fez continência e encaminhou-se para a
porta. Estava já com a mão na maçaneta quando de
novo ouviu a voz do seu comandante.
- Lembre-se de que me interessam resultados e não métodos,
tenente. Se você conseguir o que queremos, prometo não
fazer perguntas.
E depois que seu oficial se foi, o coronel ficou a olhar fixamente para
a porta, sentindo uma vaga e meio irritada vergonha das coisas que acabara
de dizer e fazer. Estendeu-se pesadamente no sofá, fechou os
olhos e dentro de poucos segundos caiu num sono profundo.
O tenente encontrou o major no corredor.
- O seu homem acaba de chegar - disse este último. - O coronel
já lhe deu as ordens, não?
O outro sacudiu a cabeça, taciturno.
- Sabia o que o comandante queria de mim?
- Naturalmente.
- E que acha de tudo isso?
- Você tem nas mãos uma tarefa dura e ingrata. Vai ter
de trabalhar sob uma pressão tremenda.
- O coronel praticamente me induziu a usar até a violência
em caso extremo... mas teve o cuidado de não me "autorizar"
isso oficialmente. Se eu falhar, pessoas
inocentes morrerão e eu ficarei responsável por essas
mortes.
Se eu torturar o prisioneiro, é a desonra...
O major sorriu:
- Mas você não acha que, a esta altura dos acontecimentos,
de um modo ou de outro, já estamos todos um tanto desonrados?
- As Forças Armadas são uma espécie de corpo místico.
Eu sou um indivíduo. Dentro de poucas horas, um civil. E sempre,
irremediavelmente, um negro. O coronel arranjou um alibi perfeito para
si mesmo e para o Exército. Eu caí na armadilha...
- Não seja tão pessimista. Talvez nossos soldados encontrem
a bomba dentro de menos de uma hora...
- Numa cidade do tamanho desta?
- Tudo pode acontecer na vida, inclusive as boas coisas...
Segurou num gesto paternal o braço do tenente e conduziu-o para
a escada.
Caminhavam agora no subsolo ao longo de um estreito corredor de pedra,
alumiado pela luz amarelenta produzida pelas pequenas e raras lâmpadas
elétricas que, a intervalos, pendiam nuas do teto abaulado. O
tenente teve a impressão de haver descido a uma catacumba. De
um lado e de outro, via as portas das celas que, no tempo dos últimos
conquistadores europeus daquele país, haviam servido como prisão
provisória para réus que aguardavam julgamento.
Um oficial veio ao encontro de ambos. Trazia numa das mãos a
sua maleta negra.
Era um capitão-médico com quem o tenente trabalhara muitas
vezes nos últimos cinco meses em aldeias daquela e de outras
províncias. Eram vizinhos de quarto no Vieux Monde.
- O prisioneiro está pronto para ser interrogado - disse ele
com sua voz levemente nasalada. - Foi baleado na coxa esquerda, perdeu
algum sangue mas o ferimento não é grave.
- Que idade tem? - indagou o tenente.
- Dezenove.
- Tão jovem assim?
O major encolheu os ombros:
- às vezes tenho a desconfortável impressão de
que estamos lutando contra um exército infanto-juvenil...
Encaminharam-se
os três em silêncio para o fundo da galeria, rumo ao cubículo
onde ia processar-se o interrogatório. Mordendo a haste do cachimbo
apagado, o major entregou-se a reflexões... Ali ia ele entre
dois neuróticos reconhecíveis a olho nu. À sua
direita tinha um inquieto centauro, metade negro, metade branco, prisioneiro
perpétuo de sua pele, e era fácil deduzir-se de seu comportamento
que ele desejava
apaixonadamente passar por branco... à sua esquerda marchava
um judeu, pálido e perturbado como um condenado à morte
que, ao raiar do dia, é arrastado por seus carcereiros para a
cadeira eléctrica... Aliás, o relógio interior
daquele intelectual desajustado parecia estar batendo sempre, fatalmente,
a hora da própria execução.
Pararam diante da porta da penúltima cela da galeria.
- Bom - disse o major -, deixo vocês aqui. Tenho de voltar ao
meu gabinete para esperar os resultados dessa recherche de la bombe
perdue - sorriu ele, olhando para o médico que, na sua opinião,
seria o único a compreender a alusão. - Doutor, não
se afaste muito, que seus serviços podem ser necessários.
Tem pentotal sódico na bolsa? Muito bem. Tenente, logo que obtiver
a confissão, telefone-me sem perda de tempo para que a bomba
seja imediatamente desmontada pela nossa equipe
especializada nessas engenhocas mortíferas.
- Olhou para o seu relógio-pulseira. - Meia-noite e trinta e
cinco. Sejam
felizes, rapazes!
Fez meia volta e se foi, voltando sobre seus próprios passos.
Era céptico quanto ao resultado daquele interrogatório.
Seria uma simples formalidade. Conhecia o tipo de homem que o inimigo
encarregava desses actos de terrorismo. Eram suicidas natos. Estava
certo de que, dentro de menos de três horas, mais uma bomba explodiria
em alguma parte da cidade, ferindo e matando gente e causando danos
materiais. E não seria a última. A trágica pantomima
continuaria.
Pensou na mulher e na mãe e imaginou-as a seu lado. Ia agora
ensanduichado, como um gordo naco de presunto já em processo
de decomposição, entre duas fatias de pão doméstico.
Sua mãe era, sem sombra de dúvida, o pão ázimo
de sua vida. Até
quando duraria aquela prolongada e involuntária páscoa!
O tenente entrou na cela. Sobre uma base olfativa feita de cheiro antigo
de humidade e mofo, pairava no ar enfumaçado um fedor vivo e
novo de suor humano, misturado com sarro de charuto.
O
prisioneiro estava sentado numa cadeira a um canto daquele cubículo
tão mal iluminado quanto o corredor. O nativo era tão
pequeno e frágil, que o tenente teve a desconcertante impressão
de estar diante de um menino de quinze anos.
- É esse o terrorista? - perguntou ele ao homenzarrão
que se encontrava de pé, no centro da cela, mas para cuja fisionomia
ainda não atentara. A resposta lhe veio pronta, numa voz arrastada
e lânguida de sulista, levemente rouca:
- Tão certo como dois e dois serem quatro.
- Mas é uma criança!
- Não se iluda. Esses sujeitinhos são como os escorpiões:
pequenos mas venenosos. Espere e verá.
O tenente acercou-se do rapaz e pôs-se a examiná-lo, tomado
de um constrangimento que o desarmava por completo. O Prisioneiro estava
descalço e nu da cintura para cima.
Conservava apenas as calças do pijama, de um preto ruço
e enodoado, que haviam sido cortadas do lado esquerdo, quase à
altura da virilha. O terço médio da coxa esquerda estava
envolto em ataduras. Os braços, finos como as pernas, manchados
de equimoses arroxeadas, pendiam ao longo do tronco descarnado. As costelas
apareciam em relevo na pele de um amarelo citrino, reluzente de suor.
Manchas de carvão riscavam-lhe as faces como grafitos indecifráveis.
O tenente continuou o exame, tomado de uma fascinação
que não saberia explicar. Via a jugular do rapaz pulsar ao ritmo
do sangue.
(Relampagueou-lhe na mente uma imagem de seu passado universitário.
Em cima do estrado, o professor dizia:
"Cinestesia é o termo técnico que usamos para exprimir
a sensibilidade corpórea, proprioceptiva, isto é, esse
conjunto de sensações ,que nos vem de nossos músculos,
de nossas vísceras, juntas, tendões e outras partes de
nosso corpo.")
Podia quase ver as batidas do coração do prisioneiro.
Seus mamilos eram pardos. O umbigo sugeria grotescamente um clitóride.
A todas essas, ele evitava encarar o rapaz. Houve, porém, um
momento de reconhecimento mútuo em que os olhares
de ambos se encontraram e então o tenente, perturbado, viu a
própria imagem refletida nas pupilas de K., agora metidas no
fundo das órbitas do minúsculo guerrilheiro. Havia entre
K. e seu assassino uma parecença que não era propriamente
de traços fisionómicos, mas de clima - uma espécie
de ar de família.
O
prisioneiro sorriu, e isso aumentou a confusão do tenente. Não
era um sorriso altivo de desafio ou desdém, nem mesmo um rito
de indiferença. Havia naquele mal definido movimento de lábios,
algo de patético. Uma mensagem em código? o sinal de que
tinha instintivamente reconhecido no soldado estrangeiro moreno um secreto
aliado? Era possível que o nativo tivesse logo intuído
sua origem racial? Ou seria apenas esse incerto sorriso infantil, misto
de desmaiado medo e tímida esperança e já quase
arrependimento, com que o aluno que acaba de cometer uma travessura
na aula, sonda a possibilidade de comprar a benevolência do professor
que o vai punir? E o terrorista não parecia mesmo um menino de
escola posto de castigo ali no canto, na frente da classe?
- Estamos perdendo tempo. Meia-noite e quarenta e cinco!
O tenente voltou-se para o homem que acabava de falar. O sargento tinha
quase dois metros de altura, o porte atlético, a cabeça
completamente raspada. Vinha dele um cheiro ativo de suor.
Só agora o tenente percebia que tinha atrás de si o médico,
e que uma terceira pessoa estava encostada na parede, num dos cantos
do cubículo: um sujeito pálido, magro, de óculos,
também em uniforme como os outros.
Em cima da mesa tosca, viu uma lâmpada apagada, um jarro com um
líquido cor de mel, onde boiavam cubos de gelo, copos de papel,
um gravador de fita magnética e um cinzeiro sobre o qual jazia
a metade de um charuto recém-fumado, uma das pontas mascada e
ainda reluzente de baba. Aquela mesa e cinco cadeiras constituíam
o mobiliário daquela cela toda de pedra rusticada. Era decerto
aqui - pensou o tenente - que os "outros" torturavam seus
prisioneiros.
Olhou
em torno, tonto, sem saber por onde começar. A cabeça
continuava a doer-lhe surdamente. Buscou em vão uma janela. O
calor e o abafamento ambiente aumentavam. O homem pálido de óculos
aproximou-se dele e identificou-se.
- Sou o intérprete. - Revelou o nome por inteiro, o posto, e
a unidade a que pertencia. Depois perguntou. - Não será
conveniente aproximar o prisioneiro da mesa?
- Boa ideia.
O sargento deu dois passos na direção do prisioneiro,
agarrou a cadeira em que ele estava sentado, ergueu-a no ar e praticamente
a atirou no chão, junto da mesa. O nativo soltou um gemido, mordeu
o lábio e seus olhos se empanaram. Deve ter
batido com o ferimento na perna da mesa, concluiu o tenente.
O mal-estar físico começava a embotar-lhe a capacidade
de indignar-se.
- E agora, tenente? - perguntou o homenzarrão.
Sua antipatia pelo sargento aumentava de minuto para minuto.
Voltou-se para o médico, como para lhe pedir auxílio,
mas este, sem o encarar, murmurou:
- Peço que me escuse. Tenho boas razões para não
gostar... a... destas coisas. Estarei no corredor, se precisarem de
mim.
O tenente sacudiu afirmativamente a cabeça. O capitão
encaminhou-se para a porta mas, antes de sair, voltou-se e, de maneira
a que todos ouvissem, disse:
- Quero mais uma vez preveni-lo, tenente, de que esse rapaz tem um coração
enfermo.
O sargento sorriu sarcástico:
- Está certo de que este percevejo tem mesmo coração?
O
médico simplesmente voltou-lhe as costas e se foi sem dizer mais
palavra.
Sentaram-se os quatro à mesa, como se fossem começar um
jogo de cartas amistoso. O sargento acendeu a lâmpada e uma luz
intensa incidiu sobre o prisioneiro, que piscou ofuscado. O tenente
despejou chá num copo e bebeu dele, sôfrego.
- Não acho isso necessário - disse. - A luz só
pode aumentar o calor.
- Tenente, não conheço sua experiência em matéria
de interrogatórios. Mas na Polícia nós metíamos
em cima dos tipos uma luz ainda mais forte que esta. Garanto-lhe que
dava resultados...
O prisioneiro mantinha os olhos entrecerrados. O tenente notou que a
sua jugular agora pulsava num ritmo acelerado. A memória tornou
a mandar-lhe imagens acompanhadas de ecos de vozes. O professor universitário
explicava: "Cada pessoa é um idioma em si mesma, uma aparente
violação da sintaxe da espécie."
- Posso fumar? - perguntou o sargento. E, sem esperar resposta, prendeu
entre os dentes o toco de charuto, riscou um fósforo, acendeu-o,
inalou a fumaça, soltou uma baforada.
O prisioneiro ficou olhando com ar divertido para as volutas azuis que
subiam no ar espesso. O intérprete tirou um cigarro do bolso
e também o acendeu: o olhar do prisioneiro voltou-se para ele
e depois se fixou no tenente, como a esperar que
este fizesse o mesmo que os outros. A sintaxe da espécie... Ali
estavam ao redor da mesa algumas frases do contexto humano. A sua combinação
não parecia fazer o menor sentido para o tenente. Que tinham
aqueles quatro homens em comum, como membros da mesma espécie
animal? O desejo de sobreviver e de obter prazer da vida? O medo da
morte? A capacidade de amar, de odiar... sim, e de aborrecer-se? O desejo
de poderio e de auto-afirmação? Talvez também o
amor à liberdade. Mas
que era liberdade? Qual dos quatro era realmente livre? Talvez aquele
sujeitinho amarelo, raquítico e seminu que, se não tinha
podido escolher a sua vida, pelo menos fora suficientemente livre e
corajoso para escolher a sua morte.
E, acima de tudo, não era estúpido, absurdo o conjunto
de circunstâncias que havia reunido ali aqueles quatro "idiomas"?
Talvez a combinação daquelas "frases" formasse
o incongruente discurso de um parafrásico que, no fundo, podia
bem ser uma espécie de tentativa de descrição do
caos...
O tenente tinha a impressão de que sua cabeça inchava
aos poucos, era um porongo dolorido cheio de ecos. E seus olhos passeavam
de pulso em pulso, de relógio em relógio. Meianoite e
cinquenta.
O prisioneiro continuava a sorrir e a observar aqueles três homens
grandes.
- Estamos perdendo tempo - rosnou o sargento, mordendo forte a ponta
do charuto.
O tenente voltou-se para o intérprete:
- Bom, vamos começar o interrogatório. - Falava e via-se
e ouvia-se no ato de falar, como se fosse uma terceira pessoa na qual
não chegava a acreditar completamente. - Minha ideia é
fazer-lhe uma série de perguntas, algumas delas até fúteis,
e de repente, de surpresa, lançar a pergunta essencial: "Onde
está a bomba?"
- Isso é pura perda de tempo! - exclamou o sargento, insolente.
O tenente encarou-o e teve gana de esbofeteá-lo.
- Você tem por acaso - perguntou - a fórmula mágica
para arrancar desse menino a confissão que desejamos?
Os olhos do homenzarrão entrecerraram-se e seus lábios
se crisparam num sorriso cruel.
- Ah, tenente! Se tenho! Uma fórmula que nunca falhou, que me
lembre. - Inclinou-se sobre a mesa na direção do outro.
- Depois que a sua "psicologia" fracassar, eu vou empregar
o meu método. É simples. E velho como o mundo.
O tenente olhou para o intérprete. Podia jurar que o suor que
escorria daquela cara lívida era gelado. Ali estava um soldado
que cumpria com eficiência o seu dever, tratando de não
comprometer a alma. Outro neutro.
O sargento estendeu a mão para o prisioneiro, e quase lhe tocou
o ombro.
- Não se iludam com esse ar de inocência. Conheço
bem esses bandidos. Há menos de um mês, metade de meu pelotão
perdeu-se no matagal e caiu numa emboscada. Encontrámos mais
tarde todos os nossos companheiros mortos, numa clareira. Tinham sido
trucidados... estavam todos com as órbitas vazias. Os olhos jaziam
no chão ao lado dos cadáveres, podres e cobertos de formigas...
Lançou um olhar de ódio para o prisioneiro, que continuava
a sorrir inefavelmente como os mandarins de pedra da esplanada do museu.
o tenente olhava fascinado para o bíceps do sargento, onde via
uma mulher nua tatuada - uma fêmea de
quadris largos, fartos seios, púbis negro.
O prisioneiro tinha agora ambas as mãos espalmadas sobre a beira
da mesa. Eram minúsculas e de unhas tarjadas de preto. O tenente
queria induzir-se a odiar o prisioneiro para facilitar o interrogatório.
Dizia-se a si mesmo: foram essas
as mãos aparentemente inocentes que colocaram no Café
Caravelle a bomba que matou K. Ele é o assassino da mulher que
eu amava. Mas qual! De certo modo o prisioneiro era K. Por outro lado,
não teria ele o direito de mandar pelos ares, em pedaços,
os homens que vendiam e compravam o corpo de sua irmã, mesmo
que fosse preciso aniquilar também a vítima nesse ato
de vingança?
Por
alguns instantes o tenente e o intérprete, sob o olhar céptico
do sargento, ficaram a combinar o género de perguntas que iam
fazer ao prisioneiro. O homem pálido taquigrafava as suas notas
numa caderneta. Olhavam os três para o pequeno guerrilheiro, que
tinha ainda os olhos postos no tenente, agora com uma das
sobrancelhas erguidas interrogadoramente. O intérprete torceu
um dos botões do gravador, acendendo um olho verde. Apertou uma
tecla e os dois carretéis que continham a fita magnética
começaram a rodar. O prisioneiro olhava entre intrigado e divertido
para o aparelho. E o interrogatório começou. Durou vários
minutos, pontilhado pelos suspiros impacientes do sargento, que havia
tirado o blusão, com o qual enxugava repetidamente o torso suarento,
e que andava de um lado para
outro na cela, como um animal enjaulado. O prisioneiro reafirmava a
sua responsabilidade na explosão da bomba que destruíra
o Café Caravelle? Sim. Tinha ajudado a plantar uma segunda bomba
noutra parte da cidade? Tinha. Por quê? Recebera ordens. De quem?
Do chefe. Quem era o chefe? Não podia dizer. Por quê?
Ordens. Onde estava a segunda bomba? (Sorriso. Silêncio. O prisioneiro
fez uma das mãos avançar timidamente e acariciou o microfone
com a ponta dos dedos.) Como se chamava? Não tinha nome. (Ao
ouvir a tradução desta última frase, o sargento
berrou: "Estamos perdendo tempo!" O tenente olhava mesmerizado
para o prisioneiro. A lavagem de cérebro a que os comunistas
haviam submetido aquele menino - pensava-lhe tinha apagado até
o nome.) Onde morava? Por aí... Nas Montanhas? Não. Nos
arrozais? Não. Onde então? Onde fosse necessário.
Onde estava a segunda bomba? (Sorriso e silêncio.)
Tinha
passado a última noite em alguma sampana? Sim. Onde? Em alguma
parte do rio. Naquele mesmo rio que banhava a cidade? Sim. Onde estava
a segunda bomba?
Não podia dizer. Quem era o companheiro morto? Irmão.
Como se chamava? Não podia dizer. Por quê? Ordens. A que
horas ia explodir a segunda bomba? Não sabia.
Seu irmão declarara que a segunda bomba ia explodir às
4 da madrugada. Era verdade? Se ele dissera, devia ser verdade. Sabia
que essa explosão podia causar a morte de dezenas de pessoas
inocentes? Sabia. E isso lhe era indiferente? Mais de metade de sua
família tinha morrido queimada numa aldeia bombardeada pelos
aviões dos brancos. Lembrava-se exactamente do lugar onde ajudara
o irmão a
colocar a segunda bomba? Sim. Onde era? Não podia dizer. Sabia
que podia ser entregue às autoridades do Sul. Caso em que seria
inapelavelmente fuzilado? Sabia.
Não tinha medo de morrer?
Nunca
esperara escapar com vida daquela missão. Onde estava a segunda
bomba?
Não diria jamais. Nem mesmo que lhe prometessem a liberdade em
troca da
confissão? Nem mesmo. Neste ponto o sargento precipitou-se para
o gravador,
apagou-o, encarou o tenente e exclamou:
- Esse sujeitinho não é nenhum super-homem! Pode ser,
no máximo, um super-rato. Mas eu sei como arrancar a confissão
desse pigmeu em cinco minutos!
Turvou-se a imagem do prisioneiro ante os olhos do tenente. Parecia
pairar no ar esfumaçado como uma aparição sobrenatural.
K. em cima da cama, nua. Estátua de cobre. Aqueles homens iam
violar o prisioneiro como o brutal legionário violara a K. de
doze anos. E ele assistiria a tudo inerte (ou ia fugir?) como fizera
quando os três homens brancos tinham agredido e espancado seu
pai. Seu olhar fixava-se na jugular do rapaz, que pulsava vivamente.
O mau cheiro do suor no homem tatuado, agora mais próximo dele,
sufocava-o. O interrogatório prosseguiu durante pouco mais de
meia hora, mas sem nenhum resultado positivo.
O sargento dirigiu-se ao intérprete:
- Pergunte a esse rato se ele não tem medo que eu esmague seus
escrotos sujos.
O intérprete hesitou, mas como não notasse nenhuma reação
desfavorável no rosto do tenente, formulou a pergunta ao nativo,
na língua deste. O prisioneiro sorriu e encolheu os ombros.
O sargento olhou o próprio relógio-pulseira:
- Uma e vinte!
O tenente ergueu-se.
- Vamos tentar o pentotal. Chame o doutor.
O sargento ergueu os braços, apareceram-lhe os cabelos louros
e húmidos das axilas.
- Santo Deus! Vamos perder mais tempo ainda com essa bobagem. Sabe que
se o pentotal falhar, precisaremos esperar um tempão antes que
o prisioneiro esteja em condições de responder de novo
às nossas perguntas?
O tenente cerrou os dentes:
- Eu lhe dei uma ordem, sargento. Obedeça.
O homenzarrão lançou para o seu superior hierárquico
um olhar em que havia um misto de rancor e desprezo, e saiu da cela.
Voltou poucos segundos depois com o médico.
- Vamos tentar o pentotal sádico, doutor - disse o tenente.
O prisioneiro olhava meio espantado para o recémchegado, que
abriu a maleta e começou a preparar a seringa e a agulha em meio
do silêncio. Quebrou uma ampola, meteu dentro dela a agulha e
puxou o êmbolo da seringa.
- Façam o favor de segurar o braço do rapaz - pediu, não
se dirigindo particularmente a ninguém. O tenente avançou,
sentindo um estranho desejo de tocar a pele do prisioneiro. O médico
passou um chumaço de algodão embebido em álcool
sobre a prega do cotovelo do paciente.
- Tem veias sumidas... - murmurou, - Mas aqui está uma boa...
- Cravou nela a agulha e foi pressionando devagarinho o êmbolo.
O prisioneiro olhava o próprio braço, curioso, e de quando
em quando erguia a cabeça e focava o olhar no rosto do tenente,
como a pedir-lhe explicação de tudo aquilo.
Agora o tenente sentia contra o flanco as batidas do coração
do guerrilheiro. Houve como que um momento de comunhão. Ele pensou
de novo em K. e lhe veio uma súbita pena dela, do prisioneiro
e de si mesmo, e uma vontade quase irreprimível
de chorar. O sargento, de braços cruzados, esperava.
O médico levantou-se:
- Não acredito que o pentotal o faça confessar o que vocês
querem. Tenho observado muitos casos. Em alguns o paciente consegue
controlar-se e dizer apenas o que quer, apesar da sonolência.
Noutros, entra a fazer fantasias. Mas vamos ver.
- Guardou a seringa na bolsa, voltou-se para o tenente. - Se houver
alguma novidade, estou no corredor.
Retirou-se. O intérprete tirou o blusão, queixando-se
do calor. O sargento acendeu um cigarro. O tenente segurou com ambas
as mãos a cabeça do prisioneiro e mirou-o nos olhos, que
estavam já embaciados. O rapaz sorria sempre. Parecia agora numa
beatitude de nirvana.
O sargento olhou o relógio. Uma e meia. Coçou o peito,
onde se viam tatuados uma âncora e nomes de mulheres sob ramos
de flores. Dentro de alguns instantes o nativo deixou pender a cabeça
para trás. O tenente segurou-a, e pensou no filho,
certa noite de um remoto Inverno em que o menino havia adormecido em
seus braços. O sorriso continuava no rosto citrino. Os lábios
moviam-se produzindo sons. O tenente olhou interrogadoramente para o
intérprete, que se apressou a pôr
em funcionamento o gravador.
- Agora, silêncio, por favor. - Ergueu a voz e perguntou na língua
do nativo: - Onde está a segunda bomba?
Aproximou o microfone da boca do prisioneiro, que começou a falar.
Pronunciava palavras soltas, formava frases, que o intérprete
ia anotando. De vez em quando este fazia uma careta, como para significar
que não estava entendendo nada.
Os carretéis do gravador rodavam. O tenente olhava para os cabelos
empastados de barro do prisioneiro. Tinha nas mãos a cabeça
do filho que acabava de ser ferido por homens brancos, à saída
da escola.
O menino sangrava. O seu sangue...
O prisioneiro parecia agora mais animado, e o tenente teve a impressão
de que ele falava mais claro. A expressão do rosto do intérprete,
entretanto, revelava decepção, quase irritação.
O
prisioneiro continuou a falar, lentamente. Seus lábios pareciam
beijar o microfone. O sargento olhava para o relógio, impaciente.
Por fim o terrorista calou-se, cerrou os olhos e caiu no sono.
- Que foi que ele disse? - perguntou o tenente, olhando para o intérprete.
Este fez os carretéis rodarem em sentido contrário, e
pouco depois, apertando em algumas teclas, pôs o alto-falante
a funcionar. E foi traduzindo para os outros as lentas palavras do prisioneiro
que o gravador reproduzia.
A segunda bomba? Ah! A segunda bomba. Onde foi mesmo que deixamos a
segunda bomba? A segunda bomba? Ah! Meu irmão me roubou a pomba
que meu avô me deu. (Aqui se ouviu a voz do intérprete:
"Não é isso! Quero saber onde está a segunda
bomba. Lembra-se da primeira?") Lembra-me da primeira. Era branca.
("Não! A segunda bomba. A primeira explodiu há poucas
horas no "Café Caravelle"... Lembra-se?") Lembro-me.
("Onde está a segunda bomba?") Ah! A segunda bomba?
Escondemos a segunda bomba... a segunda bomba no coração
de um grande lato... um grande lato no meio da lagoa... As quatro da
manhã o lato vai explodir... bum! e todos os latos do mundo...
milhões... milhões!... vão pelos ares... com os
peixes de
todas as águas... e os peixes caem mortos na terra... e apodrecem...
e seu fedor será levado pelo vento... e todos os brancos fugirão
perseguidos pela podridão dos peixes...
Ah!
Mas em Setembro soprarão as monções de sudeste
trazendo as grandes chuvas... e as águas lavarão o ar...
e de novo o mundo ficará limpo... e o Sol brilhará outra
vez... ah!... brilhará por cem anos lunares... e então
toda a gente terá
peixe e arroz... e chá... ah!... um dia Buda descerá do
céu, num avião de ouro, e os latos nascerão de
novo em todas as águas... E o meu irmão me devolverá
a pomba que meu avô me deu...
O sargento avançou, gritando:
- Rato imundo!
Estas palavras soaram na mente do tenente como Negro imundo! E o homem
tatuado segurou o prisioneiro pelos ombros e pôs-se a sacudi-lo
com furiosa força, e a cabeça do rapaz escapou das mãos
do tenente e ficou a oscilar de um lado para
outro como se seu pescoço fosse de pano.
- Tenente, falta menos de duas horas para a bomba explodir! Precisamos
reanimar este cachorro para continuar o interrogatório. Eu lhe
disse que íamos perder o nosso tempo!
O oficial olhou para o intérprete:
- Chame o doutor. Depressa!
O sargento rompeu a esbofetear o prisioneiro, frenético. As faces
do tenente ardiam. E ele desejou matar a tiros o brutamontes.
O coronel dormia profundamente, estendido no sofá de seu gabinete
de trabalho. Ressonava forte e a intervalos soltava gemidos, como se
estivesse sofrendo um pesadelo.
No mesmo andar daquele edifício o major estava sentado à
sua mesa, respondendo a um chamado telefónico:
- Nada ainda? (Pausa.) Onde? A Universidade? É improvável,
mas não podemos deixar de verificar.
Principalmente nos dormitórios. Sim, diga que me telefonem se
descobrirem alguma coisa...
Repôs o fone no lugar. As pálpebras pesavam-lhe. Ardia-lhe
os olhos injetados. Passou a mão pelas faces, a contrapelo, e
sentiu a aspereza da barba.
Apanhou um lápis e começou a fazer rabiscos na folha de
papel que tinha diante de si, e onde se viam vários nomes de
pessoas politicamente importantes na cidade - e cujas casas ele recomendara
fossem cuidadosamente revistadas.
Fazia
pouco, um ajudante entrara em seu escritório para lhe comunicar
que o interrogatório fora interrompido porque o prisioneiro caíra
no sono. Ele não acreditava no pentotal. Para falar a verdade,
começava a não acreditar em mais nada. Gases produziam-lhe
dores abdominais. (Devia ser o maldito peixe que comera ao jantar.)
Seria o cúmulo se agora caísse com uma intoxicação
alimentar. E a de peixe deteriorado era a pior. Fatal, às vezes.
Lembrava-se de casos... E por falar em caso, o seu ficaria resolvido
se ele morresse. Um peixe podre teria tido o poder de solucionar um
problema ético, sentimental, familiar. Mas se por acaso sobrevivesse,
poderia escrever uma grande tragicomédia intitulada Jocasta e
o Peixe Podre. Fizera uma lista dos lugares que deviam ser revistados.
Templos e pagodes. Cinemas. (Tolice, pois às quatro da madrugada
todos os cinemas estavam vazios.) Hotéis. Sim, todos os hotéis
estavam sendo cuidadosamente esquadrinhados: foyers, quartos, corredores,
porões... Os hospitais recebiam um "tratamento especial".
A casa do arcebispo também. Mas como poderiam encontrar, no espaço
de tão curtas horas, uma bomba escondida numa cidade de cem mil
habitantes? A princípio pensara em sugerir ao comandante que
fizesse soar um alarme geral. Desistira da ideia, compreendendo que
isso poderia criar pânico e agravar a situação.
Acendeu
o cachimbo e começou a fumar, olhando fixamente para o telefone.
Dentro de alguns segundos, embora não desviasse o olhar do negro
foco, não viu mais o objeto, mas as imagens e ideias que lhe
passavam atropeladas pela cabeça. Que é que estou fazendo
aqui? Sou um robot. Um robot gordo. Apertem num botão e eu me
ponho a marchar como um soldado de mola. Um-dois! Um-dois! Apertem noutro
botão e eu repetirei as ordens que me deram. Não! O que
sou mesmo é um menino
exemplar. Eu amo a minha Mamã. Amo a minha Pátria. (Cantou
baixinho em falsete os dois primeiros versos do hino nacional.) Sou
um bom escuteiro que toma a mão das senhoras idosas e as ajuda
a atravessar a rua. Todos os dias faço uma boa ação.
Que boa ação fiz hoje? Entreguei um nativo raquítico
a três sujeitos grandes para lhe arrancarem um segredo. Sou um
ótimo petiz. Se um dia eu derrubar uma cerejeira a machadadas
e me perguntarem quem foi que fez isso, porei a mão no peito
e direi: "Fui eu, o bom menino nunca mente!" Dêem-me
a liberdade ou dêem-me a morte. Mas que é a morte? Dormir,
sonhar, quem sabe? No fundo, todos somos atores. Representamos vários
papéis ao mesmo tempo. Uns mal, outros bem. No fundo, todos uns
impostores. Diz o poeta que a vida não passa de um sonho de Verão.
Sonho de Verão, uma merda! Talvez tivesse sido melhor fazer soar
o alarme. Seja o
que Deus quiser. Do alto de seu trono Ele se ri desta comédia.
Talvez não exista bomba nenhuma. O terrorista que morreu quis
apenas fazer piada, o seu último trote.
A
segunda bomba bem pode ser uma mistificação. A vida é
outra mistificação. Mas eu sou um bom menino. Só
existem duas cores: o preto e o branco. Nós somos do lado do
branco, eles do preto. Quem afirmar que existem matizes é inocente
útil. Ou alienado. Ou inimigo de Deus, da Pátria, da Família.
(Bocejou longamente.) Mas eu sou um bom escudeiro. Somos uma nação
de escudeiros. Estamos ajudando o mundo a atravessar a rua da pobreza
e do subdesenvolvimento rumo da outra calçada onde se enfileiram
as deslumbrantes lojas que vendem os nossos rádios, os nossos
condicionadores de ar, os nossos televisores, os nossos automóveis...
os cinemas onde passam nossos filmes em que brilham os nossos heróis,
flores da raça humana.
Só ergueu uma das nádegas, contraiu os músculos
do abdomen e soltou explosivamente, num som insolente de trombeta, parte
dos gases que lhe comprimiam as tripas. Este é para a Pátria
- murmurou. Repetiu com o mesmo êxito a operação
pneumática e pensou: Este é para a Família. Tentou
produzir uma terceira explosão, porém o mais que conseguiu
foi uma ventosidade sem vibração nem música. Bom,
este é para a Humanidade. Ergueu-se. A segunda bomba podia ter
sido mesmo a derradeira empulhação do bravo guerrilheiro.
Mais um logro
entre os muitos logros de que seu Governo fora vítima desde o
dia em que os seus soldados haviam pisado pela primeira vez aquele solo
maldito.
Aproximou-se
da janela e ficou- a olhar para o jardim. O ar continuava parado e opressivo.
Pensou na mulher e nos filhos, mas dessa vez sem ternura. Talvez, pensando
bem, o mundo nada mais fosse que um produto dos gases intestinais que
o Criador soltara apocalipticamente no infinito, formando a nebulosa
inicial. Os
homens nesse caso nada mais seriam que subprodutos das fezes divinas.
Ou protozoários que se alimentavam delas ... O telefone tornou
a tilintar. Os três interrogadores estavam sentados à mesa,
enquanto o doutor ocupava-se com o prisioneiro, procurando reanimá-lo.
O sargento relanceou o seu relógio e disse:
- Temos apenas uma hora e pouco pela frente. - Olhou intensamente para
o tenente e rosnou. - às quatro em ponto uma bomba vai explodir
em alguma parte da cidade. Mulheres, crianças e velhos serão
estraçalhados... Dez, doze, vinte, trinta, cinquenta... quem
sabe? Pense bem, tenente, a vida dessa gente está em suas mãos.
Porque hesita? O outro não respondeu. Debatia-se numa dúvida.
Sabia que
o sargento queria que ele lhe autorizasse o emprego da violência.
Quero resultados- tinha dito o coronel. - Não farei perguntas.
É uma operação aritmética. Respirava com
dificuldade, como se um cinturão de aço lhe apertasse
o peito e a garganta. Estava banhado em suor. Os olhos do brutamontes
não lhe davam trégua. A mulher tatuada em seu biceps também
suava. O intérprete brincava com a lapiseira, rabiscava uma que
outra palavra no seu caderno de notas. Encolhido na sua cadeira, o prisioneiro
parecia ter diminuído de estatura física.
Que
fazer? Havia pouco, o maior mandara indagar sobre a marcha do interrogatório
e seu emissário lhe informara que a busca da bomba até
àquele momento não havia apresentado nenhum resultado
positivo. Que fazer, santo Deus? - Faltam apenas sessenta minutos para
a explosão... - disse pouco depois o sargento. - O senhor, tenente,
será o responsável pela morte de muita gente...
O prisioneiro olhava para o tenente. Este olhava para o prisioneiro.
Pareciam hipnotizados um pelo outro. Ele é um assassino - pensava
o oficial. - Ele matou K. Se eu autorizar o sargento a usar violência,
isso não implicará
necessariamente na morte desse rapaz. Mas é monstruoso!
- Faltam cinquenta e oito minutos... o intérprete estendeu a
mão, apanhou o jarro e despejou no seu copo o chá que
nele restava e bebeu-o. O tenente continuava a olhar para o prisioneiro,
que o doutor agora fazia levantar-se e conduzia para junto da mesa.
- Acho que este rapaz já está em condições
mentais de ser de novo interrogado - disse ele com ar soturno.
- Mas não se esqueçam de que seu coração
é fraco.
- Está bem, doutor- retrucou, áspero, o sargento. - Deixe
isso por nossa conta.
Os cadáveres carbonizados no asfalto. K., de olhos vidrados,
metade do corpo queimada. A estudante budista em chamas. Seu pai surrado
na rua por três homens parecidos com o sargento... o prisioneiro
olhava para ele - sentia o tenente - e parecia esperar dele uma palavra,
um gesto, qualquer coisa...
E aqueles três pequenos relógios a baterem e caminharem
inapelavelmente para a hora da explosão! Talvez a bomba estivesse
na casa de sua amiga a professora. Ou no orfanato que ela dirigia. Imaginou
as crianças mutiladas, desmembradas, desventradas, feitas uma
polpa sangrenta.
- Cinquenta minutos... - disse o sargento, passando o blusão
pela cabeça, pelo pescoço, pelo peito. Seu cheiro envolvia
o tenente, entrava-lhe pelas narinas, pela boca, pestilencial. O cubículo
parecia um forno aceso.
- Vamos, tenente. Basta uma palavra sua. Diga-a antes que seja tarde
de mais.
O sargento segurava o seu braço, apertava-o com força
crescente como se quisesse começar a tortura por ele.
- Não tem coragem?
O tenente encarou o interlocutor e, desvencilhando-se dele bruscamente,
disse, rouco: - o suficiente para lhe quebrar a cara, sargento.
O outro soltou uma risada.
- Isso! Agora estou gostando. Mas não sou eu quem está
em jogo. Vamos "acariciar" um pouco esse rato para ele dizer
onde está a bomba. Seja homem! O tenente ergueu-se, evitando
olhar para o prisioneiro. E berrou:
- Está bem! Empregue... o seu método!
O rosto do sargento iluminou-se. Ele se pôs de pé, brusco,
derrubando a cadeira.
- Muito bem, tenente! Mais tarde, se quiser, pode me quebrar a cara.
Mas agora vamos tratar do herói amarelo.
O tenente estava aturdido.
- Mas a coisa não pode ser assim tão vaga - prosseguiu
o homem tatuado. - Quero ouvir e registrar uma ordem explícita
de sua parte. - Dirigindo-se para o intérprete e, mostrando com
o beiço o gravador, pediu: - Faça essa máquina
funcionar.
o outro obedeceu. Acendeu-se de novo o olho verde e os carretéis
recomeçaram a rodar. O sargento apanhou o microfone e aproximou-o
da boca do seu superior.
- Espero as suas ordens, tenente.
O oficial hesitou. Veio-lhe à mente a palavra kamikaze. Quando
adolescente havia lido relatos sobre a Segunda Grande Guerra, e uma
das coisas que mais o impressionavam eram as trágicas façanhas
dos aviadores amarelos que, para não
errarem o alvo, atiravam-se com seus aviões carregados de bombas
sobre os encouraçados inimigos e morriam no holocausto. Ele agora
ia fazer um kamikaze moral. Gritou:
- Se necessário, pode usar a violência para arrancar do
prisioneiro a confissão que vai salvar da morte pessoas inocentes...
Ia voltar as costas para o sargento, quando este tornou a falar.
- Não, tenente, é preciso ficar tudo documentado. Diga
em voz alta e clara o seu nome e confirme a ordem.
O tenente fez aos berros o que o outro lhe pedia. Disse o seu nome,
o seu posto, deu o seu número e repetiu:
- Se for necessário, pode torturar o prisioneiro! Sob a minha
inteira responsabilidade!
Tremia da cabeça aos pés. Não era ele que tinha
falado. Mas outro, um desconhecido, um impostor, um sósia infernal.
Porque havia feito aquilo? Detestava a violência. Amava o prisioneiro.
Amava K. Odiava o sargento e sua raça. Mas era
um kamikaze. Acabara de assinar a sua própria sentença
de morte. Era tarde de mais para voltar atrás.
O
sargento havia desligado o gravador e afastado a mesa. O tenente precipitou-se
para fora da cela, batendo a porta atrás de si, e saiu a andar
às tontas pelo corredor deserto. Mas não tão depressa
que não pudesse ser alcançado por um grito humano horripilante,
um urro de animal ferido de morte. Levou as mãos ao meio das
pernas, encostou uma face na parede da galeria, depois tapou os ouvidos
com os punhos.
Por alguns instantes ainda ouviu os gritos lancinantes do prisioneiro,
entremeados das exclamações do sargento. Depois - quanto
tempo? dois minutos? três? cinco? dez? - fez-se um grande silêncio.
Uma figura surgiu no fundo do corredor e aproximou-se do tenente, a
passo acelerado. Era o capitão-médico, que exclamava:
- Suspendam o interrogatório! Foi encontrada a bomba!
O tenente olhou para ele, aparvalhado, como se não tivesse compreendido
o sentido daquelas palavras. Enquanto ambos caminhavam na direção
da cela, o doutor contou:
- Uma irmã do prisioneiro procurou um de nossos oficiais e confessou
tudo espontaneamente para salvar a vida do rapaz... A bomba tinha sido
colocada no dormitório de um colégio de moças...
do outro lado do rio. Foi desmontada há poucos
minutos... o médico abriu a porta da masmorra e entrou. O tenente
seguiu-o como um autómato. No primeiro relance nenhum dos dois
viu o prisioneiro. O intérprete, cuja palidez esverdeada se havia
acentuado, estava de pé a um canto, dobrado sobre si mesmo, vomitando...
Sentado à mesa e enxugando a cabeça com o blusão,
o sargento olhava para algo que jazia no chão da cela. Era o
prisioneiro. Estava completamente nu, as pernas abertas, os braços
estendidos, como um crucificado. Nas gazes que lhe envolviam a coxa
esquerda, via-se uma larga mancha de sangue. O tenente olhava do sargento
para o intérprete, incapaz de pronunciar uma palavra. O médico
ajoelhou-se ao pé do
prisioneiro e tomou-lhe o pulso. Depois testou-lhe o reflexo das pupilas.
Apanhou o auscultador e encostou os fones no peito do nativo, procurando
ouvir-lhe as batidas do coração.
Ao cabo de alguns instantes, ergueu a cabeça e disse:
- Este homem está morto.
O tenente sentiu um aperto de garganta. Seu coração disparou.
Um suor frio começou a escorrer-lhe ao longo da espinha. Teria
ouvido bem as palavras do doutor? O sargento olhava para o cadáver
com indiferença.
- Tem certeza, doutor?
- Absoluta.
O médico examinava os escrotos do prisioneiro.
- Vejo sinais de tortura neste corpo - murmurou.
O homem tatuado ergueu o carretel de fita magnética que tinha
numa das mãos e disse:
- Recebi ordens do tenente. A minha prova está aqui.
O doutor perguntou ao intérprete:
- o prisioneiro confessou?
O homem lívido passou as costas da mão pela boca e sacudiu
a cabeça negativamente:
- Não. E eu quero lavar as mãos de tudo isso. Fui designado
apenas como intérprete. Não cheguei a tocar o prisioneiro
nem sequer com as pontas dos dedos. O sargento acercou-se do médico
e pousou-lhe a manopla no ombro.
- Escute aqui, doutor. É necessário mesmo declarar que
o rapaz foi... foi torturado? Ninguém lhe vai fazer perguntas.
Ninguém sabe que houve um interrogatório. Pense bem, doutor,
esse menino não poderia ter morrido simplesmente de um ataque
cardíaco? Ninguém sabe quem é. Não tem nome.
Não é ninguém. O médico ergueu-se e enfrentou
o homenzarrão;
- No atestado de óbito direi a verdade.
O sargento agarrou-lhe o braço, mas o médico desvencilhou-se
dele num safanão.
- Não me toque! - gritou. - E não imagine nem por um momento
que me pode intimidar!
O sargento ficou vermelho e seus olhos fuzilaram. O tenente não
teve coragem de encarar o doutor. Saiu da cela e se foi ao longo do
corredor num ritmo de fuga, em
busca de ar livre.
A cidade pareceu-lhe apenas uma ampliação do cubículo
de onde acabava de fugir. O mesmo calor sufocante, o mesmo ar viciado
e espesso, a mesma sensação de confinamento irremediável.
Ficou a caminhar por alguns minutos pelas ruas desertas, sem destino
certo, arrastando o peso do próprio corpo, incapaz de um pensamento
lúcido.
Parou a uma esquina, sentindo a memória subitamente bloqueada.
Como se chamava? Esquecera o próprio nome. Não tinha passado...
Onde estava? Não sabia. Olhou em torno, desnorteado.
Sentou-se
pesadamente no meio-fio, junto de um poste de iluminação,
apoiou os cotovelos nos joelhos e escondeu as faces nas mãos
espalmadas e ficou a buscar, aflito, na memória dolorida a identidade
perdida. Vinha de longe um ribombar abafado como o de uma trovoada.
Pensou na chuva. desejou-a: uma chuva que caísse do céu
em torrentes, inundasse a cidade, lavasse aquele ar, formando uma correnteza
que pudesse levar seu corpo... para onde? Para o mar. Viu um menino
à beira de um grande rio, um barco movido a rodas, amarrado a
um trapiche sobre o qual se amontoavam balas de algodão... Lembrava-se
apagadamente da infância, tinha uma esmaecida ideia do lugar onde
nascera e cujo nome lhe soava na mente como o de uma cidade de uma civilização,
antiga e morta do Oriente, que ele associava a pirâmides... múmias...
um porteiro de hotel...
A luz da lâmpada caía em cheio sobre seu corpo. Olhou demoradamente
para as próprias botas, para as calças de um pano verde-oliva.
Uniforme militar. Sim, era um soldado. Tirou de um dos bolsos seus papéis
de identidade e ficou a examiná-los. Pareceram-lhe escritos numa
língua estrangeira. Compreendeu que tinha um número...
Era, acima de tudo, um número... Por fim descobriu os seus três
nomes e ficou a pronunciá-los baixinho, muitas vezes, procurando
neles a sua própria pessoa, seu passado... E, de repente, rompeu
a chorar convulsivamente como uma criança, recostado ao poste,
deixando que as lágrimas lhe escorressem em grossas bagas
pelo rosto, misturadas com o suor. Estendeu-se de costas sobre a calçada,
sentindo o contato quente das pedras. Viu a Lua, alto, no céu.
Se pudesse ao menos encostar a cara na Lua e refrigerar-se no seu gelo...
Cerrou os olhos de pálpebras ferradas de dor. E aos poucos foi
recuperando a identidade, fantasma a fantasma, horror a horror. Teve
a esperança - que em breve se dissipou - de que todas as coisas
passadas no cubículo de onde fugira fossem apenas elementos de
um pesadelo.
De novo pesou-lhe no peito a culpa de ter sido responsável pela
morte de um ser humano. Sentia ainda nas narinas o cheiro acre do suor
do sargento, o bruto que o obrigara a pronunciar a sentença de
morte do prisioneiro... E o homem tatuado guardava consigo a fita magnética
onde aquelas palavras terríveis tinham ficado gravadas.
Ergueu-se
devagarinho. Reconhecia agora a cidade. Descobria pontos de referência,
podia orientar-se. Olhou o relógiopulseira: três e cinquenta
e cinco. De que dia? Ocorreu-lhe então que dentro de menos de
dez horas entraria no avião que o ia levar de volta à
pátria. Sabia agora que talvez não pudesse embarcar mais
como um homem livre, mas sim como um prisioneiro acusado de crime de
homicídio. Caminhou até à beira do rio. Viu luzes
mortiças dentro de algumas sampanas. Ouviu vozes, tosses, gemidos.
Um gato miou, não muito longe. Acocorou-se à beira d'água,
mergulhou nela o lenço e depois passou-o pela testa e pelo rosto,
longamente. Por um instante ficou escutando o bombardeio distante. Ergueu-se
e saiu a andar, na direção do mercado e finalmente entrou
na grande avenida que costeava o rio. Pensava no gravador, no olho verde,
nos carretéis rodando... Sua memória era uma fita magnética
que registrara não só as vozes mas também as imagens
e os odores daquelas horas horrendas, na cela. Pensou no prisioneiro
caído sobre as lajes, morto, as pernas abertas, os escrotos esmigalhados...
Santo Deus! Como tinha sido capaz de permitir uma coisa daquelas? E
tudo inútil! No momento mesmo em que o sargento torturava o prisioneiro,
a bomba estava sendo desmontada pelos peritos do Exército.
Sentiu
então uma solidão insuportável. Desejou uma presença
humana e amiga. Mas quem? Quem? Passaram-lhe pela mente várias
faces... A professora! Descobriu que não estava longe da casa
dela. Umas três ou quatro quadras. Sim, podia procurar a professora.
Mas àquela hora? Ah! Ela compreenderia depois que ele lhe contasse
tudo. Precisava abrir-se com alguém, repartir com outra criatura
de Deus o peso que lhe oprimia o coração. Avistou a torre
de uma igreja, a silhueta da cruz contra o
céu. Foi então tomado de uma súbita esperança.
Conhecia o pároco, com o qual uma vez trocara meia dúzia
de palavras. Parecera-lhe que o velho falava razoavelmente a sua língua.
Podia confessar-se a ele. Sim, porque não? Um alvoroço
formigou-lhe no corpo. Ali estava a solução! O confessionário.
A absolvição. A salvação. A paz. De olhos
erguidos para a cruz da torre, continuou a andar, acelerando o passo...
A residência paroquial, de fachada caiada e singela, ficava ao
lado da igreja. Atravessou o jardim, inadvertidamente pisando em flores
(o cemitério, a rosa do caminho, a libélula, o Sol) e
bateu na porta da casa, primeiro timidamente, depois com mais força.
Esperou. Não ouviu nenhuma resposta. Aproximou-se de uma das
janelas e bateu na veneziana. Finalmente ouviu um pigarro, seguido de
uma voz de
timbre agudo:
- Quem é?
O tenente repetiu o próprio nome três vezes, tentando falar
a língua do pároco.
- Que é que deseja?
- Quero me confessar.
- A esta hora da noite?
- Por amor de Deus, padre! Tenha paciência comigo.
Preciso desesperadamente do seu auxílio. Misturava a língua
do sacerdote com a própria, repetia as frases, confusamente.
- Está bem. Já vou.
O tenente sentou-se no degrau da porta. Pensava no pastor batista de
sua infância. Que diria ele se o surpreendesse ali à entrada
da casa de um sacerdote católico, a quem suplicara ouvisse a
sua confissão? Seu pai e sua mãe também ficariam
escandalizados. O ar estava embalsamado pelo odor das flores do jasmimmanga
que se erguia sereno ao pé da igreja. A porta se abriu, enquadrando
o vulto escuro do pároco. O tenente ergueu-se e recuou alguns
passos, ficando na parte do jardim que o luar clareava, como para que
o velho pudesse identificá-lo melhor. O padre aproximou-se e
examinou-o por alguns segundos.
- Eu o conheço?
- Acho que não se lembra de mim... mas nós nos falámos
uma vez, faz algum tempo, numa dessas aldeias...
- Costuma vir à missa regularmente?
- Não.
O sacerdote mirou-o em silêncio. Era um homem baixo e franzino,
de cabelos completamente brancos.
- É pelo menos católico?
- Não, sou batista.
- Não compreendo... não me disse há pouco que queria
confessar-se?
- Sim, padre, quero. Preciso muito. Eu lhe suplico que não me
negue essa graça.
Cruzaram o pequeno pátio que separava a casa paroquial da igreja.
O padre entrou na sacristia para apanhar a estola e, sempre em silêncio,
encaminhou-se depois para o recinto do templo. A luz do luar, tamisada
pelos vitrais das estreitas janelas em ogiva, produzia naquele interior
um lusco-fusco de madrugada que o pároco esconjurou, acendendo
o grande lustre central, para maior desconforto do tenente, que o seguira.
O sacerdote fez uma breve genuflexão diante do altar-mor e depois
entrou no confessionário.
- Ajoelhe-se, meu filho - pediu ele. E sua voz ecoou estranhamente na
igreja vazia.
O tenente obedeceu, tomado de um sentimento de culpa e quase vergonha,
parecido com o que experimentara quando, menino, assistira a uma missa
inteira, escondido atrás de uma coluna, num templo católico.
- Agora conte-me o seu problema - disse o padre em voz baixa, quase
sussurrada. Seu hálito recendente a alho chegou às narinas
do tenente.
- Padre, sou responsável pela morte de um homem.
- Quer dizer que... matou alguém?
- Sim, indiretamente.
- Quando aconteceu isso?
O tenente hesitou, procurando situar-se no tempo.
- Faz pouco mais de meia hora... ou uma hora, talvez... não sei
ao certo.
Começou a contar a sua história desde o encontro com K.,
no quarto do Caravelle, até àquele instante.
- Por favor - pediu o sacerdote -, fale mais devagar e mais claro. Não
conheço bem a sua língua. O tenente estava de olhos cerrados,
ambas as mãos apoiando a testa, agora calado, como se tivesse
esquecido a própria história. Ouviu um mal-abafado bocejo
do pároco.
Sentia agora a presença das imagens dos santos em seus nichos,
espiões que o espreitavam.
- Padre, eu tinha que procurar um alívio na confissão.
Contou seu passado mais remoto, sua condição de negro,
seus remorsos. Quando de novo ficou em silêncio, o padre perguntou:
- O senhor acha que deu o consentimento para torturar o prisioneiro
movido por um sentimento de vingança? Quis castigar o homem responsável
pela morte da... mulher que amava?
- Não, padre! Desde o momento em que vi aquele pobre menino,
tive piedade dele, identifiquei-me com ele, como se ele fosse meu irmão.
Não houve nenhum ódio... o que houve... o que penso que
houve foi uma terrível confusão de espírito...
E a presença daquele homem grosseiro e brutal, esse sim, movido
por um desejo de vingança. O que não consigo compreender,
o que não me perdoo, é ter cedido à
sua pressão... Eu me pergunto se tive medo dele, medo físico.
Mas não creio... Foi algo ainda pior, uma espécie de medo
moral, se se pode dizer assim. Imaginei ver os pensamentos dele: "Esse
negro é um poltrão, um fraco ... " E por outro lado...
Calou-se. Pareceu-lhe que o padre ressonava. Mas tornou a ouvir-lhe
a voz:
- Continue.
- Por outro lado, eu não queria ficar com o remorso de não
ter conseguido salvar a vida de pessoas inocentes... o comandante não
me deixou alternativa. Não admitia que eu falhasse. Declarou
que não faria perguntas... Me diga, padre, me diga se eu queria
mesmo salvar aquelas vidas ou apenas agradar ao coronel branco... Estou
confuso... não sei...
- Obteve a confissão desejada?
O tenente sacudiu a cabeça.
- Não. O rapaz resistiu a todas as brutalidades. Só abriu
a boca para gritar de dor. E o mais estúpido, o mais grotesco
é que o sacrifício do prisioneiro foi inútil. Uma
irmã sua confessou espontaneamente onde ele havia colocado a
bomba... Estava por explodir no dormitório de um colégio
de moças... não me lembro em que parte da cidade... Veja,
padre, quando autorizei o emprego da tortura eu estava, por assim
dizer, tratando de salvar a vida dessas meninas... Ou estou errado,
padre? Por amor de Deus, me esclareça. Sou um assassino?
- Não me cabe julgar.
- Cometi um pecado mortal?
O sacerdote pigarreou e por alguns segundos guardou silêncio.
Depois, falando lentamente, escolhendo as palavras, murmurou:
- Meu filho... todos os homens são mortais. As moças cujas
vidas a explosão da bomba poderia destruir, mais tarde ou mais
cedo tinham de morrer. É uma lei divina. Sua intenção
de salvá-las da aniquilação física, tenente,
foi muito louvável, ninguém discutirá isso. - De
novo calou-se, tornou a pigarrear, pareceu buscar penosamente as palavras.
- Estou pensando nas ideias pragmáticas de seu comandante.
Superficialmente estão certas. Mas... mas a aritmética
de Deus é diferente da dos homens. Para principiar, as almas
não têm números nem nomes do arquivo do Todo-Poderoso.
Os homens possuem um espírito... uma dignidade, uma integridade
e você, meu filho, desrespeitou a dignidade daquela criatura do
Senhor... permitindo que ela fosse torturada, vilipendiada... tratada
como um objeto sem alma. Ferindo o prisioneiro, você feriu também
Deus.
- Mas estou arrependido, padre!
- Está mesmo arrependido, profundamente contrito ou apenas diz
isso porque deseja que eu lhe dê a absolvição para
aliviá-lo de um insuportável peso de culpa?
- Juro, juro por Deus que estou arrependido! - exclamou o tenente num
assomo agressivo.
- Não grite. Deus tem bons ouvidos. - Houve então um silêncio
que pareceu mais um súbito vácuo. Alho no hálito
do padre. A dureza dos bancos sob os joelhos. A sua canseira. Um desalento,
uma sensação de que nada, nada no mundo fazia
sentido.
- Deus deve ter bons olhos também - retrucou o tenente.
- Mas às vezes desconfio que Ele perdeu a memória.
- Não blasfeme, meu filho.
Ele começava a sentir no padre um inimigo. Pior que isso: um
estranho, indiferente à sua sorte. Um estrangeiro branco, de
olhos azuis, sotaque carregado. Entre ambos não haveria nenhuma
possibilidade de comunicação.
Sentiu um absurdo desejo de agredir o outro, o seu Deus e a sua religião.
- Padre... Deus deve ser branco e racista.
- Cale-se! Respeite este templo. - Havia uma ponta de rancor na voz
do sacerdote. - Você devia ser mais humilde. Veio aqui em busca
de alívio e perdão e no entanto está a dizer tolices
e irreverências.
O tenente ergueu-se.
- Não preciso do seu perdão. Nem da sua Igreja. Nem do
seu Deus.
Precipitou-se para a porta. Poucos minutos depois estava na rua, caminhando
de novo sem direcção certa. Do céu a Lua o seguia
como o olho plácido mas implacável do Deus que ele acabava
de repudiar.
Cinco minutos mais tarde estava sentado numa sala, na presença
da professora. Passara pela frente da casa e, vendo duas janelas iluminadas,
batera à porta, levado por um impulso. Sua amiga não parecera
surpreendida por vê-lo àquela hora e naquele estado. Convidara-o
logo a entrar. Agora ele nem ousava encará-la, inibido por um
constrangimento que lhe trancava as palavras na garganta. De cabeça
baixa, examinava com meia atenção o desenho do tapete
que tinha a seus pés, e que lhe lembrava vagamente - as futilidades
da memória!- certa gravura colorida de uma enciclopédia
que ele consultara, havia anos, para fazer uma dissertação
ginasial sobre a arte da tapeçaria. A professora vestia um ao-dai
de gaze azul por cima do pijama branco. Seus pés estavam metidos
em chinelos. Que direito tinha ele de violar a intimidade daquela mulher?
- Peço-lhe que me perdoe. Eu ia passando... Não resisti
ao desejo de vê-la.
- Está bem. Não se explique, não é necessário.
Fique à vontade.
Ela se sentou junto do sofá, na poltrona sobre um de cujos braços
jazia um livro fechado, com uma das páginas marcadas por um corta-papel
de marfim. Passou os dedos de leve pelo dorso do volume.
- Perdi o sono e vim para aqui ler. Deve ser o calor, o peso da noite...
Pouco alívio lhes vinha do pequeno ventilador que rodava e zumbia
em cima da mesinha, na frente do sofá. Sem erguer os olhos, ele
começou a narrar os acontecimentos daquelas últimas quatro
horas, minuciosamente, sem pausa,
compulsivamente... E sentia que a história que contava à
amiga já diferia da confissão que fizera ao pároco,
havia pouco.
A professora escutou-o em silêncio. E quando ele fez uma pausa,
ainda calada, ela acendeu um cigarro e pôs-se a fumar, pensativa.
- Agora me diga - suplicou ele -, me diga com toda a franqueza, sem
medo - de me ferir, - o que pensa de tudo isso. Estou confuso... Há
momentos em que me sinto um
criminoso, culpado pela tortura e pela morte de um ser humano. Noutros...
Calou-se, como engasgado.
- Culpado, criminoso... São termos legais e teológicos.
E a lei, como a Teologia, é uma invenção dos homens.
Estamos outra vez tropeçando em palavras. Mas a verdade é
que jamais nos livraremos de sua tirania. Nem da nossa teologia ou da
nossa mitologia particular. Eu prefiro dizer, sinceramente,
que você é, antes de mais nada, uma vítima da engrenagem.
E que é preciso desmanchar essa engrenagem e recomeçar
tudo sobre bases novas. É um trabalho para séculos, mas
alguém em alguma parte um dia tem de começar... O que
eu penso, em termos práticos, é que neste momento você
não se encontra em condições psicológicas
para chegar a uma conclusão lógica sobre a situação...
Ele
ergueu a cabeça e ficou de olhos piscos, como se a claridade
o ofuscasse. A professora ergueu-se e apagou a luz do lustre, deixando
só a da lâmpada que caía direta sobre a sua poltrona.
Depois saiu da sala e voltou alguns minutos mais tarde, trazendo, dobrada
sobre um dos braços, uma toalha, e, segura por ambas as mãos,
uma bandeja com um jarro de limonada gelada e um pequeno balde metálico
com cubos de gelo.
- Você deve estar com sede.
Deu-lhe um copo grande cheio de refresco, do qual ele bebeu avidamente,
esvaziando-o. A professora apontou para o sofá.
- Agora deite-se ali. Ponha a cabeça na almofada. Não
é necessário tirar as botas. Coloque os pés em
cima desse jornal.
Ele levou alguns segundos para compreender aquele convite... ou ordem?
Por fim, fez o que a amiga lhe dissera.
- Trate de relaxar esse corpo. Tente não pensar mais no seu problema.
Pelo menos esta noite.
Ela pegou a toalha e, ajoelhando-se junto do sofá, começou
a enxugar a testa e o rosto do amigo. Ele cerrou os olhos.
Sentiu depois o contacto do cubo de gelo que ela lhe passava pelas faces.
Ela tinha trazido um pedaço da Lua para junto da sua pele. Ela
era a boa. Sua única amiga...
- E a cabeça, dói?
- Um pouco.
- Tome esta aspirina.
Ele abriu os olhos, meteu na boca o comprimido, soergueu-se e aproximou
os lábios do copo que a professora tinha na mão, para
beber um gole de limonada, e enquanto ele fazia isso, ela punha a mão
em sua nuca para amparar-lhe a cabeça, bem como costumava fazer
a sua mãe quando ele era menino e ardia em febre na cama.
Tornou a estender-se no sofá e a fechar os olhos. De novo a amiga
trouxe a Lua para a sua face. Ele sentia um alívio, um refrigério.
Era a única, amiga que tinha no mundo. A imagem da própria
esposa passou-lhe pela mente como a fotografia de
uma pessoa vagamente conhecida que vimos um dia, numa revista, num relance...
o perfume que vinha do corpo daquela mulher era como uma aura do paraíso.
Mas que direito tinha ele à bondade dela?
- Estou ainda constrangido por ter entrado aqui a esta hora - balbuciou,
sem abrir os olhos, pois era-lhe mais fácil falar sem vê-la.
- Não se preocupe. Os amigos não se pedem desculpas. Nunca.
Ou então não são amigos.
- Você é tão bondosa, tão... tão...
- Por favor, não me endeuse. Não tente me convencer de
que sou boa. Não sou. às vezes até acho que sou
dura de mais. Se não fosse, não teria sobrevivido. Seja
duro também, especialmente numa circunstância como esta
em que, mais que nunca, você precisa de si mesmo.
- Eu sei, eu sei, mas estou confuso. Seja franca, acha que sou um criminoso?
- Você se sente com inclinações assassinas? A ideia
da tortura do terrorista lhe causou algum prazer?
- Não, ao contrário!
- Pois então fique tranquilo. E aprenda a viver sem a aprovação
dos outros. Contente-se com a própria.
- Estou certo de que não aprovo o que fiz.
- Está bem. Mas no estado em que se encontra, acho que devia
transferir para outro dia o exame do problema. Escute...
Estou pensando num aspecto da questão que você talvez não
tenha considerado.
- Qual?
- Preste atenção. Se o prisioneiro tivesse sobrevivido,
seria fatalmente entregue às autoridades locais e fuzilado pelo
crime de haver colocado uma bomba num internato em que podia matar dez...
quinze... vinte meninas... e também por sua responsabilidade
na explosão do Café Caravelle.
Ela fez uma pausa.
- Pense nas outras bombas - continuou - milhões de vezes mais
poderosas que essa engenhoca dos terroristas que era provavelmente de
fabricação doméstica...
O tenente abriu os olhos e fitou-os na amiga.
- Que bombas?
- Neste momento as maiores cidades do mundo, tanto do oriental como
do ocidental, estão correndo o risco de serem completamente destruídas.
Cada uma delas tem no arsenal inimigo uma bomba com o seu nome escrito
nos costados. Basta que um sujeito aperte num botão...
- Compreendo...
- Um chefe de Estado, reunido ao redor de uma mesa com o seu Gabinete
e os generais do Estado-Maior de seu Exército, bebendo café,
chá, vodka ou bourbon, pode decidir tranquilamente que seus técnicos
devem apertar nesse terrível botão e desencadear a hecatombe.
E então tudo irá pelos ares, colégios, igrejas,
hospitais, museus, pontes, jardins... E isso talvez signifique a extinção
da raça humana. Ele refletia... A professora passava-lhe de novo
a toalha pelo rosto.
- O que quero dizer é que ninguém parece estar muito alarmado
com essa possibilidade pavorosa, isto é, num grau proporcional
ao estardalhaço que se faz por causa de bombas como as que explodiram
esta noite e em outras. Não preciso dizer que não justifico
de maneira nenhuma o terrorismo, sejam quais forem os seus motivos e
objetivos... o que estou sugerindo é que vivemos sob o terrorismo
generalizado e permanente, e que a nossa vida e a nossa morte dependem
de um
punhado de "terroristas" que operam sob os mais variados "disfarces"...
Defensores da Civilização Ocidental... da Cultura... do
Proletariado... da Fé Cristã... da Liberdade... do Comunismo
Internacional, etc...
Se
essas bombas explodirem, eles não serão considerados criminosos
simplesmente porque não sobrarão juizes nem tribunais
para os julgar e responsabilizar... Porque tudo terá sido destruído,
inclusive a teologia, a filosofia, as ideologias... e os
apetites econômicos e políticos que inspiraram o gesto
fatal... Ele já se sentia melhor, embora persistisse o peso na
cabeça. Pediu à professora que apagasse a luz, e ela lhe
fez a vontade.
- Juro que amei aquele rapaz desde o momento em que o vi - murmurou
o tenente - como se ele fosse do meu sangue, meu irmão menor.
Senti pelo prisioneiro uma empatia tão grande, que quando ele
estava sendo... torturado, no corredor, sem
vê-lo, cheguei a sentir as suas dores no meu próprio corpo...
Eu sabia a espécie de tortura que o sargento lhe estava infligindo...
esmagava o símbolo da masculinidade do rapaz.
Creio que cheguei a gritar.
- Você se sentiu então castrado fisicamente pelo sargento
que antes, dentro da cela, o havia castrado moralmente, não é
certo?
- E o que me desespera é que hoje falhei mais de uma vez como
homem. Com K. no quarto, por cima do Café... Na cela, diante
do prisioneiro, deixando-me dominar pelo sargento... Mais uma vez me
encolhi, medroso, e fugi diante do homem branco...
Lembra-se da história da minha infância, quando meu pai
foi atacado na rua por três brutamontes? Por favor, diga-me o
que pensa de tudo isso!
- O que eu penso ou deixo de pensar não devia ter importância
para você. Vamos nos separar talvez para sempre dentro de poucas
horas. O essencial é o que você pensa de si mesmo.
O tenente rebolcou-se no sofá e ficou deitado de bruços.
- O médico vai me denunciar... Serei levado a conselho de guerra.
Ou entregue à justiça civil, quando voltar para a minha
terra.
Levantou-se, caminhou pela sala de um lado para outro, de novo tomado
de uma grande angústia, e depois deixou-se cair no sofá.
A professora sentou-se a seu lado.
- Não estou muito certa disso. Algum correspondente de guerra
teve conhecimento desse interrogatório?
- Não creio, mas de um modo ou de outro a imprensa não
tardará a saber... e naturalmente pedirá a minha cabeça.
- O coronel não lhe prometeu que não faria perguntas?
O maior não lhe garantiu sob palavra que hoje ao meio-dia você
estaria a bordo do avião que o levará para casa?
O tenente encolheu os ombros.
- Se forem pressionados, ambos tratarão de salvar a honra do
Exército e a própria. Não hesitarão em me
sacrificar. Não tenho testemunha do que esses dois oficiais me
disseram. Mas o sargento, esse guarda consigo a fita magnética
em que minhas palavras comprometedoras ficaram gravadas.
Como única resposta a professora teve um gesto que ele não
esperava: fê-lo pousar a cabeça no seu regaço. Nos
primeiros instantes ele ficou contrafeito e tenso. Ela continuou a falar
com a maior naturalidade:
- No momento não há palavra ou gesto seu que possa mudar
a situação. O importante é conservar a cabeça
fria e clara, os nervos controlados. O Sol de cada dia sempre traz uma
luz nova. Trate de dormir um pouco, depois tome uma ducha, faça
as malas, espere a hora de embarcar... e embarque!
- Para a outra frente de batalha?
- Seja para onde for. Mais tarde ou mais cedo você terá
que tomar uma posição. Nestes nossos tempos, a neutralidade
não é possível. Não existem mais esconderijos
físicos ou psicológicos no mundo. É a hora do compromisso.
- E se eu for levado a júri como responsável pela morte
do prisioneiro?
- Lute. Defenda-se.
- Mas será que em minha terra um negro pode esperar um
julgamento imparcial?
- Seja como for, defenda-se, lute, lute! Se não lutar é
porque pensa que merece mesmo castigo, e nesse caso nem a sua absolvição
unânime por todos os tribunais do mundo o livrará jamais
do sentimento de culpa. Mas mesmo que se sinta culpado, defenda-se,
reaja. Você tem ainda muita vida e mundo pela frente, muito tempo
para espantar os seus fantasmas e ficar adulto definitivamente.
Fez-se um silêncio. E então - de propósito ou num
gesto distraído? - a professora começou a acariciar-lhe
os cabelos com os dedos, um dos quais em certo momento lhe tocou a orelha,
produzindo-lhe uma cócega. Ele teve então consciência
de que sua cabeça estava aninhada sobre o vale do sexo daquela
mulher. Seu corpo ressuscitou para uma sensibilidade que não
era a da dor. Um calor, que não vinha da atmosfera
ambiente, lhe acendeu a carne, e a sua virilidade despertada enrijou-se,
agressiva, com tanta força que ele dobrou automaticamente as
pernas para esconder aquela vergonha.
Ficou
a respirar arquejante, a boca entreaberta, o sangue a pulsar-lhe forte.
Temia e ao mesmo tempo desejava que ela notasse o que se passava com
ele, embora tudo aquilo lhe parecesse estúpido, insensato. Ali!
A maciez daquelas coxas contra sua face! Era melhor erguer-se, correr
para a porta, fugir para sempre... Mas em vez disso ele meteu mais fundo
a cabeça naquele recôncavo cálido e palpitante.
E a sua mão, como se recebesse uma ordem que vinha do sexo e
não da cabeça, agarrou a perna da amiga. Sentiu imediatamente
a reação dela: um retesamento de músculos. Esperou
que ela o esbofeteasse - sim, ele era um canalha, merecia, merecia ser
esbofeteado -, mas os dedos dela lhe apertaram com força a orelha,
como a transmitir-lhe o recado de sua aquiescência.
-
Ó Deus! Ó Deus! Não permitas que isto aconteça!
- e sua mão, impelida por uma força cega que ele não
podia e já nem mesmo queria dominar, subiu por aquela perna,
apertou-lhe o joelho, o princípio da coxa, por cima da seda do
pijama, e dentro de um instante - como? como? como? - num silêncio
ofegante estava em cima dela no sofá, a mexer-lhe nas roupas
e depois a procurar com seu sexo o sexo dela. E quando o achou, foi
como se descobrisse a porta de sua salvação, da sua libertação,
da vida eterna... Segurando-a pelos ombros começou a fazer os
movimentos do amor, procurando-lhe a boca, que ela lhe negava. Os braços
da mulher continuavam caídos, o esquerdo ao longo da borda do
sofá, e o direito estendido ao lado do corpo. E então,
ansiado, ele descobriu, na sua confusão, que queria fazer-se
pequeno e entrar inteiro naquela fêmea, e ficar quieto, escondido,
protegido para sempre e sempre dentro de seu útero...
Por
fim foi sacudido por um orgasmo sem prazer, como um doloroso esvair-se
em
sangue, uma espécie de morte convulsiva... Ela espalmou ambas
as mãos no peito dele e empurrou-o. Ele se deixou cair pesadamente
no chão e ali ficou a respirar com dificuldade, as mãos
cobrindo as faces. Depois ergueu-se, acercou-se da janela, olhou para
a noite, mas sem vê-la, e desejou sumir. Vieram-lhe à mente
os repugnantes soldadinhos amarelos que se haviam revezado sobre o corpo
da menina, chupando os dentes de prazer.
- Perdão... - murmurou ele. - Não... não sei como
foi... que isto aconteceu.
A voz da amiga soou tranquila às suas costas.
- Não fale, por favor. Não se explique.
- Mas eu... - insistiu ele, sem coragem de voltar-se.
- Agora pode ir embora - disse ela com uma firmeza sem rancor. - Não
há mais nada, nada mesmo, que eu possa fazer por você.
Ele se encaminhou para a porta sem ânimo de olhar para trás.
Ao entrar no saguão do hotel, esperou que os soldados que montavam
guarda à porta central o prendessem, mas eles limitaram-se a
lançar um olhar de morna e passageira
curiosidade para seus documentos de identidade. Os ponteiros do relógio
de parede que estava por cima da porta do refeitório, marcavam
quatro horas e cinquenta minutos.
O
tenente aproximou-se do balcão da portaria e, dirigindo-se a
um vulto em cujas feições não atentou, pediu-lhe
a chave do quarto.
- Ah! O senhor tenente! - exclamou o velho porteiro, mostrando a dentadura.
- Sente alguma coisa? Muito pálido... Cansado, não? Um
conselho... Vá deitar-se ligeiro... pés voltados para
o sul... quietinho. Hoje dia não-auspicioso.
O tenente apanhou a sua chave, entrou no elevador e levou algum tempo
para discernir e apertar o botão sob o número cinco. A
gaiola começou a subir, lenta.
No quinto andar a perspectiva do corredor evocou-lhe a "catacumba"
com tamanha intensidade, que, estonteado, ele perdeu o equilíbrio
e teve de recostar-se numa das paredes, sentindo a iminência de
uma dor entre as pernas.
Retomou a marcha na direção de seu quarto. Um risco luminoso
sublinhava a porta dos aposentos do capitão-médico. Estacou.
Hesitou um instante antes de bater. De dentro veio uma voz: "Entre!"
Entrou. O médico estava sentado à escrivaninha, debruçado
sobre um livro. Vestia apenas as calças do pijama e estava descalço.
Por suas costas de pele sardenta, muito branca e de poros abertos, o
suor escorria.
- Sente-se, tenente - disse ele sem voltar a cabeça nem erguer
os olhos do livro.
O outro sentou-se.
- Sabia que eu vinha?
- Tinha quase a certeza...
- Naturalmente me reconheceu pelo cheiro do suor - pensou o tenente
num desconforto. - Sei que a hora é imprópria...
- Para um médico não existem horas impróprias.
O tenente sentiu um elemento de hostilidade na maneira como o outro
pronunciara aquelas palavras. Estudou o perfil do capitão, que
ainda não havia olhado para ele. O homem tinha uma cabeça
volumosa, testa olímpica, cabelos ruivos e crespos, óculos
no nariz adunco. Um intelectual judeu típico - pensou. Não
podia deixar de admitir para si mesmo que alimentava uma certa má
vontade para com os judeus. Tentava
reagir contra esse preconceito absurdo, mas os motivos mitológicos
e folclóricos de seu anti-semitismo estavam entranhados nele,
vinham da infância e da adolescência.
Ecoavam-lhe na memória vozes dos guetos negros de seu passado:
"Aquele judeu safado da casa de móveis me logrou."
- "já está aí de novo o judeu da prestação."
- "Raça maldita! Assassinos de Cristo!"
O doutor fechou o livro.
- Em que posso servi-lo?
Esta pergunta, que devia conter um oferecimento de auxílio, já
trazia, em seu âmago, denunciado pela entonação
em que fora feita, o germe de uma negativa.
- Para ser franco... nem sei bem porque entrei aqui. O outro voltou-se
para ele e ambos ficaram a entreolhar-se em silêncio.
- Acho, doutor, que o senhor bem pode imaginar o meu estado de espírito
depois... depois do que aconteceu. O médico ergueu-se, tirou
um cigarro do maço que estava em cima da escrivaninha, levou-o
à boca e acendeu-o.
- Espero que não tenha vindo aqui para me pedir que não
revele no meu relatório que o prisioneiro foi torturado.
O tenente sacudiu a cabeça negativamente.
- Mesmo que eu quisesse fazer vista grossa - continuou o médico
- e não quero, note bem, não quero... a verdade acabaria
por ser conhecida, pois neste momento o corpo do prisioneiro está
sendo submetido a uma necropsia.
- Não tenho o direito de lhe pedir nada, doutor. O senhor fará
o que sua consciência lhe ditar. Mas eu queria... queria ao menos
que soubesse as circunstâncias em que as
coisas se passaram.
- Estou informado de tudo. Conversei longamente com o intérprete.
Não tenho motivos para duvidar da validade do depoimento dele.
- O que eu quero mesmo lhe dizer... é que não sou nenhum
assassino.
- Todos somos assassinos, por comissão ou omissão.
Encurvado, a cabeça baixa, o tenente olhava obsessivamente para
os pés nus do outro, de um branco rosado, as unhas grossas e
pardacentas, um calo num dos dedos
grandes. - Foi num momento de exasperação... de confusão
de espírito... de desespero que dei aquela ordem. Pensei nas
pessoas que a explosão da bomba ia matar... nas crianças
- improvisou -, sim, principalmente nas crianças. Tenho: um
filho... Fui obrigado a escolher (se é que meu estado de espírito
me permitia raciocinar) entre me desgraçar, ordenando a tortura
de um ser humano, e arcar pelo resto da vida com o remorso de não
ter conseguido evitar a morte de tanta gente.
- E não é irônico que a bomba tenha sido descoberta
só porque uma menina veio dos arrozais voluntariamente e revelou
seu esconderijo, para salvar a vida de seu irmão... que àquela
hora provavelmente já estava morto?
O tenente ergueu-se, num assomo de cólera.
- Mas eu não dei ordem para matar o rapaz! Consenti apenas em
que o sargento aplicasse... o seu método.
- Eu lhe disse três vezes que o estado do coração
do prisioneiro era péssimo.
Encararam-se com rancor.
- Mas que teria feito você no meu lugar? Me diga! Me diga!
- Não teria aceito a incumbência de interrogar o terrorista.
- Mas foi uma ordem superior! Não me restava outra alternativa.
Seria preso, se não obedecesse...
- E isso não teria sido melhor para você?
O tenente tornou a sentar-se. Imagens passaram-lhe rápidas pela
mente, misturadas, superpostas. K. A professora. O prisioneiro. A suicida
da manhã. Teve a impressão de que ele destruíra,
torturara, violara aquelas quatro criaturas. Talvez merecesse mesmo
ser condenado. Mas não estava em condições de pensar
com clareza... o melhor era ir para o quarto, deitar-se, procurar esquecer,
dormir... Ou meter uma bala na cabeça e acabar com tudo de uma
vez!
Continuou a olhar para os pés do doutor, que agora se moviam
na sua direção. Queira Deus - pensou o tenente -, queira
Deus que esse homem não me ponha a mão no ombro, que eu
não poderei suportar seu contato. O outro, porém, limitou-se
a mostrar-lhe o pulso esquerdo, onde se via um número tatuado
- 12.345.
- Eu seria a última pessoa no mundo a tolerar ou justificar,
mesmo academicamente, a tortura... - disse o médico. - Você
conhece a minha história?
- Não. Porque havia de conhecer?
- Mas sabe que sou judeu, não sabe?
O tenente hesitou por um segundo, como se o outro lhe houvesse perguntado:
"Sabe que sou leproso?"
- Sei.
- Pois bem. Aos catorze anos me levaram para um campo de concentração
com toda a minha família: mãe, pai, um irmão mais
velho que eu, e outro de apenas dois anos de idade...
- Acho desnecessário dizer-lhe que sou negro. Nós também
conhecemos as humilhações dos guetos.
- Ah, tenente! Não queira comparar... Nosso caso foi mil vezes
pior, talvez o mais horrendo e insensato pesadelo da História,
Temos sido, durante milênios, os bodes expiatórios da Humanidade.
Não
entrei aqui para discutir o problema hebreu - pensou o tenente, remexendo-se
na sua cadeira, consciente agora de que sua dor de cabeça se
agravava. O outro caminhava na sua frente, de um lado para outro, e
falava, de fronte alçada, como se estivesse dando uma aula. O
tenente seguia, fascinado, aqueles pés nus.
- Jamais esquecerei o dia em que os guardas reuniram no pátio
murado todos os meninos do campo, entre doze e quinze anos, e nos fizeram
formar, completamente despidos, para responder à chamada. Ordenaram-nos
aos berros que nos perfilhássemos como soldados. As bestas nazistas
nos disseram então as mais sórdidas chacotas, nos chamaram
de judeus sujos e se riam, como se riam! Enquanto tremíamos de
frio e de medo, aqueles porcos estavam abrigados pelos seus capotes,
as suas botas, as suas luvas...
O médico aproximou-se da janela e ali ficou a olhar para fora.
Só então o tenente percebeu que o canhoneio havia cessado.
Olhou o seu relógio-pulseira e pensou: o dia em breve vai nascer.
- Mas isso foi apenas o princípio - prosseguiu o outro. - O pior
estava ainda por vir. Éramos milhares naquele campo... Vivíamos
como animais, subalimentados, com roupas insuficientes, no meio da sujeira
e do fedor... Tenente, quantas pessoas terão tido como eu o "privilégio"
de conhecer aos catorze anos, veja bem, catorze anos, todas as misérias,
brutalidades e vilezas de que é capaz um ser humano - Atirou
o cigarro fora, pela janela. - Foi a minha educação sentimental.
Meu pai e minha mãe passavam o tempo a rezar, confiando em Deus.
Jamais desesperaram. Mas nem todos eram assim. Às vezes um dos
internados tinha acessos de loucura. Um dia vi um homem precipitar-se
desatinado sobre a cerca de arame farpado que circundava o campo, e
pela qual passava uma corrente elétrica de alta voltagem. Esse
não foi o único suicídio. Houve outros... Muita
gente morria também durante os trabalhos forçados ou servindo
de cobaias para experiências pseudocientíficas...
- Porque terei de ouvir toda essa conversa? - perguntava-se o tenente
a si mesmo. Pensava em erguer-se e ir embora, mas uma força misteriosa
o prendia àquela cadeira, e seus olhos continuavam fixos nos
pés do homem do pulso tatuado.
- o comandante do campo era um coronel com veleidades artísticas
e dotado de um senso de humor negro, Descobriu entre os internados gente
que tocava instrumentos musicais e mandou organizar uma banda... Violinos,
bandolins, cordeonas, guitarras... Obrigava os músicos a tocarem
para acompanhar os condenados quando estes caminhavam para as câmaras
de gás. E como aquelas bestas nazistas riam dessas procissões
trágicas!
Foi
ao som de uma marcha... (como poderei jamais esquecer a melodia?) que
vi minha mãe com meu irmão menor nos braços, arrastar-se
para a câmara letal, junto com outras mulheres, todas completamente
nuas, sob as gargalhadas dos carrascos... Dias depois, meu pai teve
de cavar com outros prisioneiros a vala comum onde iam ser enterrados.
Fomos todos convocados obrigatoriamente para assistir à cerimônia.
Os condenados foram alinhados à beira da cova e assassinados
cada um com uma bala na nuca. Pensei em fechar os olhos... mas conservei-os
abertos. Meu pai voltou a cabeça e eu compreendi que ele me procurava
no meio da multidão. Não me viu. Eu quis gritar-lhe alguma
coisa mas a voz me ficou trancada na garganta. Vi quando um daqueles
animais lhe meteu uma bala na nuca, e ele
tombou...
- Está bem! Está bem!
- Não, tenente, quero que compreenda bem porque não posso
tolerar a violência. Vi muita gente do nosso campo torturada,
humilhada. Meu irmão foi um deles... E um dia um porco nazista,
à ponta de baioneta, obrigou um rabino, um ancião respeitável,
a limpar com as barbas e a língua as imundícies de uma
latrina. Você já viu um homem vilipendiado, mas viu mesmo?
- Está claro que vi! Já lhe disse que sou negro. Quando
menino, eu estava presente quando o meu pai foi atacado e espancado
na rua por três homens brancos. No dia seguinte ele se enforcou.
Vocês, judeus, não têm o monopólio do sofrimento
no mundo!
Como
se não tivesse ouvido estas palavras, o médico sentou-se,
apanhou outro cigarro e acendeu-o.
- Fui salvo por um milagre. Um velho que tomou conta de mim, depois
que meus pais morreram, me escondeu na hora em que nos buscavam para
entrar na câmara da morte. Dias depois chegaram as tropas aliadas,
fui libertado com os sobreviventes do campo e mais tarde mandado para
o seu país, tenente, onde tinha um parente que me reclamou. Foram
necessários muitos anos de tratamento psiquiátrico para
eu voltar a ser uma pessoa normal... se é que sou normal... ou
se existe normalidade no mundo. Depois comecei a ler artigos e livros
sobre as atrocidades nos campos de concentração nazistas...
Procurava identificar as caras nas fotografias do campo em
que havia estado, na esperança louca de rever as faces da minha
mãe, do meu pai, de meus irmãos, e a minha própria.
Continuei a alimentar assim o meu ódio, um ódio que passou
a ser a minha razão de viver. Detestava a raça que nos
torturou... a sua língua, a sua cultura... tudo! Depois cheguei
à conclusão de que ninguém pode passar a vida odiando
com essa intensidade e ao mesmo tempo preservar o seu
equilíbrio mental. Fiz um prolongado tratamento psicanalítico.
Procurei também o consolo da religião. O rabino que me
instruiu me aconselhou o perdão, o esquecimento... Ora, esquecer
não depende de nossa vontade. E o perdão, estou convencido,
precisa ser mais que uma palavra...
Ergueu-se, foi até ao quarto de banho e voltou de lá segundos
depois com uma toalha molhada, que começou a passar pelo peito.
-
Formei-me em Medicina, escolhi uma profissão que é a negação
mesma do assassínio. Adotei a nacionalidade do país que
me acolheu. Evitei o casamento. Tive medo de ter filhos, porque eles
seriam judeus como eu, e jamais pude esquecer aquelas crianças
que vi no campo, esqueléticas de fome, roxas de frio ou mortas,
deformadas, vítimas das "experiências" de um
médico louco.
Porque não podia encarar o judeu? - perguntava-se o tenente.
Porque insistia em olhar com aquela intensidade malévola para
os pés dele?
- O tempo contribuiu para esmaecer um pouco todas essas lembranças
sombrias. Tentei muitas vezes perdoar, como me aconselhou o rabino.
Mas a dificuldade é que não consegui ainda perdoar-me
a mim mesmo por ter sobrevivido. Essa ideia me perturbava e ainda perturba.
Porque Deus, dentre todos os membros da minha família, escolheu
a mim para poupar? Meu pai era um bom homem. Minha mãe, uma santa.
Meu irmão mais velho, muito mais inteligente e melhor que eu.
O meu irmão menor, um inocente. Porque foi que Deus me preservou?
Será que me reservava alguma missão especial? Se tal é
o caso, que missão é essa?
O tenente teve ímpetos de exclamar: "Pergunte a Ele! Foram
vocês que inventaram esse Deus." Mas continuou calado. Notava
agora que havia uma cicatriz no peito do pé esquerdo do outro.
- Se você me perguntar porque me apresentei voluntário
ao Exército e pedi que me mandassem para cá, eu lhe poderia
dizer (mas isso seria apenas parte da verdade) que eu quero ajudar os
outros a viver, curar suas feridas, aliviar suas dores, sem olhar raça,
credo religioso ou partido político. Mas, bem no fundo, desconfio
que eu quero mesmo é expor-me aos perigos de ser morto em combate.
Veja bem, tenente,
procuro dar a Deus mais uma oportunidade para verificar se é
a mim mesmo que Ele quer poupar.
- Todas essas coisas que você contou se passaram há vinte
anos.
O
médico deixou a toalha cair no chão. Sem levar em conta
a interrupção, prosseguiu:
- Você há pouco pôs o seu problema em termos de meios
e fins. Eu não aceito a ideia de que os fins justificam os meios.
O cão danado que era o chefe dos nazistas aceitava esse princípio.
O mesmo acontecia com o sinistro ditador comunista. Um invocava como
objetivo sagrado a defesa da raça ariana, que era um mito, uma
mentira, o outro achava que todos os meios eram bons para promover a
socialização do mundo. Pense nos milhões de criaturas
humanas que morreram, perderam a liberdade e foram vítimas de
atrocidades e injustiças por causa dessas falácias...
O tenente pôs-se de pé.
- Não vim aqui para discutir política ou filosofia.
- Para que veio, então?
- Não sei. Nem quero saber.
- Mas espere, tenente, você vai embarcar de volta à pátria
dentro de poucas horas. Nossos caminhos se separam aqui e agora. Quero
terminar meu argumento. Naquela cela subterrânea, havia uma pessoa
viva de carne, osso, sangue, nervos... dotada de uma alma. Era lícito
mandar torturá-la para salvar... uma abstração?
Sim, tenente, os ditadores que mencionei costumavam falar nessa dupla
abstração que é a
Humanidade do Futuro. Quem eram as pessoas que a bomba ia destruir?
Naquele momento em que o prisioneiro ficou à sua mercê,
tenente, não passavam de abstrações, hipóteses.
E quem lhe garantia a existência real da segunda bomba? Não
podia ter sido tudo pura invenção vingativa do terrorista
moribundo?
- Mas ficou provado que era uma realidade.
- O que não altera o raciocínio que acabei de expor.
O tenente encarou o interlocutor e sentiu que o detestava.
- Você quer se vingar em mim do mal que lhe fizeram os nazistas.
- Absurdo! Você não compreendeu nada do que eu lhe disse.
- Agora sou eu o seu bode expiatório.
Os olhos cor de âmbar do homem de pulso tatuado o fitavam. O tenente
tornou a falar:
- A verdade é que vocês, os judeus da minha terra, não
são diferentes dos brancos cristãos: também detestam
e discriminam os negros!
- E os negros, por sua vez, não nos suportam! Quando vi você,
farejei logo um anti-semita.
Ficaram
a medir-se num desafio. Foi nesse momento de tensão que a campainha
do telefone soou. O tenente estremeceu. (Devem estar me procurando.)
O médico acercou-se da mesa e apanhou o fone.
- Alô! Sim, é ele mesmo. Que é que há? -
Ficou a escutar, de cenho franzido. A voz que vinha do outro lado do
fio parecia o zumbir de uma abelha dentro de uma caixa de fósforos.
Enquanto recebia a mensagem, o médico olhava para o tenente.
- Quantos?... Que desastre! Sim, estarei pronto em dois minutos.
Repôs o fone no lugar. Estava pálido e conturbado.
- É a mim que estão procurando? - indagou o outro.
Por uma fração de segundo o médico hesitou. Depois
contou:
- Uma coisa horrível aconteceu... Aviões de nossa Marinha
despejaram por engano bombas de napalm numa aldeia amiga onde estavam
acampados soldados nossos... Estão me chamando com urgência
ao hospital central.
Como se despertasse de repente, desatou os cordões do pijama,
cujas calças lhe caíram aos pés. Desvencilhou-se
delas e começou a vestir-se às pressas. Enfiou as calças
do uniforme, depois o blusão e finalmente as botas, sem meias.
O tenente continuava parado no meio do quarto, as ideias num tumulto.
Teria compreendido claro o que o médico acabara de contar?
- A coisa se deu há pouco mais de uma hora. Informaram-me de
que as baixas são pesadas... Um verdadeiro desastre.
Pelo menos trinta mortos e talvez mais de oitenta feridos...
Foi o que me disseram.
O tenente escutava, perplexo.
- Estão começando a chegar os primeiros feridos - continuou
o capitão, apanhando a boina. - O jipe que me vai levar ao hospital
já deve estar lá embaixo. Vamos!
Encaminharam-se para fora do quarto.
- Porque está rindo? - estranhou o doutor, junto da porta do
elevador, depois de ter premido o botão de chamada.
- Porque tudo isso é uma farsa, uma trágica farsa! - exclamou
o outro. - Trinta mortos, mais de oitenta feridos...
O elevador chegou. Entraram. Começou a lenta descida.
- O almirante naturalmente mandará ao general um pedido de escusas
- resmungou o tenente -, dirá que lamenta profundamente o que
aconteceu... e que tudo foi um "erro de cálculo"...
E a coisa ficará por isso mesmo. Amanhã esses mesmos pilotos
serão condecorados por outros feitos dessa natureza, desde que
as vítimas não sejam os nossos bravos rapazes e sim os
"ratos asiáticos".
Sem dar-lhe ouvidos, o médico abriu a porta do elevador e cruzou
o saguão a passo acelerado. O tenente seguiu-o, ele mesmo não
sabia porquê. Junto da calçada, à frente do hotel,
estava estacionado um jipe, com um soldado do corpo médico ao
volante. O doutor saltou para dentro dele e perguntou:
- Quer ir até ao hospital, tenente?
O outro subiu para o carro como um autômato que recebe um impulso
elétrico. Sentou-se no banco traseiro. O jipe arrancou, sua buzina
rompeu a uivar. O tenente teve a impressão de que aquele som
agudo lhe trespassava o crânio como um estilete. Tapou os ouvidos
com as mãos. E pensou: Agora vão pedir a minha cabeça.
Serei levado a Conselho de Guerra. Ou entregue à justiça
civil. Como um criminoso. Este comando cumpre o dever de comunicar que
esta madrugada seus aviões por um deplorável erro de cálculo..
etc... etc... etc...
O
horizonte começava a clarear. Viam-se já nas ruas homens
e mulheres pedalando suas bicicletas, rumo dos lugares onde trabalhavam.
O jipe uivava como um animal ferido de morte. E então o tenente
olhou para o céu e reencontrou a Lua, que
esmaecia como o firmamento. O automóvel estacou à porta
do hospital, onde se via um grande movimento de veículos e soldados.
Gritavam-se ordens. Quando deu acordo de si, o tenente estava sozinho
num dos degraus do pórtico. O médico tinha desaparecido.
Dois homens tiravam uma padiola com um ferido de dentro de uma ambulância
parada junto ao meio-fio. O tenente acompanhou-os escadaria acima e
entrou no hospital. As luzes do corredor lhe revelaram o horror... O
soldado queimado por napalm havia quase perdido a forma humana, mais
parecia um animal
escorchado, de um vermelho vivo de lagosta que acaba de sair de um caldeirão
de água fervente - as faces sem feições, a carne
já com um aspecto purulento. O tenente encostou-se numa parede,
atordoado, a visão embaralhada e ali ficou, enquanto passavam
por ele outras macas com pedaços de carne queimada, alguns dos
quais ainda gemiam.
Saiu
para a rua, uma náusea a contrair-lhe o estômago. Desceu
as escadas, tropeçando aqui numa padiola, chocando-se mais adiante
com um soldado, e se foi madrugada adentro. O calor continuava pesado,
opressivo, implacável. Duas mocinhas nativas passaram por ele,
montadas nas suas bicicletas, e suas vozes frescas e musicais chegaram
até aos seus ouvidos. Parou, imaginando que alguém tivesse
pronunciado o seu nome. Depois retomou a marcha sem norte. Meteu-se
em becos e ruelas, arrastando o corpo dolorido, a cabeça que
parecia inchar, crescer cada vez mais... Por fim entrou numa rua larga,
com muitas árvores, através das quais se avistava o rio,
onde juncos e sampanas se moviam lentamente. Um jipe surgiu a uma esquina
e aproximou-se dele em marcha lenta e em sentido contrário. A
luz dos holofotes cegou-o por um instante. (A mariposa - a estudante
suicida - a cruz de fogo.) O carro estacou junto do meio-fio, a uns
cinco metros de onde estava o tenente. Um soldado saltou para a calçada
e aproximou-se. Era da Polícia Militar e estava armado de metralhadora.
- Por obséquio - pediu -, os seus papéis de identidade!
Mas o que chegou à cconsciência do tenente foi um frase
que a memória enferma lhe enviou, uma frase antiga, temível
e carregada de injustiças e ameaças. "Agarra o negro!"
"Agarra o negro!" "Agarra o negro!"
Uma fúria rebentou-lhe o peito. Ah, não! Desta vez, não!
Precipitou-se sobre o soldado, arrebatou-lhe a metralhadora das mãos
e derrubou-o com um pontapé na boca do estômago.
Recuou dois passos e gritou: "Foge, papai, foge!" Destravou
a arma, apontou-a para os holofotes, puxou no gatilho e com uma descarga
estilhaçou e apagou os olhos do monstro. A seguir, numa feroz,
orgulhosa alegria de homem que de repente descobre a porta da liberdade,
ergueu a alça de mira para alvejar os vultos brancos encapuzados
que se esgueiravam por entre as árvores do seu jardim... Depressa,
antes que acendam a cruz de fogo!
Uma
rajada de metralhadora rasgou-lhe o peito de lado a lado, cosendo-o
por alguns segundos ao muro que lhe barrava a retaguarda. Deixou cair
a arma, afrouxaram-se-lhe as pernas, dobrou-se sobre si mesmo, e, sangrando
pela boca, caiu de borco, com uma das faces sobre as lajes da calçada...
E as últimas imagens que suas pupilas refletiram, e que lhe chegaram
sem sentido à sua consciência que se apagava, foram
duas botas militares negras, por entre as quais lucilava longe a luz
da lanterna de uma sampana que cruzava o rio. O sargento ajoelhou-se
ao lado do homem caído, segurou-o pelos ombros, fê-lo voltar-se
de cara para o céu e depois focou nele o feixe de luz de sua
lanterna elétrica.
- Conhece? - perguntou o fuzileiro, que só agora, as mãos
espalmadas sobre o estômago, se erguia do lugar onde fora derribado.
- Não - respondeu o soldado, ainda mal podendo respirar.
- Chamamos uma ambulância?
- Não há tempo. Vamos levá-lo para o hospital no
jipe. Depressa!
O sargento segurou o desconhecido por baixo dos braços, o outro
apanhou-lhe as pernas à altura dos joelhos e assim o ergueram
e puseram sentado no banco traseiro do carro. Ficou na calçada
uma poça de sangue para a qual olhava agora fixamente- o homem
que metralhara o tenente. Era um soldado negro.
- Vem ou não vem? - gritou o sargento.
O soldado subiu para o jipe e acomodou-se ao lado do companheiro que
estava ao volante. O carro se pôs em movimento. Sentado junto
do tenente, o sargento tomou-lhe o pulso e depois apalpou-lhe o peito
à altura do coração.
- Está ainda vivo? - perguntou o soldado que dirigia o veículo.
- Duvido - respondeu o sargento, limpando num lenço os dedos
manchados de sangue.
- Que será que deu no tenente? Eu apenas lhe pedi os papéis...
- Agora só Deus sabe. Porque este homem está morto.
O negro ia de cabeça baixa, balbuciando:
- Logo eu... logo eu...
O companheiro deu-lhe uma palmada rápida no joelho e tratou de
consolá-lo.
- Se você não tivesse atirado nele, a esta hora estaríamos
todos liquidados, com o bucho cheio de chumbo... E morreria muita gente
mais. Na hora em que ele levantou a alça de mira da metralhadora,
passavam pela rua homens e mulheres a pé e
em bicicletas... Ia ser um morticínio danado.
- Mas porque tinha de ser eu... logo eu? Não vê que ele
é da minha raça? - Seus lábios tremeram, lágrimas
lhe brotaram dos olhos e lhe escorreram pelas faces pardas.
Havia
já clareado o dia quando o coronel-comandante entrou no hospital
em companhia do major. Foram ambos levados para a pequena sala onde
se encontrava o corpo do tenente, estendido numa cama de ferro e coberto
até à cabeça por um lençol. O major descobriu-lhe
o rosto, cuja pele as tintas da morte haviam deixado mais clara. O coronel
fitou-o longamente e depois murmurou:
- Era um fraco, um neurótico. Não sei como mandam gente
assim para cá. Nunca fiz muita fé nesses testes psicológicos...
Esse homem quase matou quatro excelentes soldados, isso sem contar os
civis que poderiam ter sido atingidos pelas balas perdidas de sua metralhadora...
O
major refletiu melancolicamente que as almas perdidas o preocupavam
muito mais que as balas perdidas. Olhando também para o cadáver,
disse:
- Coitado! Tinha terminado seu tempo de serviço. Amanhã
de manhã poderia estar em casa... E então uma mulher de
ambos desconhecida, e que ali chegara sem que nenhum deles tivesse percebido,
pousou com profunda ternura os seus olhos cor de violeta no rosto do
morto e sussurrou:
- Ele já está em casa.
O Sol apontava por trás das montanhas quando o velho que, ao
entardecer do dia anterior, havia apanhado uma pomba-rola com sua armadilha
de bambu, saiu de sua choça e pôs-se a acender um fogo
de gravetos para esquentar a água do chá matinal. Fumando
o seu cachimbo de barro, acocorou-se junto da chaleira de ferro e contemplou
satisfeito a gaiola onde a ave, imóvel, parecia olhar para ele.
Ia armar de novo a sua arapuca, usaria a pombinha como engodo e esperaria
que outros pombos caíssem na armadilha. Poderia esperar todo
aquele dia. E muitos outros dias. Tinha muito tempo pela frente ou não
tinha nenhum, o que dava no mesmo. Pensou nos dois netos que haviam
sido mortos durante a noite, mas sem muita tristeza. Um dia haveria
de reencontrá-los, em algum lugar, de alguma maneira. Lembrou-se
de que quando um deles era menino ele lhe havia dado de presente uma
pomba-rola. Sua boca desdentada pregueou-se num sorriso evocativo, entre
nostálgico e divertido. Depois quedou-se a devanear. Imaginou-se
a caminho do mercado, com uma canastra cheia de pombos...
Ouvindo
um ronco que vinha do céu e sentindo um sopro que sacudia os
arrozais e lhes encrespava as águas, ergueu a cabeça e,
sempre sorrindo, ficou a contemplar os helicópteros militares
que, como um bando de gordos patos selvagens de plumagem verde, seguiam
numa revoada rumo da cordilheira.
FIM
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