AUTORES CÉLEBRES
JOSÉ RÉGIO

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"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Como, pois, sereis vós Ide! Tendes estradas, Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, |
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Sim, foi por mim que gritei. Foi em meu nome que fiz, Foi quando compreendi Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, O que buscava Que só por me ser vedado Senhor meu Deus em que não creio! Sofro, assim, pelo que sou, Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação! Se os gestos e as palavras que sonhei, Ah! também sei que, trabalhando só por mim, Mas o meu sonho megalómano é maior Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros Sim, descerá da tua mão compadecida, |
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PERSONAGENS: COLUMBINA - PIERROT - MEFISTÓFELES - O HOMEM MASCARADO - A MULHER MASCARADA - UM CRIADO - A DONA DA CASA - UM RANCHO DE MASCARADOS ATO ÚNICO (A ação decorre na atualidade, durante um baile de segunda-feira de Entrudo, numa casa elegante da Capital. A cena representa uma sala próxima do salão de baile. Arranjo simples, rico, e de bom gosto. Grande porta envidraçada ao fundo, para uma varanda. Porta larga à esquerda, outra à direita. A sala está deserta ao subir do pano. Chegam, abafados, os sons dum terceto que toca no salão. Ouvem-se durante uma parte do diálogo, até que se indique silêncio. Columbina entra a correr pela esquerda, logo seguida de Pierrot. Mefistófeles sai-lhe ao encontro pela direita. Columbina corre até boca de cena, volta-se de repente para eles.) COLUMBINA – Estou então entre dois fogos? PIERROT (avança um passo, com ambas as mãos no peito) – O do meu coração, Columbina! MEFISTÓFELES (avança também um passo, dobra-se numa leve reverência) – Columbina..., o do meu desejo. COLUMBINA – Sois perseverantes, vejo-me reduzida a ouvir-vos. Já é um triunfo vosso. Ainda bem que sois dois, um neutralizará o outro. (Puxa de uma cadeira, senta-se a meio da cena, voltada para o público.) Vem cá Pierrot! (Pierrot, de salto, vem cair a seus pés) Vem também, Mefistófeles! (Mesfistófeles adianta-se com aprumo e graça, pára a seu lado, espera.) E agora divirtam-me! conquistem-me! façam-me esquecer que me obrigam a ouvi-los. PIERROT e MEFISTÓFELES (a um tempo) – Quando aqui entrei Columbina... (Calam-se ambos, entreolham-se; cada um espera que o outro prossiga. Silêncio breve.) COLUMBINA – Não comecem por falar ambos a um tempo! e não principiem assim. Que vão dizer-me? O comum: «Quando aqui entrei, Columbina, não supunha vir encontrar...» Ou então: «Quando entrei, Columbina, já trazia a certeza de vir encontrar...» Pelo amor de Deus! lembrem-se que sou uma rapariga mais ou menos moderna. PIERROT – Eu não ia dizer isso, Columbina. COLUMBINA – Apostamos que sim? MEFISTÓFELES – Veio-te à cabeça que o dissesse eu? PIERROT – Bem, Columbina: é verdade! Eu ia dizer: «Quando aqui entrei, Columbina, já sabia que me aconteceriam grandes coisas...» COLUMBINA – Aconteceram, Pierrot? PIERROT – Encontrei-te, minha Columbina. COLUMBINA – Vês? Caíste na cilada. PIERROT – Também a não evitei, Columbina. COLUMBINA – Mas porquê? Por que disseste exactamente o que eu queria... isto é: o que eu receava que dissesses? Não sabes nada menos repetido? PIERROT – As palavras mais repetidas podem tornar-se novas. Toda a gente as diz, quase ninguém as sente. COLUMBINA – Ninguém! Só tu. PIERROT – Sou poeta, Columbina. Descubro a virgindade das coisas gastas. COLUMBINA (para Mefistófeles) – Socorre o teu amigo, Mefistófeles! Pierrot está em grande perigo. PIERROT – Em grandes perigos. A qual te referes? MEFISTÓFELES – Não sou amigo de Pierrot. Não o conheço. PIERROT (imediatamente) – Não sou amigo de Mefistófeles; nem pretendo conhecê-lo. MEFISTÓFELES – Só perdes. Tenho algum interesse. PIERROT – Talvez também tu percas. E a falar verdade, não me parece que tenhas grande interesse. MEFISTÓFELES – Estás a ser pouco amável, Pierrot. Não é uso, cá na roda, tratar-se um rival com essa falta de cortesia. PIERROT – Quem te diz que pretendo aprender os costumes da tua roda? MEFISTÓFELES – Sou mais gentil do que tu: Não quero crer que os ignores. (?) COLUMBINA –
Mas tem graça!: estamos aqui os três sem nos conhecermos.
Tanto melhor... assim nos podemos interessar uns pelos outros. Que interesse
podem ter as pessoas conhecidas? COLUMBINA – Quero! Transforma-te num homem interessante: Estrangula-me por amor, depois ressuscita-me. PIERROT – Consentes que os meus dedos toquem no teu pescoço? COLUMBINA – O meu pescoço frágil, delicado como um caule de flor..., não é? O meu colo de graça... o meu colo de cisne... Os poetas líricos são pouco inventivos. PIERROT – Não, Columbina: o teu pescoço mesmo; a tua carne. COLUMBINA - ...De leite e rosas, supomho. PIERROT – Não! A tua carne, a tua alma feita sangue... COLUMBINA – Ligeiramente mais interessante. MEFISTÓFELES (sempre direito, um pouco hirto) – Só por mim te podes interessar, Columbina. E assim há-de ser. Mas espero que me mandes falar. Pierrot é bavard como um pintassilgo. COLUMBINA – Fala francês, Mefistófeles? MEFISTÓFELES – Francês, inglês, alemão, italiano, espanhol... Estudo agora russo e chinês. Sou um homem viajado. Posso gastar dinheiro. Tenho trinta anos. Sei beijar as mulheres na boca. Desprezo! desprezo os homens. Perdoa-me esta brutal enumeração das minhas vantagens. COLUMBINA – Bem vejo que também desprezas as mulheres. MEFISTÓFELES – Como desprezar o que se deseja? COLUMBINA – Há um desejo que implica desprezo. Bem o sabes, Mefistófeles. MEFISTÓFELES – Também o sabes tu? COLUMBINA – Li nos livros. MEFISTÓFELES – Sim... os livros! Também dizem que é possível desejar com raiva, com ódio, com desespero... Os moralistas e os psicólogos têm de dizer alguma coisa. Ácha-los interessantes? COLUMBINA – Acho que às vezes acertam. MEFISTÓFELES – Pois que as mulheres me desprezem, ou odeiem, e me desejem. Pelo menos enquanto eu as desejar a elas. COLUMBINA – Não há dúvidas que tens grandes qualidades para vencer. Mas só as que disseste? MEFISTÓFELES (abrindo a capa e exibindo-se) – Também tenho um corpo... como tu: Sou belo. COLUMBINA (secamente) – Nada mais? MEFISTÓFELES – Talvez também a minha alma: Sou cruel... COLUMBINA – Só? MEFISTÓFELES – Cruel, perverso, enigmático, sombrio... Não é o que também dizem os livros? COLUMBINA – Não vais mais longe? MEFISTÓFELES – Vou, sou prático. Para te conquistar, Columbina, (dobra-se numa leve reverência) tenho ainda o capricho que me inspiraste. Desenvolvo grande energia quando se trate de satisfazer os meus caprichos. Ora o teu loup, Columbina, não consegue esconder a tua boca fresca, a tua linda voz, os teus gestos finos, o teu pescoço alto... COLUMBINA – O quê?! também tu?! Olha, prefiro que Pierrot fale das minhas vantagens; e fales tu das tuas. PIEEROT (caindo novamente aos pés de Columbina) – Sim, Columbina! manda que eu fale. Serei o teu poeta desta noite. E contar-te-ei histórias... inventarei parábolas... como nunca mais contarei, a ninguém. Há tanto que eu esperava esta ocasião!... MEFISTÓFELES – Lá está Pierrot com o seu reportório. COLUMBINA – Receio que sim, Pierrot. PIERROT (quase num grito) – Não digas isso, Columbina! COLUMBINA – Convence-nos do contrário. PIERROT – Não acredites! não acredites que eu não seja capaz de dizer coisas novas, interessantes, cintilantes! A desconfiança dos outros gela-me; tolhe-me; faz-me dar-lhes razão. Eis a minha tragédia. Se hoje me sinto leve... livre... poderoso... é que trago esta cara pintada. Ninguém, aqui, me conhece. Ninguém tem razões para desconfiar de mim... COLUMBINA – Um pouco menos mal, Pierrot. PIERROT – Porque me estou a confessar. Porque esta noite, se vim esta noite a este baile de máscaras, se te encontrei esta noite, Columbina, foi para isto: para ser nu como a verdade, assim mascarado. A minha verdade fugiu do seu poço esta noite de Entrudo... COLUMBINA – Bem! continua. MEFISTÓFELES – Vejo que também sabes fantasiar, Pierrot. Talvez ainda venha a considerar-te um rival menos insignificante. PIERROT (levantando-se imediatamente) – Não estou a fantasiar nem a exibir-me! COLUMBINA – Deixa-o falar, Pierrot. Mefistófeles não pode amar nem crer. É o seu inferno. MEFISTÓFELES – Posso rir, sorrir, odiar, desejar, tentar, seduzir, deitar a perder... Ainda tenho um belo campo de acção! COLUMBINA – Porque não continuas, Pierrot? PIERROT (ajoelhando de novo aos pés de Columbina) – Posso falar-te do meu amor? COLUMBINA – Estavas a interessar-me falando-me de ti. É certo que tens uma tragédia? PIERROT (levanta-se, agora devagar. Baixa a cabeça, abre um pouco os braços, deixa-os cair, diz com esforço) – Tenho: sou amanuense! (Um breve silêncio.) MEFISTÓFELES (batendo palmas discretamente) – Bravo! COLUMBINA (ergue-se, esboça um gesto para Pierrot, volta a sentar-se e ri, divertida) – És engraçado, Pierrot! PIERROT (quase com
raiva, mimando ao mesmo tempo o que descreve) – Pois tem graça,
não tem, Columbina? Sou pobre; nesta casa de gente rica e distinta;
e sou amanuense! Todos os dias vou à minha repartição.
Aquilo é sombrio, velho, nunca está limpo do pó,
cheira a fechado e a mofo. Chego todos os dias à mesma hora.
Sou pontual! pontualíssimo. Um funcionário exemplar. Entro,
e digo para a direita: «Bons dias, senhor Barroso!» O senhor
Barroso é meu colega. Usa chinó, uma água-de-colónia
enjoativa, e deve lavar-se pouco. Sempre me responde: «Ora bons
dias!» Volto-me então para a esquerda: «Bons dias,
senhor Vidigal!» Também é meu colega. Sofre do fígado,
frequenta os clubes baratos, todos os dias aparece irritado e verde.
Resmunga: «Deus o salve!» Eu sento-me, enfio as minhas mangas
de alpaca, principio a escrever. Escrevo, escrevo, escrevo, (quase num
berro) escrevo...! (Breve pausa. Mudança de tom) E pronto. É
isto a minha vida. PIERROT – A dum poeta infeliz. O HOMEM MASCARADO – Aposto que és tu! PIERROT – Não me permite a modéstia confessá-lo. A MULHER MASCARADA – Gostava de ouvir versos teus, Pierrot. PIERROT – Não sei nenhuns de cor. E é raro escrevê-los. Mas vou improvisar só para te fazer a vontade. Esta noite, sou capaz de tudo. (Levanta a cara, olha o espaço. Fica assim uns momentos, em silêncio: direito, os braços caídos. Declama sem mudar de atitude, e fazendo-se acompanhar pelo terceto que sempre se tem ouvido, abafado, e toca um pouco mais alto enquanto ele declama) Dona Lua é uma princesa De sangue azul verdadeiro... O seu paço é uma lindeza, Servem-lhe as Ursas de chão, E o Sete-Estrelo é o craveiro Que dá flor no seu balcão.
Dona Lua é branca e fria Como a espuma ao rés da areia. Por vezes, noite sombria, Vem debruçar-se à janela: E tudo em redor clareia Do clarão do rosto dela... (Como o terceto
emudece no salão, cala-se também. Desmancha a atitude
um pouco hierática, fala noutro tom) Estou envergonhado! Calou-se
a música para me ouvir continuar, os pares deixaram de dançar...
E eu a dizer chochices! Dona Lua já não é dona
nenhuma, já não presta. Preciso mas é de achar
um mundo novo. Ando a seduzir Columbina, vamos povoar nós dois
outro planeta. Os nossos meninos nascerão com asas, terão
os olhinhos fosforescentes... serão quase tão bonitos
como a mãe e ainda mais inteligentes do que o pai! Olhem, desculpem!
Eu não sei o que digo porque estou apaixonado... A MULHER MASCARADA – Obrigado, Pierrot. Apesar de tudo os teus versos são lindos! Sê feliz. E boa sorte aos vossos meninos... (Atira-lhe um beijo com a ponta dos dedos. Fogem ambos pela direita) PIERROT (volta-se para Columbina, reata no tom interrompido) – Já escrevo mecanicamente, posso sonhar enquanto escrevo datas e fórnulas. Tenho sonhado tudo! tudo: Ser bailarino excêntrico, assombrar o mundo com o meu génio; fugir para um deserto; cometer o mais espantoso dos crimes; fazer-me chefe duma tribo selvagem; viver de imundícies em Paris; encontrar fabulosos tesoiros; descobrir o elixir da longa vida; atirar a repartição pelos ares... A imaginação de quem vive só, Columbina, é um mundo terrível! O tédio um monstruoso conselheiro. Vivo só com o meu tédio... e a minha imaginação... MEFISTÓFELES – Permites que me sente, Columbina? Pierrot está sendo um pouco pesado. COLUMBINA – Por que não...? (Mefistófeles pega de uma cadeira, senta-se, cruza as pernas e os braços.) PIERROT – Achas que posso continuar? COLUMBINA – Ainda me não enfadaste. PIERROT – Se ao menos tivesse génio...! Mas só tenho um amável talento. Sonho coisas medonhas, e faço versos bonitos. E nada do que sonho impede a regularidade da minha vida. Já disse que sou um funcionário modelo... MEFISTÓFELES (com uma ligeiríssima vénia) – Um bom actor, vamos lá. PIERROT – Um funcionário modelo. Por isso os meus colegas me julgam ainda mais idiota do que eles. Diante dos homens doutra esfera, sinto-me profundamente humilhado: um amanuense! e respeitoso, nulo, tímido, serviçal... Como repararão em mim? Columbina! foi preciso mascarar-me para dizer estas coisas uma vez na vida. Porque nunca se viu um nulo tão orgulhoso. Ah, se o senhor Barroso soubesse!... se o senhor Vidigal sonhasse!... O orgulho cresce na solidão como certas plantas na sombra; alimenta-se da própria humilhação... MEFISTÓFELES – Estou a ver que também és um aforista. Deves começar a coleccionar as tuas máximas. COLUMBINA
– Sabes, Mefistófeles, que as tuas ironias são banais?
(Volta-se para Pierrot.) Como conseguiste... ser hoje convidado? MEFISTÓFELES – Uf!... És doente, Pierrot. Tenho de te mandar calar. PIERROT (voltando-se brusco para Mefistófeles) – Tu... deves ser de eles. Odeio-te! desprezo-te! invejo-te! Com certeza já te segui de noite, como um rafeiro vadio... MEFISTÓFELES – Não exageres a doença, Pierrot. Pode tornar-se desgostante. Aliás já sabes que esses teus homens bem vestidos não passam de cabides. PIERROT – Com certeza já te segui de noite! Tens bom ar, tens o tipo... MEFISTÓFELES (erguendo-se) – De bom grado satisfarei um dos teus caprichos dessas noites. (Curva-se ligeiramente, estende-lhe a mão.) PIERROT (de braços caídos, hirto) – Cobarde! MEFISTÓFELES (olha um instante a própria mão estendida, baixa o braço) – eu devia saber que Mefistófeles não pode dar esmolas. PIERROT – A não ser para humilhar. MEFISTÓFELES (voltando a sentar-se) Tens razão: a não ser para humilhar. PIERROT (voltando-se para Columbina, que se levantou) – Perdoa-me, Columbina: Suponho que houve uma fífia. MEFISTÓFELES
– Sabes que davas um bom actor, Pierrot? Quase te admiro. Julgo
que terei prazer em travar conhecimento contigo. Que famílias
frequentas? COLUMBINA (sentando-se) – Continua então, Pierrot. Ainda não contaste como conseguiste ser convidado. PIERROT (levantando-se, retoma o tom natural) – Anteontem, eu ia por uma rua deserta. Era noite, uma das tais noites... Adiante de mim, caminhava um desses homens que invejo. Eu espiava-lhe todos os movimentos. Admirava-o... já por vício. É um vício, não é? MEFISTÓFELES – Continuas a exagerar a doença? PIERROT – Sonhava que levava na mão um punhal envenenado; que me ia abater sobre o homem ao dobrar duma esquina; que lhe roubava os papéis e a fortuna, tudo com a facilidade das coisas num sonho; que partia para o estrangeiro; que o meu ar sombrio, as minhas liberalidades, o meu mistério, o meu fausto, ecoavam no mundo. Monsieur X, Don X, Lord X, ninguém me conhecia; ninguém sabia quem era, ou fora. Mas os jornais noticiariam a chegada do enigmático dândi aos hotéis de primeira categoria... MEFISTÓFELES – Perdão: não achas tudo isso um pouco romântico? fora do nosso tempo? PIERROT (sem olhar Mefistófeles, e como respondendo a Columbina) – Sabes?, leio muitos romances policiais, a par de bons livros; mas prefiro sempre os de fantasia. Demais, estava luar. Inútil quererem desclassificar o luar! favorece todos os sonhos. Em dada altura, o homem que eu seguia tirou um lenço do bolso. Gesto simples, não é? Mas caiu-lhe um cartão. Apanhei-o com avidez. Fugi como se lhe tivesse roubado a carteira! Li-o debaixo da primeira lâmpada. Era um convite para um baile de máscaras, na próxima segunda-feira de Entrudo... MEFISTÓFELES (recostando-se na cadeira) – Tem graça! Há duas noites, perdi o meu convite. Não dei importância, entro sempre onde quero. PIERROT (voltando-se bruscamente para ele) – A que horas recolheste?! MEFISTÓFELES – Duas e meia... três horas. PIERROT (depressa, com a voz alterada) – Passaste pela rua de...?! MEFISTÓFELES (negligentemente) – Já não sei bem. A noite estava linda, com efeito. Despedi o táxi. Vagueei um pouco pela velha Mouraria... E na verdade: julgo lembrar-me de ter ouvido passos atrás dos meus, durante algum tempo. PIERROT (com desespero e raiva) – Mentira! Mentes! MEFISTÓFELES – Não dês outra fífia, Pierrot. Por que há-de ser mentira? Como queres tu que eu adivinhe...? PIERROT (esconde a cara nas mãos, baloiça-se inesperadamente, grita no mesmo tom meio dramático meio humurístico) – Aqui del-rei!... aqui del-rei!... aqui del-rei!... COLUMBINA (um pouco mais baixo) – Pierrot..., quisera poder ser tua amante esta noite. PIERROT (caindo novamente aos pés de Columbina) – Não digas isso, Columbina! minha Columbina! Deixa-me beijar-te o vestido. Esta noite..., pois talvez me suicide esta noite! (Desata em soluços, deita a cabeça nos joelhos de Columbina. Mas, por entre os soluços, grita no seu falsete de ventríloquo, meio humorístico meio dramático) Não quero! não posso! não devo tornar a ver mangas de alpaca... MEFISTÓFELES (levantando-se com enfado e um suspiro de tédio) – Uf!... não tolero homens que choram. Gostas do género, Columbina? COLUMBINA – Cala-te. PIERROT (ergue-se devagar, fica diante de Mefistófeles. Silêncio breve) – Continuo a ser um bom actor? MEFISTÓFELES – Nem bom nem mau. Acredito na realidade do que disseste. Não posso deixar de ter certa curiosidade por ti... que se paga com desprezo. Desculpa! eu não procuro conquistar as mulheres sendo mulher. Nem choro.COLUMBINA – Como as conquistas? Mas suponho. Conquista-me..., se és capaz. MEFISTÓFELES – Perdoa, Columbina. Desinteressei-me da tua conquista. COLUMBINA – É assim..., mostrando-te petulante e grosseiro...? MEFISTÓFELES (dobrando-se para ela) – Compreendes perfeitamente... não é verdade?, que as minhas palavras não passam de um meio de começar. COLUMBINA – Achas um bom começo? MEFISTÓFELES – Deixa-me falar-te sem me aninhar a teus pés. Não é a minha posição perante as mulheres. COLUMBINA – Achas bem continuar a ser grosseiro? MEFISTÓFELES – Preferes que imite Pierrot? PIERROT – Não o conseguirias. Os homens como tu são escravos do seu papel único. MEFISTÓFELES (sem responder a Pierrot, voltado para Columbina) – Permites-me que fale como quem sou? COLUMBINA – Fala. Sou uma rapariga tolerante. MEFISTÓFELES – Pois, apesar de tudo, começo condescendendo contigo: Vejo que aprecias o género trágico..., também te vou falar da minha tragédia. COLUMBINA – Também tens uma tragédia?..., tu? MEFISTÓFELES – Sou várias vezes milionário. Fiz trinta anos há dias. Já corri quase todo o mundo. Em toda a parte me desejam. Nunca estive doente. Sei que sou belo; que sou inteligente; que sou distinto. As mulheres procuram-me, disputam-me. Os homens adulam-me. Não me lembro de ter chorado na minha vida..., ou talvez só em criança. COLUMBINA – A tua tragédia é essa? MEFISTÓFELES – Bem: detesto o género trágico. COLUMBINA – Não disseste que me ias falar da tua tragédia? MEFISTÓFELES – Falei. COLUMBINA – Só enumeraste vantagens. MEFISTÓFELES – Que vazio! COLUMBINA – Queres dizer que sofres de não sofrer? MEFISTÓFELES – Pouco mais ou menos. COLUMBINA – Como paradoxo, é banal: Não podes ter consciência da tua felicidade. MEFISTÓFELES – Não creio na felicidade. COLUMBINA –
É natural. Só quem sofre crê na felicidade, e sabe
o que ela é. Uma coisa bem simples, afinal: deixar de sofrer.
A ti faltam-te os pontos de comparação..., os contrastes. COLUMBINA – Ainda não. MEFISTÓFELES (enche uma taça, bebe-a. Volta para junto de Columbina e retoma a conversa interrompida) – Sabes, Columbina?: Não deves ler tantos livros. Discorres como os romancistas de talento... que aliás discorrem medíocremente. Achas que te vai bem esse papel... de femme savante? COLUMBINA – Tu ainda julgas que as mulheres não podem discorrer? MEFISTÓFELES – Não interessa, quando se trata da vida. COLUMBINA – Fico sem te compreender. Disseste que me ias falar da tua tragédia... MEFISTÓFELES – Não é o que estou fazendo? COLUMBINA – Continuo estúpida. MEFISTÓFELES – Ouve! eu também leio livros, alguns. Também li nos livros que todo o homem tem consigo a sua tragédia. Aceito, às vezes, o que leio nos livros... para que me não contrariem. Passei a chamar trágico a tudo que possa dizer de mim. COLUMBINA – Que podes dizer de ti? MEFISTÓFELES – O que já disse, por exemplo. COLUMBINA – Não foi pouco? MEFISTÓFELES – Achas? (Silêncio breve.) Não me obrigues a discorrer gentilmente, discretamente. Ver-me-ia num salão qualquer, como nos outros dias. (Volta-se um pouco para Pierrot) Ora aquilo também é sombrio, apesar das luzes. Também cheira a mofo, apesar dos perfumes! As mulheres pintam-se todas consoante a moda. Nenhuma tem cara! usam máscaras idênticas. Os homens vestem-se todos no mesmo alfaiate, sabem de cor os mesmos lugares-comuns. (Ligeira pausa. Volta a dirigir-se a Columbina.) Queres, então, que ostente as minhas maneiras raras, os meus sorrisos distintos, a minha óptima apresentação, a minha conversa interessante, espirituosa, insinuante...? Talvez, assim, te conquiste... mas desprezando-te. COLUMBINA – Alguma vez poderias conquistar-me sem desprezo? (O mesmo criado entra de novo pela direita, com outra bandeja, e sai pela esquerda. Um instante de silêncio enquanto ele passa.) MEFISTÓFELES – Olha, Columbina: o amor não é mais que uma troca, e desigual. Sempre uns dão mais e outros menos. Os humanos não se compreendem. Nem é preciso!; pelo menos no amor. Compreender só complica: não se vai senão até metade, e recomeça a luta. As pessoas mais tidas por inteligentes são as que mais discutem; mas a verdadeira inteligência não discute. A vida é simplesmente o que cada um vive. O amor não passa dos gestos do amor. Desiste de me compreender! Eu sou quem sou. COLUMBINA – Mas quem?!... MEFISTÓFELES – Queres saber como não poderei desprezar-te? Abandona-te... mais nada. Se és bela, não poderei desprezar-te. E sei que és bela... sei... (Agarra-lhe as mãos, obriga-a a levantar-se, puxa-a contra si) bela e generosa, capaz de dar e aceitar sem compreender... Não é verdade que também serias minha amante esta noite? COLUMBINA – (entre os braços de Mefistófeles, a cabeça para trás, ao mesmo tempo recusando e oferecendo a boca) – Não!... MEFISTÓFELES (agarra-lhe a cabeça entre as mãos, beija-a longamente nos lábios, contempla-a como procurando adivinhar-lhe todo o rosto sob o loup) – Sim! não é verdade que também serias minha amante esta noite? COLUMBINA (desfalecendo) – Talvez! (Com um movimento brusco, Pierrot volta e baixa a cabeça para os não ver. Mantém-se nesta posição até à sua fala. Mefistófeles segura Columbina pelos ombros, senta-a novamente na cadeira. Vai encher uma taça de champanhe e dá-lha. Columbina molha os lábios na taça, bebe um golo; restitui-a a Mefistófeles. Mefistófeles esgota-a devagar e atira-a contra a parede. A taça retine esmigalhando-se. Silêncio completo duns segundos.) PIERROT (tímidamente, voltando devagar a face para Columbina) – Columbina!... COLUMBINA (de cabeça um pouco baixa) – Perdoa-me. PIERROT – Perdoar-te..., eu?! Mas tu és uma criancinha. Manda que te leve de aqui! Não poderias amar esse homem, bem sabes. A tua carne é tenra, é frágil... E tens piedade de ele, porque ele é mau. Quererias furtá-lo à sua condenação... (O par mascarado de há pouco entra agora pela direita. Ele traz a mulher pela cintura. Vêm rindo, felizes. Param um momento.) A MULHER MASCARADA – Ainda não acabaste, Pierrot? PIERROT – Não! A história é muito comprida! A MULHER MASCARADA – Acabaste os versos à Lua? PIERROT – Também não. Já não vale a pena fazer versos à Lua. A MULHER MASCARADA – Vale, sim. Diz lá mais uma quadra! PIERROT – São sextilhas. (Olha o ar, de cabeça erguida. Retoma a atitude quase hierática. Recita.) Dona
Lua ama os poentes, A MULHER MASCARADA – Linda!... (Breve pausa.) Columbina não se deixa comover? PIERROT – Ainda tenho esperança. A MULHER MASCARADA – Não a percas, meu poeta! (De novo lhe atira um beijo com a ponta dos dedos. Vão ambos a sair. O homem volta-se antes de chegarem à porta.) O HOMEM MASCARADO – Sabes que está um lindo luar no jardim? Convida Columbina. E Dona Lua te ajude! (Saem ambos. Um silêncio) PIERROT (voltando ao seu tom e atitude próprios) – Dizia eu, Columbina... Dizia que tu quererias furtá-lo à sua condenação: despertar nele o dom de amar. É uma bela tentação, bem sei. Mas o teu coração vem para mim! Pertence-me naturalmente. Manda que eu te leve comigo! E prometo suicidar-me ao romper da manhã. Ou achar um tesoiro, tirar a sorte grande, por o mundo a teus pés, reconquistar o Paraíso terreal... Será como quiseres, Columbina! Ambos precisamos que nos salvem, salvar-nos-emos um ao outro... MEFISTÓFELES (inclinado para Columbina, com doçura) – Obrigado, Columbina. Não te pedirei mais nada. COLUMBINA – Julgas que to agradeço? MEFISTÓFELES – Deves agradecer-me: É o único meio de conservar de ti uma lembrança gentil. COLUMBINA (erguendo-se com um grito de indignação) – Sai! MEFISTÓFELES (perfilando-se um pouco) – Ordenas que tão depressa renuncie ao meu papel? COLUMBINA (de pé, a voz quebrada) – Peço-te que me deixes. MEFISTÓFELES – Sairei se mo ordenares. Mas levarei de ti a lembrança de mais uma conquista fácil..., perdoa. COLUMBINA (deixa-se cair na cadeira, com a face inclinada ao peito. Silêncio. Recomeça a falar devagar, em voz quase baixa) – És sem piedade, Mefistófeles: como quem és. Mas eu mereço o teu desprezo! mereço a tua brutalidade. Esta máscara mal me esconde; e basta para me dar a coragem de ser fraca, tal como sou... uma conquista fácil... MEFISTÓFELES (brandamente) – Bem sabes que podes revelar a tua fraqueza com mais arte. COLUMBINA – Também me queres com o meu papel de todos os dias? MEFISTÓFELES – À sinceridade dos homens chamam cinismo; à das mulheres, impudor. COLUMBINA (quase gritando) – Preciso falar! ao menos uma noite. (Começa a ouvir-se agora uma valsa, que tocam no salão. É uma valsa fútil, antes maliciosa e alegre que melancólica. Chega abafada. Ouvir-se-á até onde for indicado.) MEFISTÓFELES – Também tu? PIERROT – Cuidado, Columbina! Bem sabes que és uma criancinha. E olha que ele não to merece... COLUMBINA – Também eu! Também eu preciso falar. MEFISTÓFELES – Deixaste-me falar a mim? COLUMBINA – Não te deixei?! MEFISTÓFELES – Não. E podia dizer tanto! COLUMBINA – Porque me enganaste? Supus que já tinhas falado. MEFISTÓFELES – Experimentei-te, não te enganei. COLUMBINA – Disseste-me que não quisesse compreender-te. MEFISTÓFELES – Pois disse. Quem quer compreender já não compreende. COLUMBINA (um pouco mais baixo) – Impeliste-me a abandonar-me. Abraçaste-me. Beijaste-me inesperadamente... MEFISTÓFELES – Sonhei achar uma mulher que me resistisse. COLUMBINA – Mas eu sou como as outras; como todas! Se resisto fora, sem máscara, é por não poder fugir à reputação que me criaram. Passo por ser inteligente, independente, e desprezar os homens. Sim, desprezo os manequins. Afinal, há em mim qualquer coisa que me distingue das outras... MEFISTÓFELES – És muito mais inteligente, na verdade. COLUMBINA – Mas tão fraca como elas! E todas as minhas ideias são dos livros que li, ou dos homens que me impressionaram. Sobretudo destes. A todos tenho sonhado pertencer. E se um deles já tivesse sido mais ousado, ou mais perseverante..., sim, já me teria mostrado o que sou: uma pobre mulher; uma criatura que precisa de se entregar e pertencer a alguém... (Pausa. Mudança de tom.) Estás admirado, Mefistófeles. As mulheres não costumam confessar estas coisas aos homens: São velhos inimigos galanteadores. MEFISTÓFELES – Já vês que também nisso és diferente. COLUMBINA – Esta noite. MEFISTÓFELES – Pois eu também sou diferente dos homens que tens conhecido; e todas as noites! Sou tão ousado como perseverante; mas vou por caminhos ora directos ora sinuosos... COLUMBINA – Bem vejo, Mefistófeles. PIERROT – É a mim que tu pertences, Columbina! COLUMBINA (olhando os dois) – A qual? a qual pertenço? PIERROT – A mim! MEFISTÓFELES – Mas não sei porquê, Columbina, despertas-me ora o desejo da crueldade, ora o capricho da bondade. Talvez o melhor fora ceder-te a Pierrot. Eu..., que posso dar-te? Só divertimentos perversos. Compreendo e lastimo o género humano. Mas de longe, à distância; como espectador; através dum monóculo. De perto, não posso! O enjoo sufoca-me. Nunca pude suportar os maus cheiros alheios. O meu me basta. PIERROT (imitando o tom de Mefistófeles) – Uf!... És doente, Mefistófeles. Tenho de te mandar calar. MEFISTÓFELES – Estás a plagiar-me, Pierrot. Mas a minha doença é mais limpa do que a tua. PIERROT – Será? MEFISTÓFELES – Creio que sim. PIERROT – Pois ouve tu também: Só o sofrimento ensina a compreender. E eu julgo compreender-te, por isso te perdoo. Estou a falar-te a sério. Sei que também tens sofrido... MEFISTÓFELES (atalha com um gesto. Voz seca, tom sarcástico) – Não, meu Pierrot: Tudo, – menos isso. PIERROT – Isso quê?! MEFISTÓFELES – Isso que aprecias: as confissões em voz comovida; os trémulos na garganta; as confidências com os olhos vítreos; as sociedades de socorros mútuos; a confraternização no sofrimento humano; as efusões nos braços do amigo; o tal amor da humanidade... Pf! sinto-me vexado ao falar nessas cantatas. Coro, só com a ideia... Não, meu Pierrot; meu terno Pierrot! Tudo, – menos passar pela tua compreensão. Dispenso a água-benta da piedade. Também me não cheira bem... (Breve pausa. Volta-se para Columbina.) Mas a ti, Columbina, acabo por te aconselhar que atendas Pierrot. O seu amor deve ser mavioso e lilás... Olha, podes fazer uma obra de caridade: tira-o de amanuense. E paga-lhe a edição dos versos. Ele é capaz de ter aquele género de talento que enternece o público. Assim conquistarás a gratidão do futuro. PIERROT – Era amanuense. Não pude suportar aquilo, e despedi-me. Nos primeiros dias, a vida pareceu-me um sonho! Agora, estou pior que dantes: Sou um miserável desempregado que vive por esmola numa água-furtada. Já tenho passado fome. O dinheiro para alugar este fato, extorqui-o à minha hospedeira, que não é rica. Há misérias que te não atingem, Mefistófeles. Mesmo assim, tenho dó de ti. COLUMBINA (de cabeça baixa) – Quisera pertencer a ambos sem trair nenhum... (Deixa de se ouvir a valsa. Um rancho de mascarados entra de roldão pela direita. A Dona da casa vem à frente, sem loup.) A DONA DA CASA (dirigindo-se particularmente a Columbina, Pierrot e Mefistófeles) – Não tarda meia-noite, senhores. Convido-os a tirar o loup ao fim das doze pancadas. Vai dar a primeira no gong da sala... COLUMBINA (precipitando-se para ela, num grito) – Não!... Não! (Um momento de silêncio geral, comprometedor.) A DONA DA CASA (tomando Columbina nos braços) – Mas, minha querida amiga: Suponho que toda a gente a reconheceu. Bem difícil é a minha querida amiga disfarçar-se! E se algum dos presentes a encontrou hoje pela primeira vez, não compreendo que seja tão pouco generosa, vamos lá: tão caprichosa... MEFISTÓFELES (adiantando-se para Columbina) – Columbina, respeito o teu capricho. Saio antes de caírem as máscaras. (Fala um pouco para todos.) Columbina intrigou-nos..., e empenha-se em manter o seu incógnito. (De novo se dirige a Columbina.) Pois bem, é preciso que nos voltemos a encontrar. Talvez amanhã: no chá da Olivais. Cheguei há pouco do estrangeiro, sou quase um desconhecido em Lisboa. Mas a Marquesa de Olivais não é só gentilíssima, dizem, como parece ter bom gosto: Quer que me levem amanhã a sua casa. Boa noite, Columbina. Por hoje, a comédia acabou. Reconhecer-te-ei no primeiro instante em que volte a encontrar-te. E espero que então me perdoes as petulâncias a que me obrigava hoje o meu papel... (Curva-se gentilmente, beija a mão de Columbina, depois a da Dona da Casa, saúda toda a gente com a capa e sai pela esquerda.) COLUMBINA (adiantando-se até meio do palco) – Pierrot...! PIERROT (caindo de salto aos pés de Columbina) – Adeus, Columbina! adeus, não te digo até amanhã. O nosso encontro não tem amanhã. Deus te pague esta noite que me deste. Nunca ninguém me fez tão bem como tu. E agora sim, terei coragem de partir. Já te disse que moro uma água-furtada. Tenho a Lua pertinho, até quando não haja Lua para os outros. A Lua, para mim, continua a mesma... (Ergue a fronte, suspende-se uns momentos. Declama.) Dona
Lua tem mistérios Sim, terei a coragem de partir. Saio pelo postigo, subo ao telhado... e um salto; um pequeno salto à borda do céu; um grande voo... Pronto! Aonde poderei ir cair senão nos braços da Lua? E nas pedras da calçada um simples fato vazio, um fato de Pierrot que já se não usa... Nunca mais! nunca mais escrever datas nem fórmulas! nem dormir por esmola! nem espoliar qualquer amigo de momento! nem ser insultado pelos menores...! Adeus, Columbina. Lembra-te um bocadinho de mim. A DONA DA CASA – És excêntrico, Pierrot. (Os mascarados aproximaram-se. Um deles joga confetti sobre Pierrot. Depois dá a mão aos outros. Dançam todos, de mãos dadas, em volta de Pierrot e Columbina. Ouve-se longa, sonora, a primeira pancada da meia-noite no gong. Os mascarados param de dançar. Pierrot precipita-se para a porta da esquerda. Os mascarados vão sobre ele. Desaparecem de roldão. Ficam sós em cena A Dona da casa e Columbina. Ouve-se cair a segunda pancada no gong.) COLUMBINA (arrancando o loup) – Que alívio. A DONA DA CASA – Querida amiga, os seus admiradores pareceram-me um tanto exóticos. COLUMBINA – Sim. Quem são? A DONA DA CASA – Confesso que não cheguei a reconhecê-los. Também eu estou um pouco intrigada. Enfastiaram-na? COLUMBINA – Pelo contrário. Mas vamos tomar um pouco de ar ao jardim. (Vão saindo ambas. Ressoa a terceira pancada do gong. A cena fica deserta como no princípio desta fantasia. O pano começa a descer muito devagar.) FIM |
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