PRIMEIRO ATO (Gabinete do diretor de A Marreta, o maior jornal do Brasil. Em cena, dr. J.B. de Albuquerque Guimarães, gangster da imprensa, a mascar o charuto da sua sórdida prosperidade. Andando de um lado para outro, ele esbraveja.)
DR. J.B. - Pardal! Pardal!
PARDAL (jornalista de viseira1) - Pronto, doutor! (está intimidado, parado na porta) DR. J.B. - Entra, seu zebu!
PARDAL - Entrei!
DR. J.B. - Você, com esse tapa-luz de jornalista de filme, sabe que me enche? PARDAL - Perfeitamente!
DR. J.B. - Seu Pardal, o senhor telefonou para o cemitério?
PARDAL - Sim, mestre, telefonei.
DR. J.B. - Minha filha já sentou?
PARDAL - Não!
DR. J.B. - Ainda não sentou?
PARDAL - Continua de pé!
DR. J.B. (desvairado) - Todas as mulheres sentam, menos minha filha, e por quê? PARDAL - Não sei!
DR. J.B. - Pardal, puxa uma cadeira e senta!
PARDAL (sentando-se) - Sim, senhor!
DR. J.B. - Ou, por outra, fica em pé!
PARDAL - Sim, senhor! (levanta-se)
DR. J.B. - Agora olha para mim.
PARDAL - Sim, senhor! (Dr. J.B., cara a cara com Pardal, um ar de louco, que apavora o outro.)
DR. J.B. - Quem sou eu?
PARDAL - O senhor não sabe?
DR. J.B. (furioso) — Responde: quem sou eu?
PARDAL - O diretor deste jornal!
DR. J.B. - E como é o nome deste jornal?
PARDAL - A Marreta
DR. J.B. - Agora, o meu nome, quero o meu nome!
PARDAL - Dr. J.B.
DR. J.B. (berrando) - Por extenso, nome por extenso!
PARDAL - Dr. J.B. de Albuquerque Guimarães!
DR. J.B. (trágico e exultante) - Dr. J.B. de Albuquerque Guimarães, bonito nome para um cartão de visitas!
PARDAL (apavorado) - E a manchete, doutor?
DR. J.B. - Ainda não acabei, Pardal. Responde, eu sou importante aqui no Brasil? Eu mando e desmando? Ou, pelo contrário, sou um fósforo apagado?
PARDAL - Manda e desmanda!
DR. J.B. - Tem certeza?
PARDAL - O senhor nomeia até ministro pelo telefone!
DR. J.B. - Sou então uma potência, Pardal?
PARDAL - É uma potência!
DR. J.B. - Mas o pior tu não sabes: eu me sentia tão vira-latas, tão pateta, que precisava que alguém me esfregasse na cara a minha própria identidade... Tens certeza que eu sou eu mesmo, que eu sou o dr. J.B. de Albuquerque Guimarães, diretor de A Marreta, o vespertino de maior circulação? Tens essa certeza?
PARDAL - Tenho!
DR. J.B. — Mentira!
PARDAL — Mas é verdade!
DR. J.B. — Não tenho força nenhuma. Ou por outra: tenho força para nomear ministros. Teria força para fazer sabe o quê?
PARDAL (espavorido) — Não!
DR. J.B. — Para montar em ti, meu redator-chefe, ou duvidas?
PARDAL — Montar em mim?
DR. J.B. — Imagina: tu, meu semelhante, depositário de uma alma imortal, montado por mim! Deixarias?
PARDAL — Sem testemunhas, com prazer.
DR. J.B. — Eu teria forças para isso, mas não tenho força para fazer a minha filha sentar. Conclusão: o verdadeiro animal sou eu e não tu, eu é que devia ser montado por ti e passear, no meu próprio gabinete, contigo na garupa!
PARDAL — E a manchete, doutor?
DR. J.B. — Manchete?
PARDAL — Onde devo pôr o país?
DR. J.B. — Que país?
PARDAL — O Brasil.
DR. J.B. — Ponha o Brasil à beira do abismo, seu Pardal!
PARDAL — Outra vez?
DR. J.B. — Outra vez e sempre! Ou você ignora que minha filha é uma viúva? E não uma viúva sentada, como há milhares, há milhões! Antes de fazer suas manchetes, pense na viuvez de minha filha, Pardal!
PARDAL — Tem razão, mestre!
DR. J.B. — Põe um troço assim: "Falência do Brasil"! Que tal?
PARDAL (rabisca um papel) — Bacana... (lendo) Falência do...
DR. J.B. — Abre num tipo tamanho de um bonde. A falência do Brasil sempre vendeu jornal!
PARDAL — O.k. (sai e logo volta) Seus convidados.
DR. J.B. — Chegaram?
PARDAL — Mando entrar?
DR. J.B. — Claro, seu zebu!
PARDAL (vai e volta) — Tenham a bondade. Por aqui.
CONVIDADOS — Pois não. (Entram o psicanalista, o otorrino e a ex-cocote.)
DR. J.B. — Desinfeta, Pardal! (para os recém-chegados) Vamos entrar! PSICANALISTA — Como tem passado?
DR. J.B. — Entrem!
OTORRINO (cumprimentando) — O senhor só tem um redator?
DR. J.B. — Eu não podia pôr aqui um elenco de Cecil B. de Mille.
EX-COCOTE — Tudo azul? (Todos se sentam.)
DR. J.B. — Não falta mais ninguém? (Neste momento, há uma explosão que lembra o magnésio dos antigos fotógrafos. Irrompe da fumaça um sujeito de casaca, com dois esparadrapos na testa.)
DESCONHECIDO — Cáspite!
DR. J.B. — Quem é o senhor?
DESCONHECIDO — Não desconfia?
DR. J.B. — Não!
DESCONHECIDO (faz uma mesura) — Diabo da Fonseca, para servi-lo!
DR. J.B. — Que diabo?
DIABO DA FONSECA — O próprio!
DR. J.B. — Prove!
DIABO DA FONSECA (arranca a carteirinha) — Eis a minha carteirinha profissional! (Todos se precipitam.) Cecil B. de Mille (1881-1959): diretor de cinema norte-americano, famoso por suas superproduções com milhares de figurantes. Magnésio: dispositivo fotográfico de função semelhante ao do flash de hoje em dia. Consistia numa barra coberta de magnésio que explodia, produzindo luz e muita fumaça. Depois foi substituído pelas lâmpadas de magnésio que eram usadas uma vez só, porque queimavam na explosão; por fim, pelo flash eletrônico, embutido ou não na máquina fotográfica.
DR. J.B. (lendo) — "Diabo da Fonseca. Profissão: Belzebu."
DIABO DA FONSECA — Confere?
DR. J.B. — Batata!
EX-COCOTE — O esparadrapo na testa foi algum acidente com seu senhorra?
DIABO DA FONSECA — Madame, eu sou solteiro e, nem ao menos, amigado! OTORRINO — Não gosta de mulher?
DIABO DA FONSECA — Prefiro as viúvas!
DR. J.B. — Mas, afinal, a que devemos o prazer?
DIABO DA FONSECA — Eu explico. Imagine que eu vinha passando por aqui, acidentalmente e, de repente — foi de repente — senti um cheiro mortal, incoercível, incontrolável de viúva... Ainda agora sinto viúva no ar... (para um dos presentes) — Aqui alguém é viúva?
PSICANALISTA — Eu sou psicanalista!
DIABO DA FONSECA (desvairado) — Um de nós é viúva!
DR. J.B. - Contenha-se, Diabo da Fonseca, e seja um dos nossos. Abarraque-se.
DIABO DA FONSECA (senta-se) — Obrigado.
DR. J.B. — Bem, agora as apresentações: Aqui, Madame Cri-cri. Foi cocote ao tempo da vacina obrigatória...
MADAME CRI-CRI — No meu época a mulher usava bigodes no sovaco!
DR. J.B. — Este é o dr. Lupicínio, psicanalista de primeira água. (Dr. Lupicínio ergue-se e cumprimenta apertando as mãos, como num boxeur.)
DR. J.B. — Tem no consultório até vitrola caça-níqueis, com discos de churrascaria. DIABO DA FONSECA — Cáspite!
MADAME CRI-CRI (para o psicanalista) — Doutor, nós somos colegas, doutor!
DR. LUPICÍNIO — Como assim, Madame?
MADAME CRI-CRI — Oh, sim! Nós tratamos do sexo, eu, no meu casa, o doutor, no seu consultório!
DR. LUPICÍNIO — Absolutamente!
MADAME CRI-CRI — O sexo, nosso ganha-pão, o nosso mina!
DR. LUPICÍNIO (invocando o testemunho alheio) — Vejam! O que é que tem o sexo com as calças!
DR. J.B. — Não briguem!
MADAME CRI-CRI — Ou, eu não sou cafajeste!
DR. J.B. (continuando) — Dr. Sanatório Botelho, otorrino insigne...
DR. SANATÓRIO (ergue-se gravemente) — Muito prazer. E se me permitem... (arranca um travesseiro da barriga)
DIABO DA FONSECA — Barriga artificial, doutor?
DR. SANATÓRIO — É preciso!
MADAME CRI-CRI — Ora veja!
DR. SANATÓRIO — O médico precisa ser barrigudo — infunde respeito, confiança! A barriga impressiona os maridos. Mas pesa!
DR. J.B. — Meus amigos, estamos reunidos aqui, inclusive o diabo, por quê?
DIABO DA FONSECA — Cáspite!
DR. J.B. — Sim, por quê? Pelo seguinte: porque minha filha única, Ivonete, ficou viúva. (O diabo atira-se aos berros, aos aplausos.)
DIABO DA FONSECA — (batendo palmas) — Muito bem! Bravíssimos! Bravos!
DR. J.B. — Endoidou, Satanás?
DIABO DA FONSECA — Eu sempre aplaudi qualquer viuvez! DR. J.B. — Como eu ia dizendo: meu genro viajou de papa-filas e o papa-filas virou. Morreu todo o mundo e o meu genro virou farelo. Ora, direis, viúvas há muitas. Mas as outras sentam e a minha filha não. Qualquer dia desses morre como uma cambaxirra.
DIABO DA FONSECA — Reze, meu amigo, reze!
DR. J.B. — E eu chamei vocês, porque sempre tive a mania dos especialistas. Quando minha filha casou, toda sua primeira noite, de fio a pavio, foi orientada por especialistas. MADAME CRI-CRI — Mulher também deve ser orientada no adultério!
DIABO DA FONSECA — Madame, a senhora é um crânio!
DR. J.B. — Agora, na sua viuvez, eu recorro novamente aos técnicos. Cada um dos presentes tem, no caso, uma autoridade óbvia. Por exemplo, Madame Cri-cri. Contemporânea do Kaiser, de Mata-Hari, da febre amarela, sabe tudo, não sabe, madame?
MADAME CRI-CRI — Dou os meus palpites!
DR. J.B. — Hoje, tem casas até em Istambul. Nosso amigo psicanalista vive do sexo. O otorrino parece não ter nada com o peixe. Engano. Ninguém ama sem ouvidos, nariz e garganta. Quanto ao nosso amigo Belzebu, quem discutiria, sim, quem?, a sua autoridade sexual milenar? Fala: tu não és perito em amor, em mulher, Belzebu? DIABO DA FONSECA — Bem. Eu não me considero nenhum Bocage, mas me defendo.
DR. LUPICÍNIO — Acho que já vi o Diabo nalguma revista da praça Tiradentes.
DR. J.B. — Ora, no meu fraco entender, a viuvez é um problema de sexo, ou não é? DR. LUPICÍNIO — Admitamos.
DR. J.B. — E se é, vocês, que são donos da matéria, Madame com seu tráfico de brancas, dr. Lupicínio com seu consultório de boite, dr. Sanatório com sua bossa, vocês vão liquidar o caso de minha filha. Entendidos?
DIABO DA FONSECA — Cáspite!
DR. J.B. — Fala um de cada vez, apresentando uma solução salvadora. Com a palavra, o psicanalista.
DR. LUPICÍNIO — Logo eu?
DR. J.B. — Perfeitamente.
DR. LUPICÍNIO — Mas por que eu?
DR. J.B. — Evidente.
DR. LUPICÍNIO — Não posso falar.
DR. J.B. — Como não pode?
DR. LUPICÍNIO — O doente fala, eu calo. O doente paga, eu nem pio. Aliás, cobro meu silêncio pelo taxímetro. (exibe o taxímetro)
DIABO DA FONSECA — Que mamata!
DR. LUPICÍNIO — Sua filha está morrendo. Muito bem. Ela entra com uma angústia braba e eu com um divã macio. Eis a minha contribuição: o divã.
MADAME CRI-CRI — Você usa o divã, eu uso o cama.
DR. J.B. — Continue, amigo psicanalista.
DR. LUPICÍNIO — Não posso. Aliás, nunca falei tanto e já me sinto um traidor da psicanálise. Não me peça mais que o divã.
DR. J.B. — Adiante. Com a palavra o otorrino. Como arrancar minha filha da morte? DR. SANATÓRIO — Com licença. Vou recolocar a barriga para maior dignidade do meu pronunciamento. (repõe a barriga e, ao mesmo tempo, vai falando) Meus concidadãos, esse problema de "viuvez inconsolável" é meio relativo. A última viúva que eu conheci fez o seguinte: saiu do cemitério chupando chicabon. Diga-se que fazia um calor brabíssimo. Mas, enfim, sua filha está mesmo inconsolável e eu pergunto: ela já fez a radiografia dos dentes?
DR. J.B. — Pra quê?
DR. SANATÓRIO — Mas é óbvio!
DR. J.B. — Explique-se!
DR. SANATÓRIO — Convém uma pesquisa de focos dentários. E bom!
DIABO DA FONSECA — Peço a palavra!
DR. J.B. — Com a palavra, o Belzebu!
DIABO DA FONSECA — Está tudo errado!
DR. J.B. — Por quê, carambolas?
DIABO DA FONSECA — Lógico! Estamos falando de uma viúva que não conhecemos, que não estamos vendo. Como opinar no escuro? Como salvar uma viúva, sem vê-la e sem cheirá-la?
DR. J.B. — Você quer cheirar minha filha?
DIABO DA FONSECA — Por que não?
DR. J.B. — Com que intuito?
DIABO DA FONSECA — De pura investigação psicológica.
DR. J.B. — (para os outros) — Melhorou!
DIABO DA FONSECA — Sim e pelo seguinte: cada mulher ou, por outra, cada viúva tem um cheiro pessoal, intransferível, que é preciso captar. Conhece-se uma mulher de várias maneiras, inclusive cheirando-a, meticulosamente. Concorda?
DR. J.B. — (para todos) — Vocês querem ver minha filha?
DR. LUPICÍNIO — Queremos!
DR. J.B. — O.k. Vou buscá-la. Seu Pardal!
PARDAL — (entrando) — Cheguei!
DR. J.B. — Seu Pardal, não me deixa ninguém sair, compreendeu? Volto já. (Sai.) PARDAL — Não há perigo. (Pardal planta os pés, cruza os braços, como a prevenir qualquer tentativa de fuga. Vem o diabo ter com o Pardal um duelo de perguntas e respostas rapidíssimas.)
DIABO DA FONSECA — Que tal o homem?
PARDAL — Um cavalo!
DIABO DA FONSECA — De quantas patas?
PARDAL — Vinte e oito!
DIABO DA FONSECA — E a mulher dele?
PARDAL — A falecida?
DIABO DA FONSECA — Prestava?
PARDAL — Uma messalina!
DIABO DA FONSECA — E a filha?
PARDAL — Pior!
DIABO DA FONSECA — Por quê?
PARDAL — Não respeita nem poste!
DIABO DA FONSECA — E nós?
PARDAL — Uns palhaços!
DIABO DA FONSECA — E você?
PARDAL — Um cretino!
DIABO DA FONSECA — Obrigado! (Cessa o diálogo entre Pardal e o Diabo. O dr. Sanatório dirige-se ao Diabo.)
DR. SANATÓRIO — Vai ver que a filha do nossa amizade é algum bucho!
DIABO DA FONSECA — Protesto! Meu amigo, tenho milhões de anos!
DR. SANATÓRIO — Não parece!
DIABO DA FONSECA — Pois nunca, nesse curto período, encontrei uma viúva que fosse, ainda que remotamente, um bucho! Uma viúva nunca seria um bucho, não senhor, absolutamente, ora veja!
DR. LUPICÍNIO (para Madame Cri-cri) — Madame, a senhora é francesa?
MADAME CRI-CRI — Faz diferença?
DR. LUPICÍNIO (amabilíssimo) — Responda, Madame!
MADAME CRI-CRI — Polaca!
DR. LUPICÍNIO — Tem certeza?
MADAME CRI-CRI (dengosa) — Nasci lá!
DR. LUPICÍNIO — Quer dizer que as polacas existem?
MADAME CRI-CRI — Parrece!
DR. LUPICÍNIO — Quem diria? (Dr. Sanatório, que estava andando de um lado para outro, estaca, puxa um relógio e esbraveja.)
DR. SANATÓRIO — Tenho hora marcada e o dr. J.B. que não vem, ora pipocas! MADAME CRI-CRI — O doutor psicanalista quer-me dar uma palavrinha, em particular?
DR. LUPICÍNIO — Com prazer.
MADAME CRI-CRI — Oh, por que o doutor não vem no meu casa?
DR. LUPICÍNIO — Por quem me toma, Madame?
MADAME CRI-CRI — Eu fazer um abatimento, um preço de avenida Passos!
DR. LUPICÍNIO — Não insista, Madame!
MADAME CRI-CRI — O doutor tem algum tara especial?
DR. LUPICÍNIO — Eu sou analisado, Madame!
MADAME CRI-CRI — Meu casa aparelhada para qualquer preferência do freguês... E pode confessar seu tara... Cada um tem o seu, vou-lhe provar. Chega aqui um momentinho, Diabo do Fonseca.
DIABO DA FONSECA — Chamou, Madame?
MADAME CRI-CRI — Você não tem um tara?
DIABO DA FONSECA (estarrecido) — Como sabe?
MADAME CRI-CRI — Oh, responda, menino!
DIABO DA FONSECA — Tenho, mas é inconfessável!
DR. LUPICÍNIO (depois de olhar para os lados) — Deve ser uma tara muito grave!
DIABO DA FONSECA — Gravíssima!
MADAME CRI-CRI — Conta pra nós, baixinho. Eu serr de confiança. Doutor também boca-de-siri.
DIABO DA FONSECA — É uma coisa horrível, que me persegue desde a primeira chupeta. Eu digo, mas a senhora não pode contar nem para sua mamãe.
MADAME CRI-CRI — Eu jura!
DIABO DA FONSECA — Então, eu vou contar, baixinho, bem baixinho... põe-se a berrar, como um possesso) Há uns milhões de anos que eu sonho com uma viúva. Dia e noite, só penso nela. É minha sina, Madame!
MADAME CRI-CRI — Eu arranjar viúva recentinha, de 48 horas!
DIABO DA FONSECA — Não serve, Madame!
MADAME CRI-CRI — De 24 horas, fresquinha!
DIABO DA FONSECA — Madame, aquela que eu espero, há milhões de anos, não é uma qualquer. É viúva, porém honesta. Só serve assim.
MADAME CRI-CRI (põe as mãos na cabeça) — Honesto? Viúva honesto? Oh, você tirou meu rebolado!
DR. LUPICÍNIO — E nunca encontrou uma nessas condições?
DIABO DA FONSECA — Mas não perdi as esperanças ou, por outra, ainda não perdi a última esperança: a filha do dr. J.B. Talvez seja a viúva dos meus sonhos, talvez. Porém se me falhar esse cartucho derradeiro e suicida, eu entro para um convento!
PARDAL — Atenção! Muita atenção! Acaba de chegar o dr. J.B., com a sua filha, d. Ivonete! (Entra dr. J.B. com a viúva. Esta, de luto fechado e inconsolável.)
DR. J.B. — Demorei, porque fui apanhar minha filha no cemitério. Estava lá, junto ao túmulo do marido. (Cada qual apanha uma cadeira para oferecer à inconsolável.) MADAME CRI-CRI — Oh, sente-se!
IVONETE — Nunca!
DR. LUPICÍNIO — Não quer sentar-se?
IVONETE — Eu sou uma viúva!
DR. SANATÓRIO — E daí?
IVONETE — Ou o senhor pensa que vou sentar-me como qualquer uma, cruzar as pernas etc. etc?
DR. LUPICÍNIO — Não pode?
IVONETE — Jamais!
DR. SANATÓRIO — Quer dizer que sentar é um ato gravíssimo?
IVONETE — Sim, um desrespeito à memória do marido. Se eu me sentasse, o que é que o senhor diria de mim? Responda! (espeta o dedo no peito do dr. Sanatório)
DR. SANATÓRIO — Eu, minha senhora, não diria absolutamente nada!
IVONETE — Seu mentiroso!
DR. J.B. — Pode xingar, minha filha, xinga à vontade! (para o dr. Sanatório) Deixa ela xingar!
IVONETE — Uma virgem qualquer pode sentar e fazer outros papéis. Não uma viúva. Eu tenho um compromisso, afinal de contas.
DR. LUPICÍNIO — Mas seu marido não morreu, minha senhora?
IVONETE — Morreu. E por isso mesmo. Ou o senhor me acha com cara de trair um marido morto? Um vivo não significa nada. O senhor, por exemplo, é casado?
DR. LUPICÍNIO — Perfeitamente.
IVONETE — Vive bem com sua mulher? Vai dizer que vive bem. Mentira. Vive mal. Não se pode viver com um marido que não morreu. O senhor está vivo. Já imaginou como o senhor deve ser chato em casa? No quarto, no banheiro? E se a sua senhora, achando que o senhor é realmente chato, resolve traí-lo? Pôr-lhe uns chifres?
DR. LUPICÍNIO — Em mim?
DR. J.B. (rosnando) — Não contraria!
IVONETE (espetando-lhe o dedo) — Em si!
DR. LUPICÍNIO — Azar o meu!
IVONETE (baixo) — Sua cara dá vontade de trair.
DR. J.B. (rosnando) — Confirma!
IVONETE — Não dá vontade de trair?
DR. LUPICÍNIO — Minha cara dá uma vontade imensa de trair!
IVONETE — Isso! Agora me responda: já viu algum cadáver chato?
DR. LUPICÍNIO — Não.
IVONETE — Ou burro?
DR. SANATÓRIO — Não.
IVONETE — Ou analfabeto?
MADAME CRI-CRI — O morto é sempre boa-praça!
IVONETE — Portanto, só a viúva é que deve ser fiel, só. As outras, não. As outras não precisam.
DR. J.B. — Mas sente-se, minha filha!
IVONETE — Não farei isso, nem outras coisas piores. Por exemplo: eu posso limpar as orelhas, enfiar o dedo no ouvido, como uma reles virgem? posso?
DIABO DA FONSECA — Não pode!
IVONETE — Meu pai, volto ao cemitério!
DR. J.B. — Eu levo no automóvel.
IVONETE — Com licença! (sai com o pai. Os outros inclinam-se)
PARDAL — Abram o olho: vigarista autêntica!
DR. LUPICÍNIO (para o Diabo) — Gostaste?
DIABO DA FONSECA — Legal!
DR. SANATÓRIO — Pões a mão no fogo?
DIABO DA FONSECA — Por ela?
DR. SANATÓRIO — Pões?
DIABO DA FONSECA — De olhos fechados!
DR. LUPICÍNIO — Rapaz, não ponhas a mão no fogo por viúva nenhuma!
DIABO DA FONSECA — Por essa, ponho. Honesta às pampas! E eu só digo a vocês uma coisa: invejo esse marido, esse morto, esse defunto, eu queria estar lá, onde ele está, podre, mas com essa boa por cima! (Entra o dr. J.B., Pardal perfila-se à sua entrada.)
PARDAL — Mestre!
DR. J.B. — Já conhecem a viúva e qual é a conclusão?
DR. SANATÓRIO — Com licença.
DR. J.B. — Pode falar.
DR. SANATÓRIO — Conhecemos a viúva, sim. Mas falta um detalhe — o marido. MADAME CRI-CRI — Posso dar meu palpite?
DR. J.B. — Com a palavra, Madame Cri-cri.
MADAME CRI-CRI — Seu genro tinha algum tara?
DR. J.B. — Por quê, Madame?
MADAME CRI-CRI — Geralmente, o marido muito chorado teve um tara muito simpático, muito agradável. Não foi assim com o falecido?
DR. J.B. — Madame, eu não sou precisamente a viúva.
DR. LUPICÍNIO - Mas precisamos saber quem foi e como foi seu genro!
DR. J.B. - Vou-lhes contar um episódio capital. Prestem atenção. Vem cá, Pardal.
PARDAL - Pronto, mestre.
DR. J.B. - Você se lembra daquele dia? como foi?
PARDAL - Ah, me lembro, sim. (luz escurece em cima da mesa) Eu estava na redação, quando... (Fugitivo, de uniforme. Mete-se debaixo da mesa.)
PARDAL - Eu estava comendo um sanduíche. E, de repente... (mastiga um imaginário sanduíche) Que é que está fazendo aí?
FUGITIVO (com voz de falsete) - Socorro... Socorro...
PARDAL - Qual é o drama?
FUGITIVO - Ah, me salve, moço, me salve!
PARDAL - Levanta!
FUGITIVO - A polícia me persegue! Está atrás de mim! Olha que eu corto os pulsos!
PARDAL - Seu pivete!
FUGITIVO - Fugi do SAM (Serviço de Assistência ao Menor), moço!
PARDAL - Ah, é? Então, rua! rua! Não tenho nada com isso, e não amole!
FUGITIVO - Ih, o senhor nem parece que teve mãe!
PARDAL - Ó, seu cachorro! te meto a mão, já, já e... Mas espere... Do SAM? Fugiste do SAM?
FUGITIVO - Pois é, fugi de lá com o "Pola Negri"! Batiam na gente.
PARDAL - Tive uma idéia, e luminosa. Vem cá, ó... como é teu nome?
FUGITIVO - Dorothy Dalton.
PARDAL - Bolei uma idéia, Dorothy Dalton. Vamos falar com o nosso diretor, que é uma mãe, um caráter! Mas não fala, fica só ouvindo, e deixa eu falar, (vão ao encontro do dr. J.B.) — Esse cara fugiu do SAM e...
DR. J.B. - Entrega à polícia!
PARDAL - Tive uma idéia melhor, diretor. É um troço maquiavélico. Que tal se a gente pegasse esse cara para fazer demagogia sórdida?
DR. J.B. - Bem sórdida?
PARDAL - É simples: a gente apanha o Dorothy Dalton e faz-se a recuperação do bicho.
DR. J.B. - Isso é irrecuperável!
PARDAL - Também acho, mas não tem importância. O que interessa é a onda contra o SAM e a nosso favor. Ficaria demonstrado que o SAM, em vez de corrigir, corrompe. Ao passo que nós — veja bem —, nós passaríamos pelos salvadores de uma besta como essa. Dá-se um emprego, um emprego qualquer e faz-se a demagogia.
DR. J.B. - E uma idéia!
PARDAL - Não é?
DR. J.B. - Mas que tipo de função teria o Dorothy Dalton, com esse nome de cinema mudo?
PARDAL - Só vendo. Vem cá, Dorothy Dalton, chega aqui
DR. J.B. - Mas que figurinha!
PARDAL - O que é que você sabe fazer? Antes de ir para o SAM o que é que você fazia?
DOROTHY DALTON - Raspava pernas de passarinho a canivete!
DR. J.B. - Bonito!
PARDAL (exultante) - Já sei. Crítico de teatro!
DR. J.B. - Você acha?
PARDAL - Mas olha a pinta, doutor! Está na cara! Não é escrito e escarrado o crítico teatral da nova geração?
DR. J.B. (para Dorothy Dalton) - Topas?
DOROTHY DALTON - Por mim, qualquer prazer me diverte!
DR. J.B. - Mas já sabe. Avisa que o jornal é contra o sexo!
PARDAL (para o Dorothy Dalton) - Ouviste, Dorothy Dalton? Qualquer peça que tenha uma insinuação sobre sexo, sobre amor de mulher com homem, você mete o pau, escracha! Outra coisa: se uma personagem ficar grávida, você também espinafra, vai espinafrando! Não admitimos gravidez em cena! (Cessa a evocação do episódio. Saem Pardal e Dorothy Dalton.)
DR. J.B. - A partir desse momento, o Dorothy Dalton sentou-se na minha alma!
DR. LUPICÍNIO - E o seu genro, doutor?
DR. J.B. - Já chegaremos lá.
DIABO DA FONSECA - Queremos conhecer um marido tão chorado, que devia ser uma especialidade!
DR. J.B. - Primeiro, ouçam mais esta - um fato que alterou, mudou toda a minha vida. Um dia, minha filha amanheceu febril. Nada de importante. Um resfriado bobo. Apenas uma coriza à-toa, só. Mas pelo sim, pelo não, mandei a menina ao médico da família, de toda a confiança. Uma tia solteirona foi levá-la. Vamos abrir um espaço para o passado. (Dr. J.B. e os outros vão saindo.)
DR. LUPICÍNIO - Vocês vão na frente, que eu quero dar uma palavrinha à Madame Cri-cri.
DR. SANATÓRIO - Não demore!
MADAME CRI-CRI - Pode falar, doutor psicanalista!
DR. LUPICÍNIO - Madame, aquele negócio é batata?
MADAME CRI-CRI - Que negócio?
DR. LUPICÍNIO (já com dispnéia) - A senhora sabe, Madame!
MADAME CRI-CRI - Das viúvas?
DR. LUPICÍNIO (faunesco) - Madame, existe viúva de 24? ou de 48 horas?
MADAME CRI-CRI - Oh, duvida?
DR. LUPICÍNIO - Mas viuvez documentada, Madame?
MADAME CRI-CRI - Não entendo!
DR. LUPICÍNIO (num rompante) - Quero uma que me esfregue na cara o atestado de óbito. Eu fui analisado, Madame, mas exijo o atestado de óbito!
MADAME CRI-CRI - Oh, arranja-se!
DR. LUPICÍNIO - Dinheiro há! Dinheiro há!
MADAME CRI-CRI - Combinado de pedra e cal!
DR. LUPICÍNIO - Madame, a senhora é uma mãe!
FIM DO PRIMEIRO ATO
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