VIÚVA, PORÉM HONESTA

Nelson Rodrigues

"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos." (Nelson Rodrigues)

PRIMEIRO ATO (Gabinete do diretor de A Marreta, o maior jornal do Brasil. Em cena, dr. J.B. de Albuquerque Guimarães, gangster da imprensa, a mascar o charuto da sua sórdida prosperidade. Andando de um lado para outro, ele esbraveja.)

DR. J.B. - Pardal! Pardal!
PARDAL (jornalista de viseira1) - Pronto, doutor! (está intimidado, parado na porta) DR. J.B. - Entra, seu zebu!
PARDAL - Entrei!
DR. J.B. - Você, com esse tapa-luz de jornalista de filme, sabe que me enche? PARDAL - Perfeitamente!
DR. J.B. - Seu Pardal, o senhor telefonou para o cemitério?
PARDAL - Sim, mestre, telefonei.
DR. J.B. - Minha filha já sentou?
PARDAL - Não!
DR. J.B. - Ainda não sentou?
PARDAL - Continua de pé!
DR. J.B. (desvairado) - Todas as mulheres sentam, menos minha filha, e por quê? PARDAL - Não sei!
DR. J.B. - Pardal, puxa uma cadeira e senta!
PARDAL (sentando-se) - Sim, senhor!
DR. J.B. - Ou, por outra, fica em pé!
PARDAL - Sim, senhor! (levanta-se)
DR. J.B. - Agora olha para mim.
PARDAL - Sim, senhor! (Dr. J.B., cara a cara com Pardal, um ar de louco, que apavora o outro.)
DR. J.B. - Quem sou eu?
PARDAL - O senhor não sabe?
DR. J.B. (furioso) — Responde: quem sou eu?
PARDAL - O diretor deste jornal!
DR. J.B. - E como é o nome deste jornal?
PARDAL - A Marreta
DR. J.B. - Agora, o meu nome, quero o meu nome!
PARDAL - Dr. J.B.
DR. J.B. (berrando) - Por extenso, nome por extenso!
PARDAL - Dr. J.B. de Albuquerque Guimarães!
DR. J.B. (trágico e exultante) - Dr. J.B. de Albuquerque Guimarães, bonito nome para um cartão de visitas!
PARDAL (apavorado) - E a manchete, doutor?
DR. J.B. - Ainda não acabei, Pardal. Responde, eu sou importante aqui no Brasil? Eu mando e desmando? Ou, pelo contrário, sou um fósforo apagado?
PARDAL - Manda e desmanda!
DR. J.B. - Tem certeza?
PARDAL - O senhor nomeia até ministro pelo telefone!
DR. J.B. - Sou então uma potência, Pardal?
PARDAL - É uma potência!
DR. J.B. - Mas o pior tu não sabes: eu me sentia tão vira-latas, tão pateta, que precisava que alguém me esfregasse na cara a minha própria identidade... Tens certeza que eu sou eu mesmo, que eu sou o dr. J.B. de Albuquerque Guimarães, diretor de A Marreta, o vespertino de maior circulação? Tens essa certeza?
PARDAL - Tenho!
DR. J.B. — Mentira!
PARDAL — Mas é verdade!
DR. J.B. — Não tenho força nenhuma. Ou por outra: tenho força para nomear ministros. Teria força para fazer sabe o quê?
PARDAL (espavorido) — Não!
DR. J.B. — Para montar em ti, meu redator-chefe, ou duvidas?
PARDAL — Montar em mim?
DR. J.B. — Imagina: tu, meu semelhante, depositário de uma alma imortal, montado por mim! Deixarias?
PARDAL — Sem testemunhas, com prazer.
DR. J.B. — Eu teria forças para isso, mas não tenho força para fazer a minha filha sentar. Conclusão: o verdadeiro animal sou eu e não tu, eu é que devia ser montado por ti e passear, no meu próprio gabinete, contigo na garupa!
PARDAL — E a manchete, doutor?
DR. J.B. — Manchete?
PARDAL — Onde devo pôr o país?
DR. J.B. — Que país?
PARDAL — O Brasil.
DR. J.B. — Ponha o Brasil à beira do abismo, seu Pardal!
PARDAL — Outra vez?
DR. J.B. — Outra vez e sempre! Ou você ignora que minha filha é uma viúva? E não uma viúva sentada, como há milhares, há milhões! Antes de fazer suas manchetes, pense na viuvez de minha filha, Pardal!
PARDAL — Tem razão, mestre!
DR. J.B. — Põe um troço assim: "Falência do Brasil"! Que tal?
PARDAL (rabisca um papel) — Bacana... (lendo) Falência do...
DR. J.B. — Abre num tipo tamanho de um bonde. A falência do Brasil sempre vendeu jornal!
PARDAL — O.k. (sai e logo volta) Seus convidados.
DR. J.B. — Chegaram?
PARDAL — Mando entrar?
DR. J.B. — Claro, seu zebu!
PARDAL (vai e volta) — Tenham a bondade. Por aqui.
CONVIDADOS — Pois não. (Entram o psicanalista, o otorrino e a ex-cocote.)
DR. J.B. — Desinfeta, Pardal! (para os recém-chegados) Vamos entrar! PSICANALISTA — Como tem passado?
DR. J.B. — Entrem!
OTORRINO (cumprimentando) — O senhor só tem um redator?
DR. J.B. — Eu não podia pôr aqui um elenco de Cecil B. de Mille.
EX-COCOTE — Tudo azul? (Todos se sentam.)
DR. J.B. — Não falta mais ninguém? (Neste momento, há uma explosão que lembra o magnésio dos antigos fotógrafos. Irrompe da fumaça um sujeito de casaca, com dois esparadrapos na testa.)
DESCONHECIDO — Cáspite!
DR. J.B. — Quem é o senhor?
DESCONHECIDO — Não desconfia?
DR. J.B. — Não!
DESCONHECIDO (faz uma mesura) — Diabo da Fonseca, para servi-lo!
DR. J.B. — Que diabo?
DIABO DA FONSECA — O próprio!
DR. J.B. — Prove!
DIABO DA FONSECA (arranca a carteirinha) — Eis a minha carteirinha profissional! (Todos se precipitam.) Cecil B. de Mille (1881-1959): diretor de cinema norte-americano, famoso por suas superproduções com milhares de figurantes. Magnésio: dispositivo fotográfico de função semelhante ao do flash de hoje em dia. Consistia numa barra coberta de magnésio que explodia, produzindo luz e muita fumaça. Depois foi substituído pelas lâmpadas de magnésio que eram usadas uma vez só, porque queimavam na explosão; por fim, pelo flash eletrônico, embutido ou não na máquina fotográfica.
DR. J.B. (lendo) — "Diabo da Fonseca. Profissão: Belzebu."
DIABO DA FONSECA — Confere?
DR. J.B. — Batata!
EX-COCOTE — O esparadrapo na testa foi algum acidente com seu senhorra?
DIABO DA FONSECA — Madame, eu sou solteiro e, nem ao menos, amigado! OTORRINO — Não gosta de mulher?
DIABO DA FONSECA — Prefiro as viúvas!
DR. J.B. — Mas, afinal, a que devemos o prazer?
DIABO DA FONSECA — Eu explico. Imagine que eu vinha passando por aqui, acidentalmente e, de repente — foi de repente — senti um cheiro mortal, incoercível, incontrolável de viúva... Ainda agora sinto viúva no ar... (para um dos presentes) — Aqui alguém é viúva?
PSICANALISTA — Eu sou psicanalista!
DIABO DA FONSECA (desvairado) — Um de nós é viúva!
DR. J.B. - Contenha-se, Diabo da Fonseca, e seja um dos nossos. Abarraque-se.
DIABO DA FONSECA (senta-se) — Obrigado.
DR. J.B. — Bem, agora as apresentações: Aqui, Madame Cri-cri. Foi cocote ao tempo da vacina obrigatória...
MADAME CRI-CRI — No meu época a mulher usava bigodes no sovaco!
DR. J.B. — Este é o dr. Lupicínio, psicanalista de primeira água. (Dr. Lupicínio ergue-se e cumprimenta apertando as mãos, como num boxeur.)
DR. J.B. — Tem no consultório até vitrola caça-níqueis, com discos de churrascaria. DIABO DA FONSECA — Cáspite!
MADAME CRI-CRI (para o psicanalista) — Doutor, nós somos colegas, doutor!
DR. LUPICÍNIO — Como assim, Madame?
MADAME CRI-CRI — Oh, sim! Nós tratamos do sexo, eu, no meu casa, o doutor, no seu consultório!
DR. LUPICÍNIO — Absolutamente!
MADAME CRI-CRI — O sexo, nosso ganha-pão, o nosso mina!
DR. LUPICÍNIO (invocando o testemunho alheio) — Vejam! O que é que tem o sexo com as calças!
DR. J.B. — Não briguem!
MADAME CRI-CRI — Ou, eu não sou cafajeste!
DR. J.B. (continuando) — Dr. Sanatório Botelho, otorrino insigne...
DR. SANATÓRIO (ergue-se gravemente) — Muito prazer. E se me permitem... (arranca um travesseiro da barriga)
DIABO DA FONSECA — Barriga artificial, doutor?
DR. SANATÓRIO — É preciso!
MADAME CRI-CRI — Ora veja!
DR. SANATÓRIO — O médico precisa ser barrigudo — infunde respeito, confiança! A barriga impressiona os maridos. Mas pesa!
DR. J.B. — Meus amigos, estamos reunidos aqui, inclusive o diabo, por quê?
DIABO DA FONSECA — Cáspite!
DR. J.B. — Sim, por quê? Pelo seguinte: porque minha filha única, Ivonete, ficou viúva. (O diabo atira-se aos berros, aos aplausos.)
DIABO DA FONSECA — (batendo palmas) — Muito bem! Bravíssimos! Bravos!
DR. J.B. — Endoidou, Satanás?
DIABO DA FONSECA — Eu sempre aplaudi qualquer viuvez! DR. J.B. — Como eu ia dizendo: meu genro viajou de papa-filas e o papa-filas virou. Morreu todo o mundo e o meu genro virou farelo. Ora, direis, viúvas há muitas. Mas as outras sentam e a minha filha não. Qualquer dia desses morre como uma cambaxirra.
DIABO DA FONSECA — Reze, meu amigo, reze!
DR. J.B. — E eu chamei vocês, porque sempre tive a mania dos especialistas. Quando minha filha casou, toda sua primeira noite, de fio a pavio, foi orientada por especialistas. MADAME CRI-CRI — Mulher também deve ser orientada no adultério!
DIABO DA FONSECA — Madame, a senhora é um crânio!
DR. J.B. — Agora, na sua viuvez, eu recorro novamente aos técnicos. Cada um dos presentes tem, no caso, uma autoridade óbvia. Por exemplo, Madame Cri-cri. Contemporânea do Kaiser, de Mata-Hari, da febre amarela, sabe tudo, não sabe, madame?
MADAME CRI-CRI — Dou os meus palpites!
DR. J.B. — Hoje, tem casas até em Istambul. Nosso amigo psicanalista vive do sexo. O otorrino parece não ter nada com o peixe. Engano. Ninguém ama sem ouvidos, nariz e garganta. Quanto ao nosso amigo Belzebu, quem discutiria, sim, quem?, a sua autoridade sexual milenar? Fala: tu não és perito em amor, em mulher, Belzebu? DIABO DA FONSECA — Bem. Eu não me considero nenhum Bocage, mas me defendo.
DR. LUPICÍNIO — Acho que já vi o Diabo nalguma revista da praça Tiradentes.
DR. J.B. — Ora, no meu fraco entender, a viuvez é um problema de sexo, ou não é? DR. LUPICÍNIO — Admitamos.
DR. J.B. — E se é, vocês, que são donos da matéria, Madame com seu tráfico de brancas, dr. Lupicínio com seu consultório de boite, dr. Sanatório com sua bossa, vocês vão liquidar o caso de minha filha. Entendidos?
DIABO DA FONSECA — Cáspite!
DR. J.B. — Fala um de cada vez, apresentando uma solução salvadora. Com a palavra, o psicanalista.
DR. LUPICÍNIO — Logo eu?
DR. J.B. — Perfeitamente.
DR. LUPICÍNIO — Mas por que eu?
DR. J.B. — Evidente.
DR. LUPICÍNIO — Não posso falar.
DR. J.B. — Como não pode?
DR. LUPICÍNIO — O doente fala, eu calo. O doente paga, eu nem pio. Aliás, cobro meu silêncio pelo taxímetro. (exibe o taxímetro)
DIABO DA FONSECA — Que mamata!
DR. LUPICÍNIO — Sua filha está morrendo. Muito bem. Ela entra com uma angústia braba e eu com um divã macio. Eis a minha contribuição: o divã.
MADAME CRI-CRI — Você usa o divã, eu uso o cama.
DR. J.B. — Continue, amigo psicanalista.
DR. LUPICÍNIO — Não posso. Aliás, nunca falei tanto e já me sinto um traidor da psicanálise. Não me peça mais que o divã.
DR. J.B. — Adiante. Com a palavra o otorrino. Como arrancar minha filha da morte? DR. SANATÓRIO — Com licença. Vou recolocar a barriga para maior dignidade do meu pronunciamento. (repõe a barriga e, ao mesmo tempo, vai falando) Meus concidadãos, esse problema de "viuvez inconsolável" é meio relativo. A última viúva que eu conheci fez o seguinte: saiu do cemitério chupando chicabon. Diga-se que fazia um calor brabíssimo. Mas, enfim, sua filha está mesmo inconsolável e eu pergunto: ela já fez a radiografia dos dentes?
DR. J.B. — Pra quê?
DR. SANATÓRIO — Mas é óbvio!
DR. J.B. — Explique-se!
DR. SANATÓRIO — Convém uma pesquisa de focos dentários. E bom!
DIABO DA FONSECA — Peço a palavra!
DR. J.B. — Com a palavra, o Belzebu!
DIABO DA FONSECA — Está tudo errado!
DR. J.B. — Por quê, carambolas?
DIABO DA FONSECA — Lógico! Estamos falando de uma viúva que não conhecemos, que não estamos vendo. Como opinar no escuro? Como salvar uma viúva, sem vê-la e sem cheirá-la?
DR. J.B. — Você quer cheirar minha filha?
DIABO DA FONSECA — Por que não?
DR. J.B. — Com que intuito?
DIABO DA FONSECA — De pura investigação psicológica.
DR. J.B. — (para os outros) — Melhorou!
DIABO DA FONSECA — Sim e pelo seguinte: cada mulher ou, por outra, cada viúva tem um cheiro pessoal, intransferível, que é preciso captar. Conhece-se uma mulher de várias maneiras, inclusive cheirando-a, meticulosamente. Concorda?
DR. J.B. — (para todos) — Vocês querem ver minha filha?
DR. LUPICÍNIO — Queremos!
DR. J.B. — O.k. Vou buscá-la. Seu Pardal!
PARDAL — (entrando) — Cheguei!
DR. J.B. — Seu Pardal, não me deixa ninguém sair, compreendeu? Volto já. (Sai.) PARDAL — Não há perigo. (Pardal planta os pés, cruza os braços, como a prevenir qualquer tentativa de fuga. Vem o diabo ter com o Pardal um duelo de perguntas e respostas rapidíssimas.)
DIABO DA FONSECA — Que tal o homem?
PARDAL — Um cavalo!
DIABO DA FONSECA — De quantas patas?
PARDAL — Vinte e oito!
DIABO DA FONSECA — E a mulher dele?
PARDAL — A falecida?
DIABO DA FONSECA — Prestava?
PARDAL — Uma messalina!
DIABO DA FONSECA — E a filha?
PARDAL — Pior!
DIABO DA FONSECA — Por quê?
PARDAL — Não respeita nem poste!
DIABO DA FONSECA — E nós?
PARDAL — Uns palhaços!
DIABO DA FONSECA — E você?
PARDAL — Um cretino!
DIABO DA FONSECA — Obrigado! (Cessa o diálogo entre Pardal e o Diabo. O dr. Sanatório dirige-se ao Diabo.)
DR. SANATÓRIO — Vai ver que a filha do nossa amizade é algum bucho!
DIABO DA FONSECA — Protesto! Meu amigo, tenho milhões de anos!
DR. SANATÓRIO — Não parece!
DIABO DA FONSECA — Pois nunca, nesse curto período, encontrei uma viúva que fosse, ainda que remotamente, um bucho! Uma viúva nunca seria um bucho, não senhor, absolutamente, ora veja!
DR. LUPICÍNIO (para Madame Cri-cri) — Madame, a senhora é francesa?
MADAME CRI-CRI — Faz diferença?
DR. LUPICÍNIO (amabilíssimo) — Responda, Madame!
MADAME CRI-CRI — Polaca!
DR. LUPICÍNIO — Tem certeza?
MADAME CRI-CRI (dengosa) — Nasci lá!
DR. LUPICÍNIO — Quer dizer que as polacas existem?
MADAME CRI-CRI — Parrece!
DR. LUPICÍNIO — Quem diria? (Dr. Sanatório, que estava andando de um lado para outro, estaca, puxa um relógio e esbraveja.)
DR. SANATÓRIO — Tenho hora marcada e o dr. J.B. que não vem, ora pipocas! MADAME CRI-CRI — O doutor psicanalista quer-me dar uma palavrinha, em particular?
DR. LUPICÍNIO — Com prazer.
MADAME CRI-CRI — Oh, por que o doutor não vem no meu casa?
DR. LUPICÍNIO — Por quem me toma, Madame?
MADAME CRI-CRI — Eu fazer um abatimento, um preço de avenida Passos!
DR. LUPICÍNIO — Não insista, Madame!
MADAME CRI-CRI — O doutor tem algum tara especial?
DR. LUPICÍNIO — Eu sou analisado, Madame!
MADAME CRI-CRI — Meu casa aparelhada para qualquer preferência do freguês... E pode confessar seu tara... Cada um tem o seu, vou-lhe provar. Chega aqui um momentinho, Diabo do Fonseca.
DIABO DA FONSECA — Chamou, Madame?
MADAME CRI-CRI — Você não tem um tara?
DIABO DA FONSECA (estarrecido) — Como sabe?
MADAME CRI-CRI — Oh, responda, menino!
DIABO DA FONSECA — Tenho, mas é inconfessável!
DR. LUPICÍNIO (depois de olhar para os lados) — Deve ser uma tara muito grave!
DIABO DA FONSECA
— Gravíssima!
MADAME CRI-CRI — Conta pra nós, baixinho. Eu serr de confiança. Doutor também boca-de-siri.
DIABO DA FONSECA — É uma coisa horrível, que me persegue desde a primeira chupeta. Eu digo, mas a senhora não pode contar nem para sua mamãe.
MADAME CRI-CRI — Eu jura!
DIABO DA FONSECA — Então, eu vou contar, baixinho, bem baixinho... põe-se a berrar, como um possesso) Há uns milhões de anos que eu sonho com uma viúva. Dia e noite, só penso nela. É minha sina, Madame!
MADAME CRI-CRI — Eu arranjar viúva recentinha, de 48 horas!
DIABO DA FONSECA — Não serve, Madame!
MADAME CRI-CRI — De 24 horas, fresquinha!
DIABO DA FONSECA — Madame, aquela que eu espero, há milhões de anos, não é uma qualquer. É viúva, porém honesta. Só serve assim.
MADAME CRI-CRI (põe as mãos na cabeça) — Honesto? Viúva honesto? Oh, você tirou meu rebolado!
DR. LUPICÍNIO — E nunca encontrou uma nessas condições?
DIABO DA FONSECA — Mas não perdi as esperanças ou, por outra, ainda não perdi a última esperança: a filha do dr. J.B. Talvez seja a viúva dos meus sonhos, talvez. Porém se me falhar esse cartucho derradeiro e suicida, eu entro para um convento!
PARDAL — Atenção! Muita atenção! Acaba de chegar o dr. J.B., com a sua filha, d. Ivonete! (Entra dr. J.B. com a viúva. Esta, de luto fechado e inconsolável.)
DR. J.B. — Demorei, porque fui apanhar minha filha no cemitério. Estava lá, junto ao túmulo do marido. (Cada qual apanha uma cadeira para oferecer à inconsolável.) MADAME CRI-CRI — Oh, sente-se!
IVONETE — Nunca!
DR. LUPICÍNIO — Não quer sentar-se?
IVONETE — Eu sou uma viúva!
DR. SANATÓRIO — E daí?
IVONETE — Ou o senhor pensa que vou sentar-me como qualquer uma, cruzar as pernas etc. etc?
DR. LUPICÍNIO — Não pode?
IVONETE — Jamais!
DR. SANATÓRIO — Quer dizer que sentar é um ato gravíssimo?
IVONETE — Sim, um desrespeito à memória do marido. Se eu me sentasse, o que é que o senhor diria de mim? Responda! (espeta o dedo no peito do dr. Sanatório)
DR. SANATÓRIO — Eu, minha senhora, não diria absolutamente nada!
IVONETE — Seu mentiroso!
DR. J.B. — Pode xingar, minha filha, xinga à vontade! (para o dr. Sanatório) Deixa ela xingar!
IVONETE — Uma virgem qualquer pode sentar e fazer outros papéis. Não uma viúva. Eu tenho um compromisso, afinal de contas.
DR. LUPICÍNIO — Mas seu marido não morreu, minha senhora?
IVONETE — Morreu. E por isso mesmo. Ou o senhor me acha com cara de trair um marido morto? Um vivo não significa nada. O senhor, por exemplo, é casado?
DR. LUPICÍNIO — Perfeitamente.
IVONETE — Vive bem com sua mulher? Vai dizer que vive bem. Mentira. Vive mal. Não se pode viver com um marido que não morreu. O senhor está vivo. Já imaginou como o senhor deve ser chato em casa? No quarto, no banheiro? E se a sua senhora, achando que o senhor é realmente chato, resolve traí-lo? Pôr-lhe uns chifres?
DR. LUPICÍNIO — Em mim?
DR. J.B. (rosnando) — Não contraria!
IVONETE (espetando-lhe o dedo) — Em si!
DR. LUPICÍNIO — Azar o meu!
IVONETE (baixo) — Sua cara dá vontade de trair.
DR. J.B. (rosnando) — Confirma!
IVONETE — Não dá vontade de trair?
DR. LUPICÍNIO — Minha cara dá uma vontade imensa de trair!
IVONETE — Isso! Agora me responda: já viu algum cadáver chato?
DR. LUPICÍNIO — Não.
IVONETE — Ou burro?
DR. SANATÓRIO — Não.
IVONETE — Ou analfabeto?
MADAME CRI-CRI — O morto é sempre boa-praça!
IVONETE — Portanto, só a viúva é que deve ser fiel, só. As outras, não. As outras não precisam.
DR. J.B. — Mas sente-se, minha filha!
IVONETE — Não farei isso, nem outras coisas piores. Por exemplo: eu posso limpar as orelhas, enfiar o dedo no ouvido, como uma reles virgem? posso?
DIABO DA FONSECA — Não pode!
IVONETE — Meu pai, volto ao cemitério!
DR. J.B. — Eu levo no automóvel.
IVONETE — Com licença! (sai com o pai. Os outros inclinam-se)
PARDAL — Abram o olho: vigarista autêntica!
DR. LUPICÍNIO (para o Diabo) — Gostaste?
DIABO DA FONSECA — Legal!
DR. SANATÓRIO — Pões a mão no fogo?
DIABO DA FONSECA — Por ela?
DR. SANATÓRIO — Pões?
DIABO DA FONSECA — De olhos fechados!
DR. LUPICÍNIO — Rapaz, não ponhas a mão no fogo por viúva nenhuma!
DIABO DA FONSECA — Por essa, ponho. Honesta às pampas! E eu só digo a vocês uma coisa: invejo esse marido, esse morto, esse defunto, eu queria estar lá, onde ele está, podre, mas com essa boa por cima! (Entra o dr. J.B., Pardal perfila-se à sua entrada.)
PARDAL — Mestre!
DR. J.B. — Já conhecem a viúva e qual é a conclusão?
DR. SANATÓRIO — Com licença.
DR. J.B. — Pode falar.
DR. SANATÓRIO — Conhecemos a viúva, sim. Mas falta um detalhe — o marido. MADAME CRI-CRI — Posso dar meu palpite?
DR. J.B. — Com a palavra, Madame Cri-cri.
MADAME CRI-CRI — Seu genro tinha algum tara?
DR. J.B. — Por quê, Madame?
MADAME CRI-CRI — Geralmente, o marido muito chorado teve um tara muito simpático, muito agradável. Não foi assim com o falecido?
DR. J.B. — Madame, eu não sou precisamente a viúva.
DR. LUPICÍNIO - Mas precisamos saber quem foi e como foi seu genro!
DR. J.B. - Vou-lhes contar um episódio capital. Prestem atenção. Vem cá, Pardal.
PARDAL - Pronto, mestre.
DR. J.B. - Você se lembra daquele dia? como foi?
PARDAL - Ah, me lembro, sim. (luz escurece em cima da mesa) Eu estava na redação, quando... (Fugitivo, de uniforme. Mete-se debaixo da mesa.)
PARDAL - Eu estava comendo um sanduíche. E, de repente... (mastiga um imaginário sanduíche) Que é que está fazendo aí?
FUGITIVO (com voz de falsete) - Socorro... Socorro...
PARDAL - Qual é o drama?
FUGITIVO - Ah, me salve, moço, me salve!
PARDAL - Levanta!
FUGITIVO - A polícia me persegue! Está atrás de mim! Olha que eu corto os pulsos!
PARDAL - Seu pivete!
FUGITIVO - Fugi do SAM (Serviço de Assistência ao Menor), moço!
PARDAL - Ah, é? Então, rua! rua! Não tenho nada com isso, e não amole!
FUGITIVO - Ih, o senhor nem parece que teve mãe!
PARDAL - Ó, seu cachorro! te meto a mão, já, já e... Mas espere... Do SAM? Fugiste do SAM?
FUGITIVO - Pois é, fugi de lá com o "Pola Negri"! Batiam na gente.
PARDAL - Tive uma idéia, e luminosa. Vem cá, ó... como é teu nome?
FUGITIVO - Dorothy Dalton.
PARDAL - Bolei uma idéia, Dorothy Dalton. Vamos falar com o nosso diretor, que é uma mãe, um caráter! Mas não fala, fica só ouvindo, e deixa eu falar, (vão ao encontro do dr. J.B.) — Esse cara fugiu do SAM e...
DR. J.B. - Entrega à polícia!
PARDAL - Tive uma idéia melhor, diretor. É um troço maquiavélico. Que tal se a gente pegasse esse cara para fazer demagogia sórdida?
DR. J.B. - Bem sórdida?
PARDAL - É simples: a gente apanha o Dorothy Dalton e faz-se a recuperação do bicho.
DR. J.B. - Isso é irrecuperável!
PARDAL - Também acho, mas não tem importância. O que interessa é a onda contra o SAM e a nosso favor. Ficaria demonstrado que o SAM, em vez de corrigir, corrompe. Ao passo que nós — veja bem —, nós passaríamos pelos salvadores de uma besta como essa. Dá-se um emprego, um emprego qualquer e faz-se a demagogia.
DR. J.B. - E uma idéia!
PARDAL - Não é?
DR. J.B. - Mas que tipo de função teria o Dorothy Dalton, com esse nome de cinema mudo?
PARDAL - Só vendo. Vem cá, Dorothy Dalton, chega aqui
DR. J.B. - Mas que figurinha!
PARDAL - O que é que você sabe fazer? Antes de ir para o SAM o que é que você fazia?
DOROTHY DALTON - Raspava pernas de passarinho a canivete!
DR. J.B. - Bonito!
PARDAL (exultante) - Já sei. Crítico de teatro!
DR. J.B. - Você acha?
PARDAL - Mas olha a pinta, doutor! Está na cara! Não é escrito e escarrado o crítico teatral da nova geração?
DR. J.B. (para Dorothy Dalton) - Topas?
DOROTHY DALTON - Por mim, qualquer prazer me diverte!
DR. J.B. - Mas já sabe. Avisa que o jornal é contra o sexo!
PARDAL (para o Dorothy Dalton) - Ouviste, Dorothy Dalton? Qualquer peça que tenha uma insinuação sobre sexo, sobre amor de mulher com homem, você mete o pau, escracha! Outra coisa: se uma personagem ficar grávida, você também espinafra, vai espinafrando! Não admitimos gravidez em cena! (Cessa a evocação do episódio. Saem Pardal e Dorothy Dalton.)
DR. J.B. - A partir desse momento, o Dorothy Dalton sentou-se na minha alma!
DR. LUPICÍNIO - E o seu genro, doutor?
DR. J.B. - Já chegaremos lá.
DIABO DA FONSECA - Queremos conhecer um marido tão chorado, que devia ser uma especialidade!
DR. J.B. - Primeiro, ouçam mais esta - um fato que alterou, mudou toda a minha vida. Um dia, minha filha amanheceu febril. Nada de importante. Um resfriado bobo. Apenas uma coriza à-toa, só. Mas pelo sim, pelo não, mandei a menina ao médico da família, de toda a confiança. Uma tia solteirona foi levá-la. Vamos abrir um espaço para o passado. (Dr. J.B. e os outros vão saindo.)
DR. LUPICÍNIO - Vocês vão na frente, que eu quero dar uma palavrinha à Madame Cri-cri.
DR. SANATÓRIO - Não demore!
MADAME CRI-CRI - Pode falar, doutor psicanalista!
DR. LUPICÍNIO - Madame, aquele negócio é batata?
MADAME CRI-CRI - Que negócio?
DR. LUPICÍNIO (já com dispnéia) - A senhora sabe, Madame!
MADAME CRI-CRI - Das viúvas?
DR. LUPICÍNIO (faunesco) - Madame, existe viúva de 24? ou de 48 horas?
MADAME CRI-CRI - Oh, duvida?
DR. LUPICÍNIO - Mas viuvez documentada, Madame?
MADAME CRI-CRI - Não entendo!
DR. LUPICÍNIO (num rompante) - Quero uma que me esfregue na cara o atestado de óbito. Eu fui analisado, Madame, mas exijo o atestado de óbito!
MADAME CRI-CRI - Oh, arranja-se!
DR. LUPICÍNIO - Dinheiro há! Dinheiro há!
MADAME CRI-CRI - Combinado de pedra e cal!
DR. LUPICÍNIO - Madame, a senhora é uma mãe!
FIM DO PRIMEIRO ATO

SEGUNDO ATO
PRIMEIRO QUADRO (Consultório do dr. Lambreta, clínico ilibado. Velhinho de óculos, um ar de avô de todo o mundo. Entram tia Assembléia e Ivonete, a filha do dr. J.B. O dr. Lambreta está de costas para as recém-chegadas, escrevendo.)
TIA ASSEMBLÉIA — Como tem passado, dr. Lambreta?
DR. LAMBRETA — Não me dê "bom-dia", porque estou cobrando até cumprimento! (Vira-se o dr. Lambreta. Muito míope. Vive esfregando as mãos e dando risadinhas como uma bruxa de discos para crianças. Só falta enfiar a cara no nariz da cliente, para enxergá-la.)
DR. LAMBRETA — Quem é a senhora?
TIA ASSEMBLÉIA — Não se lembra mais de mim?
DR. LAMBRETA — Sou muito mau fisionomista!
TIA ASSEMBLÉIA — O senhor é médico da nossa família há 45 anos e meu nome é Assembléia...
DR. LAMBRETA — Já sei: a tia solteirona!
TIA ASSEMBLÉIA — Isso mesmo!
DR. LAMBRETA — Tenho uma memória batata! E quem é essa figurinha difícil da Bala Ruth20?
TIA ASSEMBLÉIA — Não se lembra? O senhor fez o parto dela!
DR. LAMBRETA — Agora me lembro. Seu pai é jornalista! Carreguei essa menina no colo. Você... (vira-se pra Ivonete) ...fez muito xixi em cima de mim!
IVONETE — Quero ir-me embora!
TIA ASSEMBLÉIA — Tenha modos! 20. Figurinha difícil da bala Ruth: na época eram comuns as coleções de figurinhas para serem coladas em álbuns que eram compradas junto com balas. Havia as fáceis e as difíceis, as muito disputadas, como a de n° 1 ou a última, e as crianças costumavam trocá-las. Uma figurinha difícil podia ser trocada por muitas fáceis.
DR. LAMBRETA (para a tia) — Chega aqui, chega! (leva a tia para um canto)
IVONETE — Volta, titia, volta!
TIA ASSEMBLÉIA — Tão agarrada a mim, dr. Lambreta! (para a menina) Fica bonitinha!
IVONETE — Quero ficar com a senhora, ah!
TIA ASSEMBLÉIA — Pois fica, mas tira a mão da saia, tira! (para o médico) Pode falar, doutor, que ela não entende! Tão ingênua, ih!
DR. LAMBRETA — A senhora tinha uns sonhos, não é mesmo?
TIA ASSEMBLÉIA (deliciada) — E ainda tenho!
DR. LAMBRETA (com uma risadinha) — Uns sonhos impróprios?
IVONETE — Eu também sonho, titia!
TIA ASSEMBLÉIA — Quietinha! (para o velhinho) Eu sonho sempre com um homem...
DR. LAMBRETA — O mesmo homem!
TIA ASSEMBLÉIA — Sempre o mesmo!
DR. LAMBRETA (com um riso sôfrego) — Continua!
TIA ASSEMBLÉIA — E assim: eu venho atravessando um terreno baldio...
DR. LAMBRETA — E o homem aparece!
TIA ASSEMBLÉIA — Aparece. E imagine: nu da cintura para cima!
IVONETE — Por que é que a senhora não correu, titia?
TIA ASSEMBLÉIA — Fica quieta, senão eu ponho você sentadinha ali, de castigo!
DR. LAMBRETA — Nu da cintura para cima não oferece perigo!
TIA ASSEMBLÉIA — Mas eu tenho medo!
DR. LAMBRETA — Que foi que lhe receitei?
TIA ASSEMBLÉIA — Uns diuréticos!
DR. LAMBRETA — E continua sonhando?
TIA ASSEMBLÉIA — Do mesmo jeito!
DR. LAMBRETA — Tira a roupa!
TIA ASSEMBLÉIA — Pra quê?
DR. LAMBRETA — Precisamos ver isso! Precisamos ver isso!
TIA ASSEMBLÉIA — Não sou eu, doutor!
DR. LAMBRETA — Então, quem é?
TIA ASSEMBLÉIA — Ela!
DR. LAMBRETA — Essa coisinha linda?! (para a tia Assembléia) Mas depois a senhora vai-me contar tudo o que tem havido no sonho. Conta?
TIA ASSEMBLÉIA — Tudo, doutor?
DR. LAMBRETA — Com detalhe! O detalhe é essencial! (para Ivonete) Mas vamos ver a nossa amiguinha. Está com dodói, coração? Diz pro vovô, diz?
IVONETE — Chato!
TIA ASSEMBLÉIA — Sua feiosa!
DR. LAMBRETA — Que espontaneidade! Que idade você tem?
IVONETE — Não sei!
TIA ASSEMBLÉIA — Quinze.
DR. LAMBRETA (num deslumbramento gagá) — Quinze, logo quinze! (para a tia) Mas é o que eu chamo uma idade criminosa!
TIA ASSEMBLÉIA — Por quê, dr. Lambreta?
DR. LAMBRETA — Madame, eu tenho uma teoria acerca da idade feminina. Na minha opinião, a mulher só devia ter quinze anos, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos...
TIA ASSEMBLÉIA — Mas que exagero, doutor!
DR. LAMBRETA (de mãos postas) — Batata, minha senhora, batata! (para a menina) Mas o que é que ela tem, o meu bibelô?
TIA ASSEMBLÉIA — Não sei bem, Coriza, doutor!
IVONETE — Ah, vamos embora!
TIA ASSEMBLÉIA — Menina intolerável!
DR. LAMBRETA — Escuta: vou-te examinar, mas não vai doer nada, nada...
IVONETE (num repelão) — Me larga!
DR. LAMBRETA — Ela tem pudor?
TIA ASSEMBLÉIA — Demais, doutor! Também é natural: viveu, até ontem, no colégio interno, e praticamente nunca viu um homem!
DR. LAMBRETA (esboça um gesto para a garota) — Meu anjinho...
IVONETE (contraída) — Eu grito!
DR. LAMBRETA — ...mas ouve: eu vou só olhar tua lingüinha, ouviu? Não precisa ficar com medo, porque eu estou nessa idade em que o médico começa a vender amostra... Faz assim, olha! (mostra a língua)
TIA ASSEMBLÉIA — Mostra a língua!
IVONETE — Tenho vergonha!
TIA ASSEMBLÉIA — Pudor às vezes atrapalha!
DR. LAMBRETA — Abre a boquinha, olha! (Ivonete obedece e o dr. Lambreta aplica-lhe uma colher.)
DR. LAMBRETA — Assim. Viu como não dói?
TIA ASSEMBLÉIA — Que tal, doutor?
DR. LAMBRETA — Garganta, língua, gengivas vermeIhinhas como romã... Madame, essa menina tem razão em não querer abrir a boca... Uma boca aberta é meio ginecológica, madame... Afinal, o dentista acaba sendo ginecologista... (espantado) Mas vejam só!
TIA ASSEMBLÉIA — Que foi, doutor?
DR. LAMBRETA — Não é possível!
TIA ASSEMBLÉIA — Está inflamada a garganta?
DR. LAMBRETA — Minha senhora, estou com minha cara no chão!
TIA ASSEMBLÉIA — É crupe, doutor?!
DR. LAMBRETA — Calma, calma! Ainda é cedo para uma última palavra... Vou fazer um novo exame... Meu coração, agora você vai-me deixar escutar nas tuas costinhas, deixa?
IVONETE — Não dói?
DR. LAMBRETA — Te juro!
IVONETE — Então, eu deixo!
TIA ASSEMBLÉIA — Assim que eu gosto!
DR. LAMBRETA — Já perdeu a vergonha, não foi? (Ivonete dá um grito inesperado e terrível)
IVONETE — Quero ficar nua!
TIA ASSEMBLÉIA — Mas que é isso, menina!
DR. LAMBRETA — Não faz mal, deixa!
TIA ASSEMBLÉIA — Ela é assim, de rompante! Mas tudo isso é inocência, doutor! (Dr. Lambreta põe a toalha nas costas da menina.)
DR. LAMBRETA — Diga trinta e três, meu bem.
IVONETE — Trinta e três.
DR. LAMBRETA — Outra vez.
IVONETE — Trinta e três.
DR. LAMBRETA (vira-se para a tia) — Em todo caso, pelo sim, pelo não, é bom chamar o pai dessa menina.
TIA ASSEMBLÉIA — Pra quê, doutor?
DR. LAMBRETA — Não me faça perguntas que ainda não posso responder.
TIA ASSEMBLÉIA (em pânico) — Mas há perigo, doutor?
DR. LAMBRETA — Telefone, já! (Tia corre para o telefone.)
TIA ASSEMBLÉIA (para o médico) — Se essa menina morrer, eu me mato, doutor! DR. LAMBRETA (continua auscultando) — Agora respire forte. (Ivonete obedece) Mais.
IVONETE — Pronto, doutor?
DR. LAMBRETA — Pode vestir.
TIA ASSEMBLÉIA (no telefone) — Venha correndo, chispado! Sua filha está nas últimas! (desliga. Precipita-se para o médico) Então, doutor?
DR. LAMBRETA — Bem, minha senhora, tenho uma má notícia. Infelizmente, confirmaram-se minhas suspeitas.
TIA ASSEMBLÉIA — Que suspeitas?
DR. LAMBRETA — Vamos esperar o pai.
TIA ASSEMBLÉIA — Mas tem cura?
DR. LAMBRETA — Para Deus, nada é impossível, minha senhora.
IVONETE — Eu posso comer de tudo, doutor?
DR. LAMBRETA — Vem cá. Olha pra mim: se eu perguntar uma coisa, você me responde?
IVONETE — O que é?
DR. LAMBRETA — Se me responder, eu te deixo comer de tudo. Responde? IVONETE — Respondo.
DR. LAMBRETA — Então, vamos lá: você tem namorado?
TIA ASSEMBLÉIA — Oh, doutor!
DR. LAMBRETA — Por que "oh", minha senhora? Ora veja!
TIA ASSEMBLÉIA — Mas ela é tão sem maldade que pensa, até hoje, que mulher pode casar com mulher!
IVONETE — Eu não gosto de homem!
TIA ASSEMBLÉIA — Viu?
DR. LAMBRETA — Mas vamos deixar a menina responder, sim, d. Assembléia?
TIA ASSEMBLÉIA (irônica) — Como queira!
DR. LAMBRETA — Tem namorado, riquinha?
IVONETE — Ah, eu não!
DR. LAMBRETA — Nunca teve?
IVONETE — Eu só gosto da Luci!
DR. LAMBRETA — E quem é Luci?
IVONETE — Uma menina!
TIA ASSEMBLÉIA — Se convenceu? Minha sobrinha é uma pétala, doutor! IVONETE (dá um berro inesperado) — Titia!
TIA ASSEMBLÉIA — Que foi?
IVONETE — Estou com vontade de soltar um palavrão!
TIA ASSEMBLÉIA (agarra-se à sobrinha) — Prende a boca! Não deixa sair! IVONETE — Quase!
TIA ASSEMBLÉIA (sôfrega) — Passou a vontade?
IVONETE — Graças a Deus!
TIA ASSEMBLÉIA — Bate na madeira, minha filha, isola! (Neste momento, entra o patético dr. J.B. — Atira-se, de braços abertos, para a filha.)
DR. J.B. — Minha filha!
DR. LAMBRETA — O senhor chegou na horinha!
DR. J.B. — Vocês me deram um susto danado!
DR. LAMBRETA — Mas sente-se!
DR. J.B. — Nunca! Quero receber a notícia de pé!
DR. LAMBRETA — Bem, dr. J.B., dá-se o seguinte: o caso de sua filha é mais complicado do que parecia!
DR. J.B. — Não é coriza?
DR. LAMBRETA — Pior!
DR. J.B. — Doutor, não me diga que é câncer?
DR. LAMBRETA — Pior!
DR. J.B. — Pior do que câncer?
DR. LAMBRETA — Em certo sentido, sim! (E, súbito, na sua cólera magnífica, o dr. J.B. abotoa o velhinho.)
DR. J.B. — Seu cachorro, ou você diz o que minha filha tem...
DR. LAMBRETA — Ai, eu digo!
DR. J.B. — Fala!
DR. LAMBRETA (apavorada) — Vou falar por parábola. Sua filha precisa casar imediatamente!
DR. J.B. — Casar?
DR. LAMBRETA — O mais depressa possível!
DR. J.B. (espantado, larga o velhinho) — Com quem?
DR. LAMBRETA — Com o pai.
DR. J.B. — Que pai?
DR. LAMBRETA — Da criança. (Dr. Lambreta está recuando circularmente diante do dr. J.B. Este faz um esforço mental em voz alta.)
DR. J.B. — Minha filha precisa casar-se imediatamente com o pai da criança. Muito bem. (com uma doçura terrível para o médico) E que criança?
DR. LAMBRETA — Dela!
DR. J.B. — O senhor está insinuando que minha filha...
DR. LAMBRETA (com frenética decisão) — Vai ser mãe!
DR. J.B. — Repita!
DR. LAMBRETA — Está grávida!
DR. J.B. (num uivo) — Minha filha?
DR. LAMBRETA — De dois meses! (Tia Assembléia agarra-se à sobrinha.)
TIA ASSEMBLÉIA — Cretino!
DR. J.B. — Fauno imundo! Sátiro gagá!
DR. LAMBRETA — Não tenho culpa de nada! (Dr. Lambreta fez de uma mesa uma barricada. Está agachado.)
IVONETE — Vou ter neném!
TIA ASSEMBLÉIA (esganiçada) — Cala a boca!
DR. LAMBRETA — Não sou eu quem o diz: é a ciência!
DR. J.B. — Processo a ciência!
TIA ASSEMBLÉIA (querendo arrastá-la) — Vem, queridinha!
DR. J.B. (num berro) — Espera! (arqueja) Quem sabe se... Preciso de uma certeza... Vem cá, velho. Quero saber o seguinte: Você tem certeza, digo certeza absoluta, do que afirma? Tem essa certeza?
DR. LAMBRETA — Infelizmente, sim.
DR. J.B. — Não é possível um engano? Uma confusão? Nada?
DR. LAMBRETA — Nada.
DR. J.B. — E, então, batata?
DR. LAMBRETA — Batata.
DR. J.B. — Acredito, mas só na hipótese da violência... Se eu pego o culpado, ah, dou-lhe um tiro na boca... Minha filha vai dizer um nome e ai dele!... Vem cá, minha filha, vem cá. Senta aí...
TIA ASSEMBLÉIA (sossega o histerismo) — Calúnia!
DR. J.B. (para a cunhada) — Sossega com esse histerismo! (para a filha) Meu anjo, quem foi?
IVONETE — Eu vou ter neném, papai?
DR. J.B. — Primeiro, responde: você tem algum flerte?
IVONETE — Eu não sei o que é flerte. (Dr. J.B. ergue-se... Atira os braços para o ar.) DR. J.B. — Essa inocência desmoraliza qualquer um!
DR. LAMBRETA (insidioso e ignóbil) — Nenhum professor te chamou no corredor? IVONETE — Pra quê?
DR. LAMBRETA (para o pai) — Se o senhor me permite, vou ser mais objetivo. Coração, nenhum professor te fez uma festinha? Não?
IVONETE — Eu só brinco com Luci!
DR. LAMBRETA — Também existe a hipótese do narcótico.
DR. J.B. — Ela não dirá um nome, porque não sabe...
DR. LAMBRETA — O senhor tem prestígio, tem jornal. Com um jornal, é fácil arranjar-se marido, amante, ministério!
DR. J.B. — Doutor! Vou providenciar imediatamente um marido! É boa bola! Ao animal que quiser ser pai de araque eu dou um ministério! Está resolvido!
FIM DO PRIMEIRO QUADRO

SEGUNDO QUADRO (Casa do dr. J.B. Em torno de Ivonete, estão as tias solteironas.)
TIA ASSEMBLÉIA — Coitadinha!
DR. J.B. — Por que coitadinha?
TIA ASSEMBLÉIA — Vai ter neném!
DR. J.B. — E daí?
TIA ASSEMBLÉIA — O parto dói!
DR. J.B. (aos berros) — Olha aqui: pára de gemer como uma solteirona de Garcia Lorca! Que mania!
TIA ASSEMBLÉIA — Tão novinha!
DR. J.B. — Deixa de palpite histérico e escuta: temos que ser práticos e objetivos!
TIA SOLTEIRONA — Não acredito que esse anjo possa ter filho de homem! (para Ivonete) Teu filho é de homem?
DR. J.B. (explodindo) — Basta!
IVONETE (num grito inesperado) — Quero ter neném!
TIA ASSEMBLÉIA — Fala baixo!
DR. J.B. — Minha filha, vai ter neném, sim!
IVONETE — Quero ter filho agora!
DR. J.B. (para a menina) — Daqui a pouco você tem! (para as tias) Estão vendo? É preciso arranjar um pai para o guri, urgentemente!
TIA SOLTEIRONA — Mas que não seja homem! (para Ivonete) É verdade que o filho nasce de um beijo?
IVONETE — Não digo!
DR. J.B. — (aos berros) Vocês conhecem algum pai? Quero um pai!
IVONETE (gritando) — Só quem me beijou foi Luci!
DR. J.B. — Olha aqui: eu sustento vocês a pão-de-ló com leite e vocês não fazem nada. Passam o dia todo cochichando como galinhas de desenho animado! Agora exijo um serviço de vocês: que descubram um pai!
TIA ASSEMBLÉIA — Nós?
DR. J.B. — Vocês, sim! E o mais depressa possível: antes que se note, que se perceba! TIA SOLTEIRONA — Nós não conhecemos homem!
MADAME CRI-CRI (entra) — Oh, pardon!
DR. J.B. — Madame, que coincidência! Eu ia telefonar pra senhora agora mesmo! A senhora não imagina, madame!
MADAME CRI-CRI — Eu soube do desgraça!
DR. J.B. — Soube?
MADAME CRI-CRI — O "Repórter Esso" deu ediçon extraordinária!
DR. J.B. — (arrancando os cabelos) — Mas como?! Essa cidade tem uma imaginação de balde de ginecologista!
MADAME CRI-CRI — Todo o mundo tem o sexo na cabeça!
DR. J.B. — Madame, vou apresentar: minhas cunhadas. Não repare: elas não se casaram... Esta é Madame Cri-cri, minha conselheira...
TIA ASSEMBLÉIA — A senhora não é uma que tem casas abertas?
MADAME CRI-CRI — Mais ou menos. O senhora é mulher honesta?
TIA ASSEMBLÉIA — Honestíssima!
MADAME CRI-CRI — Tem úlcera?
TIA ASSEMBLÉIA — Por quê, madame?
MADAME CRI-CRI — Oh, só acredito mulher honesta com úlcera... O virtude dá azia, úlcera... Mas eu não tem preconceito. Eu falar com mulher honesta... mulher honesta não é pior do que os outras...
DR. J.B. — Madame, a senhora vai-me salvar a pátria!
MADAME CRI-CRI — Esse o seu filha?
DR. J.B. — Sim, madame!
MADAME CRI-CRI — Bonitinha!
IVONETE (gritando) — Minha tia fuma no quartinho da empregada!
TIA ASSEMBLÉIA — Menina!
TIA SOLTEIRONA — Ponho você de castigo!
IVONETE — Também vi você dizendo palavrão na frente do espelho!
TIA ASSEMBLÉIA — Você me paga!
DR. J.B. — Agora sou eu que vou falar e se me interromperem vai ter! Madame, já vi que a senhora é a única pessoa no mundo que pode arranjar um marido para a minha filha. Arranja?
MADAME CRI-CRI — Um marido?
DR. J.B. — Exato!
MADAME CRI-CRI — Oh, não precisa!
DR. J.B. — Como não precisa?
MADAME CRI-CRI — O seu próprio filha escolhe! O corcunda sabe como se ajeita! DR. J.B. — Madame, afinal, minha filha não tem a sua experiência, por exemplo! Há de escolher mal o marido!
MADAME CRI-CRI — Oh, mulher sempre escolhe mal o marido... Mulher só escolhe bem o amante... Vamos ouvir o opinion do menina!
DR. J.B. — Minha filha, diz pro papai: você tem alguém em vista?
IVONETE — Tenho!
DR. J.B. — Quem?
IVONETE — Luci!
DR. J.B. — Viu, Madame? E inútil! Pelo amor de Deus, Madame, diga onde eu posso descobrir um marido para minha filha? Onde?
MADAME CRI-CRI — Já sei!
DR. J.B. — Diga, madame!
MADAME CRI-CRI — No seu jornal!
DR. J.B. — (atônito) — Lá?
MADAME CRI-CRI — No seu jornal não tem homem?
DR. J.B. — Talvez.
MADAME CRI-CRI — Seu filha vai lá e escolhe um.
DR. J.B. (iluminado) — Boa bola! — (para Ivonete) Minha filha, você vai fazer o seguinte, presta atenção: você vai à redação. Olha: lá tem uma porção de homens. Você escolhe um.
IVONETE — Só um?
DR. J.B. — E basta! Sim, minha filha? Acompanha Ivonete, Assembléia!
IVONETE (gritando) — Eu quero homem! (Saem Ivonete e Assembléia.)
TIA SOLTEIRONA — Madame, a senhora teve muitos amantes?
MADAME CRI-CRI — Assim, assim.
TIA SOLTEIRONA — Quantos?
MADAME CRI-CRI — Três mil e quinhentos.
TIA SOLTEIRONA — Só?
MADAME CRI-CRI — Fora os avulsos! (Dr. J.B. puxa o relógio e vem até a boca de cena.) DR. J.B. — Já se passaram duas horas... (Ivonete e tia Assembléia aparecem na porta.)
DR. J.B. — Que tal?
IVONETE — Escolhi!
DR. J.B. — Quem?
IVONETE — Adivinha!
DR. J.B. — Não faço a mínima!
IVONETE — Vou só dizer as iniciais: Dorothy Dalton!
DR. J.B. (num berro) — O crítico de teatro? (Dorothy Dalton aparece.)
IVONETE — Vem!
DR. J.B. (para o futuro genro) — Dá uma voltinha! (Dorothy Dalton obedece) Gira como um modelo profissional!
DOROTHY DALTON — Gostou?
DR. J.B. (furioso, para as solteironas) — Vocês, que são mulheres: vocês queriam "isso" para marido?
TODAS — Queríamos!
DR. J.B. — E a senhora, madame? Também aprova?
MADAME CRI-CRI — Tanto faz!
DR. J.B. — Então, já vi que a besta sou eu. E digo mais: mulher não gosta de homem!
DOROTHY DALTON — O senhor só pensa em sexo!
DR. J.B. — Lavo as mãos! Crítico do SAM! E deixa eu ver uma coisa: (consulta o relógio) Ih, está quase na hora do casamento! (O dr. J.B. começa a distribuir chapéus.) DR. J.B. — Vão-se enchapelando!
TIA ASSEMBLÉIA — Me dá o meu!
DR. J.B. — Tudo pronto?
TIA SOLTEIRONA — Falta o padre!
PADRE (entrando) — Também cheguei!
DR. J.B. — Ótimo! Vamos começar. Façam a "Marcha Nupcial" com a boca. (Os noivos, de braço, caminham numa cadência de marcha nupcial.)
PADRE — Ivonete de Albuquerque Guimarães, é por sua livre e espontânea vontade que vai contrair matrimônio com o crítico Dorothy Dalton?
IVONETE — Sim.
PADRE — Dorothy Dalton, crítico de teatro, foragido do SAM, é por sua livre e espontânea vontade que vai contrair matrimônio com Ivonete de Albuquerque Guimarães?
DOROTHY DALTON — Sim.
PADRE — Assim sendo, declaro-vos marido e mulher.
DOROTHY DALTON — Obrigado.
IVONETE — Meu pai!
DR. J.B. — Minha filha! (Abraçam-se e beijam-se, pai e filha. O dr. J.B. volta-se para Dorothy Dalton.)
DR. J.B. — Meu genro, só lhe peço uma coisa: seja homem!
DOROTHY DALTON — Isola!
DR. LAMBRETA (entra de lambreta pipocando) — Já acabou a cerimônia?
DR. J.B. — Neste instante.
DR. LAMBRETA — Protesto!
DR. J.B. — Que piada é essa?
DR. LAMBRETA — Protesto, sim! Vem cá, padre! (puxa uma colher)
PADRE — Mas que é isso?
DR. LAMBRETA — Mostra a língua! (aplica-lhe a colher) Agora, vira!
PADRE — Pra quê?
DR. LAMBRETA — Eu disse vira!
DR. J.B. — Dr. Lambreta, isso aqui não é gabinete ginecológico! (Dr. Lambreta está auscultando o padre.)
DR. LAMBRETA — Diga trinta e três!
PADRE — Trinta e três.
DR. LAMBRETA — Vai ter neném!
PADRE — Quem?
DR. LAMBRETA — Você!
PADRE — Eu?
DR. LAMBRETA — Não sente mexer?
PADRE — Mentira!
DR. LAMBRETA (espeta-lhe o dedo na barriga) — Barriguinha de seis meses! PADRE (aos berros) — Não acreditem! Eu nunca prevariquei! (Com a colher em riste, dr. Lambreta sai caçando mães.)
DR. LAMBRETA — A senhora vai ser mãe! O senhor também!
TIA ASSEMBLÉIA — Também vou ter?
DR. LAMBRETA — Gêmeos!
TIA ASSEMBLÉIA — Que bom! (Dr. Lambreta aproxima-se da tia solteirona.)
TIA SOLTEIRONA — Eu não quero filho!
DR. LAMBRETA — O que é que você quer?
TIA SOLTEIRONA (berrando) — Quero três mil e quinhentos amantes! (Aparecem dois enfermeiros. Vão-se aproximando. O velhinho recua. Os enfermeiros agarram o velhinho. Este é levado. Alegremente, vai pedalando o ar.)
DR. LAMBRETA — Crescei e multiplicai-vos! (Saem de cena os enfermeiros e dr. Lambreta.)
PADRE
— Estou sentindo mexer uma coisa aqui dentro!
MADAME CRI-CRI — O senhor evite do próxima vez! (Padre foge.)
DR. J.B. — Viu, Madame?
MADAME CRI-CRI — Oh, vi!
DR. J.B. — Tudo potoca desse bode ginecológico! Minha filha é mais pura do que nunca!
MADAME CRI-CRI — É da vida!
DR. J.B. — Mas, confesse, Madame, que minha filha merecia outro marido!
MADAME CRI-CRI — Oh, non, non!
DR. J.B. — Por que não, Madame?
MADAME CRI-CRI — Todas casam errado! Fácil encontrar um marido — difícil encontrar um homem!
FIM DO SEGUNDO ATO.

 

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