AUTORES CÉLEBRES
ZÉLIA GATTAI

SENHORA DONA DO BAILE - PARTE 1
| ABRIL
DE 1948
Chegaríamos a Lisboa no dia seguinte
pela manhã. Enquanto amamentava João Jorge na acanhada
cabine de segunda classe, eu fazia planos para o dia que passaria em
terra. Navio italiano, de linha regular entre o Brasil e a Europa, o
Argentina realizava duas escalas a partir do Rio de Janeiro: Cabo Verde
e Lisboa, antes de atingir o porto de Gênova, seu fim de linha,
meu destino. Eu embarcara no Rio de Janeiro, havia uma semana, levando
nos braços meu filho de quatro meses. Com uma criança ao colo, porém, a coisa mudava de figura, não podia nem devia me arriscar. Paciência. Ficara contemplando de longe a ilha, uma das dez do arquipélago de Cabo Verde. Na paisagem árida, parda, despida de Colorido, terra e casas se confundiam. Segundo lera no jornalzinho de bordo, havia anos não chovia em Cabo Verde, nenhuma vegetação resistia à seca e a população era obrigada a servir-se de água importada. Meninos apareceram nadando ao redor
do navio, alguns completamente nus; exímios mergulhadores, verdadeiros
peixinhos, iam pescar nas profundas do oceano as moedas que os passageiros
atiravam à água, trazendo-as presas entre os dentes. DOUTORA JANINA Médica italiana radicada em São Paulo, a doutora Janina dividia comigo a cabine nessa viagem de dez dias. Mulher disposta, sacudida, cheia de entusiasmo, animadíssima, beleza marcada por vincos na testa, rugas emoldurando os olhos negros, doutora Janina devia ter idade de sobra para ser minha mãe. Fizera muitas viagens de navio, sabia das coisas de bordo, dos oficiais e dos passageiros, punha-me a par da identidade dos companheiros de viagem, das ocorrências diárias e até do namoro de certa jovem casada, de família sua conhecida, a "se esfregar" pelos escuros do tombadilho com um bonitão italiano. "O marido, poveretto, trabalhando lá em São Paulo para sustentar os luxos e as viagens da mulher... e ela... se me contassem eu não acreditaria..." Naquela noite, enquanto eu amamentava e fazia planos, doutora Janina, que saíra, havia muito, toda em traje de soirée, voltou à cabine, queria saber se eu não desejava dar um pulinho à festa de despedida. Muitos passageiros ficariam em Lisboa, e daí a três dias chegaríamos a Gênova. Aquela, pois, seria a última recepção de bordo. Penalizada por me ver ali sozinha, a doutora propunha-se a ficar com o menino até a minha volta. Tentava entusiasmar-me: "Andiamo! Via! Ânimo! Vá se divertir um pouco..." Monologava: "Poverina, sempre con questa creatura in braccia... não se diverte..." Vendo que eu não me animava, mudou de tática, começou a contar: "... sabe aquela que eu te contei? A civettonal" Ela mesma ria do adjetivo que arranjara para a pobre moça. "Está cantando, toda romântica, e o bonitão acompanhando no piano; uma cena! Vale a pena você ver!" Imitando a outra, a civettona, doutora Janina botou a mão no peito, meneou o corpo, sapecou um bolero muito era voga. "Nosotros, que fumos tan sinceros/ y desde que nos vimos/ amandonos estamos..." Essa doutora era uma bola! Não tinha jeito! Tão boa, tão gentil... —
Muito obrigada, minha querida — disse-lhe com um sorriso de agradecimento
— não posso aceitar sua gentileza, prefiro dormir cedo,
estou cansada e amanhã vamos ter um dia puxado... A senhora é
um amor! MEU AVÔ PORTUGUÊS Dissera
à doutora Janina que desejava dormir cedo. Minha intenção
era aquela, mas iria mesmo dormir, na excitação em que
me encontrava? Minha emoção às vésperas
de conhecer Lisboa era grande. Realizava um sonho, cultivado desde criança. O fato de eu ser filha de italianos não me impedia de atribuir ao navegante português a razão da minha existência, minhas origens, minhas raízes, como se ele fosse meu ancestral, meu avô. Mas o hino não ficava ali, prosseguia: "Glória a quem o seu nome venera..." Eu levava o hino a sério, ao pé da letra, e, glorificada, mais do que amava, eu venerava o nome de Cabral. Uma única vez discordei da opinião de meu pai — menina acha que o pai sabe tudo, ninguém sabe mais do que ele —, achei que seu Ernesto não sabia nada ao vê-lo declarar que, antes de Cabral, outros navegantes haviam estado no Brasil. Cheguei quase a me sentir ofendida. Passara parte de minha infância a decorar e a declamar longos poemas anticlericais de Guerra Junqueiro; ouvia mamãe repetir trechos dos livros de Thomaz da Fonseca, escritor português, anarquista de longa tradição. THOMAZ DA FONSECA, PATRIARCA DO ANARQUISMO Certa
vez, no Rio, depois de nosso regresso da Europa, tive a oportunidade
de fazer uma surpresa a mamãe, dando-lhe ao mesmo tempo uma grande
alegria. Guardo a lembrança desse momento raro. Diante
de mim uma figura impressionante! Um Dom Quixote, alto, esguio, um homem
fino e delicado, as longas barbas brancas quase a alcançar-lhe
a cintura, um patriarca. Thomaz da Fonseca, à porta, sorria de,meu
indisfarçável assombro. Habituada
ao meu espírito brincalhão, às peças que
eu lhe pregava a cada oportunidade, dona Angelina voltou-se para mim,
ar superior de quem diz: "nesta não caio", e atirou-me
uma frase irônica: |
PRESENÇA PORTUGUESA Personagem marcante de minha infância foi a transmontana dona Ana Maria, vendedora de galinhas, mulher sofrida e de grande coração. Dona Ana Maria costumava interromper suas andanças fazendo uma parada em nossa casa a fim de descansar no chão o pesado jaca que carregava às costas, seis dias por semana. Tomava um café que mamãe lhe oferecia, dava água às galinhas — pobres aves sedentas, com seus bicos abertos, as línguas de fora, os olhos redondos piscando de medo, que pena me davam! — e nos deliciava com histórias ingênuas. Ficávamos cativados sobretudo pela sua maneira de falar, trocando os bês pelos vês, os is pelos us e vice-versa, a pronúncia quase incompreensível para nós. Eu adorava ouvi-la contar os detalhes do acidente que a tornara viúva, e, quando mamãe não estava por perto, eu lhe perguntava: — Como foi mesmo que seu marido morreu, dona Ana Maria? Com
uma paciência infinita, ela me fazia a vontade e lá vinha
a história sempre narrada com as mesmas palavras. Coisas tolas
de criança mas que ficam gravadas para sempre, cheguei a decorar
trechos do relato e nunca mais os esqueci. Mamãe me proibira:
"... não fique aí a reavivar a dor da pobre...",
mas eu bem percebia que ela também gostava de ouvir a história: Mas
dona Ana Maria nos falava também, e sempre com saudades, de sua
terra, de seu Trás-os-Montes, das vindimas, da.s uvas esmagadas
com os pés, do vinho, do outono de árvores se desnudando,
da neve no inverno... Rojões
espocavam clareando o céu e, à meia-noite, começavam
as sortes. As moças se afobavam preparando simpatias para Santo
Antônio casamenteiro, para São João das bem-casadas
e para São Pedro, o santo das viúvas. Gastavam dúzias
de ovos para saber do noivo tão esperado: as claras eram despejadas
em copos d'água, postos no sereno. Pela manhã, era aquela
alegria! Cada moça encontrava, na imagem — ou escultura?
— em que a clara se transformara dentro da água, a resposta
positiva a suas perguntas, na medida exata de seus desejos. As irmãs de José Soares, marido de Wanda, se esmeravam nos doces, passavam dias e dias junto ao fogão, na preparação das queijadinhas, do arroz-doce decorado com desenhos de canela em pó, dos pastéis de Santa Clara, do toucinho-do-céu. Os rebuçados de Lisboa eram comprados, aos quilos, na Confeitaria Bussaco, onde seu Joaquim vendia doces portugueses de toda qualidade. Em casa de dona Carmelina aprendi com a garotada uma cantiga que muito me divertiu. Fui cantá-la em casa e mamãe se escandalizou. Proibiu terminantemente que eu a repetisse: "Isso não é coisa pra menina...Se fosse coisa boa, você não aprendia com tanta facilidade, não cantava com tanto entusiasmo..." Nunca esqueci a cançãozinha proibida e engraçada: "Era uma velha que andava a varrer, e as badalhocas ao eu lhe bater/ e quanto mais a velha varria, mais as badalhocas ao eu lhe batiam..." Não adiantou explicar a mamãe que eu em Portugal era bunda, segundo me haviam dito. Mamãe não se impressionou com minha explicação, continuou achando que a canção era porca e manteve a proibição. Ao
saber de minha viagem e da escala que faria em Lisboa, meu cunhado José
Soares me pedira que ao voltar lhe trouxesse um punhado de terra portuguesa. Pipo, mestre-cuca do navio, me faria companhia. Certamente eu dormiria mal naquela noite, à véspera da escala no porto de Lisboa; talvez nem dormisse, com tantos fatos a rememorar» tantos planos a fazer. O MESTRE-CUCA Dona
Angelina puxara-me as orelhas, passara-me um sabão ao nos despedirmos: Foi a doutora quem me apresentou a Pipo, recomendando-me ao mestre-cuca. Eu caí nas suas graças e ele me franqueou as portas da cozinha, proibidas a pessoas estranhas ao serviço. Ao chegar em busca de sucos de frutas frescas ou da sopinha de meu filho, já encontrava tudo pronto à minha espera. Na enorme cozinha do navio, o Chefe Pipo, blusão branco impecável, calças de xadrez miúdo, a toque blanche de mestre-cuca a elevar-lhe a estatura, a dar-lhe imponência, dominava um mar de fogões e de panelas e toda uma legião de subalternos, que o atendiam a tempo e a hora. O Chefe acertara a profissão, gostava de comer, sentia orgulho de seus conhecimentos culinários, dava-me receitas e sentia-se feliz com os elogios que eu fazia a suas iguarias. Não
me foi difícil descobrir que o velho era homem de esquerda, antifascista.
Puxei assunto sobre as eleições que se realizariam no
dia 18 de abril, na Itália, precisamente na véspera da
nossa chegada a Lisboa. Nessas eleições, a Democracia-Cristã
e a Frente Popular — o Presidente De Gasperi e a Igreja comandavam
os democratas-cristãos; a Frente Popular era constituída
por forças de esquerda, os socialistas de Pietro Nenni e os comunistas
de Palmiro Togliatti — faziam da campanha eleitoral uma briga
de foice, na conquista de posições no Parlamento que lhes
garantissem a força, o poder para governar o país. Havia
um otimismo generalizado entre as camadas de esquerda; achavam que,
depois de tanta luta, de tantos anos de fascismo, havia chegado a hora
da vitória. Tão grande e tão difundida era essa
esperança que, contagiado pelo otimismo, Jorge resolvera mudar-se
da França para a Itália. Ele se encontrava viajando por
lá, ia me esperar em Gênova. Pipo passara inúmeras vezes pelo porto de Lisboa, porém jamais desembarcara. Embora fosse contra o regime salazarista, ele tinha vontade de conhecer a capital portuguesa. Sem compreender a língua, como se expressar? Desistia de descer a terra, acabava sempre ficando a bordo. Convidei-o a desembarcar comigo, passearíamos juntos pela cidade, ele me acompanharia na visita à dona Rita. Eu seria sua intérprete, pagando-lhe assim as inúmeras gentilezas que me prestava, além de ter a companhia de alguém que me ajudasse a levar a sacola contendo fraldas e apetrechos do menino e a carregar João, quando eu me cansasse. Com doutora Janina não podia contar, ela se engajara numa excursão. LISBOA A VISTA Despertei-me
cedo, antes mesmo que o menino reclamasse a primeira mamada. Doutora
Janina deitara tarde, ainda dormia. Tratei de me aprontar, estava doida
para subir ao tombadilho a fim de assistir à entrada da barra. Pelos corredores o movimento já era intenso; pessoas passavam pisando forte, falando alto. Lá fora fazia frio. Com a criança envolta num xale de lã, busquei espaço entre os passageiros que se comprimiam na amurada, consegui um lugar, espremida entre eles. A cidade de Lisboa surgia ao longe. Deslizando docemente, o navio deixara o mar para trás, navegava pelo Tejo. Silenciosa, emocionada, eu contemplava a paisagem a se descortinar diante de meus olhos: "...panorama grandioso..." Pessoas ao meu lado anunciavam, entre exclamações entusiásticas, demonstrando sapiência, cada monumento que aparecia: "Lá está o Forte de Caxias! A Torre de Belém! Foi de lá que saíram as caravelas de Cabral! Vejam que colosso o Mosteiro dos Jerônimos! Lá ao fundo, o Castelo de São Jorge!" E a belíssima construção que se destacava entre tantas outras também belas, na montagem daquele grande e delicado presépio? Um presépio, sim, senhor! Assim meus olhos viam, na colina colorida, a cidade de Lisboa. Se eu procurasse com cuidado a manjedoura do Menino Jesus, talvez a encontrasse em meio ao casario... Alguém explicou que a construção, a destacar-se entre as demais, era a do Hospital da Cruz Vermelha d'Óbidos. D'Óbidos? Eu ouvira havia pouco esse nome. Ouvira ou lera? Eu lera, agora lembrava, na lousa fixada junto ao comissariado, anunciando que o barco atracaria às nove horas no cais da Rocha do Conde d'Óbidos. Nome tão pomposo, ficara me na memória. CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA Ao abandonar a indumentária imponente de chefe de cozinha, vestido num terno claro, sem gravata, Pipo mudara de aspecto, ficara modesto, diminuíra de estatura e, interessante, só então notei que mancava um pouco. Trazia uma garrafa térmica com o suco de frutas do "bambino", não esquecera. Mostrou-me uma listinha de coisas que desejava comprar, em geral guloseimas, lista encabeçada por latas de atum, "una ventresca specialef", como dizia o gourmet com água na boca. Atum igual ao daquela marca portuguesa jamais provara. Tinha o endereço, sabia onde encontrar a preciosa "ventresca". Após
as formalidades de praxe, tendo passado, em filas intermináveis,
pelas autoridades sanitárias e pelo controle da polícia,
descemos a terra. Já eram quase onze horas quando conseguimos
um táxi. Devíamos estar a bordo, de volta, às dezessete
horas, o navio zarparia às dezoito e trinta. Eu
falava português e, no entanto, o chofer do táxi não
estava entendendo o endereço de dona Rita, repetido três
vezes; continuava a me perguntar: No
acanhado e sombrio vestíbulo do térreo, à esquerda
havia apenas uma porta, devia ser aquela. Pressionei o botão
da campainha, primeiro timidamente, depois com insistência ao
ver que não atendiam. Começava a desanimar, certa de que
não havia ninguém naquela casa, quando abriu-se o postigo
e dois olhos me fitaram. Uma voz áspera de mulher perguntou:
"O que deseja?" Ao saber que eu procurava dona Rita e que
vinha do Brasil, abriu a porta. Na sala mal iluminada, parada em minha
frente, uma senhora de meia-idade, roupa escura amarfanhada, olhos estremunhados
de quem acabava de acordar, fixou-me antes de declarar: |
| MISTÉRIO
DESVENDADO
Algo de anormal acontecia, mas o quê?
Que explicação dar ao meu baratinado acompanhante, tão
desejoso de saber o que se passava, se nem eu mesma estava entendendo
nada? Com um gesto de mão, pedi paciência a Pipo, logo
lhe explicaria tudo. A mulherzinha botava os bofes pela boca, não
me, dava oportunidade de perguntar nem de responder, soltara a corda
de vez: A mulher olhou-me com escárnio: Farta de tanto ouvir palavras insultuosas
contra Paulo, doida para desvendar aquele mistério, interrompi-a
em meio a uma frase: Fazendo uma pausa para tomar fôlego
e criar suspense, dona Júlia encarou-me antes de formular a pergunta
acusatória: Paulo havia entrado, recentemente, para uma grande firma, como vendedor de máquinas agrícolas. Corria a praça, fazia a praça, como se costuma dizer no Brasil. A mãe, em Portugal, interpretara à sua maneira. A senhoria, com toda a certeza, ajudara a botar lenha na fogueira, com a mesma veemência e o mesmo desembaraço com que dava agora sua própria versão à causa mortis; assassinato a longa distância! — Bom título para romance policial. A última carta de Paulo à mãe fora escrita fazia menos de um mês; ela falecera havia dois dias, de uma parada cardíaca, durante o sono. Cansado de tanto esperar, inquieto,
Pipo depositou o embrulho do presente, que até então carregara,
sobre a mesa, tomou a criança de meus braços, foi espiar
a rua pela janela recém-aberta por uma cidadã que surgira
como um fantasma. A dita cuja abrira a janela, se aproximara para ouvir
a discussão, lançara um olhar curioso para o meu lado
e sumira por uma porta que devia ser a da cozinha, pois em seguida ouviu-se
ruído de panelas, seguido de penetrante cheiro de cebola frita. Ao perceber que o velho me convidava
para ir embora, dona Júlia amaciou a voz, encheu-se de delicadeza
— os olhos sempre fixos no presente —, botou acento no carinho
que nutria pela santinha, "mesmo que uma irmã!" Passou
a falar das despesas que tivera com o enterro: "Ainda agora, com
os funerais dela, gastei um dinheirão! O irmão da senhora
dona Rita pagou uma parte dos gastos, não nego, mas e eu, que
nem parente sou?..." Compreendi imediatamente o seu objetivo: no
momento ela me nomeava parente da falecida, parente com obrigações
de concorrer para as despesas. Chegara a hora de dar um basta. Consultei
o relógio. Passava de meio-dia; apanhei o pacote de cima da mesa,
a sacola deixada sobre a cadeira: "LA STREGA" Fora tanta a chateação daquela manhã, que nem tempo eu tivera de sentir a morte da pobre senhora. Ficara nervosa e irritada. Não ia permitir, no entanto, que essa tal de dona Júlia, desagradável e ignorante, estragasse as últimas horas que me restavam para conhecer Lisboa. Pedi ao chofer que nos levasse a um restaurante do centro, a um lugar agradável e simples e, sobretudo, onde se comesse bem a típica comida portuguesa. Assim que o carro arrancou, sem dizer palavra, apenas juntando e balançando as cinco pontas dos dedos, num pedido de explicação, Pipo me fitou, a curiosidade estampada na cara. Contei-lhe apenas uma parte do sucedido: a pessoa a quem eu ia visitar tinha sido enterrada naquela manhã. A surpresa arrancou de Pipo um "càspita!", redondo e sonoro. Parei aí, não fui avante, o resto da história era muito complicado, difícil de explicar. Mas o velho não ficara satisfeito, queria mais: "Ma quella strega?", indagava. "Quella strega è una stregaf", disse-lhe rindo e encerrando o assunto. PARQUE MAYER Existe no centro de Lisboa, ao lado da Avenida da Liberdade, um grande parque arborizado — tílias, nespereiras, figueiras, um venerável jacarandá, oriundo do Brasil —, o Parque Mayer, a meu ver, um dos encantos da capital portuguesa. Nele se localizam alguns dos mais tradicionais teatros da cidade, nos quais se apresentaram e se apresentam artistas famosos da revista e da comédia — reino de Beatriz Costa e de Raul Solnado —, e uma dezena de restaurantes que servem a típica comida portuguesa, sem luxo mas de insuperável qualidade. Quis
minha estrela que o motorista nos conduzisse naquele dia ao Parque Mayer,
do qual viria a ser freqüentadora habitual muitos anos mais tarde,
e, ainda mais, que eu escolhesse para o nosso almoço um recanto
pequeno e aprazível, O Retiro da Amadora. Nunca poderia imaginar
que um dia me tornaria amiga fraterna daquelas jovens atenciosas que
nos atenderam, as proprietárias do acolhedor restaurante. Vendo-me atrapalhada, às voltas com a criança, sem que eu lhes pedisse, os proprietários do restaurante mandaram que a menina mais nova me acompanhasse a um quarto e me pusesse à vontade — a família residia em cima do restaurante, num alegre e limpo primeiro andar. Enquanto eu mudava as fraldas de João e dava-lhe o peito, Pipo saíra a andar um pouco, dar uma olhada pelo parque. Voltou aflito, trazendo um jornal. Dera-se conta, pela manchete do matutino, da vitória dos democratas-cristãos. Em meio a toda aquela confusão eu me distraíra a ponto de esquecer as eleições que tanto nos interessavam. Li, avidamente, o telegrama; as apurações ainda não estavam concluídas mas a vitória já era garantida."A IGREJA VENCEU!", dizia a manchete do jornal salazarista. Decepcionada, mais do que isso, triste e preocupada, eu começava a ver as coisas se complicarem para o meu lado. Perdi a graça, o interesse pela planejada excursão. Jorge devia estar chateado ao infinito! Pipo não escondia a contrariedade: "siamo fregati!", disse e repetiu. Também ele desistiu do passeio mas desejava fazer as compras, disso não abria mão. Entregou-me o papel com o endereço da casa comercial. O chofer nos levou à Rua do Carmo, sabia onde ficava a Martins & Costa. Quem, em Lisboa, não conhecia a famosa casa? Paramos na ladeira, em frente ao estabelecimento, pedi ao motorista que nos esperasse, pois de lá iríamos para o navio. Além do almoço que o regalou, o velho cozinheiro teve, na sua malograda estréia de Lisboa, a oportunidade de conseguir o desejado atum. Aproveitei para comprar, também eu, uma lata grande para Jorge. Ele iria gostar. "LA NAVE È IN PARTENZA!" Os alto-falantes de bordo repetiam o aviso: "Signori passeggeri, Ia nave è inpartenza... Preghiamo ai signori visitanti..." Visitantes que se encontravam a bordo apressavam-se nas despedidas. Voltava-me a nostalgia que sentira, havia uma semana, ao deixar o Brasil. A voz estridente espalhada pelos alto-falantes me assustou, fazendo-me experimentar o mesmo choque que me sacudira na dolorosa partida do Rio. Na saída de Lisboa ninguém me acompanhara, ninguém me dera adeus lá do cais. Um casal de velhos despedia-se, aos prantos, de uma senhora que ali embarcava. Lembraram-me Lalu e seu João, pais de Jorge: "Cuide bem de meu filho...", dissera Lalu; "Deus te acompanhe, minha filha...", dissera seu João. Antes mesmo que o navio tivesse zarpado, apenas levantada a escada, meus sogros desapareceram de minha vista. Ainda um adeus com a mão, um lenço enxugando os olhos e depois se foram. Lalu voltara-se duas ou três vezes para me acenar mas seu João não olhou mais para trás. O navio afastara-se lentamente e eu vira a paisagem do Rio de Janeiro cada vez mais longe. O bondinho entre o Pão de Açúcar e a Urca parecia solto no espaço, os cabos de aço invisíveis na distância; depois foi a vez da praia de Copacabana, estreita faixa branca em semicírculo, a compacta massa de edifícios por detrás; ao fundo o Corcovado... A imagem do Cristo sumira, certamente encoberta pela espessa névoa a circundar o cume da montanha. A cidade do Rio de Janeiro parecia se movimentar, afastando-se. Eu não percebia a mais mínima trepidação, as máquinas lá embaixo deviam estar paradas. Finalmente elas deram sinal de vida num solavanco, começavam a funcionar; daí por diante seria mar aberto. Um pungente apito de despedida — o prático que manobrara o navio se afastava numa lancha. Em meio a tanta gente e tanta animação, eu me sentira só, desprotegida. Agora, ao sair de Lisboa, voltavam novamente o nervosismo, a nostalgia e as preocupações. Eu pensava em Jorge, na sua frustração com a derrota da Frente Popular, nossos planos de viver na Itália indo por água abaixo. De qualquer maneira, dentro de dois dias estaríamos juntos e toda a tristeza, todas as saudades afogadas em lágrimas desapareceriam. VERSÍCULO INTERPRETADO POR LALU Viajara
apreensiva. Meus sogros iam sentir minha falta, principalmente agora
quando haviam comprado apartamento depois de viverem muitos anos em
hotel. "Deus me livre e guarde de pelejar mais com casa, já
trabalhei muito na vida, quero mesmo é descansar", declarara-me
dona Eulália, ao fazer o elogio do hotel onde habitava. Escutei
por acaso, na véspera de meu embarque, o começo de uma
conversa entre Lalu e Nina, a empregada. Interessada no assunto, deixei-me
ficar a ouvir. Ladina, sabedoria em pessoa, Lalu dava conselhos à
moça: História
divertida de matreirice e sabedoria; eu rira muito e ria ainda agora
ao recordá-la. Jorge ia gostar de ouvi-la. Mas ficara inquieta:
Nina iria aceitar os métodos rurais da nova patroa? Duvidava
que tais sistemas do interior do Nordeste fossem válidos para
uma empregada citadina, do Rio de Janeiro. A sabida e experiente dona
Lalu, se não mudasse de método, ia ficar na mão,
já e já, pelejando sozinha com a casa. |
| CHAMPANHE
E CAVIAR PARA COMEMORAÇÃO
Nem subi para jantar, estava cansada
demais. Aborrecida, remoía a derrota da Frente Popular na Itália
enquanto me preparava para deitar, quando surgiu, de repente, doutora
Janina: faces esfogueadas de quem havia bebido, o entusiasmo estampado
no rosto: Diante de tal convite, fiquei sem ação.
A coitada nem devia estar desconfiando... Eu não ia aceitar,
não tinha o menor sentido festejar um acontecimento que me deixara
na fossa, derrotada. Não ia dizer à doutora, certamente,
o que estava sentindo nem o que pensava da vitória da Democracia-Cristã;
não podia fazer uma desfeita àquela pessoa amiga, a quem
devia inúmeras obrigações. Procurei maneira de
não magoá-la: CHARQUE DE PRIMEIRA Deitei-me
sabendo que não ia dormir. A noite seria curta para pensar; pensar
era o que eu mais fazia nas madrugadas de insônia no balanço
do navio. Vendo-me às voltas com as arrumações, Lalu e seu João se entusiasmaram, resolveram contribuir; apareceram com enorme manta de carne-seca: "Charque de primeira!", elogiou seu João. "Leve para Jorge", disse Lalu, "o pobrezinho deve estar passando fome por lá, com as comidas diferentes..." Fazia um ar de repulsa quando mencionava as comidas diferentes. "Meu filho deve estar morrendo de saudades de um jabazinho! Onde é que já se viu feijão sem um pedaço de charque dentro? Oxente!" Era
tal a satisfação e o entusiasmo dos velhos, antegozando
a alegria do filho ao receber o presente, que nem tive coragem de recusar
a incômoda encomenda. Rival no odor penetrante do bacalhau e da
sardinha assada, o charque, mesmo muito bem embalado, é implacável:
mantém sua personalidade, impõe sua presença; com
seu forte cheiro infesta todo e qualquer ambiente. Não podendo
me negar, aceitei a encomenda e a entregaria em mãos, muito em
breve, a seu destinatário. Eu também quis levar-lhe um
presente. Pensei, quebrei a cabeça antes de encontrar um que
lhe agradasse em cheio: comprei-lhe uma linda rede baiana, de casal,
maravilha para suas sonecas. Juntei à rede, já de si bastante
volumosa, vários pacotes de cigarros marca "17", quebra-peito
de sua preferência. A ESTRELA COMPETENTE A
porta da cabine abriu-se docemente. O
perfume das frutas despertara meu apetite. Sentada, devorando a maçã,
ri pensando na reação de mamãe, quando eu lhe contasse
as gentilezas de minha companheira de viagem. Sabia, sem perigo de errar,
que Dona Angelina triunfaria: "Está vendo? Eu não
digo? Você nasceu com a estrela!" Não fosse o sectarismo de dona Angelina, talvez ela até falasse em anjo da guarda, em Deus, em Nossa Senhora e, quem sabe?, em Xangô ou Iemanjá ao referir-se à minha estrela. Mas mamãe, sendo anarquista, não podia colocar a filha sob a proteção de divindades. Para quem duvidasse dos efeitos de seu imaginário astro, a começar por mim, ela arranjara recentemente um argumento incontestável, um verdadeiro tapa-boca: o casamento da filha com Jorge Amado."Obra da estrela", fincava o pé e daí não arredava. Durante aqueles dias de viagem, exatamente por causa de doutora Janina e do velho Pipo, resolvi dar uma colher de chá à estrela de mamãe, atribuindo-lhe os méritos por tão bons companheiros de viagem. Mas também lembrara — dona Angelina que me perdoasse — que nem sempre a estrela fora camarada comigo. Durante um largo período, naqueles últimos meses, eu me sentira perdida, num túnel escuro. Vira Jorge partir, seus direitos parlamentares cassados, expulso da Câmara Federal pela política do governo Dutra, sua segurança ameaçada. Muita coisa ruim me sucedera; tivera muito trabalho, tanto! Nem sabia como conseguira dar conta. Depois da partida de Jorge para a Europa, havia três meses, eu, que sempre fora valente e otimista, andava assustada, traumatizada. Eu, que fora alegre, andava triste. Vira minha casa invadida, em plena madrugada, por policiais à procura de Jorge, ameaçando, devastando, roubando. Pouco tempo decorrera dessa terrível noite, menos de um mês. Eu passara a me sentir perseguida, a me torturar vendo fantasmas, descobrindo "tiras" atrás de mim, por toda parte. Imaginava que queriam impedir minha partida, que fosse ao encontro de Jorge. Pelo menos essa batalha eu vencera, estava ali, sã e salva a caminho da Itália. Quando me dispus a viajar com a criança nos braços para um mundo desconhecido, uma Europa saída da guerra, uma Europa meio destruída, cheia de dificuldades, sufocada pela guerra fria, a sombra da bomba atômica presente em toda parte, ameaçando a humanidade, tomei a deliberação de enfrentar e vencer as barreiras que encontrasse pela frente e que, certamente, seriam muitas. Tínhamos pouco dinheiro, saberia fazer economia; agüentaria firme, não viveria me lastimando, não seria chata nem amarga. Jamais choraria na vista de Jorge as saudades de Luiz Carlos, meu filho, que ficara no Brasil. Manteria o bom humor e a velha garra dos Gattai. Não daria a Jorge motivos de queixa e de arrependimento. Eu o amava, nada seria sacrifício, estava disposta a ser feliz. AS CARTAS DE JORGE Enquanto
aguardava a hora de deixar o Brasil, as cartas de Jorge me ajudaram
a suportar a solidão e as saudades. Às vezes elas tardavam,
e eu, feito louca, ia à rua ao encontro do carteiro; às
vezes chegavam duas e três ao mesmo tempo. Acompanhando os passos de Jorge, eu compartilhava de seus programas em Paris. Com ele fui ao teatro de horror, Le Grand-Guignol, tremi de medo; deliciei-me com os Frères Jacques, no Rose Rouge. Em pleno verão carioca, cheguei a sentir frio ao ver a neve cair em Paris: "...acordei cedo e pela janela vi que caía neve... aos poucos a rue Cujas foi ficando branca... pena você não estar aqui comigo... "...almocei hoje no La Grenouille. Você me disse um dia que gosta de rã. Pois vou te levar a esse restaurante cuja especialidade é rã, como o próprio nome indica. Pedi outro prato, é claro, você sabe que não tolero rã... Sinto falta do arroz e da farinha... A comida francesa é boa mas aqui eles não têm o hábito de comer arroz como acompanhamento. Arroz é prato isolado e com o racionamento não se encontra em parte alguma... Os franceses acompanham tudo com batatas... Já estou cansado de comer em restaurantes e além do mais custa muito caro, não tenho dinheiro para isso... O pessoal brasileiro que mora no hotel cozinha no quarto, cada qual faz sua comida... Scliar cozinha num fogareiro a álcool. Noutro dia entrei com ele numa fila enorme para retirar, na Prefeitura, cupons de racionamento de álcool... As filas para sabão também são grandes. Muita coisa por aqui anda racionada... Scliar me convidou para almoçar e eu caí na loucura de aceitar. Nosso amigo pinta muito bem mas não entende nada de panelas nem de temperos... Ótimo pintor, péssimo cozinheiro". "...Fomos no domingo almoçar na casa da Maria Helena Vieira da Silva e do Arpad. Perguntaram muito por você... Aqui é assim, cada convidado leva uma coisa para reforçar o almoço. Eu levei flores para Maria Helena. Mariuccia e Arnaldo Estrela levaram uma torta de maçã; Scliar inventou fazer um bolo. Misturou ovos, queijo, farinha de trigo, farinha de maizena, leite condensado — gastou uma lata inteira de leite condensado, que recebeu do Brasil do velho Henrique —, pó de chocolate e outras coisas mais. Ele diz que todos os ingredientes usados são nutritivos, mas o bolo resultou num grude incomível... Apenas Míriam e Eliana, filhas da Mariuccia, conseguiram comer do bolo do Carlitos e disseram que estava bom. Meninas bem-educadas!..." "...apanhei um resfriado medonho!... Aqui no Saint-Michel só há uma sala de banho para todo o hotel e mesmo essa não funcionava, transformada em depósito de camas e colchões... aderi à casa dos bains publics, aqui do Quartier, freqüentada pelo pessoal brasileiro... Levo minha toalha e o sabonete, compro uma ficha de cinco francos, entro na fila e espero pacientemente a minha vez... Foi depois de um banho, ao sair quente para o frio da rua, que apanhei um resfriado forte, tive febre. Mas já estou bom. Em vista do resfriado, dei um ultimatum à Madame Salvage: 'Ou abre o banheiro ou mudo de hotel'. Ela deve ter ficado impressionada, pois desentulhou tudo na hora. O banho do hotel é bem mais caro do que o banho público e ainda tem a agravante de ser curto; se o freguês não for rápido, termina de se lavar com água gelada. Madame
Salvage acende o bico do gás lá embaixo, na cozinha dela,
conta cinco minutos no relógio e desliga. Tant pis para quem
não andou ligeiro... Você vai estranhar muita coisa por
aqui. Por exemplo, não se embrulha o pão nas padarias;
não é conseqüência da guerra, não pense,
sempre foi assim... O pão é entregue ao freguês
do jeito que sai do forno... Coisa mais deliciosa é o pão
francês! Não tem nada a ver com o nosso... Eu saio todas
as manhãs para comprar frutas e pão; sou comprador de
baguettes, compro duas, finas e compridas, torradinhas, quase só
casca, assim como gosto, volto comendo pelo caminho, liquido uma antes
de chegar ao hotel..." "Assinei contrato com Editeurs Réunis
para uma edição de Seara Vermelha, que em francês
terá o título de Les Chemins de Ia faim. O Scliar fará
a capa e as ilustrações do livro..." "...passei
pela Galeria Lafayette e comprei um chapéu de feltro vermelho
para você. É muito bonito e vai te ficar bem..." "Estou
encantado com Paris mas parece que vamos começar nossa vida na
Itália... Aqui é tudo muito caro e nós não
temos dinheiro bastante... Parece que na Itália, se a esquerda
ganhar as eleições — as perspectivas são
boas —, vai ser mais fácil para nós..." GÊNOVA Navios de todas as cores e de todas as bandeiras davam um tom festivo ao porto de Gênova. Parado ao largo, o Argentina aguardava instruções para encostar. Correntes encadeados que, durante a travessia, fechavam os portões que separam as classes, haviam sido retirados, deixando as passagens franqueadas à tripulação que devia cuidar dos trabalhos de atracação e ao vaivém dos carregadores que em breve invadiriam o barco. Passageiros da terceira classe, aproveitando a oportunidade, invadiam os tombadilhos da segunda e da primeira lotando os conveses e os corredores, criando verdadeira barafunda. Fim
de viagem, fim de papo. Com raras exceções, amizade feita
em cruzeiro de navio é mesmo que amor louco: dura pouco. As despedidas
em geral são rápidas, em meio à afobação
da chegada. Eu também aproveitei a chance dos portões
franqueados e subi para a primeira, e, na ânsia de ver tudo de
vez, subi mais ainda, aos últimos tombadilhos. A VOLTA Sensação
mais estranha eu sentia, lá ao alto, na torre de comando, a contemplar
os altos e baixos do contorno da cidade de Gênova, encoberta pela
névoa matutina. As apreensões e o pessimismo da véspera
e dos dias anteriores haviam se dissipado, eu me sentia feliz e eufórica,
a alegria da volta às raízes depois de longa ausência,
sabendo que alguém está à espera. Ao chegar a Lisboa
eu me sentira emocionada, ia conhecer uma terra querida, realizar um
sonho. Agora a sensação era distinta: como se eu fosse
rever a terra amada. Os D'Acol, vênetos, iludidos com promessas tentadoras de riqueza fácil, partiam contratados para trabalhar numa fazenda de café, em São Paulo, sem saber que iam substituir o braço escravo. Nenhuma das duas famílias logrou realizar o seu intento, ambas fracassaram, mas, em compensação, descobriram no Brasil uma segunda pátria, onde permaneceram, lutaram, amaram, multiplicaram-se em filhos e netos, trabalharam até a morte. Agora, tantos anos passados, uma descendente das duas famílias voltava, a primeira, por acaso eu. JORGE NO CAIS Lá
estava ele! O navio ainda não atracara e de longe avistei Jorge.
Com o menino nos braços, todo bonito com chapeuzinho de marinheiro,
comprado no navio, eu me acabava a fazer gestos com a mão para
chamar a atenção de Jorge. Por fim ele sorriu e me acenou.
A seu lado Scliar procurava me localizar. Levantei o bracinho de João
para saudar o pai. Jorge expressava sua admiração pelo
crescimento da criança, afastando as mãos, abrindo os
braços. Agora ele já não poderia brincar com o
filho, chamando-o de inseto, devia mudar o apelido. E de mim? O que
acharia? Desde a última vez que me vira eu perdera dez quilos,
estava com cinquenta, peso que jamais tivera depois de adulta. Jorge
dizia não gostar de mulher magra. Sempre que eu inventava fazer
regime para emagrecer, ele protestava, sabotava o meu esquema pondo
em minha frente coisas gostosas, tentações irresistíveis.
Repetia sempre: PÉS EM TERRA Havia
tanta coisa a dizer e eu não dizia nada. Apenas chorava no prolongado
abraço. Chorava de alegria. "PASTASCIUTTA DELLA MAMMA"
A espera pela bagagem de porão fora longa e quando terminamos
de desembaraçá-la já passava de uma hora da tarde.
Tínhamos passagens no ônibus das duas, para Módena,
e, sem tempo para almoçar, comemos às pressas um sanduíche
já na hora de partir. HERÓIS EM MÓDENA Como não tínhamos o que fazer depois do jantar, dirigimo-nos para o local da conferência. Chegamos com uma hora de antecedência e já encontramos o enorme salão inteiramente lotado, nenhuma cadeira vaga. Na calçada em frente à porta, pessoas se acotovelavam tentando penetrar. Não havia condições de ficar ao lado de Jorge no calor e na fumaça do recinto fechado, sufocante. A única solução era esperar na rua. Uma camarada do Partido italiano, senhora de meia-idade, com ar de operária, foi convocada para me fazer companhia e me ajudar a carregar a criança enquanto Jorge fizesse sua conferência lá dentro. Ele se propunha a liquidar o assunto o mais rápido possível, "talvez uma hora", me disse, mas eu sabia de experiência própria que ia demorar muito mais. Fiz meus cálculos: já eram oito horas, por menos que demorasse a conferência, tomaria, com tradução, no mínimo uma hora; e as perguntas e as respostas que viriam depois? No maior dos otimismos, levaria no mínimo duas horas: antes das dez não estaria livre. Espera terrivelmente cansativa, chatíssima, mas, paciência, eu descansaria no expresso para Roma; embarcaríamos à meia-noite. Caminhava lentamente ao lado de minha acompanhante, que não conseguia, por mais que se esforçasse, disfarçar o seu cansaço — tarefa mais velhaca a que lhe haviam dado, pobre!, pensava eu cheia de pena e de remorsos —; lá íamos as duas, caladas, sem vontade nem ânimo para conversar, de uma ponta a outra do quarteirão, quando de repente grossos pingos de chuva começaram a cair, prenuncio de temporal. Saímos correndo à procura de abrigo e entramos na primeira porta aberta que encontramos, exatamente a do salão onde Jorge falava. Logo à entrada, num pequeno saguão, encostada à parede, havia uma escrivaninha sobre a qual várias pessoas se encontravam sentadas ouvindo a conferência pelos alto-falantes, já que não tinham conseguido lugar lá dentro. Nossa entrada, intempestiva, provocou curiosidade. Alguém quis saber quem era a moça com a criança. A informação foi dada e aí começou a confusão. Sem que eu pudesse impedir, João me foi arrebatado dos braços, todos queriam ver "il bambino d'Amado, Ia piccola vittima, ilpiccolo esiliato..." e lá se foi meu filho, salão adentro, eu atrás tentando recuperá-lo, ele passando de mão em mão, por cima das cabeças, cada vez se distanciando mais de meus braços estendidos, cada vez mais próximo do pai, no palco... Gritaria ensurdecedora... "...il bambino!, il bambino.'...", repetiam em coro, todos os olhos voltavam-se para a criança que, assustada, chorava aos berros. A
custo cheguei junto ao palco onde, lá em cima, gritando, a plenos
pulmões, ao lado do pai, calado e perplexo sem entender o que
estava se passando, João era levantado bem alto para ser visto
por toda aquela calorosa platéia que o aclamava. Cada vez mais
aflita, preocupada com o menino e com a confusão que terminara
por interromper a conferência, procurei os olhos de Jorge e pareceu-me
que ele me fitava com um ar de reprovação, como quem diz:
"Com efeito!" Ora, tudo o que eu não desejava era criar-lhe
dificuldades, e, logo no primeiro dia, tamanha confusão... Ele
devia estar me julgando culpada de todo aquele pandemônio. Com
uma agilidade que não imaginara possuir, apoiando-me nas mãos,
num impulso, saltei para o palco. Ao mesmo tempo em que tentava recuperar
meu filho, me aproximei de Jorge e gritei para que me ouvisse, grito
de desculpas: EXPRESSO DE ROMA O rapaz que ficara encarregado de comprar nossas passagens no expresso de Roma, displicente, esquecera de marcar os lugares no trem, que costumava passar por Módena sempre lotado. Com dificuldade, aos empurrões, conseguimos, nos rápidos minutos da parada, embarcar, ficando de pé num corredor abarrotado de gente. Espremidos, sufocados pela fumaça dos cigarros e pelo bafo quente do ambiente fechado, tudo que obtive foi me encostar junto a uma janela. Jorge me escorava para que eu não caísse num dos violentos solavancos do vagão; nas curvas, todo mundo era atirado de um lado a outro feito boneco de engonço. Não me aguentava nas pernas, temia desmaiar de exaustão. Inda bem que João dormia. Eu lhe dera o peito antes de embarcar, no reservado de um bar, enquanto aguardávamos o trem. O expresso chegaria a Roma pela manhã, às oito horas, e não havia perspectiva alguma de se obter um lugar para sentar, mais adiante, no decorrer da viagem. A única parada do trajeto seria daí a duas horas, em Bolonha. Decidimos
saltar em Bolonha, pois eu estava sem condições de suportar
a viagem até Roma. Arrastando as maletas como podia, aos trancos
e barrancos, atropelando os passageiros, abrindo alas para eu passar,
Jorge me guiou na direção da saída. OS ORFÃOZINHOS ROMANOS Nos
dias que antecederam a minha chegada, Jorge tivera tempo de andar pela
cidade de Roma e de conhecer algumas de suas belezas. Agora ele desejava
revê-las em minha companhia, ser meu guia, testemunhar minha emoção;
retomaria comigo o seu roteiro através das maravilhas da cidade. O nome de Michelangelo recordava-me a infância, trazia-me de volta seu Ernesto, meu pai, sempre atento à educação dos filhos, sempre pronto a proclamar, a boca cheia de orgulho, os nomes das grandes figuras de sua pátria: "Michelangelo Buonarroti! Galileo Galilei! Dante! Leonardo da Vinci! Verdi!" Jorge estivera na Capela Sistina e visitara o museu dos tesouros do Vaticano. Ao ouvir falar em tesouro do Vaticano, comecei a rir. Recordei que o bendito tesouro sempre vinha à baila nas discussões dos anarquistas, amigos da família; argumento usado para atacar a religião católica, o Vaticano, os padres e, sobretudo, seu chefe supremo, o Papa. Frases soltas ouvidas na infância, repetidas tantas vezes, voltavam-me à memória: "O tesouro do Vaticano é uma afronta à miséria universal!" Ironizavam: "Bom exemplo de humildade! Belo seguidor de Cristo!" "O povo morrendo de fome e o senhor Papa nadando em ouro!" "Com tanto dinheiro, com tanta riqueza, por que não cuidam eles mesmos de suas igrejas? Ficam pedindo óbolos ao povo, sugando seu sangue!" A respeito dessa conversa, dei certa vez, quando criança, uma resposta atravessada a uma senhora que bateu à nossa porta pedindo uma contribuição para as obras da igreja da paróquia: "Por que é que vocês não vão pedir pro Papa, que é tão rico?" A tirada da menina, que repetia conversa de gente grande, correu de boca em boca e eu fui, pela proeza, muito paparicada; um anarquista, amigo de meu pai, até me ofereceu um saquinho de caramelos, como prêmio. Afirmação que também muito me impressionou e escandalizou foi a de que "// Papa scoréggia nella seta e caca sopra I'oro". O velho anarquista, de cuja boca ouvi esta frase, afirmava que o penico do Papa era de ouro maciço; criança cheia de imaginação e inventiva, visualizei imediatamente Sua Santidade acocorado, fazendo cocô num reluzente vaso noturno. Outra coisa que empolgara Jorge fora o Palazzo Venezia, que eu conhecia de fotografias e, sobretudo, de documentários cinematográficos, dos tempos em que o fascismo dominava a Itália. Lembro, inclusive, que certa vez, no cinema, ao ver o Duce pronunciando bombástico discurso ao povo que lotava a praça, da sacada do Palazzo Venezia — sua residência oficial —, escutei minha mãe comentar em voz alta: "Palácio tão bonito e tão mal empregado!" Jorge queria levar-me à Fontana de Trevi; doutora Janina, minha companheira de cabine, recomendara que eu não deixasse de visitá-la e, pondo-me de costas para a escultura de Netuno na fonte barroca, atirasse duas moedas para trás, por cima dos ombros: a primeira me daria a possibilidade de voltar a Roma e a segunda atenderia a qualquer pedido que eu fizesse. A lista de Jorge era interminável: visitas às ruínas do Fórum Romano, ao Panteon, ao Coliseu e por aí afora. O Coliseu era meu velho conhecido; as histórias que seu Gattai contava aos filhos fascinavam-me: gladiadores na arena do Coliseu lutando entre si até a morte, enfrentando leões e tigres, para gáudio dos Imperadores e de uma massa cruel, propositadamente degradada. Narrando tais monstruosidades, papai não perdia vaza; sempre encontrava um jeito de encaixar, sutilmente, uma lição política — como, por exemplo, no caso dos cristãos condenados à morte nas arenas do Coliseu: "Os cristãos eram os anarquistas daquele tempo." Eu sabia que iria me comover ao visitar o Coliseu. Um programão em minha frente. Agora só dependia de mim escolher por onde começar. Desejava ver tudo mas, no fundo, eu sentia uma vontade enorme, uma certa curiosidade, talvez ingênua e infantil, de ir em seguida ao Fórum Romano, andar entre as ruínas e me deter diante do túmulo de Rômulo e Remo: Rômulo, fundador de Roma, e Remo, seu gêmeo; haviam conseguido sobreviver mamando nas tetas de uma loba. Essa história dos dois meninos perdidos, sem mãe, me comovera às lágrimas; eu a ouvira dos lábios de dona Angelina, que explicava a razão de ter dado a seu primogênito, meu irmão, o nome de Remo. Podia parecer um capricho sem tamanho dar prioridade às ruínas do Fórum, havendo coisas talvez mais interessantes a visitar. Eu sentia acanhamento de dizer a Jorge que desejava iniciar a caminhada pelo túmulo dos dois meninos. Não podia confessar-lhe a razão sentimental da escolha: uma paixão oculta que nutrira por um dos orfãozinhos romanos, fantasia de criança romântica, noites de sono perdidas, um amor impossível pelo fundador de Roma. |
LA ROTONDA A
igreja possuía vários nomes: Templo de Agrippa, Panteon,
Igreja Santa Maria dos Mártires, Santa Maria Rotonda, La Rotonda;
chamavam-na com carinho, em dialeto: La Ritonna. Estava
deveras abismada com tais afirmações de Jorge e também,
devo dizer, com o pernosticismo científico dele. De paralelos
e de meridianos jamais consegui entender, nem pouco nem muito —
e Jorge entende, por acaso? —, mas sempre me impressionou o linguajar
científico. Detalhe simplesmente fantástico, o da cúpula
aberta de La Rotonda, pela qual a chuva não passava, deixou-me
boquiaberta. Apesar de acreditar, em princípio, em tudo quanto
Jorge me conta, uma fraqueza, daquela vez fiquei em dúvida: como
conseguira ele decorar tanta coisa a respeito da igreja, se jamais guarda
na memória datas históricas, nem mesmo as dos aniversários
da família? Ele nunca prestou atenção a explicações
de guias — "esqueço tudo na mesma hora" —
e agora danava-se a repetir datas e diâmetros, a me falar de paralelos
e de meridianos... Não seria invenção dele? Não
estaria querendo se divertir às minhas custas? Imaginação
era coisa que não lhe faltava... Ali estavam os romances que
já escrevera... E não era ele, por acaso, filho de dona
Eulália? Dela herdara a poderosa imaginação e o
espírito gozador, coisa que eu descobrira havia muito. Ironizei: Tomamos
um táxi e em poucos minutos nos encontramos numa praça
grande e movimentada. Lá estava o Panteon, belo e imponente,
com suas vigorosas colunas de granito. Acompanhei Jorge ao interior
do templo; orgulhoso, ele apontava para o alto onde o sol penetrava
através da enorme abertura, iluminando o interior da igreja;
ao fundo, o céu azul, a morada celeste dos deuses. Cúpula
fabulosa: permitia a entrada do sol mas impedia a da chuva, engenheiros
geniais! Lá
do fundo do templo, andando com cuidado, desviando-se aqui e acolá
das poças d'água, marchava em nossa direção
um velhinho de boné e bengala, no peito o crachá indicando
sua qualidade de guia da igreja. Não esperamos que se aproximasse,
fomos ao seu encontro. Jorge não se moveu, espiava de longe eu
fazer papel de besta. Dirigi-me ao velho: PROGRAMA INTERROMPIDO Do
vasto programa que Jorge organizara para mostrar-me Roma, cumprimos
a metade, se tanto. Teríamos esticado nossa estada na Itália,
não fosse a chegada de um telegrama da Tchecoslováquia,
convidando-nos para as festas do Primeiro de Maio em Praga, quando seria
comemorado não apenas o dia dos trabalhadores como também
o terceiro aniversário da libertação da Tchecoslováquia
da ocupação nazista. Meu
encontro com Roma fora aquele impacto! Espetáculo grandioso:
ruínas, praças, fontes e museus... Freiras e padres aos
milhares invadindo as ruas, andando de bicicleta e de lambreta, coisa
que me causou espécie e, sobretudo, me divertiu. O povo falando
alto, gesticulando, sempre amável, gentil... Eu me sentia em
casa, tinha a impressão de já ter visto tudo... e ao mesmo
tempo de não ter visto nada antes... uma surpresa em cada esquina. Deu-me
verdadeiras aulas sobre os afrescos de Michelangelo e de Rafael. Avesso
a explicações de guias, como foi dito, Jorge já
visitara anteriormente os museus e não se detinha a ouvir as
lições, afastava-se ligeiro, fugindo às aulas do
paciente mestre, divertia-se a declarar-lhe greve e a provocá-lo
fazendo-lhe perguntas idiotas. Satisfeito, brilho no olhar, passava
rápido, em acintoso desafio, diante de quadros e de murais que,
na opinião do competente Scliar, mereciam pelo menos uma hora
de estudo e de contemplação; às vezes, Jorge desaparecia
como que por encanto, carregando o filho, deixando-nos doidos à
sua procura. Nem sempre eu chegava a tempo de impedir o desastre: encontrava
a criança encharcada — por dentro e por fora — de
laranjadas artificiais e de chocolates oferecidos pelo pai, useiro e
vezeiro em nutrir o filho, ameaça séria aos delicados
intestinos da criança. Scliar achava graça no que ele
chamava de "maluquices do Jorge", ria ao me ver aflita, receosa
de que se ofendesse com as tais "maluquices". OS DOIS "PIU NOTO" Jorge
era conhecido entre os intelectuais italianos, sobretudo pelos de esquerda.
Alguns haviam lido a tradução francesa de Jubiabá;
outros, professores universitários que se interessavam pela literatura
de língua portuguesa, acompanhavam sua carreira de escritor.
Mas os seus romances apenas começavam a ser traduzidos para o
italiano: sob o título de Terre dei Finimondo, a Editora Bompianni
havia publicado, naquele mês, a tradução de Terras
do Sem Fim, bela edição com capa de Picasso. Aproximamo-nos e qual não foi a surpresa! O algo familiar era, nada mais, nada menos, do que um retrato de Jorge ilustrando um cartaz de propaganda da tradução de Terras do Sem Fim, Terre dei Finimondo; os volumes estavam ali expostos. Ao lado do retrato, um anúncio informava: "Jorge Amado, ilpiú noto scrittore dei Brazile." Só fiquei olhando, calada. Jorge riu, divertindo-se com a classificação: "//piú noto!" Ainda
sob o impacto da surpresa, continuamos nosso passeio. Na outra extremidade
da mesma galeria encontramos outra livraria. Paramos diante da vitrine.
Lá estava um retrato de Érico Veríssimo, ilustrando
a propaganda de Caminhos Cruzados (creio que era esse o livro traduzido),
ao lado de um cartaz idêntico em proporções ao de
Jorge, que dizia: "Érico Veríssimo, il piú
noto scrittore dei Brazile." Jorge comentou, divertido: "SOUVENIR" PARA DONA ANGELINA Eu
desejara começar nosso programa pelo Fórum Romano, visitando
o túmulo de Rômulo e Remo, como já expliquei anteriormente,
mas essa visita acabou ficando para o fim, só pudemos fazê-la
no último dia, já na véspera de deixarmos a Itália.
Scliar nos acompanhou na cansativa caminhada, ajudando a carregar João,
ajudando a procurar o túmulo, tão difícil em meio
a tantos escombros. Por fim o desencravamos! Lá estava a plaquinha
indicativa. Senti-me emocionada. Lembrei-me de mamãe; como ela
iria gostar de estar ali, ela que soubera nos encantar com a história
dos orfãozinhos mamando na loba! E se eu levasse uma lembrança
das ruínas para dona Angelina? Boa idéia! Recolhi duas
pedrinhas do túmulo, levaria para ela. Coloquei o souvenir numa
caixinha e, durante os cinco anos que permanecemos na Europa, a guardei
comigo.
UM BOLERO EM HORA ERRADA Jorge ia na frente, logo atrás eu com João Jorge. O policial que entregava os documentos, homem alto e forte, abria-os, folheava-os, dava uma olhada rápida no passageiro, conferia com o retrato, devolvia-o em seguida. Eu não perdia um único lance de suas manobras, fiscalizando-o à distância, olho atento. Aproximávamo-nos do gigante e eu me sentia cada vez mais inquieta. Afinal de contas, estávamos ou não num país onde os comunistas acabavam de ser derrotados? Conhecido por suas idéias, expulso recentemente do Parlamento brasileiro, Jorge acabara de fazer uma conferência em Módena para operários do Partido e agora viajava para um país onde os comunistas estavam chegando ao poder. Se quisessem implicar, poderiam impedi-lo de embarcar... — com a polícia nunca se sabe. Poderiam querer repatriá-lo... Poderiam até prendê-lo... Se qualquer coisa sucedesse a Jorge, eu me grudaria nele: "Quer prender um, que prenda dois, ou três, que de meu filho não me separo!" Estava
eu nessas conjecturas quando o maresciallo apanhou o passaporte de Jorge
de cima da mesinha e abriu-o. Deteve-se a examiná-lo muito mais
tempo do que o fizera com os anteriores. Parou um momento como que a
refletir, depois, com voz empostada e forte, chamou: "Amado! Chi
è Amado?" O
CAMPO SOCIALISTA KUCHVALEK O
fato de Kuchválek nos ajudar, levando a criança nos braços,
resultou em grande confusão no seio de sua família e entre
amigos. Somente muito tempo depois, quando já tínhamos
mais intimidade, ele nos contou: um cidadão de sua aldeia —
onde vivia sua velha mãe — vira-o carregando João
e espalhara aos quatro ventos que Kuchválek tinha um filho, filho
de solteirão, filho de contrabando. A senhora Kuvalka, sua mãe,
alvoroçou-se, passou a pressioná-lo — em telefonemas
e cartas —, queria que o filho assumisse a paternidade, queria
muito conhecer o neto, queria saber quem era a mãe, etc, etc. GAFE
LINGUÍSTICA A
primeira palavra que decorei, por achar engraçada, foi "zmrslina",
que significa "sorvete". E foi atrás de zmrslina que
nos aventuramos, Jorge e eu. numa tarde em que nosso tradutor se encontrava
ausente. Continua... |
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