O RIO DE JANEIRO CAIU EM DEPRESSÃO
Arnaldo Jabor
| Sou um homem de duas cidades. Moro em São Paulo há 15 anos e mantenho raízes no Rio. Vou e volto. Às vezes, passo um mês sem ir ao Rio, e isso me permite vê-lo melhor. É espantoso perceber o tempo passando no espaço. Vejo as árvores da Lagoa, que estão mais crescidas, noto mínimas mutações invisíveis ao morador permanente, sinto mudanças em gestos, modos de falar, gírias recentes, uma fachada art déco que caiu, um horrendo shopping vertical que subiu, o terrível "pirocão" do Bar Vinte que continua transformando Ipanema num gueto amarelo e sujo, vejo roupas mais amarfanhadas, tristezas nos rostos outrora alegres, sinto a ausência das cigarras, dos pardais, vejo misérias novas nos sinais de trânsito. Antes, não notava tanto essas coisas e sinto dizer-vos: o Rio piorou. Não
sei se para sempre, mas sua crise é hoje gritante. Não
apenas pelas tragédias políticas que tivemos, 40 anos
de populismo corrupto comandado pela Alerj e governadores, não
apenas pelos oito anos da anomalia política Garotinho e senhora,
não apenas pelo vergonhoso desleixo de César Maia, não
apenas pelo fim do Estado da Guanabara, que nos trouxe os vícios
do atraso fluminense e nenhuma vantagem, não apenas pela violência
inevitável que a multinacional do pó financia nos morros
e os narizes "patricinhos" avalizam, não apenas por
isso, não pelos assaltos ou crimes. Mas,
infelizmente, está um bode. Outro
fator da decadência é a insolubilidade dos problemas. Em
nossa mente paira o desespero: como vamos urbanizar 570 favelas que
crescem? Ninguém sabe. É
que esta depressão não é óbvia, visível,
daquelas de enfiar a cabeça no bueiro, não. A depressão carioca também se transfigura em euforia camavalizada, com a hipersexualização do samba e do turismo, a sacralização das bundas e barrigas, a boçalização da música de massas. Tudo isso é decadência denegada. Somos uma cidade sem informação, se comparada com São Paulo hoje em dia. Nas escolas, nas universidades, na oferta cultural high brow, São Paulo é muito superior à carioca. Mas
por que falo isso? Lá
estava o indício de que a História de um país gera
também anticorpos contra o horror. Nos
botecos do Rio, em escolas, já brotou uma nova moda musical carioca.
Eu sou do tempo em que o Rio tinha uma cor artística, um brilho
que esmaeceu com a cultura de massas. O choro, o nosso jazz (que aliás
salvou a América dos brancos azedos), pode ser uma alavanca de
alegria e de orgulho. Acho que o governo de Sérgio Cabral começou
cheio de ânimo. Há que se combater a violência, sim,
com garra e dureza, mas temos de estimular também a leveza, a
alegria. Mika, o diretor, disse: "Nesta batalha entre a tristeza
e a alegria, a alegria tem de vencer..." Winton Marsalis declarou sobre o jazz: "O jazz é como a democracia. Cada um tem direito a seu solo, mas tem de negociar esse direito com o conjunto." O mesmo serve para o choro. Não percam esse filme. É um remédio melhor que qualquer Prozac. Autor:
Arnaldo Jabor |
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