ARNALDO JABOR
A VOLTA DO BODE PRETO DA VELHA ESQUERDA
OS HOMENS CRIARAM ESTE HAITI AQUI
'O PERIGO DA GRANDE MARCHA'... A RÉ
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A tal lei que proíbe avacalhar candidatos em época de eleição e que provocou uma manifestação de humoristas no domingo passado no Rio existe desde 1997. Quer dizer, é um exemplo daquelas leis brasileiras que, como vacina ou mudinha, pegam ou não pegam. Esta não pegou, tanto que não me lembro de vê-la discutida assim em outras eleições. Isto não significa que ela não deva ser execrada e o seu autor sofrer um ataque de cócegas sempre que aparecer em público, para aprender. Significa que a punição por avacalhar candidatos não deve preocupar muito, nem humoristas nem ninguém. Inclusive porque será difícil caracterizar o crime. – Pô, cara. A gozação que
fizeram com você na TV, ontem, passou dos limites. Apareceu um
imitador com a sua cara, dizendo uma porção de bobagens...
Eu, se fosse você, processava. Uma questão maior é a dos limites da opinião, avacalhadora ou não, de quem tem o privilégio de um espaço na imprensa. Limites que independem da lei pegar ou não pegar porque fazem parte das nossas normas, e das nossas hipocrisias, jornalísticas. Na Europa e nos Estados Unidos é comum colunistas abrirem o seu voto e os próprios jornais declararem suas preferenciais eleitorais. No começo de cada campanha presidencial americana, por exemplo, o New York Times anuncia para quem vai torcer – o que não é um anúncio de que vai destorcer a favor do escolhido. Aqui a norma é da objetividade, mesmo fingida. Sempre achei estranho que um cronista de jornal, que é pago para ser subjetivo ao máximo, se veja obrigado a sonegar seu gosto político, que deveria ser tão naturalmente exposto quanto seu gosto em filmes, livros, mulheres e pastéis. Já outros sustentam que o voto aberto do cronista é um abuso do poder da imprensa. É uma discussão antiga, essa com a dona norma. “Avacalhar”, se não
me falha o etimológico, vem de vaca mesmo. Reduzir alguém
a vaca – pobre vaca, esse símbolo de resignação
fatalista, sem falha de caráter conhecida – é desmoralizá-lo.
O mais triste é que não funciona. Historicamente, nem
os mais avacalhados dos nossos políticos sofreram, politicamente,
com a avacalhação. Temos uma cultura política à
prova do ridículo. O que, |
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Hoje começa o circo da propaganda eleitoral, o desfile de horrores da política brasileira. Os dois carros-chefes do desfile, Dilma e Serra, correrão na frente de um trem fantasma de caras e bocas e bochechas que traçam um quadro sinistro do Brasil, fragmentado em mil pedaços - o despreparo, a comédia das frases, dos gestos, das juras de amor ao povo, da ostentação de dignidades mancas. Os candidatos equilibram bolas no nariz como focas amestradas, dão "puns" de talco, dão cambalhotas no ar como babuínos de bunda vermelha, voando em trapézios para a macacada se impressionar e votar neles. Os candidatos têm de comer pastéis de vento, de carne, de palmito, buchada de bode e dizer que gostaram, têm de beber cerveja com bicheiros e vagabundos, têm de abraçar gordos fedorentos e aguentar velhinhas sem dente, beijar criancinhas mijadas, têm de ostentar atenção forçada aos papos com idiotas, têm de gargalhar e dar passinhos de "rebolation" quando gostariam de chorar no meio-fio - palhaços de um teatrinho absurdo num país virtual, num grande pagode onde a verdade é mentira e vice-versa. Ninguém quer o candidato real; querem o que ele não é. A política virou um parafuso espanado que não rola mais na porca da vida social, mas todos fingem que só pensam no povo e não em futuras maracutaias. Arrepios voltaram. Ninguém sabe o que vai acontecer. Só nos resta o mau ou bom agouro, o palpite, a orelha coçando, o cara ou coroa. Meu primeiro arrepio foi em 54. Estou do lado do rádio e ouço o Repórter Esso: "O presidente Vargas acaba de se suicidar com um tiro no peito!" O mundo quebrou com o peito de Getúlio sangrando, as empregadas correndo e chorando. Estou no estribo de um bonde, em 61. "O Jânio Quadros renunciou!", grita um sujeito. Gelou-me a alma. Afinal, eu votara pela primeira vez naquele caspento louco (o avô "midiático" do Lula), mais carismático que o careca do general Lott. Eu já sentira arrepios quando ele proibiu biquínis nas praias. Tínhamos elegido um louco - não seria o único... Em 64, dias antes do golpe militar - o comício da Central do Brasil. Serra também estava, falando, de presidente da UNE. Clima de vitória do "socialismo" que Jango nos daria (até para fazer "revolução" precisamos do governo...). Tochas dos bravos operários da Petrobrás, hinos, Jango discursando, êxtase político: seríamos a pátria do socialismo carnavalesco. Volto para casa, eufórico, mas, já no ônibus, passando no Flamengo, vejo uma vela acesa em cada janela da classe média, em sinal de luto pelo comício de "esquerda". Na noite "socialista", cada janela era uma estrelinha de direita. "Não vai dar certo essa porra..." - pensei, arrepiado. Não deu. Ainda em 64, festa do "socialismo" no teatro da UNE.. 31 de março, 11 da noite. Elza Soares, Nora Ney, Grande Otelo comemoram o show da vitória. No dia seguinte, a UNE pegava fogo, apedrejada por meus coleguinhas fascistas da PUC. Na capa da revista O Cruzeiro, um baixinho feio, vestido de verde-oliva me olha. Quem é? É o novo presidente, Castelo Branco. Corre-me o arrepio na alma: minha vida adulta foi determinada por aquele dia. O sonho virou um pesadelo de 20 anos. Depois, vem o Costa e Silva, outro arrepio, sua cara de burro triste e, pior, sua mulher perua brega no poder. Aí, começaram as passeatas, assembleias contra a ditadura. Costa e Silva tinha alguns traços populistas e resolveu dialogar com os líderes do movimento democrático. Uma comissão vai conversar com o presidente. Aí, outro absurdo - os membros da comissão se recusam a vestir paletó e gravata na entrada do palácio: "Não usamos gravatas burguesas!" e o encontro fracassa. Ninguém lembra disso; só eu, que sou maluco e olho os detalhes. Tancredo entrou no hospital e arrepiou-me o sorriso deslumbrado dos médicos de Brasília no Fantástico, amparando o presidente como um boneco de ventríloquo; tremeu-me o corpo quando vi que nossa história fora mudada por um micróbio em seu intestino.. Arrepiou-me ver o Sarney, homem da ditadura, posando de "oligarca esclarecido" na transição democrática, com seu jaquetão de "teflon", até hoje intocado. Assustei-me com a moratória de 87, aterrorizou-me a inflação de 80% ao mês. E, depois, vejo a foto do Collor na capa da Veja - com todo mundo dizendo: "Ele é jovem, bonito, macho...", revirando os olhos numa veadagem ideológica. Foi um período tragicômico, com a nação olhando pela fechadura da "Casa da Dinda" para saber do seu destino. Depois o período do "impeachment", dos caras-pintadas, num breve refresco dos arrepios. Durante Itamar, a letargia jeca-tatu, só quebrada pela mudança na economia com o Plano Real que FHC fez (que depois foi roubado pelo Lula, claro...). Aí, 1994, o ano da esperança, Brasil tetra na Copa e um grande intelectual de esquerda subindo ao poder. Mas meu arrepio histórico logo voltou, quando vi que a Academia em peso odiava FHC por inveja e rancor, criando chavões como "neoliberalismo", "alianças espúrias" (infantis, comparadas com a era Lula). Os radicais de cervejaria ou de estrebaria não deram um escasso crédito de confiança a FHC que veio com uma nova agenda, para reformar o Estado patrimonialista. Durante o mandato, o próprio governo FHC cometeu seu erro máximo que até hoje repercute - não explicou didaticamente para a população a revolução estrutural que realizava: estabilização da economia, lei de responsabilidade fiscal, privatizações essenciais, consolidação da dívida interna, saneamento bancário que nos salvou da crise de hoje, telefonia, tudo aquilo que, depois, Lula desapropriou como obra sua. É arrepiante ver a mentira com 80% de ibope. Arrepiou-me a morte de Sergio Motta, Mário Covas e Luís Eduardo Magalhães, levando para o túmulo a autoestima do PSDB, o partido que se esvai e apanha calado. Hoje, estamos diante do mistério: Dilma ou Serra? Teremos a sabotagem radical de tropas pelegas impedindo Serra de governar ou o "revival" do arremedo de socialismo que já era ridículo em 63? Arrepio-me. |
Há 65 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os americanos destruíram Hiroshima e Nagasaki. Todo ano me repito e escrevo artigos parecidos sobre a bomba nessa data, não para condenar um dos maiores crimes da humanidade, não, mas para lembrar que o impensável pode acontecer a qualquer momento. Agora, não temos mais a guerra fria; ficamos com a guerra quente do deserto – a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado a cruzada errada do Ocidente, apesar e além de Obama. Do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte. Hoje, já há uma máquina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevitável no Oriente Médio. Estamos num momento histórico onde já se ouvem os trovões de uma tempestade que virá. Os mecanismos de controle pela “razão”, sensatez, pelas “soft powers” da diplomacia perdem a eficácia. Como dar conta da alucinação islâmica religiosa com amor a morte, do Paquistão, Índia, Israel, do Irã dominado por ratos nucleares em breve, da invencibilidade do Afeganistão, com a hiper-direita de Israel com Bibi, com o Hamas ou o Hellzsbolah que querem impedir o “perigo da paz”? “There is a shit-storm coming” – disse Normam Mailer uma vez. Tudo leva a crer que algo terrível acontecerá. A crença na razão ocidental foi ferida por dois desastres: o “11 de setembro” e a invasão do Iraque. A caixa de Pandora que Bush abriu nunca mais se fechará. Estamos às vésperas de uma bruta mudança histórica. Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma “revelação”. Surge a fome por algo que ponha fim ao “incontrolável”, a coisa que o ocidente mais odeia. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma “verdade” nova. Vivemos hoje na era que foi inaugurada por Hiroshima. Lá e em Nagasaki três dias depois, inaugurou-se a “guerra preventiva” de hoje. Enquanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século 20, motivado ainda por contradições do seculo 19, o espetáculo luminoso de Hiroshima marca o início da guerra do seculo 21. O horror se moderniza, mas não acaba. Auschwitz e Treblinkas ainda eram “fornos” da Revolução Industrial, eram massacres “fordistas”, mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em um minuto o trabalho de meses e meses do nazismo. O que mais impressiona na destruição de Hiroshima é a morte “on delivery”, “de pronta entrega”, sem trens de gado humano, morte “clean”, anglo-saxônica. A bomba americana foi considerada uma “vitória da ciência”. Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e “estético” de “reformar” a humanidade para o milênio ariano. As bombas americanas foram lançadas em nome da “razão”. Na luta pela democracia, rasparam da face da terra os “japorongas”, seres oblíquos que , como dizia Truman em seu diário: “ São animais cruéis, obstinados, traidores.” Seres inferiores de olhinhos puxados podiam ser fritos como “shitakes”. A bomba-A agiu como um detergente, um mata-baratas. A guerra como “limpeza”, o típico viés americano de tudo resolver, rápida e implacavelmente... E continua aí, cozinhando na impaciência dos generais israelenses e nos falcões do Pentágono. A destruição de Hiroshima foi “desnecessária” militarmente. O Japão estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador e a monarquia. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba – o que é mentira. Uma das razões reais era que o presidente e os falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: “Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado! Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!...” O clima era lúdico e alucinado... tanto que o avião que largou a bomba-A em Hiroshima tinha o nome da mãe do piloto na fuselagem – “Enola Gay” – esse gesto de carinho derreteu no fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio, exterminando 40 mil crianças em 15 segundos. |
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Não adianta mais analisar p... nenhuma no Brasil de hoje. Tudo voltará ao início como cobra mordendo o próprio rabo, tudo continuará sob anestesia, mas sem cirurgia, como disse uma vez Mário Henrique Simonsen. Tudo era previsível neste súbito Haiti que brotou no Nordeste, variando do deserto para o tsunami de lama, das "vidas secas" para o afogamento, sempre atingindo os mesmos pobres diabos sem voz, sem rosto, sem destino, que vagam nas cidades desgraçadas que o subfeudalismo dos barões nordestinos cultiva. A análise tradicional não serve; só resta oferecer-me como testemunha inútil desse crime secular sem autores visíveis. O autor não é Deus, não é a natureza; os homens teceram essa desgraça de agora, não por seus atos malignos apenas, mas por uma distribuição de causalidades inexplicáveis que cria o crime sem sujeito - uma difusa culpa que acaba inocentando todos. No entanto, a verdade brasileira aparece nessas tragédias visíveis - soterramentos, alagamentos, bebês morrendo em berçários de hospitais assaltados. Por outro lado, a verdade sempre esteve ali, silenciosa, dissimulada nos miseráveis vilarejos de Alagoas e Pernambuco, na paz trágica do nada, na mansidão da ignorância, no silêncio da miséria seca, aquela paz vazia que tranquiliza ladrões e demagogos, a paz da ignorância de vassalos toscos e obedientes. Mas, de repente, jorrou a verdade com as águas das represas e açudes arrebentados. Tudo que não queríamos ver bate em nossos olhos grudados na TV, vendo o Maradona de terninho ou o Dunga com sua cara espessa e dura. A verdade aponta os responsáveis pela tragédia que certamente vão esconder que 57% das verbas para prevenção de catástrofes desse tipo foram gastos na Bahia, para favorecer o candidato do governo para governador. Também não vão explicar por que só 14% das verbas preventivas (R$ 71 milhões apenas) foram destinados aos Estados de Alagoas e Pernambuco. Agora, com Lula e sua clone correndo para aparecer no teatro de lama, para impedir a perda de votos, o governo vai gastar mais de R$ 2 bilhões para consertar o que era evitável (ah... e que bons negócios se farão...). A catástrofe estava encravada nas fazendas fantasmas, nos municípios controlados por barões, na indústria da seca - não só a seca do solo, mas a seca mental -, na qual a estupidez e a miséria são cultivadas para criar bons serviçais para a burguesia boçal. A catástrofe estava se armando enquanto soavam as doces camaradagens corruptas em halls de hotel, os almoços gordurosos, as cervejadas de bermudão, as gargalhadas, as "carteiradas" autoritárias, os subornos e as chaves de galão. As catástrofes estavam se armando durante os jantares domingueiros, na humilhação das esposas de botox, no respeito cretino dos filhos psicopatas, na obediência dos peões, dos capatazes analfabetos. A catástrofe se armava no sarapatel de ideias que vão desde um leninismo tardio até este "revival" de um sindicalismo getulista a que assistimos. Os indícios desse desastre se veem na recente frase irada que Lula lançou: "Os impostos no Brasil têm de ser altos sim, do contrário não temos Estado". Esqueceu-se de dizer que os impostos que recolhe são gastos para pagar a folha de milhares de pelegos empregados, nos desvios de verbas públicas. Esqueceu de dizer que a catástrofe se armava nos últimos sete anos quando gastaram R$ 8 bilhões em propaganda oficial, sem contar os gastos de empresas estatais. A catástrofe também se armou aos poucos com a frente unida da utopia, que permite que todos os erros sejam cobertos por um manto de "fins justificados" - a frente unida dos três tipos de radicais: os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os loucos e os burros. Uns bebem e falam em revolução, outros alucinam e os terceiros zurram, todos atacando o "capitalismo do mal", quando justamente esse mal (que também existe) é a única bomba capaz de arrebentar nosso estamento patrimonialista de pedra. A catástrofe se arma para futuras tragédias, com a má utilização dos bilhões de dólares que entram em nossa economia, canalizados para países emergentes, pois estão sendo sugados pelo Estado inchado e inchando. A realidade (se é que isso ainda existe no país) é que a tragédia fixa, silenciosa e invisível se transformou numa tragédia bruta e retumbante. Só isso aconteceu no Nordeste. E para nós restam o horror e a pena, porque os fatos estão muito além da piedade. Ninguém tem palavras para exprimir indignação, ou melhor, ninguém tem mais indignação para exprimir em palavras. Resta-nos a impotência diante do fato consumado e um sentimento nobre, mas que chega sempre depois da desgraça: a solidariedade. O que é a solidariedade? Como sentir a dor dos outros? Sou solidário aqui ou apenas faço meu artigo semanal? Por que me comovo? Será que me comovo mesmo, será que me imagino ali na lama, procurando pedaços de comida no lixo e aí me purifico com minha indignação impotente? Como posso saber o que sente um homem-gabiru, faminto, analfabeto, que só é procurado pelos poderosos sacanas para ser "laranja" em roubalheiras para a cumbuca das oligarquias? Como posso saber da alma de um desgraçado limpando um pedaço de pão no lodo para dar para o filho bebê, com seu sofrimento mudo, enquanto os culpados dizem "que horror" nos prédios de luxo nas praias de Pajuçara e Boa Viagem ou se escondem nos cabides de emprego de Brasília? Como se sentem os homens sofridos que vemos chorando na TV, sob o som de gritos da Copa do Mundo, uivos de vuvuzelas e patetas pulando de alegria patriótica? Os diques e os açudes que se romperam são os diques rompidos da mentira política sistemática. Então, pode ser que a história se mova um pouco e que a consciência de nosso absurdo aumente. Mas, isso... só por um tempo... Depois, novas catástrofes voltarão a se armar... |
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Os olhos do papa me inquietam. São olhos frios, perscrutadores, inquisitivos. O corpo se mexe, sob o manto rubro e dourado, os gestos são eclesiásticos, mas os olhos são fixos, defensivos, preocupados em esconder os desvios de um dogma superado e inevitável. Nesta onda de denúncias contra os padres pedófilos, seus olhos ficaram mais duros. Claro que o celibato não é a única causa da pedofilia na igreja. Mas, a própria escolha da vida religiosa já é uma negação alucinada da sexualidade se a força máxima da vida é esmagada, a igreja vira uma máquina de perversões. Alguns religiosos dizem que a pedofilia não é resultado direto do celibato, pois o padre insatisfeito poderia procurar um adulto, como fazem tantos no interior do país onde, diz a lenda, as mulheres amantes de batinas viram mulas sem cabeça. O problema é que, em colégios e conventos, há a facilidade de pupilos dóceis, a obediência reverencial, o medo infantil... No velho colégio de padres onde estudei, a entrada dos alunos já era um desfile de velada pedofilia. O padre reitor tempos antigos de batinas negras postava-se imóvel na porta da entrada, numa pose paternal e severa, com as mãos oferecidas para abençoar os alunos. Passavam por ele duas filas de meninos, beijando suas mãos. Havia algo de veadagem naquilo, aquela negra batina imóvel como um manequim, as mãos beijadas por mais de 500 meninos de calças curtas. Ainda me lembro do vago cheiro de sabonete e cuspe na mão do padre. Eu via as mães dos alunos, lindas, com seus penteados e decotes imitando a Jane Russel ou Ava Gardner, fazendo charme para os padres enlouquecidos pela castidade obrigatória. Lembro-me do tremor dos jovens sacerdotes, excitados pelas madames pintadíssimas, trancando-se em negras clausuras, esvaindo-se no vicio solitário. E esses mesmos padres nos diziam: Cada vez que vocês se masturbam, morrem milhões de pessoas que iam nascer. É um genocídio! Igual ao que o Hitler fez!. A masturbação era um crime inafiançável. Iríamos queimar no fogo por toda a eternidade. Lembro-me da descrição da eternidade no inferno: Imaginem que o planeta seja um grande diamante duríssimo. De cem em cem anos, um passarinho vem voando e dá uma bicadinha na Terra. Só no dia em que toda a Terra for esfarinhada pelas bicadinhas terminará a eternidade. A angústia da proibição sexual era visível: rostos mortificados, berros severos e excessivos nas aulas, castigos sádicos, perseguições a uns e carinhos protetores a outros. Eu mesmo fui assediado por um padre que era notório cantador de menininhos; ele fazia mágicas para ser popular e, um dia, tentou me beijar num canto da clausura. Criado na malandragem das ruas, fugi em pânico. E falei disso em confissão com outro padre, que mudou de assunto. Há, sim, uma tolerância velada com esses desvios criados pelo antigo dogma. A mim ensinaram que o prazer era um crime. A partir daí, tudo ficava manchado de culpa: a alegria era falta de seriedade, a liberdade era um erro, as meninas eram seres inatingíveis com seus peitinhos e bundinhas... Até hoje, vivo dividido entre as santas e as impuras; quantas dores senti na vida por esses ditames que transformavam as mulheres em perigos, em "Liliths" demoníacas, tão ameaçadoras como o intenso desejo que tínhamos por elas. A mulher, como Eva ou Pandora, era a origem de todos os males. Delas saía a vida e a morte, o prazer pecaminoso, o mal do mundo. Esta doença mística gera da burka até o striptease, numa antítese simétrica. O problema da igreja com o sexo leva-a a uma compreensão quebrada da vida, leva-a a denegar a aids, a condenar o aborto, o controle social da natalidade e a outros erros maiores, advindos de um vazio originário, desde o Concilio de Latrão em 1123. Sem o sexo, os religiosos seriam quase anjos, mais próximos de Deus. Uma das grandes desvantagens da Igreja Católica diante de outras religiões é o celibato. Daí, em cascata, surgem problemas que justificam a queda do prestígio da igreja na era do espetáculo e da derrubada de certezas. Hoje, piorou. O mundo virou uma incessante paisagem de bundas e seios nus, da hipersexualização que nos espreita no trânsito, nas ruas, na TV. Já imaginaram esses padres vendo as gostosas sexy do momento, trancados em escuras celas, sob o voto de castidade? Noite escura, sino batendo e a "BBB" nua na capa da revista? Esta é a minha ideia de inferno. Autor: Arnaldo Jabor |
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