O SEGREDO QUE JESUS QUIS NOS ENSINAR NA ORAÇÃO DO PAI-NOSSO
|
"Todo ser humano possui uma ansiedade vital que estimula a leitura multifocal da memória, que transforma a mente humana numa usina ininterrupta de pensamentos, capaz de nos fazer resgatar o passado, antever o futuro, produzir idéias, criar, fantasiar, inspirar. Essa usina intelectual foi imprescindível para fazer florescer os primeiros raios da consciência de nós mesmos e da construção social. A linguagem dos pensamentos pode ser usada para transmitir as informações lógicas ou ilógicas, as experiências objetivas ou subjetivas. Entretanto, que tipo de informações ela transmite com mais eficiência? Sem dúvida as informações lógicas e as experiências objetivas. Por quê? Porque, entre outras causas, há um envolvimento da emoção e da nossa história na construção dos pensamentos. Quanto maior for a emoção, mais contaminado será o espetáculo dos pensamentos, tanto para o bem quanto para o mal. Sob uma emoção altruísta, o ser humano pode ser complacente com uma falha inadmissível. Sob as chamas do ódio, do fanatismo e do radicalismo, ele pode transformar um pequeno erro num ato imperdoável. Somos tão contrastantes que a classificação de Homo sapiens deveria ser alterada para Homo emocional-sapiens. Nossa sabedoria não é retilínea, tem o gosto das paixões e o sabor da história. Como as informações lógicas têm um reduzido envolvimento emocional e histórico, elas são comunicadas sem grandes distorções. Essa tese teve conseqüências gravíssimas em toda a história da humanidade e continuará tendo em nosso futuro. Estimule um palestino e um judeu a conversarem sobre fenômenos físicos, químicos ou biológicos - sobre informações lógicas. Em minutos ou horas estarão falando a mesma linguagem e se entenderão. Peça para conversarem sobre preconceitos, violência social, religião, direitos humanos. Em décadas talvez não se entendam, como tem ocorrido até hoje. Um cirurgião pode operar um tumor cerebral em algumas horas, mas um psicólogo pode demorar semanas, meses e até anos para entender parcialmente os conflitos de um paciente. Tente explicar suas mágoas e frustrações para as pessoas que as causaram. Talvez você não seja entendido e provavelmente criará atritos. Mas fale sobre números com elas e o consenso voltará rapidíssimo. Não desanime quando não for compreendido em seu meio, pois diariamente milhões de pessoas sentem o mesmo. Falar sobre o mundo subjetivo é complicadíssimo. Não adianta reclamar dessa complicação, porque ela é fruto da nossa complexidade. A linguagem dos pensamentos é fortemente influenciada por sutilezas, intenções subliminares, pontos de vista, interesses, tendências, cultura, momentos existenciais. Comunicando-se com seu próprio ser Howard Gardner, autor de Inteligências múltiplas, afirma que, embora as escolas declarem que preparam seus alunos para a vida, a vida não se limita a raciocínios verbais e lógicos. Nossa espécie tem sérios problemas para se viabilizar não somente porque fazemos guerras, somos individualistas, egoístas, egocêntricos, bairristas, preconceituosos, mas também porque a linguagem dos pensamentos é deficiente para comunicar as experiências existenciais. Professores e alunos ficam durante anos no pequeno espaço de uma sala de aula, mas freqüentemente estão em planetas psíquicos completamente distintos. Conhecem átomos, leis da física, pontos geográficos, mas desconhecem seus próprios mundos. Sabem falar a linguagem lógica, mas, com raras exceções, não são treinados para falar a linguagem que disseca as crises existenciais, esquadrinha os medos, revela os sentimentos. Como educar para a vida, se mestres e estudantes vivem em órbitas emocionais diferentes? Familiares dividem o mesmo espaço por décadas. Acham que se conhecem, mas raramente detectam os golpes de desespero e os momentos de ansiedade. São ótimos para julgar, mas não se especializam em acolher. São peritos em ver falhas, mas não em encorajar. Suas relações estão debilitadas e, muitas vezes, doentes. Alguns, entretanto, superam a barreira da linguagem dos pensamentos e se aproximam. Quem são esses privilegiados? Os que, como já vimos, saíram do rol dos comuns, reconheceram que são famintos de diálogo, humildade, serenidade e procuraram se nutrir. Passaram do mundo da conversa para o mundo do diálogo. Lembre-se, conversar leva a uma troca superficial, é enxergar os próprios interesses. Dialogar é se aprofundar, se entregar, se esvaziar emocionalmente, valorizar o outro, ouvir o que ele tem a dizer e confiar-lhe seu íntimo. Uma das falhas mais gritantes das sociedades modernas foi ter construído uma assombrosa tecnologia de comunicação para operar computadores, dirigir máquinas, estudar fenômenos físicos, mas não para equipar o eu com a consciência de si mesmo e ser capaz de atuar com maturidade em seu mundo psíquico. Não há mágicas em psicologia, não há gestos heróicos que mudem a personalidade. É isso o que a psicologia do Pai-Nosso brada em sua frase final. O último pensamento dessa oração é: "Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal." O que esse pensamento representa a nível psicológico? Quais são suas dimensões e seus segredos? Ele encoraja a volta do ser humano para dentro de si mesmo; melhora a comunicação com o próprio ser; derrota o conformismo do eu; leva-o a deixar de ser fantoche dos seus conflitos e dificuldades e estimula-o a tornar-se autor da sua história. "Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal" representa, como veremos, o grito mais estridente do eu em busca de refrigério no mais íntimo do seu ser. Além disso, esse pensamento promove uma espiritualidade inteligente, pois encoraja o ser humano, independentemente de sua religiosidade, a se aproximar intimamente do complexo Autor da existência não como o todo-poderoso, e sim como um Pai afetivo e dócil, para que Ele o ensine a ser o ator principal no teatro da sua mente. Raramente uma frase tão simples ocultou segredos tão amplos e fundamentais para promover a saúde psíquica e social. A tão singela oração do Pai-Nosso, recitada distraidamente por inúmeras pessoas, tem uma proposta revolucionária. Um banho de lucidez Jesus iniciou a oração do Pai-Nosso no Sermão da Montanha, falando de um Pai que habita além da esfera do tempo e do espaço, num céu indefinível e infindável. Depois, reduziu o espaço e falou sobre esse pequeno e belíssimo planeta onde vivemos. Clamou, assim, para que seu misterioso Pai, que possui uma personalidade concreta, fizesse a Sua vontade concreta na Terra. Em seguida, reduziu mais ainda o espaço. Focou o ser humano e suas necessidades diárias através do "pão" de cada dia. Depois, concentrou mais o foco ao discorrer sobre as dívidas existenciais contraídas no território psíquico e sobre a necessidade de saldá-las não com sacrifícios, mas com o desenvolvimento da tolerância, da solidariedade e da afetividade. Finalizou direcionando para o eu, como o centro que governa o território psíquico, estimulando-o a buscar a mais plena liberdade interior. Dois mil anos de história se passaram, mas os segredos psicológicos, filosóficos, pedagógicos e sociológicos da oração do Pai-Nosso não foram totalmente vivenciados, e por isso as sociedades modernas vivem contrastes gritantes. Exploramos outros planetas, mas o espaço psíquico tão próximo permanece inconquistado. Combatemos bactérias invisíveis a olho nu, mas não debelamos as discriminações aberrantes e as violências visíveis contra mulheres, crianças e minorias. No último pensamento do texto mais conhecido da humanidade, o Mestre dos Mestres conduz o eu a receber um banho de lucidez. Leva-o a procurar o oxigênio da liberdade para respirar em meio às suas agitações. Alguns pensam que são livres porque vivem em sociedades democráticas e têm seus direitos garantidos pela constituição, mas estão asfixiados pela intranqüilidade, pela ansiedade, pela falta de prazer e pelo excesso de ocupações. A psicologia do Pai-Nosso não é a do eu doente, frágil, insano e egoísta, mas do eu que anseia pela nutrição diária do pão do diálogo, da humildade, do bom senso, da tranqüilidade, da crítica a si mesmo. A psicologia do Pai-Nosso não procura milagres para superar os transtornos, as mazelas e o lixo psíquico que acumulamos na trajetória existencial, mas busca espaço para se libertar do seu cárcere, reeditar as janelas killer da memória e reconstruir sua história. Para o Mestre dos Mestres, assim como para a psicologia, qualquer mudança nas características da personalidade não é um processo imediato, depende de treinamento, educação, aprendizado. O mais excelente treinamento do eu Ao que tudo indica, Jesus sonhava que seus ouvintes vivessem os conteúdos dessa oração diariamente não apenas recitando-a, mas incorporando-os à própria vida para nutrir o psiquismo, superar as barreiras internas e respirar liberdade. Essa não é uma necessidade de católicos, protestantes ou de qualquer religião, mas uma necessidade psíquica de todos os seres humanos. Para o Mestre dos Mestres, os que andassem nesse caminho sofreriam uma revolução interior ao longo do tempo. Ele conduziu seus complicados discípulos a andarem nessa trajetória, e o resultado foi simplesmente espetacular. Crer nos milagres de Jesus curando cegos, paralíticos e leprosos entra na esfera da fé e foge ao propósito deste livro. Mas o que podemos constatar é que Jesus não atuava sobrenaturalmente na psique humana. Ele não mudou miraculosamente o pensamento do seu traidor, embora soubesse previamente quem o trairia. Cuidou de Judas, encorajou-o, mostrou-se desprendido da necessidade de poder e manifestou que não tinha medo de ser traído, mas de perder um amigo. Tentou resgatá-lo passando por cima da própria dor. Deu-lhe até o último minuto oportunidade de reescrever sua história. Jesus também não mudou o pensamento de Pedro, embora soubesse que este o negaria. Não o repreendeu, não o diminuiu, nem o pressionou a mudar de atitude. Ao contrário, protegeu-o, ensinou-o a entrar em contato com a própria realidade, a descobrir suas fraquezas e a ser fiel à sua consciência. O golpe da negação foi o preço caríssimo que Jesus pagou por considerar a psique um campo de aprendizado, de educação e de transformação, não de milagres. Não mudou a paranóica desconfiança de Tome, que só confiava nos seus sentidos. Também não mudou sobrenaturalmente a insegurança dos discípulos que enfrentaram as tormentas do mar, dos que amavam os aplausos, dos que supervalorizavam o poder político e não a força do amor. Não mudou instantaneamente a hipersensibilidade de João. As contrariedades perturbavam esse discípulo. Certa vez ele teve a ousadia de sugerir que fossem eliminados os que não concordavam com Jesus. Tal como muitos seguidores de Jesus na atualidade, sentia-se ameaçado pelos que pensavam diferente. Não os acolhia nem os respeitava. Mas o jovem João cresceu pouco a pouco. Foi forjado pelas tormentas da vida, enfrentou suas tolices, aprendeu a caminhar sem medo dentro de si mesmo, reconheceu seu eu doente e o alimentou para deixar de ser servo das suas mazelas, preconceitos e estímulos estressantes. Na juventude, João viveu o ápice do radicalismo, mas na maturidade atingiu o ápice da generosidade. Os discípulos foram cuidadosamente escolhidos para representar os vários tipos de personalidade humana. Entre eles há os espertos, os complicados, os impulsivos, os ansiosos, os desconfiados, os ciumentos, os que têm necessidade neurótica de poder, os especialistas em julgar, os pobres em se interiorizar, os que visavam aos próprios interesses. Eles representam todos nós". Autor: Augusto Cury |
Qual
a sua opinião sobre esta matéria?
Envie suas críticas e sugestões
Clique
aqui
Deseja
enviar esta página para um
"Velho Amigo"?
Clique Aqui