CORA RÓNAI

NA HORA DO ALMOÇO

POR UMA UPP NO CAMPO DE SANTANA

TODA RESISTÊNCIA É INÚTIL

SEM FINAL FELIZ

'LISBON - REVISITED'

TORÓ, O RESGATINHO

INFLEXIBILIDADE PRESIDENCIAL

NÃO QUERO FALAR SOBRE ISSO

PADECENDO NO PARAÍSO

NA HORA DO ALMOÇO

– Vocês já repararam que desde que a Dilma assumiu ela não faz outra coisa a não ser demitir ministro?

– Não concordo! Desde que a Dilma assumiu, ela não faz outra coisa a não ser tentar impedir a queda de ministros. Todos caem de podres, depois de escândalos que em qualquer lugar civilizado do mundo levariam gente para a cadeia no ato…

– É verdade. No outro dia mesmo ela fez questão de dizer que não tinha nada a ver com isso, e que o Palocci saiu porque quis. Quem escreve bem sobre isso é o Noblat, a tinturaria da minha alma.

– Como assim?

– Leio ele e fico de alma lavada, é isso.

– Ah. Eu também!

– Tá bom, me expressei mal. O que eu queria mesmo dizer era o seguinte: a impressão que eu tenho é que a Dilma não faz nada a não ser equilibrar ministro e administrar escândalo. Não tenho notícia dela fazendo qualquer outra coisa, vocês têm?

– Nossa, que silêncio eloquente! Alguém quer um pouco de vinho? É um argentino muito decente, vai bem com essa massinha.

– Viva, que alívio! Você disse que o vinho vai bem!

– Mas vai mesmo.

– Não foi por isso que eu comemorei, tenho certeza de que o vinho é ótimo. É porque não aguento mais gente que “harmoniza” vinho. Ninguém mais diz que um vinho combina com alguma coisa, todo mundo diz que o vinho harmoniza com isso ou com aquilo.

– É mesmo! Me harmoniza um pouco do vinho aí, vai…

– Também quero.

– Eu quero um pouco de água, por favor.

– Já eu quero um emprego de consultoria.

– Eu também!

– E eu!

– E quem não quer?

– É incrível a cara de pau deles, não é não?! Dois milhões agora são uma quantia normal, corriqueira… Levei 35 anos para comprar o meu apartamento e, com toda a valorização dos últimos tempos, ele dificilmente chega a um milhão. Já o senhor Pimentel levanta dois milhões só assim, em dois anos.

– Ah, mas ele já explicou que não foi bem isso. Que, tirando o imposto de renda, foi só um milhão e uns quebrados. E que, dividindo esse milhão e uns quebrados pelos tais dois anos, dá pouco mais de cinqüenta mil por mês.

– Salário considerado perfeitamente normal por todos eles!

– E ninguém comenta que seriam cinquenta mil já livres de imposto… Quanto isso daria na vida real? Oitenta mil?

– Em que mundo eles vivem?!

– É por isso que eu digo, quero uma consultoria básica para sobreviver.

– Eu quero um pouco mais de salada. Obrigado.

– Sabe o que eu acho mais preocupante? É que esta impoluta figura achou que compensava trocar um salário mensal de cinquenta e tantos mil livres, por mês, por um cargo de ministro.  Que paga…

– Valei-me São Google! Taqui. Exatamente R$ 26.723,13. Brutos. Descontados os impostos, cerca de um terço do que pagam as consultorias.

– Deve ser muito bom um cargo de ministro para levar os pimentéis da vida a fazerem todo esse sacrifício. Dá para desconfiar de muita coisa.

– Você é uma criatura perversa que não sabe apreciar o que os homens públicos fazem pelo bem da Pátria…

– Isso mesmo. O coitado abre mão de um salário milionário para servir ao país, e ainda é obrigado a sofrer com a perseguição da imprensa, que teima em fazer perguntas desagradáveis.

– Pois eu tenho uma pergunta muito agradável. Quem quer sorvete?

– Uhuuuuuu!!!

– Por falar em sorvete, e os preços, hein?

– O Brasil enlouqueceu. Virou o país mais caro do mundo.

– Estou chocada com o preço do taxi. Rodava Bombaim inteira e pagava o equivalente a dez reais, aqui vou na esquina e pago 20.

– Mas Bombaim não vale. O pior é quando a gente começa a se assustar com as comparações com Londres.

– Não. Pior ainda é quando a gente compara a qualidade do serviço que recebe lá e o que recebe aqui. Ontem fui tomar um suco e enfrentei uma fila ridícula, apesar das cinco pessoas que estavam atrás do balcão.

– Essa conversa não só é deprimente como vai longe…  Tenho que ir embora, ainda preciso escrever a coluna dessa quinta-feira.

– Sobre o que vai ser?

– Ainda não tenho certeza, mas talvez seja sobre um grupo de amigos que se encontra num almoço de fim de ano…  E tenho que arranjar um espacinho para recomendar aos leitores o livro do Mauro Ventura, “O espetáculo mais triste da terra”, que li em três dias de tão bom que é.

– É sobre o circo que pegou fogo em Niterói?

– Isso mesmo. O Mauro conseguiu fazer uma reportagem sensacional, que se lê de um fôlego só. É um livro imperdível, muito bem pesquisado e escrito.

– Já está anotado.

– Então é isso. Vou indo. Feliz Natal para vocês!

– Feliz Natal!


POR UMA UPP NO CAMPO DE SANTANA

Não é qualquer cidade do mundo que pode se gabar de ter, em pleno centro, um parque como o Campo de Santana, onde a História se mistura com árvores centenárias, com o paisagismo elegante e sofisticado do século XIX e com uma variedade de animais. Seus 155.200 m² abrigam esculturas, grutas e lagos, fontes francesas de ferro fundido, elevações gramadas e pequenas pontes, construídas com a única finalidade de oferecer aos visitantes um espaço para a contemplação das águas e dos seus habitantes, de peixes a irerês, passando por gansos e patos. À sombra das figueiras e dos baobás há bancos ideais para se descansar do tumulto da Saara, ali do lado, ou do movimento da Central, logo em frente.

Imagino o Campo de Santana numa cidade bem administrada, e vejo um parque onde se podem passar algumas horas despreocupadas, e onde os bancos convidam a uma pausa. Vejo pessoas usando tablets e smartphones, conversando, lendo o jornal do dia, namorando, fazendo um lanche ou, pura e simplesmente, observando o movimento.
* * *
Como o Rio, infelizmente, está longe de ser uma cidade bem administrada, o meu exercício de imaginação é rudemente interrompido pela realidade. Anteontem, quando passei por lá no começo da tarde, havia um homem drogado e maltrapilho estirado na entrada principal, como uma espécie de aviso do que espera os visitantes daquele pequeno paraíso: um inferno autêntico, atravessado às pressas por quem precisa cortar caminho. Os bancos, que poderiam ser tão convidativos, estão quebrados, vazios ou ocupados por moradores de rua, pivetes, travestis, pequenos traficantes. Há uma cracolândia abertamente instalada numa das alamedas.
* * *
Ao me ver fotografando, um dos funcionários me alerta, assustado:

-- Toma cuidado. Aqui nesse pedaço mais movimentado a senhora ainda está bem, mas não vá para o lado do quartel dos bombeiros, ali é meio deserto.

-- É perigoso?

-- Não posso falar nada. Só estou dizendo, evite aquele lado.

Ele se afasta de mim rapidamente. A impressão que fica é que recebeu ordens dos superiores para não comentar os perigos do parque com os visitantes.
* * *
Um pouco adiante, um rapaz está agachado, com uma Canon bem sofisticada, tentando encontrar o melhor angulo para uma foto em que gatos e cotias apareçam em primeiro plano. Está tão despreocupado que deixa a mochila solta, um pouco para trás. Nem preciso dizer: é um turista. Mora em Berlim, está passando uma temporada no Rio.

-- Os jardins do Rio são muito bonitos. Passei um dia inteiro no Jardim Botânico, agora vim fazer umas fotos do Centro e descobri este parque cheio de gatos e desses outros bichos... É maravilhoso.

-- Cuidado. O Jardim Botânico é uma coisa, este parque aqui é outra. Não digo para você não fotografar, eu mesma estou fotografando, mas fica esperto, ou vão te levar tudo. A barra aqui é pesada.

Ele agradece. Um grupo de pivetes nos observa da sombra de umas árvores, a alguns metros dali. Tomamos, claro, a direção oposta. Mais tarde fiquei sabendo que, há poucos dias, uma turista sueca foi assaltada naquele exato ponto -- e, ainda por cima, jogada dentro do lago pelos bandidos. Não sei o que terá sido pior, se o assalto ou o banho naquelas águas fétidas.
* * *
O Campo de Santana não está inteiramente abandonado. As águas estão imundas, é verdade, e exatamente em frente ao Souza Aguiar há um lixão nojento cheio de moscas, mas de modo geral o chão está varrido, e as plantas parecem felizes. Não custaria nada à prefeitura (ou custaria muito pouco) revitalizar o jardim e devolvê-lo à população. Do jeito que está, ele é uma prova gritante de má administração e de falta de amor pela cidade.
* * *
Os gatos que encantaram o turista alemão e que parecem levar uma vida pacata por lá são, coitados, um dos grandes dramas do Campo. São alimentados e cuidados por voluntários, que tiram dinheiro do próprio bolso para comprar ração e remédios e para organizar feirinhas de adoção. Mas o que este grupo de abnegados faz é pouco mais do que enxugar gelo, já que cerca de vinte gatos são lá abandonados diariamente, entre eles muitas fêmeas grávidas ou com ninhadas recém-nascidas. Enquanto isso, os dois veterinários do posto da Sepda, que fica dentro do próprio campo, castram apenas cinco animais por semana.

Na minúscula enfermaria que os voluntários conseguiram junto à administração não cabe mais um único bicho; por falta de gaiolas apropriadas e de espaço, muitos dos doentes ficam “internados” em caixas de transporte. É desesperador.
* * *
A população de gatos do Campo de Santana é uma realidade que a prefeitura não pode ignorar. Não adianta fazer de conta que eles não existem, ou esperar que os voluntários resolvam sozinhos a situação. Os bichinhos poderiam ser um dos atrativos do parque, assim como as cotias e os patos, se não fossem tantos e não estivessem em condições tão precárias. Para isso precisam de abrigo, comida e tratamento veterinário. E precisam, urgentemente, de castração em quantidades significativas, para evitar a explosão populacional que se vê.
* * *
Conheci o prefeito semana passada, na casa de um amigo. Mostrou-se simpático e solícito quando toquei na questão do Campo de Santana. Tomou notas no Blackberry e prometeu providências. Vou cobrar. Não é possível que este parque histórico e encantador, tesouro que pertence a todos nós, seja freqüentado apenas por mendigos, drogados e traficantes.
* * *
Não se deixem enganar pela foto; é que o meu coração se recusa a registrar o Rio feio.

Autora: Cora Rónai
Fonte: Jornal "O Globo"


TODA RESISTÊNCIA É INÚTIL

Patricia MM, que lê e comenta a crônica com regularidade, ficou aborrecida comigo porque, na semana do casamento real, resolvi falar do Instagram e, na semana seguinte, contar umas historinhas de usinas e intérpretes. Logo eu, queixou-se ela, que tinha escrito sobre o casamento do Charles e da Camila! No Twitter também sofri discreta pressão dos amigos: como é que eu não dizia nada sobre o assunto do ano, da década, quiçá do século?

O problema é que a emoção que o casamento despertava em mim era, justamente, a única que não leva a nada: tédio. Empolgação, nostalgia, admiração, tristeza, ternura, angústia, questionamento – tudo isso dá tuite, post, crônica. Irritação e indignação, então, dão mais ainda. Mas o que pode fazer uma cronista carioca com o mix de tédio e objetos horríveis gerados por um casamento real?

O caso de Charles e Camila, diga-se, foi completamente diferente. Todos estavam contra a união que, ao contrário, me parecia – e continua parecendo – perfeita. Camila foi feita para Charles e vice-versa. Quem sobrava na equação era a pobre Diana, que se casou com o príncipe e acordou com o sapo. Ora, há muito a se dizer a favor dos sapos e não menos a se dizer contra as princesas. Por exemplo, nunca se soube de sapo que aparecesse em público usando um chapéu como o da princesa Beatrice.

(Graças à internet, aliás, o chapéu ganhou vida própria. Quando se procura por ele no Google -- "princess beatrice's hat" – conseguem-se 933.000 resultados, e isso só em língua inglesa. Como qualquer celebridade contemporânea, o chapéu tem página no Facebook, onde, até terça-feira à noite, contava com 136.406 fãs, e chegou numa velocidade vertiginosa aos Trending Topics do Twitter. Numa espécie de resumo macabro das notícias da semana, o que mais se viu por todo o lado foram montagens de Osama Bin Laden usando o famigerado acessório.)
* * *
O Lucas e a Heliana estavam em Londres durante o casamento, e convidaram-se para a festa. Conseguiram sem maiores dificuldades um lugar com boa visibilidade, viram a carruagem com os noivos e o beijo no balcão, fizeram fotos com os seus celulares, ficaram bobos com a organização mais que perfeita do evento e terão um bocado de assunto para contar aos netos:
- Eu vi o casamento desse rei ainda com a primeira mulher...

- E como é que foi?

- Muito bonito. A noiva estava de branco.
* * *
Por acaso, acabei vendo o casamento num replay do GNT, no fim-de-semana. A locação evidentemente não podia ser melhor, o trabalho de filmagem e de edição foi de aplaudir de pé, a noiva é linda e estava esplendorosamente trajada, o noivo tem cara de pateta mas portava um uniforme garboso - tudo, enfim, nos conformes. Muitas roupas diferentes todas iguais e, sobretudo, muitos chapéus perfeitamente ridículos.

Soube que os noivos pediram doações para instituições de caridade em vez de presentes. A medida podia ser estendida aos chapéus, que, pesquisei no Google, custam uma pequena fortuna: um Philip Treacy da coleção oferecida nas lojas pode chegar a R$ 4 mil, mas está claro que ninguém que é convidada para um casamento real usa chapéu prêt-à-porter. Os telespectadores perderiam um espetáculo bizarro, mas as instituições de caridade sairiam num lucro fenomenal. Fica aí a minha sugestão para a família real. Não há de que.
* * *
Verdade é que, passada a festa, me causou muito mais impressão a foto fora de foco que a Heliana tirou da Samantha Cameron fazendo compras numa loja de roupas de classe média, sozinha, sem assessores ou seguranças. Samantha Cameron é a mulher do primeiro ministro, ou seja, a cena seria o equivalente a termos visto, no reinado passado, dona Marisa Letícia fazendo suas comprinhas na Totem ou na Cantão, discreta, desacompanhada e pagando do próprio bolso o que levou.

A diferença é que, em algumas partes do mundo, Inglaterra entre elas, a política é uma profissão como outra qualquer. No Brasil, os políticos sentem-se imediatamente ungidos pelos deuses, e logo postam-se acima de nosotros, mortais comuns. A eles tudo é permitido, tudo é dado, tudo é pago – de diárias em dia de folga a passaportes vermelhos, passando por carros de luxo, viagens de lazer e um séquito automático de puxa-sacos e seguranças, para que se sintam devidamente importantes.

*** Uma vez cheguei a uma capital européia que o presidente Lula havia acabado de visitar. Amigos que trabalharam na sua recepção me contaram que ele passou dois dias no país, mas que a embaixada teve que desembolsar duas diárias a mais pela suíte presidencial do melhor hotel. Isso porque sua excelência se recusou a tomar conhecimento da proibição de fumar nos aposentos, e deixou o lugar tão empesteado que, à sua saída, tudo o que lá havia teve de ser lavado e desinfetado para poder receber o próximo hóspede. Cada diária custava alguns milhares de reais, mas e daí? A vontade era dele e o dinheiro era nosso, perfeita combinação num país de tolos.

Senti tanta vergonha alheia quando ouvi isso que tive vontade de me esconder debaixo do sofá. Não consigo imaginar uma pessoa com um mínimo de educação agindo assim, quem dirá um chefe de estado que, em tese, devia dar exemplo. Vexame à parte, que já é o suficiente, não deixaria de ser curioso saber quanto o país andou pagando, pelo mundo afora, por esse comportamento desqualificado do seu então supremo mandatário.
* * *
Perguntinha básica: a Dilma fuma?

(O Globo, Segundo Caderno, 12.5.2011)


Sem Final Feliz

Lá ia um preocupado com o aluguel, o outro com os filhos, um terceiro com o emprego; numa casa a geladeira quebrada, na outra as obras quase prontas; um casal apaixonado, o outro convivendo com o ódio surdo dos anos; uma mulher que não cabia em si de felicidade ao descobrir que ia ser mãe, outra desesperada pelo mesmo motivo; um rapaz com a primeira moto, uma moça com as roupas novas, uma criança entendiada com os brinquedos velhos, outra fascinada com um game novo; um homem arrasado com um diagnóstico sem remédio, outro recuperado de uma cirurgia; uma avó comprando verduras no mercado para o jantar da família, outra buscando os netos na escola, um marceneiro aborrecido com um calote, uma professora feliz com o progresso dos alunos, um carteiro entregando a correspondência. Vendedores vendendo, compradores comprando, dinheiro trocando de mãos, pequenas trivialidades cotidianas, como pontos numa tapeçaria.

De repente, uma onda gigantesca sai do mar e acaba com tudo, alegrias e preocupações, felicidade e desespero, lucro e prejuízo, amor e ódio. Onde havia a engenhosa obra humana que é uma cidade em pleno funcionamento já não há nada, a não ser lama e escombros. A vida que sobrou precisa continuar; mas como se continua depois de ver o mundo acabar em dez minutos? Qual é a escala de valores que se aplica? O que passa a ser prioritário? A idéia de que a vida se reduz ao mínimo denominador comum, às necessidades mais imediatas, é suposição de quem vê a catástrofe de longe. Lá, em meio ao caos, é possível que nada tenha tanto valor quanto uma foto, uma carta, um recorte de jornal, provas materiais do que existiu um dia. Ou não. Haverá talvez quem incorpore a nova realidade e passe a imaginar que o que havia antes não passava de uma alucinação coletiva, um sonho ao contrário.

Ainda assim, a civilização e a educação, duas irmãs que fazem diferença, escaparam ilesas da tsunami. Não se verificaram roubos, saques ou ataques de histeria destinados às câmeras de TV. Foi um assombro para quem assistiu a tudo do outro lado do mundo e, com certeza, é um consolo para quem está lá, e não precisa acrescentar à já longa lista de vicissitudes o medo do seu semelhante. O Japão provou que o ser humano não precisa ser necessariamente violento, boçal e amoral. Resta saber quantos séculos mais nós precisaremos para alcançar este estágio.

* * *
A crise da OSB é um retrato fiel de como é tratada a cultura no Brasil: de cima para baixo, sem diálogo ou transparência. Como já sabem todos a essa altura, um belo dia o maestro e diretor artístico da orquestra (que em qualquer lugar civilizado do planeta seriam pessoas diferentes, mas aqui são uma só), achou por bem convocar os músicos para “avaliações de desempenho”. Ora, músicos de orquestra são, pela própria função, avaliados com freqüência pelo público e, sobretudo, pelo próprio regente, com quem ensaiam constantemente. Um maestro que pede uma “avaliação de desempenho” dos seus músicos está, no fundo, confessando-se incapaz de avaliá-los – ou buscando uma saída covarde para demitir desafetos.

Os músicos, mais ou menos como os povos dos países da rua árabe, revoltaram-se contra a tirania das provas, humilhantes para quem passa a vida ensaiando e tocando; a administração tenta defender um modelo autoritário indefensável; e, em conseqüência, os assinantes das séries programadas para os próximos meses terão de se conformar com a OSB Jovem, que é um conjunto simpático, porém sem responsabilidade para tanto – afinal, como o nome diz, é composta por jovens, que recebem uma bolsa modesta para ensaiar duas vezes por semana, dado que ainda não terminaram os estudos e têm outras obrigações a cumprir. Usar a OSB Jovem em concertos vendidos pela OSB é sacrificar além do dever os seus componentes e, acima de tudo, é submeter o público a um estelionato cultural e artístico.

A OSB pode não ser a melhor orquestra do mundo, mas é a orquestra que é. Não é dizer pouco. Tem 70 anos de tradição, tem músicos excelentes e, sim, tem seus altos e baixos; mas, curiosamente, os altos acontecem sempre que é regida por um bom maestro. Todos nós, cariocas que gostamos de música clássica, devemos a ela a lembrança de alguns concertos memoráveis.

Se o senhor Roberto Minczuk não está satisfeito com a orquestra que rege, que procure outra que o aceite, em vez de buscar formas torpes e dissimuladas para desfazer uma orquestra boa, digna e capaz.

* * *
Enquanto isso, em Campinas, apesar dos protestos de ambientalistas, foram assassinadas, na calada da noite, cerca de 15 capivaras, que viviam isoladas num lugar chamado Lago do Café. Segundo a prefeitura, que teve consentimento do Ibama para a chacina, parte do grupo era portador do carrapato estrela, transmissor de febre maculosa, doença frequentemente fatal para humanos.

Detalhe: quem transmite a doença são os carrapatos, não as capivaras. As capivaras, pelo tamanho, são apenas mais fáceis de exterminar. Depois de mortas, elas foram zelosamente tratadas com carrapaticida pelos funcionários da prefeitura.

A ordem dos acontecimentos seria uma piada de mau gosto se não tivesse levado à morte tantos animais inocentes. Mal comparando, é como se agora virasse moda matar político para exterminar a corrupção. Por menos simpatia que eu tenha pela classe, impõe-se antes o combate à corrupção, ainda que os políticos sejam seus principais vetores.


‘Lisbon-revisited’

Uma vez, eu estava na Avenida da Liberdade e queria ir às Amoreiras. Perguntei a uma senhora como fazia para chegar até lá.
— Está a ver aquele autocarro? — perguntou-me ela. — Pois não é aquele, é o outro.
Uma vez, ainda nos tempos da Varig, um amigo embarcou em Lisboa. No compartimento das malas, havia uma, muito mal ajeitada, em que ele precisaria mexer para encaixar o que trazia.
— Aquela mala é sua? — perguntou a um passageiro já sentado.
— Não -— respondeu o passageiro. — É de um primo que ma emprestou.

Uma vez, outro amigo chegou a Sintra, ao Palácio dos Sete Ais, um dos hotéis mais lindos do mundo, e perguntou ao carregador se era verdade que os quartos eram mesmo os maiores e mais confortáveis de Portugal.
— Sim, é verdade — confirmou o carregador,emendando rápido: — Mas não o vosso.

Uma vez, este mesmo amigo, arquiteto, foi ter com Álvaro Siza, o seu grande colega, numa construção no Bairro Alto. Depois de conversarem e percorrerem a obra, meu amigo perguntou como fazia para ir a determinado endereço.
— Ah, é muito fácil — respondeu Siza. — Desce esta rua mesmo em que estamos e entra na segunda à direita. Ali, depois de andar uns duzentos metros, vai encontrar um palacete manuelino extraordinário, de proporções perfeitas, com uma das mais ricas fachadas de Lisboa, janelas decoradas com romãs e uns caracóis entalhados na porta, em pedra, um conjunto de beleza excepcional. Não lhe faça caso...
Uma vez, no Hotel Tivoli, chamei a camareira e pedi mais travesseiros.
— Mas quer travesseiros ou almofadas?
— Qual é a diferença?
— As almofadas são menores, já os travesseiros são maiorzinhos.
— Então me traga travesseiros.
— Pois, mas travesseiros não os temos...
Uma vez, chegando atrasada para um encontro com amigos no mesmo Tivoli, perguntei se havia algum banheiro no térreo, para não ter que subir ao quarto.
— Sim — respondeu o senhor da recepção.
— Desça este lance de escadas.
Desci, e de fato lá estavam os banheiros... fechados! Subi de novo as escadas e voltei à recepção.
— Os banheiros estão em obras.
— Sim, estão — confirmou o senhor da recepção.
— Não podem ser usados.

Indo para Lisboa na quarta-feira passada eu pensava nessas histórias e ria sozinha. Portugal é dos meus países favoritos, certamente aquele pelo qual tenho maior carinho, e parte deste gosto vem, justamente, das diferenças com que usamos a mesma língua e das voltas distintas do que, à falta de melhor definição, considero nossos sistemas operacionais — o conjunto de lógica e interpretação que faz com quem nem sempre a gente consiga, de primeira, a resposta à pergunta que fez. O que não significa que as respostas estejam erradas, mas sim que as perguntas não foram formuladas de acordo com o ambiente em que se
inserem. Ninguém precisa estudar computação para perceber isso, pois não?

Lisboa é a cidade encantadora de sempre, ainda que um bocado fria. Passei cinco dias me mortificando pela total falta de habilidadeem lidar com invernos. Em janeiro fui para Las Vegas, onde os termômetros marcavam cinco graus, e nem tirei da mala o casacão que impediu que eu morresse de frio em Berlim há alguns anos: passei todo o tempo da CES usando uma jaqueta de couro curta, com que tirei de letra o frio do deserto.

Informada pela meteorologia de que a temperatura em Lisboa andava pelos 11 graus, deixei o casacão no Rio; e quem disse que a jaqueta deu conta do recado? Não há índice de umidade relativa do ar que justifique, na minha cabeça, por que sinto mais frio com 11 graus do que com cinco. O que eu sei é que, daqui em diante, só viajo para o Hemisfério Norte durante o inverno com o raio do casacão na mala. Ocupa um espaço danado, dá aflição só de pegar aqui em casa mas, se for preciso, compro uma passagem só para ele, como fazem alguns violoncelistas com seus instrumentos raros.

Em Lisboa me perguntaram se eu não estava horrorizada com os efeitos da crise. Para dizer a verdade, se eu não soubesse como vai a economia, era capaz de nem ter percebido nada. Há menos carros nas ruas, muitos imóveis à venda e as lojas estão relativamente vazias, mas nada que chame a atenção, mesmo porque os restaurantes continuam cheios e, apesar do frio, a noite do Bairro Alto é de fazer inveja a qualquer Baixo Gávea carioca: centenas de pessoas nas ruas, em sua maioria jovens, bebendo e conversando madrugada afora, em perfeita segurança.

Ouvi portugueses reclamando dos preços dos restaurantes, e achei graça. Em Lisboa come-se infinitamente melhor do que no Rio por uma fração do preço que se paga aqui. Na verdade, na comparação, tudo está mais barato em Portugal — ou em qualquer outra parte do mundo. Crise mesmo enfrenta o consumidor brasileiro, que mora no país mais caro do planeta.

Gosto do jeito lisboeta de viver e do ritmo da cidade. As pessoas são discretas, chiques e, quando bem educadas, extremamente bem educadas. O comércio é cosmopolita, e a decoração das lojas e dos espaços públicos é elegante e acolhedora. Apesar de todas as mudanças — e elas foram muitas desde que fui a Portugal pela primeira vez, em meados dos anos 1980 — a cidade continua sendo, em essência, a velha Lisboa que conhecemos, o porto seguro dos brasileiros que chegam a uma Europa onde se fala português. O luxo dos luxos, o luxo luso.


TORÓ, O RESGATINHO

A minha idéia não era adotar ninguém; era só dar uma olhada na feirinha de cães e gatos resgatados das enchentes, para ver o encontro entre bichos carentes e bípedes de bom coração, sempre um lindo momento. Além disso, uma feirinha de animais que teve divulgação nos jornais e na televisão podia até dar uma crônica, quem sabe?

De modo que, no sábado, combinei com a Bia e com o Sérgio de irmos no dia seguinte ao Parcão.  Os dois passaram aqui em casa, e lá fomos nós, basicamente atravessar a rua.

- Você está pensando em adotar alguém? – perguntou a Bia, no caminho.

- Não, só quero olhar, mesmo. Ainda sinto muito a falta da Pipoca, que também foi um abalo na vidinha dos gatos. Eles estão reestruturando a hierarquia familiar, e acho que se entrar alguém agora são capazes de ficar muito tensos.

- Ahã, - disse a Bia, e não consegui perceber se ela estava concordando comigo ou zombando de mim.
* * *
A feirinha estava bombando.  Havia uma multidão, dezenas de pessoas fotografando e sendo fotografadas, muita gente entrando com doações e saindo com bichos nos braços na maior alegria, autêntico clima de festa.

Os cães, em geral, estavam contentes com a atenção e com os carinhos recebidos. Já a meia dúzia de gatos que restava estava em estado de choque. Gatos detestam ficar em gaiolas, não simpatizam com cachorros e odeiam multidões; imaginem o triplo estresse!

No meio da confusão toda, porém, um frajolinha permanecia calmo e alerta, entretido com um prato de ração. Olhei para ele, chamei, e ele me olhou de volta com um olhar castanho e inteligente. Pedi ao Tony, que cuidava das gaiolas, para me deixar pegá-lo um pouco. Ele veio para o colo sem criar caso, e ronronou quando fiz carinho.

Amor à primeira vista acontece.

A Roseli me emprestou uma caixa de transporte, e levei o gatinho.

- Eu sabia que isso ia acontecer, -- disse a Bia, e tenho a impressão de que estava feliz.

- Ele podia ter um nome que fizesse referência às suas origens, -- sugeriu o Sérgio.

No caminho entre a feirinha e a nossa casa fomos pensando em várias alternativas, mas nenhuma funcionava bem. Assim que entramos, me veio o estalo:

- Toró!

- Ótimo nome! – disseram a Bia e o Sérgio, em uníssono.
* * *
Quando nos viram chegar com ele, os membros mais velhos da Famiglia me lançaram aquele olhar entre o desdém e a impaciência de quem diz “Ah não, vai começar tudo de novo!”; os mais novinhos, que nunca viram gato estranho na casa, reagiram mal. Tiziu ficou melancólico e amargurado, no fundo do poço; Matilda, furibunda, escondeu-se num grande tubo de brinquedo, e recusou-se a pôr o focinho de fora. Quando tentei uma festinha, fez “fuuuuuu!” para a minha mão, que estava com o cheiro do renegado.
* * *
Apresentei o novo membro da Famiglia no blog, e muita gente escreveu que o Toró ganhou na mega-sena felina; já eu penso o contrário, penso que, mais uma vez, tirei um bilhete premiado. Nunca dou sorte com loterias de verdade mas, em compensação, sou escolhida pelos melhores gatos do mundo. Ainda é cedo para que se saiba exatamente quem é o Toró, mas já dá para adiantar que é um gatinho singularmente bem-humorado e carinhoso.

Depois da visita do Allecx, ele foi liberado do banheiro e, imediatamente, sentiu-se em casa. Não saiu desconfiado pelos cantos, cheirando tudo, como seria normal; veio direto para o meu colo. Ainda fica meio aflito quando me perde de vista, mas pisa o chão como se fosse dele. E é.
* * *
Escrevo na terça à noite. Lucas e Keaton já não ligam muito para a presença do Toró. Tutu está escondida desde que ele chegou, mas como detesta gatos, essa reação era esperada; Lolinha já se aproxima, nem que seja para riscar fósforos; e Tiziu e Matilda continuam mais ou menos no mesmo estado de espírito.


Inflexibilidade presidencial

Costumo dizer que escrevo de ouvido. Conhecimento de gramática infelizmente não é hereditário, e como não fui boa aluna de português, não tenho idéia (teórica) do que me faz por uma palavra antes da outra, ou do caminho das interjeições e advérbios. As palavras se encaixam no texto da forma que me parece mais fluida e bonita. É claro que ler dia e noite e estar cercada de pessoas que dominam a língua de trás pra frente me ajudou na formulação desses conceitos. Uma das conseqüências diretas de conviver com palavras bem arrumadas é, na medida da sua própria capacidade, arrumar bem as palavras.

Escrevo isso à guisa de disclaimer, aquele aviso legal muito comum nos países de língua inglesa, que informa ao público que não cabe responsabilidade ao autor da página, fabricante do produto, vendedor da mercadoria ou quem quer que seja pela interpretação indevida, uso idiota ou consumo inadequado de seja lá o que for. O meu disclaimer é necessário para que fique estabelecida desde já a minha inadequação como professora, especialista no idioma ou guardiã da sua norma culta. Sou apenas uma pessoa que ama a língua portuguesa e que, por acaso, dela tira o seu sustento, ainda que não a conheça em todas as suas minúcias.

E por que isso? Ora, porque desde que a campanha política começou, estou por aqui com a palavra “presidenta”, que acho feia, aberrante e sexista. Acrescento ao disclaimer lá de cima que esta é uma opinião pessoal, uma birra individual, uma cisma idiossincrática. A palavra existe e está nos dicionários, mas eu – novamente em caráter pessoal – acredito que nem toda palavra boa está nos dicionários, assim como neles estão centenas, talvez até milhares de palavras que, há tempos, já poderiam ter sido eliminadas do vocabulário.

Para mim parece óbvio que palavras terminadas em “e” funcionam perfeitamente bem para ambos os gêneros. Ou agora vamos começar a dizer gerenta, amanta, assistenta, estudanta, adolescenta? Faz algum sentido, isso? Não, não faz; mas, sabe-se lá por que, a igualmente incongruente palavra presidenta encontrou abrigo nas páginas dos pais-dos-burros. Até aqui, porém, estava lá como um daqueles tantos exemplos de curiosidade semântica que encontramos nos dicionários; não me lembro de ter ouvido ninguém chamando a presidente do Chile de presidenta Bachelet, ou as tantas presidentes de empresas de presidentas disso ou daquilo.

A palavra foi reinventada com a candidatura da Dilma, e agora Inês é morta: depois de tanto tempo de propaganda gratuita, depois de tantos debates e, sobretudo, depois do presidente Lula repetir tantas e tantas vezes a palavra presidenta, tudo indica que a palavra presidente só será usada em relação ao gênero masculino. Uma pena, porque para mim, pelo menos, presidenta está no mesmo nível de incongruência e ridículo que presidento.

Tentei levar o assunto para o Twitter mas não fui bem sucedida. Recebi, de cara, uma Resposta Clássica: “Acho esta questão não apenas irrelevante como escrota”. Discutir com a dialética elegante do PT é difícil.

Coisa mais espantosa aconteceu no Facebook, onde uma moça amável e inteligente, escritora premiada ainda por cima, decidiu ditar o que eu devia (podia?) discutir ou não: “Cora, com todo respeito: a gente está elegendo presidente do Brasil ou presidente da Academia Brasileira de Letras? A Dilma está tentando discutir o que realmente importa para resolver problemas desse país, e comentários como esses seus continuam desviando o foco. Não acrescentam absolutamente nada.”

Sem querer, o meu comentário trivial sobre a palavra que me desagrada deu origem a uma das respostas mais políticas que recebi nos últimos tempos – e uma das mais reveladoras. Perto disso, a Resposta Clássica não foi nada, porque, além de não ser mesmo nada, partiu apenas de um ignorante.

A língua é coisa tão misteriosa que outra palavra muito em moda nos últimos tempos não me incomoda nada vertida para o feminino. Se parentas da Erenice tivessem aparecido no noticiário, ao invés de apenas parentes, eu teria achado perfeitamente natural. Não como personagens, claro, mas como substantivos comuns.

Querem uma sugestão de livro para vencer os atribulados dias do segundo turno? Anotem: é o melhor da temporada até aqui. Chama-se “O colecionador de mundos” (Companhia das Letras, tradução de Sergio Tellaroli), foi escrito em alemão pelo búlgaro Ilija Trojanow e trata de um personagem inglês, o capitão Richard Francis Burton, que existiu muito bem existido no século XIX. Não é biografia, mas romance baseado em fatos e personagens reais e irreais.

Sir Richard Burton foi o típico explorador inglês vitoriano. Soldado, espião e linguista extraordinário, dominava mais de uma dúzia de idiomas; devemos a ele as traduções para o inglês de “As mil e uma noites” e do “Kama sutra”, que revelaram essas obras ao Ocidente. Estudou as religiões orientais a fundo e era tão hábil na arte de se disfarçar que conseguiu fazer o hajj, a peregrinação a Meca, vedada a não-muçulmanos. Mais tarde, foi atrás da nascente do Nilo, numa viagem cercada de perigos e aventuras inimagináveis.

O empolgante livro de Trojanow se apóia nas grandes viagens de Burton, contadas através de pessoas com quem ele teria convivido, para traçar um retrato tão admirável do personagem que, por conta dessa única leitura, acabei mergulhada em quatro outras: duas biografias de Burton, e dois relatos do próprio Trojanow, um da sua peregrinação a Meca (sim, ele também foi), e outro da sua viagem ao Ganges. Um bom livro puxa outro, mas é preciso um livro fora de série para puxar mais quatro.


NÃO QUERO FALAR SOBRE ISSO

Na quarta-feira passada, logo cedo, mandei a crônica para o jornal, como sempre faço. Continuava contando o que vi na península escandinava, lugar menos misterioso e atraente do que a Índia, meu penúltimo destino de férias, mas não menos estranho, por ser, no todo e nas muitas partes, o exato oposto do Brasil.

Mais tarde, lendo o jornal cheio de notícias sobre a campanha política, me veio uma certa sensação de inadequação por estar falando de algo tão distante, em todos os sentidos. Acontece, contudo, que o cronista é, antes de tudo, um ser humano -- e o ser humano que assina esta crônica anda sem coração ou mente para a "política" que se pratica no país.

-- Mas você não vai falar nada de nada sobre a campanha? – perguntou a Bia, quando conversamos sobre o assunto.

-- Não vou não. Nunca vi uma campanha tão feia, tão mentirosa, tão marqueteira. Além disso, o que será dos leitores se todos os cronistas e colunistas escreverem sobre o mesmo tema? Não dá para ser mais objetiva do que o Merval, nem mais sarcástica do que o João Ubaldo.

Para que uma campanha política consiga motivar os eleitores, ela precisa, em primeiro lugar, ser... política! Mas não há nada de político, no antigo e nobre sentido da palavra, no que nos vem sendo apresentado. O mundo em que os candidatos vivem não guarda nenhuma relação com a realidade que pretendem administrar. Aliás, salvo a Marina, os próprios candidatos deixaram de passar qualquer impressão de autenticidade. São fantoches de si mesmo, criaturas de propaganda que apresentam não o que são, mas o que gostariam de ser. Ou nem isso; apenas o que seus marqueteiros acham que vende melhor.

Assim, de pessoa notoriamente tida por prepotente e atrabiliária (mas diplomaticamente apresentada como "difícil"), Dilma tenta passar por senhora educada, por mãe ocasionalmente severa, mas sempre gentil e compreensiva; de oposicionista de poucos amigos, Serra pretende ser acessível, religioso, popular. Não é, não são. Isso para não falar em todo o cardume menor, salpicado de criminosos e de figuras ridículas.

O presidente, que devia pelo menos fingir que respeita as leis, usa sem qualquer pudor a máquina do governo, que há tempos deixou de ser para todos e transformou-se em criminosa ferramenta partidária; a oposição, cheia de aspas, desvirtua um tenebroso caso de polícia para tentar ganhar no tapetão, repetindo as práticas antidemocráticas do PT.

Cadê a política nisso?! Cadê os projetos, cadê as propostas para a educação, base de tudo, que está indo para o brejo à velocidade da luz?

Durante os governos que antecederam a Era Lula, o PT fez a oposição mais cerrada e hidrófoba que já se viu. Bastava uma idéia ser apresentada pelo governo para que a militância a estraçalhasse, como uma matilha de hienas destroça o cadáver de um antílope (vide Nat Geo Wild). Teria sido curioso ver como se portaria o PT no governo diante de uma oposição semelhante; mas, feito para governar, o PSDB nunca soube fazer oposição.

Por causa disso, todos os “malfeitos” do governo Lula ficaram por isso mesmo, por “malfeitos” e “futricas menores” – e o país, que já não andava muito bem no quesito da ética, desandou de vez. A falta de moral generalizada e a pasmaceira apontada por Plinio Sampaio são os grandes legados da Era Lula, mas a responsabilidade por essa herança maldita não cabe apenas ao PT. A culpa é também dos partidos de oposição, que não conseguiram encostar ninguém contra a parede e dizer que certas coisas não se fazem.

A rigor, porém, nem sei por que estou falando nisso; eu já disse que não vou escrever sobre a campanha política. Não me reconheço no que vai pela televisão. Meu país é melhor e mais rico, mais diversificado, criativo e inteligente. E, apesar de saber que eles não vieram para cá em espaçonaves, nem surgiram por geração espontânea, continuo achando que o Brasil não merece os políticos que tem.

E mais uma vez, quando o coração anda pesado com o que acontece à nossa volta, Maria Bethânia surge no horizonte, esplendorosa, e põe os pingos nos ii, mostrando que, apesar de tudo, o Brasil tem muito bem onde se segurar. Dessa vez, na última quinta-feira, ela contou com o auxílio de uma platéia formada por alunos da rede pública de ensino, que foram ouvi-la em “Bethânia e as palavras -- leituras”, espetáculo de pouco mais de uma hora de poesia.

É provável que os meninos e meninas que estavam lá nunca tenham ouvido poesia falada, mas todos entraram perfeitamente no clima do recital. Ficaram atentos e encantados, responderam com longos aplausos quando seus professores foram mencionados e, sobretudo, quando Bethânia, homenageando um antigo mestre, lembrou que ali estava uma ex-aluna do recôncavo baiano – prova de que é possível “uma boa, devida e plena educação nas escolas públicas”.

“Bethânia e as palavras” não é só um comovente (e imperdível) recital de poesia; é também um manifesto pela educação, em que são recorrentes as imagens dos cadernos, dos lápis, da leitura, do encanto pelas palavras e pelos poemas. Um manifesto, enfim, pela sensibilidade e pela delicadeza.

De tudo o que eu tenho visto e lido, é, disparado, o melhor antídoto contra a campanha eleitoral.


PADECENDO NO PARAÍSO

A quarta-feira não foi o dia mais quente do ano mas, na própria quarta, antes que a quinta fosse ainda pior - só perdendo para sexta, sábado e domingo - ninguém tinha como saber disso. Às duas da tarde, quando saí do jornal, entendi como se sente um pargo ao sal grosso entrando num forno pré-aquecido. Repito o que escrevi há algumas semanas, quando, por incrivel que pareça, ainda não sabiamos da missa metade um: nunca vi nada igual.

Fui atrás de táxi imaginando quanto tempo um ser humano poderia Suportar aquele sol mal nenhum quengo sem passar, e então me ocorreu que estava ali um fenômeno que eu não precisava imaginar. Era só sair andando para, cedo ou tarde, ter uma resposta. Simples, não?

Virei um Irineu Marinho, subi a Rua do Santana e não parei botequim da esquina com Frei Caneca uma água para beber e pensar numa Estratégia de Sobrevivência. Não havia uma sombrinha decente à vista. Na verdade, não havia vista nem a gente: as poucas pessoas que enfrentavam uma rua andavam aos prédios Rente, para aproveitar os parcos centímetros de sombra existentes.

Continuei pela Frei Caneca, parando aqui e ali para fotografar os edifícios que foram restaurados, e que sempre me encantam. Depois Caldwell e Moncorvo Filho. O Campo de Santana, tão convidativo visto de fora, estava cheio de tipos suspeitos escarrapachados pelos bancos, dormindo ou amontoados em grupos. Não tenho medo de gente, não acho que todo mendigo ou morador de rua faça jornada dupla como assaltante, mas também não vou para Facilitar bandido em tempo integral com dedicação exclusiva.
* * *
Abre parenteses: de que adianta vivermos na cidade mais bonita do mundo quando ela nos pertence cada vez menos, e quando cada um de nossos passos é ditado pela insegurança? O Campo de Santana, plantado no coração do Rio, praticamente do lado da Prefeitura e do 13 º Batalhão da PM, devia ser, pela lógica, um dos lugares mais seguros da cidade, um oásis de tranqüilidade na confusão geral. Em vez disso, é uma praça pela qual se corta caminho, de preferência rápido. Fotografar é esporte radical, buscar o aconchego dos Recantos de sombras e árvores antigas uma atividade de risco. Eu não queria falar sobre isso, mas é que passar por uma jóia como aquela e não sentir firmeza para tirar uma mísera foto de celular me revolta além do que consigo exprimir. Fecha parênteses.
* * *
Duas Águas Comprei um um real em frente ao Quartel do Corpo de Bombeiros, e fui adiante. A essa altura a pele latejava, o relógio ea argola de metal queimavam da bolsa. As pessoas que esperavam Estavam No ponto de ônibus até Quietas. Continuei por algumas daquelas pequeninas ruas até chegar à Praça Tiradentes. Em frente ao João Caetano, como pálpebras e como davam umas mãos esquisitas tremidas.

- Ponto Tá, Cora Rónai, Provado! Ou precisa ter um Piripaque só para testar uma idéia idiota?

Decidi ouvir a voz da razão, tomei o primeiro táxi que apareceu e voltei para casa. O corpo estava tão quente que, mesmo depois de uma ducha fria, continuei suando por um bom tempo.
* * *
Nunca fui à África, mas andei por todas essas ruas tão minhas conhecidas como se estivesse em Dakar ou em Timbuktu. Além de minar uma resistência, o calor alterava uma realidade e, num certo sentido, o próprio comportamento dos transeuntes.

A maioria das pessoas por quem passei trocou olhares aparvalhados comigo, reflexo da cumplicidade entre Vítimas do estupor incompreensível mesmo. Descrevi uma experiência no blog, eo leitor Gledson Machado prontamente tuitou:

- Olha, o @ cronai escreveu um texto sobre o que passou calor não ... Se ela andasse por Nova Iguaçu escreveria um livro!
* * *
O telefone tocou.

- Cara, vou te contar, que droga que é fazer 60 anos, viu? - Explodiu a minha amiga. - Sempre me disseram que um aos poucos gente envelhece, mas não é verdade, é de uma hora para outra, da noite para o dia. Que inferno!

- O que aconteceu?!

- Não aconteceu nada, mas eu não consigo andar mais duas quadras nem eu! Saí de casa para ir ao banco, e quando cheguei estava tonta, com falta de ar, a cabeça explodindo. Duas quadras! Que droga que é ficar velha!

Minha amiga usava termos mais Eloquentes do que esses. Estava genuinamente Contrariada, com uma auto-estima tão Abalada pela insolação que nem se dera ao trabalho de Analisar os vários ângulos da questão.

- Criatura Você não está velha,. Você está é desidratada: É diferente. Toma uma água de coco que passa.
* * *

A quinta-feira amanheceu pior do que uma quarta, que amanheceu melhor do que a sexta eo sábado. No domingo, os termômetros registraram a mais alta temperatura do século, quiçá do milênio. A minha moral cai na mesma proporção em que sobe a conta de luz.

Levantar da cama e sair do quarto geladinho É uma dificuldade, resolver e trabalhar como mínimas coisas um Esforço descomunal. Há dias eu prometo fotografar amanhã falta, sem, uma árvore da esquina da Maria Quitéria, que está toda florida. Entre e uma promessa como flores, porém, há um muro de letargia que não consigo transpor. Telefono:

- Bia, estou com uma depressão séria. Não estou com vontade de fazer nada, a não ser ficar sem ar refrigerado.

- Relaxa, mãe! Você não está com depressão. Você está com calor. Toma uma água de coco que passa.

Fonte: Blog da autora: www.cronai.com

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