CORA RÓNAI

PADECENDO NO PARAÍSO

A quarta-feira não foi o dia mais quente do ano mas, na própria quarta, antes que a quinta fosse ainda pior - só perdendo para sexta, sábado e domingo - ninguém tinha como saber disso. Às duas da tarde, quando saí do jornal, entendi como se sente um pargo ao sal grosso entrando num forno pré-aquecido. Repito o que escrevi há algumas semanas, quando, por incrivel que pareça, ainda não sabiamos da missa metade um: nunca vi nada igual.

Fui atrás de táxi imaginando quanto tempo um ser humano poderia Suportar aquele sol mal nenhum quengo sem passar, e então me ocorreu que estava ali um fenômeno que eu não precisava imaginar. Era só sair andando para, cedo ou tarde, ter uma resposta. Simples, não?

Virei um Irineu Marinho, subi a Rua do Santana e não parei botequim da esquina com Frei Caneca uma água para beber e pensar numa Estratégia de Sobrevivência. Não havia uma sombrinha decente à vista. Na verdade, não havia vista nem a gente: as poucas pessoas que enfrentavam uma rua andavam aos prédios Rente, para aproveitar os parcos centímetros de sombra existentes.

Continuei pela Frei Caneca, parando aqui e ali para fotografar os edifícios que foram restaurados, e que sempre me encantam. Depois Caldwell e Moncorvo Filho. O Campo de Santana, tão convidativo visto de fora, estava cheio de tipos suspeitos escarrapachados pelos bancos, dormindo ou amontoados em grupos. Não tenho medo de gente, não acho que todo mendigo ou morador de rua faça jornada dupla como assaltante, mas também não vou para Facilitar bandido em tempo integral com dedicação exclusiva.
* * *
Abre parenteses: de que adianta vivermos na cidade mais bonita do mundo quando ela nos pertence cada vez menos, e quando cada um de nossos passos é ditado pela insegurança? O Campo de Santana, plantado no coração do Rio, praticamente do lado da Prefeitura e do 13 º Batalhão da PM, devia ser, pela lógica, um dos lugares mais seguros da cidade, um oásis de tranqüilidade na confusão geral. Em vez disso, é uma praça pela qual se corta caminho, de preferência rápido. Fotografar é esporte radical, buscar o aconchego dos Recantos de sombras e árvores antigas uma atividade de risco. Eu não queria falar sobre isso, mas é que passar por uma jóia como aquela e não sentir firmeza para tirar uma mísera foto de celular me revolta além do que consigo exprimir. Fecha parênteses.
* * *
Duas Águas Comprei um um real em frente ao Quartel do Corpo de Bombeiros, e fui adiante. A essa altura a pele latejava, o relógio ea argola de metal queimavam da bolsa. As pessoas que esperavam Estavam No ponto de ônibus até Quietas. Continuei por algumas daquelas pequeninas ruas até chegar à Praça Tiradentes. Em frente ao João Caetano, como pálpebras e como davam umas mãos esquisitas tremidas.

- Ponto Tá, Cora Rónai, Provado! Ou precisa ter um Piripaque só para testar uma idéia idiota?

Decidi ouvir a voz da razão, tomei o primeiro táxi que apareceu e voltei para casa. O corpo estava tão quente que, mesmo depois de uma ducha fria, continuei suando por um bom tempo.
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Nunca fui à África, mas andei por todas essas ruas tão minhas conhecidas como se estivesse em Dakar ou em Timbuktu. Além de minar uma resistência, o calor alterava uma realidade e, num certo sentido, o próprio comportamento dos transeuntes.

A maioria das pessoas por quem passei trocou olhares aparvalhados comigo, reflexo da cumplicidade entre Vítimas do estupor incompreensível mesmo. Descrevi uma experiência no blog, eo leitor Gledson Machado prontamente tuitou:

- Olha, o @ cronai escreveu um texto sobre o que passou calor não ... Se ela andasse por Nova Iguaçu escreveria um livro!
* * *
O telefone tocou.

- Cara, vou te contar, que droga que é fazer 60 anos, viu? - Explodiu a minha amiga. - Sempre me disseram que um aos poucos gente envelhece, mas não é verdade, é de uma hora para outra, da noite para o dia. Que inferno!

- O que aconteceu?!

- Não aconteceu nada, mas eu não consigo andar mais duas quadras nem eu! Saí de casa para ir ao banco, e quando cheguei estava tonta, com falta de ar, a cabeça explodindo. Duas quadras! Que droga que é ficar velha!

Minha amiga usava termos mais Eloquentes do que esses. Estava genuinamente Contrariada, com uma auto-estima tão Abalada pela insolação que nem se dera ao trabalho de Analisar os vários ângulos da questão.

- Criatura Você não está velha,. Você está é desidratada: É diferente. Toma uma água de coco que passa.
* * *

A quinta-feira amanheceu pior do que uma quarta, que amanheceu melhor do que a sexta eo sábado. No domingo, os termômetros registraram a mais alta temperatura do século, quiçá do milênio. A minha moral cai na mesma proporção em que sobe a conta de luz.

Levantar da cama e sair do quarto geladinho É uma dificuldade, resolver e trabalhar como mínimas coisas um Esforço descomunal. Há dias eu prometo fotografar amanhã falta, sem, uma árvore da esquina da Maria Quitéria, que está toda florida. Entre e uma promessa como flores, porém, há um muro de letargia que não consigo transpor. Telefono:

- Bia, estou com uma depressão séria. Não estou com vontade de fazer nada, a não ser ficar sem ar refrigerado.

- Relaxa, mãe! Você não está com depressão. Você está com calor. Toma uma água de coco que passa.

Fonte: OGlobo, Segundo Caderno, 11.2.2010
B
log da autora: www.cronai.com

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