PETEIROS E BANQUISTAS

HOMENAGEM A UM GÊNIO: CHICO ANYSIO

QUATRO NOTÍCIAS BREVES

Fausto Wolff

PETEIROS E BANQUISTAS

Em Roma, 1968-69, eu morava num pequeno, porém belo apartamento no bairro Pariolli. Era propriedade de uma condessa com a qual tratei diretamente. Alguns meses depois tive de viajar e fiquei fora alguns dias a mais do que pretendia. Ao chegar em casa, encontrei uma carta com cara muito oficial dizendo que, se eu não pagasse o aluguel em uma semana, seria despejado e teria de arcar com uma porção de multas.

Fui à condessa e expliquei-lhe que o título que ostentava também deveria ser, como em tempos passados, de nobreza de espírito. A mulher era da falsa elite e logo me mudei para casar.

Como Santayana explicou há alguns dias, a palavra elite perdeu seu sentido ôntico, principalmente no Brasil. Não são de elite os homens e mulheres extraordinários que dignificam a espécie humana e a sociedade, mas sim aqueles que fazem maior sucesso (até mesmo na área do crime) e têm mais dinheiro. A única virtude nos dias que correm da polícia, é não ser apanhado em flagrante delito, como bem sabem o Renan e a turma do mensalão.

Entre nós, o crime ainda não foi oficializado como o bingo, mas é encarado com a mesma naturalidade. Os bancos, por exemplo, são máquinas de arrecadar dinheiro do povo sem dar nada em troca. O lucro dos bancos brasileiros é o dobro dos americanos. No primeiro semestre deste ano, lucraram o dobro dos bancos americanos.

A rentabilidade média dos quatro maiores bancos brasileiros, Itaú, Bradesco, Unibanco e Banco do Brasil, foi de 14,55% em relação ao patrimônio líquido do primeiro semestre deste ano. O lucro dos quatro grandes bancos americanos foi de 7,36% no mesmo período. E olhem que os EUA têm a maior dívida interna e externa do mundo, negócio impagável, sabiam? Enquanto houver terceiro mundo para explorar e guerras para investir eles não estarão preocupados.

No topo da lista de rentabilidade sobre o patrimônio líquido estão os quatro bancos brasileiros: Itaú, com 16%; Bradesco, com 15,37%; Unibanco, com 13,72%; e Banco do Brasil, que logo vai acabar, porque mandou embora seus melhores profissionais, com 11,5%. Em quinto lugar - pasmem - é que vem o americano US Bancorp, com um lucro de 11% no primeiro semestre deste ano. Os demais tiveram rentabilidade inferior a 10%.

A média foi de 7,36%. Já os bancos brasileiros, de cada R$ 100 que entraram no primeiro semestre, ficaram com 14,55%. Imaginem os milhões que entram todos os dias e façam os cálculos. Na medicina chinesa, em algumas regiões, o médico é pago para manter o paciente saudável. Se ele adoecer, o médico leva uma senhora multa. Desde 64, nosso governo só promete fazer alguma coisa depois de ocorrida a tragédia. Acaba não fazendo nada, como no caso da dengue, da tuberculose, do desmatamento, do tráfico de drogas, da prostituição infantil e assim por diante.

Como acha que os bancos não nos achacam o suficiente, resolveu manter a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), que jamais foi nem irá para a Saúde, em colapso juntamente com a educação. E o nosso presidente, deslumbrado como uma madame Du Barry antes de pôr os pés em Versalhes, vai à televisão para dizer que não nos preocupemos, pois o Banco Central tem mais de uma centena de bilhões em caixa e poderá fazer frente a qualquer crise.

Será que não há ninguém que diga a esse homem que o sistema bancário brasileiro é um entrave na economia brasileira? Como a CPMF, uma contribuição, como o nome indica. Ora, contribui quem quer, não é mesmo? Pois tente, ao contribuir. Reprise do Empréstimo Compulsório, que, sendo compulsório, não poderia ser empréstimo, pois sou eu que decido se quero emprestar ou não.

Nossa publicidade já descobriu há muito tempo que não pode fazer anúncios inteligentes e por isso mostra às crianças uma agência de banco como se fosse o paraíso. O petiz (gostaram?) imediatamente começa a encher o avô para abrir uma conta no banco onde todos cantam e dançam em vez de trabalhar.

Ver um troço desses na televisão de 15 em 15 minutos provoca náuseas, cólicas, e já foram registrados casos de bicho-de-pé. Pior é quando, depois de anunciar que no Brasil o dinheiro está saindo (e sendo reinvestido) pelo ladrão, alegre com o sucesso dos nossos bancos, o sr. Luiz Silva nos informa: "A situação seria pior se os bancos tivessem prejuízos e o governo tiver (sic) que criar uma Proer para ajudá-los. Aí o prejuízo seria total. Eu não quero que ninguém tenha prejuízo, porque na hora em que alguém tiver prejuízo, eu sei que tentam (sic) jogar nas costas do povo mais pobre. Como eu não quero que o povo mais pobre perca, eu quero que todos continuem ganhando".

Meus caros leitores, talvez vocês não tenham notado, mas acabei de lhes apresentar os bancos brasileiros e o nosso presidente, que manda tropas para o Haiti e até hoje não inaugurou um grupo escolar. Já é um homem da elite.

Autor: Fausto Wolff - Colunista do Jornal do Brasil


HOMENAGEM A UM GÊNIO: CHICO ANYSIO

Se eu deixasse, teria sido a terceira vez. Mas não deixei. Quando o repórter me perguntou à queima-roupa (coisa impossível, pois para queimar a tua roupa o sujeito tem que estar tão perto a ponto da ponta do cigarro dele abrir um buraco no teu paletó, ou ter tanta raiva de ti a ponto de encostar o trabuco no teu peito e deixar a bala queimar não só a tua roupa como o teu corpo enquanto o atravessa):

- Quais, na tua opinião, são os gênios brasileiros vivos?

Citei os quatro nomes de sempre e um que jamais citara e não o fizera menos por culpa minha do que dele. Estou falando de Chico Anysio, o maior comediante do mundo. Chico nasceu em abril de 31 do século passado (façam as contas), em Maranguape, Ceará. Não conheço a história de um nordestino que, tendo feito sucesso aqui no Rio, tenha retornado. Entretanto, ainda hoje vivem
chorando de saudades da terrinha seca, embora para lá não se mudem — nem à vara. Chico também gostava tanto de Maranguape que, aos 8 anos, já estava no Rio de Janeiro.

E pouco mais que adolescente já apresentava na Rádio Guanabara um programa no qual se basearia a Família Trapo algumas décadas de
pois.

Seu primeiro personagem, se não me engano o Professor Raimundo, ele levaria para a televisão em 1990. A Escolinha do Professor Raimundo ficaria na Globo quase dez anos não só como um programa despretensioso e educativo, que revivia a fórmula do circo poeira, mas como prova da generosidade de Chico.

Durante os anos 90, nenhum humorista com um mínimo de talento - de estreantes como Tom Cavalcante e Pedro Bismarck a veteraníssimos como Brandão Filho e Milton Carneiro - ficou sem emprego. A escolinha na qual Chico fazia "escada" para seus colegas brilharem chegou a abrigar mais de 50 artistas, a maioria talentosa.

Mas eu disse em algum lugar acima que a culpa de eu não haver incluído Chico entre os poucos gênios brasileiros se deve mais a ele do que a mim. Eu esquecia de citá-lo por causa do seu talento, que beira as raias do metafísico, esteja ele onde estiver. Numa lista de génios, ninguém lembra do Chico Anysio, entre outras coisas porque, quando ele dá entrevistas, falando normalmente, com sua própria voz, muito se perde.

Ele fica autopiedoso, auto-referente etc. Um gigante nas roupas de uma criança que há muito ele deveria ter deixado no passado. Por outro lado, sou obrigado a confessar que ele tem certa razão: este grande comediante jamais recebeu as homenagens a que tem direito. Quem é do ramo entende.

E isso se deve ao fato de ele ser tão bom que, no meio do caminho, esquecemos que é o Coalhada, mas também é a Salomé, o Azambuja, o Bozó, o coronel Limoeiro, o Roberval Taylor, o Alberto Roberto, o Painho e mais outras duas centenas de personagens que cobrem todo o universo brasileiro e boa parte do universo internacional. Ele é o Brasil medroso, esperto, covarde, caricato, heróico, religioso etc etc. Seu talento é tão grande, a sinceridade que transmite é tão genuína que as pessoas esquecem que, por trás de todas aquelas máscaras, há apenas um homem.

Existem centenas de comediantes com um ou mais tipos. Jorge Loredo eternizou-se com o seu Zé Bonitinho, mas quem o ajudou a montar o personagem? O mestre Chico Anysio. Lon Chaney, o homem das mil caras, tinha meia dúzia delas. O mesmo vale para Alec Guinness e Peter Sellers.

Quem mais se aproximou de Chico foi o italiano Alighiero Noschese que, porém, limitava-se a imitar muito bem os mais conhecidos políticos europeus. Teria se suicidado em um hotel nos anos 80, mas muita gente não descarta a hipótese de homicídio a mando de algum caricaturado pouco esportivo.

Nunca antes e creio que nem depois surgirá um comediante com a disciplina, o talento, a generosidade, o profissionalismo de Chico Anysio. Ele ainda se dá ao luxo de pintar, escrever e dirigir. Em comum temos a paixão pelas mulheres e pelos cavalos de corrida. Era isso aí: cansei de ver idiotas de todos os sexos sendo louvados em suplementos de entretenimento, gente que não resiste a uma temporada, imaginem as dezenas de temporadas de Chico Anysio. Num tempo em que tanto sujeito ordinário vem sendo homenageado, por que não homenagear uma pessoa realmente extraordinária? Uma pessoa que sabe o segredo maior: a criação é a
assassina da morte.

Autor: Fausto Wolff - Colunista do Jornal do Brasil


QUATRO NOTÍCIAS BREVES

Ao chegar em casa - rua Pereira Passos, 45, fundos, Penha -às 20 horas de ontem, o comerciário Angelo Augusto de Souza, 32 anos, dois filhos, comunicou à esposa Conceição, de 28 anos, que o patrão lhe concedera um aumento. Com ele, poderiam comprar a tão sonhada gaiola para o bem-te-vi que haviam adquirido há meses na Feira de São Cristóvão.

Conceição abraçou Angelo por um bom momento. Afastou-se um pouco dele e olhou profundamente em seus olhos - e seus olhos lhe diziam que ele a amava. Talvez não tanto quanto ela a ele, pois isso era impossível. Depois do jantar -pescadinhas com polenta - colocaram as cadeiras do lado de fora do chalezinho e ficaram vivendo de brisa enquanto esperavam as crianças pegarem no sono. Depois, foram para a cama e fizeram amor com muita delicadeza como se aquele momento pudesse ser quebrado de uma hora para a outra.

Luciano Lobo, eletricista, casado, morador no Méier, 32 anos, depois de assistir ao Fla-Flu no Maracanã, na noite de ontem, embarcou no seu velho Volks e dirigiu-se para casa. O Flamengo vencera, ele estava feliz e ansioso para gozar com a cara do sogro, que era Fluminense doente. Mal havia passado o triângulo Aldeia Campista, Tijuca, Vila Isabel, verificou que estava na cara do Morro da Formiga. Em seguida, o pneu estourou e ele foi obrigado a estacionar. Tirou o estepe e o macaco do porta-malas, que no Volks é na frente, quando se viu cercado por cinco homens que pareciam embriagados. Dois deles vestiam a camisa do Flamengo e ele suspirou aliviado. O mais forte ajudou-o a trocar o pneu e depois os cinco o convidaram para tomar umas canas na birosca logo na entrada da Formiga para festejarem mais uma vitória do rubro-negro. Beberam cinco copos de pinga que ele quis pagar.
- Quer ofender a gente, amizade?
Levaram-no de volta ao seu carro. Ele agradeceu e se foi feliz da vida gritando "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo".

Carlos José Maurício Silva tem cinco anos e mora com os pais no Morro do Rato Molhado. Anteontem, aproveitando-se do fato de sua mãe, Amélia Teresa, estar conversando com a vizinha enquanto ambas lavavam roupas nos respectivos tanques, aproveitou para escapulir. Ao passar pelo lixão, viu uma bela pizza intacta. Nem mesmo um rato a havia mordiscado. Pensou em levá-la para casa, mas sua mãe poderia brigar com ele. Comeu dois pedaços ali mesmo. Naquela noite, passou mal. A mãe pediu o termômetro emprestado para a vizinha e verificou que a febre de Carlos José passava dos 40 graus. Um vizinho se ofereceu para levar o garoto no Rocha Faria, onde foi prontamente atendido por um médico jovem chamado Ismael Cardoso e enfermeira muito simpática, chamada Esmeralda Terra. Ambos passaram a noite inteira ao lado do menino, que, em seu delírio, perguntou se Esmeralda era Nossa Senhora. Depois de vomitar, Carlos José recebeu sangue e soro nas veias. A pizza havia sido coberta por veneno de rato e a possibilidade de o garoto escapar era mínima. Graças, porém, às orações da mãe, ao decisivo auxílio do vizinho e ao dedicado trabalho dos médicos e enfermeiros, pouco antes do meio-dia do dia seguinte a febre começou a ceder e, uma hora depois, foi declarado fora de perigo.

A velhinha entrou no banco pela primeira vez depois da reforma. Ficou impressionada com o número de máquinas. Era dona Teresa Pereira, professora aposentada, 82 anos, moradora de um pequeno apartamento conjugado no Lido, em Copacabana. Foi até o caixa eletrônico, mas, depois de olhar durante algum tempo para a tela, desistiu. Perguntou pela gerente, uma senhora bonita, de seus 35 anos, chamada Luiza. Foi prontamente atendida. Deu o número de sua conta e informou que queria tirar um pouco de dinheiro da poupança para comprar um uniforme de escoteiro para o neto. Infelizmente, esquecera da senha e não lembrava onde a havia anotado. A gerente mandou um contínuo trazer um cafezinho. Providenciou uma nova senha e ficou 15 minutos explicando à dona Teresa como a coisa toda funcionava. Ela, finalmente, entendeu e disse à Luiza, a gerente, que havia sido tratada tão bem como mostrava a televisão. A gerente perguntou a Adão, um segurança enorme cujo turno havia acabado, se ele poderia acompanhar dona Teresa até sua casa, o que ele fez com muito prazer.

PS - Os mais jovens podem duvidar, mas o Rio de Janeiro já foi assim. Hoje não se publicam notícias como essas porque elas são muito raras e, afinal de contas, tratam apenas da vida como ela poderia ser.

Autor: Fausto Wolff - Colunista do Jornal do Brasil

Qual a sua opinião sobre esta matéria?
Envie suas críticas e sugestões

Clique aqui

Deseja enviar esta página para um
"Velho Amigo"?

Clique Aqui

Para acessar matérias anteriores,
clique na caixa abaixo.