CEM CRUZEIROS A MAIS
Fernando Sabino
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Ao receber certa quantia num guichê do Ministério, verificou que o funcionário lhe havia dado cem cruzeiros e mais. Quis voltar para devolver, mas outras pessoas protestaram: entrasse na fila. Esperou pacientemente a vez, para que o funcionário lhe fechasse na cara a janelinha de vidro: Agora era uma questão de teimosia. Voltou à tarde, para encontrar fila maior – não conseguiu sequer aproximar-se do guichê antes de encerrar-se o expediente. No dia seguinte era o primeiro da fila: Só então reparou que o funcionário era outro. Ele coçou a cabeça, aborrecido: O funcionário lhe explicou com toda urbanidade que não podia responder pela distração do Mafra: O próximo da fila, já impaciente, empurrou-o com o cotovelo. Amar o próximo como a ti mesmo! Procurou conter-se e se afastou, indeciso. Num súbito impulso de indignação - agora iria até o fim - dirigiu-se à recebedoria. - O Mafra? Não trabalha aqui, meu amigo, nem nunca trabalhou. Informaram-lhe que não podiam receber: tratava-se de uma devolução, não era isso mesmo? E não de pagamento. Tinha trazido a guia? Pois então? Onde já se viu pagamento sem guia? Receber mil cruzeiros a troco de quê? - Mil não: cem. A troco de devolução. O chefe da seção já tinha saído: só no dia seguinte. No dia seguinte, depois de fazê-lo esperar mais de meia hora, o chefe informou-se que deveria redigir um ofício historiando o fato e devolvendo o dinheiro. - Já que o senhor faz tanta questão de devolver. Saindo dali, em vez de ir ao protocolo, ou ao Araújo para dizer-lhe que deixasse de ser besta, o honesto cidadão dirigiu-se ao guichê onde recebera o dinheiro, fez da nota de cem cruzeiros uma bolinha, atirou-a lá dentro por cima do vidro e foi-se embora. Autor: |
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