NÃO SE FAZ MAIS CANTOR MACHO COMO ANTIGAMENTE

ERRATA

(Joaquim Ferreira dos Santos)

NÃO SE FAZ MAIS CANTOR MACHO COMO ANTIGAMENTE

Eu não sou cachorro, não, mas gosto de cantores que uivam para a Lua, desesperam-se com alguma mulher que foi embora e rasgam o peito, os cornos emborcados na mesa de um cabaré da Lapa, suspirando de infelicidade pela boneca cobiçada com lábios de veneno.

Esta noite, eles queriam que o mundo acabasse — mas estão indo embora primeiro. Os cantores que choravam a dor do abandono amoroso não existem mais, todos empurrados para baixo do tapete como um Brasil cafona que não se quisesse mais tomar conhecimento.

O lado B de um país moderno, todo mundo cantando baixinho, todo mundo dançando o creu, que jamais conseguimos realmente ser.

Waldick Soriano, o macho baiano que se foi na semana passada, talvez tenha sido o último deles, digo, talvez tenha sido o último cantor de voz viril, arrebatada, daqueles raros que não foram ao show do João Gilberto para copiar suas notas baixinhas. Se alguém dissesse cool na frente de Waldick, ele pediria que a pessoa tivesse modos e evitasse tamanha vulgaridade no palavreado. Cool na terra dele era outra coisa.

Cantor viril, como Nelson Gonçalves, ele soltava a voz ao conhaque das emoções. Vociferava, batia no peito e tornava-se um ébrio para na bebida esquecer aquela amada que o abandonou. Os cantores populares que agora levam Waldick ao túmulo representam um dos pilares da música brasileira. Brega é o outro, cafona é a vovozinha. Esses cantores, com sua temática amorosa tirada dos dramas cotidianos, explicam as coisas básicas da Humanidade.

Sabem a dialética sentimental de encontrar alguém e logo em seguida perder. Com a morte de Waldick, autor do clássico "Tortura de amor", eles dizem novo adeus. Ficou feio chegar na frente do distinto público, todos já tão sofridos dos seus infernos particulares, e abrir o jogo. Mentira, traição, pé na bunda, solidão. Ninguém quer saber mais de cavucar amor e dor. De olhar a camisola do dia, tão transparente, macia, e suspirar com o divino conteúdo que estava ali até ontem à noite.

O sonho agora, de vez em quando interrompido por Caetano cantando "Cucurucucu Paloma", é ser de bom gosto.

A bossa nova caçoava de Antônio Maria, de Dolores Duran, e de todas as complicações sentimentais do samba-canção. Gritou chega de saudade e também chega de perdedores, de gente que vivia com o destino da Lua, para todos que vivessem na rua. O país modernizava-se, a noite depressiva das boates de "Ninguém me ama" não ajudava o progresso.

A bossa nova inventou o mau gosto na MPB. Entrou em cena uma multidão de jovens da Zona Sul que namorava entre si, transava sem complicação, e na hora de cantar evitava revelar que a garota de Ipanema tinha aprontado como uma cachorra qualquer.

A felicidade foi um dos seus dogmas. O barquinho ia, o barquinho vinha, e dele Roberto Menescal pulava para fazer caça submarina.

Waldick Soriano, que cantava soluçando, pois o homem quando chora tem no peito paixão", talvez tenha encerrado a saga tão brasileira de cantores que rasgavam o terno no palco, como Orlando Dias.

Descabelavam-se sem pudor na frente de todo mundo. Gritavam fica comigo esta noite e sabiam, machos da melhor espécie, a dor de ter loucura por uma mulher e depois encontrá-la nos braços de um outro qualquer.

Lá se foram Silvinho, Orlando Dias, Evaldo Braga, Vicente Celestino, Altemar Dutra, Paulo Sérgio, Nelson Gonçalves, Tim Maia e Lindomar Castilho.

Sobreviveram Nelson Ned, Reginaldo Rossi e Agnaldo Timóteo, mas são quase ursos pandas do circo de Orlando Orfei, raridades exóticas em processo de extinção.

O amor básico — um homem, uma mulher e todas as trágicas decorrências deste desencontro — sumiu da música junto com o pente Flamengo do bolso da camisa. Os cantores de nervos de aço, sempre reclamando que atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem, cederam o palco para uma geração de craques, como Luiz Melodia, Zé Renato, Marcos Sacramento, Diogo Nogueira, Emílio Santiago e poucos outros — todos pautados, no entanto, pela voz suave da bossa nova e pela vergonha de berrar a desdita amorosa.

Ninguém mais é abandonado nos versos da MPB. Todos garanhões, todos metendo bronca adoidado e subindo ao palco para contar como foi bom. Ninguém é humilhado. Todos príncipes vencedores. Waldick, o cantor de voz poderosa que agora se foi, um dos maiores da música brasileira, colocava o coração na mesa, os bofes pela boca. Esbravejava a paixão radical pela mulher da vez, que pretendia fosse a última — mas ela, na segunda parte da letra, sempre insistia em trocar de amante. Escafedia-se. As músicas de Waldick suplicavam perdão, tinham zero de empáfia e nenhum orgulho da testosterona.

Embaixo do jeitão rústico, estava um artista que exaltava a delicadeza do encontro definitivo. "Fica". "Volta". "Saudade". Um macho do tipo que, infelizmente, não grava mais discos, que deixou de traduzir o brasileiro sentimental nas canções — como se todos, moderníssimos, fingissem desconhecer que a pior coisa do mundo é amar sem ser amado.

Autor: Joaquim Ferreira dos Santos
Enviado por: Nair Cavalcante Soares


ERRATA

Aliás, esta coluna pode até não deixar claro o que é fato e o que é ficção, mas, diga-se a seu favor, nunca confunde alho com bugalho. Vive da certeza de que são a mesma coisa. Por uma questão de delicadeza para com a inteligência do leitor, apenas por isso, nunca se diz claramente aqui onde termina o alho e começa o bugalho. Perderia a graça servir pronta a garimpagem das palavras, todas curtidas no bimbalho, com o ouro separado do cascalho.

Jorge Bastos Moreno percebeu primeiro e abriu aos sábados uma loja de "Nhenhenhém", certo de que há páginas em excesso dedicadas à realidade, essa senhora assustada, ajoelhada em direção a Wall Street - e foi aí que Moreno inventou seu mundo político paralelo, recheado de clones do Sarney e do Serra contracenando com Mariana Ximenes ao sol de Ipanema.

Invejo-o na fartura de sua liberdade.
Esta coluna aqui é um
"nhenhenhém" magro. Basta olhar o nome do proprietário na tabuleta e perceber. Trata-se de um armazém de secos e molhados, servindo tira-gostos para a imaginação da freguesia. Tremoços e aleivosias, sarrabulho e idiossincrasias. Uma lata de biscoitos sortidos da Marilu com a inscrição em garrafais azuis: "Jornalismo, por favor, dá um tempo!".

Nada aqui é necessariamente o que parece, pois verossimilhança é palavra grande de mais para caber num balcão de cebolas em réstias e idéias em modéstias. Rima-se, delira-se, imagina-se. Leva-se a vida. Salve-se quem puder.

Se é crônica ou reportagem, nada disso vem ao caso. Se o Tony Tripé da semana passada é um alter ego do colunista ou um personagem de fato da Praça Quinze, qual a importância de sabê-lo? O importante é tirar a roupa das palavras e deixar a semântica nuinha.

Aqui jaz a preocupação de estabelecer limites exatos para identificar o que vem da memória exata e o que, adubado por agrotóxicos de muita imaginação, não passa de frutas da estação. Verdade ao pé da letra é o que se vende na banca da Míriam Leitão. Aqui, nem o colunista sabe mais se na infância suburbana foi, de fato, salvo da espinhela caída pelo emplasto Sabiá. Pode ser que sim. Talvez não. Definitivamente, depois de alcançar a marca de um trilhão de palavras escritas, ele deixou de ser a melhor fonte para cravar se é verdade ou mentira o que lhe escorre pela ponta dos dedos.

De todos esses dribles o proprietário desta barraca de alhos e bugalhos é inocente, protegido pelas disposições da Associação Brasileira de Imprensa. Ele serve um sarrabulho semanal do jornalismo gonzo do Hunter Thompson, com as crônicas do Rubem Braga, os riffs dos Stones e as letras sacudidas do Geraldo Pereira. Mistura e manda. Há quem compre. Há quem ligue para o Pinel dos Leitores e reclame indignado, pedindo a volta urgente do Mauro Rasi.

Depois de um jornal inteiro impregnado de excesso de vida real, o colunista acredita na necessidade de mudar o papo, inventar outras histórias e encerrar o desfile das páginas com uma sensação de primavera entre as vírgulas. Ele foi criado ouvindo a Rádio Nacional e vê em cada palavra uma pílula de vida do doutor Ross, fazendo bem ao fígado de todos nós. Pode até maldizer o mundo, mas pretende fazê-lo com biotônico. Tem meia página para ir na esquina dar um banho de sol nas idéias ou recriar a luta de classes opondo Paul McCartney a John Lennon. Quase tudo lhe é permitido.

Aqui o desprezo à fonte é fundamental. Fala-se apenas com o umbigo. Paga-se mico, atira-se contra a lua. É a hora em que o maluco da redação enfeita de borboletas suas vãs filosofias ou joga a pá de cal em público sobre o grande amor que foi embora ontem pela manhã.

Ele cria personagens, sopra o barro sobre seres a que só ele pode dar vida. Faz e acontece com a permissão de seus superiores - só não tem o direito, ainda, como se fez aqui dias atrás, de matar, numa só linha, glórias vivas da música popular como Silvinho, Jorge Goulart e Lindomar Castilho.

Silvinho, cantor de "Esta noite, eu queria que o mundo acabasse...", pode ser visto entre Petrópolis e Teresópolis, onde mora.

Lindomar, cantor de "Nós somos dois sem-vergonhas", faz shows pelo interior de São Paulo.

Jorge Goulart, cantor de "Jezebel", teve um câncer na garganta, mas continua tão vivo que outro dia se casou pela segunda vez.

Diante da morte de Waldick Soriano, um dos maiores cantores brasileiros, o colunista, posto em desepero profundo, lamentou que partia o último de uma turma acostumada a abrir o jogo diante do microfone. Sim - canatava Waldick -, tinha sido abandonado, sofria, pedia de joelhos que ela voltasse e confessava, certo de ser compreendido por todo macho brasileiro, que a maior dor do mundo é amar sem ser amado.

Um mestre da emoção popular.
Em dito isso, sinceramente penalizado pela falta que sente de cantores dramáticos no meio do modismo cool de resgate da bossa nova, o colunista sepultou Goulart, Silvinho e Lindomar. Dezenas de leitores alertaram para o que, na gíria das redações, se chama barriga.

Isto aqui poderia ser uma enorme errata, uma retificação do mesmo espaço de uma informação equivocada. Seria um excesso de realidade num espaço que dedicam em suas edições ao mea culpa. É clássica nas redações a nota de um jornal paulista retificando que, diferentemente do publicado na véspera, Cristo morrera na cruz e não enforcado. Em geral, finge-se que ninguém viu.

Os grandes cantores românticos brasileiros ensinaram o colunista a confessar seus tropeços. Errei, sim, manchei o meu nome. Goulart, Silvinho e Lindomar estão todos vivos, graças a Deus. Mas o cronista pede desculpa mesmo é por ter embarcado no noticiário e se deixar levar pelas evidências da vida real que comandam as outras páginas. Aqui, onde não se mistura alho com bugalho porque é tudo parte da mesma música, um cantor como Waldick Soriano não deve morrer nunca.

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