NÃO SE FAZ MAIS CANTOR MACHO COMO ANTIGAMENTE
(Joaquim Ferreira dos Santos)
Aliás, esta coluna pode até não deixar claro o que é fato e o que é ficção, mas, diga-se a seu favor, nunca confunde alho com bugalho. Vive da certeza de que são a mesma coisa. Por uma questão de delicadeza para com a inteligência do leitor, apenas por isso, nunca se diz claramente aqui onde termina o alho e começa o bugalho. Perderia a graça servir pronta a garimpagem das palavras, todas curtidas no bimbalho, com o ouro separado do cascalho. Jorge Bastos Moreno percebeu primeiro e abriu aos sábados uma loja de "Nhenhenhém", certo de que há páginas em excesso dedicadas à realidade, essa senhora assustada, ajoelhada em direção a Wall Street - e foi aí que Moreno inventou seu mundo político paralelo, recheado de clones do Sarney e do Serra contracenando com Mariana Ximenes ao sol de Ipanema. Invejo-o na fartura de sua liberdade. Nada aqui é necessariamente o que parece, pois verossimilhança é palavra grande de mais para caber num balcão de cebolas em réstias e idéias em modéstias. Rima-se, delira-se, imagina-se. Leva-se a vida. Salve-se quem puder. Se é crônica ou reportagem, nada disso vem ao caso. Se o Tony Tripé da semana passada é um alter ego do colunista ou um personagem de fato da Praça Quinze, qual a importância de sabê-lo? O importante é tirar a roupa das palavras e deixar a semântica nuinha. Aqui jaz a preocupação de estabelecer limites exatos para identificar o que vem da memória exata e o que, adubado por agrotóxicos de muita imaginação, não passa de frutas da estação. Verdade ao pé da letra é o que se vende na banca da Míriam Leitão. Aqui, nem o colunista sabe mais se na infância suburbana foi, de fato, salvo da espinhela caída pelo emplasto Sabiá. Pode ser que sim. Talvez não. Definitivamente, depois de alcançar a marca de um trilhão de palavras escritas, ele deixou de ser a melhor fonte para cravar se é verdade ou mentira o que lhe escorre pela ponta dos dedos. De todos esses dribles o proprietário desta barraca de alhos e bugalhos é inocente, protegido pelas disposições da Associação Brasileira de Imprensa. Ele serve um sarrabulho semanal do jornalismo gonzo do Hunter Thompson, com as crônicas do Rubem Braga, os riffs dos Stones e as letras sacudidas do Geraldo Pereira. Mistura e manda. Há quem compre. Há quem ligue para o Pinel dos Leitores e reclame indignado, pedindo a volta urgente do Mauro Rasi. Depois de um jornal inteiro impregnado de excesso de vida real, o colunista acredita na necessidade de mudar o papo, inventar outras histórias e encerrar o desfile das páginas com uma sensação de primavera entre as vírgulas. Ele foi criado ouvindo a Rádio Nacional e vê em cada palavra uma pílula de vida do doutor Ross, fazendo bem ao fígado de todos nós. Pode até maldizer o mundo, mas pretende fazê-lo com biotônico. Tem meia página para ir na esquina dar um banho de sol nas idéias ou recriar a luta de classes opondo Paul McCartney a John Lennon. Quase tudo lhe é permitido. Aqui o desprezo à fonte é fundamental. Fala-se apenas com o umbigo. Paga-se mico, atira-se contra a lua. É a hora em que o maluco da redação enfeita de borboletas suas vãs filosofias ou joga a pá de cal em público sobre o grande amor que foi embora ontem pela manhã. Ele cria personagens, sopra o barro sobre seres a que só ele pode dar vida. Faz e acontece com a permissão de seus superiores - só não tem o direito, ainda, como se fez aqui dias atrás, de matar, numa só linha, glórias vivas da música popular como Silvinho, Jorge Goulart e Lindomar Castilho. Silvinho, cantor de "Esta noite, eu queria que o mundo acabasse...", pode ser visto entre Petrópolis e Teresópolis, onde mora. Lindomar, cantor de "Nós somos dois sem-vergonhas", faz shows pelo interior de São Paulo. Jorge Goulart, cantor de "Jezebel", teve um câncer na garganta, mas continua tão vivo que outro dia se casou pela segunda vez. Diante da morte de Waldick Soriano, um dos maiores cantores brasileiros, o colunista, posto em desepero profundo, lamentou que partia o último de uma turma acostumada a abrir o jogo diante do microfone. Sim - canatava Waldick -, tinha sido abandonado, sofria, pedia de joelhos que ela voltasse e confessava, certo de ser compreendido por todo macho brasileiro, que a maior dor do mundo é amar sem ser amado. Um mestre da emoção popular. Isto aqui poderia ser uma enorme errata, uma retificação do mesmo espaço de uma informação equivocada. Seria um excesso de realidade num espaço que dedicam em suas edições ao mea culpa. É clássica nas redações a nota de um jornal paulista retificando que, diferentemente do publicado na véspera, Cristo morrera na cruz e não enforcado. Em geral, finge-se que ninguém viu. Os grandes cantores românticos brasileiros ensinaram o colunista a confessar seus tropeços. Errei, sim, manchei o meu nome. Goulart, Silvinho e Lindomar estão todos vivos, graças a Deus. Mas o cronista pede desculpa mesmo é por ter embarcado no noticiário e se deixar levar pelas evidências da vida real que comandam as outras páginas. Aqui, onde não se mistura alho com bugalho porque é tudo parte da mesma música, um cantor como Waldick Soriano não deve morrer nunca. |
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