Joaquim Ferreira dos Santos
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Era como se fosse um membro da família, sempre no meio da sala, iluminando a tudo com o halo branco de sua simplicidade genial. Eu jamais poderia imaginar que estivessem tramando contrasua pacata existência. Gráfica, arredondada como uma Marta Rocha, não aborrecia ninguém. Fazia o seu. Esparramava-se por todos os cômodos da casa sem empáfia. Servia. Era do bem, e gostava de deixar tudo às claras, para que o pão fosse visto como pão, e o queijo, como queijo. As coisas do mundo ficavam mais compreensíveis com a sua presença básica, um elemento de absoluta majestade que se confundia até com o texto bíblico, pois no início de tudo Deus fez a luz. Viu que era boa e que ela iluminava a mesa sobre a qual se faziam as refeições, e isso era muito bom. Depois, ela se pagava humilde quando sobre algum casal se instalavam as necessidades prementes do amor, e isso então era uma loucura. Infelizmente, eis que se instaura o apocalipse decorativo, e cumpre-se o dever de informar que esta figura fundamental na vida de todos já não habita entre nós. Abriu nova edição da mostra Casa Cor, com ambientes desenhados dentro da mais moderna sofisticação. Foi lá que a ausência dela iluminou a constatação. Apagaram um dos pilares da civilização. A lâmpada do centro da sala morreu. Os arquitetos já haviam acabado com a pia arredondada (eles detestam curvas), aquela em que os avós escovavam os dentes dos netos, e depois todos assistiam, fascinados, ao redemoinho barulhento da água. A pia ficou reta, o ralo, escondido num canto para que ninguém veja o movimento das águas na pressa selvagem rumo aos subterrâneos da existência. Depois, os arquitetos quebraram as paredes, essas fortalezas que embalavam o morador com a sua simulação do útero materno e tornavam as casas espaços diversificados, o quarto do irmão, o escritório do papai, a cozinha da mamãe. As paredes davam aconchego e segurança. Foram-se também. O apartamento virou um imenso loft sem intimidade, a versão Big Brother que a arquitetura criou para o antigo lar, doce lar. Você está sendo visto o tempo todo. O loft deixa que a visita entre pela sala e dali, da porta, ao primeiro cumprimento, já veja até a banheira dos anfitriões. De vez em quando, tão simbólicas são essas coisas, as lâmpadas, tão próximas às nossas vidas, morriam — mas imediatamente tocava na cabeça do brasileiro o jingle sorridente: Foram-se os verbos como estrilar, foram-se os jingles, os intervalos dos programas de rádio em que eles tocavam, mas, sejamos justos, dessas perdas os arquitetos e decoradores são inocentes. Em seus prontuários, além das investigações instauradas acima, como o extermínio da pia e a derrubada das paredes, estão as mortes dos tacos de madeira, tão acolhedores, sensuais, e a troca pelas placas brancas de cimento, que combinam com propaganda de leite em pó, mas não trazem calor humor à alma dos moradores. O cimento que invadiu o chão dos novos ambientes fica lindo na imagem em HD, mas não tem carinho pelo ser humano. Zero de memória afetiva. Não esquenta o pé no chão de madeira que serviu de plataforma para nossos antepassados. No boletim de ocorrência em que são acusados pela morte das lâmpadas tradicionais, essas inocentes tão úteis, os arquitetos da Casa Cor aparecem no local do crime trocando a vítima por luminárias. São versões contemporâneas dos candelabros italianos. Verdadeiras esculturas de luz, dignas dos melhores palcos teatrais da cidade, elas dificultam o que de início era só um clique, e se fazia o sol dentro de casa. A Humanidade era prática. Na nova Casa Cor não há qualquer cômodo iluminado por arranjos com menos de dez lâmpadas. São luminárias capazes de figurar nos livros de design, mas que necessitam de um manual de instruções e equipe doméstica dedicada apenas à sua conservação. Como viver em paz se sobre sua cabeça reina, num exemplo tirado da mostra, uma luminária feita de 15 lâmpadas e dezenas de taças de vinho? Desligar a lâmpada é apagar o inconsciente coletivo do brasileiro. Eu me lembro da lâmpada no centro da sala e imediatamente ouço Adoniran Barbosa cantando “As mariposas quando chega o frio/ Ficam dando volta em volta da lâmpada pra se esquentar (...) Eu sou a lâmpada/ E as mulé/ São as mariposas”. Está chegando o verão, o momento em que nossas mães pegavam a bacia cheia de água, subiam na cadeira e tentavam fazer com que os cupins da estação mergulhassem e deixassem de azucrinar, outro verbo que se foi, a lâmpada e o resto da família na hora do jantar. Para onde vão as mariposas? E os cupins voadores do verão? Quem demoliu a casinha br anca lá na Marambaia e botou abaixo a trepadeira que na primavera ficava florescida de brincos-de-princesa? Modernizem, OK, mas deixem algum taco de Parquet Paulista para contar a história, alguma dobradiça de porta rangendo para a gente lembrar a casinha pequenina onde nasceu o nosso amor de morar ao estilo brasileiro. Foram-se as passadeiras de linóleo, as portas com tramela, as janelas de gelosia, as sancas, as ancas, e junto com tudo isso o mingau de Maizena, a enceradeira GE, o abajur lilás, o criado mudo, o sofá-cama Drago,o avental todo sujo de ovo, o rodapé, a máquina de costura Elgin, o azulejo onde estava escrito que era um lar, o fogão Jacaré, a toalha que parecia linho mas era Linholene, a imagem de São Jorge entre as plantas na varanda e as cadeiras na calçada. Fiquem com tudo que é moderno, viva a Casa Cor! Mas eu quero a lâmpada no centro da sala e, junto com ela, as mariposas que me são de direito. Fonte: Jornal O Globo |
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Saiu do filme de Woody Allen, pegou um táxi e encontrou Noel Rosa Eu saí impressionado do filme do Woody Allen sobre os mistérios deflagrados pelo relógio da meia-noite em Paris. Peguei um táxi e, sem que eu dissesse nada ao motorista que fumava um cigarro Veado, acabei na mesa de Noel Rosa, no Danúbio Azul, na Lapa. Fui sincero. “Você não acha”, desabafei brincalhão, “que é uma injustiça o Xexéo ter dito que eu só escrevo nostalgias?”. Noel fez o discreto e pediu para ser colocado fora dessa. Já estava em meio a uma pendenga com um tal de Wilson Batista — e me apontou com o queixo o gajo na mesa dos fundos, um sujeito que chegava justo naquele momento, arrastando o tamanco, chapéu de lado, navalha à vista. Pediu que eu mantivesse o malandro à distância com o canto do olho. Expliquei ao grande sambista o filme do Woody Allen, o meu desejo de ter vivido ali na Lapa da década de 30, em meio aos compositores dos anos de ouro da MPB (“ahn?”, ele estranhou quando ouviu a sigla). Noel comentou alguma coisa sobre o cinema falado, que garantiu ser o grande culpado de outras confusões. Não conhecia o Xexéo. Dos cronistas, o seu preferido continuava sendo o saudoso João do Rio, que Deus o tivesse em seu cadilaque e suas roupas de dândi. Noel bebia um vermute em companhia de uma dama de cabaré. Estava de terno branco. Disse que, de lutas, não entendia abacate e que seu alfaiate não fazia roupa para brigar. Eu ri. Chico Alves, que estava comprando um samba do Ismael Silva na mesa ao lado, também caiu na gargalhada, num dó maior afinado. Era meia-noite na Lapa dos anos 30, aquela que Luis Martins iria chamar de “a Montmartre carioca”, e eu achei que o táxi tinha me trazido ao lugar certo. Noel sentiu pela reação da plateia que a rima do abacate com alfaiate era boa e pediu: seu garçom, faça o favor. Que lhe trouxesse um lápis. Anotou a frase nas costas de um maço de Liberty Ovais. Eu quis ser engraçado e disse que em matéria de luta também estava mais para Tarzan depois da gripe. Senti que ele gostou. Discretamente, anotou “Tarzan, o filho do alfaiate” no alto do papel. Se por um canto do olho eu mantinha Noel a salvo de Wilson Batista, pelo outro vi que Portinari entrava em cena por uma das portas do Danúbio Azul. O pintor cumprimentou de passagem uma mesa onde estavam Jaime Ovalle, Orlando Silva e Villa-Lobos. Cantavam a marcha da “Baratinha”, de Orlando. Riam. Noel Rosa desculpou-se, mas precisava ir. Recomendou baixinho que eu desse uma volta na Lapa, fosse conhecer a mulataria da Rua Morais e Vale, que julgava superior às polacas da Joaquim Silva. “É o que temos”, lamentou, desdenhando do meu apreço pelos anos 30, “isso aqui era bem melhor nos anos 20.” Elegantemente fez com que eu me sentasse à mesa com Benjamim Costallat no momento em que o cronista escrevia a frase “O bairro da cocaína estava naquele momento em plena efervescência”. Fiquei sem jeito de interromper e disse-lhe que já tinha lido aquela frase. Ele não pegou a brincadeira. Sorri por dentro. Pela porta do Danúbio, vi que na rua passava Di Cavalcanti abraçado com uma negra de dois metros. Parecia a Marina Montini, mas ainda não era. Eu vi Mário de Andrade no Siri com um marinheiro que marcava o ritmo de um foxtrote batendo com o cinto na cadeira; eu ouvi Sinhô telefonando no Café Bahia; eu perguntei o preço a Chouchou na porta do Royal Pigalle. Quando passei por Mário Lago ele conversava com Dorival Caymmi. Ouvi que o primeiro contava diatribes acontecidas com uma tal de Amélia enquanto o outro, atordoado pelo barulho das prostitutas ao redor, perguntava de volta: “Anália?” Era a Lapa real, sem nostalgia, aquela a que o táxi na saída do filme do Woody Allen tinha me levado. Custódio Mesquita toca “Mulher” ao piano, na rua fechada em frente à Leiteria Bol. Na calçada do Cabaré Brasil Dourado, jaz assassinado por um concorrente o leão de chácara Meia-Noite, um sujeito que até ontem eliminava os desafetos aplicando golpes aprendidos nos westerns do cinema. Na roda de prostitutas e malandros aberta ao redor do corpo, Miguelzinho da Lapa, campeão sul-americano de capoeira, vela o corpo do amigo. De longe, tomando um gole de guaraná, Assis Valente assiste. Parece deprimido. Deixei a tristeza de lado, passei pela porta da Gruta do Frade, do Viena Budapeste, do Tabu, do Brasil Dourado, do Primor, do Royal Pigalle, do Casanova e dos pastéis do Adão. Resolvi tomar um traçado no Novo México, na Mem de Sá, onde naquele momento Aracy de Almeida começava a cantar “Feitiço da Vila”. Estava tudo bem — Pixinguinha deu uma canja, Marques Rebelo tomava notas para um artigo —, quando um mulato de camisa listrada entrou correndo pela boate. Foi parar no palco, ao lado de Aracy, a quem pegou como refém para se proteger do pelotão de policiais que o perseguia. Nesse momento, o táxi, que eu havia pedido pelo celular, buzinou na porta — e eu saí correndo, antes que subissem os créditos da magia cinematográfica de uma meia-noite na Lapa. Fonte: Jornal O Globo |
Um cronista de segunda não é a pessoa mais indicada para fazer coro aos cultos e juntar sua pena na crítica ao livro do MEC que autoriza a garotada a chutar a gramática de bico, de chapa, do jeito que a bola rolada por Camões se lhe ajustar melhor no pé, quer dizer, na língua. Um cronista é um sujeito que toma certas intimidades com as camareiras que cuidam do vernáculo e depois, cotovelo no balcão, vive repetindo Mário Quintana, dizendo aos amigos que outro dia uma palavra tirou a roupa e ficou nuinha pra ele. O cronista frita um ovo com as vírgulas, que vai cortando como se fossem cebolas pelo caminho das orações. Quando algum revisor aparece pedindo mais respeito, menos anacoluto, ele aproveita o livro do MEC para escrever um bilhete se dizendo “ma-gu-a-do”. Diz que foi por aí, levando um violão, e chuta com estardalhaço o balde de aço com as normas de redação. Um cronista quer mais que o texto corra solto como um papo de botequim, como um olho vadio que se prega no rebolado de alguma dona e vai seguindo solto, pelo meio da rua, sem agregar valor ao panteão literário e muito menos tecer louvação de mérito semântico aos paralelepípedos sobrepostos pelos polissílabos proparoxítonos advindos do charivari das mesóclises. Um cronista gosta de fingir que não tem compromissos com o certo e o errado que movem a seriedade dos artigos nas outras páginas. Anda de bermudas pelo pátio dos verbos, zoando das concordâncias de cartola que o espreitam pelas frestas das janelas, todas muito branquelas e invejosas da liberdade que ele tem em se locupletar ao sol pagão com as carnes suculentas do verbo popular.
Um cronista é um gato vadio espapaçado à sombra da varanda da Academia Brasileira de Letras. Seu compromisso é com o prazer. Ele está para o corpo do jornal como os meninos jogando as bolinhas na frente dos carros, apenas um momento de mágica enquanto o sinal não abre, e a vida séria das notícias volta a escorrer pelos vidros. De vez em quando o cronista deixa cair uma bolinha, tropeça numa crase. Não se abate. Ele deseja que todas as normas consideradas adequadas e peremptórias no uso da língua tenham uma boa afta e se explodam — mas ele não repetiria tal na frente das crianças em idade escolar. No início era o verbo, diz a Bíblia, e ele vinha sendo conjugado com a concordância certa até que chegou essa tentativa do MEC de reescrever o apocalipse.
O bom professor sabe que primeiro você fica de pé e aprende a andar. Um pé é esticado para a frente e em seguida serve de apoio para o que ficou atrás faça o mesmo movimento de avançar. Alguém ensinou isso ao bebê Neymar, que depois cresceu, se aborreceu de caminhar sempre do mesmo jeito que o resto da Humanidade e resolveu fazer ao seu jeito. Em cima do repertório de passos gramaticalmente corretos que lhe ensinaram, inventou passadas, pedaladas, dribles e calcanhares impossíveis de serem perseguidos pelos outros — e reinventou a linguagem do futebol. Manuel Bandeira fez as poesias mais românticas do parnasianismo para em seguida, maduro, mandar às favas os rigores das rimas e dizer que estava farto do lirismo-funcionário público. Cansado das métricas, dos sentimentos sob controle, Bandeira vestiu a camiseta do Bloco dos Modernistas e passou a pedir a liberdade de uma prise de lança-perfume no céu da boca. Pintou-se de 22. Queria a farra estupefaciente de todos os barbarismos universais.
Eu não diria isso numa sala de aula para menores de 18 anos, como estão fazendo os professores que usam o livro “Por uma vida melhor”, arauto patrocinado pelo MEC para a perversão de que não há mais certo ou errado no uso da língua, mas adequado ou inadequado. Eu calaria a ofensa. Seria abuso de menores.
A escola deve fazer a parte dela, colocar o pensamento do aluno em pé, e a melhor maneira de fazer isso é ensinar a norma, o rigor da linguagem padrão sobre o qual se constrói um país. Os bons mestres podem até sugerir como contraponto a audição do caipira italianado de Adoniram Barbosa, o sambista genial do “nós num se importa, Ernesto, mas você devia ter ponhado um recado na porta” — desde, é claro, que sublinhem o caráter humorístico dos versos e os liberem apenas aos que queiram soltar a voz na pândega de uma roda de samba.
Um cronista de segunda, apenas um gato de pelo curto brincando com as sobras do prato de semântica ensopada que lhe atiram os cultos, não é a melhor pessoa para pedir aos professores que tenham mais pudor na frente das crianças. Que acertem a língua com as necessidades nacionais de se colocarem os verbos em ordem, com a concordância certa, na cabeça de seus alunos. Ensinar compulsoriamente “nós pega o peixe”, como admite a nova cartilha lida na frente do quadro-negro, é mais pornográfico que os catecismos de Carlos Zéfiro que o cronista folheava, por livre e espontânea falta do que pensar, nos fundos da classe. Eu pediria mais pudor aos novos mestres. Fernando Pessoa foi despedido de uma agência de publicidade ao fazer para a Coca-Cola o slogan “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Pode soar mal para um refrigerante, que precisa ser agradável desde o início, mas serve para o aprendizado da língua. Primeiro estranha-se, com a inevitável dificuldade que requer o rigor de uma boa educação. Depois entranha-se pela vida afora o imenso prazer de, sabendo as regras do jogo, brincar com o texto. Um cronista de segunda, gato vira-lata da vida literária, mete a língua onde não é chamado e passa o dia lambendo as palavras, as cultas e as das calçadas, na frente de todo mundo. Nem aí ao que vão pensar. Gato sem dono, o cronista mostra os dentes quando querem lhe colocar a coleira da ordem vernacular. Ele quer ter a liberdade de fazer ao seu jeito. Coçar um adjetivo, morder as partes de um verbo composto, bocejar diante de um advérbio e balançar o rabo para uma expressão oral, gostosa, que não via há muito tempo na sua rua — mas ele não diria isso para crianças numa sala de aula. Mexer com a língua de um lado para o outro, principalmente para o errado, é diversão adulta. Fonte: Jornal O Globo |
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Há uma cidade inteira querendo brincar de novo o carnaval, disposta a inventar as fantasias mais malucas, passar o constrangimento de fazer xixi no meio da rua e, como praticavam seus antepassados, voltar a soltar a franga. Esqueceram da trilha sonora. Se antes havia compositores da pesada ajudando a festa com canções geniais, agora ninguém pensa mais no assunto. Carnaval não é só uma latinha de cerveja na mão, banheiro químico entupido e choque de ordem careta. Falta o texto cantado que dê a liga, a música que diga nessa onda que eu vou e faça todo mundo pular porque uma nega maluca, que vinha jogando sinuca, espalhou o pó de mico no salão. Falta ao tríduo momesco, nosso mais lindo clichê festivo e agora redivivo, a música que ponha o folião em marcha para a apoteose da grande alegria. Urge um novo Braguinha, e que de preferência ele não tenha nada a ver com o velho João de Barro, mas faça o básico. Ponha a multidão para gritar a felicidade moderna de brincar novamente o carnaval de sempre. Festa sem música não existe. Os mijões são lamentáveis, sem dúvida, as autoridades não tomam jeito, como sempre, e só no Brasil mesmo uma festa basicamente de jovens é patrocinada por uma cervejaria. Leva tempo, mas dá-se um jeito nessa canalha. O problema do novo carnaval do Rio é não ter uma música que fale dos costumes, sacaneie os políticos e dê um refrão que ajude a paqueracom o papo de hoje. Deve haver, passado tanto tempo, uma terceira opção para lugar quente além da cama e do Bola Preta. São quas 500 blocos oficializados, será que nenhum deles tem um compositor que exalte as suas glórias, admire o umbigo de suas fantasiadas, e espalhe a novidade pela cidade? Deve haver um lugar mais moderno para se passar os muitos dias da festa do que o deserto do Saara onde há quase um século o sol está tão quente que sempre queima a nossa cara. Ninguém reclama mais disso. Depois do bloqueador solar só queima a cara quem quer. Falta música. Pode ser muito divertido cantar a mulata bossa nova que caiu no hully gully, mas essa senhora está morta faz tempo e esse hully gully ninguém sabe mais dançar. É preciso um novo compositor, uma nova maluquicecantada que bote os olhos em cima dessas garotas coxudas das academias, nessasoutras siliconizadas das clínicas, e exalte a delícia de todas com a dicção dos tempos. A alegria do carnaval não é a lata de cerveja. É a música. Pode-se pedir alguma coisa do funk, dos gritos das torcidas ou seguir na carona dos refrãos das marchinhas que formataram a espécie carnavalesca. Só não pode é uma multidão, louca para ser feliz, andar em silêncio pelas ruas, como se estivesse numa passeata, mas sem causa para gritar, achando que carnaval é atravessar a Vieira Souto enchendo a cara e não tendo onde se aliviar depois. Falta uma palavra de ordem musical, uma voz que se levante coletiva e, como num show de rock, como no entorno dos coretos de antigamente, faça todos comungarem da mesma vibração. Os baianos inventaram o trio elétrico, uma máquina de música que acabou se encaixando em suas tradições e virou um espetacular lançador de sucessos para todo o país.A música é discutível, mas o que se quer nessahora é gandaia, o império do bonde sem freio, e o melhor mesmo pode ser um “rebolation” qualquer que tire o sujeito do sério. O Rio, talvez intimidado pela lembrança dos seus Kellys e Lamartines geniais, parou de produzir música para o carnaval, e o resultado é esta multidão fantasiada que tenta ir em frente sem muita convicção, embalada pelas marchinhas antigas. Nada contra elas, ótimas em blocos que começaram com a recuperação milagrosa de um carnaval que tinha acabado. A retomada da festa passou dessafase. Foi bom para todo mundo. A cidade deixou de colocar o carro na estrada e ficou aqui mesmo, brincando feliz. Como lhe é de espírito e tradição, se refez mais uma vez. O
Rio é fogo na roupa, e fazer festa é conosco mesmo —
mas se no futebol tem música, se na Sapucaí, nos pagodes,
nas igrejas e nas casas noturnas também, o carnaval está
sendo feito sem ela. Os outros ingredientes estão prontos.
O cenário é lindo, o incentivo ao álcool é
oficial e a liberdade comportamental das novas gerações,
irresistível. Falta aquele compositor popular, numa terra que
foi quase toda erigida partir do talento deles, para traduzir em melodia Qual é a versão atual do pierrô chorando pelo amor da colombina no meio da multidão? Os mais cínicos vão dizer que a música era só um artifício para o sujeito sem imaginação levantar os braços, chegar no broto e, cantando, dizer “Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”. Não se precisaria mais de texto para beijar ninguém, e os mais moralista poderiam neste momento falar da cena triste do rapaz que vai pela avenida, esbarra na garota, beija-a por alguns minutos, e depois cada um segue para um lado sem uma palavra. Será que, contra ou a favor, essas histórias não dão um samba para cair, entre um gole e outro da latinha, na boca do folião? O carnaval se reinventou, num daqueles movimentos que fazem a glória do Rio, e por mais que as cartas dos leitores reclamem dos mijões, das ruas fechadas, isso é assunto para outra editoria. A festa é inevitável e esta cidadesem grandes filósofos, sem grandes fábricas, foi construída em cima desta verdade. Festeja-se a vida, a felicidade de estar aqui e a capacidade de renovação. A próxima tarefa é reinventar a música de carnaval e dar a liga elétrica para que a passeata dos blocos vibre o Rio com uma nova tradução para o grito, que já devia estar na bandeira da cidade, de “quanto riso, ó, quanta alegria”. |
OS FALTARES Pisaram no pé dele, e o homem do metrô sente falta dos xerifes nacionais Alguém deve ter pisado no pé dele, e foi o gancho para o homem no vagão do metrô começar seu discurso dizendo que por isso o Brasil não ia pra frente. Falta um Figueiredo, que prende e arrebenta, gritou. Faltava educação, faltava compostura e, vou dizer mais, reiterava o homem do metrô como se em algum momento fosse puxar do santinho para se apresentar em campanha, falta tirocínio e, apontando para a cabeça, falta maxilar. Era um homem dos seus 50 e poucos, de sotaque nordestino e muita indignação por terem pisado seu pé sem pedido de desculpas. Faltava um Clodovil, mais macho que muitos aí, para dar modos aos cidadãos. Falta um David Nasser pra por na cadeia os pedófilos da mesma maneira que ele fez com os matadores da Aída Curi. Falta um Rui Barbosa, baiano cabra da peste que colocou na porta de casa em Londres uma tabuleta com o aviso "ensina-se inglês aos ingleses". Aquilo, sim, era autoridade intelectual, vibrava o homem no metrô que tinha tido o calo pisado por alguém e a partir dessa dor faz um exercício de sociologia nostálgica sobre o abandono do brasileiro. Falta o Felipão para entrar duro e dizer aqui não, alemão. Fica esse pessoal da Fifa vindo aqui ensinar como se faz futebol e pororó pão duro e coisa e tal, como se o brasileiro matasse estrangeiro no metrô. Faça-me o favor. Falta alguém que diga comigo não, violão, e mande essa turma pentear macaco, tirar os mineiros lá do fundo da terra, como se a gente é que matasse o Michael Jackson com os psicorotrópicos. Falta tutano, ó, óleo de babosa, e novamente o homem do metrô apontava para a cabeça de cabeleira farta. O homem do metrô tinha uma lista enorme de faltares nacionais e a Linha Um seria pequena para ele relacionar todos. Faltava elegãncia, um chapéu na cabeça para quem lhe pisara os pés tirar e dizer, desculpe, moço, foi sem querer, e faltava também o Newton Cruz, aquele general maluco que saiu dando com o cassetete nos carros enquanto gritava "está preso, está preso". Falta a vassoura do Jânio pra varrer os corruptos. A culpa é do povo que vota mal e matou Carlos Lacerda com os mendigos do Guandu, continuou o homem do metrô, e nada lhe era obstado. Dizia o que bem queria, tumultuando os fatos e personagens da História com a mesma naturalidade que passavam as estações. Ninguém sabe mais por que o Largo do Machado tem esse nome, afirmava, fazendo pausa para alguém se apresentar com uma resposta, mas os outros passageiros fingiam não ouvir o homem que soltava o verbo, trancado num vagão do metrô. Todo mundo acha que é por causa do Machado de Assis, mas ele morava lá em cima no Cosme Velho, não tem nada a ver. O Machado do largo não era com letra maiúscula, era um machado mesmo que tinha em cima de um açougue, quatro séculos antes do Assis ter nascido. Pergunta se algum candidato a vereador sabe disso, tentava mais uma vez o homem do metrô provocar a interação com as outras pessoas. Como ninguém se mexia, ele voltou a prantear as faltas no panteão nacional, gente como o policial Mariel Mariscott, o becão Moisés e a jurada Araci de Almeida, personagens que, segundo ele, matavam, entravam de sola e diziam as verdades, atitudes que dariam um jeito nesse estado de coisas frouxo que está por aí. Falta a mão pesada do Ted Boy Marino nos cornos dessa bandidagem. Lembro dele ter falado da falta que fazia o Haroldo de Andrade e das lições do apresentador toda manhã no seu Debates Populares pela Rádio Globo. Falta taquicardia, ele foi em frente, ali pela estação Cinelândia, falta alguém para sentir o pulso do que quer a população. Falta um Pedro de Lara pra dizer na lata o que acha do calouro e mandar, meu filho, vai cantar em outra freguesia. As autoridades constituídas não respeitam mais nem o sigilo do contribuinte, e entram-e-saem nas contas dos outros da mesma maneira que pisam no pé da gente no metrô e fica por isso mesmo. Falta o delegado Nelson Duarte pra investigar, falta o inspetor Bellot. Os americanos estão saindo do Iraque e vão acabar invadindo isso aqui porque já notaram, falta macho cabra da peste. Ninguém dá um pio pro descalabro geral com o dinheiro público. Falta um Amaral Neto para se orgulhar do Brasil e mostrar nossas riquezas. Falta trazer o Projeto Rondon de volta, o Mobral, e falta também o Coronel Fontenele pra furar o pneu do safado que estacionar em lugar não permitido. Falta consideração com a ordem pública, continuou a desabafar o homem do metrô, indicando às vezes a ponta do pé para ilustrar a indignação cívica que lhe subia para a ponta da língua e movia o desabafo. Isso virou uma terra de ninguém, e sabe de quem foi a culpa? Do Cabral. Ele achou que a Baía de Guanabara era um rio e tacaram lá, Rio de Janeiro. Pau que nasce torto não tem jeito. Se o Brasil começou errado, vituperava cada vez mais indignado o homem no metrô, tem que acabar errado, que é como tá isso hoje. Falta um delegado Padilha, que jogava um limão por dentro da calça do malandro e mandava prender se fosse boca estreita, coisa de playboy energúmeno e sem moral. Ele não deixava essas pulseirinhas do sexo, prendia no primeiro capítulo esse tarado da novela, o Gerson. Falta o Tenório Cavalcanti, falta o Flávio pra quebrar os discos ruins, gente que colocava respeito, e não essa bagunça. Não se investe mais em educação, como fazia o Álvaro Vale, é só ignorância, só carrinho por trás e pisão no pé de quem não machucou ninguém, afirmou o homem do metrô, saltando na estação Praça Onze quando faltavam 15 minutos para o meio-dia da quinta-feira passada. Autor: Joaquim Ferreira dos Santos |
O COMPOSITOR POPULAR Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor, quero passar com os meus quereres, podres poderes e com o conselho para todos verem "Palavra (en)cantada", filme de Helena Solberg sobre as relações da poesia com a música popular brasileira. Como dois e dois são cinco, não tem erro aqui também. Um filmaço. É um documentário sobre o melhor deste rancho fundo, um país cada vez mais para cá do fim do mundo, onde o carcará está pegando geral. Helena deu um viva! ao compositor popular. Ela filmou um viva! ao único lugar onde Orestes Barbosa poderia pegar do violão e chegar à conclusão - moreno, eu te dou grau dez! - de que a lua é gema de ovo no copo azul lá do céu. Fê-lo bem. Os senadores não valem nada, mas os letristas são demais. Eles pisam os astros distraídos, iluminam mais a sala que a luz do refletor, botam o bloco na rua e, quando abrem seus cadernos Moleskine, eles fazem um novo país. Inventam a mulata bossa-nova, o moreno de camisa listrada no turbilhão da galeria, a rainha do frevo, do maracatu, e a lourinha dos olhos claros de cristal. São esperançosos e distribuem esse fruto maravilhoso. Sabem que, enquanto o tempo não trouxer abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão. Da árvore deles sempre vem algum alimento. As letras da MPB são o pau, são a pedra, são o início do caminho para quem gosta de palavras se mexendo. Eis o meu caso. Eu gosto que me enrosco de ouvir dizer "bigorrilho", "maracangalha", "analfomegabetismo", "pó pará com o pó" e, por isso, peço atenção para o refrão. Eu li Lobato, depois devorei Rubem Braga, depois Machado, Graciliano, Rubem Fonseca e agora Cristóvão Tezza. Gênios das letras cultas, para serem lidos em silêncio sob a luz do abajur lilás. Antes de todos, porém, li os letristas da MPB e a eles aqui presto meu preito. Aprendi as primeiras letras com os lamartines das marchinhas, professores capazes de decifrar conhecimentos do mundo e dizer, bem explicadinho e com humor, que quem inventou o Brasil foi seu Cabral, dois meses depois do carnaval. Depois aprendi com os caetanos tropicalistas, finos meninos do lado do sim, a perceber beleza quando "seus peitos direitos me olham assim". A letra de música foi o meu primeiro passo em direção aos "Lusíadas" e aos "Sertões" - e é mais ou menos isso, se eu entendi certo, que "Palavra (en)cantada" diz acontecer com a maioria dos brasileiros. Não temos grandes orgulhos pátrios. Inventamos a bicicleta do Leônidas, o drible da vaca do Pelé, construímos Brasília, alimentamos as duas polegadas a mais de Marta Rocha, amulatamos o rebolado da branquela Gisele Bündchen e temos esse visual inacreditável que, quando o assaltante faz o favor de sair da frente, está sempre disponível na janela do carro. Paira, acima de tudo, uma música espetacular e, no meio dela, um ajuntamento de gênios dedicados a escrever letras. Manuel Bandeira dizia que "Tu pisavas os astros distraída", de Orestes Barbosa, era o mais belo verso de toda a poesia brasileira. Vinícius de Moraes não cansava de citar seu preferido "Tens um olhar/ que me consome/ por caridade, meu bem/ madiga seu nome", de Ismael Silva. Paulo Mendes Campos destacava Noel Rosa, que na letra de "A cor de cinza", um samba pouco divulgado, tascou "A poeira cinzenta da dúvida me atormenta". Uma conversa sobre o mais bonito verso da música popular brasileira é, tamanha a possibilidade de escolha, uma conversa tão interminável quanto saber, se Paul ou John, quem era o melhor dos Beatles. Há quem cite Chico Buarque de Holanda, autor do belíssimo "Se na bagunça do teu coração/ Meu sangue errou de veia e se perdeu..." Eu votaria em "Você é meu caminho/ meu vinho, meu vício/ desde o início estava você", embora não estivesse mentindo se em seguida riscasse a frase e colocasse em seu lugar o "Rapte-me/ adapte-me/capte-me/ it's up to me, coração/ser/querer/merecer ser/ um camaleão", do mesmo Caetano Veloso. O filme de Helena Solberg passeia por dezenas dessas opções, explica algum Olavo Bilac que aparecia nas letras de Cartola e outro tanto dos modernistas nos refrões das marchinhas. Principalmente, deixa que Chico, Adriana Calcanhoto, Tom Zé, Lenine, AnTõnio Cícero, Martinho da Vila e Arnaldo Antunes revelem como fazem suas bandas passar, de onde surgem seus cariocas que não gostam de sinais fechados. O filme explica como foi se formando no país uma tradição de compositores tão notáveis que um dos tópicos mais recorrentes para animar conversa de botequim é o clássico "Seria poesia a letra de música?" - e neste momento sempre entra o chorrilho delicioso de exemplos para justificar o sim. (A propósito, eu quero dizer agora o oposto do que disse antes e votar, como os mais belos versos da MPB, em "Tu és divina e graciosa/estátua majestosa do amor/ por Deus esculturada".) Isto aqui é um pouquinho do país que inventou o drible "pedalada" e o verso "Reconhece a queda e não desanima/ levanta/ sacode a poeira/ dá a volta por cima". É o país que deu artefinal à sandália havaiana e escreveu, como se as palavras também estivessem rebolando o "olha que coisa mais linda / mais cheia de graça". Se o Lula é mesmo "o cara", como diz Obama, tenho minhas dúvidas. Autor: Joaquim Ferreira dos Santos |
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