DELIVRANDO

LUIZ GARCIA

Muita gente parece achar que a última flor do Lácio além de inculta e apesar de bela, como Bilac a descreveu, é pobre demais: precisa de injeções freqüentes de outros idiomas, de preferência o inglês.

São aqueles que nunca estacionam seus carros: parqueiam-nos. Suas amadas jamais têm encantos: são cheias de glamour. Emoções são trips, e o pessoal fica down em vez de deprimido, o que não é nada o.k. Uma turma, sem dúvida, muito over.

E quem entende a nossa importação dos billboards americanos (anúncios em grandes cartazes ao ar livre), batizando-os de outdoors?

Combater as importações bobocas ou simplesmente desnecessárias não é simples. Existem as necessárias.

Nenhum vocabulário é imutável, fechado. Toda sociedade absorve experiências e criações de outros povos, e nem sempre dispõe de expressões que definam as novidades necessárias. Muitas vezes, é preciso adotar simultaneamente o termo e a atividade ou a coisa.

Não há nada errado em surfar e andar de skate - este, mesmo sem ter virado esqueite, diferentemente do esqui. Ou comer uma pizza, tomar um saquê. E seria insensato rejeitar o bar dos igleses ou a sauna dos finlandeses (embora tenhamos tomado a liberdade de chamar de sauna também o banho turco).

Enfim, é tão importante zelar pelo nosso vocabulário como não rejeitar aquisições indispensáveis ou obviamente convenientes.

A importação de palavras é indispensável quando trazemos pra o dia-a-dia algo de novo. Quando o futebol veio da Inglaterra, trouxe na bagagem o córner, o gol, o pênalti, o chute. O zagueiro fomos buscar, sabe-se lá por quê, da Espanha.

Dos Estados Unidos adquirimos o motel, e não mudamos o nome mesmo quando especializamos sua finalidade: lá, motéis não são usados só pra encontros amorosos, como aqui. Há um caso estranho: aportuguesamos o knock-out inglês, transformando-o em nocaute, mas preservamos a abreviatura "KO". Vá-se entender.

A regra deveria ser óbvia: importar o indispensável, por sê-lo. E evitar a frescura de usar expressões estrangeiras gratuitamente. Há óbvia diferença entre aceitar um termo sem equivalente nacional e trazer outro, que tem apenas o suposto encanto (não o charme, claro) de tornar a comunicação mais sofisticada ou elegante.

Ressuscito este arrazoado provocado por praga recente: o Rio (ou o Brasil inteiro, sei lá) está cheio de estabelecimentos que entregam compras em domicílio apregoando em cartazes que fazem a tal delivery. São fornecedores de pizzas, sanduíches e outras comidinhas (para os que não sabem o que seja uma comidinha, informo, resignado: é o que vocês chamam de fast food).

Será possível que esses comerciantes estão convencidos de que o serviço anunciado em inglês torna-se mais confiável? O alimento delivered chega mais depressa e mais quentinho?
Não acredito. Deve ser frescura mesmo, exemplo triste de uma mentalidade colonizada, dos dois lados do balcão.

Autor: Luiz Garcia
Enviado por: Antônio Mendes

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