Maria Lucia Dahl

Fonte: http://aplauso.imprensaoficial.com.br/edicoes

"Preservar a memória da cultura nacional e democratizar o acesso ao conhecimento são os princípios da Coleção Aplauso, lançada pela Imprensa Oficial."
Em sintonia com o acima escrito, o site "velhos amigos" abre esta página com crônicas do livro "O QUEBRA-CABEÇAS" de Maria Lúcia Dall, que me foi presenteado com dedicatória em 2005.

PROVA DOS NOVE

MACAQUINHOS NO SÓTÃO



PROVA DOS NOVE

De repente o passado transformou-se em presente. Em todos os sentidos. Sempre soube que passado, presente e futuro se entrelaçavam e correspondiam em links e conexões incompreensíveis, mas não que pudessem me deixar tão confusa sem saber em que tempo estou, feliz e infeliz, incapaz de distinguir se o passado interferiu no presente tornando-o passado ou se o presente virou passado fazendo-me sentir como há trinta anos atrás.
Será esse o tempo que se chama de Mais que Perfeito? Que a perfeição é viver feliz e infeliz simultaneamente, sem tempo nem espaço? Não é... Num tempo mais que perfeito não pode haver sofrimento. Se há sofrimento é porque não é perfeito, menos ainda um perfeito que se diz “mais”. Qual será então o tempo de verbo capaz de alegrar e entristecer em quantidades idênticas? Imperativo? No sentido de sermos obrigados a passar por isso pra corrigir equívocos provenientes da juventude irrequieta? Se Deus deu um cérebro ao homem, conclui-se que é porque quer que ele seja responsável por suas ações. O problema é que deu também um inconsciente, que sempre, na moita, faz tudo ao contrário do que manda o racional. Deu também uma consciência que grita do fundo do abismo tentando nos orientar mas que fingimos não ouvir, pensando ser mais proveitoso, até nos depararmos com a consequência dos nossos atos, ou prova dos nove, que disfarçamos chamando de destino.
Tudo começou com um encontro mágico em Piazza Navona, em Roma. Olhamos um pro outro e ficamos hipnotizados. Dois dias depois estávamos juntos na deslumbrante praia de Sperlonga cheia de hippies coloridos diante do mar turquesa do Pacífico, pacificamente apaixonados.
Sentia-me flutuar. Andava nas nuvens. Era a primeira vez que isso me acontecia de uma forma calma, como uma bênção enviada dos céus e que tinha tocado a ambos. Só que, antes de tudo isso acontecer, cansada de ser estrangeira na Europa, eu tinha comprado a passagem de volta pro Brasil. Com ele, tinha se passado o mesmo. Israelense, morando há cinco anos em Londres, tinha-se cansado da Inglaterra e decidido voltar pra Israel. Resolvemos então retornar às nossas pátrias e origens e nos encontrar depois.
Vim pro Brasil. Fui fazer novela na Globo e análise de grupo com o Castellar.
Além de me oferecer trabalho, o Rio me festejou com as Frenéticas no Dancin’Days do Shopping da Gávea, com o show dos Novos Bahianos, dos Secos e Molhados e da Gal. Saí do Brasil no auge de uma ditadura melancólica pra encontrar, na volta, (apesar da mesma ditadura ainda ter durado alguns anos), jovens, que resolveram ser felizes apesar da política e da repressão.
Nunca tinha visto país nenhum como este em matéria de alegria, descontração e criatividade. As praias povoadas de amigos por todos os lados e de todas as tribos eram seios de mãe a transbordar carinho. Nós e a natureza vivíamos perpetuamente em festa. Havia um brilho nos olhos e no ar entre os galhos que se balançavam entre os ramos inquietos. Por isso tudo, quando minha paixão ligou de Israel, não consegui sair daqui. Então ele veio me encontrar. Mas, fora de Israel há cinco anos, assim como eu, queria voltar rapidamente pra sua pátria. E para lá ele foi, deixando uma passagem pra eu ir ter com ele. Não consegui sair daqui. Disfarçava e adiava a viagem a cada mês. É que morria de amores por ele, mas também pelo Brasil. Achava que tinha tempo, pois a vida me sorria apesar da paixão longínqua. Passou-se um ano de loucuras, praia, novela e amigos quando recebi um telefonema. Era dele. Estava num hotel em Ipanema. Quase morri de felicidade.
Só que ele não veio só, mas com uma mulher. Por coincidência, era meu aniversário. Pensei que ia morrer de tristeza. Liguei pro Castellar. Ele recrutou o grupo e fomos todos (doze pessoas) buscá-lo a ele e a mulher no hotel, pra tomar chope num bar de Ipanema, naquela época incomparável de solidariedade humana, de apoio grupal. Ontem, por coincidência, novamente no meu aniversário, recebi um e-mail dele, casado com a mesma mulher com quem veio ao Brasil, trinta anos antes. Era um e-mail apaixonado, atemporal, como se estivesse em Sperlonga ou Piazza Navona. Jamais parou de pensar em mim. Nem eu nele.
Concluí então que a incapacidade de viver a dois me prendeu inconscientemente à pátria amada como ao útero materno e fui dormir sozinha e apaixonada, nessa época pós yuppie, sem grupo nem Castellar.



MACAQUINHOS NO SÓTÃO

Já tinha voltado lá numa festa de comemoração. (A de 70 anos do Colégio Andrews, acho eu). Uma festa animadíssima num pátio enorme. O da minha ex-casa. Da casa onde nasci e morei até os dez anos de idade. Tinha, porém, me poupado entrar dentro do que sobrou da casa propriamente dita. No corpo da casa, ou seja, no meu próprio corpo, no meu ventre, no âmago da minha infância.
Hoje foi diferente. Resolvi encarar o passado diante do presente disposto à minha frente sob a forma de alunos que vão trabalhar comigo numa peça falando de adolescência.
O diretor do colégio me pergunta: “Lembra dessa escada de madeira que provavelmente levava aos quartos na sua época, transformados agora em salas de aula?”
A escada escura de madeira, onde eu passava correndo com medo dos fantasmas que se escondiam no seu vão. “Os macaquinhos do meu sótão”. Os meus fantasmas. Os mesmos que me acompanham até hoje, saídos assustadoramente daquele ventre oco que materializa o meu inconsciente.
Quantas análises já me rendeu aquele simples vão de escada iluminado com a tênue luz dourada da mesma luminária de outrora, única realidade trazida do fundo de um passado remoto como os tesouros do Titanic achados no fundo do mar.
Subia correndo os seus degraus escuros, cobertos por uma passadeira vermelha e driblava o medo que o vão me inspirava inventando uma amiga imaginária que me fazia “voar” até o quarto onde vovó me esperava pra ler Monteiro Lobato. “Conta, vovó.”
O medo era irreal, subjetivo, surgia da escuridão difusa espalhada pela insegurança da minha infância sob a forma de ameaça. Hoje a ameaça concretizou-se. Materializou-se no narcotráfico.
Não saíram do vão da escada, nem do inconsciente. Entraram pela porta da frente, pela porta principal. A porta do colégio, a porta da minha ex-casa, pedindo dois mil reais para não fechá-la. Mas a casa se fechou por um dia, simbolizando uma espécie de luto. Luto por termos deixado os fantasmas da minha infância terem se materializado. Luto por não se diluírem mais com a luz do dia como os vampiros que se reduziam a cinza e fumaça. Luto por não podermos acabar com eles com algumas sessões de análise. Luto por termos consentido que se tornassem reais. Luto pela pobreza e a miséria. Luto por termos criado o caos. Luto pela nossa omissão. Luto por acharmos que a favela era um lindo “presepinho” distante. 700 presepinhos. Prestes a explodir. A explodir com a gente.
“Perdeu!” dizem os traficantes apossando-se das casas dos seus vizinhos. Perdemos todos nesse jogo sem ganhadores.
Que saudades da minha casa e dos seus glamourosos fantasmas desarmados, apenas levemente entrevistos de dentro do vão da escada.

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