DA GUERRA, DO BAR E DA
UNIVERSIDADE

Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo

RESUMO

No trajeto de casa para a Faculdade onde leciona, o autor passa por situações cotidianas e rotineiras que o faz refletir profundamente sobre o comportamento egoísta e prejudicial do homem que, em busca da satisfação imediata dos seus desejos e interesses, legitima uma situação de normalidade que ameaça a ele próprio e prejudica o conjunto da sociedade.

Analisando a atitude de estudantes universitários “matarem” aulas e se envolverem com prostituição infantil, o artigo chama atenção para o perigo de estarmos legitimando várias situações prejudiciais como comuns e esperadas, portanto, imutáveis e alerta para esse tipo de situação não estar sendo, ao menos, vista por aqueles que devem ser os formadores de opinião da sociedade e futuros líderes. De maneira clara, o artigo caracteriza-se como uma narração leve e crítica da inoperância daqueles que fazem a Universidade, ante a situação mentirosa e falsa de todo um conjunto humano que dela faz uso e a faz.

Palavras Chaves: Legitimação; inoperância; normalização; conivência e conformismo.

1. INTRODUÇÃO

O presente artigo é, antes de tudo, o relato pessoal de algumas reflexões que são, aos olhos do autor, bem pertinentes para qualquer cidadão e, em especial, para todos os que fazem a comunidade acadêmica.

Com o objetivo de mostrar o grau de conformismo assassino e a conivência com várias mazelas sociais, como a prostituição infantil, o artigo desnuda também o compromisso absoluto dos nossos acadêmicos em ter os desejos próprios satisfeitos de maneira imediata e a qualquer custo, nem que para isso, portem-se de forma contrária e legitimamente conformada às mínimas condições daquilo que se espera de quem deseja e prepara-se para fazer a diferença em uma sociedade mais ética e educada.

Dessa forma, o artigo caracteriza-se como uma narração divertida de uma experiência do autor no seu trajeto de casa para a Faculdade onde leciona quando, ao entrar em um bar para comprar água, é forçado, pela demora do atendimento, a ficar um pouco mais do que deseja e acaba vendo uma reportagem sobre a guerra pela TV. Aos poucos ele percebe que o bar está repleto de universitários que deveriam, pelo horário, estar em aula.

Fazendo uma conexão entre a reportagem e os comportamentos dos freqüentadores do bar, o autor reflete a conivência dos acadêmicos com a nossa guerra: a guerra da mediocridade. E pensa que, em nome de uma sociedade mais educada formada por formadores de opiniões mais educados, até que seria bom que tivéssemos uma guerra de verdade. Tudo recorrendo a embasamentos teóricos de autores do comportamento e da sociedade.

2. DO BAR E DA GUERRA

Numa noite, a caminho da Faculdade onde leciono, entrei em um bar para comprar água e, enquanto esperava no balcão pelo atendimento, assistia na televisão do estabelecimento cenas de torturas sofridas por prisioneiros em uma guerra distante. Eram cenas horripilantes de sodomização e agressões físicas às mais variadas. Um amontoado de prisioneiros nus, uns sobre os outros, simulavam atos sexuais em situação de extrema humilhação diante de soldados que riam e escarneciam daquela degradação do homem pelo homem, legitimando ainda mais as humilhações sofridas.

Lembro que aquela era uma noite de quarta-feira e a lanchonete, bem próxima da Faculdade, estava lotada por clientes universitários e, por isso, o atendimento foi demorado.

Já um pouco incomodado com a demora, continuei vendo a reportagem das torturas quando percebi que ao lado dos corpos nus dos prisioneiros amontoados e um pouco de costas para o grupo de soldados que torturavam, postavam-se outros dois soldados que, pela indumentária, eram, provavelmente, oficiais. Pois bem, esses dois soldados estavam numa boa e cordial conversa. Houve tempo para ver, inclusive, quando um deles acendia o cigarro do outro numa atitude de camaradagem que não combinava com o contexto geral da cena. Eram pessoas normais demais com comportamentos normais demais imersos em uma barbárie anormal demais.

Nesse momento, fiquei interessado pela reportagem, pois pude ver que era a normalidade dos soldados que fazia a insanidade geral. Percebi que, se por um lado, havia soldados que legitimavam a humilhação e executavam a guerra, por outro, havia os que legitimavam os torturadores normalizando os seus comportamentos e que, nesses, residia o verdadeiro perigo de toda aquela sandice, pois em suas atitudes – a indiferença é a atitude de não se comprometer – justificavam o que não se justifica.

Nesse momento fui atendido quando dei conta que, de todas as pessoas que estavam no bar, apenas algumas assistiam a reportagem como que torcendo para que a mesma acabasse logo e vendo-a como se vissem a um filme de ficção. Ao perceber esse grupo, tive o interesse de perceber todas pessoas que estavam no bar. Até aquele momento eu apenas tinha visto algumas delas mas, à partir do notado, resolvi colocar no meu campo perceptivo o que, até então, apenas figuravam como pano de fundo. Como afirmam Ballachey, C.K.; David, D.K. e Richrd, S.C. (1969), do pouco que percebemos, apenas percebemos um pouco das suas características. Mas, daquele momento em diante, eu exercitar o meu aparato fisiológico.

Percebi, então, um grupo de mulheres conversando e bebericando em uma mesa e um outro grupo feminino ao redor de um equipamento de karaokê que disputavam, entre os seus membros, quem cantava melhor. Na verdade, quem cantava menos ruim.

Como cão farejador, reparei quatro rapazes que jogavam bilhar, bebiam e fumavam. Aliás, como na reportagem assistida minutos antes, vi um deles acendendo o cigarro do outro numa atitude normal de amizade e de cumplicidade entre viciados. Aquela cumplicidade que funciona bem e que tanta falta faz a muitos de nós. Aquela cumplicidade que parece ser telepática onde quem tem o fogo percebe que o outro não tem e adianta-se a lhe acender a droga sem que, para isso, seja preciso nada, nem uma palavra.

Consultei o relógio e vi os ponteiros marcarem oito horas e quarenta e cinco minutos. Me apressei em sair do bar, pois dali a vinte minutos teria que estar em sala de aula, mas sempre na minha tarefa de perceber o sentido.

Portanto, de saída, percebi que do lado de fora do bar, um pouco próximo da porta, havia uma mesa com aproximadamente seis rapazes que, como os que jogavam bilhar, bebiam, fumavam e se deliciavam com a companhia de duas adolescentes em flagrante ato de prostituição. Uma delas estava sentada no colo de um deles e, como eles, bebia e fumava também.

Ao lado desse grupo, a menos de três metros e em outra mesa, havia um casal saboreando uma cerveja na companhia de um garoto que comia um pastel com refrigerante e que, pela semelhança física, era, pelo menos, filho da mulher.

3. DA SAÍDA DO BAR E DAS REFLEXÕES

Finalmente sai do bar e na minha caminhada para Faculdade, distante menos de quarenta metros, fui refletindo tudo o que acabara de presenciar e perceber no pequeno intervalo de tempo de cinco minutos. Da reportagem sobre as torturas em uma guerra distante vista, via-satélite, como cenas de entretenimento por estudantes do ensino superior à rotina normal de um bar de cidade pequena do interior do Brasil e cheguei ao entendimento de que bem que poderíamos ter, também, uma guerra de verdade. Daquelas que se matam pessoas, mas não se sucumbem os ideais de liberdade e de um mundo melhor e mais justo. Isso pelo fato de vivermos uma guerra de mentiras, onde matamos esses ideais e ficamos com a atitude justificadora de normalizar o anormal como a melhor saída para nós e para a nossa sociedade.

Como na guerra da reportagem onde, pior que a tortura era a sua justificação que tornava-a normal, no bar tudo era anormalmente justificado e normalizado. A começar por sua localização. Sabemos que vivemos em uma democracia e que o cidadão pode abrir um negócio em qualquer local e que não há lei que proíba o funcionamento de um bar próximo a uma Escola ou Universidade e que a mesma tenha como freqüentadores os estudantes. Mas um bar a menos de cinqüenta metros de uma escola é, quase, mais uma sala de aula da mesma. Aqui, o questionamento não é a legalidade da localização de um estabelecimento que tem como mercadoria de venda a diversão atrelada ao prazer etílico. Nem, muito menos, se esse tipo de prazer é, ou não, sadio ou prejudicial. A questão é se devemos ou não apelar para o bom senso e refletirmos se é prudente ou não termos bares em funcionamento quase que dentro das Escolas e Universidades, e, pior, concorrendo pelo mesmo público.

Entendo que este argumento pode parecer um tanto “vitoriano”, mas como afirma ALBERT K.C. (1968), quase todas as pessoas e, principalmente, as que se consideram duras e realistas, tendem a aceitar o mau comportamento como natural e a considerar como problema real a explicação do conformismo. E, é bem disso que estamos falando. Como Educadores, muitas vezes nos conformamos em tentar explicar a nossa conformação com atitudes e situações que sabemos que não são produtivas para as pessoas e para a sociedade em geral e essa situação da localização de bares anexos às escolas e Universidades poderia, ao menos, ser discutida e avaliada.

Desse raciocínio, formulei um outro que me fez compreender a causa de poucas pessoas no bar estarem assistindo a reportagem sobre as torturas sem nenhum tipo de reação de choque. Não há do que ficar chocado ante cenas de torturas em uma guerra distante que não nos atinge diretamente e que não é protagonizada por nós, quando não somos capazes de nos chocar com a prostituição infantil ao vivo, diante dos nossos olhos e que deveria nos atingir diretamente já que por nós é protagonizada. Quando não pela ação direta, pela omissão covarde. O casal com o filho estava a menos de três metros de uma cena de prostituição infantil envolvendo universitários como se estivesse ao lado de um casal de namorados. Observe que tão normal quanto ver pessoas namorando era, para o casal e para os outros que ali estavam, ver crianças se prostituindo e adultos universitários prostituindo crianças. Pode?

Eric Fromm E Michael Maccoby (1972), citando Thomas Hobbes, afirmam que o homem natural é governado pela razão a serviço das suas paixões e que o limite do desejo do homem é estabelecido por regras sociais que definem, para cada tipo de homem, aquilo a que, legitimamente, ele acha que é seu de direito. Diante disso, entendemos que em nome da satisfação imediata de ter que ter dinheiro, o dono do bar não “via” a prostituição no seu bar; que em nome da satisfação imediata de ter que ser “macho” e não homem, universitários prostituíam crianças como se o que fizessem fossem da ordem do normal e do natural; que em nome de uma vida sem preocupações desnecessárias, o casal fingisse que não estava entendendo o que se passava diante dos seus olhos e que, em nome da ilusão de que felicidade pode ser comprada, crianças se vendessem para ganhar aquilo que as manteriam ainda na mesma infelicidade e na mesma miséria.

Comecei a pensar que, se na guerra distante há os que apenas a executam por terem que seguir ordens, na nossa guerra, a “guerra da mascaração”, todos nós justificamos a legitimação da normalidade nociva e assassina. Por isso, não temos motivos para nos indignarmos com prisioneiros sendo humilhados quando não nos indignamos com a postura de humilhação que nós impomos a nós mesmos e nos conformamos com uma normalidade perigosa que tenta justificar o injustificável; quando, por sabermos, que a nossa hipocrisia e sandice é maior e mais bárbara que a barbárie deles, nos enclausuramos no faz-de-conta que tudo vai bem.

4. DA UNIVERSIDADE

Enfim, cheguei na Faculdade e me dirigi à sala onde teria que ministrar uma aula da disciplina de Psicologia da Educação quando, surpreso, me deparei com apenas quatro alunas de uma turma de quarenta e poucos. Os demais haviam matado a aula para assistirem a um jogo da seleção brasileira contra a seleção da Argentina. Uma verdadeira guerra futebolística onde as primeiras vítimas já haviam tombado, antes mesmo, do início do combate: a aula, que pela sua característica exigiria a presença dos alunos; as alunas que, “otariamente”, resolveram que deveriam cumprir com o compromisso assumido de serem universitárias bancadas pelo Estado e os próprios alunos que justificaram a negligência com o argumento de que matar a aula era uma atitude de patriotismo, pois “o Brasil iria entrar em campo para uma Guerra”.

Restou-me conformar covardemente, consolando-me com a realidade de que o comportamento é uma adaptação constante às circunstâncias realistas e que muda com relativa facilidade quando estas tornam mais aconselhável outro tipo de comportamento, como diz Eric Fromm E Michael Maccoby (1972). O meu poderia estar mudando.

Para ter o que conversar na aula que não seria aula, perguntei onde os alunos iriam assistir ao jogo, já que quase todos eles moravam nas cidades circunvizinhas e só poderiam retornar para casa nos horários dos ônibus, quando uma das “alunas-otárias” respondeu: “nos bares da Faculdade”. Assim mesmo, no plural, pois existem cerca de seis bares em uma área de, aproximadamente, cem metros, em redor da Faculdade.

Um pouco revoltado, voltei para casa e me debati com vontade de ir, também, a um dos bares da Faculdade onde tudo é normal. Onde há alunos que comemoram as vitórias sobre as aulas mortas; onde há prostituição infantil que não incomoda ninguém. Algo assim, bem normal. Onde as famílias levam os filhos para aprenderem como eles, provavelmente serão, se tiverem à sorte e o privilégio de um dia se tornarem universitários bancados pelo estado. Onde há reportagens sobre torturas em guerras distantes, transmitidas via satélite como se fosse filme ou novela para entretenimento, apenas, e que não chocam ninguém. Onde há alunas que deveriam estar em aula, mas estão bebericando, conversando e treinando dotes artísticos em uma máquina de karaokê. E, onde, bem próximo, impávido e imponente, há a imensa estrutura física da Faculdade, alheia a vida que corre bem nos seus pés; sem se misturar e quase como a dar legalidade a tudo isso por se achar apenas estrutura física e não humana.

Ah! E onde tem, também, a transmissão de verdadeiras guerras, de vida e de morte entre a “nação brasileira” e a seleção de futebol da Argentina.

Bem que poderíamos ter uma guerra de verdade!

5. CONCLUSÃO

Por tudo isso: normalização e justificação de várias anormalidades; hipocrisia do não envolvimento; uma universidade que paira como extra – sociedade, no sentido de distanciamento; alunos que aprendem a como fazer na sociedade e não como ser sociedade e egoísmo e interesses pessoais acima de tudo, inclusive dos que fazem da docência a sua profissão, o artigo nos mostra que precisamos fazer uma educação que envolva as pessoas e não apenas para as pessoas e que as instituições enfrentem com verdade e abertura as várias realidades que lhe tocam: a dela; a dos alunos; a dos professores e a da comunidade que lhe sustenta e dela precisa como instrumentadora de pessoas para um mundo melhor.

BIBLIOGRAFIA

BALLACHEY, C. K., DAVID, K; RICHARD, S. C. O indivíduo na Sociedade: Um manual de Psicologia Social. Traduzido por: Dante Moreira Leite e Miriam Moreira Leite. São Paulo: Ed. USP, 1969. COHEN, A. K. Transgressão e Controle. São Paulo: Ed. Pioneira, 1968.

FROOM, E.; MACCOBY, M. Caráter Social de uma aldeia: um estudo sociopsicanalítico. Traduzido por: Octávio Alves Velho. Rio de janeiro: Ed. Zahar, 1972.

Autor
Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo

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