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Rosa Pena
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Não há nada mais down que o final de uma relação, onde ainda existe amor no ar, e acontece em alguma das partes a traição. O interrogatório do enganado se torna patético, pois se sujeita e sujeita o parceiro a uma competitiva fúria indiscreta. Onde? Foi em motel? Quando? Com conhecido? Nos dias do dentista? Todos os dias? A outra parte silencia, para poupar os detalhes que não levam a nada ou fica enfurecida e acaba dando-se por vencida, confessando que o novo amor é: "carinhoso, meigo, lindo, tudo de bom, o oposto do que já vivi contigo". O traído finalmente tem a resposta que queria ouvir! Agradece a “sinceridade” e pede então o inverso: "poupe-me dos detalhes sórdidos!". Bizarro e intenso ritual este que precede o final de um romance, onde existia uma dupla, que virou trio. O passado vira negação, zombaria, mentiras. Invalida totalmente a vida vivida. O presente passa a ser acusação, choro, ameaças. O interrogatório despe o traído de todo o orgulho, amor-próprio, vaidade, respeito de si mesmo. Será que depois o atraiçoado se sente melhor? Certamente que não. Quem quer saber que o corpo amado, objeto de paixão, idolatrado, desejado, foi acariciado por outro alguém? Os suspiros, antes exclusivos aos seus ouvidos, escutados pelo novo amor? Que mágoa danada! Caso a traição seja da mulher, o filho venerado, que sempre foi a cara do pai, vai pro DNA, mesmo tendo aquele sinal idêntico ao do progenitor na coxa esquerda. — Quem diria que era só fachada! Vocês não eram santos até bem poucos dias? Quanto à traição, se foi sua, diga que traiu só por tesão e seu ato não tem perdão. Assuma que é filho da puta, que já nasceu torto na vida, que seu raciocínio se localiza entre as pernas. Adeus, “cinco letras que choram”, mesmo que as lágrimas sejam de alívio! Finais são sempre tristes, mas não necessariamente ridículos. Casou engomado e vai sair todo rasgado? Resolveu ficar e recomeçar? Permaneça, mas nada de discursos cômicos, nada de apelação. Você não está concorrendo a prefeito(a). Já foi eleito. Apenas coloque um som, abra um vinho e diga: — Você é, e sempre será minha única paixão! — Júlio! Aumenta o som. Autora: Rosa Pena |
COPA É MUITÍSSIMO MELHOR QUE COZINHA Pois é: de quatro em quatro anos a Copa do Mundo, e você é uma mulher que não suporta futebol, mas o seu bofe preferido adora, então você entra logo em pânico. Acabaram-se as idas ao cinema, teatro, jantares, sexo fora de hora. Sim, minha amiga, você pode comprar a calcinha vermelha mais incendiante do mundo que ele não vira mais o diabo. As mãos estarão possuídas pelo desejo de apertar sofregamente o controle remoto, independentemente do Brasil jogar ou não. Seu bofe predileto vai torcer para Camarões, não empanado, vai virar sueco se for importante a vitória para a nossa próxima rodada, vai vibrar com a derrota da França, mesmo que sempre tenha dito que ela era sua segunda pátria no coração. Ele vai ver todos os jogos, todinhos, até os que não fazem diferença alguma para a nossa seleção. Vai tomar muita cerveja, vai arrotar tudo o que tem direito, vai vestir a camisa da seleção, mesmo suadíssima, vai colocar bandeirinhas no espelho do carro, vai se lixar para sua TPM. E agora, mulher? Você nem é José pra dizer a festa acabou! Tá só começando. Aprenda a gostar imediatamente de futebol. Como? Não imagine homens grandes correndo atrás de uma bola. Imagine 44 coxas saradas e 22 bundas, fora as dos reservas, técnicos, juízes e até bandeirinhas. Na última copa tinha um bandeirinha italiano, que rendeu altas fantasias pós-copa. Mentalmente, comece lembrando-se do David Beckham e esqueça os dentes e a barriga do Ronaldão (nem vai para a seleção). Fixe-se apenas na parte inferior de cada um. Muita massa muscular. Este é o primeiro passo para aprender a adorar futebol. Outra coisa extremamente graciosa é ver os meninos paradinhos com as mãos protegendo seus bilauzinhos na cobrança de faltas. Lindo de morrer este instinto de preservação do patrimônio masculino. Ai, que coisa linda! Passe a olhar os bicos e birras dos jogadores, as gingas de corpo, principalmente as reboladinhas em cada passe que, num passe de mágica, você não conseguirá mais parar de olhar. Jogue seus grilos para escanteio, jogue solta, sem muitas obrigações defensivas, sem muito esforço, nem cara fechada. Lembre-se de que é jogo sério, seriíssimo, não entre numa de pelada, mas, mesmo assim, depile-se, caso a pelada venha a ser você, subitamente, numa mudança de tática dele. Não fale besteira, como, por exemplo, que sua mamãe está com a espinhela caída. Vai ouvir bem feito, não morreu porque Deus está assistindo à Copa. Esqueça a meia liga, pois ele tá ligado mesmo é em meia de ligação, ponta-de-lança, não a ponta da lança que você gosta tanto entre lençóis no mano-a-mano. Nem tente um tom novo nos cabelos, pois ele está aflito no cabeceio do Wayne Rooney (não vou dizer quem é, pesquise no Google se quiser saber). A calcinha vermelha deve ser substituída por uma com a estampa da bandeira do Brasil. Vai que na hora do gol ele quer beijar a bandeira, você só levanta a camisolinha e o gol vira seu. De placa! Transforme-se numa grande articuladora de jogadas. Se de todo ele não chutar dentro da sua área, ele é gay, gayzão. Boiola! Você não perdeu grande coisa. E mais, copa é sempre muitíssimo melhor que cozinha. E mais ainda! Varonil nessa hora tem que ser mesmo a nossa pátria mãe gentil. Salve salve o Brasil! Autora: Rosa Pena |
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Tereza me ligou. Sua voz traduzia desespero. Disse que iria avisar aos filhos, irmãos, sogros... De novo? Lembrei-me do povo da net que se despede semanalmente, diz adeus e no dia seguinte volta a postar. Falei com ela sobre este fato, o mico que se paga. Pedi que refletisse, ponderasse e perguntei o essencial... Ainda ama o Guilherme? — Sei lá, isto nunca foi importante, mas não suporto saber que ele é um galinha. — Não concretas, pois os homens de hoje em dia não chegam mais com camisas manchadas de batom, nem cheirando a perfumes baratos. Não tenho vestígios, mas tenho indícios... — Que indícios? — Ele anda felizinho demais da vida, com toda a crise do Brasil... cantarola no banheiro, ri do nada, aceita os desaforos das crianças com tranqüilidade, me acalma quando estou com TPM, acha o arroz papado gostoso e não fala mais da mamãe. Passou a amar a sogra! E pra piorar anda ouvindo tango. Percebi que os indícios eram fortes, ouvir tango é meio forte mesmo, porém apelei para in dubio pro reo. Na dúvida, o réu é absolvido. — E na cama, como ele está? — quis saber com aquela curiosidade danada das mulheres. — Ótimo, nunca esteve melhor! Sintoma de culpa, né? — Será que ele não está apaixonado por você, não te redescobriu como a mulher da vida dele? — Rosa, você conhece o Guilherme, sabe que ele e eu nunca nos amamos. Ficamos juntos por comodidade. Acostumamos com a segurança de um lar feito. Apenas isto. Desfazer dá trabalho, empobrece a ambos a maldita divisão. — Amiga, então por que a infidelidade dele te dói tanto e te mobiliza deste jeito? — A traição me fragilizou. Nasceu a dúvida se realmente eu não amo ele, entende? Gostava da certeza que não o amava, então a indiferença dele era suportável. Agora não sei mais como se constrói uma vida a dois, com amor, pois aprendi a viver sem saber o que é amor, e é tarde, muito tarde para recomeços. E continuou: — Afinal de contas, com toda a frieza de nossa relação, tivemos três filhos, lutamos juntos para comprar nossa casa própria, choramos juntos a partida de papai, e quando sofri aquele acidente, ao despertar, ele estava lá, segurando minha mão. Não consigo imaginar o futuro sem ele. — Tereza, você ama ele, e muito, sabia? E ele te ama... Sem querer você passou a vida de vocês a limpo. Isto, sim, é que são indícios e vestígios de amor. — Será? Então, o que faço? — Experimenta dar um beijo na boca dele e dizer em alto e bom som: “TE AMO!” Ela começou a chorar, acho que pela primeira vez com razão, pois deixou passar vinte e cinco anos para descobrir que adorava seu homem. Desligamos o telefone. Construir uma relação é difícil, muito mesmo. Mais ainda ter a certeza de que se ama e se é amada. Peguei a bolsa e saí. Precisava pensar. Agora a urgência era minha também... Entrei no primeiro cinema que apareceu. Queria pensar, talvez chorar, no escuro, sozinha, de olhos fechados. E fiquei revendo o meu filme, cujo roteiro eu havia traçado. Só abri os olhos quando percebi a movimentação da platéia. O outro filme havia acabado. E o meu? Consegui ver a ultima cena do filme do cinema. Um casal, de mãos dadas, saía correndo na chuva. De repente se beijavam, sem se preocupar de ficarem encharcados. Corri para casa, dando apenas uma pequena parada para comprar um ramo de margaridas. Meu buquê de casamento foi de margaridas. Será que ainda tenho tempo de dar uma modificada no meu roteiro? Pena que hoje não está chovendo, mas mesmo no seco vou gritar: — TE AMO! Autora: Rosa Pena |
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Foi quando cheguei que redescobri pela milésima vez: Meu solo sempre será aqui. Dessa vez parece que demorou mais a volta, pois foi duro ouvir lá longe que meu Rio estava se desmanchando entre paus e pedras, não por culpa das águas de abril, mas pela insanidade de alguns que nunca sabem, nunca viram, nunca têm culpa. Ah! Mas não adianta imaginar-me morando fora daqui. Se for terei a eterna sensação de exílio. Porque, por mais naufragada que esteja minha terra, ela insiste em ter palmeiras e o sabiá a cantarolar. E o Karaokê daqui é muito melhor do que o de lá. Lararirará! Chego muito cansada e nada feliz com o que vi lá fora. Quem disse que aqui é sempre pior? Quem? Abro minha porta e vejo quilos de jornais e revistas. Entre eles o livro novo do Viegas Fernandes da Costa. Esqueço a imprensa marrom. Viegas é azul da cor de meu mar. Ouço a secretária- eletrônica, e ela está cheia de recados de amigos desse meu verde e amarelo. Estão preocupados com meu sumiço. Abro meu micro e encontro mais mensagens perguntando por onde ando. Ganhei dois poemas lindos. Reparo a infinidade de escritos, alguns Assaz Atroz, outros zen, muitos de amor e um espanto de spam que me faz rir de ódio. Contraditório como meu Rio de Janeiro. Estou de volta pro meu aconchego, ainda que encharcado, mas não só de barro. De loucos como eu que amam amar o Brasil com todo pleonasmo e contra-senso que ele carrega há mais de quinhentos. Obrigada amigos. Autora: Rosa Pena |
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Seu Almério é um taxista que mora e faz ponto na Muda, um cantinho especial, na Tijuca. Um senhor inteligente, muito simpático e que passou a ser amigo de todo mundo, por sair desde sempre no bloco Nem Muda Nem Sai de Cima, cuja concentração é no bar Dona Maria, na rua Garibaldi, onde moram Moacyr Luz e Aldir Blanc, coordenadores do evento, que reúne quem gosta de alegria e não tem vaidade. Pedro Amorim, Camunguelo, Walter Alfaiate, Délcio Carvalho e Macalé saem também e sempre a gente acaba ganhando canjas de primeira. Seu Almério, com o tempo, acabou virando o motorista oficial da Garibaldi. Meu sobrinho-neto só aceita andar no amarelinho do Amélio, como ele o chama. Aldir e Moacyr também só andam com ele. Ano passado, quando fui buscar o João na creche, comentei com Almério sobre quantos ídolos meus já haviam se sentado em seu táxi. Ele enumerou com um sorriso o nome de diversos. Depois, sem perceber a importância do que proferia, declarou que na próxima quinta-feira, tinha combinado de apanhar o Chico Buarque na Barra e trazê-lo para um encontro com o pessoal daqui. Tomei um choque e fiquei paralisada. Quando, enfim, me recuperei do impacto, pedi ofegante para avisar-me a hora, mas ele disse que não diria, por uma questão de ética. Calei-me e bolei um plano. Resolvi esquecer meu livro PreTextos no banco do táxi. Avisei ao Almério e ele concordou que a distância provoca o tédio, e a curiosidade de abrir um livro é sempre grande. Na quarta deixei meu livro no táxi. Na sexta liguei pra saber: — E aí, o Chico leu? — Não. — Nem abriu? — Não. — Por quê?! — Ele sentou em cima. — Jura? — Ahã... — Onde está o livro? — Aqui, todo amassado. — Com a bunda do Chico?! — Sim! — Vou correndo buscá-lo. Nem o Paulo Coelho tem um livro com esse selo. A banda do Chico passou e eu não segui, mas a bunda dele ficou. Atualmente, este livro dorme na minha cabeceira. Todas as noites eu me imagino a Geni. Você, que está me lendo agora, pode jogar pedra, pode cuspir. A maldita aqui num está nem aí. Autora: Rosa Pena |
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