Dos lábios, um sorriso aflora,
e não é de esperança.
O rosto, impertubável, não se cora,
nem conhece o ritus frio da esquivança.
Ao contrário: entreaberto o sorriso,
tem qualquer coisa de irônico e de dominador.
O olhar, apenas ilumina a paisagem,
que, ao se despir, como miragem,
toda se dissolve, sem rubor
Impossível perdê-los de vista,
os olhos, quando brilham;
e quando lançam chamas sobre os dedos ágeis,
propensos ao tecer contatos frágeis,
luminosos faróis para o naufrágio certo.
Quentes, as mãos conhecem todos os segredos,
da tecelagem fina dos cabelos
ao surdo vasar de águas profundas.
Brancas e leves, a deslizar sobre cortina escura,
parecem fortes demais para tão fina postura.
Descoberto o cenário,
do ventre sobressái
rígida lança;
e as pernas surgem,
firmes e seguras,
sobre o chão, onde a memória dança.
O conjunto tem tal potência,
que a mente, eletrizada,
entra em delírio
e a alma, libertada
pelas sombras que ardem,
tem visões que povoam de estrelas todo o exílio.
Mas o olhar, novamente,
polariza o ambiente.
E a mão se estende,
sábia e cantante,
indicando o caminho do navegante.
Autor:
Mario Sudestino
Rio , 18/07/1957