ARTUR XEXÉO

IMOBILISMO

O GALEÃO É UM CASO DE POLÍCIA

DISCURSOS

IMOBILISMO

A foto foi publicada na seção Eu-Repórter, do Jornal O GLOBO, no dia 29/02. Exibia uma caixa d’água destampada à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, deixada lá pela prefeitura. À denúncia do leitor Olavo Pereira, a Secretaria municipal de Conservação respondeu, alegando que a caixa está lá para ser “utilizada na lavagem de material usado na reforma da pista de skate, em fase final de execução”. Quanto ao fato de a caixa d’água estar destampada, o que é um convite à visitação do mosquito da dengue, a prefeitura promete resolver ou problema, ou seja, tampá-la, “ainda esta semana”.

Deixa eu ver se entendi: a prefeitura admite que é um erro manter a caixa destampada e garante que, “ainda esta semana”, vai providenciar uma tampa? O que impede a prefeitura de tampar a caixa imediatamente? É necessário fazer uma reunião? Uma licitação para comprar a tampa? Um estudo de impacto ambiental?

Uma simples caixa d’água à beira da Lagoa mostra o imobilismo das nossas autoridades. Tudo parece que pode ser resolvido mais tarde. Nada é para agora. O noticiário dos últimos anos está cheio de promessas do governo do estado em relação à situação de nossos trens, de nosso metrô, de nossos bondinhos. A SuperVia está caindo aos pedaços. O metrô está uma bagunça. Os bondinhos de Santa Teresa sumiram do mapa. Mas o governo promete trens novos, promete cobrar uma boa administração do metrô, promete recuperar os bondinhos, mas só para o fim do ano, para 2013, para antes da Copa e até para depois da Copa! O governo de Sergio Cabral é um governo de reeleição. Quase na metade de sua segunda adminisração, Cabral deveria estar exibindo resultados, mas acha que ainda é tempo de fazer promessas. Com o caos em torno de todo o sistema de transportes do Rio, cabe a pergunta: afinal, o que faz o secretário de Tranportes, Julio Lopes? Seja qual for a resposta, posso garantir que ele faz muito devagar.

Esta semana, o “Jornal Nacional” exibiu uma série de reportagens sobre a situação dos aeroportos no país. Não apresentou novidade alguma. A situação é igualzinha à de reportagens feitas seis meses atrás, um ano atrás ou dois anos atrás. No Galeão, então, a situação é ainda pior. Sei que reformar um aeroporto é tarefa complexa. Mas não me parece complexo acabar, por exemplo, com os táxis bandalhas ou com
carregadores de malas fazendo câmbio informal de dólares. O que impede a Infraero de terminar com a violação de bagagens antes que elas cheguem na esteira para os passageiros? No dia 24 de fevereiro do ano passado, Cora Rónai escreveu uma coluna sobre uma visita guiada que fez ao Galeão. Ali, a equipe da Infraero disse à cronista que os elevadores estavam “em vias de troca”. Um ano depois, a série da Globo mostrou que os elevadores continuam parados. O que impediu a Infraero, nos últimos 12 meses, de trocar os elevadores?

Diferentemente da população, as autoridades no Brasil não têm pressa. Nem para tampar uma caixa d’água.

Artur Xexéo


O GALEÃO É UM CASO DE POLÍCIA

A série de reportagens que O GLOBO vem fazendo sobre o estado calamitoso do Galeão (não vou chamá-lo de Tom Jobim porque isso seria uma ofensa com o mais talentoso de nossos compositores populares) comprova que, há muito tempo, nosso aeroporto internacional virou caso de polícia.

Há pelo menos dez anos os usuários do Galeão convivem com tapumes que indicam que uma reforma acontece ali. É conversa mole. Os tapumes mudam de lugar, as obras nunca aparecem, e o Galeão continua sendo uma cidade do Velho Oeste.

É só sair uma crítica no jornal para as autoridades responsáveis por aquele campo de pouso argumentarem que obras futuras em pouco tempo o transformarão numa das sete novas maravilhas do mundo moderno. É mentira. O Galeão está morrendo sufocado pela incompetência, pela má gestão e pela má fé. Resta saber por quanto tempo ainda o Governo Federal, o governo estadual e a Prefeitura vão reagir para interromper sua agonia.

Ontem mesmo, depois de três reportagens do GLOBO, uma autoridade da Infraero tentou se explicar. E veio com a história de sempre: “Nós reconhecemos falhas que temos no Aeroporto Internacional do Rio, que, por ser de concepção antiga, tem muito o que ser adequado”, admitiu o presidente da Infraero, Gustavo Matos do Vale. A frase, além de mostrar o português tortuoso da autoridade, bate numa tecla que já está estragada de tanto ser utilizada. Então a concepção antiga justifica todas as falhas do Galeão? O Rio está repleto de prédios de concepção antiga cujos condomínios mantêm os elevadores funcionando. Por que cargas d’água os elevadores do Galeão estão sempre parados? E suas escadas rolantes também?
A autoridade acrescentou que vai licitar em novembro “o primeiro sistema eletrônico de entrega de bagagens do país, que deve ser para o Tom Jobim” (não sou eu quem está insultando o compositor, mas a autoridade). Bem, “deve ser” não se torna exatamente uma promessa. E o fraldário e a lanchonete no setor de embarque, reinvidicação de dez entre dez usuários, precisam de licitação também? E a esteira rolante que une os Terminais 1 e 2? Precisa de licitação também para funcionar? E a eliminação daquela situação dantesca de mulheres se jogando pelos balcões das companhias de táxi especial em busca de fregueses — primeira visão da cidade que os turistas encontram — precisa ser licitada?

Há oito meses, depois de fazer críticas ao aeroporto, minha colega de espaço Cora Rónai foi convidada a uma visita guiada ao Galeão. Na ocasião, foi informada de que os elevadores “estão em vias de troca”. Bem, oito meses depois, eles continuam parados. Se foram trocados, não deu certo. As autoridades da Infraero ainda informaram a Cora que seriam inaugurados 64 novos postos de check-in no terminal 2. Agora, o presidente da Infraero diz que vai criar o “check-in compartilhado”. Qual é o projeto correto?

Também não é necessária uma licitação para se acabar comos táxis-bandalhas. A “concepção antiga” do aeroporto não justifica a existência dessa praga. Estacionamentos mal administrados também não são necessariamente características de aeroportos velhos. Nem banheiros fedidos com torneiras estragadas. Nada explica ainda a não existência de uma linha de ônibus regular que transporte passageiros recém-chegados para outras partes da cidade.

A Infraero pode alegar que alguns desses ítens não são de sua competência. Mas é de sua conpetência pressionar Governo e Prefeitura. Se o faz, não é com habilidade. O que o Galeão precisa é de um bom síndico que ame o Rio. Enquanto ele não chega, chamem a polícia.

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Eu sei que a língua é viva, mas, ultimamente, alguns vícios de linguagem são inexplicáveis. Eu só queria saber quando é que a palavra “diferente” morreu. Deve ter sido no mesmo dia em que nasceu a palavra “diferenciado”. Nada mais é diferente. Restaurante tem comida diferenciada, decorador faz projeto diferenciado, estilistas criam coleções diferenciadas... E, na tentativa de falar de uma maneira diferenciada, todo mundo fala igual.

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Dona Candoca andava sumida. Mas reapareceu. Ela tem consumido suas noites de sábado assistindo ao “Projeto Fashion”, apresentado por Adriane Galisteu, que a Bandeirantes lançou há um mês e meio. O problema de dona Candoca é que, como em qualquer >ita<reality show, o bom é conversar com outros espectadores sobre o programa. Só que a velhinha não tem encontrado ninguém para conversar. Parece que ela é a única espectadora da atração. Por isso, ela me escreveu:
“Percebi a mancada no dia da estreia. Achei que seria consertada, mas continua lá, seis programas depois. Quando o ‘Projeto Fashion’ começa, eles exibem uma legenda explicando que o programa é baseado no formato ‘entitulado’ ‘Project Runway’. Entitulado? Isso é que é uma legenda endigente.”

Artur Xexéo
Enviado por: Marly


DISCURSOS

Em pronunciamento na ONU, na semana passada, a presidente Dilma estreou, internacionalmente, uma palavra que vem usando insistentemente no Brasil: “malfeito”. “Meu governo não terá compromisso com o malfeito”, disse ela. Todo mundo sabe que, quando diz “malfeito”, a presidente está usando um eufemismo. Ela se refere à “corrupção”. Mas, aparentemente, Dilma não quer admitir, pelo menos publicamente, a possibilidade de que haja corrupção em seu governo.

A presidente vai me desculpar, mas malfeito e corrupção não significam a mesma coisa. De acordo com os dicionários, malfeito é “feito sem perfeição, mal executado, imerecido, injusto”. É uma definição suave para o que levou à demissão recente de alguns ministros de seu gabinete. Já o significado de corrupção justifica plenamente a saída da trupe ministerial: “Ato ou efeito de corromper, de fazer degenerar, depravação; ação de seduzir por dinheiro, presentes etc, levando alguém a afastar-se da retidão”.

O que há mais no poder de hoje no Brasil é alguém afastando-se da retidão. E não dá para confundir isso com malfeitos.

Um cafezinho pode ser malfeito, mas dificilmente será considerado corrupto. Um ministro pode ser corrupto, mas é pouco provável que seja malfeito (se bem que, em alguns casos, a natureza tenha até contribuído para que alguns sejam considerados assim, Mas todo mundo sabe que não é isso que Dilma quer dizer).

Dilma é mestre em fazer discursos com palavras da moda que supostamente dão mais valor ao que ela diz. Ela chama “rede social” de “ferramenta” e insiste no verbo “disponibilizar”.

No Brasil, políticos têm mania de não utilizar a palavra certa. O PT, por exemplo, prefere chamar de “regulação da mídia” o que é, na verdade, “censura à imprensa”.

Nesta questão, a gente não pode se queixar do presidente Lula. Ele fala exatamente o que quer dizer. No mesmo dia em que Dilma disponibilizava seu discurso na ONU, Lula dava declarações objetivas em Salvador. “O político tem que ter casco duro”, ensinou. “Ela vai passar a vassoura”, disse, referindo-se a Dilma, mesmo sabendo que ela não gosta de ser chamada de faxineira.

Há algo, porém, que irrita mais do que os malfeitos de Dilma ou os cascos duros de Lula. É uma expressão que atacou as autoridades do Rio e parece um mal sem cura. Quando um bondinho de Santa Teresa descarrila matando seus passageiros ou quando um paciente em estado grave passa oito horas seguidas batendo de porta em porta tentando entrar num hospital público, a declaração da autoridade é sempre a mesma: “Vou abrir uma sindicância para apurar os fatos”. É um eufemismo também. O que eles querem dizer é “não vai acontecer nada”. E fica tudo como antes até a próxima tragédia com os transportes públicos ou a próxima displicência revelada pelos hospitais da rede pública. Como diria a presidente Dilma: Isso é que é malfeito.

Artur Xexéo é colunista do jornal "O Globo"

Email: axexeo@oglobo.com.br

Enviado por Berenice

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