SÓ DAQUI A 50 ANOS

Autor: Zuenir Ventura

A exemplo de milhares de cariocas que passam diariamente pelo Aterro do Flamengo, você talvez não tenha reparado ainda num espetáculo que só vai se repetir daqui a mais ou menos 50 anos. É a floração da Corypha umbraculifera, uma palmeira rara, originária do Sri Lanka, que floresce apenas uma vex na vida durante uns seis meses, e em seguida morre, deixando, porém, centenas de sementes que um dia voltarão a ser flores.

Ainda é tempo de curtir esse belo fenômeno de uma natureza que ultimamente só nos tem oferecido imagens de catástrofes. Indo na direção da cidade, pode-se observá-lo nas árvores de copas em forma de buquê (na altura do número 200 da Praia do Flamengo, em frente ao Hotel Glória e junto ao Monumento aos Pracinhas).

Com a Corypha deve-se adotar a atitude que João Cabral recomendava para a poesia - não poetizar o poema nem perfumar a flor. Ambas, poesia e Corypha, já contêm lirismo próprio. Da biografia oficial da palameira, por exemplo, consta: é a maior inflorescência do reino vegetal. De grande porte, chega a alcançar 20 metros de altura até o início da floração, quando entra em decadência, surgindo, porém, uma nova copa de 8 metros de diâmetro, constituída de mais de um milhão de pequenas flores brancas. Cumprida sua parte na tarefa de perpetuação da espécie, a palmeira finaliza seu ciclo vital.

Como a Corypha veio parar no Brasil eu não sei, o que soube é que em 1994 a sua primeira floração no Sítio Burle Marx foi recebida como se fosse uma homenagem natural ao paisagista, já que o processo teve início uma semana após sua morte. Dizem que um visitante certa vez comentou que, se a planta levava tanto tempo para florir, ele não a veria. Burle Marx respondeu: "Assim como alguém plantou para que eu pudesse ver, estou plantando para que outros a vejam."

Coisa parecida está acontecendo agora no Aterro. As Coryphas umbraculíferas deixaram para florescer justamente quando o nosso grande paisagista completaria 100 anos. Pode ser um acaso, mas também mais uma merecida homenagem dessa exótica espécie a quem a tratou tão bem.

Sempre tive o imprudente hábito de expor minha careca ao inclemente sol carioca. Quando me recomendavam chapéu, eu dizia que contra os raios cancerígenos me bastava protetor solar. Pois acabo de descobrir que, como os políticos, esses filtros também não são confiáveis. Em um teste, oito entre dez bloqueadores foram reprovados, inclusive o que eu usava, o Nívea (só o Cenoura & Bronze e o L'Oreal Solar Expertise passaram). Um detalhe. As análises obedeceram às normas da União Européia. Pelos padrões da Anvisa, todos seriam aprovados. Quer dizer: a nossa agência de vigilância parece tão leniente com as transgressões quanto a nossa Justiça.

Zuenir Ventura
Colunista do "O Globo"
zuenir@oglobo.com.br

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