CRÔNICAS
| CADA PALAVRA POR UM FIO CIRCUNCISÃO POSSO
ERRAR? SEMPRE
EXISTIRÁ ALGO A MAIS DERMATOLOGISTA GRITO
DE AMOR E CÓLERA SEM
MEDO DO PASSADO NINGUÉM
É INSUBSTITUÍVEL OUTRA
FUNÇÃO DO LIXO GORDO
NO MOTEL VIAGEM
SENTIMENTAL A SANTOS TENTE
OUTRA VEZ MEU
PAI ESTÁ COM ALZHEIMER SER CHIQUE É UMA QUESTÃO DE ATITUDE UM DURANGO NA DASLU PARECE QUE FOI ONTEM... ADULTOS: JÁ PRA BRINCADEIRA! MORRER É RIDÍCULO VIVER DESPENTEADA VESTIBULANDO GENTE FINA... O VENDEDOR DE PALAVRAS COMO SE EDUCA SEM VIOLÊNCIA MANGIARE CONSELHOS PARA OS JOVENS |
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A Ufes acaba de lançar, por meio do programa de pós-graduação em Letras, a revista “Contexto” n. 16. Nela tive o prazer de publicar o texto “Uma recriação fiel: diálogos entre o autor e o seu tradutor”, resultado de uma palestra ministrada ao lado do amigo Wilbert Salgueiro e mediada por Jô Drumond. A plateia repleta no IC-4 tornou o momento mais agradável e prazeroso, além de rico em perguntas e manifestações. Entre 1963 e 1967, Guimarães Rosa e Curt Meyer Clason, dois grandes conhecedores de vários idiomas, trocaram perto de 60 cartas, registrando discussões linguísticas profundas sobre as traduções da obra do escritor mineiro para a língua alemã. Ao ler então a minha tradução para o português de suas cartas enviadas a Guimarães Rosa, assim me escreveu Curt Meyer Clason: “Li com atenção e curiosidade a tradução de minhas cartas dirigidas a João Guimarães Rosa...: magnífica!” Além de uma ponta de orgulho, tive a real sensação de um dever cumprido, pois esta avaliação, feita por um dos maiores tradutores do mundo ocidental, foi também motivo de alegria e certeza de que consegui transmitir as sutilezas discutidas por dois grandes intelectuais do mundo ocidental. Além da consulta constante aos livros de Guimarães Rosa citados ao longo das cartas e a pesquisa do significado das raízes de determinadas palavras alemãs utilizadas por Clason, em sua busca de uma correspondência perfeita com as criações rosianas, procurei dar o tom de coloquialidade de uma conversa entre dois grandes amigos e colaboradores. Mas sem perder de vista de que se tratava de questões complexas e extremamente importantes para a transposição de uma obra tão brasileira e, ao mesmo tempo, tão universal, para um contexto tão distante e diverso como o alemão. Ao final, ficou a sensação de ter sido bem-sucedido. Tradutor de Drummond, Mário de Andrade, João Cabral e Ferreira Gullar, entre outros, C.M. Clason assumiu o grande desafio em sua vida de traduzir para o alemão quase toda a obra de Guimarães Rosa. Em discurso na Academia Brasileira de Letras em 1965, ao receber a medalha Machado de Assis por suas traduções, afirmou: “Para Guimarães Rosa, escrever era inspiração, impulso, delírio e, ao mesmo tempo, trabalho de laboratório, montar, rejeitar e procurar novamente”. Escrever era a prova incessante de sua vida. O livro é de fundamental importância a todos que se interessam por literatura, interculturalidade e, sobretudo, pelo fenômeno da tradução. Ou nas palavras de Guimarães Rosa: “A gente morre é para provar que viveu”. Parabéns aos organizadores da revista. Autor: Erlon José Paschoal |
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Há pouco tempo fui obrigada a lavar meus cabelos com o xampu errado. Foi num hotel, onde cheguei pouco antes de fazer uma palestra e, depois de ver que tinha deixado meu xampu em casa, descobri que não havia farmácia nem shopping num raio de 10 quilômetros. A única opção era usar o dois-em-um (xampu com efeito condicionador) do kit do hotel. Opção? Maneira de dizer. Meus cabelos, superoleosos, grudam só de ouvir a palavra condicionador. Mas fui em frente. Apliquei o produto cautelosamente, enxaguei, fiz a escova de praxe e... surpresa! Os cabelos ficaram soltos e brilhantes tudo aquilo que meus nove vidros de xampu certo que deixei em casa costumam prometer para nem sempre cumprir. Foi aí que me dei conta do quanto a gente se esforça para fazer a coisa certa, comprar o produto certo, usar a roupa certa, dizer a coisa certa e a pergunta que não quer calar é: certa pra quem? Ou: certa por quê? O homem certo, por exemplo: existe ficção maior do que essa? Minha amiga se casou com um exemplar da espécie depois de namorá-lo sete anos. Levou um mês para descobrir que estava com o marido errado. Ele foi certo até colocar a aliança. O que faz surgir outra pergunta: certo até quando? Porque o certo de hoje pode se transformar no equívoco monumental de amanhã. Ou o contrário: existem homens que chegam com aquele jeito de nada a ver, vão ficando e, quando você se assusta, está casada e feliz com um deles. E as roupas? Quantos sábados você já passou num shopping procurando o vestido certo e os sapatos certos para aquele casamento chiquérrimo e, na hora de sair para a festa, você se olha no espelho e tem a sensação de que está tudo errado? As vendedoras juraram que era a escolha perfeita, mas talvez você se sentisse melhor com uma dose menor de per feição. Eu mesma já fui para várias festas me sentindo fantasiada. Estava com a roupa certa, mas o que eu queria mesmo era ter ficado mais parecida comigo mesma, nem que fosse para errar. Outro dia fui dar uma bronca numa amiga que insiste em fumar, apesar dos problemas de saúde, e ela me respondeu: Eu sei que está errado, mas a gente tem que fazer alguma coisa errada na vida, senão fica tudo muito sem graça. O que eu queria mesmo era trair meu marido, mas isso eu não tenho coragem. Então eu fumo. Sem entrar no mérito da questão da traição ou do cigarro, concordo que viver é, eventualmente, poder escorregar ou sair do tom. O mundo está cheio de regras, que vão desde nosso guarda-roupa, passando por cosméticos e dietas, até o que vamos dizer na entrevista de emprego, o vinho que devemos pedir no restaurante, o desempenho sexual que nos torna parceiros interessantes, o restaurante que está na moda, o celular que dá sta tus, a idade que devemos aparentar. Obedecer, ou acertar, sempre é fazer um pacto com o óbvio, renunciar ao inesperado. O filósofo Mario Sergio Cortella conta que muitas pessoas se surpreendem quando constatam que ele não sabe dirigir e tem sempre alguém que pergunta: Como assim?! Você não dirige?!. Com toda a calma, ele responde: Não, eu não dirijo. Também não boto ovo, não fabrico rádios tem um punhado de coisas que eu não faço. Não temos que fazer tudo que esperam que a gente faça nem acertar sempre no que fazemos. Como diz Sofia, agente de viagens que adora questionar regras: Não sou obrigada a gostar de comida japonesa, nem a ter manequim 38 e, muito menos, a achar normal uma vida sem carboidratos. O certo ou o certo pode até ser bom. Mas às vezes merecemos aposentar régua e compasso. Autora: Leila Ferreira |
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O dia-a-dia é feito no dia-a-dia, de improviso. Mapear é obrigatório, ajuda, simplifica, mas ninguém está seguro. Não se sabe qual o passo seguinte. Autoconfiantes, muitas vezes estamos seguros quanto à nossa determinação, e saltamos, apoiando o pé exatamente onde determinou a vontade. O
solo, por ser desconhecido, pode guardar surpresas. Se for lodoso,
escorrega-se; se for úmido e frouxo, atola-se. São as
forças contrárias da vida (desacertos, imprevistos,
mal-atendidos, assincronismos) exercendo seu poder; elas interagem
com o nosso desejo intenso de que o pé alcance o apoio seguinte. A
energia da alma - aquela força inexplicável que chacoalha
o corpo e abastece a mente de coragem e persistência - avança,
bate no desconhecido; o medo e a incerteza rebatem. O
homem foi criado para sobreviver e adaptado para suportar situações
extremas. Tem inteligência para antever o perigo, reflexo e
astúcia para se defender caso não haja tempo do emprego
sobre a inteligência. O combatente jamais pode partir para guerra
e enfrentar o inimigo pensando em ser alvejado. Os deuses conspiram, e vez ou outra dão uma mãozinha. Mas só vez ou outra. Não querem que nos tornemos dependentes, limitados. É a vida. Ela lembra o jogo de xadrez onde o vencedor é aquele que enxerga mais longe que o adversário, que põe a peça em lugar protegido, sabendo quais as opções do oponente; ganha o que é ousado, autoconfiante, desconfiado, o que jamais subestima seu adversário. Enfim, quem ganha é aquele que faz o certo em menos tempo. A
melhor hora de desistir talvez venha ser a que antecede o início.
Muitos desistem no meio, inúmeros morrem na areia. Sobram os
tenazes porque foram vigilantes. Daí a importância de
se contar, em relação a todo projeto, com a paciência
e um planejamento ajustado para que algumas etapas não sejam
desconsideradas. Se de um lado a vida é um edifício de planejamento; se de outro, um salto rumo ao desconhecido, o certo é que ninguém estará seguro porque sempre haverá um futuro, um amanhã. Talvez seja melhor esquecê-lo, atendo-se apenas ao presente, e pensar como Ralph Emerson, que disse: "Com o passado, eu não tenho nada que fazer; nem com o futuro. Eu vivo o agora." Autor:
Célio Furtado |
Visita
de rotina aos médicos. Todo ano a mesma peregrinação. Já
era hora de procurar uns creminhos mágicos para tentar retardar
ao máximo as marcas da inevitável entrada nos "ENTA". Na verdade, sentia-me espetacular. Tudo certo. Ninguém podia cantar para mim a ridícula frase da Calcanhoto "nada ficou no lugar..." Mas
não sei o que deu no espelho lá de casa, que resolveu,
do dia para a noite, tomar ares de conto de fadas. Aliás, de
bruxas. E mostrar coisinhas que nunca haviam aparecido. (Ou eu não
havia notado?) Pontinhos azuis nos tornozelos, pintinhas negras no
colo, nos braços, bolinhas vermelhas na bunda...olheiras mais
profundas... Assim...
sem avisar nem nada. De repente, o idiota resolveu mostrar e pronto.
Ah, não! Isso não vai ficar assim. ISTA novo na lista
do convênio. O melhor. Queria o melhor especialista de todos
os ISTAS... Pois sim. O sujeito
era um dermatologista famoso. Via e futucava a pele de toda a nata
feminina e masculina da cidade. Assim, me armei de humildade. Fiquei vermelha
como um tomate. E muda.
E a histérica aqui começou a rir... No
carro comecei a falar sozinha... tudo o que deveria ter dito e não
disse: "Trabalho muito, doutor... muitas noites vou dormir às
2h, escrevendo e lendo. Bebo e fumo. Tomo café. Saio pelas
noites de boemia com os amigos e os violões para as serenatas
de lua cheia.... e que noites!!!! Doutor
Fulustreco, na minha idade não vou viver como se tivesse feito
trinta anos em um!!! Até um dia desses tinha 39... e agora
em vez de 40 estou fazendo 70??? Nunca
fiz o que me recomendou o fulustreco ISTA... Autora:
Nora Borges |
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Dias atrás revi o belo filme de Aluízio Abranches, Um Copo de Cólera, baseado na obra homônima de Raduan Nassar, tendo como protagonistas Julia Lemmertz e Alexandre Borges. Realmente, a obra de Nassar é uma verdadeira esporrada, um vômito, uma descarga irada contra o mundo, um escarro contra o semelhante, contra a vida e, quem sabe, contra o amor? Das cortinas se abrindo no início da grande cena trágico-patética, profundamente verdadeira e simulada (como no teatro!), apesar do público restrito (dois caseiros - a Mariana que usa com tanta intensidade a palavra “perplexa” - e um cachorro), passando pela agressão discursiva, verborrágica, pelo discurso hemorrágico do protagonista masculino em seu derrame cerebral que, por sua vez, precisa dos gritos secundários de uma atriz (uma das malditas insetas?) vociferando, cheia de ironia maldosa, sarcástica, pondo unhas nas palavras e bradando que a performance dele não passa de pura catarse, coisa de canalha, de quem não é gente, de quem não passa de um monstro, até simularem uma cena de amor/ódio brujo e verem a máscara cair no meio do picadeiro, numa mistura de esporro e porrada (haja esperma!), e o foco fechar num menino-homem prestes a ser engolido de volta ao útero, retornando-penetrando naquele órgão que de fato ele tanto ama e deseja.... Ele termina no chão, no solo, lançado de volta à terra, solitário, sem palco, sem plateia, sem luzes... Baixam-se então as cortinas... e tudo recomeça, numa nova perspectiva; a inseta retorna ao local do crime, ao pilantra fascista cuja performance só ganha sentido com a presença dela, com a coparticipação dela, com o rosto dela pedindo para ser esbofeteado... e com a irrupção das formigas. Afinal, a cólera necessita do seu anverso, da culpa, pois nesta relação doentia entre vontade de poder e volúpia da submissão, alguém tem de pagar, alguém tem de sofrer e expiar, alguém tem de esbofetear e alguém tem de dar a face para o sacrifício, numa purgação compulsiva, na qual se atiram todas as “verdades” na cara do outro, mesclando carinho e crueldade, rancor e desejo, volúpia e destruição... Será que o veneno seria então a própria cura? Se a culpa for de fato um dos motores do mundo... O que os une, e o que os separa? E o que volta a uni-los de novo, num círculo viciosamente intermitente? O copo de cólera derramado, jogado contra o objeto de amor, espatifado no chão do mundo estarrecido, aquela máscara crispada e fora de si expelindo goela abaixo o bofe, a carniça e o bucho, e regurgitando a atávica Weltschmerz (dor do mundo) profunda e visceral, e a outra máscara daquela femeazinha zombeteira, escarnecendo do espetáculo escandaloso e sacana, compõem apenas um momento na vida desse seres extraviados por Deus, sem nem ao menos terem a ajuda de algum diretor cênico. Um soco no estômago - como já definiram essa obra - , que nos faz pensar no reverso disso tudo: na harmonia e na paz, na realização dos desejos mais voluptuosos e no respeito ao outro, no amor pela vida, no amor por si mesmo e no amor pelo outro. Vale a pena ver e ler este soco pungente e apaixonado. Autor: Erlon José Paschoal |
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O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita. Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira? A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês...). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo. Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados... O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado. Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país. Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores. Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010. “Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”. O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real. Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores. É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil). Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer. Autor:
Fernando Henrique Cardoso |
Será mesmo que você é substituível? Na
sala de reunião de uma multinacional o diretor nervoso fala
com sua equipe de gestores. Agita
as mãos, mostra gráficos e, olhando nos olhos de cada
um ameaça: "ninguém é insubstituível". A
frase parece ecoar nas paredes da sala de reunião em meio ao
silêncio. Os
gestores se entreolham, alguns abaixam a cabeça. Ninguém
ousa falar nada. De
repente um braço se levanta e o diretor se prepara para triturar
o atrevido: Ouvi essa estória esses dias contada por um profissional que conheço e achei muito pertinente falar sobre isso. Afinal as empresas falam em descobrir talentos, reter talentos, mas, no fundo continuam achando que os profissionais são peças dentro da organização e que, quando sai um, é só encontrar outro para por no lugar. Quem substituiu ou substituirá Beethoven? Tom Jobim? Ayrton Senna? Ghandi? Frank Sinatra? Garrincha? Santos Dumont? Monteiro Lobato? Elvis Presley? Os Beatles? Jorge Amado? Pelé? Paul Newman? Tiger Woods? Albert Einstein? Picasso? Zico (até hoje o Flamengo está órfão de um Zico)? Todos esses talentos marcaram a história fazendo o que gostam e o que sabem fazer bem, ou seja, fizeram seu talento brilhar. E, portanto, são sim insubstituíveis. Cada ser humano
tem sua contribuição a dar e seu talento direcionado
para alguma coisa. Está na hora dos líderes das organizações
reverem seus conceitos e começarem a pensar em como desenvolver
o talento da sua equipe focando no brilho de seus pontos fortes e
não utilizando Ninguém lembra e nem quer saber se Beethoven era surdo, se Picasso era instável, Caymmi preguiçoso, Kennedy egocêntrico, Elvis paranóico... O que queremos é sentir o prazer produzido pelas sinfonias, obras de arte, discursos memoráveis e melodias inesquecíveis, resultado de seus talentos. Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços em descobrir os pontos fortes de cada membro. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto. Se seu gerente/coordenador, ainda está focado em 'melhorar as fraquezas' de sua equipe corre o risco de ser aquele tipo de líder que barraria Garrincha por ter as pernas tortas, Albert Einstein por ter notas baixas na escola, Beethoven por ser surdo. E na gestão dele o mundo teria perdido todos esses talentos. Nunca me esqueço de quando o Zacarias dos Trapalhões 'foi pra outras moradas'; ao iniciar o programa seguinte, o Dedé entrou em cena e falou mais ou menos assim: "Estamos
todos muito tristes com a 'partida' de nosso irmão Portanto nunca esqueça: Você é um talento único, com toda certeza ninguém te substituirá! (Nunca) "Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo, mas posso fazer alguma coisa. Por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso. O que eu faço é uma gota no meio de um oceano, mas sem ela o oceano será menor." Autor:
Não mencionado |
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Quando o caminhão de mudança, quebrou a esquina eles apontaram. Queriam trocar abraços e dizer da saudade que iam sentir... não sei o que mais. Parti. Para trás minha história em meu lixo. E meus dois amigos foram garimpar ali. Pequena montanha de guardados que perderam a função há décadas, porque quebrados, porque rasgados. Carta nenhuma. Guardo-as como segredos. Moedas antigas nunca colecionei. Pouca coisa de valor no empoeirado resto de mim. Talvez um pedaço de escultura; uma moldura descascada; um espelho; uma cruz retorcida que esculpi. Nada
além de quinquilharias sem importância e uma panela de
barro para fazer moqueca capixaba, trincada e outros teréns que
assumiram indescritível importância nas mãos daqueles
arqueólogos do coração. Toninho, professor e militante
do PT, e Jorge Eschriqui, artista plástico, que empreendeu a
mais longa das viagens anos depois. Autor: Joilson Portocalvo |
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Quando me casei pela primeira vez há uns bons 25 anos atrás, minha primeira mulher me achava um * tesão*. Descasei depois de 21 anos e me juntei com outra mulher e essa já me achava um *pesão*! Daí, estive refletindo e há certas coisas que me incomodam... Algumas ocasiões são realmente muito desagradáveis na vida de um gordo. Ir a um motel, com toda certeza, é uma delas. Tudo em um motel parece que foi projetado minuciosamente para sacanear com a cara dos obesos. Reparem só. Na grande maioria desses estabelecimentos é preciso subir uma escadaria para chegar ao quarto. Isso não se faz. Ou o gordo trepa ou sobe escada. As duas coisas no mesmo dia são impraticáveis. O gordo chega tão esgotado no quarto que parece até que já deu duas no caminho. A parceira, então, propõe uma hidromassagem para relaxar. O que, na verdade, quer dizer: ' - Por que você não vai tomar banho, seu gordo sebento?'. Já na banheira, o gordo percebe que nem a água quer ficar com ele. Metade cai fora, preferindo manter uma relação mais íntima com o chão do banheiro. Dá um friozinho na barriga. Até porque parte da barriga, como um iceberg, fica pra fora da espuma. Mas é na saída do banho que a situação fica ainda mais ridícula. Chega o fatídico momento de colocar o roupão. É triste. Com algum esforço, o cinto até fecha, mas o roupão não. Fica aquele decote tipo Luma de Oliveira, que dá pra ver até o umbigo. Só que no lugar da Luma está o Jô, saca! É constrangedor. Quando o gordo finalmente chega no quarto, a situação consegue ficar ainda pior. Se um elefante incomoda muita gente, dez elefantes de roupão refletidos nos espelhos incomodam muito mais. Para que tanto espelho? Se o próprio gordo já fica mal, imagina a parceira cercada pela manada? Se eu fosse ela, não dava mais de comer aos animais. Mas de todos os espelhos o mais cruel, sem dúvida, é o do teto. A vista é estarrecedora. Dá até para entender por que a maioria das mulheres transa com os olhos fechados. Acho que a única utilidade de tantos espelhos é prá gente conseguir ver o pinto que a barriga não deixa a gente ver ha muitos anos. Já faço até xixi no piloto automático. Eu, como sou um gordo experiente, uso uma tática infalível: ligo o ar condicionado no máximo para forçar o uso do lençol. Afinal, o que os olhos não vêem... Autor: Não mencionado |
Sempre achei que nascer de frente para o mar faz uma diferença. A gente é mais aberto, mais livre, acostumado desde criança a furar onda, respeitar o oceano, conviver com o sol aberto. A gente tem cheiro de maresia, de iodo, de areia molhada. Santista, pisciano, eu fui jogado numa piscina mal aprendi a ser gente. Meu pai era presidente do Clube Saldanha da Gama que ficava na Ponta da Praia, diante do Canal da Barra e em sua gestão construiu a piscina que ainda hoje leva o nome dele. Todas as minhas lembranças se referem a mar, água, o sacrifício de acordar cedo todas manhãs para treinar, faça sol ou chuva (não havia aquecimento de piscina na época). Mais tarde, nadar no oceano, pular do trampolim velho (hoje demolido), atravessar o canal a nado (por vezes fugindo dos navios que passavam), indo explorar do outro lado (lá ficava o lado pouco conhecido de Guarujá), ou pegar a baleeira para ir até as praias da Pouca Farinha, do Góes, ou o fechadíssimo Clube de Pesca. E também participar de travessias muitas vezes nadando com os botos ou se desviando das águas vivas. E não do lixo e entulhos como atualmente. Santos ainda hoje é uma cidade muito especial, muito boa para se viver. Na minha época de garoto ainda era melhor. Rica por causa do café e do porto, cosmopolita (muitos estrangeiros), repleta de clubes sociais ou esportivos tinha também uma inesperada vida cultural (não é a toa que de lá estava Patricia Galvão e de lá saíram Cacilda Becker, Plínio Marcos, e mais tarde Bete Mendes, Ney Latorraca, Jandira Martini, Nuno Leal Maia e etc). Era possível se andar de bicicleta por toda a cidade, plana, sem colinas era perfeita para se andar, caminhar, mesmo que fosse pela areia (santista tem orgulho de poder caminhar a beira mar, nem se ofende quando invejosos dizem que ela é cimentada!). Minha família morava ao lado do trilho do trem da Sorocabana e de fronte ao ponto do Bonde Dez. Quase todos eles eram abertos, com estribos (o fechado estilo Camarão seria mais tarde importado de São Paulo), arejados e confortáveis. Tínhamos fazenda de bananas no litoral sul (parte em Mongaguá, parte em Itanhaém), um lugar repleto de córregos e cachoeiras, onde para consumo próprio tínhamos algum gado, criação de porcos, galinhas. De tempos em tempos, chegavam latas de gordura animal, de água fresca de nascente e naturalmente bananas. Acho que devo a saúde à natação e às bananas. De tudo que é tipo e jeito, mas principalmente nanica ou branca (a banana maçã vinha sempre empedrada), amassada com aveia, transformada em bananada ou torta ou cozida ou assada. Cresci à custa de tanto potássio. Como boa família brasileira éramos descendentes de portugueses, italianos, alemães, russos (e por mãe espanhol e belga). A mesa sempre foi farta. No Natal, o avô exigia Pernil de Porco, mas o forte era o polvo (a provençal/vinagrete e/ou como risoto) e o macarrão da família (um raviolone recheado de ricota ralada , passas sem caroço, salsa picada, ovo inteiro para dar liga e um pouco de sal ) com massa feita em casa o que arregimenta até hoje um esforço coletivo. Para uma criança, Santos era uma cidade de mil delícias. Lembro ainda do sorvete de São Vicente, a bananinha seca da Leoneza, a queijadinha e o biscoito de polvinho da fábrica Praiano, o frappé de Coco do Yara, a torta Napoleão e o chantilly da primeira confeitaria de frente para a Praia, a Joinville. E também da primeira lanchonete de cachorro quente que se instalou na Praça Independência (chamava-se apenas Hot Dog's) e marcou época. Do mate que tomávamos com o Paraná na praia do Canal 3 (tudo por lá e referenciado pelos números do Canais). E para refrescar as raspadinhas (gelo picado com dose de groselha ou outro tipo de licor). Meu pai era um bom garfo e desde cedo íamos ao Jangadeiro na Ponta da Praia (que era o máximo em peixes e fruto do mar, até mesmo a sopa de tartaruga hoje nada ecológica), na primeira cantina da cidade (que foi a Liliana), na famosa Caldeirada de Peixes no Marreiro, no filé Chateaubriand do Atlântico (do Hotel do mesmo nome), o filé até hoje famoso do Chopp Gonzaga onde você come no balcão. Só mais tarde é que fui descobrir o centro da cidade e seus restaurantes e bares tradicionais: O Chope do Nicanor e seu pãozinho com aliche. O Café Carioca, ao lado da Prefeitura e seus famosos pasteis, o Café Paulista, na Rua XV, centro de negócios e que inventou um creme batido de abacate com vinho do porto. O tradicional Almeida que fica até hoje no fim da Ana Costa, perto do terminal dos bondes, o único que fica aberto a noite toda e é conhecida por seu caldo verde. E saudades do requintado Chave de Ouro, em plena Boca, com madeira de Mogno e seus reservados a "la francesa". Mas o maior impacto foi mesmo causado por uma revolução gastronômica na cidade, quando chegou o Don Fabrizio da Família Tattini que ficava no Edifício Lutécia, ao lado da escola que frequentava: o Ateneu Progresso Brasileiro. Foi ali que eduquei meu gosto, desenvolvi meu paladar e criei as bases para toda minha experiência culinária. Foi revolucionário na introdução dos "réchauds" (os garçons é que concluíam o prato na sua frente) e me cativou para sempre com a sobremesa favorita até pelo nome, que me fazia quebrar a cabeça, o chamado sorvete Quente! Como era possível isso?? Acho que qualquer um, é plasmado pela infância e juventude. Passamos a vida muitas vezes correndo atrás daquilo que nunca tivemos ou perdemos ou gostaríamos de ter. Quando sinto o cheiro de maresia, o perfume da compota de goiaba de minha mãe, o show da comida em chamas do Don Fabrizio, as lembranças todas voltam e me aquecem. E parto em busca não do tempo perdido, mas do tempo vivido. Quando nem sabia que eu era feliz. Autor: Rubens Ewald Filho |
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Até que ponto se busca algo? Qual o limite? Até enquanto a vontade existir e encorajar? Até alcançar o que se busca? Ou pelo momento que a esperança perder sua força, num alerta sobre nossa impotência em face do objetivo? Ou ainda até o ponto em que a massa física, impulsionada pelos estímulos mentais, suportarem o peso de todos os impasses? O tempo cuida de encontrar as respostas para as dúvidas que afligem a existência. Ocorre que algumas respostas suscitam novas perguntas e dúvidas. Contudo, temos retirado das conclusões anteriores algumas lições importantes e proveitosas, que acabam enriquecendo o conhecimento do mundo e da sua complexa engrenagem. É a experiência. Parece que a experiência nos deixa mais ricos em opções. Se a ignorância é a causa do sofrimento, o conhecimento é o seu atenuador. Conhecendo o caminho, sabemos como chegar. Entendendo-o, chegamos com menos sofrimento. Um preceito básico. Inexperiência deixa o espírito tão vulnerável quanto a maturidade apurada. Na primeira não temos as respostas exatas, mas como a juventude desconhece o perigo a impetuosidade afasta o medo, e leva o corpo a agir. Por outro lado a maturidade proporciona sabedoria e domínio, mas cria medos. Medos como o da solidão, da velhice e da morte aterrorizam, na grande maioria, aqueles que alcançaram a maturidade mental. Sociável por natureza, o homem se apavora frente à possibilidade de conviver com a solidão. Esta, com mais freqüência, ocorre na fase da velhice. A morte não se torna uma preocupação da juventude porque o ser humano espera contar com a velhice. Mas não custa lembrar: esta, por mais chata que seja sempre é melhor que aquela. Razão: estatísticas mostram que a maioria dos suicidas se arrepende do ato precipitado. Voltando ao início do questionamento, pergunto-me: ´´ Até onde somos capazes de insistir em determinado rumo ou projeto? ´´ Até onde provarmos que ele valerá o esforço. Esta é uma resposta convincente, talvez. E se provarmos somente depois de anos ou décadas de envolvimento que não valeu a pena? Tudo vale enquanto não se prove o contrário. O correto certamente é campear a antecipação do conhecimento, reduzindo a ignorância ao mínimo. Não importa se vai aprender com o erro, o que importa é aprender. E se possível, com o mínimo de erros, claro! Numa canção Tim Maia diz que precisa contar suas agruras ao mundo inteiro, que não pode ouvi-lo. E ele acaba por aceitar que na vida uns nascem para sofrer enquanto outros riem. Prefiro seguir o caminho de Raul quando ensina algo mais animador ao cantar que a canção e a vitória não estão perdidas. E que é de batalhas que se vive. A lição é simples: Se errar, tente outra. Autor: Célio Furtado |
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Meu pai está com Alzheimer. Logo ele, que durante toda vida se dizia ''O Infalível''. Logo ele, que um dia, ao tentar me ensinar matemática, disse que as minhas orelhas eram tão grandes que batiam no teto. Logo ele que repetiu, ao longo desses 54 anos de convivência, o nome do músculo do pescoço que aprendeu quando tinha treze anos e que nunca mais esqueceu: esternocleidomastóideo. O diagnóstico médico ainda não é conclusivo, mas, para mim, basta saber que ele esquece o meu nome, mal anda, toma líquidos de canudinho, não consegue terminar uma frase, nem controla mais suas funções fisiológicas, e tem os famosos delírios paranóicos comuns nas demências tipo Alzheimer. Aliás, fico até mais tranqüilo diante do ''eu não sei ao certo'' dos médicos; prefiro isso ao ''estou absolutamente certo de que...'', frase que me dá arrepios. Há trinta anos, não ouvia sequer uma menção a essa doença maldita. Hoje, precisaria ter o triplo de dedos nas mãos para contar os casos relatados por amigos e clientes em suas famílias. O que está acontecendo? Estamos diante de um surto de Alzheimer? Finalmente nossos hábitos de vida ''moderna'' estão enviando a conta? O que os pesquisadores sabem de verdade sobre a doença? Qual é o lado oculto dessa manifestação tão dolorosa? Lendo o material disponível, chega-se a uma conclusão: essa é uma doença extremamente complexa, camaleônica, de muitas faces e ainda carregada de mistérios. Sabe-se, por exemplo, que há um componente genético. Por outro lado, o Dr. William Grant fez uma pesquisa que complicou um pouco as coisas. Ele comparou a incidência da doença em descendentes de japoneses e de africanos que vivem nos EUA, e com japoneses e nigerianos que ainda vivem em seus respectivos países. Ele encontrou uma incidência da doença da ordem de 4,1 para os descendentes de japoneses que vivem na América, contra apenas 1,8 de japoneses do Japão. Os afro-americanos vão mais longe: 6,2 desenvolvem a doença, enquanto apenas 1,4 dos nigerianos são atingidos por ela. Hábitos alimentares? Stress das pressões do Primeiro Mundo? Mas o Japão não é Primeiro Mundo? Não tem stress? A alimentação parece ser sem dúvida um elo nessa corrente, e mais ainda o alumínio. Segundo algumas pesquisas, a incidência de alumínio encontrada nos cérebros de portadores da doença é assustadoramente alta. Pesquisas feitas na Austrália e em alguns países da Europa mostraram que, em ratos alimentados com uma dieta rica, o sulfato de alumínio (comumente colocado na água potável para matar bactérias) danificou os cérebros dos roedores de forma muito similar à causada aos humanos pelo Alzheimer. Pesquisas do Dr. Joseph Sobel, da Universidade da Califórnia do Sul, mostraram que a incidência da doença é três vezes maior em pessoas expostas à radiação elétrica (trabalhadores que ficavam próximos a redes de alta tensão ou a máquinas elétricas). Mas não param por aí as pesquisas, que apontam a arma em todas as direções. Porém, a que mais me chocou e me motivou a fazer minhas próprias elucubrações foi o estudo das freiras. Esse estudo, citado no livro A Saúde do Cérebro, do Dr. Robert Goldman, Ed. Campus, foi feito pelo Dr. Snowdon, da Universidade de Kentucky. Eles estudaram 700 freiras do convento de Notre Dame. Na verdade, eles leram e analisaram as redações autobiográficas que cada freira era obrigada a escrever logo ao entrar na ordem. Isso ocorria quando elas tinham em média 20 anos. Essas freiras (um dos grupos mais homogêneos possíveis, o que reduz muito as variáveis que deveriam ser controladas) foram examinadas regularmente e seus cérebros investigados após suas mortes. O que se constatou foi surpreendente. As que melhor se saíram nos testes cognitivos e nas redações - em termos de clareza de raciocínio, objetividade, vocabulário, capacidade de expressar suas idéias, mesmo apresentando os acidentes neurológicos típicos do Alzheimer (placas e massas fibrosas de tecido morto) - não desenvolveram a demência característica da doença. Ou seja, elas tinham as mesmas seqüelas que as outras freiras com Alzheimer diagnosticado (e que tiveram baixos escores em testes cognitivos e na redação), mas não os sintomas clássicos, como os do meu pai. A minha interpretação de tudo isso: não temos muito como controlar todos os fatores de risco apontados como vilões - alimentação, pressão alta, contaminação ambiental, stress, e a genética (por enquanto). Mas podemos colocar o nosso cérebro para trabalhar. Como? Lendo muito, escrevendo, buscando a clareza das idéias, criando novos circuitos neurais que venham a substituir os afetados pela idade e pela vida ''bandida''. Meu conselho: não sejam infalíveis como o meu pobre pai, não cheguem ao topo nunca, pois dali, só há um caminho: descer. Inventem novos desafios, façam palavras cruzadas, forcem a memória, não só com drogas (não nego a sua eficácia, principalmente as nootrópicas), mas correndo atrás dos vazios e lapsos. Eu não sossego enquanto não lembro do nome de algum velho conhecido, ou de uma localidade onde estive há trinta anos. Leiam e se empenhem em entender o que está escrito, e aprendam outra língua, mesmo aos sessenta anos. Não existem estudos provando que o Alzheimer é a moléstia preferida dos arrogantes, autoritários e auto-suficientes, mas a minha experiência mostra que pode haver alguma coisa nesse mato. Coloquem a palavra FELICIDADE no topo da sua lista de prioridades: 7 de cada 10 doentes nunca ligaram para essas ''bobagens'' e viveram vidas medíocres e infelizes - muitos nem mesmo tinham consciência disso. Mantenha-se interessado no mundo, nas pessoas, no futuro. Invente novas receitas, experimente (não gosta de ir para a cozinha? Hum... preocupante). Lute, lute sempre, por uma causa, por um ideal, pela felicidade. Parodiando Maiakovski, que disse ''melhor morrer de vodca do que de tédio'', eu digo: melhor morrer lutando o bom combate do que ter a personalidade roubada pelo Alzheimer. E ''inté'', amigos, que eu vou me cuidar. Dicas para escapar do Alzheimer Uma descoberta dentro da Neurociência vem revelar que o cérebro mantém a capacidade extraordinária de crescer e mudar o padrão de suas conexões. Os autores desta descoberta, Lawrence Katz e Manning Rubin (2000), revelam que NEURÓBICA, a ''aeróbica dos neurônios'', é uma nova forma de exercício cerebral projetada para manter o cérebro ágil e saudável, criando novos e diferentes padrões de atividades dos neurônios em seu cérebro. Cerca de 80% do nosso dia-a-dia é ocupado por rotinas que, apesar de terem a vantagem de reduzir o esforço intelectual, escondem um efeito perverso: limitam o cérebro. Para contrariar essa tendência, é necessário praticar exercícios ''cerebrais'' que fazem as pessoas pensarem somente no que estão fazendo, concentrando-se na tarefa. O desafio da NEURÓBICA é fazer tudo aquilo que contraria as rotinas, obrigando o cérebro a um trabalho adicional. Tente fazer um teste: A proposta é mudar o comportamento rotineiro. Tente, faça alguma coisa diferente com seu outro lado e estimule o seu cérebro. Vale a pena tentar! Que tal começar a praticar agora, trocando o mouse de lado? FAÇA ESTE TESTE!!! "Enquanto o homem continuar a ser destruidor impiedoso dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor." (Pitágoras) Autor:
Roberto Goldkorn Enviado por: Marly Santanelli |
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Sempre tive vontade de conhecer essa tal de Daslu. A entrada já foi um problema. O segurança perguntou pelo meu carro – ou motorista. Quem já foi sabe muito bem: na Daslu - acreditem - não se entra a pé, somente Fui recepcionado por uma loira escultural com sorriso de anúncio de dentifrício, uma sósia escrita e escarrada da Ana Hickman - com direito a 1m30 de pernas, chapinha no cabelo, olho azul e muito mais. - 'Where are you from?'. Tava na cara que eu não era paulistano. Mas daí a me confundir com gringo, já é demais. Eu lá tenho cara de estrangeiro! Como um cão sabujo, onde eu ia, ela ia Dos milhares de itens que admirei boquiaberto, um em particular me encantou. Uma bolsa tiracolo Prada pra lá de maneira que imaginei que coubesse no meu orçamento. Ressabiado, indaguei o preço. - 'Nove, apenas nove. E o senhor pode dividir em três vezes no cartão'. - 'Nove o quê?' A pequena ficou tão assustada com minha reaão que cheguei a pensar que fosse chamar os seguranças. Mas não. Acho que ela sacou que daquele mato não sairia Entrei num salão onde só tinha Armani. Como já estava enturmado, perguntei o preço de um 'vestidinho' de festa. Adivinhem? 100.000 pilas. Tu és doido! Uma estola de zibelina? 60.000. Fico imaginando quantos bichinhos foram sacrificados para esquentar o lombo de uma madame. Um blaser Ermenegildo Zegna (isso lá é nome de grife?), 13.000. Um óculos Gucci, 4.500. Uma cuequinha básica do Valentino, 260. Com direito a ouvir essa pérola do vendedor: Na adega climatizada não foi diferente. Um Romaneé-Conti, safra 2000 - aquele do Lula - estava por módicos 8.000 reais. Uma garrafa de Johnnie Walker Blue, envelhecida 80 anos - uma das raras existentes no planeta, 55.000. Fiz as contas e verifiquei que no final saí no lucro. 'Charlei', vi gente famosa, coisas bonitas, tomei mineral Badoit, capuccino, Prosecco, champanhe Taittinger, fartei-me de canapés, fois gras, blinis com caviar (não era Beluga). Sou duro, mas sei o que é bom. Até confit de canard tracei. De quebra, profiteroles e apetitosos bombons trufados. As horas passaram voando. Minha acompanhante finalmente apareceu e perguntou: Depois de conhecer quase tudo descobri que a Daslu é uma espécie de zoológico sem grades. Só que os bichos somos nós. Eu e você. Acabado, me esparramei num Me deu uma raiva... Peguei meu celular e resolvi mentir um pouco: Autor: Denis Cavalcante |
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As cenas passam, lentamente, como num filme ora preto e branco ora colorido. O fundo musical é suave, delicado... Ouço ao longe : "Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer"...As imagens surgem..."Como é grande, o meu amor, por você"... Vejo um bebê, mínimo, delicado, com dois quilos e novecentas gramas, carequinha, olhinhos cor de mel, envolto em uma manta branca carinhosamente bordada. Muda a cena. Agora o bebê engatinha, medroso ao dar os primeiros passos, mas muito atento aos perigos a sua volta, em suas pequenas travessuras. Vai crescendo a criança, amável, educada, carinhosa. Nas brincadeiras com seus primos(as), amiguinhos(as), quando se irritava, defendia-se dando mordidas, que lhe valiam uns sermões e castigos. O tempo passa... Vai para a escola, adorava as épocas de festas juninas, liderar trabalhos em grupos, sempre muito falante e de bom papo que deixava a todos encantados. "Essa garota é papo firme..." No ballet, era esforçada, sempre gostou de dançar. Todos os anos uma fantasia diferente e como brincava... Nos clubes, nos blocos de rua, era de uma alegria contagiante, nunca se cansava. Vaidosa, desde o primeiro aninho, sempre soube escolher, sozinha, suas vestimentas, seus calçados. "Olha que coisa mais linda mais cheia de graça"... Garota de Ipanema seria a música ideal para defini-la. Quando passava a caminho do mar com seu gingado e corpo escultural, cabelos longos, cacheados, gostava de jogar frescobol. Morenaça!!! Convite para fotos e filmagens, pululavam aos montes, alguns foram aceitos. "Virgem, menina morena, nos cabelos uma trança"... Muda a cena, vejo-a namorando, mas não era muito chegada a garotinhos da sua idade, preferindo rapazes com mais idade. "No rosto um jeito de criança, na voz um canto mulher"... Seus quinze anos, passaram raspados, avessa a festança, arrependeu-se, e aos dezoito, quis comemorar com toda a pompa. "A menina, na janela, botão em flor se abrindo"... Trocam-se as imagens... Sua formatura, linda e realizada com o canudo em mãos, era só alegria. O presente? Quarenta dias na paradisíaca Ilha de Bali. Quase não acreditei, quando a vi chegar... Lenço estampado nos cabelos, óculos escuros sobre o nariz, calça jeans rasgada, faixa no cós baixo ... Parecia uma Hippie ... Estava linda ! Maravilhosa.! Um espanto.!!! Câmara lenta... Vestido branco, de noiva, deslumbrante, o sonho ideal. O amor falou mais alto, num altar cheio de flores." Na história de um poeta, a menina acreditou"... Felicidade, paixão, esperança e...surpresa na cena seguinte: alegria geral, risos... Entra um novo personagem: Um robusto garotinho de olhos negros amendoados, carequinha, vindo para acabar com a rotina dos familiares e do seu dia a dia. Pausa ... mais lentamente... Nem tudo são flores, nem alegria, cenas tristes, chorosas, inesperadas, fizeram parte da sua vida, do seu destino. Mas a vida continua, foste forte, soubeste ter e dar coragem, força, driblar as fragilidades, as amargas agruras da vida, amparar a sua família e a si própria. "E nos olhos da menina, uma lágrima rolou"... O tempo passa, o sol volta a brilhar e a alegria ressurge das trevas afastando as sombras e abrindo seu sorriso cheio de vida e amor. E desse amor, surgiu, para felicidades de todos, duas criaturinhas encantadoras, duas fadas princesas, saídas de nuvens cor de rosas perfumadas. O filme continua rodando, agora, com maior número de personagens e cenas longas, imagens coloridas, ora tristes, ora alegres, felizes, mas na certeza que a continuação será trabalhosa ...Demorada ... Um longa que durou quarenta anos para ser visto, apreciado,sentido... "Mulher de quarenta, eu quero ser, o seu namorado".... A noite chega, e com ela, a lua cor de prata, dos amantes, dos amados. "Eu sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores"... As estrelas cintilam no céu, de um azul cobalto, enquanto festeja com sua pequena família, soprando a vela do bolo, lhe desejamos felicidades, que sua vida seja longa, tão longa que esses quarenta anos... mais pareçam que foi ontem... (Esta crônica foi escrita em homenagem aos 40 anos da filha Sheyla Beta). Autora: Yna Beta |
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Para conservar a curiosidade, a imaginação e a transgressão, é importante brincar sempre Alguns mitos precisam ser derrubados. Um deles é que a infância termina quando ficamos grandes. Quem pensa assim considera que infância é apenas uma fase da vida, um ciclo biológico durante o qual o corpo cresce aceleradamente e importantes mudanças fisiológicas acontecem. Mas há quem ache que infância é mais que isso, é um estado de espírito, cheio de qualidades que promovem o desenvolvimento da alma. Ao pensar dessa forma, aceitam que ela não termina quando começa a idade adulta; ao contrário, persiste por toda a vida. Estou nesse grupo. Há pelo menos três qualidades na criança, necessárias para permitir sua interação com mundo: a curiosidade, a imaginação e a transgressão criativa. A primeira serve para que ela acelere o processo de percepção e entendimento do mundo; a segunda, para que ela crie, em sua cabecinha, o mundo que ela deseja, sem as mazelas que ela vai percebendo que existem; e a terceira, para que ela ouse modificá-lo para dar lugar a esse mundo ideal. Sem essas três características humanas, que nascem conosco, provavelmente ainda estaríamos na Idade da Pedra. Foram elas que promoveram a evolução, o desenvolvimento, todo o conjunto de coisas que inventamos ao longo de todos esses séculos. Pois bem, essas qualidades são infantis, primárias, precoces, mas podem perdurar pela vida, conservando, no adulto, um jeito de criança. O problema é que nós teimamos em acabar com essas qualidades quando crescemos, porque alguém – provavelmente um grande chato – disse que elas não combinam com ser sério e responsável. Ora, o que seria dos inventores, dos artistas, dos poetas, dos cientistas e dos grandes promotores de mudanças se eles não tivessem conservado em si a curiosidade, a imaginação e a transgressão? Aliás, foi Einstein quem disse que a imaginação é mais importante que o conhecimento. E depois foi tirar aquela foto de língua para fora, brincando com o fotógrafo e com o mundo. Então, o adulto pode continuar a brincar sem parecer ridículo? Estou escrevendo este artigo nos Estados Unidos, aonde vim para um curto período de estudo e, claro, diversão. Aqui eles têm um ditado curioso a esse respeito. Dizem: “The difference between men and boys is the price of the toys” (a diferença entre homens e meninos é o preço dos brinquedos). Eu sei, trata-se de uma frase com forte apelo consumista e de gosto duvidoso, mas mostra como funciona a cabeça dessse povo, que desenvolveu a maior indústria de entretenimento do mundo, além de dar uma pista da essência do ser humano. Por acaso, uma das pessoas a quem vim conhecer foi o Dr. Elkhonon Goldberg. Trata-se de um neurocientista de origem russa, pesquisador na Universidade de Nova York e autor de vários livros, entre eles O Paradoxo da Sabedoria, em que ele mostra que a mente pode manter-se lúcida e ativa apesar do envelhecimento do cérebro. Uma das condições, ele insiste, é manter-se capaz de brincar, especialmente consigo mesmo. Quando cheguei a seu gabinete, o Dr. Goldberg abriu a porta e foi logo me perguntando se eu me incomodava com a presença de animais. Eu respondi que não, que gostava muito, que tinha duas cachorras e uma gata em casa. Ele então me fez entrar e eu pude ver em cima do sofá um imenso mastim napolitano que atendia pelo nome de Britt. Quer dizer, atendia em termos, porque demorou a ser convencido a ceder o sofá para a visita. Dr. Goldberg é uma pessoa bem-humorada. Brinca o tempo todo, de um jeito que, para os mais sisudos, talvez pareça não combinar com um cientista de renome mundial. Mas ele é assim, e em minutos eu já estava totalmente à vontade. Ao longo da conversa, entramos no assunto da importância dos estímulos ambientais para o desenvolvimento do cérebro, e foi quando ele conseguiu me surpreender ainda mais. Esticou o braço e pegou da estante um livro em russo, escrito no começo do século passado, em que o autor já se referia a esse tema. Era um original de Lev Vigotsky, um dos maiores pensadores em educação que o mundo já produziu. E, para encanto meu, havia nele uma dedicatória de sua viúva, que o presenteou diretamente ao nosso doutor. Vigotsky diz que o processo de brincar não torna o brinquedo um mero utensílio de distração, mas um gerador de situações imaginárias. Ele aponta em seu livro A Formação Social da Mente que toda brincadeira, por mais livre e espontânea que pareça, é regida por regras “ocultas”. A principal delas é que a criança quando brinca está sendo totalmente espontânea, pois está brincando de ser ela própria, ou seja, ela brinca de ser criança. Mesmo que, em sua brincadeira, ela esteja imitando um adulto – um piloto ou um bombeiro, por exemplo –, ela está brincando de criança que imita o adulto. Assim, o psicólogo russo concluiu que a brincadeira é o caminho fundamental para o desenvolvimento da mente humana, pois se trata de uma idealização da realidade, a partir da qual a criança começa a sentir-se parte do mundo, exercendo, inclusive, o poder de modificá-lo. Manter-se capaz de brincar pela vida afora é manter a capacidade de interagir com a realidade da melhor forma, com humor, imaginação e alegria. Brincar ajuda a aprender? Fragmentar a diversão como objeto de estudo é algo tão intrincado quanto completar um quebra-cabeça com mais de 1000 peças, mas também não é algo tão difícil quanto ganhar superpoderes para salvar o mundo do mal. A primeira peça é a que mostra que é só na alegria que a criança se coloca inteira. É fácil deduzir que, se ela considerar o ato de aprender uma brincadeira, isso aumentará em várias vezes sua capacidade de se concentrar. Portanto, brincar ajuda a aprender. Quem explica isso é a biologia. O biólogo evolucionista Marc Bekoff, da Universidade do Colorado, descobriu, ao comparar o cérebro humano com o de outros mamíferos, que há, entre eles, muitas semelhanças. Uma delas é a produção do neurotransmissor dopamina, responsável pela sensação de alegria e que também ajuda na construção de novas possibilidades. Em outras palavras, estimula o aprendizado. “Brincar leva a uma flexibilidade mental e a um vocabulário comportamental mais amplo que auxilia o animal a obter sucesso no que importa: dominância do grupo, seleção de companheiros, prevenção de captura e busca por alimento”, disse Bekoff. Dessa forma, ser humano e bicho funcionam de forma similar: ambos criam crescentes conexões nervosas ao longo da brincadeira, e estas ajudam a formar uma cabeça mais ágil e aberta ao novo. E há mais gente que, sem querer querendo, está metendo sua colher de pau nesse angu. Gilles Brougèr, por exemplo, é um especialista em jogos e brinquedos. Ele coloca uma pitada de semiótica na discussão ao afirmar que as brincadeiras têm signifi cado antropológico, e que não são simples passatempos. “O brinquedo é um dos reveladores de nossa cultura”, diz ele. E insiste que, ao brincar, estamos revelando o jeito de ser de nosso grupo humano. Então o brinquedo não está à sombra da sociedade, ele revela a identidade social da criança e, como consequência, do adulto que ela virá a ser. O brinquedo é o pensamento vigente em forma de objetos de plástico. Como se vê, não dá para parar de brincar; a humanidade perderia uma ótima oportunidade de entender a si mesma. E em casa? É saudável um casal manter as brincadeiras entre si e com os filhos? E como. Desde a Grécia, os antigos – e sapientíssimos – habitantes já usavam o ato lúdico para criar e curar. Arquimedes já citava que “brincar é a condição fundamental para ser sério”; os atenienses concediam peças musicais, teatros e espetáculos de comédia aos doentes; no século 16, os médicos já diagnosticavam o entretimento como o melhor medicamento para todos os males: “A alegria dilata e aquece o organismo, já a tristeza contrai e esfria o corpo”. Enfim, se você, adulto ciente e responsável, ainda não desatou a brincar, é porque ainda lhe falta maturidade. Deixar-se levar pela imaginação, não tenha medo de ir contra a maré da “adultice”, de dar risada de si mesmo, abraçar a espontaneidade, correr, gritar, pular, usar o siso somente quando necessário e abusar – e muito – do riso. Com relação aos baixinhos em casa, não tente transformá-los em mini adultos. Cursar novas línguas pode fazer bem à mente. Praticar esportes pode estimular o corpo. Aprender a tocar violoncelo pode lavar a alma. Mas desde quando rechear o dia do seu filho com tantas atividades é sinônimo de qualidade? Celular, computador, agenda cheia. Quando ele tem tempo para brincar sem estar preso à grade de horário? É difícil conciliar estudo e diversão em tempos em que escolas priorizam formar cidadãos mais “competentes para o mercado de trabalho” que “aptos para a vida”. Contudo, é bom ressaltar que aprender e brincar se complementam. Divertirse estimula a criatividade e abre novos caminhos ao aprendizado. Não tenha pressa em tornar seu pimpolho um pequeno sisudo. Ele irá adquirir competências de gente grande de um jeito ou de outro, cada coisa a seu tempo. E deixe que ele faça você se lembrar de sua infância, de um tempo passado que pode continuar ainda hoje – se você quiser –, assim você aprenderá que a infância não precisa morrer nunca. Num cemitério do Rio de Janeiro há um túmulo diferente. Nele, uma lápide revela o espírito de quem ali repousa. Diz: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”. A frase foi escolhida pelo próprio escritor mineiro para imortalizar seu maior valor – a maravilhosa capacidade de brincar. Autor: Eugenio Mussak |
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Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco do que? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente… De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinquente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas, mulheres e morre num sábado de manhã. Se fizer check-up regular e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok… Hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz. Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça. Por isso, viva tudo que há para viver. Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida… Perdoe… sempre!! Autor: Pedro Bial |
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Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie, por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade... O mundo é louco, definitivamente louco... O que é gostoso, engorda. O que é lindo, custa caro. O sol que ilumina o teu rosto enruga. E o que é realmente bom dessa vida, despenteia... Então, como sempre, cada vez que nos vejamos eu vou estar com o cabelo bagunçado... mas pode ter certeza que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida. É a lei da vida: sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, que aquela que decide não subir. Pode ser que me sinta tentada a ser uma mulher impecável, toda arrumada por dentro e por fora. O aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença: Arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça, coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique séria... e talvez deveria seguir as instruções, mas quando vão me dar a ordem de ser feliz? Por acaso não se dão conta que para ficar bonita eu tenho que me sentir bonita, a pessoa mais bonita que posso ser! O único, o que realmente importa é que ao me olhar no espelho, veja a mulher que devo ser. Por isso, minha recomendação a todas as mulheres: Entregue-se, coma coisas gostosas, beije, abrace, dance, apaixone-se, relaxe, viaje, pule, durma tarde, acorde cedo, corra, voe, cante, arrume-se para ficar linda, arrume-se para ficar confortável! Admire a paisagem, aproveite, e acima de tudo, deixa a vida te despentear! O pior que pode passar é que, rindo frente ao espelho, você precise se pentear de novo... Autor: Não mencionado |
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Que alívio, crenças e rezas não foram vãs. O além parece existir mesmo, nada indica que isso seja uma alucinação da anestesia. Do outro lado estou só e nu. Nem asas nem túnicas translúcidas e afins, o que atribuo ao fato de ser noviço na função, prestando um vestibular que me dará uma vaga no céu, no inferno ou noutro paradeiro não catalogado pela Bíblia. Faltou, por enquanto, o que sempre disseram que havia: o túnel luminoso que puxa irreversivelmente o recém-presunto, os parentes que já se foram aguardando com bolo, guaraná e faixa de boas-vindas, a vida do lado da carne passando como um filme rápido enquanto desligam as máquinas e decretam morte cerebral. Ao invés disso, eis-me aqui a poucos metros de quem fui, quase à altura do teto, feito astronauta num treino sem gravidade, sem noção precisa do que sucedeu e muito menos do que está por vir. Bóio no corpo, se é que assim ainda posso chamá-lo, e no entendimento. Vai acontecer o que está fadado e que não me cabe saber, embora sinta o poder insuspeito do arbítrio mais livre, que me permitiria, se quisesse, fechar os olhos e abri-los um segundo depois na ponte do Brooklin ou em Jacarta. Tão inédita quanto mágica, essa nova faculdade não me seduz como seria de se supor. Prefiro estar aqui em cima e assistir ao que farão de mim e do espólio quase nulo a ser em breve repartido. A estranha rédea sobre a consciência reforça a desconfiança de que esteja ligado debilmente à minha carcaça, e viva agora um impreciso devaneio de que me livrarei em poucas horas, reassumindo o sujeito com CPF, RG e obrigações a cumprir. Ninguém me assegura que não seja isso, e essa ausência de governo e coordenadas me perturbam. Mexem agora num tubo ligado ao meu braço, mas não vejo nenhuma tentativa de ressuscitação. A enfermeira anota alguma coisa na prancheta que nem tento decifrar, os óculos que usava parecem continuar fazendo falta. Previsíveis providências a serem tomadas nos próximos minutos: avisar a família, preencher os prontuários de rotina, acionar o pessoal da remoção, retirar toda a tripa – inclusa aí a meia portuguesa/meia aliche devorada antes do acidente, completar o vazio das vísceras com algodão embebido em formol, costurar, vestir e meter o infortunado que vos fala (ou vos falava) num modelito clássico de mogno maciço. Cubro o rosto daqui de cima para não ver o rosto de baixo escondido até a testa com o lençol azul. “Near death experience”, uma vez entrei num site que falava sobre isso. Se retornar posso dar meu testemunho, já engrossando as estatísticas dos que quase foram. Mas pelo jeito fui mesmo, embora sem garantias de ter ido ao certo, estando assim até segunda ordem nesse lodo movediço. A televisão do quarto fala sobre mim, mostrando uma foto antiga em que ainda tinha barba. Ou foi muito feia a causa mortis ou era famoso e não me recordo. A enfermeira cruza minhas mãos sobre o peito e aumenta o volume do aparelho para ouvir a reportagem, ao mesmo tempo em que a imprensa vai invadindo o quarto e disparando flashes. Autor: Marcelo Sguassábia |
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Gente fina é aquela que é tão especial que a gente nem percebe se é gorda, magra, velha, moça, loira, morena, alta ou baixa. Ela é gente fina, ou seja, está acima de qualquer classificação. Todos a querem por perto. Tem um astral leve, mas sabe aprofundar as questões, quando necessário. É simpática, mas não bobalhona. É uma pessoa direita, mas não escravizada pelos certos e errados: sabe transgredir sem agredir. Gente fina é aquela que é generosa, mas não banana. Te ajuda, mas permite que você cresça sozinho. Gente fina diz mais sim do que não, e faz isso naturalmente, não é para agradar. Gente fina se sente confortável em qualquer ambiente: num boteco de beira de estrada e num castelo no interior da Escócia. Gente fina não julga ninguém - tem opinião, apenas. Um novo começo de era, com gente fina, elegante e sincera. O que mais se pode querer? Gente fina não esnoba, não humilha, não trapaceia, não compete e, como o próprio nome diz, não engrossa. Não veio ao mundo pra colocar areia no projeto dos outros. Ela não pesa, mesmo sendo gorda, e não é leviana, mesmo sendo magra. Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença. Enviado por: Carmem Marina |
A mesa posta é cama feita. |
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