CRÔNICAS

VIRTUALIDADE E APARÊNCIA
Autor: Erlon José Paschoal

A LUA CRESCE NO CÉU DE FRIBURGO
Autor: Sebastião Guerra

SANTO PECADO
Autor: Nelson Valente

CAÍ NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR
Autor: Eduardo Galeano
Enviado por: Abigail Tenório

A DITADURA DO POLITICAMENTE CORRETO
Autor: Rodrigo Constantino

VIDA APÓS A VIDA
Autor: Bemvindo Sequeira

A POESIA DA VIDA
Autor: Erlon José Paschoal

SOBRE CAZUZA E RENATO RUSSO
Autor: Durval Baranowske
Enviado por: Bruno Baranow

A OBESIDADE MENTAL
Autor: Andrew Oitke
Enviado por: Odelmo Teixeira

A REVOLUÇÃO SILENCIOSA
Autor: Diego Casagrande
Enviado por: Yna Beta / Dion de Assis Tavora

VIVER DESPENTEADA
Autor: Não mencionado
Enviado por: Cristina Tibau

O CRONISTA SEM JORNAL
Autor: Felipe Pena

O QUE MATOU RAFAEL?
Autora: Elisa Lucinda
Enviado por: Dion de Assis Tavora

O FUTEBOL DOS MASCARADOS
Autor: Jorge Forbes

AMOR E ÓDIO
Autor: Célio Furtado

BELEZA DA IMPERFEIÇÃO
Autor: Erlon José Paschoal

QUAL É A VONTADE DE DEUS PARA MIM?
Autor: Caio Fabio
Enviado por: Henrique Neiva

COM TODO O CARINHO: CALA A BOCA, DILMA!
Autor: Guilherme Fiuza
Enviado por: Filipe Morais

A ORDEM NA DESORDEM
Autor: Marco Antonio Coutinho Jorge
Enviado por: Vera Lucia Maia

EIS O PERIGO DE MEXER COM PESSOAS INTELIGENTES
Autor: Danilo Gentili
Enviado por: Spartaco Massa

EU, VELHINHA MAL-HUMORADA?
Autor: Vera Sest
Enviado por: Lulu Micaldas


VIRTUALIDADE E APARÊNCIA

Vivemos sem dúvida momentos de profunda transformação na maneira de se relacionar, de produzir e de imaginar o futuro. Os efeitos da virtualidade e a imposição da aparência orientam e conduzem muitas vezes nossa inserção social e nossos anseios pessoais: duas presenças (perdoe o paradoxo) constantes no nosso horizonte de referências, seja pessoal, seja social. Das tecnologias de ponta ao camelô da esquina, todos sabem, por exemplo, a importância da aparência em todas as esferas da vida pública. Seja como embalagem de uma mercadoria, como apresentação, como propaganda, como notícia, como apelo ou simplesmente como "visual", a aparência passou a ser uma importante moeda de troca na vida política, econômica e social.

É bom acrescentar também que a chamada indústria do entretenimento está calcada hoje fundamentalmente na imagem. Adorno, sociólogo alemão, num de seus ensaios, chama a atenção também para o perigo da decadência do gosto, da mediocrização, do nivelamento por baixo, que todo esse processo pode acarretar.

Nessa exploração do poder sedutor da imagem, além do caráter fetichista mencionado por Adorno, há o toque de sensualidade que vai sendo cada vez mais adquirido pelas mercadorias. Em resumo, as imagens mais eficazes por excelência são aquelas que nos seduzem, aquelas que se aproveitam de nossos desejos inconscientes. Portanto, elas não são mais, como há algumas décadas, imposições de necessidades falsas, mas uma exploração evidente de necessidades reais e legítimas, de sonhos e desejos concretos e justos.

Bem, mediante tudo isso, como educar o indivíduo para lidar criticamente com as imagens e as novas ferramentas do mundo virtual? Provavelmente, através da busca e do enaltecimento da experiência real, e da aprendizagem dos mecanismos de produção das imagens. A sociedade da imagem é algo irreversível. Portanto, é preciso aprender cada vez mais a dominar a esta linguagem, sua lógica interna, a desfrutá-la e a utilizá-la de maneira mais consciente.

Muitos apontam como conseqüência inevitável o empobrecimento das relações humanas em função da mediação da tecnologia. Dos chats, passando pelo telefone e o e-mail até chegar às vídeo-conferências, a presença do outro torna-se cada vez mais supérflua. A relação real e concreta é substituída pela imagem, pela virtualidade.

Isso pode levar à formação de grupos de pessoas que talvez nunca se conhecerão, mas que se sentirão parte de um mesmo todo. Pode também formar novos proletariados de não informados, excluídos da vida eletrônica moderna, e a uma maior dependência da tecnologia e dos bens naturais não renováveis.

Mas será preciso sobretudo reaprender a olhar e a fazer disso um processo incessante, contínuo e, é claro, prazeroso. A arte, aliás, pode ser muito eficaz para isso. A importância da arte não está somente em preparar o indivíduo para o mundo pós-moderno da imagem, da virtualidade e da comunicação visual, mas sobretudo em desenvolver nele a sensibilidade para o que há de mais humano, mais profundo e mais necessário para uma vida equlibrada.

Autor: Erlon José Paschoal


A LUA CRESCE NO CÉU DE FRIBURGO

09 de fevereiro de 2011, lentamente a lua volta a crescer no céu de cada um de nós. Assim, mais ou menos de forma direcionada, mantemos nossos movimentos cotidianos externos. Cada um de nós, repletos de memórias densas, importantes e fecundas, lida como pode, no fundo da alma, na noite profunda de nosso interior com a riqueza doída e luminosa de estarmos vivendo ‘estes dias’ de nossas vidas, nestas serras queridas.

Nos últimos dias, algumas pessoas e a mídia em geral têm usado, em nome do desejo de criar uma onda positiva, otimista, uma frase que me dói: “Estamos finalmente voltando ao  normal”.

Como assim, voltando ao normal? Se o normal é como era antes, não posso aceitar que voltemos a ele. O normal de antes, era feito de muitos interesses separados; seja por grupos sociais e econômicos; seja por grupos de famílias; seja por religiões ou entre pessoas ‘do bem e do mal’.

O normal de antes era civilmente muito solitário, era feito de conselhos municipais esvaziados, envelhecidos antes de florescerem; era feito de instituições sociais importantes e maduras, atuando ingenuamente em nossa sociedade.

O normal de antes tinha muito pouco tempo para solidariedade, para servir ao outro acima de tudo. E que fique claro, quando falo servir ao outro, não estou dizendo servir ao outro que precisa, que é pobre. Estou falando em construir uma sociedade de tal forma, que não se produza o acúmulo de bens por uns poucos.

O normal de antes não tinha tempo para longas, gostosas, profundas e preguiçosas conversas ao redor da mesa de refeições ou na calçada de casa.

Sem dúvida, o normal de antes também tinha práticas de grande valor humano e potencial transformador. MAS...pouco, muito pouco, diante do tamanho da tarefa.

Nestes dias vivemos fora do normal. Ah, com certeza vivemos.

Nestes dias que passamos sem eletricidade, pude reaprender sobre o silêncio de nenhum motor funcionando, de nenhuma rede virtual ativa, de nenhum aparelho áudio visual emitindo estímulos; pude sentar com minha família, amigos e desconhecidos, na penumbra da luz de raras velas, e suspirar sob o sentimento humilde do tamanho dos meus braços, de minha força real de transformação e de ser ajuda. A eletricidade amplia nossa força de atuação e também nos ilude sobre nosso tamanho.

Nestes muitos dias que passamos sem água encanada e potável, pude reaprender sobre tudo que se lava com dois litros d´água(medida das muitas garrafas pet que me chegaram).
Pude conviver com os meus dejetos(urina e fezes) e os de minha grande família, guardados dentro de nossos belos vasos sanitários sem água e sentir a fragilidade e insanidade de nossa civilização que sequer sabe lidar com as fezes a não ser, dando descarga e se esquecendo delas. Pela falta d´água pude aprender os nomes de meus vizinhos, que comigo partilharam a água que tinham.

Nestes dias, no meio da lama fedida, buscando corpos, lavando corpos, enterrando corpos de pessoas amadas, pude aprender sobre o amor. Amor como cuidado; amor como honra ao que vive no outro, seja isto fato presente ou memória. A crueza inesperada das situações que vivemos não poderá ser expressa por palavras jamais, está muito além delas. O sentimento do que vivemos está buscando seus caminhos de expressão.

Fiquemos atentos! Agora é tempo de contar histórias sobre o amor que descobrimos; amor cru, desnudo, amor enlameado. Contar muitas histórias entre nós e para outros que aqui não estiveram. Apesar da eletricidade ter voltado; apesar da água potável e encanada ter voltado; apesar de todas as redes virtuais terem voltado. Apesar de todos estes instrumentos mágicos da civilização estarem reestabelecidos, é simplesmente hora de sentar e contarmo-nos histórias, as histórias do amor que descobrimos; debaixo da lama, esta lama fecunda do que poderemos nos tornar.

Nunca mais voltarmos ao normal que era antes é o mínimo de honradez devida aos nossos queridos que se foram. Nunca mais voltarmos ao que era antes é o mínimo de responsabilidade frente a nós mesmos e a todas as crianças que sobreviveram, sobreviveram para o novo.

Nestes dias em que a lua volta a estar no mesmo lugar de um mês atrás, onde estamos nós? O que temos aprendido? Será possível caminharmos sem ingenuidades frente ao modelo de civilização que temos adotado: ele é brilhante, ilusório, desumano, inodoro, definitivamente inodoro. Nosso modelo de civilização não suporta o cheiro libertador de lama de enchente.

Autor: Sebastião Luiz de Souza Guerra
Enviado por: Dilma Faria Terra

Fonte: http://www.institutofonte.org.br


SANTO PECADO

Alguns anos depois...
Amanhece...aí pelas onze, bateu à porta do Mosteiro um rapaz que há tempos andava à cata de emprego. Como não era hábito abrir-se a porta a qualquer, Frei Bonifácio olhou pelo buraquinho.

Disse que queria falar ao Diretor (sabia lá o nome do cargo?) e foi levado à presença do dito cujo, com visível satisfação. Aquele, de comovida aparência, deixou-se beijar os cordões e declarou que realmente lá precisavam de alguém. Na cozinha pelo menos Napoleão, o cozinheiro chefe, queixava-se há bocado do excesso de trabalho.

Indagado, como era praxe, sobre a sua origem, etc... e tal, soube-se que era de parcos recursos, filho de mãe solteira, que embora com ela não vivesse, andava saudoso e muito. Como soubera do emprego questionaram, mas a inocência das respostas nada tirou nem acrescentou.

Dia seguinte lá estavam de emprego novo. Feliz, Evandro, nome sonoro, a cara não era de todo má. E Ademias os ares santos do lugar poderiam toma-lo melhor. Tiritando de frio (era inverno grosso), espaventou-se Mosteiro adentro, deixando a vida a correr atrás de si, lá fora, assim que o frade o mandara entrar.
Frequentemente dado a introspecções, não sabia bem porque sua alma, sentia-a dilacerada de uns tempos para cá.

Trocava-se as bolas, mal silabava o Pai-Nosso à noitinha arrumava pretextos, dissimulava (será isso ódio? Amor?). Não sabe nem quer saber. Quase nem percebe o blém-blém do sino que o desperta.Ouve uma voz suave tem ciúmes da paz. Era tudo o que esperava. Podia ter ido para outro lugar, mas aquele, não se sabe bem porque, fora o mais indicado.

Uma voz chama-o com êxtase sobe ao patamar, confiando o frade um sorriso empalidecido e ensaia algumas palavras. O que consegue é um bom dia sufocado.
Atravessam os claustros, o céu baixo e cinzento, procura abrigar-se na blusa desgastada que a mãe lhe tecera. Torce-se dentro dela, como os caracóis quando amolados. Alguém desce as escadas do primeiro andar. Sente um frio no cangote, mas o clima cheira a santidade e isto o fortifica.

Ademais, a limpeza, o rafiné,o todo no lugar, a resina dos pinheiros excitam-no mais e mais. Tenta outras excitações, mas não resiste à curiosidade de, por instantes, esticar as pestanas até uma janelinha indiscreta que rasga seu esperar uma parede amarelecida. Mexe com botões e os enche de perguntas, tirando-os e recolocando-os nas casas, e continua a seguir o Frei Bonifácio, que bochechudo mais parece uma moranga madura. Bate uma saudade da horta da mãe!

Na sua dispersão, perdera até o frio, aquecera-se mais, com satisfação observa que chegaram. Entram na cozinha e então, rompendo-lhes as inibições e numa simplicidade familiar, sorri ao cozinheiro chefe.
Ele, os olhos estatelados, corresponde - "Anda, ajudar! A gente precisa se entender. Tem muita coisa pra você já ir fazendo", disse-lhe Napoleão.
Há qualquer coisa nele de forte que satisfaz Evandro. Fica ali como se protegido, de repente, e cinco minutos depois já descasca os inhames para a sopa.
-Que é que trouxe aqui?
A vontade de trabalhar. Talvez o fascínio de um lugar como este. Não sei porque, mas conventos e padres sempre me atraíram. Invejo os frades, sua cara de alienados, sempre de bem com a vida, podem exigir se quiserem o que quiseram, em nome de uma absolvição. Podem 'beber e comer como abades'(rindo-se), e não precisam invejar nada o que está lá fora, não acha?
Não é bem assim, creio eu, às vezes, levantam com cabelo repartido do lado errado e de ovo virado. Riram-se os dois e continuaram os afazeres.
Lavada a louça, Evandro perguntou a que horas costumavam jantar os frades. Que às seis, e que hoje, além da sopa, comeriam filé de pescada e medalhão. O rapaz franziu o nariz.

O certo é que a fradaria, aos poucos, já exauria as potencialidades do novo habitante, que afinal tinha vinte e um anos e já trouxera um pouco mais de agitação para o lugar. Ele, por sua vez, não ousava ser inconveniente.Introduzia-se na intimidade do Mosteiro, ora a ensaiar alguma observação mais ousada, ora a arriscar uma gargalhada.

Logo de manhã levava um cafezinho com licor ao Frei Bernardo, o manda chuva, como o chamava; afinal não se trata de convento mendicante! Sobrava lá o que faltava cá fora!
Percebia que ra bem recebido, mas importante não deixar a prudência. Afinal certos atrevimentos se expressos de forma correta, pensava ele, passam a ser lisonja. Por isso, sempre que possível engolia a língua para não vomitar mais asneiras. Talvez o excesso de zelo o reprimisse um pouco, mas antes assim.
Já há vinte dias que lá se encontrava e pela primeira vez fora advertido pelo Frei Teodósio, por ter deixado cair o galheteiro. Como às vezes é necessário que se retraiam emoções faciais, contraiu-se também por dentro e calou-se. Calou-se com cara apoplética, o que provocou risos de outros padres. Percebeu que estava perdoado. Não resistiu também e viu que já se contaminava com aquela frase que diz "padre ri a toa".

Não que o galheteiro engrossasse as dificuldades do Mosteiro, mas assim que pudesse compraria um outro para substituir o quebrado. Além do mais, pensava Evandro, talvez há muito tempo os habitantes da santidade não tiveram sentido alguma diferença entre o quebrar ou não o galheteiros, uma vez que isso não implicasse ter a barriga agarrada às costas por pança vazia!
Levantaram-se após as orações e, breve aviso de procissão da penitência. Foi nessa procissão que Evandro teve, que indesejavelmente, castigar-se com um jejum obrigatório. O que até agora era cor-de-rosa passou a ser bege. "-Afinal, nem sempre o semáfaro tem a cor que a gente quer!", pensou.

Achava demais ter de beber óleo de rícino. De madrugada aproveitou-se do trabalho que seus intestinos lhe deram para arriscar uma visita até a adega - "Imunda! Não via limpeza, sabe-se lá desde quando".Entrou ingênuo e saiu aguçado. O vinho fazia um efeito celestial! Dormiu como um anjo e sonhou com prazeres da carne. - "Aí que saudade da Ditinha".Mas seus humores faziam cócegas na hora da procissão. Não entendia nada daquele aparato todo, o que lhe provocava pensamentos estupidamente hereges. Não que fosse rebelde.Mas se dessem por isso, seria certamente castigado por Deus e pelos homens. Deduzia que fosse um dos grandes penitentes, pois fora colocado na cabeça da procissão; mas sentiu-se importante, porque ali ia o regimento principal e todos almejavam a mesma coisa: a salvação das almas. Ele, mais que ninguém! -"Que fedor! É mal daqueles que têm a alma perfumada demais".

Viu-se interrompido nas conjeturas, quando uma voz apocalíptica mandou que rezasse o "mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa". Todos se ajoelharam. Evandro abalou-se. A mãe ensinara-lhe a rezar a tal oração quando ia pra cama. Dizia que se a gente morresse dormindo, já morria perdoado. Achou que tinha chegado a sua hora. Quase chorou de susto. Não compreendia bem a liturgia, lembrava-se pouco.
Só percebeu que luzia na mão de um dos frades algo redondo e lindo. Era a custódia. Olhou para aquilo e sentiu-se levitar. Quase entrou em alfa como um bocó e quase delirou. Acordou com uma mão cabeluda sacudindo-lhe a cabeça - o "show" terminara, finalmente. Pediu rápido licença para se retirar. A fraqueza atravessava-lhe os ossos, pelo jejum, e tinha vontade de dormir. O corpo exangue e flácido escorregava das bases. Sombras e manchas azuis, verdes, amarelas, quase extintas. Amava aquele lugar. As pálpebras pesadas imploravam por descanso e o céu de chumbo lá fora apagava-se mais uma vez. Olhou para o Cristo na parede e só viu a metade.

Acordou com um torpor inexplicável. Um latinório ouviu-se ao longe. Ruído de paramentos, pigarros do frade mais velho -Esse já está com um pé na cova e outro na casca de banana".Uma lufada de vento o entristeceu voluptuosamente. A própria carne estaca e friorenta. Lembrou-se do pacto. Não podia esquecer-se da mãe. Veio-lhe o impulso de fugir. -Ah! Bons dias de sol, em que jogava bola no adro da igreja. Armar redes, sentar-se à sombra dos arvoredos!".
Estremeceu. Levantou-se. O ar estagnado cheirava-lhe mal. Tudo caía em cima dele. A voz da mãe desabava. E nem as genuflexões, nem os sinais-da-cruz, as atitudes compenetradas dos padres na capela, o impediram de dirigir-se àquele quarto, onde alguém quase jazia.
-Mea culpa, mea máxima culpa...".Tinha medo, mas não podia fugir. Chegou, parou , entrou.
-Frei Apolinário!". (o coração fechara-lhe a razão. Descompreendeu a bondade e a generosidade ).
O Frei curvara-se e parecia murmurar algo.
Num gesto desmedido falou: -"Quem é você e o que quer? Como entrou aqui?".
-"A farsa acabou. Se Deus pra você sempre significou luz, pra mim a pra minha mãe sempre significou treva. Sou filho de seu estupro e sangue de sua indiferença."
O sol irrompeu pela porta afora, uma melodia suave no ar. O nevoeiro dissipara-se e Evandro, o pequeno vingador, desapareceu na escola da vida, deixando para trás o rastro da morte.

Autor: Nelson Valente


CAÍ NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR

O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte, só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…

Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a ser sujadas. 

E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos, se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!

Sim, já sei.

À nossa geração, sempre foi difícil jogar fora.

Nem os defeituosos conseguíamos descartar!

E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido de bolso. Nããão! Eu não digo que isto era melhor.

O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.

O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto.

O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades.

Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez. Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!

E mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois!

A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.
E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que havia em todo o bairro, em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes. Nos estão incomodando!

Eu descobri!

Fazem de propósito!

Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar. Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica. Aonde estão os sapateiros fazendo meias-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? O afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?

Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo.
Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.

Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar:
Quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de ... anos!

Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII).

Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João.

Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava.

Desse tempo venho eu. E não que tenha sido melhor...

É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com “guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa”, mudar para o “compre e jogue fora que já vem um novo modelo”.

Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado...

E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas... pelo amor de Deus!

Minha cabeça não resiste tanto.

Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.

E a mim, que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher, a mesma e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar).
Me educaram para guardar tudo.

Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.

Acreditávamos em tudo.

Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não.

E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?
Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas.

A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres.
E guardávamos... Como guardávamos!! tuuuudo!!! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!!

Como?  Para quê? 

Fazíamos limpadores de calçados, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares.

Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.

Tuuudo guardávamos!

Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis.
E as Gillette – até partidas ao meio – se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar.

E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.

E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais.

Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.

Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para pôr no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisa para enrolar.

Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne!!!
E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia “esta é um 4 da bastos”.

As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.

Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem ‘matá-los’ tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!

E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: ‘Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora’, nós dizíamos que sim, mas, imagina que atiraríamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones.
As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza.
As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.

E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos.

Ah!!! Não vou fazer!!!

Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis;  também o matrimônio e até a amizade são descartáveis.

Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.
Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero.

Não vou fazer.

Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.

Não vou dizer que aos velhos se declara a morte, apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.

Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à ‘bruxa’, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova.

Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a ‘bruxa’ me ganhe a mão e seja eu o entregue...
Somos o que fazemos, mas somos principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.

Autor: Eduardo Galeano, jornalista e escritor
Enviado por: Abigail Tenório


A DITADURA DO POLITICAMENTE CORRETO

“A unanimidade é burra.” (Nelson Rodrigues)

Ninguém insiste tanto na conformidade como aqueles que advogam “diversidade”. Sob o manto de um discurso progressista jaz muitas vezes um autoritarismo típico de pessoas que gostariam, no fundo, de um mundo uniforme, onde todos rezam o mesmo credo. A Utopia de More, a Cidade do Sol de Campanella, a República platônica, enfim, “um mundo melhor é possível”. Se ao menos todos abandonassem o egoísmo, a ganância, e se tornassem almas conscientes e engajadas...

Mesmo se for preciso “forçar o indivíduo a ser livre”, como defendeu Rousseau, esse parece um preço aceitável a se pagar pelo sonhado “progresso”. Foi com base nesta mentalidade que milhões de inocentes foram sacrificados no altar de ideologias coletivistas. Atualmente, os “progressistas” buscaram refúgio em novas seitas, mas a meta continua a mesma “purificar” a humanidade e criar um paraíso terrestre onde todos serão igualmente “felizes” e “saudáveis”.

A obsessão pela saúde e pela felicidade, assim como a ditadura do politicamente correto são claramente sintomas da modernidade. Vivemos na era covardia, onde poucos têm coragem de se levantar contra o rebanho. Estamos sob o controle dos eufemismos, com a linguagem sendo obliterada para proteger os mais “sensíveis”. Todos são “especiais”, o mesmo que dizer que ninguém o é. Chegamos à era do conformismo: ninguém pode desviar do padrão definido, pois as diferenças incomodam muito. Todos devem adotar a mesma cartilha “livre de preconceitos”.

Até mesmo o Papai Noel já foi vítima desta obtusa mentalidade. A obesidade é um problema de saúde preocupante no mundo. Um dos culpados? Sim, o Papai Noel. Um médico australiano chegou a afirmar que Papai Noel é um “pária da saúde pública”, e seria melhor se ele fosse retratado sem aquela “pança”, sua marca registrada. Afinal, o bom velhinho é um ícone da garotada, e no mundo atual não fica bem um barrigão daqueles influenciando as crianças. Papai Noel “sarado”, eis um típico sinal dos tempos.

Qualquer pessoa com mais de 30 anos deve recordar daqueles cigarros de chocolate que as crianças adoravam no passado. Isso seria impensável hoje em dia. Chocolate, e ainda por cima em forma de cigarro? Seria politicamente incorreto demais para o mundo moderno. Diriam que as crianças vulneráveis seriam fumantes compulsivas, tal como acusam filmes e jogos violentos pela violência.

Pensar na possibilidade de que os próprios pais devem educar seus filhos, impondo limites e dizendo “não”, parece algo estranho demais para os engenheiros sociais da atualidade. As “crianças mimadas”, os adultos modernos, preferem delegar a função ao governo, que será responsável pela “pureza” das propagandas. Quem precisa de liberdade de escolha quando se tem o governo para controlar nossas vidas?

Parte importante da liberdade é o direito de cada um ir para o “inferno” à sua maneira. O alimento de um pode ser o veneno do outro. Esta variabilidade humana nos impõe a necessidade da liberdade individual e da tolerância. Ninguém sabe qual o desejo do outro. Infelizmente, estamos vivendo cada vez mais sob a ditadura da maioria. O paraíso idealizado pelos “progressistas” seria um mundo com tudo reciclado, pessoas vestindo roupas iguais, comendo apenas alimentos orgânicos, e andando e bicicleta para cima e para baixo. Paradoxalmente, os “progressistas” odeiam o progresso!

É neste preocupante contexto que chegamos ao fim de mais uma década. Ao longo do processo, alguns indivíduos ousaram remar contra a maré, mesmo que não passassem de vozes isoladas em meio às multidões. Entre os brasileiros, tivemos figuras como Paulo Francis e Nelson Rodrigues, sempre lutando contra a imposição dos medíocres, derrubando os velhos chavões populistas. Seguindo esta tradição, o filósofo Luiz Felipe Ponde lançou novo livro, “Contra um mundo melhor”, que pode ser visto como um antídoto amargo a esta doença moderna.

A frase que abre o primeiro ensaio já dá o tom da obra: “Detesto a vida perfeita”. Pondé liga sua metralhadora giratória contra todas as mais nobres bandeiras politicamente corretas, desnudando-as e expondo sua hipocrisia. Numa época em que o homem é praticamente obrigado a ser “feliz”, ainda que seja à base de Prozac, os ataques mal-humorados de Ponde servem para alertar sobre os enormes perigos desta trajetória, tal como Huxley havia feito com seu “Admirável mundo novo”.

Que saibamos desconfiar mais da cruzada moral dos “progressistas” e sua retórica politicamente correta.
São meus votos para 2011.

Autor: Rodrigo Constantino


VIDA APÓS A VIDA

Sempre pensei que ia morrer cedo. A luta armada, a clandestinidade, aventuras, promiscuidade, orgias, riscos… Tudo me levava a crer que não chegaria aos 30 anos. Para quem tem 20 anos, quem tem 30 já é coroa. Tomei um susto quando vi-me vivo e saudável aos 30. Aos 40 percebi a possibilidade real da morte. No dia do meu aniversário quarentão, um jovem ator de 24 anos perguntou como eu me sentia: “Agora? De frente para a morte.” Para minha surpresa foi o jovem quem morreu logo depois.
Aos 50 apaixonei-me pela letra de Aldir Blanc na voz de Paulinho da Viola: “Aos 50 anos, insisto na juventude…”, isso enquanto percebia meu  ângulo peniano caminhando para os 90 graus. Mas, antes dos 60, a pílula azul alargou minhas possibilidades e possibilitou-me ver o sexo por ângulos mais estreitos.

Agora estou além dos 60. Aos 40 rezava pela alma dos mortos amigos e parentes. Nome por nome eu pedia ao Senhor. Hoje, são tantos os que caíram, que apenas peço “pelos mortos em geral”. E mais uma vez espanto-me por estar ainda vivo, e consolo-me no Salmo 91.7, que diz: “Mil cairão ao teu lado e dez mil à sua direita, mas você não será atingido.” Mesmo confiando na Palavra, ainda assim caminho embaixo de marquises pra São Pedro não me ver.

Ainda estou vivo, e pra quem pensou que morreria aos 30 descubro que existe vida após a vida. Mas o preço do viver é muito alto para o jovem de hoje: tem que comprar apartamento, arranjar um trampo, ganhar dinheiro, ficar famoso, comer todas, bombar no iutube, malhar, casar, ter filhos, comprar carro, estar bronzeado, conhecer tudo de web e ainda ir ao show da Madonna, entre outras miudezas.

Após os 60 você já está quite com tudo isso e pensa que vai viver em paz. Qual o quê: tem que tomar insulina, antidepressivos, rivotris, controlar a pressão, não comer açúcar, não comer sal, não fumar, não beber, se conseguir comer uma e outra já é uma vitória, tem que caminhar ao menos meia hora por dia, cuidar do joanete, dormir cedo, vender o apartamento, fugir da bolsa, não discutir no trânsito, não se alterar no caixa do supermercado, tolerar os filhos, agradar os netos, ficar calado diante da mediocridade, aceitar o salário de aposentado, ter o testamento em dia e curtir todas as dores ósseas, nervosas e musculares porque se algum dia você acordar sem dor é porque está morto.

Claro que o idoso tem suas vantagens: uma delas é a transparência. Quanto mais velho, mais transparente você se torna. Chega a ficar invisível: ninguém mais lhe percebe, mais um pouco e nem lhe enxergam. Mas pode passar à frente dos jovens nas filas todas, com aquele ar de superior: “Você é jovem e sarado, mas eu tenho prioridade.” E ante qualquer aborrecimento ou dificuldade você ameaça infartar ou ter um AVC. Funciona sempre, todos logo se tornam gentis e cordatos, e é garantia de muitas meias e lenços como presentes no Natal.

Lidando com a minha “terceira idade” ouço de meu psicanalista, o bom Luiz Alfredo: “Só há dois caminhos: envelhecer… o outro, muito pior.” Prefiro envelhecer, aceitando cada minúsculo “sim” que a vida me dá com uma grande alegria e uma grande vitória.
Hoje, quando encontro vaga num elevador de shopping, quando o banco está vazio, ou quando encontro promoção na farmácia, já considero uma  bênção gigantesca e agradeço a Deus pela graça alcançada.

Após os 60, como no filme de Brad Pitt, regrido na existência, deixo Paulinho e a viola de lado e reencontro Lupiscinio: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei.” Mas se soubessem não ia adiantar nada: porque a sabedoria é filha do tempo. Como diz o amigo Percinotto, também idoso: “O diabo é sábio porque é velho.”

Pelo andar da carruagem, percebo que já morri muitas vezes nesta vida, e que viverei até fartar-me.

Autor: Bemvindo Sequeira
Autor, ator e diretor de teatro e TV
Enviado por: Zeca Pizzolato


SOBRE CAZUZA E RENATO RUSSO

Em 2003 o cantor Alexandre Pires, bisonhamente, fez uma homenagem ridícula à bossa nova em Washington (EUA), precisamente na Casa Branca, levando todos à certeza de que Tom Jobim e Vinicius de Morais revolveram na tumba, fazendo subir e descer a terra (por essa estupidez o pagodeiro mereceu o abraço de George W. Bush). Nessa ocasião, temi pelas homenagens que a Rede Globo de televisão, no quadro Som Brasil, prestaria a Cazuza e a Renato Russo. Mas até que deu certo. Foi uma justa memória.

Renato Russo e Cazuza nasceram no Rio de Janeiro, Renato foi criado em Brasília, estudou um tempo nos Estados Unidos. Cazuza também morou lá. Ambos assumiram publicamente a homossexualidade. Ambos compuseram e cantaram canções firmes e melodiosas. Poucas pessoas se preocupam em ter uma noção do que foram suas letras, mas não se pode negar a semelhança objetiva entre elas.

Houve um tempo, no Brasil, em que as musicas eram cultivadas pela cabeça e não pelas nádegas baianas. Sobretudo no período de repressão militar, grupos de artistas, malgrado a censura, intrigavam o poder com suas criações inspiradoras. Renato e Cazuza são filhos dessa geração; dela, herdaram a rebeldia, o gosto pela liberdade, o amor pela arte. Pagaram um preço caro por amarem demais. “Exagerado”, Cazuza morreu de AIDS, aos 32 anos. Por gostar de “meninos e meninas”, Renato, morreu aos 36, da mesma doença que nos privou da companhia de Cazuza.

Não faz muito tempo, pouco depois da morte de Renato Russo, em 1996, gente célebre punha esta questão gasta e vulgar: “Quem foi o maior poeta? Renato Russo ou Cazuza”? Alguém, mais infeliz que o interrogador, respondia como quem não prestou atenção na pergunta: “Raul Seixas”!

A comparação não é a melhor das análises. Essa pergunta sobre Renato e Cazuza, no-lo mostra. Então me limitarei, portanto, a falar daquilo que faz com que o poeta Renato Russo mereça nossa estima e seja comparado a Cazuza.

Parece-me que Renato Russo, de um modo geral, ao escrever suas letras, teve a intenção de mostrar o homem sob uma luz odiosa. Pintou-o com cores escuras e infelizes. Compôs para seus contemporâneos um acervo de sons contra a sociedade em que viveu. Além disso, eloqüentemente, com a força da letra e do rock, proferiu injúrias contra o gênero humano, imputando à essência de nossa natureza aquilo que só pertence a alguns homens.

Compôs e cantou contra a burguesia, contra o poder insano, contra o senhor da guerra,  contra o seu país e sua corja de assassinos, contra os pequenos universos, contra os covarde, contra os estupradores e os ladrões. Por outro lado, falou das flores, dos anjos, dos índios, de barcos, de giz, de pais e filhos, de meninos e meninas, de Clarice, de João Roberto, e de tudo que ainda não vimos. Sobre nós, chamou “o sol que bate na janela do seu quarto”; também teve medo da “tempestade que chega e que é da cor dos seus olhos: castanhos”. Ironicamente, convidou-nos a “celebrar a estupidez humana”, mas advertiu que o que vem é “Perfeição”.

Aos apreciadores e fãs da banda de rock Legião Urbana, e do seu vocalista, Sr. Renato Manfredini Júnior, “que não resta mais do que a falta que ficou”, selecionei alguns títulos para comentário, mas como são vários, prefiro comentar aquele que, particularmente, mais tocou-me. A música é “Índios”. Nessa canção, Dado Vila Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo buscam retratar na letra, de uma forma crítica, todo o processo de colonização da nossa amada mãe gentil. A música fala do impiedoso e estúpido trato que os portugueses deram aos nossos índios. Não obstante, no decorrer de tal letra, até a religião foi criticada – com razão – nas pessoas dos senhores missionários católicos que por aqui passaram -  sem deixar saudades -  e tentaram, a todo custo, inserir naquelas pobres almas, a doutrina católica, sem levar em conta suas crenças, seus valores, seus costumes, suas vidas. 

Desde o início da música até o seu final, o eixo principal, que gira em torno da mensagem, é a manifestação de desejo e de arrependimento de um ser literalmente lesado, oprimido, enganado e, pior, ferido na sua dignidade e na sua liberdade, que são aspectos universais. A música, creio, consegue expressar uma dor, a muito silenciada em nossa história. Para nos impressionar ainda mais, diz: “tentei chorar, mas não consegui”. Essa frase deixa-nos a impressão de que a dor do índio é tão grande e a frustração tão forte, que não lhes sobraram nem lágrimas, pois até elas foram levadas pelos colonizadores e pelos religiosos. Nada pior e mais nefasto que perder os sonhos, a esperança e as lágrimas. Ainda hoje, querem tirar isso de nós. Ouçam-me senhores! lutem... Como índios, lutem contra essa gente! Morram lutando, mas não deixem-se alienar. Li, de Paulo Coelho, coisa semelhante; prefiro reescrever do meu modo, pois a história é boa, mas a fonte nem tanto.

Pouco antes de morrer, o Cacique chamou seu filho e disse: “Meu corpo em breve voltará à mãe terra, quando eu partir, pensa em tua herança. Tu serás o chefe de nosso povo, e eu espero que o conduza com honra. Em breve o homem branco nos cercará por completo, e tentará comprar nossa mãe, a Terra. Lembre-se que meu corpo está nela, que sou parte dela”. Dito e feito. O filho tornou-se Cacique, depois vieram os homens brancos e tentaram comprar a terra, o Cacique não vendeu. Depois tentaram comprar o Cacique; ele não se vendeu. Daí vieram as guerras e o Cacique liderou seu exército contra os soldados, armou crianças e mulheres, e lutou bravamente. Quando ferido em batalha, moribundo, mas sem deixar-se capturar, perguntaram porque defendia uma causa perdida. Seu último suspiro foi dizer: “Um homem não vende os ossos de seu pai”.

Elder Fernande Oliveira, também conhecido como Summus, foi quem me inspirou a ouvir Legião Urbana. Dele tenho uma carta, escrita em 10/10/1997. Na dedicatória, ele escreveu: “Ao eterno amigo e irmão, prudente e sensato, Baranowske. Atenciosamente, Summus”. Transcrevo o final de tal milonga:
“Quem me dera ao menos uma vez... ter de volta”; esquecer, explicar, provar, “que o mais simples fosse visto como o mais importante”; entender acreditar, fazer, “como a mais bela tribo dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente”, mas, “eu quis o perigo e até sangrei sozinho – entenda – Assim, pude trazer você (a terra) de volta pra mim”. “Quando descobri que é só você (a terra) que me entende do início ao fim e é só você que tem a cura (a resposta exata e na hora certa) para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto, de tudo que ainda não vi”... “mas nos deram espelhos e vivemos num mundo doente” (mundo composto por seres atrozes e ufanos, que se dizem humanos, mas ferem e matam tanto com armas, como com palavras e traições).

Termino citando Renato Russo:
“Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?”

Autor: Durval Baranowske
Enviado por: Bruno Baranow


A poesia da vida

No final de todo ano, a par das compras intensivas e do desejo de comer e beber insaciavelmente, afloram os bons sentimentos, as boas intenções, os desejos positivos, as metáforas e a poesia. Ainda bem. Significa que temos um tempo dedicado a pensar no bem dos outros e da humanidade. Pena que seja um tempo curto e vinculado às obrigações de dar e receber presentes.

Vivenciamos também o simbolismo do fechamento de um círculo e do início de um outro, embora todos saibamos que a vida é contínua e sem interrupções. Mas, de qualquer modo, temos a sensação de que algo terminou e de que a vida recomeçará. Culturalmente, é um momento de reavaliação dos próprios atos e de retomada dos verdadeiros objetivos que orientam a vida e a realização dos sonhos e desejos mais profundos.

É interessante observar como todos se deixam dominar pela poesia utilizando metáforas as mais diversas para expressar os seus sentimentos e anseios, mesmo que predominem os lugares-comuns e as frases feitas. Pois sabemos que, no fundo, as palavras têm um poder especial. Segundo a Bíblia, o mundo tal como o conhecemos começou com a força das palavras de Deus: "Fiat lux", faça-se a luz, e fez-se a luz. Acreditava-se então que o ato de pronunciar determinadas palavras desencadeasse no universo um processo de concretização daquilo que elas significavam. E então a luz se fez e teve início a vida humana.

Penso que uma pessoa elabora as expressões de que necessita, ainda que tenham sido repetidas infinitas vezes, ou então inventa novas combinações, a fim de manifestar aquilo que somente ela sente e percebe, sobretudo o modo como sente e percebe o mundo. Afinal todos podem ser poetas alguma vez na vida ou no mínimo criar uma poesia a partir de sua necessidade de exprimir ao mundo os seus sentimentos reais e íntimos. A verdadeira poesia pressupõe, sem dúvida, a sinceridade e o desejo real de suscitar no Outro alguma sensação verdadeira. Trata-se de um desafio para o qual todos estamos devidamente preparados, independentemente do grau de escolaridade.

Rainer Maria Rilke, poeta nascido em Praga, escreveu certa vez uma série de cartas contendo sugestões a um jovem que pretendia escrever poemas. Afirmou que para escrever bem é preciso perceber em sua própria alma os motivos que o levam a dizer certas coisas. Pede ao jovem que expresse "seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza ? tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas".

Vivemos agora, portanto, a época em que todos soltam o poeta de dentro de si, espalhando mensagens de amor, de carinho e de solidariedade. Que estes estímulos nos sirvam de referência para conduzirmos o cotidiano e orientem sempre os nossos pensamentos.

Autor: Erlon José Paschoal


A OBESIDADE MENTAL

O prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity», que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.

Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.

«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.

Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono.

As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas, preferem governantes que são bons para elas, não para a maioria, apesar de se dizerem democratas, e democracia é a vontade da maioria.

Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema.

Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»

O problema central está na família e na escola.

«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate.

Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas.

Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»

Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os Abutres", afirma:

«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas.

A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.»

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.

«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»

Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.

«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.

Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.

Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve.

Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê.

Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto».

As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.

«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.

A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.

Floresce a pornografia, o cabotinismo (ação, costumes ou vida de um homem presumido), a imitação, a sensaboria (que não tem sabor), o egoísmo.

Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da civilização, como tantos apregoam.

É só uma questão de obesidade.

O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.

Precisa sobretudo de dieta menta».

Autor: Andrew Oitke
Enviado por: Odelmo Teixeira


A REVOLUÇÃO SILENCIOSA

Não espere tanques, fuzis e estado de sítio.
Não espere campos de concentração e emissoras de rádio, tevês e as redações ocupadas pelos agentes da supressão das liberdades.
Não espere tanques nas ruas.
Não espere os oficiais do regime com uniformes verdes e estrelinha vermelha circulando nas cidades.
Não espere nada diferente do que estamos vendo há pelo menos duas décadas.
Não espere porque você não vai encontrar, ao menos por enquanto.

A revolução comunista no Brasil já começou e não tem a face historicamente conhecida.
Ela é bem diferente.
É hoje silenciosa e sorrateira.
Sua meta é o subdesenvolvimento.
Sua meta é que não possamos decolar.

Age na degradação dos princípios e do pensar das pessoas.
Corrói a valoração do trabalho honesto, da pesquisa e da ordem.

Para seus líderes, sociedade onde é preciso ser ordeiro não é democrática.
Para seus pregadores, país onde há mais deveres do que direitos não serve.
Tem que ser o contrário para que mais parasitas se nutram do Estado e de suas indenizações.

Essa revolução impede as pessoas de sonharem com uma vida econômica melhor, porque quem cresce na vida, quem começa a ter mais, deixa de ser "humano" e passa a ser um capitalista safado e explorador dos outros.

Ter é incompatível com o ser. Esse é o princípio que estamos presenciando.
Todos têm de acreditar nesses valores deturpados que só impedem a evolução das pessoas e, por conseqüência, o despertar de um país e de um povo que deveriam estar lá na frente.

Vai ser triste ver o uso político-ideológico que as escolas brasileiras farão das disciplinas de filosofia e sociologia, tornadas obrigatórias no ensino médio a partir do ano que vem.

A decisão é do ministério da Educação, onde não são poucos os adoradores do regime cubano mantidos com dinheiro público. Quando a norma entrar em vigor, será uma farra para aqueles que sonham com uma sociedade cada vez menos livre, mais estatizada e onde o moderno é circular com a camiseta de um idiota totalitário como Che Guevara.

A constatação que faço é simples.

Hoje, mesmo sem essa malfadada determinação governamental - que é óbvio faz parte da revolução silenciosa - as crianças brasileiras já sofrem um bombardeio ideológico diário.
Elas vêm sendo submetidas ao lixo pedagógico do socialismo, do mofo, do atraso, que vê no coletivismo econômico a saída para todos os males.

E pouco importa que este modelo não tenha produzido uma única nação onde suas práticas melhoraram a vida da maioria da população. Ao contrário, ele sempre descamba para o genocídio ou a pobreza absoluta para quase todos.

No Brasil, são as escolas os principais agentes do serviço sujo.

São elas as donas da lavagem cerebral da revolução silenciosa.

Há exceções, é claro, que se perdem na bruma dos simpatizantes vermelhos.

Perdi a conta de quantas vezes já denunciei nos espaços que ocupo no rádio, tevê e internet, escolas caras de Porto Alegre recebendo freis betos e mantendo professores que ensinam às cabecinhas em formação que o bandido não é o que invade e destrói a produção, e sim o invadido, um facínora que "tem" e é "dono" de algo, enquanto outros nada têm. Como se houvesse relação de causa e efeito.

Recebi de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, o livro "Geografia", obrigatório na 5ª série do primeiro grau no Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora. Os autores são Antonio Aparecido e Hugo Montenegro.

O Auxiliadora é uma escola tradicional na região, que fica em frente à praça central da cidade e onde muita gente boa se esforça para manter os filhos buscando uma educação de qualidade.

Através desse livro, as crianças aprendem que propriedades grandes são de "alguns" e que assentamentos e pequenas propriedades familiares "são de todos".

Aprendem que "trabalhar livre, sem patrão" é "benefício de toda a comunidade".

Aprendem que assentamentos são "uma forma de organização mais solidária... do que nas grandes propriedades rurais".

E também aprendem a ler um enorme texto de... adivinhe quem? João Pedro Stédile, o líder do criminoso MST que há pouco tempo sugeriu o assassinato dos produtores rurais brasileiros.
O mesmo líder que incentiva a invasão, destruição e o roubo do que aos outros pertence. Ele relata como funciona o movimento e se embriaga em palavras ao descrever que "meninos e meninas, a nova geração de assentados... formam filas na frente da escola, cantam o hino do Movimento dos Sem-Terra e assistem ao hasteamento da bandeira do MST".

Essa é A revolução silenciosa a que me refiro, que faz um texto lixo dentro de um livro lixo parar na mesa de crianças, cujas consciências em formação deveriam ser respeitadas.

Nada mais totalitário.

Nada mais antidemocrático.
Serviria direitinho em uma escola de inspiração nazi-fascista.
Tristes são as conseqüências.

Um grupo de pais está indignado com a escola, mas não consegue se organizar minimamente para protestar e tirar essa porcaria travestida de livro didático do currículo do colégio.

Alguns até reclamam, mas muitos que se tocaram da podridão travestida de ensino têm vergonha de serem vistos como diferentes. Eles não são minoria, eles não estão errados, mas sentem-se assim.

A revolução silenciosa avança e o guarda de quarteirão é o medo do que possam pensar deles.
O antídoto para A revolução silenciosa?

Botar a boca no trombone, alertar, denunciar, fazer pensar, incomodar os agentes da Stazi silenciosa.

Não há silêncio que resista ao barulho.

"Em outubro lembre-se: urna não é lixeira" - "Voto não tem preço, tem conseqüência"

"O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam" (Arnold Toynbee)

Autor: Diego Casagrande
Jornalista - Porto Alegre/RS
Enviado por: Yna Beta /
Dion de Assis Tavora


VIVER DESPENTEADA

Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie, por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade...

O mundo é louco, definitivamente louco... O que é gostoso, engorda. O que é lindo, custa caro. O sol que ilumina o teu rosto enruga. E o que é realmente bom dessa vida, despenteia...
- Fazer amor, despenteia.
- Rir às gargalhadas, despenteia.
- Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia.
- Tirar a roupa, despenteia.
- Beijar a pessoa amada, despenteia.
- Brincar, despenteia.
- Cantar até ficar sem ar, despenteia.
- Dançar até duvidar se foi boa idéia colocar aqueles saltos gigantes essa noite, deixa seu cabelo irreconhecível...

Então, como sempre, cada vez que nos vejamos eu vou estar com o cabelo bagunçado... mas pode ter certeza que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida. É a lei da vida: sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, que aquela que decide não subir. Pode ser que me sinta tentada a ser uma mulher impecável, toda arrumada por dentro e por fora.

O aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença: Arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça, coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique séria... e talvez deveria seguir as instruções, mas quando vão me dar a ordem de ser feliz? Por acaso não se dão conta que para ficar bonita eu tenho que me sentir bonita, a pessoa mais bonita que posso ser!

O único, o que realmente importa é que ao me olhar no espelho, veja a mulher que devo ser. Por isso, minha recomendação a todas as mulheres: Entregue-se, coma coisas gostosas, beije, abrace, dance, apaixone-se, relaxe, viaje, pule, durma tarde, acorde cedo, corra, voe, cante, arrume-se para ficar linda, arrume-se para ficar confortável! Admire a paisagem, aproveite, e acima de tudo, deixa a vida te despentear!

O pior que pode passar é que, rindo frente ao espelho, você precise se pentear de novo...

Autor: Não mencionado
Enviado por: Cristina Tibau


O cronista sem jornal

(Felipe Pena)*

Muitos anos depois, diante do pelotão de fotógrafos e jornalistas, Nicole haveria de recordar aquela tarde gelada em que leu a última crônica de Antonio Pastoriza. Botafogo era então um bairro pacificado, livre da violência urbana dos anos anteriores, protótipo de um suposto modelo de segurança pública que serviria para toda a cidade: polícia no morro, milícia disfarçada no asfalto e a periferia esquecida pelo estado.

Mas a primavera atípica, com nuvens pesadas e temperaturas glaciais para a época, deixava as mãos trêmulas, ásperas, sem confiança. A respiração arquejante parecia em contraste com a tranquilidade do lugar. O vento na varanda levantava as folhas do jornal. Era preciso dobrá-lo em quatro, além de se desvencilhar das páginas de política e cultura. O que ela queria ler estava na editoria de opinião, onde eram publicados os textos de romancistas, poetas, médicos, advogados, professores, humoristas, sádicos e afins, uma editoria redundante, pensava, tratando como exceção apenas as linhas semanais de seu escritor favorito.

Mas o que viu estampado no papel sujo foi decepcionante. Não valia nem o esforço contra o vento. Então era isso? Só isso? Nada mais do que isso? A última crônica de Pastoriza resumia-se em ser apenas a última crônica de Pastoriza. Nada de gestos heroicos, paixões impertinentes, amores impossíveis. Nada de nada. Mil vezes nada. Não, não podia ser. Isso não era papel para um cronista!

Onde estavam as metáforas brilhantes, as metonímias inteligentes, as frases reveladoras? Naquele momento se arrependia de cada minuto perdido com as leituras anteriores. Dos atrasos para a aula de dança, das brigas com o namorado, do peixe esquecido no aquário, da cerveja solitária no sofá, da cumplicidade que acreditava ter. Definitivamente, o sujeito não a merecia.

Querida Nicole, perdoe a despedida sem glamour, o texto insosso, a criatividade zerada. O amor acabou, a amizade ruiu e o papel do jornal agora é outro. Deixo apenas aquele beijo na testa que é pior do que dizer adeus.

Cronista sem jornal não é Ferrari sem gasolina, é Fusca sem capô, cavaquinho sem corda, praia sem chinelo, botequim sem cachaça, batata sem bife, Nelson Sargento com dentadura.

Cronista sem jornal é erro de semântica. É dialética a prazo, sem juros, em dez vezes, nas Casas Bahia. É a perda da sintaxe, do sentido. É a gramática velha, a ortografia antiga, com trema e acento nos ditongos orais crescentes.

Cronista sem jornal não tem direito ao último pedido, ao afago feminino, ao gozo embevecido. Cronista sem jornal não tem direito a voltar no tempo e pedir a leitora em casamento. Cronista sem jornal é Pastoriza sem Nicole. E uma vida pela frente.

* Além de jornalista e escritor, Felipe Pena é psicólogo, professor da UFF, doutor em Literatura pela PUC, pós-doutor pela Université de Paris/Sorbonne III e autor do romance 'O marido perfeito mora ao lado'

Fonte: Jornal do Brasil - RIO -
Sociedade Aberta


O QUE MATOU RAFAEL?

Estou em Paulínia e fico sabendo da notícia da morte de Rafael, filho da minha querida Cissa Guimarães.

Meu coração começa a sangrar e a doer como se fosse o dela, como se a gente fosse parente e, quase como se fosse menino meu, embora nada chegue aos pés da dor dela.

Claro que morrem milhares de jovens nesse país a toda hora e nem ficamos sabendo da prematura e anônima notícia, e por isso que dirão que só nos comovemos com essa perda porque é filho de artista conhecida.

Ora, é e não é. Essa atenção se dá não só porque temos acesso ao fato, porque ele sai no jornal, mas principalmente porque o artista nos representa.

Cissa simboliza alguns signos: força feminina, independência, modernidade, informalidade, honestidade, uma vez que seu nome nunca esta envolvido em falcatruas, responsabilidade materna, porque todos sabem que ela criou os três filhos, sem contar seu carisma e sorriso, que desde a primeira versão do Vídeo Show, fazem dela uma espécie de gente da nossa família. Por isso nos importamos tanto, por isso dói na gente porque fica representando nossos filhos e os filhos de quem não sai no jornal.

O menino dela é menino nosso. Tenho em minha mente a imagem dela lendo meu poema Chupetas, punhetas,, guitarras” no espetáculo O Semelhante. Ela adora esse poema e, como minha convidada, chorava lágrimas sinceras ao dizer os versos: "...faço compressas pra febre, afirmo que quero morrer antes deles...." Por causa dessa imagem nem tive coragem de ligar para ela e, impossibilitada de dar-lhe meu abraço por estar em viagem, busquei nas palavras algum remédio que buscasse o entendimento desta tragédia. Por isso pergunto: “O que matou esse jovem de menos de vinte anos? O que lhe roubou o futuro?”. Pelo o que li e vi na TV, a impunidade integra, de novo, o elenco da barbárie.

Policiais que estavam no local, ao que parece, foram outra vez coniventes com quem desrespeita a lei que representam. Não conheço os assassinos de Rafael e nem quero aqui ser leviana, mas toda hora vejo uma legião de famílias que não prioriza o amor pelo seu semelhante no conteúdo educacional dos seus filhos.

Não é só para bandido que a vida não vale nada. Não. Ela também não vale para o menino que, com o carro que talvez nem possa manter, dá cavalo de pau em um túnel fechado cuja placa de interdição ele não aceita. Há jovens criados com a perversa ilusão de que tudo podem e que diante de seu poder e dinheiro não existem porta fechada, respeito, lei.

Desde quando mataram o índio em Brasília que me caiu essa ficha: Alguém dentro de casa ensinou, através de palavras ou ações, a esses meninos infratores da classe média e da alta, que a vida não vale nada.

Esse assunto tem raízes mais profundas e nos leva a questionar como estamos educando nossos filhos. Gente ou monstro? Precisamos saber se estamos educando nossos filhos dentro da cultura da paz e afinados com os Direitos Humanos.

Nesse sentido entendo que violência no futebol, na escola, pegas de carros, e outras agressões no trânsito, o recorde de vendas de armas de fogo que o Brasil atingiu nos últimos anos, excesso de vaidades anabolizantes, a corrida louca pelo dinheiro e outros sórdidos sensos comuns integram para mim a cultura da guerra. Hoje, mesmo com casamento gay, preconceitos ainda destilam suas variadas conseqüências em nosso mundo contemporâneo que ainda mata mulher por “amor”.

Então que evolução é essa? A que nos convoca esse novo tempo? Por isto e para isso escrevo, meus senhores, para que não fiquem impunes os cúmplices desse crime por atropelamento, para que os pais parem de uma vez por todas de armar seus filhos por fora oferecendo-lhes carrões, cartões de crédito sem limite, nenhum juízo, e passem a amá-los por dentro mostrando todos os valores que o dinheiro e o poder não compram, mas que podem salvar uma vida.

Cissa, meu amor, quem me dera essas palavras pudessem restituir o tecido rasgado do seu peito nessa hora. Quisera poder adormecer seu coração, anestesiar o seu olhar sobretudo o que recordará a partida do seu fruto. Não posso. Só sei que o tempo fará com que, o que hoje é ausência, vire presença luminosa e eterna na sua memória e que você, o Raul e seus outros filhos construam com valentia e calma essa sublimação. Nem a morte apaga o que o amor construiu, isso eu sei.

Termino essa crônica com o verso do tal poema que aqui está a serviço de seu coração generoso : “choram Meus filhos pela casa, eu sou a recessiva bússola, a cegonha, a garça, com o único presente na mão: saber que o amor só é amor quando é troca e a troca só tem graça quando é de graça.”

Beijos, sua Elisa Lucinda.

Autora: Elisa Lucinda
Enviado por: Dion de Assis Tavora


O FUTEBOL DOS MASCARADOS

É dessas fotos que ficam no imaginário coletivo: Pelé aos dezessete anos, campeão do mundo, chorando no ombro do grande Gilmar que o ampara, o consola, o anima, o conforta. Passados não mais de 52 anos, a reprodução dessa cena é quase impensável. Se o garoto Neymar tivesse sido campeão do mundo nos seus atuais 18 anos, como muitos queriam, em que ombro choraria de emoção, se é que choraria? No de Dunga, velho e bravo campeão; no de Kaká, veterano de outras copas e acostumado aos aplausos? Não, não parece a ninguém factível a repetição daquela cena protagonizada por Pelé e Gilmar, nos campos da Suécia. Meninos de hoje não choram mais nos ombros de seus ancestrais, meninos de hoje não têm ancestrais. A sociedade pós-moderna pulveriza as verticalidades e não provê acolhimento das angústias nas hierarquias verticais, nos mais velhos, nos mais experientes, nos que já passaram por isso. O resultado está aí: a série que deveria ser: descoberta, sucesso, fama, dinheiro, conforto e satisfação tem sido: descoberta, sucesso, fama, dinheiro, mulheres, drogas, violências, desastres, prisão ou ostracismo.

Podemos pensar em uma explicação paradigmática, além das particularidades de cada caso, o que o mais das vezes só anda tampando o sol com a peneira: foi o pai violento, a mãe alcoólatra, as más companhias, a péssima educação, o irmão psicopata, etc. Ocorre que a saída da pobreza e do anonimato para a riqueza e a fama, subitamente, gera uma forte crise de identidade. Ter sucesso é cair fora; na palavra sucesso, tem a raiz ceder, cair. Quem tem sucesso cai fora do seu grupo habitual de pertinência. Jobim não tinha razão quando dizia que o brasileiro não desculpava o sucesso, pois nenhum povo desculpa, só variam as maneiras de demonstrá-lo. A máxima de Ortega y Gasset ainda é válida: “Eu sou eu e a minha circunstância”. E quando a minha circunstância muda abruptamente, fica a pergunta profundamente angustiante: - “Quem sou eu?”,  que fundamenta a crise de identidade. Aí, com frequência a pessoa se aliena em uma identidade forjada, aquela que fica bem na fotografia, a máscara; surge assim o mascarado. Quantos e quantos jogadores de futebol não se transformaram em mascarados diante dos nossos olhos? E a coisa não pára por aí. A máscara não é suficiente para dominar a angústia causada pelo sucesso, vindo, em seguida, um sentimento terrível de ilimitação, de poder tudo. Quer alguma coisa, compra; quer um amor, toma; quer ter razão, impõe. Esse sentimento de quebra de fronteiras pede um basta que não raramente aparece da pior forma: no insulto, no acidente, na morte. Alguns têm a sorte de passarem por um desastre controlável e depois conseguem se recuperar, carregando beneficamente a cicatriz de sua desventura, mas muitos e muitos vão e não voltam.

Não pensemos que a solução está no treinamento de ombros amigos, como os do passado, dado em lições risíveis de moral e cívica extraídas dos panfletos de neo-religiões televisivas, ou de jornalistas histriônicos que se querem baluartes da dignidade social. O que entendemos necessário é um trabalho junto a todos os grupamentos que convivem com esse fenômeno de mudança de status repentina, dos quais as equipes de futebol são um exemplo maior, um trabalho que saiba tratar do problema da perda de identidade como foi aqui referida. No mundo de hoje, um mundo horizontal sem baluartes fixos, sem Gilmares para as pessoas se apoiarem, é necessário que possamos oferecer novos tratamentos às crises de identidade que se multiplicam. Se o tratamento não reside mais em se mirar no exemplo do ídolo da geração anterior, o que temos a fazer é implicar cada um em seu ponto de vergonha essencial, aquele que a fama não recobre e que o dinheiro não compra, um ponto de vergonha que todo ser humano carrega em si por ter nascido e não saber muito bem o que faz por aqui, por se sentir um acontecimento sem explicação. Pois bem, não deixemos ninguém se acomodar no empobrecedor e perigoso eu sou o máximo, fiquemos com a lição do próprio futebol: cada partida é uma nova partida, sem piloto automático, sem já ganhou, sem triunfalismo. Fica a recomendação para os técnicos do futuro: mais invenção com responsabilidade e menos repetição com disciplina.

Autor: Jorge Forbes
Psicanalista em São Paulo


AMOR E ÓDIO

Que sentimento pode superar amor de mãe? Somente outro amor, e se for igual ou maior. Coração de mãe cabe muitas coisas, sobretudo desgosto de filhos. Mãe é branda como chuva fina.  

Paixão é como temporal. Diferente de amor, provoca coragem, despende muita energia e causa danos. Dura o tempo que resistir a fúria. Estanca. Depois se apuram os prejuízos.

A canção "Coração materno" de Vicente Celestino – clássico da MPB -  conta a história de um camponês. Ele mata a própria mãe para alegrar à amada. Arrancado do peito, o coração materno é levado, às pressas, pelo filho cego de paixão. Tropeça no caminho.

Os versos da canção dizem: "E na queda uma perna partiu / E a distância saltou-lhe da mão / Sobre a terra o pobre coração / Nesse instante uma voz ecoou / Magoou-se pobre filho meu / Vem buscar-me filho, aqui estou / Vem buscar-me que ainda sou teu!

Nelsom Mandela tem 91 anos, saúde frágil, aparece raramente em público. Prêmio Nobel da Paz em 93, não vive em paz. Talvez porque o país detenha uma das taxas mais altas de violência e de crime fora de zona de guerra no mundo. Ou talvez porque sinta as dores que cercam os humanos normais. Perdeu a abertura do torneio no mês passado. A causa foi a morte de uma bisneta num acidente de carro.

Guardou forças para a festa de encerramento. A aparição emocionou a todos. Ele acenou para o público e foi recebido de pé por quem lotava o palco da grande final da competição.

O homem que foi preso e humilhado, não se rendeu à solidão das grades. Vinte e oito anos de reclusão não endureceram um coração que soube ser paciente e perseverante. Em fevereiro de 90 as portas se abriram, o apartheid cedeu, a África do Sul começou a contar nova história.

Mandela poderia ter odiado o lado opressor, a porção branca do país. Não o fez porque o coração queria paz, sabia dar somente amor. Por isso, venceu. Por isso, o mundo se emocionou ao ver nos olhos do líder um doce sorriso. No rosto tinha a expressão de quem vê transformada em realidade o que num passado recente eram apenas sonhos.

A copa de 2010 aconteceu graças à sua luta. Ele merecia. O olhar sereno deixava notar o que se passava na alma. Parecia coração de mãe, que bate feliz ao ver os filhos unidos, dividindo o mesmo espaço.

Espírito iluminado, soube conquistar pelo dom do amor, através da força das palavras. Tinha a linguagem certa. Disse: "Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria liguagem, você atinge seu coração."

Enquanto o via desfilar no soccer city, sob os aplausos de dezenas de milhares de torcedores, veio à mente a imagem de Bruno. Aplaudido num maracanã lotado, o goleiro do Flamengo era ídolo, exemplo a ser adotado.

Lembrei a senha do computador da namorada Eliza: "Amor e ódio".  Pensei na força desses dois sentimentos. E concluí: "Negro como o goleiro, o líder sul-africano também nasceu num mundo de revolta, discriminação, negação."

Alimentado pelo amor, Mandela venceu o ódio e um dia deixou a prisão para entrar na história. Bruno fez o inverso. Dominado pelo ódio, desprezou o amor. Deixou a história para entrar na prisão.

Autor: Célio Furtado


BELEZA DA IMPERFEIÇÃO

Para muitos tentar registrar a verdade em um filme já é em si um ato de ficção. Afinal, o autor escolherá um determinado ângulo para mostrar a realidade e na edição vai excluir cenas ou momentos que por alguma razão pessoal considera irrelevantes. De qualquer modo, não se pode negar que o documentário é um instrumento eficaz para se investigar a realidade.

Nesse caso, pode o documentário ser considerado como uma fonte de pesquisa e ensino da História? Segundo Umbelino Brasil sim, afinal ele pode significar para realizadores, estudiosos e espectadores uma prova da "verdade", uma vez que trabalha diretamente com imagens extraídas da vida real. “É comum se imaginar o filme documentário como a expressão legítima do real ou se crer que ele está mais próximo da verdade do que os filmes de ficção”.
Verdade ou ficção induzida, registro histórico ou recorte da realidade com fins estéticos, o documentário tem sido produzido intensamente nos últimos anos no Espírito Santo com resultados por vezes surpreendentes.

Mostras diversas de audiovisual realizadas em diversas regiões do Estado têm estimulado a produção de documentários como forma de reflexão sobre a vida e de exercício pleno de uma linguagem quase onipresente no cotidiano de todos. Buscar entender o seu ambiente através de imagens torna-se assim uma maneira eficaz de levar o jovem a participar ativamente da construção de imaginários culturais fundamentados em sua própria existência.

Levam também o público a se confrontar com situações e figuras humanas que se, de um lado quase passam despercebidas, de outro, evidenciam a importância das respectivas experiências individuais na formação de cada comunidade, e o significado social de seus depoimentos. É como um espelho que reflete cada habitante do lugar naquilo que possuem de único e, ao mesmo tempo, de universal.

Ao longo dos últimos sete anos essas mostras totalizam mais de 80 documentários, que abordam vários aspectos de nossa formação cultural. Um rico painel de pontos de vista diversos acerca de peculiaridades regionais, fatos e trajetórias pessoais que compõem o cotidiano de inúmeros habitantes. Nesse sentido podemos dizer que dispomos de uma ampla fonte de pesquisa antropológica, histórica e artística acerca dos modos de vida de nosso Estado.

O reconhecido documentarista Eduardo Coutinho afirmou certa vez que o documentário “não tem que informar, educar, não é jornalismo; ele mostra maneiras de se ver o mundo". Em recente entrevista, ressaltou: “O que me interessa é aquilo que não sou eu, ou aquilo que não sei”. Ao se encontrar com seus personagens anônimos – pessoas a serem entrevistadas –, “o interesse está no que resulta precário, incompleto, parcial, que não diz tudo porque não pode dizer tudo. É a busca pelo belo que se revela na imperfeição humana”.

Talvez este seja de fato um caminho de uma possível interpretação artística do documentário: captar a beleza da imperfeição que se manifesta na vida das pessoas e nas situações comuns, na singularidade do que nos distingue e nos identifica, e nos faz seres representativos de nossa espécie.

Autor: Erlon José Paschoal


QUAL É A VONTADE DE DEUS PARA MIM?

A vontade de Deus é que eu desista das coisas de menino nesta vida... Obviamente a vontade de Deus é de Deus. Sim! A vontade Dele é Dele; e de mais ninguém. Jesus disse que comia a vontade do Pai, que se alimentava dela. Ora, se eu tenho muitas vontades e se as exerço de modo pessoal e incompartilhável, que não dizer da vontade de Deus?

“Quem conheceu a mente do Senhor?”
Além disso, o que me separa de Deus em todos os sentidos possíveis é infinitamente mais do que o que separa de um organismo mono-celular. Assim, Deus se revela às amebas como as amebas podem processar.

Ora, o mesmo Deus faz com os homens!
O problema é o surto humano. Sim! O homem crê que é “capaz de Deus”, e, sobretudo, de dizer aos outros humanos qual seja a vontade de Deus para o outro. A vontade de Deus é uma só: que nos amemos uns aos outros! Deus não tem planos profissionais para ninguém. Nem de qualquer outra natureza tópica. O plano de Deus, não importando onde eu esteja, é que eu ame e pratique o amor. O resto é insignificante!

É o que Paulo diz quando afirma: “... ainda que eu...” fale línguas de homens e anjos, ou profetize, ou saiba todas as ciências e adquira todas as sabedorias, ou me entregue às praticas de martírio ou de entrega social de todas as minhas produções aos demais homens necessitados, mas, “se não tiver amor, nada me aproveitará”; e mais: nada será vontade de Deus. Paulo nunca discutiu nada disso. Sabia fazer tendas. Mas era chamado para pregar. Por isso, tendo dinheiro para entregar-se apenas à pregação, assim fazia. Mas se não tinha, então, fazia tendas, e, pregava nas horas possíveis.

Ou seja:
Paulo tratava tudo com simplicidade, pois, a vontade de Deus era amor, e, amor, cabe em qualquer oficina de tendas. As pessoas perguntam, referindo-se aos detalhes da vida, como se eu ou qualquer outro ser ameba humano pudéssemos responder: Qual é a vontade de Deus para a minha vida? Ora, eu posso responder, mas a resposta que tenho a dar não satisfaz as pessoas que querem saber a vontade de Deus como um guia afetivo e profissional das jornadas na Terra.

Então, não sei!... Afinal, nessas coisas, à semelhança de Paulo, apenas uso o bom senso para decidir, e nunca o faço como quem consulta um “guia de jornada”, mas apenas como uma decisão de agora, da circunstancia do existir; e isto, sempre, apenas conforme o espírito do Evangelho, que é amor.

A vontade de Deus são os Seus mandamentos, embora Jesus tenha nos dito que até os mandamentos, sem que sejam vividos em amor, são desagradáveis a Deus; pois, sem amor, todo mandamento não passa de presunção e arrogância.

A vontade de Deus é amor, alegria, paz, bondade, longanimidade, mansidão e domínio próprio! Se você faz isso entregando o lixo, operando na mais rica clínica de neurocirurgia, ou se o faz pregando como um ensinador da Palavra, não importa; pois, a única coisa que importa para Deus é se você vive ou não o amor como o mandamento de seu ser.

O que Deus quer de mim? Onde quer que eu trabalhe? Com quer que eu case?
Ora, Jesus não respondeu tais perguntas a ninguém! Quando Pedro quis saber... Jesus apenas disse: “Que te importa? Quanto a ti, vem e segue-me”. Quanto mais a pessoa se dispõe a andar em amor e fé, sem buscar mais nada, tanto mais ela encontrará uma sintonia fina com Deus e com a vida, e, assim, sem que ela sinta, irá sendo posta no leito do rio de sua própria vida.

É claro que Deus tem a vontade que diz “não”. Mas essa é a não-vontade de Deus. É o que Deus não quer, pois, é o que Deus não é. Deus não é mentira, nem engano, nem ódio, nem cobiça, nem traição, não injustiça, nem maldade, nem indiferença, nem descrença, nem altivez, nem orgulho, nem arrogância, nem vaidade, nem medo e nem frieza de ser. Assim, a tais coisas Deus diz “não”, mas não como quem diz a Sua vontade, mas apenas aquilo que não é vontade Dele. Portanto, a vontade de Deus não é “não”, mas “sim”, embora a maioria apenas pense na vontade de Deus como negação.

Ou seja:
Para tais pessoas Deus é Aquele que diz “Não”.
A proporção, todavia, continua idêntica à que foi estabelecida no Éden. Pode-se comer de tudo, e, apenas diz-se não a uma coisa: inventar a nossa vontade contra essa única coisa à qual Deus disse “não”. Todas as árvores do Jardim são comestíveis, mas, continuamos discutindo a única arvore proibida, tamanha é a nossa fixação na transgressão como obsessão na vida.

Entretanto, a vontade de Deus é sim, e, para aqueles que desejam fazer a vontade de Deus, e não apenas discuti-la, Deus revela Sua vontade como fé e amor, e, nos diz que se assim vivermos provaremos tudo o que é bom, perfeito e agradável, não porque a vida deixe de doer, mas apenas porque o pagamento do amor transcende a toda dor. A vontade de Deus é que eu desista das coisas de menino nesta vida e abrace as coisas de um homem segundo Deus.

Agora, se você vai trocar de casa, de carro, de mulher, de emprego, de cidade, de país, de nome — sinceramente, é melhor consultar um bruxo, uma feiticeira ou um profeta que aceite pagamento para contar tal historinha.

Você pergunta a Jesus:
Senhor, qual é a Tua vontade para mim?
Ele responde: É a mesma para todos os homens. Sim! Que você ame e pratique o amor, pois, sem amor, nada será vontade de Deus para você, ainda que você distribua todos os seus bens aos pobres e entregue o seu corpo para ser queimado em martírio de dignidade pela consciência e pela liberdade. Dá pra entender ou é difícil demais?

Que tal a gente parar de brincar de vontade de Deus? Vamos? Chega; não é gente?

Autor: Caio Fábio
Enviado por: Henrique Neiva


COM TODO O CARINHO: CALA A BOCA, DILMA!

O grande sucesso mundial do Twitter, no embalo da Copa da África do Sul, é o brado “Cala a boca, Galvão!”. A provocação ao narrador Galvão Bueno, da TV Globo, foi replicada por todo o planeta a partir de uma fraude. Ante a curiosidade inicial de usuários estrangeiros em torno do significado da mensagem, um grupo de brasileiros explicou na rede social: Galvão é uma ave ameaçada de extinção, e “cala a boca” quer dizer “salve”. A adesão em massa ao falso slogan pode ser um ótimo precedente para o combate à fraude na política brasileira.

A disseminação da mensagem “Cala a boca, Dilma!” poderia salvar o Brasil de um grande engano. Não se trata, claro, de embargar a voz da candidata de Lula. Seu direito a continuar falando pelos cotovelos é sagrado. Mesmo quando afirma, como no lançamento oficial de sua candidatura, que recebe aquela homenagem “em nome de todas as mulheres do Brasil”. A brasileira que não se lembrar de ter passado essa procuração a Dilma Rousseff que reclame do abuso.

Nada de cerceamento. Como no “cala boca galvao” (a grafia exata no Twitter), o novo slogan também teria seu significado cifrado. “Cala a boca, Dilma!” seria traduzido como “salvem-nos da falácia”.

Funcionaria como uma campanha de utilidade pública – contra a extinção do bom-senso. Sempre que a procuradora das mulheres brasileiras soltasse uma de suas verdades feitas em casa, quem notasse o contrabando dispararia no Twitter: “Cala a boca, Dilma!” – com link para a falácia em questão.

É simples. Por exemplo: na tal festinha partidária em Brasília que “celebrou a mulher brasileira”, a candidata do PT declarou o seguinte sobre os 500 anos A.L. (Antes de Lula): “Historicamente, quase todos os governantes brasileiros governaram para um terço da população”. Se você por acaso se incomodou com o chute estatístico, ou com o verniz acadêmico “historicamente” falsificado, não perca tempo pedindo socorro aos deuses do IBGE. Apenas digite – com todo o respeito – “Cala a boca, Dilma!” e jogue a cascata no Twitter. Todo mundo vai entender.

A disseminação da mensagem “Cala a boca, Dilma”
poderia salvar o Brasil de um grande engano

Dessa forma, você vai economizar três terços de seu tempo, historicamente gastos com uma argumentação que ninguém ouve. Para que lembrar que as leis trabalhistas de Vargas tiveram muito mais abrangência do que as bolsas bondosas de Lula? Ou que o Plano Real de Fernando Henrique empurrou 100% dos brasileiros para uma vida melhor? Ou mesmo que os militares uniram o Brasil inteiro com a Empresa de Correios e Telégrafos – essa mesma que o governo Lula e seus companheiros conseguiram a proeza de desmoralizar?

Não, nada de falatório. Nunca antes na história deste país os argumentos foram tão inúteis. São quase três terços de aprovação popular, e fim de papo. Dilma já explicou que foi o governo Lula quem controlou a inflação e conquistou a estabilidade monetária. Que é a campanha do PT quem deplora dossiês e espionagem política e faz questão do “debate político sério, e não o envenenamento que não serve a ninguém”. Só um aloprado ainda toparia entrar nessa conversa radioativa.

Depois de um operário, o Brasil precisa de uma mulher na Presidência, declarou Dilma no lançamento de sua candidatura. Por quê? Porque o país precisa de cuidado e carinho – palavras muito repetidas no discurso da ex-ministra, pronunciadas com o habitual rosto crispado e a oratória de quartel. Só faltou informar de onde será importada essa mulher cuidadosa e carinhosa. Vai ver é sobre isso que eles tanto conversam com o Irã.

Enquanto a tal mulher não surge, Lula conclama de novo o povo a desconfiar da mídia – essa traidora que não lhe dá os quase três terços de bajulação (e que pelo visto só existe para irritar o Dunga). Ato contínuo, sua candidata teleguiada apresenta-se como fiadora da “ampla liberdade de imprensa”. Vamos aproveitar antes que acabe: cala a boca, Dilma! Com todo o carinho.

Autor: Guilherme Fiuza
Enviado por: Filipe Morais


A Ordem na Desordem

A cada semana, em todas as partes do mundo, milhares de pessoas, na grande maioria homens, se comprimem em estádios, muitos verdadeiramente faraônicos, construídos exclusivamente para esse fim, para torcer por seus times e, mais esporadicamente - mas também com maior intensidade -, por seu país. O som produzido nos estádios, de uma qualidade inigualável a qualquer outro conglomerado humano, pode ser ouvido à distãncia.

O que é, de fato, o futebol? O que ele coloca em cena? O que ele mobiliza? Para a psicanálise, a questão é, no fundo: de onde vem a força desse esporte para reunir multidões, arrancar tantas emoções e despertar tanta fala entre os sujeitos? De onde vem essa violenta paixão?

Algumas coisas do futebol já sabemos com a psicanálise. Sabemos que o esporte, em geral, proporciona uma intensa forma de satisfação, ao colocar em atividade o aparelho motor e oferecer-lhe condições ótimas para descarregar a agressividade. Dito de outro modo, a agressividade é inerente a todo esporte e pode ser bem evidenciada no futebol ao estudarmos a sua linguagem, francamente bélica: ataque e defesa, capitão, artilheiro, tática. O time é um miniexército que visa à conquista da vitória. Fala-se de tiro de meta, petardo e canhão (para designar chutes poderosos), de poder de fogo do time etc.

Os exemplos são intermináveis e a linguagem futebolística evidencia, com todas as letras, que, inconscientemente, nesse esporte, a guerra comparece velada, traduzida nas exigências da cultura humana. Há alguns anos, a figura da morte, que jamais comparecera no jogo, se tornou presente enfim, com a nova regra da "morte súbita". Cada jogo é a representação alegórica da guerra. O amor e a guerra são o sal da terra, já dizia o poeta.

O jogo de futebol constitui, de fato, a sublimação das forças (chamadas pela psicanálise de pulsões) de dominação e agressão inerentes ao humano, e as coloca em cena sob uma forma civilizada, passível de ser admitida para que haja convívio entre indivíduos, assim como entre povos. Tal afirmação encontra sua confirmação na manifestação oposta - infelizmente cada vez menos episódica - dos fenômenos de violência entre torcidas, dos quais os hooligans ingleses constituem o bárbaro paradigma, e entre jogadores. Pois a sublimação das pulsões agressivas e sexuais não pode ser total (este é um dos axiomas da psicanálise), elas exigem sempre uma parcela de realização direta de satisfação.

Mas temos uma hipótese que vai um pouco mais longe. Segundo ela, o futebol é, no fundo, a celebração da vigência da Lei humana. É o juiz que, entre os jogadores, conduz a partida e as possibilidades que esta apresenta; é ele quem, invisível (ninguém olha para ele), sem tocar na bola (ele a evita), dá a ela todo seu sentido (inicia e encerra o jogo, o interrompe se achar necessário, valida ou não o gol) e emoldura o quadro no interior do qual todo o jogo se desenrolará. É com referência a ele - presença materializada da Lei em campo, com sua austeridade, seu apito e cartões amarelos e vermelhos - que os homens se conduzem para conquistar a vitória. A vitória é buscada, mas deve ser obtida dentro da Lei.

Não seria essa efusiva celebração da Lei o que faz com que o futebol encontre no Brasil sua máxima expressão? Num país onde a Lei parece redundar eternamente em fracasso em suas mais diferentes dimensões, os homens bons parecem denunciá-lo ao encontrar no futebol o espaço para celebrá-la em toda sua plenitude e vigor. Isso pode ser uma fecunda indicação para nossos (poucos) políticos que almejam bem estar social verdadeiro: criar projetos que mobilizem no sentido de ações sociais urgentes parte da energia posta em ação com tanto entusiasmo, quando se trata do jogo de futebol, pelos jogadores, times, torcidas.

Pois estes, ao celebrarem periodicamente a Lei nos jogos, demonstram que sabem, ainda que inconscientemente, até onde se pode ir para se conseguir o que se deseja. E isto é a essência da Lei humana. E, por enquanto, algo que no Brasil é raro, a não ser nos domínios desse belo e exemplar esporte.

O Poder Legislativo, ao fazer as leis, os juízes, ao aplicarem-nas, os promotores, ao fiscalizarem a sua aplicação, e os advogados, ao defenderem os sujeitos, deveriam igualmente tomar este exemplo do povo brasileiro e aprender com ele a celebrar a Lei cotidianamente.

Autor: Marco Antonio Coutinho Jorge


Eis o perigo de mexer com pessoas inteligentes

O humorista Danilo Gentili postou a seguinte piada no seu twitter: "King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"

A ONG Afrobras se posicionou contra: "Nos próximos dias devemos fazer uma carta de repúdio. Estamos avaliando ainda uma representação criminal", diz José Vicente, presidente da ONG. "Isso foi indevido, inoportuno, de mau gosto e desrespeitoso. Desrespeitou todos os negros brasileiros e também a democracia. Democracia é você agir com responsabilidade", avalia Vicente.

Alguns minutos após escrever seu primeiro "twitter" sobre King Kong, Gentili tentou se justificar no microblog: "Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?" (GENIAL) "Na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque é famoso. A cabeça de vocês é que têm preconceito. "Mas, calma! Essa não foi a tal resposta genial que está no título, e sim ESTA: "Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista, pois, assim como os criadores de cachorros, acredita que somos separados por raças.

E se acredita nisso vai ter que confessar que uma raça é melhor ou pior que a outra, pois, se todas as raças são iguais, então a divisão por raça é estúpida e desnecessária. Pra que perder tempo separando algo se no fundo dá tudo no mesmo? Quem propagou a ideia que "negro" é uma raça foram os escravagistas. Eles usaram isso como desculpa para vender os pretos como escravos: "Podemos tratá-los como animais, afinal eles são de uma outra raça que não é a nossa. Eles são da raça negra".

Então quando vejo um cara dizendo que tem orgulho de ser da raça negra, eu juro que nem me passa pela cabeça chamá-lo de macaco, mas sim de burro. Falando em burro, cresci ouvindo que eu sou uma girafa. E também cresci chamando um dos meus melhores amigos de elefante. Já ouvi muita gente chamar loira caucasiana de burra, gay de v***** e ruivo de salsicha, que nada mais é do que ser chamado de restos de porco e boi misturados. Mas se alguém chama um preto de macaco é crucificado. E isso pra mim não faz sentido. Qual o preconceito com o macaco? Imagina no zoológico como o macaco não deve se sentir triste quando ouve os outros animais comentando: - O macaco é o pior de todos.

Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos. Ser macaco é uma coisa terrível. Graças a Deus não somos macacos. Prefiro ser chamado de macaco a ser chamado de girafa. Peça a um cientista que faça um teste de Q.I. com uma girafa e com um macaco. Veja quem tira a maior nota. Quando queremos muito ofender e atacar alguém, por motivos desconhecidos, não xingamos diretamente a pessoa, e sim a mãe dela. Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?

Mas o que quero dizer é que na verdade não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é? Eu sou um ser humano da cor branca. O japonês da cor amarela. O índio da cor vermelha. O africano da cor preta. Se querem igualdade deveriam assumir o termo "preto" pois esse é o nome da cor. Não fica destoante isso: "Branco, Amarelo, Vermelho, Negro"?. O Darth Vader pra mim é negro. Mas o Bill Cosby, Richard Pryor e Eddie Murphy que inspiram meu trabalho, não. Mas se gostam tanto assim do termo negro, ok, eu uso, não vejo problemas. No fim das contas, é só uma palavra. E embora o dicionário seja um dos livros mais vendidos do mundo, penso que palavras não definem muitas coisas e sim atitudes.

Digo isso porque a patrulha do politicamente correto é tão imbecil e superficial que tenho absoluta certeza que serei censurado se um dia escutarem eu dizer: "E aí seu PRETO, senta aqui e toma uma comigo!". Porém, se eu usar o tom correto e a postura certa ao dizer "Desculpe meu querido, mas já que é um afro-descendente, é melhor evitar sentar aqui. Mas eu arrumo uma outra mesa muito mais bonita pra você!" Sei que receberei elogios dessas mesmas pessoas; afinal eu usei os termos politicamente corretos e não a palavra "preto" ou "macaco", que são palavras tão horríveis.

Os politicamente corretos acham que são como o Superman, o cara dotado de dons superiores, que vai defender os fracos, oprimidos e impotentes. E acredite: isso é racismo, pois transmite a ideia de superioridade que essas pessoas sentem de si em relação aos seus "defendidos" . Agora peço que não sejam racistas comigo, por favor. Não é só porque eu sou branco que eu escravizei um preto. Eu juro que nunca fiz nada parecido com isso, nem mesmo em pensamento. Não tenham esse preconceito comigo. Na verdade, sou ítalo-descendente. Italianos não escravizaram africanos no Brasil. Vieram pra cá e, assim como os pretos, trabalharam na lavoura.

A diferença é que Escrava Isaura fez mais sucesso que Terra Nostra. Ok. O que acabei de dizer foi uma piada de mau gosto porque eu não disse nela como os pretos sofreram mais que os italianos. Ok. Eu sei que os negros sofreram mais que qualquer raça no Brasil. Foram chicoteados. Torturados. Foi algo tão desumano que só um ser humano seria capaz de fazer igual. Brancos caçaram negros como animais. Mas também os compraram de outros negros. Sim. Ser dono de escravo nunca foi privilégio caucasiano, e sim da sociedade dominante.

Na África, uma tribo vencedora escravizava a outra e as vendia para os brancos sujos. Lembra que eu disse que era ítalo-descendente? Então. Os italianos podem nunca ter escravizados os pretos, mas os romanos escravizaram os judeus. E eles já se vingaram de mim com juros e correção monetária, pois já fui escravo durante anos de um carnê das Casas Bahia.

Se é engraçado piada de gay e gordo, por que não é a de preto? Porque foram escravos no passado hoje são café-com-leite no mundo do humor? É isso? Eu posso fazer a piada com gay só porque seus ancestrais nunca foram escravos? Pense bem, talvez o gay na infância também tenha sofrido abusos de alguém mais velho com o chicote. Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo "negro" ou "afro-descendente" , tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar.

Na minha cabeça, você será apenas preto e eu, branco, da mesma raça - a raça humana. E você nunca me verá por aí com uma camiseta escrita "100% humano", pois não tenho orgulho nenhum de ser dessa raça que discute coisas idiotas de uma forma superficial e discrimina o próprio irmão.

Autor: Danilo Gentili
Enviado por: Spartaco Massa


EU, VELHINHA MAL HUMORADA?

Quando uma velha senhora morreu na seção para o tratamento de doenças da velhice, em uma pequena clínica perto de Dundee, na Escócia, todos estavam convencidos de que ela não havia deixado nada de valor.

Então, quando as enfermeiras verificaram seus poucos pertences, eles encontraram um poema. Sua qualidade e conteúdo impressionaram todas as pessoas, e todas as enfermeiras queriam uma cópia da mesma.

Uma delas levou uma cópia para a Irlanda.

A única herança que a velha deixou a seus sucessores foi publicada na edição de Natal da Notícia da União para a Saúde Mental, na Irlanda do Norte.
Então, essa velha senhora da Escócia, sem posses materiais para deixar ao mundo, é a autora deste poema “anônimo” que circula na Internet:
:

EU, VELHINHA MAL-HUMORADA?

Que veem amigas?
Que veem?
Que pensam quando me olham?
Uma velha rabugenta, não muito inteligente, de hábitos incertos, com seus olhos sonhadores fixos ao longe?

A velha que cospe comida que, não responde ao tentar ser convencida… “De, fazer um pequeno esforço?”
A velha, que vocês acreditam que não se dá conta das coisas que vocês fazem e que, continuamente, perde a sua escova ou o sapato?
A velha,que contra sua vontade, mas humildemente lhes permite fazer o que quiserem, que me banhem e me alimentem só para o dia passar mais depressa….

É isso que vocês acham?
É isso que vocês veem? Se assim for, abram os olhos, amigas, porque isso que vocês veem não sou eu!
Vou lhes dizer quem sou, quando estou sentada aqui, tão tranquila, como me ordenaram…

Sou uma menina de 10 anos, que tem pai e mãe, irmãos e irmãs que se amam.
Sou uma jovenzinha de 16 anos. Com asas nos pés, e que sonha encontrar seu amado.
Sou uma noiva aos 20, que o coração salta nas lembranças, quando fiz a promessa que me uniu até o fim de meus dias com o AMOR de minha vida.
Sou ainda uma moça com 25 anos, que tem seus filhos, que precisam que eu os guie…
Tenho um lugar seguro e feliz!
Sou a mulher com 30 anos, onde os filhos crescem rápido, e estamos unidos com laços que deveriam durar para sempre…
Quando tenho 40 anos, meus filhos já cresceram e não estão em casa…
Mas ao meu lado está meu marido que me acalenta quando estou triste.
Aos cinquenta, mais uma vez comigo deixam os bebês, meus netos, e de novo tenho a alegria das crianças, meus entes queridos junto a mim.

Aos 60 anos, sobre mim, nuvens escuras aparecem, meu marido está morto; e quando olho meu futuro, me arrepio toda de terror.
Os meus filhos se foram, e agora têm os seus próprios filhos…
Então penso em tudo o que aconteceu e no amor que conheci.
Agora sou uma velha. Que cruel é a natureza.
A velhice é uma piada que transforma um ser humano em um alienado.
O corpo murcha, os atrativos e a força desaparecem.
Ali, onde uma vez teve um coração agora há uma pedra.
No entanto, nestas ruínas, a menina de 16 anos ainda está viva.
E o meu coração cansado, ainda está repleto de sentimentos vivos e conhecidos.
Recordo os dias felizes e tristes.
Em meus pensamentos volto a amar e a viver o meu passado.
Penso em todos esses anos que foram, ao mesmo tempo poucos, mas que passaram muito rápido, e aceito o inevitável.
 

Que nada pode durar para sempre… por isto, abram seus olhos e vejam diante de vocês não está uma velha mal-humorada. Diante de vocês estou apenas “EU…”
Uma menina, mulher e senhora viva…!! E com todos os sentimentos de uma vida…

Lembrem-se deste poema da próxima vez que se encontrarem com uma pessoa idosa com aparência de ser mal-humorada não a rejeitem, sem olhar primeiro a sua Alma Jovem…
Vocês estarão algum dia em seu lugar… Se não morrerem antes.

Autor desconhecido
Enviado por: Lulu Micaldas


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