CRÔNICAS DA LOU


LEMBRANÇAS DAS PALMADAS

EDUCAÇÃO E ESPORTE

CREIO EM DEUS


LEMBRANÇAS DAS PALMADAS

Esta crônica com minhas recordações foi inspirada na lei que quer estatizar a educação das crianças no seio da família, enquanto a deseducação e o descumprimento das leis que regem o ensino nas escolas públicas estão abandonados!
Vale lembrar os ditados antigos que vêm a calhar: "Cada macaco que olhe pro seu rabo!"; "cada macaco em seu galho!" E "pé de galinha não mata pinto".

Excluo as surras com fio, cordas e outros objetos que causam ferimentos no corpo e, principalmente na alma. Pais ou mães que surram os filhos com tanto ódio são casos de polícia ou de terapia familiar.

Sinto saudade das criancices bem vividas,
Daquelas travessuras coletivas,
Das palmadas sempre merecidas.
Sem ódio e sempre corretivas.

Sinto, sim, saudade daquela época. Éramos 5 filhos.
Uma escadinha: a diferença era de um a dois anos entre cada um.

Sentia amor e respeito. Confiava nos meus pais e nas suas intenções. Sempre os castigos eram seguidos de algum conselho, ou explicação, quando fosse necessário.
As palmadas eram raras e sabíamos perfeitamente o porquê de cada uma delas.

É claro que nenhuma criança gosta de ficar de castigo nem de levar palmadas. Mas depois de adulta, vem aquela saudade da ligação familiar, incluindo as brigas entre irmãos e atritos com nossos pais.

Mauricio, meu irmão, tinha uns 6 anos e havia aprontado alguma.  Minha mãe falou pra ele: venha já aqui que vou lhe dar uma palmada. E ele veio se virou de costas, com a bundinha empinada pra trás, esperando a palmada que mamãe não conseguiu dar...

À proporção que os mais velhos iam crescendo, as palmadas deixavam de existir pra eles.
Mas, nós três, as mais novas e mais levadas, ainda merecíamos algumas delas e nem são lembradas, mas as ameaças é que ficaram inesquecíveis.
Um dia, mamãe ficou doente, talvez gripada, não me lembro. Estava deitada em seu quarto.
E nós, no nosso quarto, discutindo por causa de roupas.

Uma usava o vestido da outra sem pedir... E isto era um erro grave em nosso tratado, mas que sempre cometíamos e que era motivo pra repetidas brigas. Meu pai entrou no quarto, nervoso, com o rosto vermelho, dizendo que não estávamos respeitando nossa mãe que estava de cama. E nós, ainda gritando, começamos a nos defender, acusando umas às outras. Ele tirou o cinto da calça. Nós nunca imaginamos uma cena daquela: apanhar de cinto pela primeira vez?? E o mais surpreendente viria depois.  Aconteceu que as calças dele caíram - ele em casa, não usava cueca, ficou pelado. Diante daquela cena, começamos a rir às gargalhadas. Ele, rapidamente, levantou as calças e, com os olhos cheios de lágrimas, explicou que tirou o cinto só pra nos assustar, e disse, com a voz embargada, que nossa mãe precisava dormir... Aí, nós três o abraçamos, tentando consolá-lo e ele nos retribuiu... A cena engraçada se tornou comovente. Sentimos o quanto nosso pai nos amava e amava nossa mãe. E o quanto nós os amávamos. Dá pra esquecer?

A demontração de afeto sortiu um efeito mais positivo do que a surra de cinto que teria causado uma revolta inesquecível.

Outra cena inesquecível: mamãe perdeu a paciência com a Zeca e deu-lhe uns tabefes nos braços... Em ato instintivo a Zeca se defendia com as mãos, porém pegou de mau jeito no pulso da mamãe. Pronto! A Zeca foi cuidar do "ferimento", chorando e pedindo desculpas...

Mais um fato marcante: Eu já tinha 18 anos. Naquela época, moça direita não chegava tarde em casa. Mas eu já trabalhava no Jornal do Brasil e, muitas vezes, saía de lá depois das 7 horas da noite. O meu namorado foi me buscar de ônibus... Fomos a uma pizzaria na rua Hadock Lobo, ali mesmo, pertinho de casa, na Tijuca. Minha mãe, deitada na cama, lia; meu pai, nervoso, andava pela casa arrastando o chinelo...; minhas irmãs, assustadas com a demora. Eis que chego em casa, toda lampeira, por volta da meia-noite. Vou direto pro quarto. Ele veio atrás de mim, me censurando, parecia uma fera! Não aceitei a reprimenda e disse que não havia motivo pra ele brigar comigo. Não era mais criança... Nem pude terminar e ele me interrompeu, falando mais alto.

Minha mãe, deitada nua (não havia ar condicionado e o calor era infernal), enrolou-se no lençol e veio ver o que estava acontecendo. Ela se meteu no meio, pra evitar que ele me batesse, pois estava ficando bravo com minhas respostinhas...  Aí, ela foi segurá-lo e o lençol caiu. Dessa vez foi ela que ficou pelada. Pronto, começamos a rir.

Ela se abaixou pra apanhar o lençol, mas ele tornou a cair. Foi uma outra luta: mamãe não sabia se segurava o lençol ou segurava o papai... Então, a gargalhada foi geral.

Ele levou a mamãe pro quarto e fechou a porta.
Os ânimos se acalmaram. Nós demos graças a Deus... Aquele lençol foi o lenço da paz...

Ah, tem outra! Voltando no tempo. Eu devia ter uns oito anos. Estávamos jantando e eu não queria provar o suflê de chuchu. Meu pai insistia mas eu resistia: não e não!
Ele abaixou minha cabeça, pedindo pra eu cheirar o suflê. Mas, ou ele errou a mira, ou eu tentei desviar, e bati com a boca no prato. Comecei a chorar. A Lulu, talvez, pra acabar com a tragédia ficou repetindo: suflê-flê-flê... Não fui obrigada a comer!

Quando acabou o jantar, meu pai desceu e comprou balas, docinhos de leite e sorvete pra todos nós.
Mamãe então se inspirou e fez a poesia "A Palmada", depois publicada no livro "A Criança Recita":

"A PALMADA"
( Magdalena Léa)

Um dia fui malcriada,
e o papai me deu palmada.
Eu tão sentida fiquei,
e tanto, tanto chorei...

Que papai se arrependeu
da palmada que me deu.
Veio cheio de carinho,
me deu abraço, beijinho,

doces, balas e sorvete...
Mais depressa que um foguete,
me virei numa dengosa.
Ai! Que palmada gostosa!

Então eu disse por fim:
- Quero outra palmada assim!...

Lou Micaldas


EDUCAÇÃO E ESPORTE

Consternação geral. Estamos todos de luto por dois motivos: o primeiro, a morte escabrosa de uma jovem “dita de vida fácil” para os que a julgam assim, sem se darem conta do quanto pode ser doloroso vender o corpo, sofrer agressões e humilhações pra tentar conseguir uma vida financeira estável.

Não menos triste, o segundo motivo é ver um profissional do esporte, ídolo nacional e internacional, com promissora carreira pela frente, encerrá-la tão tragicamente.

O esporte sempre foi um meio de disseminar a educação. No ensino primário, as escolas públicas utilizavam as competições esportivas nas aulas de educação física. Fazia-se campeonato de vôlei, de bandeira, de passa bastão, dança dos arcos, etc. Com a decadência da educação, saíram do currículo as aulas de Educação Física e de Educação Moral e Cívica.

E no pátio, antes de entrarem em sala, os alunos cantavam o Hino Nacional. Conforme a data, eram entoados os hinos da Bandeira ou da Independência, ou do Dia do Soldado, ou da Proclamação da República, perfilados e separados por série, acompanhados pela professora. Pode parecer uma frescura, hábitos antigos, uma perda de tempo. Mas não é.

A importância de chegar à escola, entrar em forma e cantar dava aos alunos uma mudança no estado emocional. Quantos vinham de ambientes hostis, poucos civilizados e, ao ficarem perfilados, entoando hinos, acalmavam os ânimos. Era um recurso pra conseguir despertar neles o sentimento e o respeito à Bandeira do Brasil, que era hasteada por uma das crianças escolhida entre as turmas devidamente enfileiradas diante de suas professoras. Ao cantarem o hino, na presença da Diretora, cultivavam o respeito à escola, às professoras e, finalmente, à Pátria.

Assim, os alunos das escolas públicas obtinham um ensino básico de excelência e eram preparados pra se tornarem cidadãos. O amor e o respeito à pátria se constrói nas Escolas. Os professores eram amados e respeitados por serem devidamente preparados em Escolas Normais.

De que adianta obrigar os candidatos ao magistério a fazer faculdade, se as entidades não ensinam pedagogia, técnicas de Educação, metodologias de cálculos e da língua portuguesa, matérias fundamentais para se obter êxito nos resultados e base para entrar no segundo grau e posteriormente nas faculdades, sem precisarem entrar pela janela com a tal das cotas?

Mas voltando ao esporte.
O futebol é o jogo mais popular do mundo. Mas, ao invés de despertar nas crianças, e no povo em geral, o espírito de competição positiva, onde o melhor mereceria uma taça, provoca-se uma acirrada briga, onde a violência se soma ao jogo sujo, à malandragem para se conquistar a vitória e o poder.

Nas Copas Mundiais, uma onda de patriotismo extremo beira uma patologia, transformando-se em verdadeiras guerras entre nações: bandeiras são desfraldadas, enroladas nos corpos motivadas pelos jargões da imprensa escrita, dos locutores esportivos, dos âncoras de telejornais, das propagandas de carros a brinquedos infantis, de cerveja. Aliás, cerveja combina com esporte? E o pior: é razoável provocar adversários, utilizando-se a cerveja como símbolo ligado à picuinha esportiva? É ética esportiva cultivar richas entre hermanos?

Ficou evidente que os sucessivos campeonatos internos e os inúmeros torneios com seus variados.apelidos: Taça Guanabara, Taça Carioca, Taça Nacional, Paulista..., Copa América, Copa Européia, Latina, etc., com o fim de ganhos financeiros, prejudicaram o nível dos atletas. Eles vem baixando à medida que a qualidade dos jogos vem caindo, vertiginosamente, em troca de resultados "táticos".Perderam em arte, com menos liberdade de criação e mais bordoadas...

A agressividade é contagiante. Se os locutores incitam à luta, em forma de guerra, onde a arma mortífera é a chuteira, e a malandragem é a arma branda, o que podemos esperar de jovens, a maioria carente, que saíram de comunidades onde imperam as armas, as drogas ilícitas, e o domínio do poder pertence aos chefes do tráfico?

Os termos usados são agressivos: duelo, mata-mata, mata a bola, tiro certeiro, etc..
O espírito esportivo, a competição entre craques se perde em agressões covardes que podem eliminar excelentes jogadores e inutilizá-los pra participarem do resto do campeonato. A idéia principal dos jogos não é vencer pela criatividade, pelo toque de bola, pelos dribles e pela coragem de arriscar um chute certeiro nas redes.
As partidas são verdadeiros ringues de guerra, onde exterminar o adversário é o objetivo.

Cadê o espetáculo? Onde estão os craques, aqueles que surgem das peladas nas comunidades?
Eles são descobertos pelos olheiros, vão para os clubes/reformatórios, transformam-se em brigões, patrocinados e moldados pra angariarem mais lucro aos clubes. Saem da miséria e, em curtíssimo tempo, deixam de ser meninos carentes, pra se tornarem jovens ídolos, poderosos, reis das mulheres. Nem alcançaram a maturidade e já carregam o fardo de heróis.

E não faltam as marias-chuteiras que os seduzem pra dar-lhes o golpe da barriga. Elas, também, são quase sempre moças de origem humilde, vítimas dos maus exemplos que deram certo. Os ídolos da música, das TVs e do cinema também se tornaram presas fáceis pra esta geração de meninas que se submete a orgias, engravida e depois enriquece exigindo altas pensões.

Algumas conseguem êxito e se tornam donas de programa de TV, artista de novela, apresentadoras de programas; e outras, simplesmente, saem de seus casebres e se casam com altos empresários.

Quem são os culpados? Quem são as vítimas?
Uma linha tênue os separa.
Por causa de fama e dinheiro, vidas são destruídas. Uns morrem, outros vão presos.

Os que morrem perdem a chance de viver uma vida com possibilidade de ser feliz, com menos dinheiro e mais amor. Os que cometem crimes perdem a liberdade, são execrados.

E os que escorregam, mas teriam chance de se recuperar, conforme a mídia se encarrega de denegrir sua imagem, rouba-lhes a oportunidade de se salvarem e de retomarem o caminho do bem pra alcançarem ascendência a uma sociedade que eles tanto almejavam.
Eles sonhavam com a glória através da arte.

Lou Micaldas


CREIO EM DEUS

Quando era criança, havia aula de religião nas escolas públicas. E minha professora ia vestida como se fosse uma freira, sei lá, nem sabia o que era ser virgem.
E a aula dela era uma verdadeira preleção pra impingir o medo e a culpa. Depois que amadureci, perdi a crença em Jesus ser filho da Virgem Maria - virgem?- e passei a pensar em Deus com sua infinita bondade.
Então, agora, mais velha, acredito que Ele jamais castigaria as crianças pelo pecado de Adão e Eva e pelos erros de vidas passadas...
Primeiro, porque não consigo imaginar que ELE tenha criado uma mulher e um homem em pleno paraíso e, depois, tenha plantado uma árvore com o fruto do pecado - uma armadilha.
Pra mim Ele criou a natureza, ELE está lá em cima pra nos receber e nos dar a tranquilidade.
Acredito que ELE nos ame de forma incondicional. Mesmo porque não creio em amor que imponha mandamentos e condições penais.
Se ELE criou o amor, foram os homens e as religiões que inventaram o resto: as chantagens, pra merecermos o amor d'ELE e a nossa moradia no céu.
Inventaram o inferno pra gente ter medo de falar mentira – talvez o nosso primeiro pecado - pra fugir dos castigos do papai, da mamãe, da professora, e por aí afora.  Bastaria, então, só esse pecadinho inocente, pro céu não mais existir e em seu lugar ter nascido um enorme o deserto.
Inventaram as religiões pra nos policiar e pra dar lucro em todos os níveis de mercado da fé e do castigo.
É pecado original desejar fazer sexo? Mas quem criou o desejo sexual? Quem criou a felicidade, a atração e o amor foi ELE! Quem criou a tristeza, a maldade, a palavra pecado foram seres humanos, pra obter mais presença em suas igrejas, ou templos.
Todo ser humano normal sente culpa. Ninguém é santo, nem a Madre Tereza de Calcutá. Certamente, ela deve ter sido uma criança, uma adolescente e uma mulher como todas as outras que cometeram alguns deslizes, antes de se arrepender e de se tornar santa. Talvez, até por isto, ela tenha se tornado santa. Quem sabe? Não considero que as pessoas bondosas devam virar santas. A bondade é uma qualidade indiscutível.
 
Qual a necessidade de tantos sacrifícios para se tornar santo? Não acredito que ele tenha criado nada disso.
O importante, pra mim, sempre foi procurar reconhecer os erros, pedir desculpas e seguir em frente, tentando não repeti-los e evitar novos.

Somos passíveis de fraquezas. Não podemos cobrar da nossa frágil e curta existência a perfeição.
Refletindo sobre culpas e perdões, acho que não sofri por muito tempo do sentimento de culpa, esta erva daninha que pode nos levar a outros males.
Fico arrasada quando julgo que cometi alguma ofensa ou injustiça e me apresso a pedir perdão.
Se sou perdoada, melhor pra mim, que me alivio do sofrimento e ganho maior admiração por quem me perdoou e melhor também pra pessoa que soube me perdoar, porque ela também se sente mais leve, mais feliz por conceder o perdão e, também, por descobrir que quem a magoou é gente do bem. Quantas amizades se reforçaram depois de um desentendimento ou de um desequilíbrio emocional?

Precisamos ser mais tolerantes com nossos desacertos, pra ter a capacidade de nos perdoar e mais humildes pra conseguir pedir perdão. 
Não rezo ave-maria, nem padre-nosso, mas costumo orar, conversar com Deus sobre meus medos, minhas fraquezas. Peço ajuda a ELE pra não me deixar cair em tentação. Amém.

Lou Micaldas

Revisão : Anna Eliza Führich
anneliza@predialnet.com.br

Webdesigner: Lika Dutra

Qual a sua opinião sobre esta matéria?
Envie suas críticas e sugestões

Clique aqui

Deseja enviar esta página para um
"Velho Amigo"?

Clique Aqui

Para acessar matérias anteriores,
clique na caixa abaixo.

<< Clique Aqui para voltar