20 DE NOVEMBRO

VIOLÕES QUE CHORAM...
Autor: Cruz e Sousa
(jan. I897)

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações a luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas magoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho
Almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,
Finas, diluídas, vaporosas brumas,
Longo desolamento dos inquietos
Navios a vagar a flor de espumas.

Oh! languidez, languidez infinita,
Nebulosas de sons e de queixumes,
Vibrado coração de ânsia esquisita
E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas,
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmolos, incerta,
Palpitando no espaço, ondula, ondeia,
E o canto sobe para a flor deserta
Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,
E no silêncio astral da Imensidade
Por lagos encantados adormecem
As pálidas ninféias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,
Essas lacerações como me embalam,
Como abrem asas brancas de clemência
As harmonias dos Violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,
Nos lânguidos bordões plangendo passa...
Quanta melancolia de anjo existe
Nas visões melodiosas dessa graça.

Que céu, que inferno, que profundo inferno,
Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,
Quanto magoado sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos e indecisos...

Que anelos sexuais de monjas belas
Nas ciliciadas carnes tentadoras,
Vagando no recôndito das celas,
Por entre as ânsias dilaceradoras...

Quanta plebéia castidade obscura
Vegetando e morrendo sobre a lama,
Proliferando sobre a lama impura,
Como em perpétuos turbilhões de chama.

Que procissão sinistra de caveiras,
De espectros, pelas sombras mortas, mudas.
Que montanhas de dor, que cordilheiras
De agonias aspérrimas e agudas.

Véus neblinosos, longos véus de viúvas
Enclausuradas nos ferais desterros
Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,
Sob abóbadas lúgubres de enterros;

Velhinhas quedas e velhinhos quedos
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos
Sepulcros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lívidos defuntos...

E como que há histéricos espasmos
na mão que esses violões agita, largos...
E o som sombrio é feito de sarcasmos
E de Sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos
Na prisão celular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos
Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes
Que eu vi dentre os vilões errar gemendo,
Prostituídos de outrora, nas serpentes
Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
Das luas tardas sob o beijo níveo,
Para os enterros dos seus sonhos mortos
Nas queixas dos violões buscando alivio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,
Frouxos, dormentes, adormidos, langues
Na degenerescência dos vencidos
De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,
Como que feitos de um poder extremo
Para vencer a convulsão das mortes,
Dos temporais o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,
Enrugados por fundas cicatrizes,
Procuram nos violões horas estranhas,
Vagos aromas, cândidos, felizes.

Ébrios antigos, vagabundos velhos,
Torvos despojos da miséria humana,
Têm nos violões secretos Evangelhos,
Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços
De carapuças, máscaras e gestos
Lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Lembrando a florescência dos incestos;

Todas as ironias suspirantes
Que ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas tétricas e errantes
Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose
Das virgens nos românticos enleios;
Os ocasos do Amor, toda a clorose
Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebéia
De requebros de faunos e ondas lascivas;
A langue, mole e morna melopéia
Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,
Em ais de dor, em contorsões de açoites,
Revive nos violões, acorda e dorme
Através do luar das meias noites!

Fonte: http://pt.wikisource.org/wiki/Viol%C3%B5es_Que_Choram...

TEMPO DE TODOS OU SOBRE O DIA
DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Em novembro, como nos demais meses, existem datas importantes e outras nem tanto. É tempo propício a algumas considerações, não porque no mês seguinte tem Natal, mas porque neste mês se comemoram algumas datas cívicas. E uma delas vem ganhando realce. Note que não estou me referindo ao dia 15 nem 19, que andam meio esquecidas, mas ao dia 20. E o destaque crescente não se deve ao aniversário do assassinato de Zumbi, mas àquilo que vem sendo chamada do Dia Nacional da Consciência Negra.

É verdade que todos os tempos são favoráveis àquilo que queremos realizar. Em qualquer tempo podemos desenvolver a cultura da paz ou provocar situações de violência – principalmente sabendo que a violência é mais lucrativa que a paz! Em qualquer tempo podemos realizar grandes obras ou simplesmente esperar o tempo passar, como se no transcurso do tempo estivesse a solução de todos os problemas; como a negar o fato de que a solução de problemas se dá pelo trabalho e não pela acomodação. E, sendo assim, o dia 20 de novembro é uma data com essa característica ascendente. Mas, apesar de ser prenhe de significados, permanece uma data a ser construída pelo que pode produzir e não só pelo que passou.

Dia da consciência negra, na realidade é um tempo de todos.

Tempo de todos porque todos pertencemos à mesma sociedade brasileira que se desenvolveu não partir de brancos ou negros, mas por mãos de brancos, negros, índios e outros tantos; ou seja, uma história de misturas. Dia 20, portanto, não é apenas o dia da consciência negra, mas um tempo de e para todos. Inclusive tempo de refletir até mesmo sobre a denominação "Consciência Negra" que, embora produzida para dar voz ao movimento negro e como meio de resgate de nossa africanidade, pode soar com carga preconceituosa.

Além disso, não podemos negar que houve, sim, um tempo em que os brancos eram donos de negros e os tratavam como coisas ou como animais: trabalho forçado, agressão física e outros maus tratos... Tempo em que ser dono de um negro era sinal de opulência e status... mas nesse mesmo tempo houve negros que se rebelaram, fugiram e organizaram quilombos, assinalando para a história que a liberdade não tem cor, mas tem personalidade. Um tempo em que a atitude de corajosos visionários ameaçou aquela estrutura escravocrata.

Entretanto, no transcorrer dos anos e séculos muita mistura se deu. Negros, índios e brancos formaram um Brasil de muitas faces e cores: Branco, amarelo, vermelho, pardo, mulato, sarará, crioulo, moreno, branquelo, negão... e mais outras faces foram formando o Brasil detodos, que não é nem branco, nem negro, nem índio, mas mestiço. A mestiçagem produziu a mistura que nos nutre a todos, ao ponto de dizermos com Jorge Amado que o brasileiro puro é o mestiço. Mérito nosso? Não, de nossa história!

E então, consciência negra? Só se for uma consciência de pertencimento em que todos são responsáveis por erros e acertos; responsáveis por uma sociedade de mestiços que tem problemas, mas que busca soluções para todos e não para alguns. Sabendo que ao negar nossa africanidade negamos parte de nos mesmos, mas supervalorizar apenas um aspecto pode hiperbolizar outro equivoco, produzindo justamente o que queremos evitar!

Tempo de consciência negra? Mas também branca, mestiça, índia... e com isso ampliar nossa consciência de um pertencimento; para ampliar nossa consciência de que formamos uma sociedade feita de diferentes; para reforçarmos a consciência de que o diferente do que sou é justamente o que não sou e, portanto, o que me falta. Custa-nos admitir que os diferentes se completam e complementam,

Dia Nascional da Consciência Negra! Por que não dizer dia de valorização das diferenças culturais? Por que não dizer dia de todos? E, pior ainda, por que só um dia? O que fazer com os outros dias? Embotar a consciência? Comemorar o 20 de novembro, mas o que fazer nos demais dias?

Dia Nacional da consciência Negra! Por que não dizer dia de superar as diferenças? Pois se há diferenças que nos unem, existem situações em que o fato de sermos diferentes nos degrada a todos. Portanto existem diferenças a serem superadas.

Quais as diferenças a serem superadas?

Não se trata da cor da pele, mas da conta bancária, pois o que alguns tem de mais é o que falta para a maioria; não se trata da diferença de alguns fazerem um coisa e outros tantos se dedicarem a outras atividades, mas das condições de trabalho, de acesso ao trabalho, pois é pelo trabalho que o homem se constrói; não se trata da diferença de escolarização, mas de possibilitar a todos o acesso e permanência no ambiente escolar, pois a escolarização é um caminho para ampliação dos horizontes... os bancos escolares são degraus que nos elevam para enxergarmos mais longe

Novembro. Dia 20. Dia de um pertencimento. Dia Nacional da Consciência Negra, na realidade dia de sabermos que brasileiros somos todos e estamos num tempo de reconstrução da consciência nacional.

Neri de Paula Carneiro "Mestre em Educação, Filósofo, Teólogo, Historiador".

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