DIA DO IDOSO
1º DE OUTUBRO
OS QUE ESTÃO VIVOS E OS MORTOS APOLOGIA À VELHICE - MEUS 80 ANOS DIA DO IDOSO - CRESCER ATRAVÉS DO SOFRIMENTO |
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No fundo estamos condenados ao mistério. As pessoas dizem, eu gostaria de sobreviver além da minha materialidade... Eu não acredito que vá sobreviver, mas, pelo menos na memória dos outros, você sobrevive. Vivi intensamente isso com a perda da Ruth. Olhando para trás, é claro que ela estava com um problema grave de saúde. Apesar disso fizemos uma viagem longa e fascinante à China. É como se o problema não existisse. A gente sabe que um dia vai morrer e, no entanto, vive como se fosse eterno. Depois da morte de Ruth e, mais recentemente, de outros amigos, como Juarez Brandão Lopes e Paulo Renato, eu me habituei a conversar com os que morreram. Não estou delirando. Os mortos queridos estão vivos dentro da gente. A memória que temos deles é real. À medida que vamos ficando mais velhos, convivemos cada vez mais com a memória. Conversamos com os mortos. Por intermédio da Ruth, passei a lembrar mais dos outros que morreram, dos meus pais, meus avós. Os que morreram e nos foram queridos continuam a nos influenciar. O que não há mais é o contrário. Não podemos mais influenciá-los. Eu não penso na morte. Sei que
ela vem. Já senti a morte de perto. Não em mim. Senti
a morte de perto nos meus. E procuro conviver com ela através
da memória. Os que se foram continuam na minha memória
e eu converso com eles. Minha mãe, meu pai, minha avó,
minha mulher, meu irmão, meus amigos que se foram são
meus referentes íntimos. Tudo isso constitui uma comunidade –
posso usar a palavra – espiritual, que transcende o dia a Ninguém sabe como e quando vai morrer. Pessoalmente, tenho mais medo do sofrimento que leva à morte do que da morte propriamente dita. Se não é possível ter a pretensão utópica de sobreviver como pessoa física, é possível ter a aspiração de viver na memória, começando por conviver com a memória dos que se foram. Isso tem alguma materialidade? Nenhuma. Isso é científico? Não é. Mas é uma maneira de você acalmar sua angústia existencial. SENTIDO DA VIDA Aos 80 anos creio que cada um cria o sentido de sua vida. Não há um único sentido. Isso é muito dramático. Cada um tem que tentar criar o seu sentido. Nesse ponto os existencialistas têm razão. É muito angustiante. Tem uma dimensão da existência que é inexplicável. Ou você consegue conviver com isso no dia a dia sem apelar para a transcendência – digo no dia a dia porque, de vez em quando, todo mundo apela... – ou você tem que criar algum sentido para justificar, se não explicar, o sentido das coisas. Eu criei, imagino que sim. Achei que
devia ter uma ação intelectual para entender e para mudar
o Brasil. Na verdade é isso que eu queria, mudar as condições
de vida no Brasil. A literatura me influenciou muito, sobretudo a nordestina,
José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado. Depois as Vinhas
da Ira, de John Steinbeck, sobre a revolta social na América
da Grande Depressão. Ou mesmo Roger Martin Du Gard com Os Thibault
e, já noutra direção, André Gide e, também,
a metafísica de A montanha mágica, de Thomas Passei a vida inteira tentando entender melhor a sociedade, os mecanismos que podem levar a uma sociedade mais decente, como digo hoje, não apenas mais rica, e sim mais decente. Tem que haver, é claro, algum grau de riqueza, senão a miséria, a escassez, predomina e então não se tem nem liberdade nem igualdade. A escassez é a luta, a guerra pela sobrevivência. Tem que haver um certo bem-estar material. Além disso, porém, é preciso criar uma condição humana de dignidade, de decência, de aceitação e respeito pelo outro. Tentei entender isso do ponto de vista intelectual e fazer a mesma coisa do ponto de vista político. Então acho que dei um certo sentido à minha vida. Esse sentido tem que ser dado por cada um. Não está dado que todos tenham que ter o mesmo sentido e haverá quem nunca encontre sentido na vida e fique batendo cabeça. "Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, você tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no começo da vida, parecem secundárias." Essa angústia vai ser permanente. Não tem solução. É parte da condição humana. Não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde vamos. Tampouco sabemos por que e para que estamos aqui. O que não podemos é deixar que essa angústia da morte e da ausência de um destino claro nos paralise. Cada um tem que inventar sua resposta. Cada um tem que dar sentido à sua vida. Ela não tem sentido em si. Esse sentido não está dado. Cada um tem que construir o seu sentido. E vai sofrer para encontrar. Uma resposta está no próprio convívio com os outros. Inclusive com os mortos. Talvez isso arrefeça um pouco a angústia. Não se vive sem amizade, sem amor, sem adversidade. Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, você tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no começo da vida, parecem secundárias. Você continua querendo mudar o mundo, mas sabe que as pessoas contam. Embora eu tenha sempre me definido como mais intelectual do que como político, na verdade minha vida foi muito mais dedicada ao público. Isso vem da minha ancestralidade, da minha convivência familiar. O sentido, para mim, sempre consistiu em buscar fazer alguma coisa que mude a situação mais ampla do que a minha própria Nunca fui uma pessoa voltada em primeiro lugar para alcançar o meu bem-estar. Eu tenho bem-estar. Diria que quase sempre tive bem-estar. Mas esse não foi o meu valor. Mesmo em termos subjetivos, a ideia de felicidade, nunca busquei com denodo a felicidade pessoal. Eu a tive de alguma forma, nunca me senti infeliz. Eu me dediquei muito mais a ver a situação dos outros. De uma maneira modesta, sem proclamar. Nunca andei proclamando, sou solidário, sou do bem. Mas levei a vida inteira pensando no mundo, pensando na sociedade, pensando nas pessoas, nos outros. O sentido que dei à minha vida foi construir isso. Autor:
Fernando Henrique Cardoso - A soma e o resto |
Mulher de Carmichael, 98, conquista
Facebook Marjorie
Loyd tem 98 anos, usa um andador. Além disso, ela não
ouve muito bem. E, ainda por cima, sua pouca visão torna difícil
a leitura das letras na tela do computador. Loyd aprendeu a usar um computador há três anos, aos
95 anos. Ela só queria ficar ligada com a família e
amigos. Seu marido, Herlan Loyd, por muitos anos médico em
Sacramento, tinha morrido em 2001. Loyd tem superado as expectativas com frequência. Antes mesmo que muitas mulheres procurassem trabalho em empresas, ela já era proprietária de uma máquina de escrever usada, em Chicago, para poder sustentar seus irmãos, após a morte do pai. Agora,
mesmo em sua décima década, Loyd viaja todos os anos
ímpares. Ela tem uma viagem prevista para o próximo
mês: visitará a família no Tennessee. Em
seguida, tem planos de comemorar seu 99º aniversário na
casa de Long Island de um de seus oito netos. Ela ganhou seu bilhete
de avião on-line. Autora:
Gina Kim |
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