|
Ankito,
dotado
de uma agilidade corporal rara e mestre na arte de fazer rir
nas chanchadas do Cinema Nacional. Nasceu no Brás, em São Paulo,
no dia 26 de novembro de 1924, e ficou conhecido como o famoso ator Ankito. Sua
arte está no sangue: é filho do palhaço Faísca e sobrinho
de Piolim, outro palhaço famoso. Esse gênio de quase 82 anos, casado
com Denise Casais, vitorioso nos palcos, cinema e TV, concedeu-nos a alegria de
contar um pouco da sua vida.
LOU:
Qual o seu nome todo? E o nome dos seus pais? ANKITO:
Anchizes Pinto. O nome do meu pai também é Anchizes Pinto e minha
mãe é Thomazina Stella Pinto. LOU:
Como foi a sua infância? Você era muito travesso? ANKITO:
Maravilhosa! Nasci no circo e entrei em cena aos quatro anos de idade. Vivia no
picadeiro. Meu pai era o palhaço Faísca e meu tio o Piolim. LOU:
Como e quando você descobriu sua vocação de artista de circo?
ANKITO: Não me lembro, acho que nasci
com ela. Dediquei-me à acrobacia. Eu fazia de tudo um pouco e gostava muito.
LOU:
Li na Internet que você era um exímio equilibrista... ANKITO:
Nunca fui equilibrista. Na Internet tem muita coisa sobre mim que não é
verdadeira... (risos). Eu era acrobata, além de ser o palhaço Espoleta,
saltador, ciclista, barrista e ator. LOU:
Como você saiu do circo e chegou aos palcos? ANKITO:
Queria aperfeiçoar-me como acrobata. Aos 17 anos de idade, depois de conquistar
cinco títulos de campeão sul-americano de acrobacia, voltei ao Rio
a fim de trabalhar no Cassino da Urca. E o que parecia um sonho tornou-se realidade
na mesma noite do dia da minha chegada. Como acrobata, eu era Anky e, após
uma audição de acrobacia, fechei contrato com o Cassino da Urca,
no show "Canta Brasil", fazendo um grilo. LOU:
Como surgiu a dupla "VICK E ANKY" de acrobacia?
ANKITO: Mais tarde, na montagem de novo show, uma
dupla de acrobacia clássica, também contratada pelo Cassino, VICK
AND JOY, estava se desfazendo porque Joy havia sido recrutado para a guerra.
Então, eu o substituí. A dupla passou a se chamar VICK
E ANKY. Quando Joy voltou da guerra, encontrei numa outra
família circense, meu novo companheiro de trabalho, Omar Savalla Baxter.
E formamos a dupla ANKY E MORY, de acrobacia clássica.
LOU:
E essa dupla conquistou os palcos de outros países...
ANKITO:
Em 1946, com o fechamento dos Cassinos, a nossa dupla, Anky e Mory volta a S.Paulo. De lá
fomos contratados para trabalhar no TABARIS, de Buenos
Aires. Daí ganhamos os palcos da Europa, sempre como acrobatas.
E,
durante aquele período, fomos contratados para voltar ao Brasil e fazer
um show no Copacabana Palace.
LOU:
E como surgiu o nome artístico de Ankito? ANKITO:
Enquanto trabalhávamos no Copacabana, fomos convidados como atração
para o show que iria inaugurar o Teatro Folies, também em Copacabana.
A parte cômica era feita pelo grande Misquitinha, que numa matinê
adoeceu. De brincadeira, atendendo ao pedido de Ruan Daniel, dono do Teatro, substituí
Misquitinha. E a crítica fez de mim um cômico.
Fiz as micagens
de palhaço de circo que me agradou demais e também ao público.
E foi Ruan Daniel que me deu o nome de Ankito. LOU:
E como chegou às telas do cinema? ANKITO:
Com o sucesso no teatro, fui convidado para fazer três dias de filmagem
no filme É FOGO NA ROUPA, mas o sucesso foi tanto
durante as filmagens que os 3 dias passaram a ser 39, e ganhei o primeiro nome
do filme, em 1952. LOU:
Quais os filmes de maior sucesso que você participou?
ANKITO:
Graças a Deus foram todos. Num total de 56 filmes protagonizados por mim,
todos foram recordes de bilheteria. OS TRÊS RECRUTAS, MARUJO
POR ACASO, O REI DO MOVIMENTO, O FEIJÃO É NOSSO, O GRANDE PINTOR,
ANGU DE CAROÇO, O BOCA DE OURO, SAI DESSA RECRUTA. Então,
Herbet Richers contratou GRANDE OTELLO, que havia desfeito
a dupla com OSCARITO. E nós dois formamos
a dupla ANKITO E GRANDE OTELO no filme METIDO
À BACANA, que foi o primeiro de muitos outros.
LOU:
Que programas você fez na TV? ANKITO:
Na TV fiz muitos programas humorísticos. Fui parte do elenco da TV
TUPI, RECORD e BANDEIRANTES. Mais tarde, na TV
GLOBO, além das participações nos humorísticos,
fiz parte das novelas GINA, com a Cristiane Torloni, MARINA,
com Edson Celulari e A SUCESSORA, de Manoel Carlos; em 2005,
fui o Falecido em ALMA GÊMEA. Fiz inúmeras
mini séries. No SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO,
primeira versão, fui O SOLDADINHO DE CHUMBO e O CURUPIRA.
Naquele tempo não havia gravação. Era tudo ali, ao vivo,
diante do público. A gente tinha que trocar de roupa durante os intervalos
comerciais! LOU:
Você foi sucessor de Oscarito, fazendo dupla com Grande Otelo. Conte pra
nós, como foi a sua resposta ao ser acusado de imitar Oscarito, e como
foi que você conviveu com essa eterna comparação? ANKITO:
Dei esta resposta: "Tentar imitar, bem que tentei, mas não consegui."
Convivi muito bem com esse julgamento. Afinal, ser comparado a um gênio
é muito bom. LOU:
E a vida amorosa? Você teve muitos amores na juventude? ANKITO:
Muitos. Exatamente quantos eu não sei. Como profissional, obtive um grande
sucesso. Mas a vida pessoal foi meio confusa: tive 18 casas montadas e 3 casamentos.
Espero que com a Denise seja o último. Somos casados há 22 anos
e nos amamos muito até hoje.
(Lou: Como
não poderia deixar de ser, convidei pra entrar na conversa a encantadora
Denise Casais, mulher que com personalidade e carinho, trouxe a felicidade conjugal
e a tão sonhada tranqüilidade para Ankito.)
LOU: Quando vocês se conheceram e como é essa história de amor?
DENISE: Nos conhecemos quando, depois de afastada
há alguns anos do palco, em 1985, fui convidada a fazer parte do elenco
da peça TEM PIMENTA NA ABERTURA, no Teatro Rival.
Lá nos conhecemos, iniciamos um namoro e acabamos indo viver juntos. Quinze
anos depois, nos casamos. Trabalhamos juntos algumas vezes. Ele costumava escrever
peças apenas para nós dois, e nos revezávamos no palco, ora
com entradas cômicas, ora cantando ou dançando. Fizemos, apenas os
dois, as peças A INFLAÇÃO ARROXA E O POVO
AFROXA, ELA NUA ELE DURO; ELE E ELA, além de comédias com
elenco. Gostávamos de trabalhar juntos, nos entendíamos muito bem
em cena, improvisávamos e nunca tivemos problemas.
ANKITO:
Nossa vida em comum é muito tranqüila. DENISE:
Embora haja 36 anos de diferença de idade entre nós dois, isso nunca
nos trouxe problemas. Quando resolvemos vir morar aqui na chácara, decidi
não voltar aos palcos.
LOU:
E como ficou a sua vida profissional? DENISE:
Me dediquei durante anos a escrever a biografia dele, que finalmente terminei
e será lançada em breve. Escrevo peças para os amigos e cuido
do meu maridão e dos contratos deles. Virei uma espécie de agente
dele. Somos felizes, nos amamos, nos respeitamos.. LOU:
Afinal, quem é Ankito? ANKITO: Sou um
jovem de 82 anos, com 74 anos de carreira, onde tudo na minha vida é curiosidade
e história. Já fiz tanta coisa que, se eu parar para ficar falando
tudo, vão pensar que eu tô inventando! Ainda tenho um grande vigor
físico que chega mesmo a impressionar os mais jovens. E dou a receita:
"Eu sempre ficava dando saltos mortais! Por isso, de tanto fazer, ainda me
sinto em forma!". LOU
para DENISE: E qual é o segredo pra se manterem assim felizes
depois de tantos anos de casados? DENISE: Somos
companheiros um do outro, amigos e amantes. LOU
para ANKITO:
Mande um recado pros nossos "velhosamigos". ANKITO:
Que tenham muita fé em Deus, sempre, e também muita confiança
em si mesmo. Lou
Micaldas |