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Filho
de Raquel e Ercole Enrico Saladini, dois imigrantes italianos, viúvos,
que se conheceram e se casaram em São Paulo, em 1914. Em 16 de
maio de 1915, nasceu essa personalidade singular, dono de um bom humor
contagiante, protagonista de uma vida que parece um filme recheado de
lutas, vitórias, muita boemia e molecagem.
Está
em "Foco" o famoso "cafajeste" Mario Saladini, que
nos conta casos engraçados do "Clube dos Cafajestes",
das festas do "Caju-amigo", alguns lances da vida política
e passagens comoventes, ao mesmo tempo, hilárias da sua infância. LOU:
Mário Saladini, conte-nos tudo sobre você.
MÁRIO: Já nasci boêmio,
às duas e meia da madrugada do dia 16 de maio de 1915, em São
Paulo. Porém, oficialmente, eu nasci em 1916. Por conta de um
erro, consta na minha certidão o ano de 1916.
Fui uma criança muito, tão capeta que tive de ser batizado
duas vezes. A primeira vez, foi na igreja Santa Cecília, meses
depois de ter nascido, e a segunda, na de São Francisco de Paula.
Meus pais disseram: - Este menino tem um capeta no corpo. O primeiro
batismo não valeu porque aquela água não devia
estar benta... ( risos)LOU: Fale um pouco dessa sua infância "encapetada".
MÁRIO: Minha mãe me batia com colher
de pau de fazer polenta, quando eu aprontava alguma peraltice. Certo
dia ela reconheceu ter me batido injustamente, mas afirmou categórica:
- Você apanhou por conta do que ainda vai fazer! Mas era meiga
e me contava histórias engraçadas, muitas inventadas por
ela. Meu pai era muito carinhoso e me levava pra passear, pra correr
pelos gramados; me levava ao "Circo Piolim" e ria mais do
que eu... Meu pai era professor de grego e latim em São Paulo,
isso nos idos de 20, e conseguiu com muita luta abrir o colégio,
chamado Anita Garibaldi. Ele era Garibaldino. Felizmente tive o prazer
de ver a estátua da Anita Garibaldi, na Itália, onde fui
por várias vezes.
Comecei o curso primário no Colégio São Vicente
de Paula. As freiras, depois de quebrarem muitas ponteiras nas minhas
costas, acharam que além de dar muito prejuízo eu devia
ser expulso "a bem da disciplina"....
LEMBRANÇA
TRISTE
Quando
tinha seis anos, vi meu pai sair de casa numa ambulância. Ele
teve uma hérnia estrangulada. A porta da ambulância já
estava fechada, mas ele pediu pra abrirem novamente: - Quero ver meu
filho pela última vez! E me jogou um beijo de adeus. Tive
uma vida atribulada por ter perdido meu pai; minha mãe vivia
inconsolável com a perda do marido; minha irmã Olga trouxe
a mamãe para o Rio, em busca de melhor atendimento médico,
e eu tive que ser internado num orfanato.
LOU: Deve ter sido difícil para aquele menino tão levado se
submeter ao regime rigoroso de um orfanato.
MÁRIO: Me sentia muito infeliz. Passei
fome e frio. Os responsáveis pela disciplina eram maus; batiam
na gente com vara de marmelo. Não me conformava com aquela vida,
repleta de angústia, longe da minha mãe. Fugi. Fugi do
orfanato e fui procurar uma amiga da família, a Dona Elvira,
que me acolheu como filho e me devolveu a capacidade de sonhar e de
voltar a rir.
Foi assim que, aos 12 anos, consegui um emprego na chapelaria Fúlvia
Norgante, no Arouche. Foi meu primeiro emprego. Depois fui convidado
pra ser telefonista do ponto de táxi, ganhando vinte mil réis
e mais as gorjetas. Juntei dinheiro, comprei roupas novas e aos 13 anos,
viajei pro Rio de janeiro. Vim
me encontrar com minha mãe e minha irmã Olga.
Aqui, fiz concurso pro Colégio Militar do Rio de Janeiro em 1929.
Recebi o número 1136 e fiquei interno até 1934, me formando
na turma do João Batista de Oliveira Figueiredo.
LOU: A disciplina no Colégio Militar era muito rígida...Você
deve ter sofrido um bocado, além de ter dado muito trabalho...
MÁRIO: Eu aprontei muitas bandalheiras
com meus colegas... Olha a minha cabeça: o pessoal vinha pro
estudo da noite. Ao invés de eu ir também, eu desarrumava
a cama dos caras (risos). O Bedel, que era o chefe de disciplina, perguntava
quem tinha feito aquilo e eu me apresentava: - Fui eu. Aí pegava
mais dez dias de cadeia. Todas as quintas-feiras eu escapava e me mandava
para o Mangue. Fiquei sendo o queridinho das prostitutas, por ser um
"bom freguês". Até conseguia abatimento! E não
perdia o carnaval, porque fugia "escalando" a pedreira da
Babilônia... Cheguei a ganhar o título de "comandante
da sala de presos pela antigüidade".
LOU: (Risos) Eu adoro essas travessuras! Eu também fugia do Colégio,
pelo simples prazer da aventura, pois ia direto pra casa...
MÁRIO: Eu comia feito um louco, hoje eu não como nada. Mas, eu era um
glutão e, modéstia à parte, eu era engraçado;
eu fazia muita piada, eu gozava muito. Um dia, o comandante Espiridião
Rosa, do Colégio Militar, chegou pra mim, virou-se e disse: -
Menino, vou te dar um conselho: não vá pra Realengo -
a escola militar - porque lá não é circo. Você
é muito engraçado, mas é melhor você ir pra
outro lugar, porque não tem palhaço em Realengo (lugar
onde se formavam os cadetes do exército). Eu disse: - O senhor
tem razão, o senhor tem razão, o senhor tem razão
....risos. Eu realmente fazia coisas de louco. Eu era interno e me externaram a bem da disciplina.
LOU: Me fala da sua irmã, a Olga Navarro. Ela foi mesmo muito importante
na sua educação, porque você ficou sem mãe
e sem pai.
MÁRIO: Ela foi muito boa irmã; ela era minha irmã
por parte de mãe. Porque meu pai era viúvo e minha mãe
era viúva, e eles se casaram e aí nasci eu _ a perfeição
(risos).
LOU: Ela era bem mais velha que você?
MÁRIO: Dez anos.
LOU: Ela te criou como se fosse sua mãe. Com 10 anos só de
diferença.
MÁRIO: Era ela quem pagava meu colégio.
LOU: Ela trabalhava em quê?
MÁRIO: Ela era atriz. Primeira intérprete do Sartre Lapiten Respectein,
de Jean Paul Sartre. Eu tenho uma admiração pela Olga
tremenda. Ela foi casada com o Cabanas, um líder revolucionário
da revolução de 1922.
LOU: Você não quis seguir carreira militar porque você
se achava endiabrado?
MÁRIO: Não, porque eu sabia que
eu só colava e não sabia nada. Era bom colador. Mas o
fato de viver sempre preso foi muito útil pra mim, porque aprendi
a gostar de ler. Li muitas obras literárias de reconhecido valor
pra minha futura profissão de jornalista.
Quando saí, arranjei um emprego na Gazeta de Notícias.
Eu era "Foca". Felizmente eu fiz amizade com todos que me
ajudaram a fazer plantão. Naquela época se usava, e eu
ganhava mais 20 mil réis por cada plantão. Comia no bar
automático; era um bar aqui onde a comida, de vez em quando,
tava meio azeda. Mas não fazia mal. Meu sonho era ser jornalista.
LOU: Quantos anos você tinha mais ou menos nessa época?
MÁRIO: Nessa época eu já tinha 19, 20 anos. Depois, eu fiz muito
esporte. Eu remava de manhã pelo Clube de Regatas Flamengo; dormia
lá, remava, ia trabalhar, voltava. Muitas vezes meu café
com leite eram os bolinhos da baiana. Eu pedia até pra pagar
depois e ela aceitava. O
Alziro Zarur era meu colega na Gazeta e criou mais tarde a LBV (Legião
da Boa Vontade), e me chamou, num canto e disse: - Mário, isso
aqui é um covil. Eu perguntei: - Covil de quê, de cobras?
LOU: Mas onde era o tal covil?
MÁRIO: Na redação do jornal.
Então ele disse que ia pedir demissão do jornal, mas que
ia falar com o Vladimir Bernardes pra que eu o substituísse,
que eu já tava preparado pra ficar no lugar de crítico
de rádio e cronista social. O Vladimir era uma alma muito boa,
ele era pai do Sérgio Bernardes. Aí me colocou e comecei
a trabalhar no jornal. Depois fui pro Diário Carioca. Em função
disso eu fiz amizades muito boas.
LOU: Você foi nomeado, aos 22 anos, Inspetor Chefe de Polícia.
O que aconteceu que você ficou no cargo tão pouco tempo?
MÁRIO: Aconteceu uma coisa engraçada:
tinha um colega meu do jornal que tomava os pileques dele e criticava
o governador Amaral Peixoto, interventor. E quando passava o pileque,
eu o soltava. Aí, naturalmente, o delegado Ramos de Freitas,
que era um excelente delegado e um homem muito responsável, foi
ao comandante, o Amaral Peixoto, falar que eu estava atrapalhando o
trabalho dele. Aí o Amaral perguntou o que eu tinha contra o
Ramos de Freitas.
Eu respondi:
- Nada. Sou admirador dele, excelente delegado.
- Mas ele me disse que prende um maluco e depois você solta.
Eu respondi:
- Comandante, eu tenho 22 anos; se eu não soltar esse jornalista,
que é um louco, um débil mental, eu não tenho mais
entrada em jornal nenhum. E vou ter a classe jornalística toda
contra mim.
E ele: - É, você não dá pra ser polícia
não. E me nomeou tesoureiro da Caixa Econômica Federal,
em Niterói....
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Carta
da Casa Branca
LOU: Você foi embaixador também, né?
MÁRIO: Não, fui adido comercial. Embaixador eu fui do
samba.
LOU: Ah, fala da Favela Amarela. Explica o que aconteceu com essa favela
amarela, que até samba deu, quando você era o Diretor de
Turismo e Certames do Antigo Estado da Guanabara.
MÁRIO: (cantando) "Favela amarela,
alegria da vida, porque na favela a miséria é colorida..."
Eu vinha de avião e parei em Maiketia, em Caracas, na Venezuela.
E era véspera de Natal e eu tinha que chegar no Rio, por causa
dos meus filhos que eram meninos. Aí o avião enguiçou
e eu tava nervoso. Então resolveram que eu ia dar um passeio
pela cidade e me colocaram num automóvel com um camarada muito
educado; e fomos conhecer um bairro que só tinha Cadillac, BMW,
essas coisas, e casas bonitas; era uma favela com casas bonitas e pintadas.
Quando cheguei no meu gabinete, tava um colega meu do Diário
Carioca, muito safado, muito meu amigo. E eu comentei com ele que tinha
visto um negócio que me chamou atenção em Maitequila.
Eram as favelas todas coloridas. No dia seguinte, ele publicou: "Saladini
quer pintar as favelas".
LOU: Era seu "mui amigo"
MÁRIO: Mas foi bom porque eu me elegi deputado
por causa disso. Aí o Dom Helder Câmara começou
a me esculhambar e eu esculhambava ele. Eram 3 televisões. Ele
ia nas 3; eu também ia. Me elegi 3 vezes nessa brincadeira.O
CLUBE DOS "CAFAJESTES"

LOU: Você é do Clube dos "Cafajestes". Me conta esse
babado.
MÁRIO: Eu sou um dos criadores. Era o instituto
da boemia carioca. Foi criado no meu apartamento, na Av. Atlântica,
esquina da República do Peru. Em cima do Alvear. E ali iam jovens
da sociedade, aos sábados e domingos. Depois que saíam
do Botafogo e do Fluminense, daquelas tardes dançantes, iam pra
lá. E lá tava a juventude daquela época. Éramos
um grupo de jovens entre 25 e 30 anos, alegres, de classe média
ou ricos; éramos todos mulherengos e vivíamos cercados
de mulheres deslumbrantes. O nosso esporte era rir, beber e, entre outras
coisas, fazer as maiores estripulias por toda a cidade. Éramos
unidos em uma amizade que perdura até hoje, despojada de preconceitos.
O clube primava pelo espírito de gozação, esse
espírito nosso bem carioca, embora nem todos tivessem nascido
aqui no Rio.
LOU: Todos trabalhavam?
MÁRIO: Nós usávamos este
título: "cafajestes'", mas não tínhamos
nada de cafajestes. Quase todos tinham curso superior, trabalhavam e
falavam línguas (nada a ver com os Pitboys de hoje). Eram profissionais
do Banco do Brasil, da Aeronáutica, de vários matizes.
Tínhamos um modo irreverente de debochar do cinismo de uma sociedade,
que se importava mais com as aparências do que com a nossa verdadeira
integridade moral. Até hoje, os que ainda estão vivos,
três ou quatro são casados com a mesma namorada daquela
época. Você vê que o amor dos cafajestes é
eterno.
LOU: E quais eram os cafajestes? Você sabe o nome de todos?
MÁRIO: Eram vários: Mariozinho de Oliveira, Carlinhos Niemeyer, Edu
(da Panair), Príncipe Dom João de Orleans e Bragança,
Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Heleno de Freitas, Ibrahim
Sued, Léo Peteca, Jorginho Guinle, Baby Pignatari, Vadinho Dolabella,
Celmar Padilha, Paulinho Soledade, Sérgio Pettezzoni, Cassio
França, Oldar Fróes da Cruz, Darcy Fróes da Cruz,
no meu livro, "Cafajestes" com Muita Honra!, tem o nome de
todos.
LOU: Me conta. O que vocês aprontavam?
MÁRIO: Nós, naquela época, não tínhamos
aquela facilidade que se tem hoje, de lugar pra dar festas. Então,
nós alugávamos casas vazias, em Copacabana, condenadas
à demolição e fazíamos as festas. Quando
acabavam, quase não havia muito o que demolir. Tem até
umas engraçadas. LOU: Conta as engraçadas.
MÁRIO: Nós alugamos uma casa e cismamos
de arrumar uma decoração com um negócio de bambu.
Mas acontece que um amigo, que ainda está vivo, graças
a Deus, e uma namorada foram lá pra cima... Mexeram muito e aquilo
caiu, desabou, foi uma gargalhada geral. Tudo era muito esportivo; adorávamos
penetrar em festas, pulando o muro. Mas eram as nossas festas as mais
disputadas da cidade, principalmente aquelas à fantasia, com
muita bebida, boas orquestras e as mais brilhantes mulheres.O
Mariozinho de Oliveira provocou uma famosa briga no Copacabana Palace,
ao colocar um saco de gelo, dentro do biquini de uma corista, no Golden
Room... Outra do Mariozinho: eram mais de 10 horas da noite, quando
o telefone tocou no luxuoso apartamento dele. Lá do interior
da Bahia, uma mulher com voz bem arrastada, que queria saber quanto
custava um título pra ingressar no "Clube dos Cafajestes".
Mariozinho respondeu:
- Quinze milhões, só que já estão esgotados...
Mas se a senhora me der dois milhões por fora, posso dar aquele
jeitinho...
_ Então me dê o endereço da sede.
_ Do lado ímpar da Avenida Atlântica...
LOU: Antigamente a bagunça era sadia.
MÁRIO: Aliás, agora mesmo no Jornal
do Brasil, aquela menina, a Peltier, escreveu uma coisa, deve estar
por aqui o recorte.
LOU: Ah! Muito legal.
MÁRIO: Isso foi em 14 de janeiro e eles fizeram uma molecagem
comigo. Eu perguntei qual era o traje e disseram pra eu ir como quisesse.
Cheguei lá e estava todo mundo de esporte fino e eu tava de short,
que eu adoro andar de short. Foi aquela molecagem. Vim em casa, pus
uma calça e voltei. Quando eu voltei, ah não! Estavam
todos bem à vontade... Eles me pregaram uma peça. E saiu
isso no jornal do Brasil.
LOU: Leio todo dia a Marcia Peltier. Mas conta outra dos "cafajestes".
Que mais vocês aprontavam?
MÁRIO: Tem outra do Mariozinho: ele estava com o grupo em Teresópolis,
quando soube que um morador vizinho ia ser enterrado à tarde.
O "clube" arrumou um caixão e, com o Mariozinho dentro,
saíram pela rua... Quando chegaram bem perto do verdadeiro cortejo
fúnebre, o Mariozinho se levantou gritando: - estou vivo, estou
vivo! Foi uma correria danada; e largaram o caixão com o verdadeiro
defunto no chão...
LOU: E droga nem pensar, ainda não se conhecia né? Isso é
coisa recente. E o álcool?
MÁRIO: Drogas? Absolutamente não.
Quanto ao álcool, eu por exemplo, não bebia. A nossa base
era Copacabana, mas as nossas molecagens percorriam toda a cidade. Andávamos
sempre juntos, o ano todo. As Brigas, na grande maioria, eram provocadas
por gente de fora, que ficavam com ciúme ou coisa assim... E
tem mais: só se metia conosco quem não nos conhecia. Nossos
punhos eram a nossa arma... Só quando a coisa ficava feia, apelava-se
pra um caco de garrafa.
FESTAS
DO "CAJU AMIGO"
LOU: E o "Caju Amigo?"
MÁRIO: Nós é que inventamos.
Nós, não, o flamenguista e produtor do Canal 100, Carlinhos
Niemeyer promovia uma festa, regada com muita batida de caju, dias antes
do carnaval, que não tinha dia certo, nem hora pra começar
e pra acabar. O segredo era bem matemático: convidar três
mulheres pra cada homem... Nós tínhamos o prazer de quebrar
com os preconceitos. Num dos desfiles do Caju Amigo, o Carlinhos
levou 20 meninos do Morro do Cantagalo para um banho de piscina no luxuoso
Copacabana Palace. LOU: Onde eram as festas do Caju Amigo?
MÁRIO: Começou na boate Vogue, no
Leme, mas, em 1955, o Vogue pegou fogo e o Caju Amigo ficou itinerante
...
O "grupo" conseguia a casa de amigos solteiros, se cotizavam
e todos levavam bebidas e belas mulheres. Nós fazíamos
muito no Marimbás. No "Au Bom Gourmet" a atriz Jane
Mansfield, uma atriz escultural, louríssima de seios enormes,
dançou em cima da mesa, totalmente nua... efeito produzido pela
famosa mistura do Caju Amigo....E
fazíamos, no Copacabana Palace, o Baile da Champagne. Nós
alugávamos o Marimbás e fazíamos muitas festas
lá. Agora, de vez em quando, saía pancadaria porque os
caras queriam invadir e nós não deixávamos. E outras
vezes era por ciumeira. Isso aqui não foi mamãe que beijou
não; foi um soco, porque eu também levei.
LOU: Mostrou uma marca na mão. Esse foi você quem deu, né?
MÁRIO: Esse foi. Mas eu também levei na testa. Lê
o livro e vê. Eu pintei e bordei; não foi brincadeira. Até bem pouco
tempo eu ainda fazia minhas loucuras de maio, mas agora eu tô
mais calmo.
LOU: E os seus amores? Como é que você foi de amores?
MÁRIO: Ah, foi a única coisa em que eu fui bom mesmo.
Eu namorava muito as meninas da Escola Normal. A gente ficava por ali
e os meninos do Colégio Militar impressionavam... E aquele pessoal
do Pedro II e de outros colégios ficavam com uma ciumeira danada.
Namorei muito e na minha época... eu não me arrependo...
fui feliz. Depois eu era metido a fazer acrósticos. Pegava o
nome da pessoa e era uma brincadeira... E eu publicava na revista Inspiração.
E fui internacional: amei francesas, portuguesas, inglesas, mexicanas...
Mas o meu verdadeiro e único amor é brasileiro e se chama
Nely.
LOU: Você casou quantas vezes?
MÁRIO: Casar, no duro? Casei a primeira vez com uma moça
de Campos. Durou muito pouco. No Cassino da Urca, na véspera
de Natal, um cara foi pedir pra dançar com a minha cunhada, linda,
que ainda não era casada. Aí, a mãe dela, minha
sogra disse: - Não, ao invés de você dançar
com a Magali, dança com a Eli, que era a minha esposa. Aí,
me virei e disse:
- Quer dizer a Eli, que é casada, pode dançar.
- É que o noivo dela não gosta que ela dance com ninguém.
- Aí eu disse: E o corno aqui deixa, né.
- Aí fiz um escarcéu danado, bati no cara e tive que sair;
o Joaquim Rola veio atrás de mim, foi um salseiro. Passei a noite
fora e, no dia seguinte, era Natal... E nos separamos. LOU: Você era muito brigão, né?
MÁRIO: Era sim.
LOU: Agora, o segundo casamento.
MÁRIO: O segundo não foi casamento. Foi a Miss Alagoas
que viveu comigo 5 anos. Quase casamento, semicasado, muito boa moça,
linda, linda, linda. O que eu briguei por causa dessa mulher... Eu tava
no Bolero, aí aqueles caras vieram, os soldados americanos, e
passaram a mão nela. Aí eu porrei os caras e rolamos no
chão. Apanhei, bati. E por causa das constantes brigas, também
rompemos.
LOU: Você tem foto da primeira mulher? Você só me deu
o da alagoana.
MÁRIO: Da primeira eu não tenho. Nem atestado de óbito.
Só tenho certidão de divórcio.
LOU: Ah, parabéns, já é uma grande coisa. Agora, a terceira.
MÁRIO: A terceira não, a segunda, porque não me casei com a alagoana.
Foi a Heloísa, e ela é a mãe dos meus três
filhos. Foram 18 anos de casados. E mantivemos a amizade mesmo depois
de separados.
VERDADEIRO
AMOR
Além
do Caju Amigo, nós também fizemos sucesso com outras
festas, como a do Baile do Popeye, no clube Marimbás, o baile
da Amizade e o do Champanhe, na piscina do Copacabana Palace.Estou
lembrando disso porque, em 1970, numa festa no Botafogo Futebol e Regatas,
notei um grupo de belas mulheres, acompanhadas pelo jornalista Castro,
diretor do Jornal de Turismo. Ele veio me comunicar que elas queriam
participar do "Baile do Popeye". Eu disse:
_ Como presidente do Clube dos Cafajestes, posso realizar o desejo
delas se aquela morena linda me solicitar pessoalmente. E
graças a Deus ela veio me pedir e eu pedi pra ela ser minha companheira
pra toda a vida. Estamos juntos até hoje e posso lhe dizer que
descobri o verdadeiro amor.
LOU: Você ainda exerce alguma atividade?
MÁRIO: Graças a Deus eu tenho vários grupos e a gente se reúne
uma vez por mês. Quer dizer, pelo menos quatro vezes eu tenho
quatro grupos de outros setores da atividade normal. Depois, eu tenho
meu escritório aqui em frente, na Pizzaria Guanabara, onde dou
expediente, tomando chopinho. Aí a turma telefona e pergunta:
- Quantos processos você já despachou hoje? Aí digo:
- Perdi a conta; eu acho que uns cinco, seis, dez...
LOU: Você procura cultivar as antigas amizades e continua em plena
atividade.
MÁRIO: Em total atividade. Você não
pode renunciar a um direito que você tem, que é de graça,
de poder usufruir dessa vida que Deus te deu, com esse sol brilhante,
com essa alegria que o carioca esparge por aqui. Inclusive eu sou partidário
de que a vida continua até quando Deus quiser. E enquanto eu
tiver vivo, eu vou gozar a vida.
LOU: Agora, eu queria que você mandasse um recado, pras pessoas, porque
você mostrou que a amizade te ajudou sempre a subir mais, ao contrário
de outras pessoas que pra subirem pisam nos outros, gerando inimizades.
MÁRIO: Com meus quase 90 anos, eu vou dizer a você: em 1º lugar
eu fui um jovem que nunca fumei, sempre pratiquei muito esporte, fui
um dos camaradas mais fortes do Colégio Militar. Na minha época,
só pensava nisso, remava pelo Flamengo, fazia meu esporte da
praia, jogava peteca, eu era bom na peteca. Eu só fazia duas
coisas: esporte e trabalhar para poder viver. Então, isso é
a primeira mensagem que eu tenho pra dar. Depois, você não
precisa praticar indignidade, querendo derrubar os outros pra vencer
na vida. Porque eu sempre venci na vida fazendo amizades, e em cada
amizade que eu fiz, sempre melhorei de vida. Sem pisar em ninguém
e sem menosprezar aqueles que não tinham a mesma sorte que eu
tive. Portanto, eu digo que sou um cara feliz por isso. Eu tenho amigos,
muito bons amigos e de vez em quando aparece um pilantra e, dentro de
um contexto, eu posso dizer que deve ter alguém que não
gosta de mim.
LOU: Você não precisa se preocupar em agradar a todo mundo...
Muito obrigada, Mário Saladini, um exemplo de "Velho Amigo"! |