| Marília:
Onde e quando nasceu?
Peret: Quando o Dr. Achylles Peret, engenheiro
agrônomo e ex-oficial militar chegou ao Acre, em 1901, o Brasil
estava em plena guerra com a Bolívia. Ele se envolveu na luta
e se tornou herói. Em 1916, traçou a vila de XAPURI, onde
conheceu a adolescente Luzia Bandeira, viúva aos 13 anos, com
uma filha de colo. Eles se casaram e, como não havia rádio,
cinema ou novela, eles ficavam escutando o cricri dos grilos, o coaxar
de sapos e rãs, à noite. Então, tiveram nove filhos.
Eu nasci no dia 14 de setembro de 1926. Fui o sétimo filho dele
e o oitavo dela, numa fila de dez irmãos.
Marília: Estão todos vivos?
Peret: A Cyra, filha do primeiro casamento
da mamãe, já faleceu. Depois vieram: Archelau, Achylas,
Amílcar, Alfredo, Armando, já falecido, Arnaldo, eu, João,
Alberto e Luiza.
Marília:
O que o seu pai fazia?
Peret: Meu pai, Dr. Achylles Peret, foi
engenheiro agrônomo e músico: ele tocava clarinete, saxofone,
oboé, trombone e clarim. Organizou a Polícia Militar,
a Civil, órgãos administrativos, construiu prédios
públicos, abriu ruas e avenidas, construiu cidades. Criou o Aprendizado
Agrícola, na capital, Rio Branco. Ensinava cursos letivos e profissionalizantes,
disciplina, escotismo. Pregava o amor à Natureza, tanto para meninos
carentes quanto para famílias abastadas.
Marília: Como foi a infância de vocês?
Peret: Morávamos no Aprendizado
Agrícola e a disciplina de lá era a mesma de nossa casa:
só faltava tocar o sino ou a corneta... Plantávamos horta
e pomar nas horas de folga. Os mais velhos estudaram naquele estabelecimento
e completaram os estudos em Manaus. Nossa mãe ficava mais tempo
com eles em Manaus. Até os sete anos, meu apelido era Bolinha.
Eu comia às escondidas leite condensado com gema de ovos e farinha
grossa, rapadura, bebia chibé (jacuba) a toda hora... Aprendi
a tocar violão. Na adolescência, era mais capeta do que
anjo, fazendo pirraça para a amante do meu pai, que foi morar
conosco. Nas férias, eu viajava de navio a vapor para Manaus.
Eram uns 20 dias parando nos portos, onde ficávamos até
12 horas esperando os carregadores embarcando lenha; então, descíamos
para namorar as caboclinhas em cada porto. Na volta, repetíamos
tudo. Era gostoso ver os lenços brancos acenando o adeus. Para
me distrair, durante a viagem, eu fazia folhetins, concurso de beleza,
de dança, poesia, mexericos, reclamava da comida...
Marília: E os namoros sérios?
Peret: Eu era romântico, mas tímido.
Sofri ao perder a namoradinha que muito amei, para um boêmio sedutor
que chegou da cidade grande.
Marília: Qual é a sua formação profissional?
Peret: Sou técnico em várias profissões. Fiz curso de
piloto aviador, mas não completei. Fiz Jornalismo e estagiei
no jornal "A Crítica" e nos "Diários Associados",
em Manaus. Cursei Arqueologia em Manaus, estagiei no Instituto Geográfico
e Histórico do Amazonas e no Museu Frederico Barata, em Belém.
Estudei Etnografia no Rio de Janeiro e estagiei no Conselho Nacional
de Proteção aos Índios - CNPI. Finalmente, ingressei
no SPI - Serviço de Proteção aos Índios.
Marília: Como constituiu a sua família?
Peret: Eu namorei a Marly Neves aos bocadinhos,
entre minhas idas e vindas das aldeias para a cidade. Eu queria uma
companheira para não me envolver com as belas índias,
pois a ética proibia os funcionários de casar com as índias.
A Marly era adulta e a família não fazia objeção
ao namoro. Ficamos noivos, formei um grupo de amigos para conhecer o
rio Araguaia e os índios Karajá. Na volta, entreguei meus
documentos para a Marly marcar o casamento e me avisar a data três
meses antes, para que eu pudesse chegar a tempo. Isso aconteceu em 1958.
A lua-de-mel aconteceu nas praias a céu aberto, com o sol, a
lua e as estrelas.
Marília: Vocês tiveram filhos na selva?
Peret: Não. Nossos três filhos
são cariocas. Seria uma temeridade ter filhos naquele lugar sem
recursos e ambiente hostil, pelas doenças tropicais desconhecidas.
Eu contraí malária por umas trinta vezes. Fui socorrido,
por duas vezes, por um avião teco-teco que o `Papai Noel´
mandou... A Marly esteve a ponto de morrer ou perder a filha que estava
gerando. Saímos a tempo para um hospital. Foi o que me salvou.
Marília:
Fale um pouco sobre seus filhos e netos.
Peret: Denise, a primogênita, tem
47 anos e duas filhas. Tornou-se funcionária pública por concurso. A
filha dela, Débora, é formada em História da Arte.
A Patrícia está tentando o vestibular. Meu filho Sérgio
(44) é funcionário do Estado por concurso, pai do Rafael
e da Adriana, e adotou a Jéssica. O caçula Luis Eduardo
(38) é professor universitário da UERJ. É poliglota,
decidiu não casar nem fazer filhos.
Marília: Você tem algum hobby?
Peret: Quando jovem, eu praticava voleibol,
boxe, natação, tiro ao alvo, pescaria e caçada
nos acampamentos. Adoro ler clássicos, romances de capa e espada,
aventuras com índios... Leio relatórios de naturalistas,
missionários, comissão Rondon, antropólogos e indigenistas.
Gosto de ler escritores indígenas. Sou membro da Academia Pan-Americana
de Letras e Artes (patronímico de José de Alencar). Tenho
cerca de 500 títulos de escritores sobre a Amazônia. Gosto
de ler crônicas, fábulas, contos e poesias. Adoro conversar
ou contar histórias para os jovens.
Marília: Então, conte algumas histórias de sua vida profissional.
Peret: Como indigenista do governo durante
20 anos, recuperei comunidades indígenas que sofreram embates
da civilização e quase desapareceram com os vícios
adquiridos. Promovi os primeiros contatos com índios isolados
que estavam sendo dizimados. Indiquei
áreas indígenas para garantir a posse ancestral. Localizei
uma expedição que os índios massacraram no Amazonas,
por incompetência do missionário.
Marília: Você publicou o resultado das suas pesquisas?
Peret: Sobre as expedições fiz relatórios, sobre as pesquisas
culturais publiquei séries de reportagens nos jornais O Globo
e Correio da Manhã, nas revistas O Cruzeiro, Geográfica
Universal, Manchete, e outras. Publiquei os seguintes livros: "Amazonas,
História, Gente e Costumes", adotado no segundo grau (AM).
O livro "Frutas da Amazônia", de minha autoria, foi
publicado em português, inglês e francês. Tenho outros.
Fiz roteiros para filmes documentais, como "Xingu - Terra Sem Males",
lançado nos Estados Unidos e na Europa; e, este ano, lançado
no Centro Cultural Banco do Brasil.
Marília: A essa altura da vida, como avalia o seu trabalho com os índios?
Peret: Com eles ganhei razão de
sobra para viver por uma causa justa. Eles me domaram e educaram com
carinho e amor.
E desenvolveram meu potencial ético. Aprendi
a valorizar o direito individual, porque na cultura indígena,
ninguém manda, o bem comum é a solidariedade. As regras
básicas da sociedade são a tolerância, a lógica
e a sabedoria de viver em harmonia com a natureza.
Marília: Você pode dar um exemplo?
Peret: Perguntei a Didiué Karajá:
por que os pássaros de vocês voam longe, se misturam com
os selvagens, e voltam ao por do sol? Ele respondeu: você não
aprende. Eles não são nossa propriedade, são parentes...
Quando são bebês, damos de mamar no peito ou mastigamos
os alimentos e passamos com a boca para o bico deles. Eles fazem parte
da família. Por isso, voltam e às vezes trazem seus novos
amigos para nos visitar. Outra vez, falei a Lauaxiro Karajá:
minha amiga, como você envelheceu rápido! O que houve?
Ela me olhou calmamente e me disse: espera aí. Apanhou um espelho
e disse: olha a sua cara! Nós nos abraçamos e rimos às
gargalhadas.
Marília: Você avaliou positivamente o seu trabalho. E em termos financeiros?
Você conseguiu juntar dinheiro?
Peret: Não fiquei rico nem pobre.
Mas tenho o suficiente para pagar as minhas contas e viver com dignidade.
A satisfação supera qualquer coisa.
Marília: Você fez amigos com os mesmos ideais que você?
Peret: É claro. Tive amigos ilustres,
de muita visibilidade. Os irmãos Villas Boas e Francisco Meirelles,
por exemplo. Entrei para o Serviço de Proteção
aos Índios, uma instituição fundada em 1912. Para
torná-la um órgão mais ágil e menos burocrático,
o SPI foi transformado na FUNAI. Infelizmente, em pouco tempo, o novo
órgão já tinha vícios que o antigo Serviço
não havia tido, em 50 anos de existência - corrupção,
desleixo e desrespeito aos índios. Sabe como é, o lema
é "o índio tem que dar lucro", uma visão
totalmente diferente dos nossos ideais antigos. Dá a impressão de que ninguém quer
nada com o índio, querem simplesmente o que o índio tem
para dar.
Marília: Você ainda vai às aldeias na Amazônia?
Peret: Vivo tecendo o saber - escrevendo,
fazendo exposições fotográficas e etnográficas,
aqui e fora do Brasil. Sempre que posso, divulgo a cultura e a causa
indígenas. Quando os índios se apresentam aqui, eu participo.
Eles fizeram rituais de passagem no Museu da República. Lá,
o índio Koxinin Karajá me pediu para ser o orientador
da sua tese de mestrado, na Universidade de Goiás. Acho que me
consideram memória da tribo. Ainda vou às aldeias e à
Amazônia para dar consultas para produções culturais,
com cineastas brasileiros, franceses, americanos e finlandeses.
Marília: Então, você continua na ativa...
Peret: É claro. Participei das comemorações
dos 500 anos do Brasil, com uma exposição fotográfica
em Muba, na Suíça. Minha fotografia de um casal de índios
ilustra a cédula de plástico de R$10,00 reais. Também
cunharam uma moeda de prata, de R$5,00 reais, com a imagem de um guerreiro
kamayurá, baseado numa foto minha. Ajudo os índios a estruturar
e fundar as suas ONG's. E estou sempre disponível para eles.
Tenho milhares de fotografias da Amazônia, índios e outros
motivos. Eu estava escrevendo lendas indígenas para o ritual
do Boi Bumbá, de Parintins. O Boi Garantido (vermelho) ganhou
três anos seguidos. Mas não me pagaram e, aí, parei
de ajudá-los.
Marília: Você teve muitas surpresas no convívio com os índios?
Peret: Tive muitas, mas para não
me estender muito, vou contar uma que me emocionou e outra que me decepcionou.
A primeira foi quando fiz a pacificação dos índios
beiços de pau - os suyá. Após um ano de "namoro",
é como nós chamamos o período de aproximação
com os índios, o mais bravo da tribo, o que tivemos maior dificuldade
de nos chegarmos, sentou ao meu lado, num tronco de árvore, colocou
a mão no meu ombro e disse: eu achava que não ia conseguir
amansar você! Mas consegui! Aí, ele retirou o seu disco
labial e me deu de presente. Eu é que era considerado o "branco
bravo", imagina! Mas adorei a confissão e guardo até
hoje o disco como lembrança de um momento engraçado, mas
emocionante.
Marília: E a surpresa desagradável?
Peret: Por razões pessoais, não
vou citar o ano em que isso aconteceu. Uma vez, o presidente da FUNAI
me ofereceu uma parceria, que nos daria a oportunidade de ganhar 100
milhões de cruzeiros (a moeda corrente na época) de investidores
da Amazônia, em troca de terras dos índios, que ele mesmo
se encarregaria de lhes tirar e colocar em local sem minérios
e recursos naturais - o motivo de cobiça dos investidores. Eu
fiquei muito decepcionado. Pensei:eu aqui, remando com meia dúzia
de gatos pingados contra a maré, e uma corja tramando contra
os índios, ao invés de cumprir a missão para a
qual são pagos. Mas resolvi denunciar a proposta indecente às
autoridades. E, como sempre acontece por aqui, eu é que fui demitido.
Mas há males que vêm para bem. Com a experiência
profissional que adquiri, consegui ótimos trabalhos e consultorias,
que me renderam muito mais do que eu ganhava na FUNAI.
Marília: A sua família participa da sua vida literária?
Peret: Este ano fui eleito "Pai do Ano", pela Associação
Cultural e Social Casa do Acre. Meus filhos foram lá e apresentaram
uma paródia sobre a minha vida. Foi a primeira vez que fui aplaudido
pelo meu currículo. Quando eu estava redigindo o livro "Inã-Son-Wera
- Mitos e Lendas Karajá", meu filho Luis Eduardo, com oito
anos, me ajudou na linguagem. Ao ler os originais e não entender
uma expressão, indagava. Eu sugeria sinônimos até
ele dizer: ah! É isso? Eu substituía a palavra pela que
ele havia entendido. Minha filha Denise e minha mulher Marly lêem
sempre os meus originais e fazem sugestões. O Luis Eduardo verte
meus textos para o inglês.
Marília: Viver na Amazônia deve ser uma experiência mágica.
Você acha que ocorreram mudanças em você, em função
de sua opção de vida?
Peret: Em 1994, uma jovem veio à
minha casa, falando castelhano e perguntou:
aqui mora o ancião sábio e sacerdote indígena João
Américo Peret? Eu respondi: nem tão ancião, nem
tão sábio. Aí, ela disse: bem, nós não
sabemos. Mas o meu mestre Chamalú, da comunidade Janajpacha,
que fica nas Cordilheiras dos Andes, na Bolívia, sabe. Ele me
mandou aqui para te convidar para o Encontro Mundial de Anciãos
Sábios e Sacerdotes Indígenas das Américas. Aqui
estão o convite, a passagem e o dinheiro para a viagem. O encontro
será daqui a três meses e sua presença é
imprescindível. Fui. Foi outro momento muito emocionante da minha
vida. Afinal, ser reconhecido como um ancião sábio, como
os grandes chefes e sacerdotes de tribos indígenas, para mim,
é uma honra. A mudança foi nesse sentido. Fiquei impregnado,
de corpo e alma, de toda a cultura indígena. Dirigi minha vida
baseado em seus valores e crenças. Tanto é que fui reconhecido
como tal pelos próprios índios. Desde então, participo
dos encontros em alguns países e me sinto muito à vontade
junto aos "meus pares"...
Marília: Você gostaria de deixar uma mensagem para os "Velhos Amigos"?
Peret: Olha, eu tive algumas decepções nessa minha missão.
É, porque considero minha atividade como uma missão, um ideal de vida.
Mas os tombos não conseguiram
me derrubar. Lutei e acho que a satisfação e a realização,
como eu já disse, superaram as dificuldades. Por isso, como mensagem,
vou recitar um trecho do poema indianista "I-Juca Pirama",
do grande escritor brasileiro nativista, Gonçalves Dias: "Não
chores, meu filho, não chores que a vida é luta renhida:
viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate,
que os fortes, os bravos só pode exaltar". Esta é
a minha mensagem.
Marília:
Que lindo! Bravo! E muito obrigada pela entrevista.
Peret: - Eu também agradeço.
Setembro/1926 - Março/2011
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