Tenho
a honra de entrevistar a Vó Maria, esta pessoa linda, dona de
uma voz singular, uma prova viva de que a gente pode fazer mais de 90
anos, e continuar cantando, sorrindo e brincando como nos ensina a arte
de viver.
VÓ
MARIA: A vovó tem 92 anos. (faz agora em maio, 93
anos) Minha mãe se chamava Jandira e meu pai Sebastião
Rosa dos Santos. Tenho 11 irmãos. Eu sou a terceira. Os dois
primeiros já faleceram e três que eram depois de mim também.
Só tem 6 vivos.
LOU:
Em que dia você nasceu? VÓ MARIA: 5 de maio de 1911.
LOU:
Onde? VÓ MARIA: Em Mendes, Estado do Rio.
Fui criada na roça até os dez anos. Em 1922, uma família
me trouxe pra eu brincar com o casal de filhos que ela tinha.
LOU:
E você brincava e tomava conta? VÓ MARIA: Tomava conta mais ou menos,
mas tinha empregada. Eu fui só pra brincar com eles... depois,
fui ficando moça, me botaram na escola, mas não deu certo,
não gostava. Meus pais de criação eram médicos,
um irmão era médico e fui criada com eles e com a vovó,
que era portuguesa, e era doente e eu então aprendi a fazer a
dieta. Desde os 15 anos, comecei a fazer dieta pra diabéticos
e pra pessoa que tinha angina. Então, sou dietista, única
profissão que eu tenho assim.
LOU:
Como era o nome desse casal que trouxe você? VÓ MARIA: Era Dinah Rocha de Paiva
Ramos e José Ubirajara de Paiva Ramos, já falecidos também.
E naquela época, nós viajávamos muito. Quando eu
vim da roça, fui pra Icaraí; depois, tinha casa própria
no Grajaú, quando o Grajaú, em 1922, ainda não
tinha nada. E foi lá que eu fui criada até ficar moça
quando me casei.
LOU:
Casou com quem? VÓ MARIA: Com Maciel Francisco dos
Santos.
LOU:
Era o Donga? VÓ MARIA: Não! Ainda não!
Aí a vovó tinha só 23 anos. O último casamento
é que foi com o artista Donga. Antes disso, a vovó só
ia às batalhas de confete; a vovó nunca foi no morro;
a vovó nunca tinha freqüentado escola de samba naquela época.
Fiquei
viúva com 23 anos, antes da minha única filha, Nilza,
completar 3 anos. Com 26 anos, tornei a me casar porque fui criada numa
família que dizia que a gente tem que dar exemplo aos filhos,
e eu tinha uma filha. E os meus pais também, verdadeiros, diziam
que a mulher que vinha pro Rio, você sabe...E eles não
queriam deixar...
LOU:
O Rio carrega essa fama até hoje... VÓ MARIA: Essa fama de que quem
vinha pra aqui pirava, virava a cabeça. E isso sempre gravou
na minha cabeça; e a minha mãe de criação
também dizia que a gente tinha que ser honesta, direita, e assim
foi a minha vida inteira, andando sempre direita.
LOU:
Você então se casou pela segunda vez pra criar
sua filha numa família... Tinha que ter um chefe. VÓ MARIA: É, me casei com
o jornalista João Conceição, professor de inglês,
mas a carteira dele é dos Estados Unidos e fiquei 15 anos casada
com ele. Ele montou um jornal americano... igual ao dos Estados Unidos,
de racismo.
LOU:
Eu li que participavam das reuniões na sua casa, pessoas ilustres
como o senador Abdias do Nascimento, o sociólogo Guerreiro Ramos,
o pesquisador Haroldo Costa, a advogada Sebastiana Arruda... VÓ MARIA: É. Eles conversavam
sobre racismo e sobre o jornal negro. Mas no fim de 15 anos, nosso casamento
não deu certo. Ele achou graça na secretária dele.
Um dia ele chegou em casa e disse: - Maria, um dos dois aqui é
demais: ou eu ou você. Eu disse: - Ó meu filho, querendo
ir embora a porta não fecha, porque eu sou muito audaciosa, a
porta não fecha nem pra cachorro, querendo ir embora, pode ir.
Você pode voltar que você me encontra no mesmo lugar. Aí,
passou o tempo, eu me desquitei.
Sônia
Regina, neta de Vó Maria, entra no nosso bate-papo pra colaborar
e lembrar alguns fatos:
SÔNIA: Nessa ocasião, Nilza, filha de Vó
Maria, conhece Lygia Santos, filha de Donga e, através dessa
amizade, as famílias se aproximam. E Vó Maria passa a
chamar Lygia, de filha, e ela passou a chamar a vovó Maria, de
mãe.
VÓ
MARIA: Passaram 20 anos e eu sempre me dando com a filha
do Donga, a Lygia, que já era colega da minha filha Nilza, desde
o tempo do admissão, no Instituto Guanabara. SÔNIA: Deixa eu só fazer uma observação.
Ambas
juntaram as famílias, vovó casada com o segundo marido,
João Conceição e o vovô Donga, casado com
a mãe da Lígia, a Vó Zaíra, que era uma
cantora lírica.
As
famílias ficaram amigas, fizeram o tal jornal "A Redenção",
que foi o primeiro jornal negro que se tem na história do movimento
negro e, por conta de uma dissidência, o jornalista João
Conceição, segundo marido da vovó, tem um entrevero
com o vovô Donga e os dois se afastam. Aí, a mãe
da Lígia morre e o vovô Donga se casa pela segunda vez.
A vovó Maria continua vivendo com o João Conceição.
LOU:
Aí as duas famílias se separaram? SÔNIA: Não, as duas filhas
- a filha do Donga e a minha mãe - continuaram se dando a despeito
das duas famílias não se freqüentarem mais.
CASAMENTO
COM DONGA
VÓ
MARIA: Quando ele ficou viúvo, pela segunda vez, e
eu já desquitada, a Lygia convida a vovó pra fazer a tal
dietinha.
Ela disse: - A senhora é muito maravilhosa, mãe, porque
a senhora não vai tomar conta do papai? Ele já vai fazer
70 anos, está muito doente, ficou viúvo, a senhora sabe,
a senhora tem paciência. Eu disse: - Olha, teu pai é zangado
e eu também sou, sempre a mesma coisa.
Mas
ele agora não é mais! A senhora é maravilhosa,
a senhora sempre tomou conta. Então, eu fui, e foi aí
que eu estive casada, vivi com o Donga, por 15 anos. Ele que compôs
"Pelo Telefone" (1º samba gravado).
SÔNIA:
A vovó tanto fez a dietinha, que acabou casando com o vovô
Donga, que é na verdade o avô que eu vim a conhecer. Porque
eu não conheci o segundo marido dela, nem meu avô legítimo
que foi o do primeiro casamento, porque, como ela falou, morreu quando
a minha mãe tinha três anos.
LOU:
Agora, eu tô entendendo tudo. As famílias hoje em dia são
assim. Difícil da gente entender.
Mas você era muito avançada pra época, porque isso
tá acontecendo há coisa de 20 anos... VÓ MARIA: Não, "minha
neta". Separações vêm acontecendo, há
mais tempo...
LOU:Nos
anos 50, era difícil. As mulheres agüentavam, chorando até
o fim. E a sua carreira como foi? Você conheceu o Donga e aí
você... VÓ MARIA: Aí, ele foi morar
no Méier, na Rua Dona Claudina. Foi aonde eu me casei com ele,
porque a casa própria dele, na Rua Almirante Cândido Brasil,
nessa altura, estava em construção, em reforma.
Mas o engenheiro, como o Donga tava meio doente e tinha ficado viúvo,
também parou com a casa. Quando eu fui morar com ele eu falei:
- Ô Donga, a sua casa está lá fechada, você
não fala mais com o engenheiro e neste ano ele não mexeu,
não foi lá nem uma vez. Então, eu vou começar
a tomar conta da casa. Aí comecei a tomar e o engenheiro, se
fosse hoje, se pudesse me matava, ele não me suportava. No fim
de 6 meses, a casa estava pronta! O Donga já estava forte e começou
a andar. Antes ele estava muito abatido. Aí ele começou
a ir pra SBACEM novamente.
LOU:
O que é isso? SÔNIA: É um lugar onde se
discutem direitos autorais. VÓ MARIA: E lá era onde eles
se reuniam. Aí, depois do almoço ele foi pra SBACEM.
Porque tudo dele era na hora certa, ele almoçava ao meio-dia,
se arrumava todo cheiroso e ia pra SBACEM e quando
deu 4h30, 5 horas, ele me ligou. Olha, já estou indo.
Naquela
altura eu morava na Rua Costa Pereira, que hoje se chama Avenida Maracanã.
Aí eu disse: - Olha, não vai pro Méier não;
vem pra cá que eu estou na casa da Nilza, que é minha
filha. Eu não falei nada da casa nova. Quando ele chegou na cara
ele assim: - Vamos embora que já é tarde - Elesa da Nilza,
ele jantou, eram 8 horas e eu disse p falou: - tá bem.
Aí
eu desci e fui caminhando. E ele falou: - Aonde você vai? Eu disse:
- Vou te mostrar a nossa nova casa. Quando ele chegou lá, a cama
dele tava arrumada, a casa toda arrumada e ele: "Ah! Minha filha!
Ele ficou todo nervoso, zangou comigo: Como é que você
fez tudo isso sozinha? Mas eu estava acostumada a fazer mudança,
sempre viajava.
Eu
fiz assim: quando ele saiu meio dia, chamei a "Andorinha",
eles vieram correndo, fizeram a mudança porque não tinha
quase nada, porque ele não enxergava muito bem. Então,
eu já tinha arrumado o quarto dele, a sala e eu botei um sofá
num outro quarto e quando ele entrou, a casa tava linda. E ele não
tinha acompanhado nada! Quando ele chegou, foi só deitar na cama.
A varanda arrumada, tudo bonitinho e aí ele ficou contente.
E
O SAMBA CHEGOU A NOSSA CASA
VÓ
MARIA: Foi aí aonde começou os sambas na minha
casa todo dia 5 abril, que era aniversário dele, onde começou
Martinho da Vila, Clara Nunes, João da Baiana, Pixinguinha, João
Nogueira, Xangô da Mangueira, Aniceto... todos eles iam lá
nos aniversários.
E
os sambas começavam sempre depois da missa, e nós íamos
pra casa, porque ele almoçava na hora certa. Meio-dia era o almoço
dele. E o samba começava a 1 hora. E eles iam chegando e o samba
ficava até as 4, 5 horas da manhã. O Zeca do Cavaquinho
dizia: - Meu Deus, o que eu vou dizer à minha esposa? Ela não
vai acreditar! Foi a primeira vez que ele chegava em casa, às
7 horas da manhã. E Martinho
da Vila cantando "Se a dona da casa deixar, eu fico pra jantar,
oi se a dona da casa deixar eu fico pra jantar..." Eu disse: -
entra meu filho, tem caminha pra você dormir, era assim o samba
lá em casa. E foi aí que começou a minha vida de
samba.
LOU:
Desde quando ele era compositor? VÓ MARIA: Desde 1917. SÔNIA: Desde
antes. Em 1917 ele conseguiu gravar "Pelo Telefone". É
por isso que historicamente "Pelo Telefone" é o primeiro
samba gravado. "Pelo Telefone" é uma sátira,
depois se você ouvir, você vai entender: Nos anos de 17,
naquela década, o jogo já era proibido. Só que
a polícia fazia vista grossa e deixava. E aí o "Pelo
Telefone" dizia assim: "O chefe da polícia, pelo telefone,
manda me avisar que na Carioca tem uma roleta para se jogar..."
A vovó gravou, está no CD. Foi a primeira música
que ela gravou.
LOU:
E você dançava em alguma escola de samba? VÓ MARIA: A primeira vez que eu
fui a uma Escola de Samba foi em Mangueira, quando a Sônia Regina,
minha neta, fez 18 anos...
A Lygia, como era Estandarte de Ouro, disse pra fazermos lá.
O Donga não, o Donga era Mangueira, mas não freqüentava.
Ele estava doente e não ia não. Então, nós
fomos e pela primeira vez eu entrei numa escola de samba.
LOU:
E ficou vibrando? VÓ
MARIA: Fiquei né, minha filha. Depois saí de
destaque na Mangueira, uma vez, e saí duas vezes de baiana, na
Vila Isabel, escola do Martinho da Vila.
LOU:
Quando tinha essa roda de samba na sua casa, você já cantava? VÓ MARIA: Sempre eu quis cantar,
porque em toda escola de samba tem sempre uma feijoada, que é
a coisa que você já sabe. Eu corria lá na cozinha
um bocadinho, e ia ver como é que estava o feijão. Eu
corria lá e voltava pra sala... Eu finjo que sambo, eu tiro muito
bem, mas sambar, eu não sei não... e sempre cantava uma
coisinha..Mas o Donga falava:
- Aonde tiver profissional, a senhora não canta porque a senhora
só tem voz, mas tem o profissional. Então eu só
chegava, assim... E cantava umas coisinhas.
LOU:Se
você soubesse que tinha de ser "profissional" teria
tirado carteira naquela época... (risos) VÓ MARIA: Ah, ele não quis,
- Mas eu cantava: - "Hoje é dia do seu aniversário,
parabéns, parabéns, faço votos... quando Mário
Rossi, ele era poeta, diretor da SBACEM, viu o
tom que eu cantava, ele dizia: - eu conheço essa voz, é
de uma cantora conhecida.
Aí ele dizia pro Donga: - "porque essa mulher não
canta?"
- Que cantar coisa nenhuma! Ela tem mais o que fazer, cantar nada!"
- o Donga respondia.
E
naquela época, também era assim: pra você cantar
numa rádio, você tinha que... Você sabe, né?...
Fazer outras coisas... entende?
LOU:
Eu sei como é que era... "Tinha que ser fácil"...
né? VÓ MARIA: Muito. Então, todo
mundo que eu falava em cantar, me dizia: - Não, cantar pra quê?
Mas mesmo assim, minha filha, eu nunca dei facilidade. Quando eu passava
em algum lugar e me apertavam, eu dizia: - Virgem, Nossa Senhora! Porque
eu sempre gostei de dar exemplo aos filhos e aos netos e nunca, ninguém
vai dizer : "a minha vó fez isso, nem minha mãe também,
nem minha filha também, então sempre andei na linha reta".
LOU:
Vem cá, Vó Maria. Você trabalhava fora?
VÓ MARIA: Eu trabalhei durante 30
anos, na fábrica de renda, na Rua Garibaldi. Meu marido não
queria que eu trabalhasse e, por duas vezes, ele foi na fábrica
dizer que eu fazia aquilo pra humilhar, porque eu não precisava.
Mas eu tinha uma filha. E no segundo casamento, eu não tive filho.
E ele ficava nervoso e dizia que eu só queria ter aquela filha.
Eu ainda fui a um médico e fiz tudo que foi tratamento. Aí,
resolvi trabalhar e trabalhava pra educar a minha filha. Mas ele não
queria, verdade seja dita, porque ele me dava todo o conforto, mas eu
queria trabalhar.
LOU:
Fazia parte da sua realização de mulher.
Você se aposentou? VÓ MARIA: Me aposentei. Tenho pensão
pequenina de 240, mas é minha a pensão e não vivo
só com ela, porque tenho a pensão do Donga que ele me
deixou todas registradas pra mim.
Agora,
hoje, a vovó vai te dizer uma coisa: - com 93 anos a vovó
foi boba, não aproveitou nada, nada, nada, sempre andei direito.
Fui casada 3 vezes, mas ninguém vai dizer minha mulher fez isso,
fez aquilo, todos os 3 já estão mortos.
LOU:
Antigamente havia o preconceito, o tabu pra tudo que fosse prazeroso
para a mulher. Ela não tinha direito, só o homem. A mulher
tinha que cuidar da casa, não podia seguir uma carreira artística.
As que romperam as regras sofreram toda sorte de discriminação. VÓ
MARIA: Só o homem podia tudo. Olha, no meu tempo,
a minha mãe dizia: - Vai Maria! Eu adorava o Ary Barroso, isso
com 20 anos, minha mãe de criação dizia: - Vai
Maria, você tem a voz linda. Eu dizia: - o Ary Barroso, adoro,
ele é maravilhoso, mas como crítico ele vai me mirar de
cima embaixo.
LOU:
Ele chegou a te ouvir? VÓ MARIA: Não. Eu não
fui.
LOU:
Se ele te ouvisse, ele não iria te olhar de cima embaixo, te
negar nada. VÓ MARIA: Ele não negou,
mas ele mirou a Elza Soares. Ele olhou pra ela de cima abaixo e ela
disse: - é fome mesmo que eu passo. Não foi?
LOU:
Mas ela enfrentou, cantou e teve a aprovação dele. Depois
que ela cantou e mostrou quem ela era, não teve mais importância,
a forma como ela estava vestida. Eu a entrevistei , foi muito bonita
a entrevista dela também. VÓ MARIA: E eu sempre andei metida,
sempre andei bem vestida, bonitinha.
LOU:
Ele, neste caso, você não precisava temer... VÓ MARIA: Não minha filha,
mas mesmo assim eu criei um complexo naquilo dele olhar todos.
LOU:
O Ary Barroso metia medo em muita gente com aquele jeitão dele
severo... VÓ MARIA: Mas foi o que o neto e
a neta falaram pra mim. É pena que não temos nenhuma gravação
dele assim, daquela época, quando ele fazia aqueles programas
e dava medo em todo mundo....
LOU:
Eu acho que, até certo ponto, isso foi importante, porque ele
pôde filtrar. Se ele estivesse hoje aqui, não teria tanta
porcaria tocando no ar. VÓ MARIA:
É mesmo! SÔNIA: Dali, só saía
o que era realmente bom!
LOU:
E você deveria ter saído, se tivesse tido coragem de enfrentar
o seu medo com ele. VÓ MARIA: Mas agora, com 93 anos,
a vovó vai enfrentar.
LOU:
Isso mesmo. Tá começando uma carreira. VÓ MARIA: Mas a vovó não
vai seguir muito não, porque eu não quero tirar o lugar
do jovem, isso eu vou dizer sempre.
LOU:
Não, eu vou discordar de você. Você não tá
tirando o lugar do jovem; você tá ocupando o lugar que
já era seu há muito tempo. Tem lugar pra todo mundo que
tem valor. O jovem tem outro público, você não vai
tirar o lugar de ninguém. Vá em frente, vó! Faz
de conta que eu sou sua mãe, tô te falando! VÓ MARIA: Minha filha, mas você
vê que tem jovens agora que também só tão
cantando raiz, só samba. Já viu?
LOU:
Já vi. Mas eles têm a tribo deles e você vai cantar
as suas raízes, com a sua voz, que é a própria
raiz do samba. VÓ MARIA: Ah é...
LOU:
Vá em frente! Escute a voz da tua mãe, ela mandou você
ir, você não foi. Agora você vai!!! VÓ MARIA: Então, minha mãezinha,
permite, minha mãezinha, eu lhe agradecer de ter me dito: Vá
em frente, Maria, vá em frente. Foi assim que a minha mãe
dizia e você está repetindo pra mim. Minha santa mãe
e minha neta tá repetindo agora: minha filha, vá em frente!
Quero sempre te agradecer, porque você é maravilhosa. Que
Deus te ajude, que Nossa Senhora da Guia te guie sempre.
Amém.(fica emocionada)
LOU:
Ai, que linda vovó! Muito obrigada! Quais são seus planos
agora que você conseguiu fazer sua carteira de trabalho e a partir
de eu dizer "minha filha vai em frente!" Qual vai ser o primeiro
passo? VÓ MARIA: Primeiro passo, minha
mãe, se me permite, eu vou à Brasília, vou em frente,
lembrando sempre das suas palavras...
LOU:
Você está emocionada, Vó Maria, respira fundo... VÓ MARIA: Tá bem! Vou em
frente! Nos dias 13, 14, 15, vou cantar com Martinho da Vila, no Canecão.
Ele me convidou pra fazer parte dos 3 dias. Em Brasília, é
em março, no dia 3. E depois, seguirei sempre a sua palavra,
minha mãe: irei sempre em frente!
LOU:
Isso mesmo! Parabéns pra você. Vem cá. Qual o recado
que você quer dar aos "Velhos Amigos"? Você que
foi uma pessoa que deixou de seguir a sua vocação, que
era cantar, impedida pelos preceitos do machismo daquela época?
Você que deixou de botar pra fora a sua voz, o seu dom e hoje,
reconhece que foi boba e perdeu muito tempo da sua vida. VÓ
MARIA: Olha, eu hoje digo pras colegas da minha idade, que
não façam conforme eu fiz! Não pensem! Vão
em frente, cantando, sejam alegres! Procurem esquecer todo o passado
de aborrecimento, porque não tem coisa pior na vida do que a
gente ter um filho e ver morrer na rua, uma filha única.(Na
foto com seu CD)
Tenho
Lygia sim, que me considera mãe e se eu disser que ela não
é minha filha, ela manda me matar. É mesmo como se eu
tivesse tido ela. Mas a minha filha primeira morreu de desastre, mas
eu não me deixei abater.
Então
eu digo a todas as minhas colegas de idade que eu nunca chorei. Nunca
meus netos, nem a minha filha Lígia me viram chorar assim, com
saudades de Nilza. Sempre me viram cantando, alegre, sempre dando exemplo
aos meus netos e quero dizer também às minhas colegas
e amigas de idade que sigam a vovó Maria de hoje, que sigam o
caminho, que cantem quem tem vocação; que não façam
o que eu fiz quando era moça. E agora, com 93 anos, eu peço
a elas que façam o que vovó não fez! Estarei pronta
aqui a qualquer hora, para dar o meu estímulo a todas as minhas
colegas.
LOU:
E pra mostrar essa voz maravilhosa... VÓ MARIA: Maravilhosa é você,
minha filha, que me permitiu chamar de minha neta, mas falou como se
fosse minha mãe. Que façam o que a "minha mãezinha"
hoje falou pra mim: - Vá em frente, Maria!
LOU:
E você vive com essa sua neta Sônia Regina. VÓ MARIA: Eu vivo com Sônia
Regina a minha vida inteira. Eu que criei; a mãe deixava comigo
pra trabalhar e ela estudava. A vida inteira tomei conta dela e do Walter
Luiz, e todos os outros netos.
LOU:
E hoje, a Sônia Regina cuida... VÓ MARIA: Hoje a Sônia Regina
cuida da vovó aqui. SÔNIA:
A recíproca é verdadeira. E ela cuida de mim.
Aqui é uma troca. Nós somos mais que avó e neta,
nós somos amigas. Realmente, eu partilho tudo da minha vida com
ela. Ela partilha tudo da vida dela comigo e eu acho que é uma
relação ímpar que eu tenho o privilégio
de poder gozar e viver.
LOU:
Parabéns Sônia Regina. SÔNIA: Obrigada.
LOU:
Parabéns vó. Você que falar mais alguma coisa? Sempre
tem espaço. VÓ MARIA: Não, minha neta,
minha Mãezinha... SÔNIA: De significativo não,
exceto a última emoção que ela nos propiciou, aos
netos e bisnetos. Foi fazer essa prova, na ordem dos músicos.
Foi uma iniciativa dela, já que ela queria há muito tempo
e passou por unanimidade, na presença dos netos, que somos nós,
e bisnetos, desde o mais novo, que é o Ruda, que tem 6 anos.
Estávamos todos presentes na Ordem dos Músicos, na hora
em que ela cantou, na hora em que ela foi diplomada.
Depois
que ela foi aprovada e diplomada, ela saiu a pé conosco, pela
cidade, uma tradição que ela costumava fazer com minha
mãe, que era lanchar na cidade. Nesse dia, nós revivemos
isso, e fomos até ao Sindicato dos Músicos, onde ela se
sindicalizou e é considerada a mais velha sindicalizada do Sindicato
do Músicos.
VÓ
MARIA: Paguei a contribuição e a anuidade e
vou pagar todos os anos. Agora posso dizer que sou uma profissional
diplomada e sindicalizada.(Uma pose segurando a carteira
da Ordem dos Músicos)
LOU:
Então, canta uma música. Solta este vozeirão
pra nós! VÓ MARIA: (Clique
aqui) "Ele é Casado" - Eu sou a Outra
Ele
é casado
E eu sou a outra na vida dele
Que vivo qual uma brasa,
Por me faltar tudo em casa.
Ele é casado
E eu sou a outra que o mundo difama
E que a vida ingrata, maltrata e sem dó cobre de lama!
Quem me condena
Como se condena
A uma mulher perdida,
Só me vê na vida dele,
E não o vê na minha vida!...
LOU:
Parabéns, maravilha!
"-
Este é o primeiro disco- e logo um CD! - que ela grava
- pimpona, lépida e fagueira - aos 92 anos de idade. Logo
ela que poderia (e deveria) ter registrado sua voz, a partir dos
anos 20 (numa bolacha de cera, feita em gravação
mecânica). Portanto, trata-se da mais antiga cantora do
mundo a estrear em disco (recorde, quero crer, a ser registrado
até no Guiness)..." Assinado: Ricardo Cravo
Albin.
MAXIXE
NÃO É SAMBA
PRA
OUVIR VÓ MARIA CANTANDO
Pelo
Telefone
Autores: Donga e Mauro de Almeida
"Meu
pai nunca imaginou que "Pelo Telefone" fosse causar
uma polêmica tão grande. E a razão, vocês
precisam saber qual foi. O direito autoral, afinal de contas,
a partir do registro, definiu a autoria dos compositores brasileiros"
O
Chefe da Polícia
Pelo telefone
Mandou me avisar
Que na carioca
Tinha uma roleta
Para se jogar
O
Chefe da Polícia
Pelo telefone
Mandou me avisar
Que na carioca
Tinha uma roleta
Para se jogar
Ai,
ai, ai!
Deixa as mágoas para trás, oh rapaz
Ai, ai, ai!
Fica triste se és capaz! E verás!
Ai, ai, ai!
Deixa as mágoas para trás, oh rapaz
Ai, ai, ai!
Fica triste se és capaz! E verás!
Tomara
que você apanhe
Pra nunca mais fazer isso
Tomar o amor dos outros
E depois fazer feitiço.
Tomara
que você apanhe
Pra nunca mais fazer isso
Tomar o amor dos outros
E depois fazer feitiço.
Olha
a rolinha (sinhô, sinhô)
Se embaraçou (sinhô, sinhô)
Caiu no laço (sinhô, sinhô)
Do nosso amor (sinhô, sinhô)
Porque este samba (sinhô, sinhô)
É de arrepiar (sinhô, sinhô)
Põe pernas bambas (sinhô, sinhô)
Mas faz sambar...
O
Chefe da Polícia
Pelo telefone
Mandou me avisar
Que na carioca
Tinha uma roleta
Para se jogar
O
Chefe da Polícia
Pelo telefone
Mandou me avisar
Que na carioca
Tinha uma roleta
Para se jogar
Ai,
ai, ai!
Deixa as mágoas para trás, oh rapaz
Ai, ai, ai!
Fica triste se és capaz! E verás!
Ai, ai, ai!
Deixa as mágoas para trás, oh rapaz
Ai, ai, ai!
Fica triste se és capaz! E verás!
Tomara
que você apanhe
Pra nunca mais fazer isso
Tomar o amor dos outros
E depois fazer feitiço.
Tomara
que você apanhe
Pra nunca mais fazer isso
Tomar o amor dos outros
E depois fazer feitiço.
Queres
ou não (sinhô, sinhô)
Ir pro cordão, (sinhô, sinhô)
Ser folião, (sinhô, sinhô)
De coração, (sinhô, sinhô)
Porque este samba (sinhô, sinhô)
É de arrepiar (sinhô, sinhô)
Põe pernas bambas (sinhô, sinhô)
Mas faz sambar...
Gosto
Que Me Enrosco
Autor: Sinhô
Não
se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado
Deus me livre das mulheres de hoje em dia!
Desprezam o homem só por causa da orgia.
Não
se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado
Deus me livre das mulheres de hoje em dia!
Desprezam o homem só por causa da orgia.
Gosto
que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher.
Mas o homem, com toda fortaleza,
Desce da nobreza e faz o que ela quer.
Gosto
que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher.
Mas o homem, com toda fortaleza,
Desce da nobreza e faz o que ela quer.
Dizem
que a mulher é a parte fraca
Nisto é que eu não posso acreditar
Entre beijos e abraços e carinhos
O homem não tendo é bem capaz de roubar
Gosto
que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher.
Mas o homem, com toda a fortaleza,
Desce da nobreza e faz o que ela quer.
Gosto
que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher.
Mas o homem, com toda a fortaleza,
Desce da nobreza e faz o que ela quer.
Mulher
de Malandro
Autor: Heitor dos Prazeres
Mulher
de malandro sabe ser
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha, a ele tem amizade!
Longe dele tem saudade...
Mulher
de malandro sabe ser
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha, a ele tem amizade!
Longe dele tem saudade...
Ela
briga com o malandro
Enraivecida, ela manda andar
Ele se aborrece e desaparece
Ela sente saudade, vai procurar
Muitas
vezes ela chora
Mas não despreza o amor que tem
Sempre apanhando e se lastimando
Mas perto do malandro se sente bem.
Mulher
de malandro sabe ser
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha, a ele tem amizade!
Longe dele, tem saudade...
Ela
briga com o malandro
Enraivecida, ela manda andar
Ele se aborrece e desaparece
Ela sente saudade, vai procurar
Muitas
vezes ela chora
Mas não despreza o amor que tem
Sempre apanhando e se lastimando
Mas perto do malandro se sente bem.
Mulher
de malandro sabe ser
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha, a ele tem amizade!
Longe dele, tem saudade...
Vai
procurar.
O
SONHO DE GRAVER UM CD
LOU:
Como foi que vocês gravaram esse CD "Maxixe não
é Samba"? SÔNIA REGINA: Quando vovó
estava pra fazer 90 anos, eu fui a uma festa do grupo "Panela de
Pressão", na casa de um amigo sociólogo, freqüentada
por pessoas que fazem cultura alternativa que não tem espaço
na mídia. São poetas, músicos, cantores, etc. O
dono da casa me levou pra conhecer, nos fundos da casa, o estúdio
todo digitalizado, fantástico. Aí eu me toquei que poderia
fazer um CD da Vovó. Eu e minha prima Zilmar, que é jornalista,
começamos a pensar nisso e tivemos a idéia de pedir aos
amigos pra darem uns 100 reais por mês, pra juntarmos o dinheiro... VÓ MARIA: Aí eu não
quis. Nada disso! Não gosto de pedir nada às pessoas.
Às vezes elas não podem e iam se sentir obrigadas...
SÔNIA:
E aí a gente foi a uma homenagem ao Cartola, no Museu
da Imagem e do Som, na época em que Maria Barbosa era presidente
e o Galotti, que já tinha tocado com a vovó, chama a vovó
pra cantar e foi uma surpresa, um sucesso para o público, que
ainda não a tinha ouvido cantar. Então a Marília
se interessou também em fazer o disco, para os 90 anos dela,
mas infelizmente ela não conseguiu a verba pelo Museu da Imagem
e do Som.
Como
o dinheiro não saiu nós, os netos, gravamos um ensaio
na casa de Lygia Santos e, no dia do aniversário dos 90 anos,
os bisnetos trouxeram, na cesta de café o CD único - o
presente tão desejado."
Mas,
estava escrito nas estrelas.
A
Vovó vai à pedra fundamental do Instituto Cartola, a convite
da Zica, e conhece o ministro Werffort, que ficou encantado e a convidou
pra jantar na casa dele, naquela mesma noite. Lá, ouviu a Vovó
cantar de novo e prometeu dar o dinheiro para o CD. Isso em julho de
2002. Em dezembro de 2002, o último ato dele foi assinar o repasse
da verba para o Instituto Cultural Cravo Albin.
O
Ricardo Cravo Albin passou a direção do CD pra Marília
Barbosa, já que os dois já estavam neste processo e aí
saiu esta beleza deste CD. Eu fiz o roteiro que apresentei à
Marília, que convidou João de Aquino. E o disco virou
uma obra-prima, que foi feito com muito amor.
Hoje
eu recebo milhares de pedidos por e-mail, do disco que lamentavelmente
não pôde ser vendido. A tiragem foi de duas mil cópias
e quem distribuiu foi o Instituto Cravo Albin, de graça, pra
entidades culturais.
Vovó
recebeu um percentual pequeno pra ela dar aos amigos dela. Mas agora,
há uma proposta de comercializar através de uma gravadora.
Vamos ver se o nosso sonho se concretiza.
Maria
de Lourdes Micaldas
Digitadora e webdesigner: Lika Dutra Revisão:
Anna Eliza Führich
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