POESIAS E CRÔNICAS

DOCES LEMBRANÇAS

Recordar o que passou é viver novamente. Logo chega o Natal; e com isto as lembranças afloram como se estivesse vivendo a época dos meus sete ou oito anos.

Tenho uma vaga lembrança da véspera de Natal, quando; acordava com as cantorias das folias de Reis, composta por homens das redondezas da fazenda onde morava.

Não entendia muito o que estava acontecendo, só o que podia entender era que aqueles homens cantavam um canto triste, sempre repetido; o refrão era sempre com uma nota aguda e prolongada, o que às vezes me fazia chorar copiosamente.

Muito de mansinho, minha mãe, entrava no quarto vestia a mim e meus irmãos; pois meu pai, a esta altura já estava abrindo a porta para receber os cantores e a bandeira toda enfeitada de fitas, muito colorida, muito armoniosa.

Íamos todos para a sala, onde a mesa, já de véspera estava toda arrumada pelas mãos abilidosas de minha mãe. Bolos, doces, pães doces, pães salgados, bolachas, tudo confeccionado por ela, não deixando faltar o vinho, de marca simples, o mais barato talvez; porque tudo era muito difícil. Meu pai trabalhava de sol a sol para criar os seis filhos. Tudo muito simples, mas com bom gosto e muito amor, aqueles homens eram recebidos como se recebêssemos pessoas de nossa família.

Ficávamos alí nos deliciando com o toque dos instrumentos, pela cantoria e dança muito bem cadenciada. Todos cantavam em harmoniosa sintonia, parecia alçar de anjos louvando o Menino Jesus.

De quando em quando, paravam, comiam, bebiam, todos alegremente agradeciam ao dono da casa e, novamente voltavam às cantorias. Isto ia até quase o sol raiar.

Deixavam nossa casa cantando agradecimentos, o que nos alegrava muito; era uma coisa inusitada para minha idade, mas muito me alegrava. No outro dia, eu já  cantarolava o que eles haviam cantado para minha família, e, então, vinham as perguntas: mamãe porque eles cantaram à noite? Para quem cantavam? Porque na véspera de Natal? Minha mãe, então, ensinava com muita paciência o significado de tudo aquilo. No Natal, festejamos o nascimento de Jesus, o Filho de Deus, dizia-nos; é como festejar o aniversário de um de vocês, nós não fazemos festa, mas quem pode faz grandes festas para festejar o nascimento de alguém, é motivo de muita alegria! 

Para nós não havia Papai Noel, não tínhamos necessidade de colocar meias onde quer que fosse, porque os tempos eram difíceis, não havia presentes, para ninguém, mas nos sentíamos felizes porque éramos uma família unida, e isto bastava.

Não é o presente que faz alguém feliz, é a união, o amor, a caridade, o carinho para com as pessoas, é claro que um presente sempre é motivo de alegria, mas, não é o "principal" para as festas natalinas.

O aniversariante já veio, está entre nós. Toda festa deve ser direcionada a Ele. Será verdadeiro presente para o Filho de Deus, uma família unida, a acolhida a um irmão menos favorecido, acolher os pequenos que perambulam por aí, aos que dormem ao relento, debaixo de pontes, de viadutos, prisioneiros de todo tipo de vício.

Alegra o coração do Filho de Deus, quando o nosso coração está aberto para a acolhida. Meu Natal era simples, sem presente, mas que falta me faz!

Que o Natal seja um tempo de reconciliação, de vida nova, de paz, a paz tão desejada por todos os povos do mundo.

Autora: Divanilde Vitoria Campos

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