POESIAS E CRÔNICAS
ALMA PENADA Como de hábito fui fazer uma caminhada por um dos espaços públicos mais agradáveis de Vitória, o Parque da Pedra da Cebola. O ar e as cores de outono sempre me proporcionaram uma sensação agradável, sobretudo nas cidades litorâneas. Após algumas voltas por entre plantas, flores e pessoas as mais diversas, resolvi parar um pouco para um descanso estratégico antes de prosseguir. Sentei-me próximo ao campo de futebol para acompanhar uma pelada domingueira e recuperar o fôlego. Ao meu lado dois senhores conversavam animadamente e riam muito, sem deixar de soltar gritos de incentivo ou de reprovação acerca do que se passava no espaço de jogo. De repente um deles perguntou: - Alma penada? – perguntou o outro espantado. – Vira essa boca pra lá! - Eu conheci uma daquelas terríveis. Que não deixa o cidadão em paz. Se ela se invocar com alguém, coitado dele. Vai sofrer até! Ela é canalha, calhorda mesmo. Enquanto não destruir o cara não sossega. - Pode ser. Ninguém sabe. Mas de uma coisa tenho certeza: é alguém muito ruim, que quer o mal dos outros. Espalha mentira, egoísmo e vigarice pra todo lado. Pensei nesse momento se essa descrição se referia a alguém realmente morto ou a alguém que ele conhecia de fato. Será que a expressão alma penada é utilizada para designar simplesmente uma pessoa vil, movida por um intenso desejo de destruição e que utiliza grande parte de seu tempo para atormentar quem estiver mais próximo? Voltando à caminhada pensei em inúmeras pessoas que havia conhecido na vida. Alguma delas se encaixava naquele perfil? Constatei que sim, eu também havia conhecido almas penadas, que me mostraram o que existe de pior na espécie humana: a ganância, a sede de vingança, a mesquinhez, o ódio destrutivo, a perfídia e o mau caráter. Evidenciaram desvios que todas as pessoas normais chegam a demonstrar ao longo da vida, mas num grau que jamais imaginaria em pessoas aparentemente dóceis e inofensivas. A princípio supus tratar-se de pessoas honestas e de boa índole, que depois se mostraram torpes e infames, com um comportamento maníaco-obsessivo desprovido de valores e extremamente calculista. Uma dessas surpresas desagradáveis que qualquer um de nós pode ter ao longo da vida. Certa vez uma delas me disse: “Se você estiver numa festa e eu chegar, você vai ter de sair”. Saindo do parque, uma frase de um dos personagens do mestre Guimarães Rosa me ocorreu esclarecedora: “Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo”. Autor: Erlon José Paschoal |
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