QUE OS OLHOS NÃO VEEM, O CORAÇÃO NÃO SENTEOS FILHOS QUE ESTAMOS CRIANDO
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Ao completar sessenta anos, lembrei do filme “De repente 30”, em que a adolescente, em seu aniversário, ansiosa por chegar logo à idade adulta, formula um desejo e se vê repentinamente com trinta anos, sem saber o que aconteceu nesse intervalo. Meu sentimento é semelhante ao dela: perplexidade. Pergunto a mim mesma: onde foram parar todos esses anos? Ainda sou aquela menina assustada que entrou pela primeira vez na escola, aquela filha desesperada pela perda precoce da mãe; ainda sou aquela professorinha ingênua que enfrentou sua primeira turma, aquela virgem sonhadora que entrou na igreja, vestida de branco, para um casamento que durou tão pouco!Ainda sou aquela mãe aflita com a primeira febre do filho que hoje tem mais de trinta anos. Acho que é por isso que engordei, para caber tanta gente, é preciso espaço! Passei batido pela tal crise dos trinta, pois estava ocupada demais lutando pela sobrevivência. Os quarenta foram festejados com um baile, enquanto eu ansiava pela aposentadoria na carreira do magistério, que aconteceu quatro anos depois. Os cinquenta me encontraram construindo uma nova vida, numa nova cidade, num novo posto de trabalho. Agora, aos sessenta, me pergunto onde está a velhinha que eu esperava ser nesta idade e onde se escondeu a jovem que me olhava do espelho todas as manhãs. Tive o privilégio de viver uma época de profundas e rápidas transformações em todas as áreas: de Elvis Presley e Sinatra a Michael Jackson, de Beatles e Rolling Stones a Madonna, de Chico e Caetano a Cazuza e Ana Carolina; dos anos de chumbo da ditadura militar às passeatas pelas diretas e empeachment do presidente a um novo país misto de decepções e esperanças; da invenção da pílula e liberação sexual ao bebê de proveta e o pesadelo da AIDS. Testemunhei a conquista dos cinco títulos mundiais do futebol brasileiro (e alguns vexames históricos). Nasci no ano em que a televisão chegou ao Brasil, mas minha família só conseguiu comprar um aparelho usado dez anos depois e, por meio de suas transmissões,vi a chegada do homem à lua, a queda do muro de Berlim e algumas guerras modernas. Passei por três reformas ortográficas e tive de aprender a nova linguagem do computador e da internet. Aprendi tanto que foi por meio desta que conheci, aos cinquenta e dois anos, meu companheiro, com quem tenho, desde então, compartilhado as aventuras do viver. Não me sinto diferente do que era há alguns anos, continuo tendo sonhos, projetos, faço minhas caminhadas matinais com meu cachorro Kaká, pratico ioga, me alimento e durmo bem (apesar das constantes visitas noturnas ao banheiro), gosto de cinema, música, leio muito, viajo para os lugares que um dia sonhei conhecer. Por dois anos não exerci qualquer atividade profissional, mas voltei a orientar trabalhos acadêmicos e a ministrar algumas disciplinas em turmas de pós-graduação, o que me fez rejuvenescer em contato com os alunos, que têm se beneficiado de minha experiência e com quem tenho aprendido muito mais que ensinado. Só agora comecei a precisar de óculos para perto (para longe eu uso há muitos anos) e não tinjo os cabelos, pois os brancos são tão poucos que nem se percebe (privilégio que herdei de meu pai, que só começou a ficar grisalho após os setenta anos). Há marcas do tempo, claro, e não somente rugas e os quilos a mais, mas também cicatrizes, testemunhas de algumas aprendizagens: a do apêndice me traz recordações do aniversário de nove anos passado no hospital; a da cesárea marca minha iniciação como mãe e a mais recente, do câncer de mama (felizmente curado), me lembra diariamente que a vida nos traz surpresas nem sempre agradáveis e que não tenho tempo a perder. A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo diminuiu, lembro de coisas que aconteceram há mais de cinquenta anos e esqueço as panelas no fogo. Aliás, a memória (ou sua falta) merece um capítulo à parte: constantemente procuro determinada palavra ou quero lembrar o nome de alguém e começa a brincadeira de esconde-esconde. Tento fórmulas mnemônicas, recito o alfabeto mentalmente e nada! De repente, quando a conversa já mudou de rumo ou o interlocutor já se foi, eis que surge o nome ou palavra, como que zombando de mim... Mas, do que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim, dos meus sessenta. Claro que existem vantagens: pagar meia-entrada (idosos, crianças e estudantes têm essa prerrogativa, talvez porque não são considerados pessoas inteiras), atendimento prioritário em filas exclusivas, sentar sem culpa nos bancos reservados do metrô e a TPM passou a significar “Tranquilidade Pós-Menopausa”. Certamente o saldo é positivo, com muitas dúvidas e apenas uma certeza: tenho mais passado que futuro e vivo o presente intensamente, em minha nova condição de mulher muito sex...agenária! Autora:
Regina de Castro Pompeu. |
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SOBRE A VÍRGULA , Muito
legal a campanha dos 100 anos da ABI Vírgula
pode ser uma pausa... ou não. Ela
pode sumir com seu dinheiro. Pode
criar heróis.. Ela
pode ser a solução. A
vírgula muda uma opinião. A
vírgula pode condenar ou salvar. Uma
vírgula muda tudo. Detalhes Adicionais: SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois
de MULHER... Autor
não mecionado |
Era a primeira vez na minha vida que eu ia ao Chile – e entrar no Chile foi muito engraçado, pois não havia Aduana. Andaríamos 164 km até chegar a ela, o que me fez pensar de novo nas brigas entre os dois países por causa do Canal de Beagle.
A comida, o sol quente e o bom vento fresco em cima da moto acordaram-me de vez, e agora eu tinha forte consciência de que estava, já, no Deserto do Atacama. É muito interessante e muito lindo, tal deserto. É um verdadeiro espetáculo para quem nunca o viu ou o imaginou – eu, pelo menos, tinha na imaginação as imagens do Deserto do Saara, todo de dunas de areia branca, e fui como que indo de surpresa em surpresa Atacama afora. O Deserto do Atacama às vezes é plano, semeado de distantes vulcões; às vezes é feito de suaves ondulações ou colinas; às vezes é todo de altíssimas subidas e descidas de montanhas – e todo ele é um mar de minério, que o deixa com as mais variadas cores, dependendo do que é feito seu solo. Dependendo da região, uma colina é azulada, outra é creme, outra é lilás, outra é roxa – coisa de louco, beleza como que espargida às mão-cheias, e há que se pensar que a última vez que choveu, lá, foi no século XVI – portanto, há quase 500 anos. Algumas partes do Deserto do Atacama estão fora da biosfera, isto é, são tão secas que não permitem nenhuma forma de vida. Não cheguei a ver, mas soube que nessas partes que estão fora da biosfera, os grandes laboratórios [1] internacionais têm seus centros de pesquisa mais perigosos, por uma questão de segurança. Funciona assim: se um laboratório daqueles acabar produzindo um vírus, uma bactéria, ou qualquer forma de vida que possa ser prejudicial à Humanidade, e se, devido a algum acidente, tal forma de vida escapar de controle e fugir do laboratório, não haverá perigo – ela não atingirá a Humanidade, pois morrerá antes de sair daquelas regiões totalmente secas. Naquele dia, porém, atravessávamos parte ainda não tão seca do deserto, planícies pontilhadas com distantes vulcões de grande altitude, onde se formavam as neves eternas, e, por causa delas, havia períodos de degelo que formavam algumas lagoas ou outros pontos de umidade, e qualquer umidade é sinônimo de vida, e onde há aquele mínimo de água nasce a vegetação característica do deserto, que no caso podiam ser pequeninos arbustos, ou capins, ou musgos – e lá estavam as alpacas, as vicunhas, as lhamas, os zorros[2], e sabe-se lá quantos outros bichinhos que existiam na cadeia alimentar daquele lugar onde a vida parecia quase impossível! E não se via, nem mesmo casinhas de adobe, mas fico pensando que aquelas lhamas e suas primas não estariam ali de graça – em algum momento do ano seu dono haveria de aparecer, nem que fosse para tosquiá-las dos seus pêlos tão quentes! Uma coisa ótima que acontecera desde que entráramos no Chile: voltaram as boas estradas asfaltadas, bem sinalizadas com uma forma diferente de sinalização, em placas amarelas. A paisagem soberba me entretinha completamente, e quase não dei pelos 164 km que andamos – o que não deve ter demorado mais que hora e meia – quando paramos com grande estardalhaço, enfim, na Aduana chilena! Havia um rigoroso controle para que não passasse por ali nenhuma contaminação da febre aftosa – e já tive que saltar da moto sobre uma imensa esponja cheia de desinfetante, enquanto patrulheiros vinham aspergir desinfetante em todas as rodas da nossa comitiva. Eram simpáticos, os chilenos! Enquanto preenchíamos nossas fichas de entrada no país e outras coisas, entre elas uma declaração de que nada levávamos de origem animal (por causa da febre aftosa), um deles deu-se conta de que meu estômago não estava lá muito bom, e foi buscar um limão, e cortou-o, e me falou das suas propriedades terapêuticas, e me ensinou a chupá-lo da forma certa para absorver o ácido necessário para melhorar, e era pura gentileza. Fiz as coisas que se fazem em tais ocasiões: contei-lhe da grande amiga chilena que tinha na minha cidade, a artista plástica Paloma, e ele acabou se despedindo de mim com um beijo no rosto. Deduzi que ele andara vendo muitas novelas brasileiras, para ter aprendido aquele tipo de despedida – tanto quanto sei, os chilenos e outros povos não se beijam assim como nós! Só quando, enfim, fomos liberados pela Aduana, foi que me dei conta que estávamos.... nada mais nada menos que em SÃO PEDRO DE ATACAMA! Gente, isso aí estava muito além dos meus melhores sonhos! Autor: Urda Alice Klueger Enviado por: Assaz Atroz |
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O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas. Ontem
eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, Ao
ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão
de que Saem
com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe
na vida Minha
prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem
duas Ontem,
enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha
ruim Eu
gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá
com a Faz
alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e,
para meu Hoje,
olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali.
Eu que era Ontem,
ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção A
capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela
alguma A
maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja Talvez
por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana,
ruidosa. A
cultura feminina não é assim. Ou não era, porque
o mundo, desse ponto de Se
todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas Gastando senão a economia não anda. Para
encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e
mulheres sejam Homens
saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus Mas,
enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar
a cultura Como
diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa Repasse
para suas amigas, especialmente para as que não sabem fazer sua Autor:
Ivan Martins |
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Numa ocasião como esta, a tentação é falar de si próprio. Mas seria impertinente falar sobre mim, quando minha apresentadora, Profª Teresinha Queiroz, já disse tudo e de forma muito clara e generosa. Resta-me, portanto, agradecer, e falar sobre a criatura – minha obra – e não sobre o criador. Lembro sempre do que disse Confúcio: – “Não se deve a todo momento ficar falando de si, por dois motivos: é que, se falamos de bem, ninguém vai acreditar, e se falamos de mal, todos acreditarão”. Entrando no assunto que quero desenvolver, de imediato me vem à lembrança certo dia dos anos 1980, morando em Salvador, quando entrei numa livraria e comecei a olhar os livros, atividade para mim muito prazerosa, mesmo que nada possa ler além do título, autor e orelhas, e mesmo que nada possa comprar daquela vez. E, por simples coincidência, li na lombada de uma pequena brochura, o seguinte título O Menino Perdido, de autor americano, já falecido há muito tempo. Comprei o compêndio, li todos os contos e gostei, mas, por algum mecanismo obscuro da mente, não guardei nem o livro nem o nome do autor. Foi o meu espanto. Senti-me roubado, pois já me fixara naquele título para escrever algo que fosse memória da minha meninice. Lembro-me também de outro dia, já no começo dos anos 1990, em Luís Correia, depois de um banho na praia de Amarração. Sentindo já o começo de uma intransigente crise de depressão, comecei a reler pedaços de contos, crônicas, capítulos. Saudade e angústia. Vontade de fazer algo distinto do que já havia lido sobre a infância. Era isto que sentia. E começava a refazer alguns bosquejos miúdos, num caderninho escolar, e a partir dali ressurgia o nome de O Menino Perdido como título não definitivo. Começada a escrita, vieram as indecisões. Não encontrara um novo título e isto me contrariava. Era impossível abrigar minha matéria sob esse título e depois publicá-la. Eu já havia escrito uma crônica com o título de Um Menino Perdido, que logo desejaria publicada num livro de crônicas, o que de fato aconteceu em 1996. Muitos questionamentos foram feitos mentalmente e permaneceram em ebulição na minha cabeça. Era muita a matéria a escrever, e não queria um livro grande, no fundo eu desejava um grande livro. Também nem pensar em fazer coisa parecida com O. G. Rego de Carvalho, em Ulisses entre o Amor e Morte. Não tinha como. Eu sou realmente discípulo de O. G. Rego de Carvalho e muito me orgulho disto. Ele é um dos maiores amigos que fiz na minha vida, em Teresina, só não maior do que o Hardi Filho, poeta dos melhores do Piauí, pessoa com quem primeiro me encontrei em Teresina e, juntamente com Herculano Moraes, fundamos o movimento literário O CLIP – Círculo Literário Piauiense. Com O. G. Rego de Carvalho foi diferente: antes de encontrar-me com ele, como colega do Banco do Brasil, já havia lido Ulisses entre o Amor e a Morte. Foi outro espanto na minha vida. Espanto que se repetiu em Somos Todos Inocentes e em Rio Subterrâneo. Que obras incomparáveis! Mas quantos escritores, que vieram antes dele e de mim, escreveram a infância (ou sobre a infância)? Lembro-me de alguns: José Lins do Rego, com seu O Menino de Engenho; Graciliano Ramos com o seu livro Infância; Joaquim Nabuco, com o espetacular Minha Formação. Os clássicos russos Dostoiévski e Leon Tolstói fizeram livros sobre sua infância e adolescência, excelentes obras cujos nomes não me vêm à memória. Os clássicos modernos mais à vista seriam O Pequeno Príncipe, de Antoine de Exupéry, e O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon. A enumeração seria enorme e tomaria muito tempo. Não falemos das historinhas da vida comum e das fábulas antigas renovadas que tanto têm sido escritas e publicadas como meio de ganha-pão de escritores desempregados e de editores sem imaginação senão a do vil metal. Claro que o genial Monteiro Lobato não entraria nessa última classificação, antes merece ser o primeiro da boa lista, com Memórias de Emília e Caçadas de Pedrinho, para referir apenas duas da sua numerosa produção. Não, eu jamais escreveria uma história ou um conto com o fim único de ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro é bom, mas vender a consciência é horrível. Passei mais de 20 anos a elaborar O Menino quase Perdido. Finalmente, sem matar completamente o nome primitivo, encontrara o novo título: com uma palavrinha apenas ganhei originalidade. Daí então passaram a ser pensadas, com mais gosto, as formas de escrever e a escolha do conteúdo de cada uma das suas partes. Ele, O Menino... não é um conto grande, não é somente feito de contos encadeados, não é de crônicas, não é um romance. E é tudo isto. Ou quase tudo. A matéria eu já possuía até demais, não que minha infância tenha sido tão rica, mas foram minha infância, minha família, minha terra, minha vida que me inspiraram para escrever esta obra. Original na forma, dentro do poder de minha inventiva. Escolhendo como escrever e o que escrever. E o que publicar e o que deixar de publicar. Muitas páginas foram rasgadas. O livro é não somente real como pode ser ficção, imaginação de homem adulto sobre o que e como sentia o menino, naquele tempo. Um transporte enorme no tempo, no espaço e nas emoções. Assim se casaram o distanciamento e a intimidade. Quase todos os personagens são parentes: pai, mãe, avós, tios, irmãs, primos, amigos, amigas e namoradas – algumas inventadas. Mas é preciso que diga: - este livro é da minha mãe, principalmente. Quem não gosta de mãe certamente não vai gostar dele. Assim como para Saramago a pessoa mais sábia que ele conheceu, quando menino, foi o avô, para mim, foi minha mãe, até os 8 anos. Fui educado para emoções duradouras e positivas. Daí por diante, juntar-se-ia a influência de meu pai. Com relação a sua composição, repito: - Foi todo escrito e reescrito muitas vezes. Não digo que esteja perfeito. Não há perfeição, na espécie humana nem sei se em outras. A perfeição é apenas um ideal a perseguir. E é isto que os bons escritores fazem, por si, para si e pela humanidade. Creio que estou sendo capaz de dizer pouco sobre a matéria de O Menino quase Perdido, mas o suficiente para saber-se que não se trata de biografia, muito menos de minha biografia. Minha biografia são meus livros, não sou cientista nem personagem da mídia, não sou político para quem tudo o que faz precisa ser dito e mostrado, e mentido e enganado. Sou um homem simples e ao mesmo tempo vaidoso do que faço, do que penso e do que recuso. Se em O Menino quase Perdido isto for achado, então o escritor, o personagem onisciente não pôde ser totalmente isento de imprimir sua marca. Eis minha luta pela originalidade e pela diferença em minha escrita, assim como sou diferente em pessoa, sabendo como o filósofo Schopenhauer, que “o estilo é a fisionomia do espírito” e não da cara. Para confirmar minhas palavras, é pertinente que cite, mais uma vez Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), filósofo dos anos selvagens da filosofia” e autor de “O Mundo como Vontade e Representação”. Escreveu ele: 1º) “Um livro nunca pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor”; 2º) “Para estabelecer uma avaliação provisória sobre o valor da produção intelectual de um escritor não é necessário saber exatamente sobre o que ou o que ele pensou, pois para tanto seria necessária a leitura de todas as suas obras. A princípio basta saber como ele pensou”. Auguro, pois, que O Menino... seja lido como verdade mista, real e ficcional, coleção de contos, de crônicas, ou mesmo romance, para os leitores mais liberais. Editorialmente é um memorial, assim ficou classificado e registrado. E que cada leitor encontre seu menino de forma diferente, da forma que o próprio leitor foi em criança. Se assim acontecer estarei pago. Finalizando, repito com o vulgo que “de bons propósitos, o inferno está cheio”. Sim, porque me traí e traí a todos, dizendo, no início, que não iria falar de mim mesmo, porém da obra. Acontece que a obra é o homem. Eu sou a minha obra, jamais um se desligará do outro. Se isto acontecer, ambos são falsos ou hipócritas e é isto que eu não quis nem quero ser. Fonte: Agência Assaz Atroz |
Quando
me amei de verdade Nota: Quando eu me amei de verdade, está em zilhões de blogs por ai como sendo de autoria de 2 pessoas: “Charles Chaplin” e “Autor Desconhecido”, o que é mais uma grande piada de mau gosto da grande Rede sem mãe (a Internet). O texto na verdade é de Kim McMillen , publicada por sua filha Alison McMillen (When I Loved Myself Enough) era parte de um caderno de mensagens que a mãe Kim escrevia como se fosse um diário. Ela morreu aos 52 anos e sua filha reuniu em um livro essas lindas mensagens. O livro foi publicado no Brasil pela Editora Sextante (R.J) com tradução de Iva Sofia Golçalves Lima (96 páginas).
Autora:
Kim McMillen & Alison McMillen |
ATRITOS
Ninguém
muda ninguém; ninguém muda sozinho; nós mudamos
nos encontros. Simples, mas profundo, preciso. Você
já viu a diferença que há entre as pedras que estão
na nascente de um rio, e as pedras que estão em sua foz? Sem
eles, a vida seria monótona, árida. É
começar e terminar a existência com uma forma tosca, pontiaguda,
amorfa. Outras,
sem dúvida, com suas ações e palavras, me criaram
novas arestas, que precisaram ser desbastadas. Faz parte... Reveses
momentâneos servem para o crescimento. A isso chamamos experiência.
Penso que existe algo mais profundo, ainda nessa análise. Os
seres de grande valor, percebem que, ao final da vida, foram perdendo
todos os excessos que formavam suas arestas, se aproximando cada vez
mais de sua essência, e ficando cada vez menores, menores, menores...
Já
viu o tamanho do diamante polido, lapidado? Sabemos quanto se tira de
excesso para chegar ao seu âmago. Autor:
Roberto Crema |
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Ocorreu-me a lembrança do condutor que vestia suspensórios, e que alegrava os gringos falando um inglês macarrônico e, junto (ou logo acima dessa lembrança) veio o céu do Rio de Janeiro, do ponto de vista de quem se dependura nos estribos, abre os braços e olha pro alto, literalmente suspenso de alegria e do azul do céu. Algumas vezes, eu mesmo subi as ladeiras de Santa Teresa desse jeito, meio bobo, completamente feliz. (...) Pois bem, agora o lugar da melhor lembrança que guardo de Santa Teresa é exatamente o lugar amaldiçoado que matou o motorneiro de suspensórios (Oh, Deus! Será que foi ele?) e mais quatro pessoas, e deixou outras dezenas feridas. (...) Quero dizer que - mesmo na remota hipótese de ter havido falha humana - acho uma canalhice pôr a culpa no motorneiro. Outra coisa. Suspender a circulação dos bondes, depois de consumada a tragédia, é algo mais violento, hipócrita e lamentável ainda. Isso tudo me dá uma tristeza maior que o barulho todo do mundo, como se, agora, minhas lembranças dependessem de um laudo técnico, como se meu passado estivesse nas mãos de engenheiros e burocratas da Secretaria de Transportes, como se minha felicidade egoísta não pudesse existir mais naquele lugar desgraçado. O ranger dos bondes que subiam e desciam a Joaquim Murtinho jamais incomodou. Ao contrário, foram os únicos ruídos amigos que me acompanharam naquele ano de solidão e contrariedade absolutas. Se o meu ódio e o meu amor tivessem um som, e se eu tivesse que responder a todos os ruídos de Santa Teresa, eu guincharia feito um bondinho descarrilado, condenado e sem freio. O velho número 10. Autor: Marcelo Mirisola |
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(Aos ateus, agnósticos, religiosos e deístas: a renovação permanente do conceito de Deus é preciso) Uma coisa é a gente acreditar em um fato, outra coisa é acreditar que acredita. Ou ainda: uma coisa é acreditar na realidade que somos obrigados a acreditar, outra coisa é acreditar que acredita nessa realidade. Ainda continuo acreditando que um dos principais motivos para que alguém assuma seu ateísmo é a diversidade de interpretações que as religiões dão para conceitos de céu, inferno e, principalmente, de Deus. Apesar de os ateus em geral garantirem que suas posições ateístas estão baseadas apenas no fato de que não se pode (ou não se consegue) provar a existência de Deus, a meu ver, ateus contestam a existência de Deus não pela aparente impossibilidade de se provar a existência de um criador de todas as coisas visíveis, tangíveis ou imagináveis. A maior parte dos ateus simplesmente se nega, com fundamentada razão, a fazer parte de um “rebanho”, que viria a ser um conjunto de pessoas alienadas, os fanáticos de qualquer ordem. As provas da existência de Deus, que ateus e deístas exigem, precisariam, naturalmente, estar corroboradas pela Ciência. Somente aos fanáticos de qualquer orientação doutrinária, aqueles que se acomodam a uma ditadura dogmática, creem naquilo que não se deve contestar a sua existência, nem mesmo através de uma proposta de representação imaginária. O problema é que a Ciência nem sempre comprova a existência do que ela própria diz existir (ou ter existido). Daí que muitos homens de ciência também se tornam dogmáticos, ou impõem dogmas. E isso ocorre, provavelmente, por mero orgulho próprio. Vejamos, por exemplo, o caso da Teoria do Big Bang, que, por sinal, se desdobra em duas matrizes: a do Big Bang quente e a do frio – ambas permeadas de adendos que tentam corrigir ou complementar as idéias iniciais sobre a origem do universo e a evolução deste. Se a Teoria do Big Bang, naquilo que diz respeito à origem do universo – não, à simples evolução – fosse um fato realmente comprovado, não teria mais um caráter especulativo, não seria mais simples teoria hipotética; mas, sim, um tratado científico incontestável, verdade absoluta que ninguém poderia chamar de absurda. Trata-se, porém, ao focar a origem do universo, de uma teoria probabilística; isso olhada e analisada com muita imaginação, para não dizer “boa vontade”; porque, analisando o conjunto dessa teoria, podemos observar que ela aborda com relativa precisão apenas os aspectos da evolução do universo, mas não encontra resposta plausível para as questões referentes à origem desse universo observável. O capítulo dedicado a explicar a origem do universo é curto e essencialmente metafísico, não é propriamente científico. E não poderia ser de outra forma. Analisando-se essa parte inicial da Teoria do Big Bang, na qual se pretende explicar a origem do universo, podemos perceber que os “métodos científicos” supostamente utilizados não se enquadram nas determinações de uma “metodologia científica”, mas são simplesmente explicáveis por “terminologias científicas”. Porém, nem mesmo a terminologia empregada pode ser considerada eminentemente científica, pois começam falando de um “ponto” (Matemática, geometria), no “nada” (que não pode ser explicado por ciência ou disciplina alguma), ou no “espaço-atemporal” (um possível absurdo geométrico-metafísico, ou mera representação artística); enchem o “ponto no nada” ou no “espaço-atemporal” de partículas subatômicas que teriam vindo do “nada” e explicam suas reações (sem explicar a ação inicial) e combinações aleatórias; sempre usando apenas uma suposta terminologia científica. Pelo visto, estando nós na bifurcação entre criacionismo e evolucionismo, para tomar um desses caminhos, precisamos inevitavelmente criar, metafisicamente, o “elemento” que originou o processo evolutivo. E acredite nele quem tiver imaginação. Creio que foi por isso que Einstein falou: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. Claro que um não prescinde do outro. É compreensível que quanto mais conhecimento, mais possibilidades de imaginação lógica, racional. Acontece que o universo conhecido não é único nem existe em número limitado. Os universos são infinitos... Multiuniverso, ao infinito. Isso é o que imagino (o universo holográfico de que falaremos mais adiante). O problema é que nós, seres humanos, apesar de desejarmos ou acreditarmos na sobrevivência da alma por toda a eternidade, não gostamos muito das ideias de infinito e eternidade... Pensar em infinito e eternidade nos leva, em consequência, a pensar no “nada”. E pensar no “nada” pode nos induzir o pensamento de que nem nós mesmos existimos. Se a gente pensa em espaço infinito, pensa a partir do nosso Eu-objeto, ou seja, sempre concebendo um começo-sem-fim, de nós para o infinito, de forma unidirecional ou mesmo multidirecional. Partindo de nós, tendemos a pensar sob uma visão de macroinfinito, sem conseguirmos assimilar, simultaneamente, a posição simétrica do segmento que parte de nós para o microinfinito (o infinitesimal), pois tudo parte de Nós para o universo conhecido, visível e tangível. Colocamo-nos, por assim dizer, como sendo o centro do universo. E – por que não dizer? – na condição de um deus, ou mesmo, de Deus, o que não é de todo errado (na parte conclusiva deste texto, abordaremos essa questão). Imaginemos, por exemplo, uma estrela (ponto de luz) irradiando em todas as direções. Seus raios percorrendo o espaço, a partir dela para o macroinfinito (macrouniverso). Tentemos imaginar o movimento oposto desses raios, em sentido ao microinfinito (microuniverso, o infinitesimal). Provavelmente, ao imaginar esse movimento retrocedente, a gente para no ponto de luz (a estrela). Eu não estou falando simplesmente de raios simétricos e externos em relação ao ponto de luz, no caso, a estrela. Refiro-me ao sentido interno do ponto de luz, quero dizer que precisamos projetar mentalmente (ou graficamente, talvez numericamente) o sentido do raio indo ao infinito pela via macroinfinita e sua volta ao microinfinito. Ou seja: imaginar que a luz da lâmpada que desligamos “nunca se apagaria”, em nenhum sentido: nem do ponto de iluminação para o macrouniverso, nem desse mesmo ponto para o microuniverso (o infinitesimal). Os raios simétricos levam a luz de sua fonte geradora para o infinito externo, mas aí temos o ponto de partida, o começo, portanto ainda não estamos falando propriamente de infinito (infinito não tem começo nem fim). Estaríamos tratando de um ponto num segmento de reta em direção ao macroinfinito, com suas partes simétricas no mesmo sentido. O que estou querendo é imaginar, por exemplo, a matéria (o universo material) expandindo-se eternamente, ao macroinfinito (macrouniverso), e comprimindo-se eternamente ao microinfinito (microuniverso). Em nenhuma dessas duas hipóteses ela alcançaria o tamanho máximo nem mínimo, ao ponto de se tornar o “tudo” ou o “nada”. Disso podemos deduzir que o “tudo” e o “nada” venham a ser equivalentes; se não, iguais; visto que a representação mental de um ou do outro implica conceituar o infinito. A meu ver, o maior engano do pensamento metafísico dos cientistas que tentam explicar a origem do universo através da Teoria do Big Bang consiste em falar de um suposto “espaço sem tempo”, “espaço-atemporal” equivalente ao “nada”. Creio que o “espaço sem o tempo” só pode ser concebido matematicamente, em geometria, considerando-o apenas uma especulação puramente artística, que não caberia dentro de si a presença, nem ao menos, de um ser imaginário. Quando a gente identifica que a Teoria do Big Bang considera o “espaço sem o tempo” antes da explosão do “átomo primordial”, e somente a partir desse fenômeno teria sido iniciado ao espaço-temporal, e ela solicita do leitor-estudante que tente colocar-se do lado de fora do universo para observar, através da imaginação, o momento da “explosão” e expansão do universo, solicita aí uma posição praticamente impossível até de se imaginar. Porque o “espaço sem tempo” e o “nada” têm, basicamente, a mesma “não-essência”, deles não se encontra qualquer parâmetro possível a uma lógica mesmo que imaginária, exceto a possibilidade de uma visão artística, planificada, como concebemos a imediata tridimensionalidade (altura, largura e profundidade) a que estamos acostumados a “tangenciar” com a alma. Porém, esse “tangenciar” é indissociável de uma intuição mais completa, pois implica sentir, o mais profundamente possível, a quadrimensionalidade einsteiniana. Podemos nos colocar em posição de observador dos aspectos interiores do universo conhecido. A observação exterior desse universo só seria possível através da imaginação caso se considere o espaço e o consequente tempo. (Precisa-se de muita imaginação para colocar-se no “nada”, simplesmente porque não podemos conceber o “nada”.) Como não temos como conceber, de forma ao menos metafísica, o infinito espacial e a eternidade em separados, não podemos assim estabelecer a origem do universo, a partir de qualquer teoria, fazendo malabarismos mentais para idealizar um “espaço sem tempo”, coisa impossível, pois todo espaço pressupõe o desenvolvimento de suas dimensões e consequente tempo para percorrê-las. Mesmo um segmento de reta (espaço unidimensional) evoca o tempo que se necessita para percorrê-la. Daí, podemos ter uma noção conceitual de infinito: Infinito é o espaço que necessita da Eternidade para ser totalmente percorrido. E Eternidade é o tempo necessário para se percorrer o Infinito. São inseparáveis. Se é infinito, qualquer ponto-espacial do Infinito é o seu começo e o seu fim ao mesmo tempo. Se é eterno, qualquer ponto-temporal (ou fração de segundo) da Eternidade é o seu começo e fim simultaneamente. Por isso conseguimos falar em perpetuidade como sendo aquilo que tem começo mas não tem fim, simplesmente porque estabelecemos um começo da infinitude, que é ao mesmo tempo começo e fim. (Perpétuo é aquilo que foi eternizado.) Portanto, se dividirmos o infinito-eterno ao meio, teremos dois infinitos-eternos, visto que, se imaginarmos um ponto, uma reta ou um plano e colocarmos qualquer um deles como representação da imaginária fronteira (espaço-cisão) do infinito-eterno, seria ele começo e fim concomitantemente. Basta que recapitulemos a questão dos raios simétricos que vão simultaneamente em direção ao macroinfinito (ou macrouniverso) e ao microinfinito (ou microuniverso), tendo como ponto de partida essa fronteira imaginária. (Talvez possamos, assim, sentir ou intuir, com maior profundeza, a dimensão espaço-temporal, de acordo com a quadrimensionalidade einsteiniana, mas sem qualquer implicação relativista submetida a conceitos da Mecânica clássica ou probabilística quântica. Apenas captando esta visão e sentimento imediatos de tridimensionalidade (altura, largura e profundidade) indissociada da transcursão do tempo.) O Universo Holográfico Dizem que cientistas do mundo inteiro andam pasmados com a idéia de que viveríamos num universo holográfico – o universo seria um infinito holograma –. Isso realmente tem fundamento. Diante do exemplo da imaginária divisão do infinito-eterno, teorizando que, ao dividir o infinito-eterno, obtemos dois infinitos-eternos, podemos verificar que, se continuarmos dividindo esses infinitos-eternos, em progressão geométrica, obteremos um infinito número de infinitos-eternos. Esta é a característica fundamental do holograma: cada parte contém o todo. O mistério persiste apenas em determinar a fronteira imaginária entre as partes. O que foi feito neste texto: “Portanto, se dividirmos o infinito-eterno ao meio, teremos dois infinitos-eternos, visto que, se imaginarmos um ponto, uma reta ou um plano e colocarmos qualquer um deles como representação da imaginária fronteira (espaço-cisão) do infinito-eterno, seria ele começo e fim concomitantemente. Basta que recapitulemos a questão dos raios simétricos que vão simultaneamente em direção ao macroinfinito (ou macrouniverso) e ao microinfinito (ou microuniverso), tendo como ponto de partida essa fronteira imaginária.” [16º parágrafo] Agora, ao analisarmos a representação gráfica de um holograma, precisamos pensar nele com o sentimento, intuição, de um espaço quadrimensional (sentimento espacial-temporal). Quero dizer: imaginando o movimento a partir de uma das infinitas partes para outra de forma quadrimensional. Temos, então, como imaginar a passagem de uma dimensão cósmica para outra. (Até aqui, minhas explanações e conceitos só se enquadrariam numa visão e sentimento de cunho artístico-geométrico, entretanto os formulei com o propósito que estou de teologar daqui em diante.) O homem à semelhança de Deus Deus não é apenas essencialmente bom, ou o Bem, conforme entendemos essas palavras, ou de acordo com os significados que lhes atribuímos a nosso bel-prazer. Deus está acima do Bem e do Mal. Acontece que, entre nós, quando dizemos que alguém está acima do bem e do mal, queremos dizer que esse alguém é a personificação da arbitrariedade, com as inevitáveis associações ao que é violentamente despótico, atendente a interesses de caprichos pessoais. Porém, em se referindo a Deus como um ser acima do Bem e do Mal, quero dizer que Deus é perfeitamente justo, que a Justiça Divina não se limita a conceitos de bem ou mal, bom ou mau, certo ou errado, de acordo com os nossos interesses imediatos. Deus – não personificado – é a essência da própria Justiça Divina, e esta responde por todas as demais qualificações de Deus: onipresença, onisciência e onipotência. A nossa própria consciência é, por natureza, o repositório da Justiça Divina, entretanto ela é apenas uma entre todas as faculdades humanas em fase evolutiva, tanto que a Psicanálise identifica subsistemas, ou departamentos, da nossa consciência. Porém, mesmo embotada por falsos juízos alicerçados em preconceitos – estes, por sua vez, frutos do nosso desejo individual, coisa muito natural –, essa consciência em evolução pode assimilar que aquilo que para a nossa individualidade é bom ou mau, é o bem ou o mal, o certo ou o errado, pode apresentar-se com sentidos invertidos em outros indivíduos, ou seja, em outras consciências. Isso me parece tão evidente que acredito ser desnecessário expressar qualquer tipo de exemplo. Somos a semelhança de Deus; não, iguais a Ele; apenas semelhantes porque caminhamos para a perfeição. E, graças à perfeição da Justiça Divina, nunca chegaremos lá, jamais seremos iguais a Deus. Ser igual a Deus seria descortinar o infinito (impossível), tendo, por assim dizer, vencido a eternidade (igualmente impossível). Seria o fim, seria a inércia total do processo evolutivo. Ponto final. A morte, no seu mais amplo sentido. Precisamos compreender que o melhor da luta não é a vitória, o melhor de qualquer luta que empreendemos é ela própria, a luta em si. Vida é luta constante, ininterrupta. A vitória representa apenas a dilatação momentânea do prazer, um prêmio fugaz, um orgasmo. Os passos de uma caminhada deveriam ser moderada e continuamente prazerosos. Inclusive os passos aparentemente dados à ré; aparente porque, em todos os sentidos, o movimento nos conduz ao infinito. Se pararmos com intenção de “meditar”, não estaremos propriamente estacionados, o ponto de parada, nesse caso, representa uma caminhada em direção ao microinfinito, ao infinitesimal. Paramos de contemplar o mundo exterior e nos voltamos para dentro de nós mesmos. Mas acho que não devemos, ainda muito jovem, nos enclausurar num mosteiro, numa caverna, ou reclusos no deserto ou no meio da mata, com o propósito de nos tornar ermitões, achando que assim seremos capazes de nos transformar em “sábios” gurus; mesmo que o faça com um computador interligado à internet e mantendo-se em interação ideológica com toda a Humanidade. Já disseram que o homem inteligente aprende com os próprios erros, e o sábio aprende com os erros dos outros. Acontece que ninguém nasce sapiente, mas apenas inteligente, com a inteligência, a faculdade de conhecer, compreender e aprender. Portanto a verdadeira sapiência só pode vir com a vivência, a experiência própria do indivíduo. Sábio, entendo aí um indivíduo com a postura de mero observador, seria apenas aquele que não repete, ou repete o mínimo de vezes, seus próprios erros e, com a consciência de tê-los cometido, consegue identificar, através de processo analógico, os erros que os outros cometeram em áreas distintas às de suas experiências diretas, pessoais; e assim evitá-los, se necessário e possível for. Deus personificado e Deus impessoal O Pai, aquele de quem Jesus falou, é Deus personificado, um ser que já encarnou sob todas as condições em que nós existimos – mesmo que tenha isso ocorrido em outro universo, que não seja este que conhecemos pelas vias dos básicos sentidos humanos –. O Pai e o próprio Jesus têm origem determinada, início, são perpétuos, eternizados. Vivem nos “universos holográficos” de acordo com os seus graus de evolução: a parte do holograma universal em que o Pai se encontra abrange a parte holográfica do Filho, o universo deste envolve os hologramas dos “santos”, dos espíritos relativamente muito evoluídos, até o holograma em que vivemos sob envoltório material denso. O encaixe dos “hologramas universais” é infinito, assim como os deuses personificados também o são; por isso mesmo (por ser infinita), essa personificação de Deus faz de cada parte o Todo, pois o Todo está unificado pelo Deus Impessoal: Causa primária de todas as coisas (realmente infinito e eterno), que emana da fronteira imaginária das infinitas partes holográficas e habita em toda a parte sob o conceito de Espírito Santo. Quando Jesus disse “Vós sois deuses”, não estava usando figura de linguagem, fazia referência ao grau de evolução de cada um de nós (hologramas autoconscientes). Transcrevo a seguir trecho do artigo de minha autoria intitulado “Deus crê em Deus que crê em Deus que crê em Deus...”: “Também o Pai a quem Jesus tantas vezes se referiu não é ‘a causa primária de todas as coisas’, mas, sim, a personificação de Deus, uma entidade em altíssimo grau de evolução, da qual Jesus é assessor direto para as questões referentes à humanidade terrena. ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém pode ir ao Pai senão por mim.’ João, 14 - 6. Quando Jesus afirmou ‘Eu e o Pai somos Um’, ele fazia referência à união entre as criaturas através do Espírito Santo (‘inteligência suprema, causa primária de todas as coisas’), o Deus eterno e infinito [a Justiça Divina], aquilo de que jamais desvendaremos o mistério de sua natureza íntima em toda extensão; do contrário, não seria eterno, infinito.” Onipresença, Onisciência e Onipotência dos deuses em evolução A chave da onisciência e da onipotência está na consciência da nossa relativa onipresença. Relativa inclusive para o Deus personificado Pai, para Deus-Jesus, para todos os deuses-“santos”, deuses-espíritos relativamente bem evoluídos, etc. Os supra-humanos, vivendo sob roupagem de matéria quintessenciada. Ser onipresente, na condição de ser humano, não é poder estar de corpo presente em todos os lugares, também não é a simples ação do fenômeno da ubiqüidade (isso também vale para um deus personificado, em qualquer grau evolutivo, até mesmo o Pai). Ser onipresente, para nós aqui na Terra, é respeitar o nosso semelhante (ou igual), é ter consciência de que não somos apenas indivíduos, mas que fazemos parte da Humanidade. Ser onipresente é ter consciência de que aquilo que faço aqui e agora repercute em todo lugar, sem limite preestabelecido, em todo o universo. É, por assim dizer, o “efeito borboleta” que não pode ser facilmente detectado, mas somente intuído. E as nossas ações, quando praticadas sob essa consciência de onipresença, podem nos imbuir de uma sensação de o quanto somos, igualmente de forma relativa, oniscientes, e, daí, aflorar a sensação de onipotência. Basta agora nos impregnar do sentimento de humildade, concluindo que nossa onipresença, tanto quanto a onisciência e onipotência, é relativa ao estado evolutivo de nossa consciência. Conscientes de onipresença são os africanos, que dizem: “Eu existo porque nós existimos”. E os “civilizados” foram lá ensinar religião a eles. E a nossa filosofia científica também foi lhes dizer: “Penso, logo existo”. Ora, as pedras não pensam, mas elas também existem. Talvez fosse mais racional pensar e dizer: “Penso, logo sei formular conceito de tudo que existe”, mesmo duvidando desses conceitos, ou, de preferência, sempre duvidando mesmo! Penso, logo sei formular conceito de tudo que existe ou provavelmente deve existir, inclusive sobre a existência de Deus. Já foi dito que se a Teoria do Big Bang, naquilo que diz respeito à origem do universo – não, à simples evolução – fosse um fato realmente comprovado, não teria mais um caráter especulativo, não seria mais simples teoria hipotética; mas, sim, um tratado científico incontestável, verdade absoluta que ninguém poderia chamar de absurda. Entretanto, com a “verdade absoluta”, estaríamos hoje trabalhando mecanicamente, apenas para observar os efeitos do Big Bang e preparar a “lavoura” contra ou a favor de tais efeitos. Não precisaríamos de cosmólogos estudando a origem (causa) do universo, mas apenas preocupados com a evolução, os efeitos. Seria um trabalho mecânico, tanto quanto trabalhar como operário numa linha de montagem industrial. Por que o homem de ciência precisa ter fé na Ciência? Porque aquilo que a Ciência ainda não revelou é o que faz ela própria se mover. Não é o que temos cientificamente provado que move a ciência. Os louros das vitórias vão ficando pra trás, e os cheques de Prêmio Nobel muitas vezes são empregados para dar continuidade à luta. Aquilo que a Ciência ainda não conseguiu provar ou alcançar é o que realmente a estimula. Por que precisamos ter fé na existência de Deus? Porque a verdade absoluta (a certeza: conhecimento perfeito e indiscutível) sobre a sua origem e existência faria de nós “deuses perfeitos”, completos, seria o fim, A fé, portanto, não impõe dogmas; pelo contrário, a fé nos conduz à busca da compreensão do que seja Deus, e isso se traduz apenas em atividade intelectual, não em heresia ou ateísmo. E só temos como assimilar, de forma um pouco mais evidente, aquilo que venha a ser Deus Personificado, que se manifesta na nossa consciência em evolução. E devemos simplesmente referenciá-lo com devido respeito, sem necessidade de adoração fanática, respeito que devemos ter uns com os outros, imbuídos da consciência de que “Eu existo porque nós existimos”, Essa é a mesma reverência que devemos a Deus Impessoal, a Justiça Divina, Inteligência Suprema, Causa primária de todas as coisas (Átomo Primordial), o Infinito e o Eterno (infinito-eterno), pois Este também não exige de nós qualquer postura de adoração, mas tão-somente de compreensão intuitiva de sua existêcia, para que nos sintamos, cada vez mais, à sua semelhança. *** PS: O filme Matrix só me surpreendeu com uma frase. Foi quando um personagem, observando outro em outra dimensão, falou preocupado: “Ele está começando a acreditar” (mais ou menos isso). Quase caí da cadeira! Autor: Fernando Soares Campos |
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Há determinadas mensagens que, de tão interessante, não precisam nem sequer de comentários. Como esta que recebi recentemente. Li em uma revista um artigo no qual jovens executivos davam receitas simples e práticas para qualquer um ficar rico. Aprendi, por exemplo, que se tivesse E assim por diante. Impressionado, peguei um papel e comecei a fazer contas. Para minha surpresa, descobri que hoje poderia estar milionário. Bastaria não ter tomado as caipirinhas que tomei, não ter feito muitas viagens que fiz, não ter comprado algumas das roupas caras que comprei. Principalmente, não ter desperdiçado meu dinheiro em itens supérfluos e descartáveis. Ao concluir os cálculos, percebi que hoje poderia ter quase 500 mil reais na minha conta bancária. É claro que não tenho este dinheiro. Mas, se tivesse, sabe o que este dinheiro me permitiria fazer? Viajar, comprar roupas caras, me esbaldar em itens supérfluos e descartáveis, comer todas as pizzas que quisesse e tomar cafezinhos à vontade. Por isso, me sinto muito feliz em ser pobre. Gastei meu dinheiro por prazer e com prazer. E recomendo aos jovens e brilhantes executivos que façam a mesma coisa que fiz. Caso contrário, chegarão aos 61 anos com uma montanha de dinheiro, mas sem ter vivido a vida. "Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim ele saberá o VALOR das coisas e não o seu PREÇO" Que tal um cafezinho? Autor: Max Gehringer |
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Assistir a um espetáculo teatral deve proporcionar ao espectador o prazer de uma vivência milenar única e profunda. O teatro, esse ritual elementar da espécie humana, possui, tal como as outras artes, uma linguagem com características particulares e traços distintivos próprios. Sua especificidade é a representação: os atores representam personagens, o palco representa o espaço onde se desenrola a ação, os objetos presentes no palco representam objetos muitas vezes similares aos existentes na vida real ou na imaginação de um determinado grupo social. Consequentemente, tudo o que surge aos olhos do espectador sintetiza a busca impetrada pelo grupo de atores, diretor e técnicos, com o objetivo de criar uma representação utilizando todas as variantes e as possíveis combinações que a riqueza e a maleabilidade da linguagem teatral permitem. E se cada componente da encenação - do menor gesto ou objeto de cena ao cenário mais grandioso - representa "alguma coisa", cada um deles aparecerá frente ao público carregado de significação, estimulando uma forma de leitura apoiada, de um lado, na montagem dos elementos cênicos e na ênfase intencionalmente colocada nos diversos signos do discurso gestual, que almejam a comunicação; e de outro, nas relações entre a organização deliberada dos elementos constitutivos do espetáculo e a realidade sócio-cultural, na qual público e atores estão inseridos. A compreensão e a assimilação gradativa dos significados produzidos pela montagem e combinados na ação dramática, suscitam o prazer da descoberta e da vivência lúdica, e tornam o público um participante ativo que aprimora a sensibilidade e exercita o raciocínio - independentemente de sua inclusão física nas ações cênicas, pois a sua participação pode se caracterizar também por uma determinada postura frente à obra. Cada elemento desempenhará uma função fundamental na construção do "Gestus" total da obra - segundo Brecht, a "expressão mímica e conceitual das relações sociais existentes entre os homens de uma determinada época". Ao contrário do cinema ou da televisão, no teatro o público vê e observa tudo ao mesmo tempo, e relaciona o conjunto de imagens vivas mostradas em cena. A partir de suas próprias experiências e das referências culturais específicas da comunidade a que pertence, ele irá considerar e reconhecer as vivências sociais mostradas no palco. É claro que sempre haverá a possibilidade de se quebrar os padrões existentes e apontar novos caminhos, exigindo-se um pouco mais do público. A convivência intensa e direta entre ator e público, reunidos para a prática do exercício vivo da comunicação, aprofunda o caráter prazeroso, humano e social de uma representação. Talvez resida exatamente aí a complexidade do fenômeno teatral, que inclui os atores - empenhados numa intensa "produção de sentidos" por meio de uma linguagem viva que abarca todos os matizes do comportamento humano - e o público, envolvido na leitura e na decodificação desta realidade lúdica intensa e fugaz, e compactuando ativamente com o puro prazer de jogar, compreender e descobrir. O bom teatro será sempre uma experiência estética marcante. |
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Em meados dos anos 1990 (infelizmente não lembro precisamente mês e ano), fui convidado a participar da composição de uma mesa de debate no Seminário Arquidiocesano São José, localizado no bairro do Rio Comprido, aqui no Rio de Janeiro. O tema se reportava aos diversos conceitos de Céu e Inferno, conforme as orientações de religiões diversas. A plateia era composta de seminaristas, leigos católicos e convidados especiais. Os integrantes da mesa deveriam se posicionar como representantes de credos religiosos ou simplesmente praticantes de tal ou qual doutrina religiosa. Também participou um notável professor do Instituto, o qual se declarava ateu. Estavam ali representantes do Candomblé, do Evangelismo Protestante, da Igreja Católica (evangelismo católico) do Ateísmo e eu, estudante da Doutrina Espírita. E na condição de mediador, um seminarista, destacado líder estudantil do Seminário Arquidiocesano São José. Representando a Igreja Católica, ninguém menos que Dom Estêvão Bettencourt, teólogo, professor do Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro. O evento representava, simbolicamente, a última aula do curso de Teologia para a turma de seminaristas que se graduavam naquele ano. Ao ser convidado para participar do evento, imaginei que, no mundo “avançado” em que nos encontrávamos alunos de cursos de Teologia já haveriam de ter tido acesso a todas as visões de Céu e Inferno pregadas por todas as doutrinas religiosas do mundo. Principalmente pelas mais ativas em território nacional. Ledo engano. Ali, pude deduzir, em vista das perguntas que vieram da plateia, que ignoravam tudo, tudo mesmo, sobre os conceitos da Doutrina Espírita e das outras religiões. Pelo visto, ali o ensino se resumia aos dogmas da Igreja Católica. E os efeitos da função cognitiva do ser humano estariam submetidos simplesmente à aceitação de uma fé cega. (O Espiritismo orienta seus seguidores estimulando-lhes a fé fundamentada em argumentos científico-filosóficos, sobrepondo a lógica à mera emotividade.) Dom Estêvão Bettencourt foi o primeiro a expor noção do que a Igreja Católica prega sobre o que venha a ser o Céu e o Inferno. E eu esperava que, a esse respeito, ele discorresse sobre duas regiões bem definidas, para onde iriam todas as almas depois da morte do corpo físico. Cada uma sendo admitida em ambiente próprio ao seu merecimento: as virtuosas para um lado, as pecadoras para o outro, de maneira definitiva, para todo o sempre; conforme me fora ensinado quando criança, na Cruzada Infantil. Mas eis que o eminente sacerdote católico me surpreendeu. Falou de Céu e Inferno como sendo resultado de profundas impressões que o espírito leva na consciência, a qual, depois da passagem para dimensões quintessenciadas (com a morte do corpo carnal), não mais possuía o material denso para encobrir ou dissimular os verdadeiros valores morais que alimentou enquanto encarnada. Naquele estado, o espírito, ou alma, na mais perfeita liberdade de consciência sobre si mesmo e seus atos, seria o seu próprio e único juiz, impondo-se sentimentos de culpa e consequentes remorsos que o levariam a sofrer atrozes dores morais que conseguira evitar na existência terrena; ou, no caso dos que bem procederam durante sua estada na Terra, se rejubilaria entre os justos, aqueles que lhe antecederam na passagem para o Além. “Ora! – pensei – Mas esse é, basicamente, o conceito de Céu e Inferno de acordo com os princípios doutrinários do Espiritismo.” Em momento algum Dom Estêvão se referiu a Lúcifer e suas falanges espetando tridentes nas nádegas dos pecadores que teriam sido condenadas a viver em regiões infernais bem definidas. Nada de caldeirões ou lagos de enxofre fervente, não falou de monstruosas criaturas do tipo lobisomem torturando a pobre alma por toda a eternidade. Porém, se na explanação de Dom Estêvão identifiquei aparente concordância entre a visão espírita e católica sobre o destino das almas desencarnadas, o mesmo não aconteceu quando fomos questionados a respeito da criação do ser humano, da reencarnação versus ressurreição e comunicação com os “mortos”. Conforme a religião católica, o ser humano nasce para uma única existência; a alma seria criada no momento da concepção do corpo e o animaria para jornada única na Terra: nascimento, vida e morte. Depois disso, aguardaria o dia do juízo final, com a ressurreição dos mortos – na oração “O Credo”, os católicos professam a crença na “ressurreição da carne”. (O problema é quando a gente questiona o porquê de tanta gente nascer saudável, com o corpo em perfeita conformação, algumas externando, ainda em tenra idade, desenvolvido grau de inteligência; enquanto outras nascem com deformações físicas e profundas dificuldades para exteriorizar de forma compreensível o produto de suas funções mentais.) De acordo com a doutrina dos espíritos, o espírito se formaria em milenar desenvolvimento, originando-se embrionário no reino mineral, passado por estágios de evolução no reino vegetal e animal, até encarnar em corpo hominal, simples e ignorante; a partir daí iniciando jornada evolutiva, agora consciente de sua própria individualidade. As multirreencarnações teriam como objetivo o autoaperfeiçoamento, até quando não mais necessitasse da roupagem carnal, passando a viver em corpo de matéria mais sutil, quintessenciada, mas ainda submetido a processo evolutivo.
Em cada reencarnação, o esquecimento das reencarnações anteriores seria estabelecido por natural dispositivo, a fim de que o espírito não se perturbasse com as reminiscências do passado. Transcrevo abaixo trecho do livro “Nosso Lar”, colônia espiritual levada às telas de cinema, atualmente em cartaz em todo o Brasil, sob o mesmo título do livro psicografado por Francisco Cândido Xavier e ditado pelo espírito André Luiz. Dois espíritos desencarnados, vivendo na colônia, dialogam, e um deles explica para o outro: “...antes de tudo, é indispensável nos despojarmos das impressões físicas. As escamas da inferioridade são muito fortes. É preciso grande equilíbrio para podermos recordar, edificando. Em geral, todos temos erros clamorosos, nos ciclos da vida eterna. Quem lembra o crime cometido costuma considerar-se o mais desventurado do Universo; e quem recorda o crime de que foi vítima, considera-se em conta de infeliz, do mesmo modo. Portanto, somente a alma, muito segura de si, recebe tais atributos como realização espontânea. As demais são devidamente controladas no domínio das reminiscências, e, se tentam burlar esse dispositivo da lei, não raro tendem ao desequilíbrio e à loucura.”) A certa altura, o debate se polarizou entre mim e Dom Estêvão; à época, declarado inimigo do Espiritismo, autor de pequena obra que denota contundente manifesto contra a chamada Codificação Kardequiana, a base da Doutrina dos Espíritos. Notando que a plateia se empolgava e parecia querer se esclarecer mais e mais sobre os conceitos espíritas, Dom Estevão, certamente incomodado devido a que a maior parte das perguntas era encaminhada a mim, alertou: “Não é porque um sopro de lógica acena para a nossa mente que devemos aceitá-lo como expressão da verdade”. Lógico! Até porque “um sopro de lógica” não pode ser de imediato aceito como lógica plenamente desenvolvida. Mesmo assim, é preferível acompanhá-lo, analisando-o com racionais critérios, a fechar a mente sob a ditadura de um dogma qualquer. A campanha de ateus e agnósticos no Brasil Em Porto Alegre, RS, e Salvador, BA, foi deflagrada campanha publicitária institucional, com o uso de outdoors, patrocinada pelos membros da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA), que declaram ter o propósito de combater o preconceito e discriminação que supostamente sofrem por parte de religiosos. Um dos cartazes mais utilizados pelos ateus que aderiram à campanha na internet veicula a frase “Religião não define caráter”. Certamente um explícito sofisma (argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa – Houaiss) tomado como verdade absoluta. O caráter de uma pessoa é moldado sob inúmeros fatores; circunstâncias e comportamentos que, adquirindo características de hábitos ou viciações, podem consolidar ou alterar as características morais dos indivíduos, aquelas que lhe são doutrinadas ainda na infância ou adolescência. O livre-arbítrio lhe faculta escolher os caminhos. A família, a escola, as amizades, a política, as filosofias, as religiões... tudo isso e muito mais, principalmente sua solidão espiritual, aliada, inclusive, a fatores biológicos, constituem a forja de um caráter bom, mau ou intermediário (refiro-me às nuances). Talvez a frase mais adequada para a campanha da ATEA teria sido “Religião não é o único fator que define o caráter”. Igualmente óbvia, mas um tanto distanciada de conotação sofista. Observadores afirmam que a ATEA decidiu-se pela campanha a partir das declarações de um apresentador de televisão, o Datena, da Band, que no seu programa “Brasil Urgente”, teria declarado: "- Olha, eu continuo dizendo que eu acredito que as pessoas que estão comigo, me assistindo há tanto tempo (12, 13, anos) fazendo esse tipo de jornal, eu acredito que as pessoas comunguem da mesma crença que eu: deus. Não importa se você é judeu, se você é muçulmano, se você é católico, se você é evangélico, vocês acreditam em deus. Eu parto dessa pressuposição. Quem não acredita em deus não precisa me assistir não, gente. Quem é ateu não precisa me assistir, não. Mas se eu fizer uma pesquisa aqui se você acredita em deus ou não é capaz de aparecer gente que não acredita em deus. Porque não é possível, cada caso que eu vejo aqui é gente que não tem limite, é gente que já esqueceu que deus existe, que deus fez o mundo e coordena o mundo. É gente que não acredita no inferno...” (...) Mais adiante reafirmou: “Eu não faço questão NENHUMA de que ateu assista o meu programa. Nenhuma. Agora, quem acredita em deus, seja evangélico, seja muçulmano, seja judeu, seja católico, qualquer religião, entendeu, de quem acredita em deus, continue comigo.” Datena estava totalmente focado na audiência do seu programa, nada mais que isso, num país de muitos por cento de religiosos cristãos. Uma estupidez, a atitude do apresentador. E ele conclui: “Se você não acredita em deus, nunca matou ninguém, nunca fez mal pra ninguém, muito bem, parabéns. Mas quem mata com crueldade, quem enterra vivo, quem estupra, quem violenta criança, também não acredita em deus. Não acredita. Pode até falar que acredita mas não acredita. Entendeu?” Se tiver paciência para ler tudo, acesse a página através deste link: http://www.atea.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=192:datena-e-os-ateus&catid=923:dia-a-dia&Itemid=104 Fóruns de debate A campanha da ATEA desencadeou o debate em diversas páginas da internet. Participei de um desses via e-mail. A matéria me chegou através de um dos correspondentes de minha lista, distribuída com os endereços em aberto (c/c). Respondi (a todos) expondo o que achava daquilo. Daí em diante cerca de 30 mensagens se relacionaram à original, expressando-se em proveitoso debate. Mas eis que, entre os debatedores, alguém postou a seguinte mensagem: “Por favor, não confundir ateus (que são pessoas normais que simplesmente não acreditam em Deus) com neo-ateus, que são uma seita de intolerantes bancadas pelo tio Sam. Não tenho nada contra ateus, mas tenho TUDO CONTRA NEO-ATEUS.” Foi o suficiente para um ateu que participava das discussões ironizar: “Nossa.. neo-ateus financiados pelos EUA para espalhar o caos pelo mundo! E olha que eu acredito em teorias da conspiração...” Agradeci a informação do mensageiro que trata de supostos “neo-ateus”, insinuando que seriam eles os tais membros da ATEA, e comentei com o segundo: “...pelo tom e cor de sua mensagem, você acredita naquilo que lhe convém. Inclusive quando se tratar de teoria da conspiração. Esse aí não seria o único elemento para se estabelecer o caos (na verdade se estabelecer o domínio mais acentuado), são muitos, e o desespero não escolhe caminhos ponderadamente, mas o que estiver ao alcance. Não faz muitos anos, os poderosos ianques deflagraram campanha contra os católicos. O Brasil é um país eminentemente católico, não é de espantar que se utilizem de meios como esse ou de falsos religiosos, a quem eles dão guarida já faz algum tempo. Ou você acredita que aqueles [brasileiros] que foram "presos" nos Estados Unidos, acusados de entrarem no país com dinheiro não declarado, foram vítimas da orientação ideológica dos poderosos da nação americana? Não, nada disso, eles foram tão-somente vítimas incidentais de funcionários da Alfândega, só, nada mais. Mas o tratamento dado a eles não foi o mesmo que se dá a pés-de-chinelo que tentam entrar no ‘paraíso’ ilegalmente.” Ainda nos anos 1990, testemunhei que um professor ateu era membro do corpo docente do Instituto Arquidiocesano do Rio de Janeiro. Fica difícil acreditar que num país como este exista discriminação sistemática contra ateus e agnósticos. O que ocorre aqui é o mesmo que acontece em todo o mundo: existem pessoas que interpretam muito mal os preceitos religiosos e códigos políticos. Gente, as mais das vezes, intolerante. A Inquisição se foi, Portugal foi o último país europeu a abolir a ditadura inquisitorial. Lá pelo século XVIII, o Marquês de Pombal, então ministro com livres poderes, influenciou na redução dos poderes do Santo Ofício. Não podemos nem devemos esquecer as barbaridades cometidas pela Santa Inquisição, mas isso é hoje apenas parte da História; mesmo assim, a propósito da campanha dos ateus e agnósticos, muita gente deitou falação evocando o que foi a Igreja Católica. Talvez nem tanto quanto as ciências, mas filosofias e religiões também são dinâmicas. Foi o que pude deduzir da exposição de Dom Estêvão Bettencourt (setembro de 1919 – abril de 2008) no evento em que participei. Bom, a quem se dispôs a ler até aqui, eu agradeço e vou ficando cá com meus botões, a perguntar: Existem realmente muito mais coisas entre o Céu e o Inferno do que possa imaginar nossa vã filosofia? Autor: Fernando Soares Campos |
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Muito se afirma em nossos dias que as pessoas de maneira geral leem pouco ou nada. Não é o que se constata convivendo com jovens das mais diversas origens. Talvez o que esteja se transformando seja o significado da leitura e o prazer dela oriundo. Outra controvérsia atual seria a possibilidade da substituição gradativa dos livros impressos pelos livros digitalizados disponíveis na íntegra em portais para buscas on-line. Constato também que apesar de todas as polêmicas o livro impresso continua sendo um dos mais nobres objetos culturais, um símbolo de nossa memória e de nossa civilização. Sem dúvida mudaram as necessidades dos leitores habituados hoje com as novas tecnologias e as frases curtas predominantes nas redes sociais. E a leitura silenciosa, ainda considerada como uma das formas mais adequadas para a obtenção de conhecimentos e de informação, adquire novas dimensões e novos desdobramentos neste nosso mundo veloz e dotado de inúmeras possibilidades de intercâmbio cultural. Por outro lado, há sempre o risco do culto à superficialidade e, por conseguinte, de um vazio existencial que precisa ser abastecido ininterruptamente com novidades quase sempre fúteis, que anseia por uma satisfação de seus desejos cada vez mais rápida e mais sintonizada com as novas ofertas do mercado. Neste sentido, Theodor Adorno, sociólogo alemão, em 1959, cria um conceito - o semiculto - para tentar definir a formação cultural, num ensaio intitulado Theorie der Halbbildung (Teoria da semicultura). Ele fala sobre a modernidade que privilegia um indivíduo semiculto, que conhece um pouco de tudo, que se limita aos resumos e se orienta pela ambição. Adorno vê nisso um enorme perigo: "Compreender e saber pela metade não é uma etapa preliminar da cultura e sim um inimigo mortal desta: elementos culturais que cheguem à consciência sem pressuporem sua continuidade transformam-se em substâncias tóxicas malignas." Qual a saída? Para Adorno, só há uma: uma vida autodeterminada, através da reflexão crítica sobre a semicultura e sobre o semiconhecimento. O prazer da leitura está muito associado às vivências de experiências estéticas que nos conectam com o que de melhor foi produzido por nossa civilização e que reforçam nossa condição humana em meio a um mundo repleto de ameaças e perigos iminentes. Jorge Luis Borges considerava o livro uma extensão da memória e da imaginação. Para ele, a biblioteca - um local quase mágico povoado pela imaginação humana - seria a memória da humanidade. Em suas aulas aconselhava os alunos a não lerem críticas, e sim as próprias obras em questão. Talvez compreendam pouca coisa, dizia, mas sentirão um prazer único e estarão ouvindo a voz de alguém, já que cada autor tem a sua voz. É preciso considerar, contudo, que as mídias e as novas formas de comunicação se complementam e se otimizam mutuamente, modificando a inserção social dos objetos culturais, sua recepção e a produção de seus conteúdos, além de fazer frutificar novas linguagens artísticas. Neste contexto, a leitura seguirá sendo sempre uma "forma de felicidade". Autor: Erlon José Paschoal |
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Durante minha vida profissional, eu topei com algumas figuras cujo sucesso surpreende muita gente. Figuras sem um vistoso currículo acadêmico, sem um grande diferencial técnico, sem muito networking ou marketing pessoal. Figuras como o Raul. Eu conheço o Raul desde os tempos da faculdade. Na época, nós tínhamos um colega de classe, o Pena, que era um gênio. Na hora de fazer um trabalho em grupo, todos nós queríamos cair no grupo do Pena, porque o Pena fazia tudo sozinho. Ele escolhia o tema, pesquisava os livros, redigia muito bem e ainda desenhava a capa do trabalho - com tinta nanquim. Já o Raul nem dava palpite. Ficava ali num canto, dizendo que seu papel no grupo era um só, apoiar o Pena. Qualquer coisa que o Pena precisasse, o Raul já estava providenciando, antes que o Pena concluísse a frase. Deu no que deu. O Pena se formou em primeiro lugar na nossa turma. E o resto de nós passou meio na carona do Pena - que, além de nos dar uma colher de chá nos trabalhos, ainda permitia que a gente colasse dele nas provas. No dia da formatura, o diretor da escola chamou o Pena de 'paradigma do estudante que enobrece esta instituição de ensino'. E o Raul ali, na terceira fila, só aplaudindo. Dez anos depois, o Pena era a estrela da área de planejamento de uma multinacional. Brilhante como sempre, ele fazia admiráveis projeções estratégicas de cinco e dez anos.E quem era o chefe do Pena? O Raul. E como é que o Raul tinha conseguido chegar àquela posição? Ninguém na empresa sabia explicar direito. O Raul vivia repetindo que tinha subordinados melhores do que ele, e ninguém ali parecia discordar de tal afirmação. Além disso, o Raul continuava a fazer o que fazia na escola, ele apoiava. Quando conversou comigo, o Raul disse que havia ficado surpreso com o
convite. Porque, ali na matriz, o mais burrinho já tinha sido astronauta... Foi quando, num evento em São Paulo , eu conheci o Vice-presidente de recursos humanos da empresa do Raul. E ele me contou que o Raul tinha uma habilidade de valor inestimável:... ELE ENTENDIA DE GENTE! Entendia tanto que não se preocupava em ficar à sombra dos próprios subordinados para fazer com que eles se sentissem melhor, e fossem mais produtivos. E, para me explicar o Raul, o vice-presidente citou Samuel Butler, que eu
não sei ao certo quem foi, mas que tem uma frase ótima: "Qualquer tolo pode pintar um quadro, mas só um gênio consegue vendê-lo". Perto do Raul, todo comprador normal se sentia um expert e todo pintor comum, um gênio.Essa era a principal competência dele. "Há grandes Homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas, o verdadeiro Grande Homem é aquele que faz com que todos se sintam Grandes". Autor: Max Gehringer - CBN |
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É comum as pessoas se encantarem por outras que possuem características de personalidade que elas não têm e gostariam de ter. Só não sei se numa relação amorosa entre pessoas tão diferentes há espaço para uma vida a dois satisfatória. Quando um homem tímido e inseguro se casa com uma mulher extrovertida, falante, cheia de amigos, o que pode acontecer à vida deles? À primeira vista só coisas boas, claro. Ela possui o que falta a ele e, portanto, pode ajudá-lo a ser mais comunicativo, se soltar mais, conhecer mais pessoas. Um complementa o outro. Esse encaixe parece ser a solução perfeita. Além do tímido e da extrovertida, conhecemos também o decidido e a indecisa, o animado e a deprimida, o alienado e a sabetudo, a corajosa e o medroso, entre outros. Sem contar que existem várias outras diferenças sutis, difíceis de ser percebidas. Mas na maioria dos casos essa situação é bem mais complicada do que parece e surgem problemas. O primeiro deles é a acomodação. Ela impede o crescimento pessoal; o indeciso acaba deixando o outro resolver todas as questões que necessitem de decisão, não se empenhando para modificar o que não gosta em si próprio. Entretanto, há no amor entre duas pessoas muito diferentes um inconveniente mais sério e bastante comum: a inveja. Há quem diga até que a inveja nasce imediata e espontaneamente da admiração. Será que quando admiramos e nos encantamos tanto por alguém oposto a nós, estamos realmente satisfeitos com o que somos? O invejoso admira o invejado, desejaria estar em seu lugar, ser como ele é e não consegue. O pior é quando o invejoso, não suportando a sua própria inveja, passa a depreciar no outro, justamente os aspectos que gostaria de possuir. Ou então, o que também ocorre com frequência, sutilmente sabota as realizações do parceiro, numa tentativa desesperada de diminuir seu sentimento de inferioridade. Na fase do encantamento apaixonado a inveja não se manifesta, por mais diferentes que sejam as pessoas. O que elas vivenciam é a ilusão da fusão romântica, em que os dois se transformam num só. Nesse momento não se deseja nada do outro além do amor. Contudo, todos sabemos que esse período inicial de paixão não resiste à Autora: Regina Navarro Lins, psicanalista e sexóloga, é autora de O Livro de Ouro do Sexo (Ediouro). |
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Se eu tivesse que escolher uma palavra – apenas uma – para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas: descomplicar. Depois de infinitas (e imensas) conquistas, acho que está passando da hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós próprias, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho. Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos e merecemos ter. Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna. Amizade, por exemplo. Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia...) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano. E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodca de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes – isso, sim, faz bem para a pele. Para a alma, então, nem se fala. Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só uma boa amizade consegue proporcionar. E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulário duas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio. Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia – não importa – e a ficar em silêncio. Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir. Não há creme antiidade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia. Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada – faça qualquer coisa, mas ria. Quanto à palavra dieta, cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias. Deixe para discutir carboidratos e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista. Nas mesas de restaurantes, nem pensar. Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface e seu chá verde sozinha. Uma sugestão? Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza. Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada. Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir. Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia. E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida: sonhar e recomeçar. Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia, o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu. Sonhar é quase fazer acontecer. Sonhe até que aconteça. E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares. A vida nos dá um espaço de manobra: use-o para reinventar a si mesma. E, por último (agora, sim, encerrando), risque do seu Aurélio a palavra perfeição. O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades, inseguranças, limites. Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a esposa nota mil. Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni. Mulheres reais são mulheres imperfeitas. E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres. Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível. Autora: Leila Ferreira |
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Pretendo fazer mais uma viagem a Buenos Aires neste ano. Uma cidade que respira cultura como toda grande metrópole, apesar dos inúmeros problemas sociais vindos à tona depois da nebulosa crise econômica que assolou aquele país. Visitei certa vez como todos o fazem os famosos pontos turísticos daquela cidade, como Puerto Madero, Caminito, La Casa Rosada, o Teatro Colón e os bairros de San Telmo e Recoleta, este ainda marcado pela presença de um dos maiores escritores da literatura mundial: Jorge Luis Borges. Talvez por isso, a literatura e o teatro desempenham um papel importante na vida cultural daquela cidade, além do tango e de toda sua influência no universo popular de comportamentos e relações humanas. Contudo, a música clássica exerce também um poder de atração muito forte, sobretudo, entre os jovens. O que me faz lembrar da importância que a Ofes tem adquirido ao longo dos últimos anos no horizonte cultural do Espírito Santo. Na ocasião, tive a oportunidade de entrar em contato com vários jovens talentosos e predestinados para a música, e gostaria de reproduzir aqui um pouco do que ouvi de dois deles. Um foi o fagotista Diego Armengol. Ele começou a estudar fagote bem cedo. Primeiramente, chamou-lhe a atenção o instrumento curioso que ele tinha nas mãos. Perguntado a respeito, respondeu: "Depois de escutá-lo, me apaixonei pelo som. Certo dia, meu pai foi falar com meu professor e pediu-lhe para me tirar essa ideia da cabeça. Ele disse que o instrumento era muito caro. Mas continuei assim mesmo. Acho o som do fagote bastante sentimental, às vezes até mesmo engraçado. E é uma sensação tão forte tocá-lo diante do público... a gente expressa os próprios sentimentos, o que temos de mais profundo. Para mim, um bom instrumentista é aquele que está preparado tecnicamente para poder expressar seus sentimentos, de modo que os outros possam captá-lo". O outro se chamava Carlos Céspedes, um clarinetista considerado um grande virtuose. De origem humilde, Céspedes mostrou que mesmo com todas as dificuldades, a paixão, a disciplina, o prazer e a seriedade são fundamentais para se transpor quaisquer obstáculos. Ele já se apresentou em vários países tocando como solista junto com diversas orquestras. "Na minha casa, escutávamos muito o rádio. Por decisão de minha mãe, entrei na escola de música aos 8 anos. Eu gostava muito de ficar brincando na rua com meus amigos e no começo foi muito difícil para mim. Bem, minha mãe chegou na escola, viu uma lista de instrumentos e achou "clarinete" uma palavra muito bonita, e assim comecei a tocar clarinete... O que mais me fascina no ato de tocar é a entrega... tocar significa dar o melhor de si. É uma atitude de amor... é quando alguém dá o melhor de si para que os outros apreciem". Talvez seja assim para todas as coisas importantes da vida. Toda realização significativa e duradoura começa com um sonho, uma estranheza talvez, que aos poucos vai ganhando uma dimensão quase autônoma, quase incontrolável e praticamente irreversível. Caetano Veloso não deixou por menos e cantou: "Como é bom saber tocar um instrumento". A Gazeta |
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Só uma mulher consegue entender cada vírgula deste texto, mas os homens têm que ler para saber compreendê-las! Quando você TEM que ir ao banheiro público, você encontra uma fila de mulheres, que faz você pensar que o Bradd Pitt deve estar lá dentro. Você se resigna e espera, sorrindo para as outras mulheres que também estão com braços e pernas cruzados na posição oficial de "estou me mijando". Finalmente chega a sua vez, isso, se não entrar a típica mamãe com a menina que não pode mais se segurar. Você, então verifica cada cubículo por debaixo da porta para ver se há pernas. Todos estão ocupados. Finalmente, um se abre e você se lança em sua direção quase puxando a pessoa que está saindo. Você entra e percebe que o trinco não funciona (nunca funciona); não importa... você pendura a bolsa no gancho que há na porta e se não há gancho (quase nunca há gancho), você inspeciona a área.. o chão está cheio de líquidos não identificados e você não se atreve a deixar a bolsa ali, então você a pendura no pescoço enquanto observa como ela balança sob o teu corpo, sem contar que você é quase decapitada pela alça porque a bolsa está cheia de bugigangas que você foi enfiando lá dentro, a maioria das quais você não usa, mas que você guarda porque nunca se sabe... Mas, voltando à porta... Como
não tinha trinco, a única opção é
segurá-la com uma mão, enquanto, com a outra, abaixa
a calcinha com um puxão e se coloca "na posição".
Aí é quando os teus músculos começam a tremer [...] Porque você está suspensa no ar, com as pernas flexionadas e a calcinha cortando a circulação das pernas, o braço fazendo força contra a porta e uma bolsa de 5 kg pendurada no pescoço. Você adoraria sentar, mas não teve tempo de limpar o assento nem de cobrir o vaso com papel higiênico. No fundo, você acredita que nada vai acontecer, mas a voz de tua mãe ecoa na tua cabeça "jamais sente em um banheiro público!!!" e, assim, você mantém "a posição" com o tremor nas pernas... E, por um erro de cálculo na distância, um jato finíssimo salpica na tua própria bunda e molha até tuas meias!! Por sorte, não molha os sapatos. Adotar "a posição" requer grande concentração. Para tirar essa desgraça da cabeça, você procura o rolo de papel higiênico, maaassss, para variar, o rolo está vazio...! Então você pede aos céus para que, nos 5 kg de bugigangas que você carrega na bolsa, haja pelo menos um miserável lenço de papel. Mas, para procurar na bolsa, você tem que soltar a porta. Você pensa por um momento, mas não há opção... E, assim que você solta a porta, alguém a empurra e você tem que freiá-la com um movimento rápido e brusco enquanto grita OCUPAAADOOOO!!! Aí, você considera que todas as mulheres esperando lá fora ouviram o recado e você pode soltar a porta sem medo, pois ninguém tentará abri-la novamente (nisso, nós, as mulheres, nos respeitamos muito) e você pode procurar seu lenço sem angústia. Você gostaria de usar todos, mas quão valiosos são em casos similares e você guarda um, por via das dúvidas. Você então começa a contar os segundos que faltam para você sair dali, suando porque você está vestindo o casaco já que não há gancho na porta ou cabide para pendurá-lo. É incrível o calor que faz nestes lugares tão pequenos e nessa posição de força que parece que as coxas e panturrilhas vão explodir. Sem falar do soco que você levou da porta, a dor na nuca pela alça da bolsa, o suor que corre da testa, as pernas salpicadas... A lembrança de sua mãe, que estaria morrendo de vergonha se a visse assim, porque sua bunda nunca tocou o vaso de um banheiro público, porque, francamente, "você não sabe que doenças você pode pegar ali" [...] você está exausta. Ao ficar de pé você não sente mais as pernas. Você acomoda a roupa rapidíssimo e tira a alça da bolsa por cima da cabeça!.... Você, então, vai à pia lavar as mãos. Está tudo cheio de água, então você não pode soltar a bolsa nem por um segundo. Você a pendura em um ombro, e não sabendo como funciona a torneira automática, você a toca até que consegue fazer sair um filete de água fresca e estende a mão em busca de sabão. Você se lava na posição de corcunda de notre dame para não deixar a bolsa escorregar para baixo do filete de água... O secador, você nem usa. É um traste inútil, então você seca as mãos na roupa porque nem pensar usar o último lenço de papel que sobrou na bolsa para isso. Você então sai. Sorte se um pedaço de papel higiênico não tiver grudado no sapato e você sair arrastando-o, ou pior, a saia levantada, presa na meia-calça, que você teve que levantar à velocidade da luz, deixando tudo à mostra! Nesse momento, você vê o seu amigo que entrou e saiu do banheiro masculino e ainda teve tempo de sobra para ler um livro enquanto esperava por você. "Por que você demorou tanto?" Pergunta o idiota. Você
se limita a responder: "A fila estava enorme". Autora: Ana Cristina de Sá |
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