
POESIAS E CRÔNICAS
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GANHEI NA LOTERIA! Ganhei na loteria. Não foi nada o suficiente para dar um pontapé no traseiro do imprestável do meu cunhado e o expulsasse da minha casa, ou de largar ele, a irmã dele, minha sogra e os outros sanguessugas que vivem sob as minhas expensas. Nada disso! Para meu pesar, foi apenas um prêmio bom, mas não dava para começar uma vida nova ao lado de nenhuma modelo. O suficiente para comprar um carro popular. Mas que besta seria eu se fizesse isso! Certamente o cunhado convenceria minha esposa a ficar com o carro (que logicamente ele dirigiria), eu continuaria com o meu carro velho e teria as despesas adicionais de combustível, taxas e o que é pior: as multas. Não! Certamente, carro nem pensar! Reuni a família na sala de casa para discutirmos o melhor destino para o dinheiro. Bem que desejava que fossem apenas os titulares da casa, mas até o cachorro deitou no tapete. Em rápidas palavras, contei que havia recebido uma certa quantia e desejava saber a opinião de todos quanto ao destino do dinheiro. O
primeiro a falar foi o namorado da minha filha: Tenho
certeza que o meu olhar perfurou os olhos do atrevido. Mesmo assim,
não pude deixar de colocar minhas convicções em
pauta: Não quero ser um pai retrógrado, mas a garota só tem quinze anos! E já tem brinco em tudo quanto é parte do corpo! Mais
que tentando mudar de assunto, minha esposa mandou sua sugestão: Minha sogra resmungou algo como: "Tá vendo? Eu não disse que ele reclama de eu estar aqui?" Minha
filha mandou pesado: - O implante de silicone eu já falei: estou juntando o dinheiro para um dos peitos. Depois de três anos juntando mais dinheiro, a gente coloca o outro... Começou
o bate-boca de sempre, que eu era um imprestável, um desalmado
e aquelas outras abobrinhas que sempre ouço, até que,
meu cunhado, em um lampejo de lucidez, sentenciou: A algazarra se estabeleceu. Enquanto minha filha e o namorado pulavam, gritando "piscina, piscina", minha sogra deu um beijo na testa do meu cunhado, meu filho caçula ficou pulando no sofá e o cachorro rodava atrás do rabo, estragando o tapete. Meu cunhado ficou encarregado da construção. Eu bem que fui totalmente contra a idéia, mas sou voto vencido em minha casa. Contratou um grupo de cachaceiros e começaram a cavar. Apenas para encurtar a história, dois meses e quinze mil reais depois, mais exatamente esse fim de semana, inauguramos a piscina. Não sou muito entendido no assunto, mas é a piscina mais horrorosa que já vi. É bem pequena, com horrorosos ladrilhos coloridos. Não tem nada daquelas lajotas azuis ou brancas. São diversas lajotas com o escudo do flamengo, que é o time do meu cunhado. Em volta da piscina, no "deck", ou melhor "déqui" como ele diz, são metros e metros de lajotas lisas com o escudo do Flamengo. Resultado: ninguém pára de pé à beira da piscina. Se é que posso chamar aquela porcaria de piscina. Sexta à noite, depois do trabalho, passei no açougue e comprei carne para um churrasco de inauguração do nosso parque aquático, como diz minha sogra. Será que ninguém percebeu que a piscina é do tamanho de uma banheira? Sábado,
seis da manhã começaram a bater no portão. Tocaram
a campainha, mas não está funcionando. Meio sonolento,
atendi. Ao abrir o portão, quase caí para trás.
Um mundo de gente me empurrando: Eu não conhecia ninguém ali... já foram entrando e se alojando. Ao menos, alguns trouxeram cadeiras de praia. TABUF! O primeiro escorregão. Era uma senhora enorme de gorda. O ladrilho rachou onde ela caiu. Uma mulher toda emporcalhada de um óleo avermelhado foi ajudá-la a levantar e também caiu. Uma criança com uma câmara de ar de pneu de caminhão pulou na água. Coloquei a mão na cabeça e tive uma idéia. Sorrateiramente, fui até o canil e soltei o cachorro. Esperava que ele mordesse ao menos um. TABUF! Escutei enquanto caminhava para os fundos da casa. Soltei o cachorro e fiquei aguardando sorridente os gritos que coroariam minha vitória. TABUF! Outro tombo... Os
gritos continuavam, mas nada de pânico. Fui conferir e o desgraçado
do cachorro estava nadando na piscina, junto com o povaréu. Resolvido, dirigi-me à casa. Quem tivesse convidado aquele pessoal teria que os colocar para fora. Passei por uma turma na cozinha, preparando sanduíches. Fui direto ao quarto, chamar minha esposa. Ela não estava. Entrei no quarto da minha filha para perguntar pela mãe e encontrei o asqueroso do namorado dela deitado na cama. Ela também não estava. Dei um tapa na cabeça do sujeito e mandei que ele ralasse dali. Abri a porta do quarto da minha sogra no exato momento em que ela jogava os pés para o alto, tentando entrar em um maiô pelo menos uns quatro números menor que o dela. O que vi? Nossa! Só de lembrar me arrepio todo! Foi a visão do inferno! Era algo assim como um misto de barriga, bunda, celulites, duas enormes tetas e muitas varizes. Nada arrumado, se é que me entendem. Ah! E um umbigo enooorme. Certamente era do tamanho da piscina. Fiquei estático na porta. O terror foi tamanho que o sangue congelou nas minhas artérias. Não conseguia me mexer. Não sei como ela interpretou minha atitude, de ficar ali parado, mas certamente não condizia com a realidade. Me
jogou alguma coisa que estava na cabeceira da cama e ficou gritando:
Só nesse momento me dei conta da multidão que circulava pela casa. Um garotinho coberto de óleo e terra, com a mão entre as pernas mijava no canto da parede da sala. Segurei
o garoto pelos ombros: Com a cara assustada ele fez que não. Nem deu tempo de saber não o quê. Um sujeito de uns dois metros de altura encostou no mesmo canto e começou a urinar. Aquilo
era demais. Resolvi ir embora de casa. Entrei no quarto e comecei a
fazer as malas. Não importava para onde iria. Só queria
sair dali. Perdi um tempão procurando as chaves do carro, até
que a mulher entrou e avisou: Lá
fora, agora ouvia um pandeiro e um coro de vozes desafinadas: Peguei as malas e sentei na calçada, enquanto esperava o cunhado chegar com o carro. A cada momento chegava uma nova cara. Do lado de dentro do muro, só um som me aprazia: TABUF! A noite começou a cair e meu cunhado não chegava. Entrei para ligar para a polícia e dar queixa do roubo do carro, mas havia alguém pendurado no telefone: -
É! Uma festa! Na piscina, na casa do Filé... O pessoal na fila também reclamou. Fila? Foi só aí que eu percebi que tinha fila pro telefone. O
cheiro de urina na sala estava insuportável. Autor
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