POESIAS E CRÔNICAS

REFLEXÕES DE UM CEGO TEMPORÁRIO

(Escritas no primeiro mês após a cirurgia de descolamento de retina.  Às escondidas)

Será que faz sentido dez anos depois?

... mas eu também canto

Num mundo onde se colocam em primeiro lugar o apelo visual estimulado por veículos de comunicação; de pratos decorados para serem comidos primeiro com os olhos e depois degustados; de flores híbridas de cores e formas modificadas, e por que não, elaboradas em computadores? De capuchinhas que primeiro enfeitam e depois degustadas... se já fica difícil para quem dispõe de todos os sentidos assimilar, imagine quem está cego há mais de 20 anos, de repente deparar-se com um vaso de crisântemo ou de violeta modificados geneticamente: teria que desenvolver a 3 a visão.

A noite quase se fazia em mim para sempre. A única janela ameaçava fechar-se. Sentia-me personagem do romance Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. A retina descolava-se aos poucos, o tempo dizia que não dava tempo. A força e o carinho dos familiares e amigos eram o mais valioso colírio. Todos os especialistas estavam participando de um congresso em outra capital. Graças também ao avanço da medicina o socorro chegou a tempo, e eu fui operado dia 24/5/99.

Enquanto me recuperava da cirurgia, as orquídeas traíam-me começando a florir. Laura dizia-me da beleza e trazia-me o seu perfume. Alguns colegas de literatura acorreram, outros afastaram-se (os cegos tem a percepção aguçada). Claro que todos tem seus afazeres, mas quando se está doente, até um papo chato dos mais reclamões dos amigos faz falta.

Enquanto permaneceu minha noite parcial (a retina foi colada, mas a recuperação é muito lenta), muita coisa boa e ruim aconteceram. A boa eu conto: chama-se Ronaldo Cagiano, e por ele Ricardo Justino, que ajudaram na elaboração e remessa de um roteiro cinematográfico para um concurso. Na revisão, contei com a ajuda, além do Cagiano, de João Bosco, um velho amigo, e Rossana, minha filha. O trabalho adquiriu um outro sabor. De olho literalmente fechado, eu ditava as imagens que fluíam mais vivas e movimentadas, que eu as estivesse digitando. Se não ganhar o concurso (não ganhei), terei como ganho a experiência e a certeza de que saberei enfrentar com mais prazer e bom humor o que virá no futuro.

(Percebi, após alguns meses que equivocara-me na interpretação do regulamento. As cenas deveriam ser numeradas.)

Comer com os olhos
Nos primeiros dias, a Laura colocava o alimento na minha boca. Eu achava ruim, por estar quase sempre muito quente, mas não podia nem deveria reclamar. Até ela entender minha exigência de colocar cada coisa num lugar do prato. O arroz, o feijão, a carne, os legumes. Sempre que Laura fazia meu prato, eu tinha que avisar: não como feijão à noite, gosto de peixe com arroz branco e um legume ou uma salada apenas. Não suporto sal, vinagre e azeite em alface e tomate. Ela adora temperar salada.

Arroz
Descobri que é meu prato preferido. Queria "vê-lo" em destaque. Quando misturado, comia-o sem perceber. Até que um dia avisei: hoje, quero arroz e ovo frito, nada mais. Tinha que ser meio duro como o que faço, segundo a Laura, o arroz da avó Silvéria. (ao dente)

À tarde, ou curtia uma fomezinha danada (quando a Laura não estava para adivinhar) até o jantar, ou pedia um mingau de Maizena, finalmente arriscava-me a fazê-lo. Ontem eu mesmo fiz o café: ficou um melado.

Esbarros e cabeçadas
Nos primeiros dias após a cirurgia, achei que poderia ser independente e meti a testa na parede; outro dia acertei o nariz numa porta; depois dei de cara em outra porta, felizmente estava apenas encostada e não me machuquei. Tentava digitar algo, quando o telefone tocou. Levantei-me para atender, fiquei tonto, rodopiei, cai. Caí debaixo da mesa do computador. Falei contorcendo-me de dor. Quem ligou? A Zita.

ALGUNS ACHADOS:

Os pássaros
Nem a cotovia nem o rouxinol me acordam às 6 em ponto. São bem-te-vis, pardais, andorinhas e outros que cantam e gritam. Descobri que acordam no pé de urucum e no abacateiro do quintal vizinho, e não que chegam para comer os frutos. Como é bom acordar com essa algazarra.

Fotofobia
Por paradoxal que possa parecer, o que mais tem me incomodado, quando começa a se abrir a cortina, é o sol. Ele me proíbe de regar o jardim.

Leitura
Ainda não leio livro ou jornais. Começo a ver televisão, mas bem pouco. Leio tudo à minha maneira, à maneira dos cegos: os outros sentidos ficam ótimos. Começo a ler com outros olhos o preconceito. Quem não conhece o popular: "Em terra de cego quem tem um olho é rei?" Essa é uma das piores manifestações de preconceito. Eu rebateria dizendo: Quem tem um olho é estrangeiro; é o principal suspeito; pode ser o ladrão de córnea ou o dono do espeto.

Estarei sendo ousado ao afirmar que cegueira não é doença, como mudez também não. São limitações superáveis. Visto assim, também seria preconceito chamar os cegos de deficientes visuais. Pode ser corretamente político, mas será que foi um cego que começou a se dizer deficiente visual? Deficiente visual são os que usam óculos e lentes de contato.

Solidão
Quer saber que gosto tem a solidão? pergunte a um cego. Para ele, o universo tem a dimensão do próximo obstáculo: pode ter milhões de quilômetros ou alguns metros quadrados de escuridão.

Querer entender um cego "à primeira vista" é o mesmo que tentar ler sem conhecer o alfabeto. É fácil para quem está em liberdade dizer a um presidiário que o corpo pode estar preso, mas a alma é livre. O mesmo é consolar um cego dizendo que ele pode enxergar com os olhos da alma. (até pode ser que seja, mas acho piegas esse tipo de chavão). Nesses casos um pouco de empatia ajuda. É bom evitar frases feitas para tentar consolar alguém. Se o que tem a dizer a que está chorando a perda de um ente querido é um formal "meus pêsames", melhor apenas entregar-se num forte abraço e silenciar.

Mijar sentado
Não apenas os cegos, mas por questão de higiene, todos os homens deveriam aprender desde cedo a fazer xixi sentados no vaso sanitário. Que me desculpem os míopes e os machões de plantão. Sentado, o jato não erra o alvo. Isto é um machismo tão arraigado, que muitas mulheres enxugam o mijo do marido e dos filhos sem reclamar, ao passo que ficariam chocadas se os surpreendessem sentados num vaso sanitário somente para urinar... a não ser que sejam cegos.

Amor e fantasias
Uma das coisas boas às escuras é o sexo. As fantasias afloram muito mais facilmente. O amor aumenta na proporção que diminui a visão. O companheirismo e a cumplicidade aparecem nas mínimas coisas: Laura transformou-se num gigante, pena que pegou pneumonia e eu não pude ajudá-la.

Astigmatismo
A lua cheia é um trevo maduro tremulando na noite. Quero-a drops de caramelo derretendo-se no céu do meu coração.

A lua bem que podia falar
O cego ouve música, o canto dos pássaros, sente o calor do sol, o coração a pulsar no beijo da pessoa amada. Como sentir o luar?

Os amigos
Uns aproximam-se, estendem a mão, outros fogem "pisando em plumas". Mal sabem que o sentido da audição no cego fica aguçadíssimo. Os amigos que restam e que nos oferecem o ombro agigantam-se.

Comunicação entre um cego e um surdo-mudo
Um gesticula, outro não vê. Um fala, outro não ouve. Sou eu e minha cunhada. O que dizer pra ela, se não a percebo acenando para mim?

Autor: Joilson Portocalvo
Entre 20 de junho e 2 de julho de 1999

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