POESIAS E CRÔNICAS

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O CAVALO FALANTE Era tudo que Julia queria na vida: um cavalo de corrida. Lindo, branco, com uma mancha preta em forma de cruz acima do focinho. Recém-nascido, ainda com dificuldade de se sustentar nas patinhas, o frágil potrinho procurava auxílio, sofregamente ajudado por sua nova amiga. Rapidamente foi se desenvolvendo e logo se tornou um cavalinho ágil e lindíssimo. Ao correr pelos pastos verdes, o branco de seu pelo era tão marcante que ao longe realçava como uma estrela ofuscante. Superava todos os obstáculos e Julia ficava cada vez mais encantada com seu novo amigo. Aos três anos, Julius já executava longos treinamentos diários que agradavam a todos, e, como não poderia deixar de ser, Julia ficava cada vez mais apaixonada por ele. Durante o jantar seus pais questionaram sua postura, bem diferente da normal, porém alegou estar com uma indisposição passageira e que logo estaria bem. Sonhou; sonhou que ia cavalgando até um lago azul que havia na fazenda e, entrando na água, ia afundando gradativamente até que já, desesperada, lutava para não se afogar. O sonho era repetitivo e virou um grande pesadelo. Ninguém, ninguém poderia saber, nem mesmo seus pais que só viam naquele potro um futuro ganhador de provas no Turf. Seria conveniente que tudo continuasse como estava. Certo dia foi informada, pelo seu pai, de que logo estariam comemorando o quinto aniversário de Julius e que o fato merecia um grande evento. Muitos amigos criadores e donos de Haras seriam convidados, pois ele pretendia transferir seu pupilo para um Haras mais avançado, ensejando que ele tivesse um treinamento mais intensivo a partir daquela data. Julia ficou gelada, porquanto tal assertiva poderia representar uma separação definitiva. Porém se conteve e nada comentou. Eis que o dia do aniversário chegou. Esperado por muitos e odiado por Julia, que já não vinha conseguindo dormir tranquilamente há algum tempo. Logo cedo foi ao estábulo e, sempre se certificando da privacidade de ambos, trocou mensagens carinhosas com seu amor e prometeu que, mesmo se ele fosse para outro haras, ela iria vê-lo seguidamente para que nada mudasse entre eles. Julius lançou um olhar profundo e quase derramando lágrimas fez um gesto de anuência, balançando positivamente a cabeça. O centro das atenções era Julius; um alazão de rara beleza, branco como neve, olhos azuis e portando uma capa prateada que enaltecia, ainda mais, seu brilho. Julia tinha vontade de falar com ele e quebrar definitivamente o encanto. Porém, de pé, em sua frente, fixava seus olhos que pareciam lhe transmitir confiança. Com a mão apoiada no seu dorso, segurando meigamente sua crina, seu pai, iniciou um discurso que comoveria a todos. Falou dos progressos que já se faziam notar nos treinamentos de Julius, da intenção de transferi-lo para outro haras, e de suas esperanças no futuro de tão belo animal. Falou de seus ascendentes e citou Ruffus, um autêntico campeão nacional. Uma grande dor no coração me obriga a tornar esta data, disse seu pai, triste, muito triste de se recordar. Exatamente há cinco anos atrás, quando nascia Julius, minha filha Julia, cavalgando Ruffus, foi para a Lagoa Azul, que todos conhecem aqui na fazenda e, ao retornar, sofreu um acidente que ceifou sua vida de forma estúpida e violenta. Jamais deixei de me culpar por ter permitido que ela, sozinha, fosse à lagoa. Justamente naquele dia, que eu tomava as providências para o parto de Julius, desviei a atenção que sempre dispensei a minha filha. Apenas o vazio em seus braços; repetiu o ato e nada, assim como o fez com sua mãe. Voltou a olhar para Julius e viu uma lágrima em seus olhos e, bem baixinho, ele lhe disse: Julia, eles não podem vê-la ou senti-la, mas eu posso e jamais deixarei de amá-la; meu pai Ruffus me deixou a incumbência de fazer com que você seja eternamente feliz, mesmo sabendo que ele não foi o culpado pelo acidente. Apenas uma fatalidade do destino, a mesma que nos uniu para sempre.
Autor: José Roberto Carneiro |
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