POESIAS E CRÔNICAS

LONGEVIDADE

Vivo neste mundo à mercê das horas, do tempo.
Busco algo que grita dentro de mim, mas não sei bem o que é.
Alhures, talvez, possa brandir meu estandarte de vigilante
e, como um nômade, desvencilhar-me dessa ansiedade
de querer ser o que não sou, pelo simples fato de não o ser.
O tempo devia desnudar-se das promessas que nos envolvem
para deixar de ser o azáfama que só nos confunde e deprime.
Devia deixar que a vida transcorresse como a água de um rio
E nos conduzisse, silente, ao reduto do cristalino almejar.
Quero sufragar-me a ele, para que ele sufrague a mim.
A cada passo que dou, descortina-se o enigma do que devo perquirir,
porque o efêmero se esvai como todo sonho ao despertar.
Busco o que me aflige e, a um tempo, me impulsiona mais e mais.
A ambiguidade do que se me apresenta, reveste-se de certeza,
por isso me apego nela e me reputo estar certo.
Eis a insólita viagem que me transporta a lugares inconsúteis
E me tece, em sua planificação, a longevidade de  um ideal.
Quero porque quero ser o que não sou, porque sempre tenho que ser alguma coisa,
e o que sou, já sou, não se cuida mais dele, o tempo o renega.
Preciso alvitrar a mim, cujo pensamento me estranha, que devo prosseguir.
A vida é um novelo de longuíssimas curvas e assimetrias.
Devo me convencer de que as nuanças da primavera que me acenam,
não são mero ilusionismo de um mundo repleto de promessas e incertezas.
Devo me convencer.
Não posso admitir ser fátua a raiz que me impregnou desde a infância,
ou os estigmas que me ficaram por afrontar o imprevisível, o incontrolável.
Quero porque quero ser mais do que sou, porque o que sou é como o tempo
estagnado, a impressão sem impacto.
Quanto tempo devo existir para ser o que quero ser?
Afinal, cada segundo de existência, vivido em sua plenitude, sua verdade
mais condizente com o deslindar da alma, não justificaria esse afã, esse
despojar-se no colo do caminho?
Quanto tempo devo viver para concretizar o que não sei como fazê-lo?
E, viver só por viver, é viver?
Mas, nessa longevidade de um ideal, sigo certo de que, possa realizá-lo,
ou não,
não há volta!

Autor: Luiz Carlos de Oliveira

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