VOVÔ AMA A VOVÓ

RELAÇÃO EXTRACONJUGAL

Quando se descobre que a cara metade não é a personificação daquilo que foi idealizado e que casamento não é posse, ao vê-la escapulir das normas, fica-se desestruturado, com uma triste sensação de fracasso.

Página criada em 17/01/2003

Quando acontece num casamento um relacionamento extraconjugal, as conseqüências podem ser encaradas de forma trágica, irreparável, imperdoável ou podem ser consideradas apenas como uma experiência nova, uma vontade de conhecer outros parceiros.

E, se o casal estiver liberto dos dogmas da fidelidade, da posse, da dependência recíproca, o casamento poderá sair mais sólido, quando se concluir que tudo não passou de uma aventura.

O risco que se corre com as "traições" é que numa dessas escapulidas pode-se encontrar uma afinidade maior, uma relação sexual mais prazerosa e, daí, partir pra separação.
Mas viver já se constitui num risco.

E a busca do sucesso de ser feliz, muitas vezes, nos obriga a enfrentar as probabilidades, mais ou menos previsíveis, de perda ou ganho, na hora da escolha, da decisão.

Aquele que ficou sozinho, e que se sentiu traído, pode, além da perda, sofrer o sentimento de menos valia; se sentir ruim de cama. Também pode acontecer de não sentir nada disso e de se julgar um injustiçado, e que o traidor é um ingrato, alguém que não mereceu "tudo que fiz e que fui" ...

Todo o processo da descoberta do caso amoroso extraconjugal é doloroso e difícil de ser digerido. Mas, nada é pior do que se acomodar e sofrer o martírio da convivência forçada, por motivos de ordem moral, financeira ou por medo de enfrentar o novo: viver só, perder o elo, a posse, o status etc.

Trazemos de herança cultural a idéia do casamento limitado a regras estabelecidas, onde a liberdade de cada um é cerceada. E as regras são mais rígidas e definitivas na área sexual.

Decretou-se que só se pode amar uma única pessoa, por toda a vida conjugal, e que só com ela, durante anos e anos, o sexo será praticado, sob pena de tudo se acabar, caso seja descoberta a "traição".

Mas é difícil quem possa negar que, por mais sólidas e rígidas que sejam sua educação e até mesmo a religião, que nunca se tenha sentido um certo interesse, curiosidade ou até atração por outro alguém com características interessantes, diferentes daquelas da rotina do lar.

Devemos reconhecer que, depois da liberdade sexual, depois de tantas mudanças comportamentais, onde homens e mulheres saem pra trabalhar, viajam sozinhos e que ambos dividem direitos e deveres, ficou custoso, improvável cumprir as regras da exclusividade sexual.

Esta revolução emocional e ao mesmo tempo social está trazendo muita infelicidade aos casamentos.

Quando se descobre que a cara metade não é a personificação daquilo que foi idealizado e que, casamento não é posse, ao vê-la escapulir das normas fica-se desestruturado, com uma triste sensação de fracasso.

E jogamos toda a culpa no outro, como se fosse possível alguém cair do céu moldado, conforme as expectativas criadas isoladamente, sem que a outra parte pudesse vislumbrar o valor que lhe estava sendo imposto para o sucesso daquele casamento.

A maioria dos relacionamentos se faz muito mais por necessidade (porque já está na hora de sossegar, de constituir família etc.), do que pela atração de conviver, de dividir os prazeres da vida a dois.

E depois de unidos pelos laços das tradições, começam as exigências e as cobranças do "só vou se você for"... Não se admite que um sinta prazer em sair sem o outro.

A carência afetiva, a baixa-estima e a lenda se encarregam de estabelecer que quem ama tem que viver colado ao seu amor. O medo de ficar sozinho é tão grande que muitos casais aceitam este tipo de repressão.

Casais mais amadurecidos até conseguem uma convivência mais liberal. Mas na grande maioria, sempre tem um que sofre quando a pessoa amada acata a liberdade de buscar seu lazer individual.

No fundo, o que ambos desejam é ser a única fonte de prazer, é ser indispensáveis. O seu par não pode achar graça em qualquer programa que o outro não participe!

É comum um jogar na cara do outro que deixou de ir a tal festa porque não podia levar seu par. E não estão mentindo! Muitas pessoas sacrificam a própria liberdade para cobrar a liberdade do parceiro.

A insegurança afetiva os leva a agir assim por ciúme, que é o medo de serem trocados por outra pessoa. Quando se abdica da liberdade, a pessoa fica mais vulnerável ao sentimento de abandono e solidão, caso haja uma infidelidade seguida de separação.

MUDANÇA DE CONCEITO

O ato de trair não é recente. Antigamente, todo mundo sabia e fingia que não sabia. Tapava-se o sol com a peneira.

A sociedade perdoava a traição dos homens e estes traíam as respeitáveis esposas com as suas melhores amigas, que também nunca deixaram de ser respeitáveis até que fossem descobertas pelo cônjuge traído, que também traía...

Contudo, com o avanço da tecnologia, pode-se descobrir o "infrator" e comprovar seu "crime" com mais facilidade. Daí, tantos casos de traição aparecendo como se fosse uma epidemia.

Nossa geração modificou a maioria dos hábitos e derrubou uma montanha de tabus. Pois deveríamos ensinar às crianças e aos jovens o que o Velho Poeta, Vinícius de Moraes, já nos ensinava há tantos anos: "...que o amor não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure...". E que quando uma relação amorosa acaba, não significa que alguém seja culpado pelo fracasso.

Ainda é um tabu, uma aberração, aceitar que um casamento possa ser feliz, duradouro, mesmo que uma das partes ou ambas descubram um amor fora do casamento.

Não estou fazendo apologia do romance moderninho em que os casais "ficam" e isso quer dizer que um dia "fica" com uma pessoa, e no outro já "fica" com novo par. Tem gente até mais "conservadora" que fica mais um tempinho, um mês, um ano...

Também não estou louvando a vulgarização do sexo, nem muito menos desvalorizando a família bem constituída: pai, mãe e filhos! Eu falei bem constituída, o que implica em harmonia, felicidade conjugal e não arrocho conjugal.

Também não estou sugerindo que a mulher volte aos tempos de nossas mães e avós que eram "conformadas" e aceitavam a infidelidade, desde que o marido lhes desse de um tudo e que comparecesse em sua "alcova", todos os sábados, para cumprir sua função de marido.

Também é claro que não estou propondo que o homem se torne um "corno manso". Nada disso pode trazer felicidade conjugal, porque o respeito por si próprios foi violado.
A mudança de crença, a mudança de julgamento tem que ser profunda, consciente, verdadeira.

O que estou sugerindo é que a realidade seja enfrentada! Que não se coloque uma cortina de proteção pra não enxergar o óbvio e, depois, sofrer como um condenado inocente, que nunca poderia imaginar "tamanha punhalada pelas costas!"

A pessoa que se sente traída, ao decidir modificar suas antigas convicções de amor e fidelidade, deverá estar esvaziada de todos os resquícios das velhas doutrinas e hábitos adquiridos e partir pra uma nova maneira de viver, sem ficar remoendo, cobrando ou fazendo chantagem sentimental.

É mais fácil encontrarmos a felicidade se tivermos equilíbrio pra saber escolher o nosso rumo, sem nos fazermos de surdos aos gritos das nossas dores e dos nossos desejos.

Vale a pena recordar o Poeta Vinícius numa de suas mais belas composições, onde a jura de amor eterno e a fossa eram a tônica dos relacionamentos.
( Reparem como era sofrido o amor! Quanto desespero! Quanta dependência!) É um poema de extrema beleza e profundo romantismo. Mas foi o próprio Vinícius que colocou o soneto no meio de sua canção.

Maria de Lourdes Micaldas
Revisão: Anna Eliza Führich

VAMOS CANTAR JUNTOS:


Eu Sei que Vou te Amar.
(Vinícius de Morais/ Tom Jobim)

Eu sei que vou te amar,
Por toda a minha vida, eu vou te amar,
A cada despedida, eu vou te amar,
Desesperadamente, eu sei que vou te amar.

E cada verso meu será
Pra te dizer, que eu sei que vou te amar,
Por toda a minha vida.

Eu sei que vou chorar,
A cada ausência tua eu vou chorar,
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa ausência tua me causou.

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu,
Por toda a minha vida.

Soneto de Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu,
Por toda a minha vida.

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