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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

DA LAMA AO CAOS
publicado em: 19/05/2017 por: Lou Micaldas

A Polícia Federal, quando põe o despertador pra tocar, deixa os carecas do Congresso de cabelo em pé
É, estamos na era do caranguejo, andar pra trás é a meta, a regra, a nova velha onda. (Re)lutando lutas que já tínhamos vencido. Reafirmando o que já estava há muito firmado e sacramentado. Comecei a escrever este texto vendo as notícias sobre a parada gay do Rio, um lugar conquistado, importante. Um dia de lembrar com orgulho quem somos, a importância de sermos livres e termos direito à dignidade sempre.
 
Um dia que teoricamente seria de união, solidariedade. Um dia para todos, que acontece há 21 anos. Quem não quer participar, vai fazer outra coisa. Vai pra igreja, pro cinema, pra outra praia. Mas parece que não há prece que ocupe o tempo de certas pessoas de maneira mais condizente com seus argumentos do que atazanar a vida e a orientação dos outros. Será um tipo de curiosidade inquietante? Ou um gosto irresistível apenas pela repressão, pelo sofrimento alheio? Um sadismo como religião? O prazer da fé não satisfaz? Tem que espezinhar o próximo como a ti mesmo? Se não houvesse gays no mundo, além de tantos atrasos e tons de cinza, o que seria dos carros-chefes da maioria dos fascistas religiosos? Lutar pela família, como cantam em verso e prosa, deveria ser lutar pela honestidade, não? As mulheres seriam então as únicas oprimidas?
 
Em meio a esses pensamentos e a essas constatações, chuva de microfones e a bomba Temer-Aécio-Cunha (ainda e sempre e ainda falta), detonada pelo empresário que se mandou pra Nova York Joesley Batista. É de dar nós em quem tenta entender o caminho de rato que é a vida de políticos no Brasil. Aécio, o menino inconformado por perder as eleições diante de tanta corrupção, pediu e foi gravado ao pedir dinheiro sujo, para se defender por ter se apropriado de dinheiro sujo. Nada menos que dois milhões de reais, só pra pagar advogados. Foi o que entendi. Sujeira com sujeira se paga, nesse mundo empresários-políticos. Me parece que por nem tanto o tal Delcídio foi parar, e tinha mais é que ir, no xilindró, certo?
A Polícia Federal, quando põe o despertador pra tocar, deixa os carecas do Congresso de cabelo em pé! Hoje cedo já estavam na fazenda, em Copacabana e em Belo Horizonte, atrás de qualquer coisa que ajude na investigação. A irmã, Andrea Neves, que esteve pelas redes chorando, falando em inocência com indignação, já foi também citada de novo, por estabelecer os primeiros contatos para o mano. Precisou tratar da ajudinha pra contratar aquele que seria o criminalista que o defenderia, Alberto Toron.
 
Estamos pra ver, em tempos de hospedagens em presídios, uma profissão mais promissora do que essa! Este, provavelmente já devidamente contratado. Mas a maior preocupação, segundo consta na gravação revelada pelo empresário, não é levantar a módica quantia, mas decidir quem carrega a mala sem alça cheia de dinheiro, pois tem que ser assim, em espécie. É assim que essa espécie de gente trabalha, com dinheiro vivo se fazendo de morto. Na gravação, Aécio Neves vomita sua pérola, perdoem os de estômago mais fraco: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação. Vai ser o Fred com um cara seu. Vamos combinar o Fred com um cara seu porque ele sai de lá e vai no cara. E você vai me dar uma ajuda do caralho”, respondeu Aécio.
 
Meu avô tinha uma frase terrível, “primos e pombos sujam as casas”, se referindo às primeiras experiências dos primos e primas adolescentes em casa. Hoje me soa tão ingênuo. Mal sabia ele, que na família de Aécio, primos carregam malas de dinheiro e são descartados com muita facilidade após fazerem o serviço! Prefiro ainda pensar que, quando o mineiro Aécio, eminente presidente do PSDB, diz “um cara que a gente mata”, seja uma metáfora qualquer sinistra, cujo significado desconheço. Ou ingenuidade é coisa de família?
 
No meu bairro reinou o silêncio. Abri a janela pra gritar e gritei pra dentro, não por medo de nada, mas comecei a procurar outros gritos e vi muita gente falando e pensando junto. Precisamos disso e precisamos das ruas, elas são historicamente nossas. Fiquei ainda mais indignada porque ainda anteontem, quarta de noite, o país em choque, a polícia já usava gás de pimenta nas pessoas que gritavam em frente ao Palácio do Planalto. Mas o que mais as pessoas, nós, podemos fazer num momento desses, senão mostrar que tá doendo, que não somos tão idiotas assim? Gente, tá tudo ardendo, larguem nossos olhos, eles precisam ver. Estamos tontos, caímos do caminhão de mudança sem rumo, sem casa, sem ter pra onde voltar. É como me sinto como cidadã, sem pai nem mãe. Sem eira nem beira, nosso oxigênio é puro gás lacrimogênio! O Brasil golpeado, ainda caído no chão, levanta o rosto e leva um chute na cara.

Autor(a): Zélia Duncan
Fonte: Jornal O Globo

 

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