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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

ARTHUR DAPIEVE
publicado em: 30/12/2016 por: Lou Micaldas

 
Governo do estado “não compreende a dimensão do Municipal”
RIO — Aos 108 anos incompletos, o Teatro Municipal é sobrevivente da época em que a França era a referência cultural da capital da República. O prefeito Pereira Passos desmantelou cortiços e abriu a Rio Branco inspirado na reforma do Barão Haussmann em Paris. Para o Municipal, os projetos arquitetônicos vitoriosos em concurso propunham, ambos, versões reduzidas da Ópera Garnier, também em Paris. Foram fundidos. Um era do francês Albert Guilbert, outro teria sido do filho do prefeito, Francisco de Oliveira Passos. A ideia de um palco de qualidade para o Rio, porém, nascera antes, pela pena do dramaturgo Artur Azevedo, que, pelos jornais, clamava por uma academia teatral nos moldes da Comédie-Française. Na capital francesa, é claro.

Fora isso, o Municipal nunca, nem nos melhores momentos, contou com o vigor do apoio estatal à cultura que se vê na França, sendo muitas vezes submetido à política de ocasião. Foi o caso da demissão do presidente João Guilherme Ripper, apenas para abrir espaço ao ator e peemedebista histórico Milton Gonçalves. Este, prudentemente, desistiu da ideia de administrar o teatro no quadro de um estado falido. Estado que, aliás, hoje não compreende a dimensão do Municipal. Na demissão de Ripper, o secretário de Cultura, André Lazaroni, que acabou acumulando a presidência da instituição, justificou-se com o tolo clichê da “popularização”. No preço ou na programação? E, se for este o caso, para que concorrer com os palcos comerciais?

Ao submeter funcionários à indignidade dos salários atrasados e frequentadores à inatividade parcial da sua casa, o mesmo estado que desdenha do Municipal promove, involuntariamente, um espetáculo tocante como o que ontem foi visto nas escadarias da Cinelândia. Arte de qualidade, atemporal, para o povo reunido em praça pública. Não há cidade no mundo que possa abrir mão de um teatro com a história do Municipal, história pela qual passaram, entre tantos outros, Villa-Lobos, Stravinsky, Bidu Sayão, Maria Callas e Vaslav Nijinski. A não ser se quiser sapatear na própria autoestima.
 
 
Nossos políticos são quase todos farinha do mesmo saco. Ou melhor, cimento do mesmo saco
Era uma manhã como esta, final de ano, há mais de três décadas. Também fazia calor, embora muito menos do que faz hoje.
Estávamos uns oito ou nove espremidos à sombra da Barraca do Baixinho, bebendo cerveja para comemorar a chegada de um Ano Novo qualquer. Ao sol, grupos de umbandistas já organizavam a homenagem a Iemanjá. A horas tantas, bêbado da pieguice comum a todos os finais de ano, um de nós propôs um brinde: “Aos amigos! Porque as mulheres passam, e os amigos ficam!”

Era bravata de machos jovens. Se três ali tivessem namoradas fixas seria muito. A maior parte de nós apenas via o mulherio passar mesmo. Não tínhamos como saber que amigos também passam. Eles mudam, eles se mudam, nós mudamos, nós nos mudamos. Hoje, ainda encontro dois parceiros da turma de praia e troco e-mails com outro, que mora em Salvador. Mas era genuíno o desejo de que continuássemos sendo amigos, independentemente do que nos acontecesse na vida.

Olho para 2016 e penso naqueles jovens suarentos de Copacabana. Talvez nada de tão ruim tenha acontecido ao Brasil neste ano quanto o fim de longas amizades devido à polarização. A crise econômica irá arrefecer cedo ou tarde (tarde). A falta de confiança nas instituições políticas também vai decrescer cedo ou tarde (mais tarde). Não se sabe, porém, se as pessoas que cortaram relações e bloquearam amigos no Facebook só por eles terem opiniões diferentes das suas um dia voltarão a se falar.

Acho triste. Não porque eu conserve a crença pueril na eternidade das amizades. Há inúmeras razões para que amigos se afastem, inclusive razão nenhuma, mas não por causa de política. Não vale a pena. O sujeito que votou na Dilma rompe com o sujeito que votou no Aécio. Ou vice-versa. Aí, numa pausa do impeachment no Senado, um fotógrafo registra Dilma, Aécio e José Eduardo Cardozo rindo juntos. Passa-se um tempo e outra foto mostra Aécio e Sérgio Moro às gargalhadas. Como ri o Aécio!

Para quem se lembrava dos embates entre Lula e Collor e depois testemunhou Lula e Collor aliados, não existe opção senão o ceticismo diante das coreografias do poder. Inimigos figadais nos trabalhos da tarde, amigos de infância nos trabalhos da noite. Quiçá seja do jogo, aquele papo de a política ser igual às nuvens no céu, uma hora você olha e elas estão assim, outra hora você olha e elas estão assado. Então, por que comprometer boas amizades por causa dos princípios de quem não os tem?

A própria ideia de que há uma polarização no Brasil me parece meio furada. Entre os eleitores, certamente. Entre os políticos, definitivamente não. Pegue-se, por exemplo, a ideia de um golpe em 2016. Primeiro, ela é incorreta. Pode-se chamar o que houve de rasteira, traição, sacanagem ou até de putaria, mas não de golpe. A lei foi seguida, ninguém se viu calado ou preso, Dilma não perdeu os direitos políticos (a única coisa inconstitucional no rito). Segundo, não é só ao PT que a palavra golpe serve de cortina de fumaça para os crimes fiscais que ajudaram a ferrar a economia do país. Ela também ajuda bastante o PMDB, porque insinua uma oposição sua que nunca existiu ao vilipendiado PT. O que houve foi uma luta pelo poder dentro do Consórcio Brasília. Os acordos da Odebrecht fornecerão fartas evidências complementares de que os nossos políticos são quase todos farinha do mesmo saco. Ou melhor, cimento do mesmo saco.

Pegue-se Renan Calheiros. Fez parte da tropa de choque de Collor, foi ministro da Justiça de Fernando Henrique, chapa de Lula, aliado de Dilma até o último minuto. Na hora em que ele encarou o Supremo, intercederam a seu favor Temer, FH e Sarney, e o Supremo piscou. Embora almeje uma independência constitucional, o tribunal está sujeito aos humores políticos de cada um de seus membros. No entanto, não conheço ninguém que tenha rompido com ninguém por causa de Gilmar Mendes ou Dias Toffoli.

Houve amigos brigando não só porque apoiavam ou esta ou aquela facção como patrulhando os que se recusavam a apoiar qualquer facção. Movida pela indignação seletiva, a caça ao “isentão” soava agressiva, mas era apenas ingênua ao aceitar a ideia de um conflito essencial dentro da classe política. Há quem seja progressista e há quem seja conservador, ótimo, é a democracia. Contudo, a volúpia pelo poder faz com que os eleitores engulam uma gororoba amorfa. Vide a chapa PT-PMDB. Ou PSDB-DEM. O objetivo primordial da política se torna continuar fazendo política. Fenômenos variados — de Trump a João Dória, do Brexit ao Podemos — sinalizam a atual ojeriza ao “sistema”. O que, claro, configura outra forma de política, não necessariamente melhor.

Por isso, minha porção Pollyanna (dois centímetros, em repouso) deseja que grupos de adultos suarentos reunidos na nossa grande praia metafórica assim brindem a 2017: “Aos amigos! Porque os políticos passam, e os amigos ficam!”

Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/musica/artigo-nao-ha-cidade-no-mundo-que-possa-abrir-mao-de-um-teatro-com-tal-historia-21317687

 

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